domingo, 16 de junho de 2013

Eternas lições de palmo e meio


Já a manhã ia avançada quando a versão musicada por Paco Bandeira do inesquecível poema de Fernando Pessoa atravessou o infinito da sala: “No plaino abandonado//Que a morna brisa aquece//De balas trespassado//Duas de lado a lado//Jaz morto e arrefece”. E estrofe a estrofe o silêncio crescia dentro de nós.

            Esgotada a canção, regressou-se a cada verso, um a um. Bebemos então cada palavra, cada letra, como quem alcança água em pleno deserto. E na cabeça da menina, tão grande por fora e tão pequenina por dentro, começou a construir-se uma imagem. Uma história talvez até mais concreta do que esta caneta que agora seguro entre os dedos.

            E a menina viu, mesmo à sua frente, uma planície quase deserta, onde talvez ainda pairasse no ar o cheiro da destruição que apenas as armas podem deixar. Um jovem deitado no chão, com uma cigarreira ao lado e um lenço branco no bolso, a esvoaçar interminavelmente. A farda raiada pelo sangue. O olhar vazio. Silêncio. Dor indizível. E uma insuportável sensação de não haver tempo: “Tão jovem, que jovem era//Agora que idade tem”.

            Lá longe, uma mãe que reza pelo seu menino, o seu único filho, estupidamente mobilizado pelos homens de gabinete, para matar ou deixar-se matar. Na cozinha ou na sala – quem nos pode impedir de imaginá-lo? – talvez uma “criada velha” que chora, sempre que pensa naquele lenço branco que um dia deu ao menino que ajudou a tornar homem. E, minuto após minuto, uma flor crescia no olhar daquela menina, de quem tantos diziam (dizem) não ter emoções, por ser autista.

            Verso a verso, palavra a palavra, letra a letra, eis-nos chegados à antepenúltima estrofe do poeta dos heterónimos. Então, a menina perguntou:

            “– A mãe queria muito que o filho voltasse, não queria?”.

            “– Queria! Nem podes imaginar como ela sonhava…”.

            Mas as lágrimas não me deixaram concluir a resposta. Num ápice, atracámos na última estrofe; a meta tão aguardada por aquele olhar misterioso que teimava em perscrutar-me por dentro, como se houvesse um segredo para lá da minha própria consciência, um segredo que eu próprio nunca conhecera. Então, com os olhos entrelaçados, percorremos com os dedos as últimas palavras: “Lá longe em casa há a prece//Que volte cedo e bem//Malhas que o império tece//Jaz morto e apodrece//O menino de sua mãe”. E mesmo a meu lado a pergunta voltou a ecoar:

            “– O menino nunca voltou para a mãe?”.

            “– Pois não. Nunca, nunca mais voltou. E todos os dias existem meninos que voltam a partir, para nunca mais regressar…”.

            E eu vi – posso jurar que vi – o olhar daquela menina transformar-se num oceano, onde o tempo e as civilizações se confundem. A escassos centímetros do meu olhar, uma lágrima, da cor de cristal, escorreu-lhe ternamente pela face. E todo o sentido da vida se condensou naquele momento.

            Lá longe, não consigo dizer muito bem onde, talvez Fernando Pessoa tenha sentido o poder das palavras que nos deixou. Aquele poema, autêntica chave para abrir corações, destruiu a poderosa armadura do autismo e foi alojar-se no local mais profundo da consciência humana. E quiçá Pessoa tenha sorrido, perante o incrível poder das palavras, perante o revolucionário poder da poesia.

            Alguém escreveu um dia, penso ter sido Günter Grass, que depois de Auschwitz não poderia haver mais poesia. Pelo contrário, eu cada dia acredito com maior convicção que depois de Auschwitz – e de tudo o resto… – talvez só a poesia (ou a arte, de um modo mais geral) ainda nos pode salvar. Sensibilidade – ferida para a compreensão das diferenças e motor de todas as mudanças… [As feridas//Portas abertas//Rumo ao vazio//Do nosso silêncio. //Quando lá tocamos//É que nos arrepiamos//E lavamos//Com as lágrimas que libertamos…].

             A alguns minutos daquele episódio, chegou outro menino. Vinha cansado de tanto correr, ávido de ser ouvido. E falou-me da sua ida à igreja. Segredou-me que gostava de estar na casa de Deus, onde ia com a “senhora” da instituição onde vivia. Quando lhe perguntei se rezava, confessou-me nem saber em que pensava quando lá estava. E eu voltei imediatamente à carga:

            “– Então, o que sentes?”.

            “– Sinto uma mão na cabeça, a proteger-me”.

            Tantos anos depois dos episódios aqui descritos, imbuído pelo vazio próprio do fim do ano lectivo, dou por mim aqui sentado, nesta sala com vista para o infinito do mar. E surpreendo-me a pensar que nenhum menino de 10 anos deveria conhecer o sabor de tamanha solidão para necessitar desta mão, imaginária ou não…

            [O modo como lidamos//Com a diferença//Revela o que somos//Para lá do que a vista alcança. //Abençoados aqueles que ouvem as estrelas//Pois, nem todos podem ainda vê-las. //Talvez um dia, talvez um dia//Quando houver sabedoria…].

                                                                                  Renato Nunes

“Alcança quem não cansa”


            27 de Maio de 1963, meio-dia e trinta: falecia, no Hospital da CUF, de Lisboa, Aquilino Ribeiro, depois de 50 anos de intenso labor literário, que lhe permitiram revelar à luz do dia cerca de 70 livros, 17 dos quais romances. E, importa sublinhá-lo, falamos de um autor cujas publicações rondam uma média de 200 páginas por volume! Ademais, poderíamos mencionar as incursões histórico-biográficas feitas pelo escritor, os artigos de investigação literária, as memórias, as crónicas, os textos publicados em jornais, entre outros trabalhos que a própria investigação ainda vai resgatando do desconhecimento público.

            Ora, no ano em que também se completam os 100 anos da sua estreia literária (1913, Jardim das Tormentas) não resistimos à tentação de deixar aqui algumas reflexões sobre o notável romancista beirão, que foi, diga-se desde já, um dos poucos autores nacionais a dedicar-se, praticamente ao longo de toda a vida, em regime de exclusividade às letras.

            Nascido na freguesia do Carregal, concelho de Sernancelhe, no dia 13 de Setembro de 1885, quando reinava em Portugal D. Luís I, Aquilino Ribeiro viveu num período de encruzilhadas: Monarquia, I República, Ditadura Militar e Estado Novo. Filho de um sacerdote, ingressou no Seminário de Beja, foi expulso, rumou para Lisboa, sentiu-se atraído pelos ideais republicanos e, inclusivamente, tomou contacto com os regicidas (na obra Dossier Regicídio o Processo Desaparecido, o professor de Filosofia Política da Universidade Católica Mendo Castro Henriques acusa o autor beirão de ser um dos regicidas, embora, segundo a nossa perspectiva, nunca apresente factos contundentes sobre essa ilação, sustentada apenas em indícios, que apesar de constituírem uma importante base para futuras investigações não encerram definitivamente o problema). Preso durante a Monarquia, detido durante a Ditadura Militar, evadiu-se por duas vezes dos calabouços e lutou, de armas nas mãos, pelo restabelecimento da República.

            Já durante o Estado Novo (1933-1974), Aquilino Ribeiro, pese embora o facto de ter sido durante vários anos um dos (poucos) autores “intocáveis” e inclusivamente elogiado pelo próprio António de Oliveira Salazar, viu, por exemplo, ser-lhe instaurado, em 1959, um processo-crime devido à publicação do seu romance Quando os Lobos Uivam, que, entretanto, foi proibido e retirado dos escaparates.

            Aquilino cultivou, como poucos, o ideal humanista de conhecimento. Toda a sua obra transpira, afinal, o amor que o autor do romance Terras do Demo (1919) tinha pela vida, nas suas mais variadas e ínfimas formas. Por isso, deu voz aos animais como dificilmente encontraremos paralelo na história da literatura nacional. O paradigmático Romance da Raposa (editado em 1924) e alguns contos da Arca de Noé – III Classe (1936) bem mereciam figurar na lista de textos estudados nas Escolas…

            Atento como poucos aos pormenores, bebeu na Natureza grande parte da sua inspiração. O contacto com os clássicos, o estudo afincado do latim, desde os seus tempos dos “Preparatórios” e do Seminário, as vivências na Beira, as suas deambulações pela capital do início do século XX, que então fervilhava em ideais revolucionários, bem como, inquestionavelmente, a sua experiência de exilado político em Paris (ainda que de um modo intermitente, entre 1908 e 1931 Aquilino esteve exilado por três vezes na capital francesa) constituem factores determinantes para compreender o (invulgar) domínio que o “Mestre” (como foi frequentemente apelidado) revelava da língua materna.

            Aquilino: um homem que viveu numa época de encruzilhadas, mas também, conclusão da nossa responsabilidade, um homem de charneira, que nos permite perceber que, se é bem verdade que as épocas históricas são atravessadas por rupturas, não é menos verdade que também podemos detectar continuidades... Pese embora o facto de continuar a ser um autor pouco lido ou estudado (a começar nos bancos das Escolas ou das Universidades), Aquilino revela-se fundamental para compreender uma parte significativa da nossa História recente e, por conseguinte, o nosso próprio presente…            

            Numa carta enviada a Vitorino Nemésio, com a data de 25 de Abril de 1930, portanto quando decorria o seu III exílio, o “Mestre” desabafa, em tom de presságio: “A verdade é que cada vez me convenço mais que isso não é uma pátria, mas uma tripa. Com mágoa o penso e digo. Há uma coisa que me enternece aí: a natureza e o camponês. No fundo, não fazem mais que um: terra. Os poetas, os políticos, os literatos, na maioria, que detestável cambada! […] Não auguro nada do futuro de Portugal e do final desta tragicomédia”. (Cf. Jorge Reis – Aquilino em Paris. 1.ª edição, Lisboa, Veja, 1988, p. 112).

            Numa época em que, à semelhança do passado, vemos os nossos jovens (quase sempre os melhores…) forçados a abandonar o país, também por motivos políticos (a incompetência política de uma parte significativa daqueles que nos governaram – governam – tinha de conduzir, necessariamente, a este país sem futuro), pensamos que valerá a pena regressar à obra aquiliniana. Além de constituir um tratamento profiláctico contra a arrogância, será, por certo, um dos primeiros passos para começar a valorizar o conteúdo, em detrimento da forma (uma batalha tão cara ao Neo-
-Realismo…).

            Não imaginamos, de resto, outra solução para os nossos problemas, além de mais trabalho, rigor e competência. Um caminho que Aquilino perseguiu e eternizou na célebre máxima: “Alcança quem não cansa”. Estaremos nós, verdadeiramente, predispostos a persegui-la?

Renato Nunes

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Fernando Pessoa

Quando estava a organizar uns livros que já tinha lido e queria doar à biblioteca municipal de Oliveira, dei com um boletim cultural da Fundação Calouste Gulbenkian dos idos inícios dos anos 90 do século passado. O Titulo do boletim é "O Homem Português". Abri à sorte num artigo que se intitulava Portugueses: Heróis Adiados e comecei a ler: "Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é sem duvida o seu excesso de disciplina. Somos um povo disciplinado por excelência.(...) Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando por milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria, de ter um gesto , um pensamento, ou um sentimento dependente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção à critica.(...) Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma "revolução" foi para implantar uma coisa igual ao que já estava." Tendo em conta as ideias tão próximas do que acontece nos dias de hoje esperei quando virei a página ver o nome de um autor recente, qual não é o meu espanto quando vejo que esta dissertação foi escrita por FERNANDO PESSOA. A génese do povo português não muda apesar do tempo.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A Greve docente aos exames

Numa conversa que mantive no passado mês de Abril, com um colega professor, ele disse que a forma mais visível para que os professores fizessem pressão sobre o governo seria fazer greve aos exames, pois isso poria em causa o futuro dos alunos e a sua entrada no ensino superior. Revolta-me aperceber-me que ele tem toda a razão, pois agora apercebemo-nos do medo dos nosso governantes, que a situação... por mim anteriormente descrita se concretize. Revolta-me e entristece-me principalmente, pois na minha opinião a preocupação do governo com os professores devia ocorrer durante todo o ano, dando-lhe condições para que os alunos estejam o mais bem preparados possíveis. Infelizmente não é isso que tem acontecido, com o aumento do número de aluno por turmas, os mega agrupamentos e o constante medo da mobilidade, os professores sentem-se inseguros e sem as melhores condições para o desempenho das suas funções e dar aos alunos tudo o que eles merecem. Infelizmente o nosso governo, só se lembra dos professores quando a sua imagem é colocada em causa no exterior. Pois seria uma vergonha para o país os alunos não poderem fazer os exames de acesso à universidade.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A passagem do ano

Estamos prestes a entrar em mais um ano, passar do dia 31 de dezembro para o dia 1 de janeiro. Umas transição festiva que onde se auguram coisas boas e desejos positivos para o ano que se avizinha. Há várias formas de viver estes dias, em casa na companhia da lareira, de amigos ou familiares ou ar livre com garrafa de champanhe em punho e as passas no bolso prestes a serem contadas e retiradas quando soam as doze badaladas e começa um novo ano.
O articular de pensamentos e ideias nesta transição esvoaçam entre trabalho e saúde, para nós e para os que que nos estão mais próximos. A linearidade das ideias transvassam na importância da sua realização para que possamos entrar com o pé direito e de forma positiva no ano novo.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sensações estranhas

O prazer da escrita é-me algo intrínseco que eu não consigo descrever, funciono muito por impulsos e motivações. Lamento não ter consigo manter a regularidade na edição de textos, tendo decorrido um interregno de cerca de duas semanas.
 
Nos últimos tempos tenho convivido com sensações estranhas que eu muitas vezes não consigo descrever ou perceber. Há poucos dias tivemos a visita da chanceler alemã que veio averiguar o estado da nação portuguesa. A História diz-nos que algures em séculos passados houve países que foram colonizados hoje não se impregna o mesmo termo no entanto as consequências são similares. Vivemos numa sociedade que está a ferver. Pergunto quando será que irá explodir? Será que isso vai acontecer? As consequências são boas ou más?

As sensações estranhas que eu tenho convivido prendem-se com o estado do meu país mas também devido às convivências com uma sociedade que não olha para o lado, cansada e focada apenas no trabalho, ou quando não o têm nas preocupações do desemprego. Refiro-me ao cansaço, quando vejo pessoas a trabalhar desalmadamente, com objetivo de ganhar um mísero ordenado que em nada recompensa o valor das tarefas desempenhadas.

Com a crise as pessoas perderam esperança e deixaram de ter objetivos a longo prazo pensando apenas no dia de amanhã, focando-se apenas nos planos a curto prazo. O risco de perder o emprego retrai e induz as pessoas ao silêncio engolindo muitas injustiças. Todas estas contingências são aproveitadas pelo Estado Português e capitalista que reina na Europa e no Mundo.

Eu induzido num ritmo louco de trabalho vejo-me por vezes com receio de onde eu irei parar. É alucinante o ritmo de trabalho no ensino privado. Nota-se diariamente uma competitividade latente e eu dou por mim naturalmente a ter que ir aos meus limites.
Questiono até quando aguentarão os portugueses os sacrifícios que estão a ser sujeitos

A neurociência ao serviço da aprendizagem

Poucos conseguirão ficar indiferentes quando se fala em cérebro. Aliás, os vários crânios “trepanados” ainda no período da Pré-História, encontrados, por exemplo, em múltiplos locais da Europa, parecem constituir um indício de que o interesse do Homem pela compreensão do cérebro (leia-se, pela compreensão do “eu” mais profundo…) o acompanha desde as suas mais recônditas origens.
            Ao longo das últimas décadas têm sido verdadeiramente surpreendentes os avanços verificados neste domínio, destacando-se os trabalhos de vários neurologistas, como sejam, apenas a título meramente exemplificativo, António Damásio ou a sua esposa Hanna Damásio.
            As implicações dessas recém-descobertas começam agora a chegar, paulatinamente, ao domínio da Educação. De um modo simplificado, imagine-
-se o alcance de conclusões deste género: a consciência começa por ser um sentimento; as emoções desempenham um papel fundamental no processo de tomada de decisões e na própria regulação homeostática; o “cérebro” não cristaliza e à medida que aprendemos ele parece reajustar-se. Outras duas conclusões de um estudo dinamizado pelo português Paulo Ventura, em articulação com investigadores internacionais, seguem nesta mesma linha: “Aprender a ler, mesmo na idade adulta, é uma experiência tão importante para o cérebro que este concentra todas as suas forças neste acto e muda para conseguir realizar esta actividade. […] O que acontece é que quando se aprende a ler existe uma reciclagem neuronal: o cérebro aproveita as áreas que realizam funções semelhantes à leitura para poder ler” (Cf. http://brissoslino.wordpress.com/2010/11/12/aprender-a-ler-muda-o-cerebro/). Consequentemente, um estímulo a valer e quase tudo pode acontecer…
            É na linha do que temos vindo a escrever que a neurociência, aqui entendida enquanto estudo científico do cérebro e do sistema nervoso, pode desempenhar um papel importante, sendo a este propósito inevitável falar da mais recente obra do investigador Rafael Silva Pereira – Programa de Neurociência: Intervenção em Leitura e Escrita. Se existem mesmo livros que não temos o direito de guardar só para nós, este é, em nosso entender, um deles. E é, afinal, este desejo de partilha que motiva este breve artigo.
            A referida obra, que complementa o anterior Programa de Intervenção e Reeducação em Dislexia e Disortografia, constitui, segundo a nossa perspectiva, uma das poderosas ferramentas de auxílio para todos aqueles que, diariamente, têm a nobre, mas extenuante, missão de ajudar a ler e escrever todas as crianças, mas, sobretudo, aquelas que registam dificuldades de aprendizagem.      O trabalho dado à estampa em 2011 começa por apresentar, em traços gerais, uma fundamentação teórica, que procura assim introduzir o leitor menos familiarizado nestas temáticas. Depois, o professor/investigador propõe um conjunto de exercícios lúdicos que “comprovadamente ajudam o aluno a melhorar a sua capacidade de memória, atenção, linguagem, raciocínio lógico e visão espacial” (Cf. Rafael Silva Pereira, 2011, p. 9). Por fim, são apresentados exercícios que enformam um programa de desenvolvimento da consciência fonológica (engloba todos os níveis de consciência da estrutura sonora das palavras), através da exploração da “motricidade fina” e da estimulação multissensorial. Pena é, na nossa opinião, que o autor não tenha optado por direccionar o seu programa para um grupo etário específico, pois talvez assim conseguisse maximizar os efeitos da intervenção. Como refere a neurocientista Sally Shaywitz: “o que funciona melhor para uma criança de 6 anos de idade não irá ser a abordagem mais útil para um sujeito de 16 anos” (Cf. Vencer a dislexia: Como dar resposta às perturbações da leitura em qualquer fase da vida, 1.ª edição, 2008, Porto, Porto Editora, p. 189).
            Num mundo em que os ponteiros do relógio parecem avançar a um ritmo alucinante, em que quase tudo se decide à velocidade da luz, é verdadeiramente dramático ver o sacrifício que uma criança disléxica, com uma inteligência (pelo menos) média, sublinhe-se, faz para conseguir, quando consegue, alinhavar uma palavra ou “simplesmente” lê-la. E, recorde-se, ao contrário do que durante muito tempo se pensou, a dislexia (cujo diagnóstico é de natureza clínica) existe mesmo, tem na sua raiz um factor neurobiológico, não se resolve com a simples passagem dos anos e tem consequências em todo o processo de desenvolvimento (Cf. a este propósito Sally Shaywitz, M. D., ob. cit., pp. 13-82). Programas de intervenção pedagógica como aquele que Rafael Silva Pereira nos confia podem fazer toda a diferença no futuro da vida de muitos meninos, desde que, importa reforçá-lo, sejam trabalhados em estreita articulação entre os vários agentes (família, professores…). Programas deste género poderão, afinal, fazer toda a diferença entre a inclusão efectiva e a exclusão.
            Claro está que a Educação Especial desempenha aqui um papel determinante, desde que, também importa reforçá-lo, não seja apenas percepcionada como mais um apoio às áreas académicas tradicionais, mas se assuma como um agente de intervenção face às dificuldades específicas dos alunos e, naturalmente, tendo em consideração os avanços científicos registados. Daí a necessidade de investigar constantemente (uma tarefa difícil face à actual malha burocrática do sistema educativo) e de, entre outras áreas prementes, existirem pontes mais regulares entre as Universidades e as Escolas do Ensino Básico e Secundário ou mesmo entre os docentes, sobretudo, de ciclos diferentes (a efectiva articulação vertical ainda está a dar os primeiros passos…).
            Portanto, a metodologia correcta pode fazer toda a diferença, até porque “diferentes formas de aprender implicam necessariamente diferentes formas de ensinar”. Claro está que, se pretendemos efectivamente uma Escola inclusiva, promovendo uma filosofia de trabalho em conjunto, onde todos os alunos, considerados (ou não) como tendo Necessidades Educativas Especiais, podem ganhar, teremos de perceber que, numa fase inicial, isso implicará forçosamente estar disponível para investir mais. Trata-se, no entanto, de custos que serão recuperados a médio e longo prazo; ao passo que as perdas, essas sim, serão dificilmente recuperáveis.
            A este propósito, o Diário Insular de 7 de Novembro de 2012 trazia a seguinte notícia: “44 por cento dos jovens açorianos entre os 18 e os 24 anos não ultrapassa o 9.º ano de escolaridade” (p. 4). Poderíamos, ainda, fazer uso de outros números igualmente dramáticos, como sejam a taxa de abandono escolar no Ensino Secundário ou de reprovações, a percentagem de analfabetismo (já para não falar de iliteracia) ou os resultados nos Exames Nacionais… Todos os números nos demonstram que é urgente intervir e… precocemente, com equipas inter e multidisciplinares, científica e pedagogicamente sustentadas. E é aqui, mais uma vez, que também os serviços especializados das Escolas, nomeadamente no que diz respeito à Educação Especial, poderão fazer toda a diferença, numa área onde, apesar das inegáveis portas que se abriram depois da revolução de 25 de Abril de 1974, ainda existe um longo caminho a percorrer… Daí a importância de conhecer e dar a conhecer, para sensibilizar e intervir.                                                                                                            
                                                                                                           Renato Nunes    
                                                                                                        

sábado, 27 de outubro de 2012

Assinatura do contrato.

“O nosso Mundo”!! O texto publicado no blogue no dia 23 de Janeiro de 2010, que  me catapultou para egos mais elevados, escritas mais exigentes e públicos  mais diversos. No hiato temporal, que nos separa da data da publicação do texto atrás mencionado passaram-se muitos acontecimentos com relevância internacional, nacional e pessoal.

Apercebo-me nesta passagem pelo ensino privado, que a convulsão de tarefas me leva a pensar que para conseguirmos cumprir tudo com o rigor e exigência pedida, temos de gostar realmente daquilo que fazemos e ter uma organização e um rigor acima da média. Constatações minhas que me levam por vezes a interrogações e dúvidas.

Nos dias de hoje não há empregos para a vida, por isso a duração dos contratos é indiferente e os despedimentos ocorrem independentemente das características do contrato. Em consequência das contingências da minha vida habituei-me a dar um passo de cada vez e a ir de encontro a objetivos realizáveis. Ontem assinei com a empresa onde trabalho, um contrato sem termo algo que eu nunca conseguido antes. Apesar de não passar tudo de uma simples designação, podendo eu ser despedido, quando eles assim o entenderem, para mim não deixa de ser uma conquista.

sábado, 20 de outubro de 2012

Manuel António Pina

Em homanagem ao grande poeta Manuel António Pina Falecido ontem após uma intensa lutra contra o cancro, transcrevo um poema transcrito no blogue da minha cunhada Ana Lúcia Cruz (http://bloguedalucia.blogspot.pt/). Um poema lindo sobre um cão:

"O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,

mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.

Olhava-nos com uns olhos que havia
nos seus olhos
mas não se via o que ele via,

nem se nos via e nos reconecia
de algum modo essencial
que nos escapava

ou se via o que de nós passava
e não o que permanecia,
o mistério que nos esclarecia.

Onde nós não alcançávamos
dentro de nós
.o cão ía.

E aí adormecia
dum sono sem remorso
e sem melancolia,

Então sonhava
o sonho sólido em que existia
E não compreendia

Umdia chamávamos pelo cão e ele não estava
onde sempre estivera:
na sua exclusiva vida.
Alguém o chamara por outro nome,
um absoluto nome,
de muito longe.

E o cão partira
ao encontro desse nome
como chegara: só.

E a mãe enterrrou-o
sob a buganvilia
dizendo
´É a vida...."

Manuel António Pina

sábado, 13 de outubro de 2012

O fim da classe média

Parafrasenado Renato Nunes no seu post de 27 de Setembro, vivemos dias muitos estranhos. Ao longo da vida tenho-me apercebido-me de uma sociedade que devido às contingências sociais se vira cada vez mais para ela própria. O instinto de sobrevivência impera quando nos é imposta a lei do mais forte.
 
Já poucas coisas me surpreendem, no entanto há algo que me faz confusão e magoa, a desumanização que reina no mercado laboral onde os valores deixaram de existir. Esta semana soube do despedimento de um conhecido meu, que com vários anos dedicados ao ensino, foi depedido por simplesmente não assinar um papel que lhe imporia a necessidade de trabalhar mais e receber menos.
 
 Como será possível o Estado ficar indiferente aos despedimentos massivos, situações de pessoas desempregadas que dependiam do salário para a muito custo dar de comer aos seus. É triste e desolador aperceber-me de tudo isto, ver dia após dia ser aniquilado o que a muito custo foi conquistado após o 25 de Abril, o direito de ter uma classe média.

sábado, 6 de outubro de 2012

O dia 4 de Outubro

O passado dia 4 de Outubro, véspera do último feriado da República e do dia Mundial do professor, foi um dia especial para a minha briosa, que com o Hapoel Tel- Aviv, vi  pela primeira vez jogar na Europa. Independentemente do resultado desolador, pois deixámos escapar a vitória nos últimos instantes, foi algo que certamente não me sairá da memória. Coisas minhas!!!
 
 
No dia seguinte recebi a boa notícia, o dia 4 de Outubro, foi também a data  do nascimento da filha de um grande amigo meu de infância. Caramba eles merecem, há quantos anos esperavam este momento. Numa situação destas nasçam muitos filhos, Portugal bem precisa. Parabéns aos pais babados.

domingo, 30 de setembro de 2012

Mudanças sociais

Os dias esvoaçam a um ritmo infernal. Nos tempos mortos, poucas horas que me mantenho acordado, com pensamentos que divirjam do cerne da questão, a preparação das aulas. Os tempos para ver televisão são muito reduzidos e tento casualmente através da rádio escutar as diabruras do nosso tempo e perceber sinteticamente as convulsões que se passam à minha volta. Em Espanha, esta semana, mais uma vez houve manifestações, a que naturalmente se irão juntar outras. Começo a perceber que as manifestações e os insultos contra estas políticas deixam progressivamente de ser consideradas notícias.

Da varanda da minha casa na Venda do Pinheiro vou observando diariamente as rotinas dos meus vizinhos e dos transeuntes que diariamente se deslocam para trabalhar em Lisboa. Não é fácil a vida nos dias que correm. Ouvimos várias vezes falar das dificuldades da vida de outrora, onde a maior parte da população era pobre vivia daquilo que a terra dava. Atualmente as pessoas, grande parte com cursos superiores, ou com o 12º ano, vêm muitas dificuldades para conseguir ter um emprego, arrastando-se indefinidamente nas casas dos pais.
Em poucos anos a sociedade mudou assim como as expectativas das pessoas, no entanto atualmente como há  50 anos observa-se algo em comum, a falta de esperança e expectativas no futuro o que está a conduzir tal como aconteceu em meados do século passado, à emigração.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

É só malandros!

A sacanice do momento, agora pela voz do obscuro e inenerrável ministro (?) Miguel Macedo.

A cigarra e a formiga...

La bise des marchés et la cigale athénienne

par Pierre-Antoine Delhommais


Jean de La Fontaine avait donc tout compris, tout analysé, tout deviné, même la crise financière grecque. La bise des marchés est venue et la cigale athénienne s'est retrouvée fort dépourvue. La fourmi allemande n'étant pas prêteuse, c'est là son moindre défaut, il a fallu que Dominique Strauss-Kahn et Jean-Claude Trichet interviennent pour forcer sa nature et convaincre Mme Merkel de la nécessité d'agir au plus vite. Ce sont pas moins de 25 milliards d'euros que Berlin va, selon toute vraisemblance, débourser pour sauver la Grèce, peut-être pas de la famine, mais au moins de la faillite. Cela fait cher le morceau de vermisseau.

Puisqu'on est dans les fables et les morales, restons-y. La crise grecque, c'est d'abord le triomphe de l'orthodoxie économique. De la gestion budgétaire rigoureuse, de l'obsession de la compétitivité et des excédents commerciaux à l'allemande sur les déficits et le gaspillage des deniers publics à la grecque. Lesquels, selon M. Papandréou lui-même, "au lieu d'être utilisés pour le développement ont fréquemment servi à acheter des maisons, des voitures, et à vivre dans le farniente".

On ne résiste pas au plaisir de paraphraser une nouvelle fois le footballeur anglais Gary Lineker : "L'euro, c'est une monnaie qui se partage à seize, et à la fin, c'est toujours l'Allemagne qui gagne."

Sauf que là, dans l'affaire grecque, tout le monde est perdant. A commencer par l'Allemagne, vilipendée pour son égoïsme, critiquée pour ses tergiversations... et qui n'est pas certaine du tout de récupérer un jour ses 25 milliards. Le président de l'Institut de conjoncture allemand IFO, Hans-Werner Sinn, est persuadé que non. Les Grecs, publiquement humiliés, contraints de faire la manche et promis à des années d'austérité. La zone euro, qui a affiché ses divisions et révélé ses gravissimes défauts de structure et de conception. Les banques françaises, qui ont démontré leur imprudence en se gavant d'emprunts grecs (52 milliards d'euros). Jean-Claude Trichet qui, après avoir exclu catégoriquement que le FMI puisse intervenir, a dû s'y résoudre, ce qui a fait gentiment dire à Mme Lagarde "qu'il n'y a que les imbéciles qui ne changent pas d'avis". L'Elysée, aussi, persuadé dans un premier temps que la crise grecque avait du bon puisqu'elle permettait de faire baisser l'euro et de relancer les exportations et qui n'a rien fait pour arrêter à temps la gangrène. Les dirigeants politiques, qui ont prouvé leur impuissance face aux mouvements d'humeur des marchés financiers. Les contribuables européens, enfin, qui seront sollicités tôt ou tard pour payer in fine un prêt à la Grèce que les Etats eux-mêmes financent par l'emprunt. On ne fait que creuser des trous et des déficits pour en boucher d'autres.
Après tout, l'affaire grecque ne serait pas si grave si on pouvait se dire qu'elle est terminée. Les 120 milliards qu'Athènes va toucher devraient certes lui éviter une crise de liquidités et un défaut de paiement. Ils ne serviront en revanche pas à grand-chose pour résoudre sa crise de compétitivité. Il faut tout changer de "fond en comble", reconnaît M. Papandréou, faire en trois ans ce qui n'a pas été réalisé en trente ans. Passer de la fabrication d'huile d'olive à celle de produits industriels performants, transformer les Cyclades en Silicon Valley, ce n'est pas gagné. Et ce qui vaut pour la Grèce vaut aussi pour le Portugal et l'Espagne. Comment ces pays feront-ils pour retrouver de la croissance sans pouvoir dévaluer tout en pratiquant des politiques de rigueur extrême ? Une fois n'est pas coutume, les agences de notation semblent avoir fait preuve de simple bon sens en abaissant cette semaine la note de ces trois pays. Au lieu de cela, on préfère dire, comme l'Elysée, qu'elles ont une attitude "criminelle". Le politiquement correct ne fait pas bon ménage avec l'économiquement sérieux.

C'est aussi au nom du politiquement correct que personne, il y a quinze ans, n'avait voulu prêter attention aux dirigeants de la Bundesbank qui expliquaient, un peu abruptement, certes, qu'il était dangereux - pour eux comme pour leurs partenaires - que les pays d'Europe du Sud rejoignent trop tôt la zone euro. A l'époque, c'était tellement facile, les gnomes de Francfort furent accusés de racisme monétaire. Ce ne sont sûrement pas aujourd'hui les Grecs, durablement promis à vivre l'horreur économique, qui diraient que ces avertissements et ces réserves étaient injustifiés.

En ces temps si sombres, il convient de dire un grand merci au Parti socialiste français, dont la lecture des 23 pages du document de travail pour un "Nouveau modèle économique, social et écologique" nous a fait passer un bon moment. Et bien fait rire. On a préféré en rire pour ne pas en pleurer. Eric Le Boucher, dans un point de vue publié sur le site Slate, a trouvé ce texte "consternant ". Comme nous. Il évoque le retour des années 1970. C'est cela. Une sorte de programme commun mais nappé de sauce verdâtre, un cocktail de dirigisme et d'écolo-boboisme, Georges Marchais revisité par Nicolas Hulot.

A bas l'entreprise et vive l'Etat, qui seul garantira le bien-être économique pour tous ! Dans ce monde idéal vers lequel le PS promet de nous conduire en 2012, tout sera juste : le commerce (le juste-échange remplacera le libre-échange), les salaires, la fiscalité locale, la rémunération des agriculteurs, les services publics, etc. L'industrie sera forte, cela va de soi, et le consommateur sera remplacé par un "consom'acteur". Tout sera fait pour les jeunes mais aussi pour les retraités - à 60 ans - "parce qu'il y a une vie après le travail qui mérite d'être vécue pleinement".

Le plus inquiétant, dans ces 23 pages, ce n'est pas tant l'absence de mesures concrètes et détaillées pour édifier ce paradis, ce n'est pas tant la stratégie d'évitement sur des sujets essentiels (la gouvernance mondiale, la concurrence de la Chine, la compétitivité, la dette publique), ce n'est pas tant le manque total d'inventivité et la mièvrerie générale du discours et son côté "Oui-Oui fait de l'économie". Non, c'est l'impression de grand renfermement qui le parcourt de bout en bout. De peur du monde extérieur, de grand repli sur soi, une volonté de se réfugier dans une sorte de cocooning économique. "Collectivement, une société sous pression est une société stérile, incapable de créer, d'innover." Tout est dit.

transcrito, com a devida vénia, de Le Monde de hoje

sábado, 22 de setembro de 2012

Uma sociedade egoísta

Sento-me na secretária e organizo os papéis e o grande número de tarefas que me esperam para poder enfrentar mais um dia. Tento pensar em mim embora por vezes não seja fácil. A experiência adquirida ao longo dos três anos de serviço como docente é lisonjeira, para fazer face às adversidades da minha atividade profissional, no setor privado. Muitas vezes sinto-me perdido embora na prática tenha sempre de passar uma mensagem contrária. A liberalização do mercado de trabalho está progressivamente a destruir a dignidade humana, tonando esta uma sociedade, onde apenas os fortes triunfam, os mais fracos sentem cada vez mais dificuldades e são muitas vezes marginalizados.

Entristece-me perceber que não posso ter uma casa minha, pois o meu emprego deslocaliza-se geograficamente de um modo aleatório sem que eu possa controlar, ou saber o lar que estarei a habitar daqui por uns meses. Atualmente e felizmente posso dizer que tenho um quarto e um trabalho, no entanto interrogo-me sobre como será o meu dia de amanhã. Apercebo-me através de mensagens governativas que me referem ”não há empregos para a vida” e por isso não devo pensar a longo prazo. É o que eu subentendo desta expressão. Será que nesta sociedade dita democrática eu já não posso pensar no meu futuro e na minha felicidade e tenho de me subjugar a um sistema onde o trabalhador tem de se sujeitar às regras, onde funciona tudo para conseguir espezinhar quem é mais fraco. Não foi este o futuro que eu pensei para mim, sinto que com estas medidas de austeridade estão a tornar os portugueses mais tristes, pois sentem que estão a destruir algo que nos é querido, o nosso Portugal.

Na passada sexta feira, no meu local de trabalho, o colégio, apercebi-me de um olhar triste de um menino que eu estava a acompanhar numa atividade extra horário letivo. Decidi-me sentar um bocadinho ao pé dele e perguntar-lhe o que tinha. Ele respondeu-me que os pais chegavam tarde a casa e ficavam horas em frente ao computador e não davam atenção aos filhos. Depois daquela expressão não tive capacidade para dizer mais nada, apetecia-me dar-lhe um abraço e reconforta-lo. Depois desta experiência fiquei ainda mais convicto do que sinto e me faz ter força para continuar a trabalhar num ritmo louco, para não ter um reconhecimento no final. Vejo que as nossas crianças, que não têm culpa dos erros cometidos pela nossa sociedade, onde o trabalho asfixia e retira o tempo para pessoas que gostamos e nos merecem atenção. No final de um dia exaustivo de trabalho, a melhor recompensa é sentir, que por mais pequeno que seja o nosso contributo, ajudámos a transformar uma expressão num sorriso.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Que tempos tão estranhos!

“Dos vivos herdam-se palavras. Dos mortos, coisas”. Ora, foram as palavras que o meu Amigo me confidenciou, antes que a vida nos apartasse para ilhas diferentes, que agora me forçam a este reencontro com o papel. O meu Amigo, lembrar-se-á, disse-me: “A morte de um progenitor tira-nos a terra debaixo dos pés. Voam as referências. E sentimo-nos terrivelmente sós, como nunca tínhamos ficado. Mas à medida que o tempo passa, há uma presença que nos acompanha, só que de outro modo, numa outra dimensão. Efectivamente, dentro do caixão já não segue ninguém que tenhamos conhecido. Ainda assim, depois dele passar nunca mais somos os mesmos”.
            Na altura, quando ouvi aquela confissão – ainda por cima vinda de alguém que já viveu mais de meio século e cuidou dos pais precisamente até aos últimos suspiros – a emoção tolheu-me de tal modo a garganta que mal consegui responder. E foi ridículo, precisamente ridículo o que lhe disse. Na altura, o meu Amigo, seguindo a velha máxima de Santo Agostinho (Profligar os erros, amando os Homens), limitou-se a sorrir. Era um sorriso de quem se revia no espelho do tempo.
            Foi na última semana, a meio de um exame médico um pouco mais complicado, que dei por mim a caminhar ao lado daquelas palavras, que agora recuperei: “Nunca mais somos os mesmos”. De facto, como a vida nos obriga a relativizar o sofrimento, quando pensamos no momento em que o mito da nossa fundação se esvai por entre os nossos próprios dedos, sem que nada possamos fazer. Por isso, hoje, que mais não fosse, precisava dizer-lhe que, mesmo que seja uma construção da mente, só por si essa mesma sensação de companhia (que me garantiu sentir) é positiva. Que mais não seja, é uma ilusão que nos alimenta e protege. Afinal, no sofrimento atroz é que percebemos onde nos agarramos.
            O meu Amigo, concordará, vivemos tempos estranhos. Impera o paradigma dos iluminados. Pensa-se em criar cérebros e vai daí arquitecta-se um choque tecnológico, que traz estádios, escolas (que mais parecem arranha-céus saídos de Hollywood) apetrechadas de poderosos quadros interactivos e demais tecnologia que nos empresta uns ares de progresso. Depois, quanto a livros, poucos se vêem. Quanto a conteúdo é melhor nem falar. De resto, os professores ficam caros e contratam-se cada vez menos. A massa crítica não se cultiva, mas a aparência fica garantida. Aliás, não é ela que tanto nos interessou ao longo dos tempos? Poupa-se em farelos, mas desperdiça-se a farinha. As prioridades sempre nos atrapalharam…
            Impera em Portugal o paradigma dos iluminados. Afinal, quase todos são licenciados e vêem coisas que o mais reles dos mortais não pode sequer imaginar. Muitos deles obtiveram os graus pelas Relvas desse país fora; sempre à distância, com a garantia das equivalências que só a experiência da politiquice garante. Quanto aos outros, obcecados em pagar as contas – é a creche dos putos, é o raio da água e da luz, é o empréstimo da casa ou do carro… – esses reles mortais nem imaginam o duro caminho de quem se tornou Doutor graças à subida na pirâmide, sempre de cabeça reverencialmente curvada.
            O meu Amigo, bem sabe, impera em Portugal o paradigma dos iluminados. Nas Escolas desenvolvem-se competências já quase sem falar em conteúdos. Os professores, que cada vez mais têm formação em tudo menos na área que leccionam, são avaliados, numa época em que poucos alunos são verdadeiramente filtrados. Para os gaiatos que não querem trabalhar, criam-se alternativas, que de alternativa têm efectivamente muito pouco. Até lhe chamam cursos profissionais, mas, em traços gerais, as disciplinas são as mesmas, apenas com nomes diferentes. E quanto a oficinas devidamente apetrechadas ou laboratórios; bom, falar nisso… só se for para desenvolver a competência da imaginação. E eu, desculpem-me, estou farto de tanta (in)competência.
            Impera em Portugal o paradigma dos iluminados. A distância entre quem governa e quem é governado é cada vez maior. E o diálogo parece impossível. De um lado, o pragmatismo cínico dos gabinetes, do outro, a realidade. E até a língua materna, com tanto acordo e tanta meta, se enrola na boca cada vez mais indecisa. E falar e escrever é cada vez mais uma tarefa de doutores das competências; novos rostos “científicos” do esoterismo. Afinal, de tão complicados, raramente são questionados e não raro até são premiados. É transversal a todos os domínios do que somos, como a corrupção, embora insistamos em travesti-la de uma certa forma, perversa, hipócrita, de legalidade (vejam-se, a propósito, os concursos públicos que para aí grassam…).
            Impera em Portugal o paradigma dos iluminados. Vivemos adiados. Os empréstimos são a cortisona que nos mantém de pé. Mas não há injecção que nos valha por muito tempo. E o problema é que ainda há filhos e netos deste país, que legitimamente sonham com um futuro. Que merecem um futuro, pelo menos como aquele que herdámos. E o problema, raio, é ver que este país não tem futuro. O problema, raio, é que parecemos um cemitério, com os muros a crescer para cima de nós a cada dia que passa.
            Impera em Portugal o paradigma dos iluminados. Eles dizem: – Faça-se luz! E a luz faz-se, dentro das limusinas onde são transportados; enquanto os faróis iluminam o país cada vez mais desocupado, já adormecido nas trevas da fome.
            Impera em Portugal o paradigma dos iluminados. Só mesmo uma mente superior para acreditar (ah, fé) que o crescimento se obtém baixando os salários dos trabalhadores, pois (ah, almas estrondosas) os preços dos produtos irão descer e será mais fácil comprá-los. Os mesmos produtos que nós, sublinhe-se, não produzimos mas importamos! Rousseau acreditava na bondade natural do Homem. Nós passámos a acreditar na bondade, filantropia natural, do mercado ou dos países que nos abastecem!
            Impera em Portugal o paradigma dos iluminados. Mas será que nenhum deles se ilumina e percebe que, neste momento, arriscamos a autodestruição? Será que ninguém que nos governa percebe que um país, à semelhança de cada Homem, também tem mitos fundadores; e que quando os perdemos nunca mais somos os mesmos? Quando será que eles percebem que o país, mais do que nunca, precisa de exemplos concretos de ética, verticalidade, transparência e trabalho?
            Nestes tempos estranhos, talvez seja chegado o momento de, enquanto cidadãos, nas mais variadas áreas da vida, deixarmos de “comer” tanto com os olhos e passarmos antes a valorizar mais o conteúdo. Não dará tanto nas vistas, é certo, mas os resultados, a médio e longo prazo, serão bem diferentes.
            Neste país, onde a força das ideias, despidas da sua dramaticidade/barroquismo, é praticamente nula, tal como a memória colectiva; em que quase todos falam, mas poucos ouvem e escasseiam as pontes entre aqueles que já se encaminham para o fim da vida e aqueles que agora estão a aprender a voar, talvez seja chegada a hora de perguntar: não estará já esgotado este modelo de recrutamento caciquista que persiste em perpetuar-se entre aqueles que almejam governar-nos? Não nos faria falta uma Escola de Ciências Políticas, por onde todos os nossos governantes deveriam obrigatoriamente passar, antes de se submeterem ao escrutínio popular? Não será altura de acabar com as mordomias de tantas fundações, de tantos políticos (“Passos Coelho com 31 veículos do Estado ao seu serviço”, Público, 16 de Setembro)? Será que, como imaginou Saramago na sua obra Ensaio sobre a lucidez (2004), não é chegado o momento dos cidadãos utilizarem o poder do voto em branco, enquanto arma decisiva da Democracia? Será que a própria lógica interna que preside ao funcionamento do Parlamento não poderia ser aperfeiçoada? Não estará na altura de todos conhecermos os programas dos partidos políticos que sonham alcançar a governação, para que depois possamos exigir o seu efectivo cumprimento? Será que não é chegada a altura de acabar com esses cursos do Ensino Básico e Secundário alicerçados nas competências e cultivar as disciplinas estruturais? Estude-se História, Filosofia, trabalhem-se obras, escreva-se, reflicta-se, partilhem-se ideias… e a cidadania aparecerá por acréscimo, de um modo muito mais eficaz…
            A Democracia não é, nunca poderá ser, um modelo acabado. Nestes tempos tão estranhos e tão difíceis, em que parecemos todos confundidos, ludibriados com tanto folclore, valerá a pena recordar que corremos seriamente o risco de, enquanto civilização, perder irremediavelmente os nossos mitos fundadores. O que somos, nomeadamente a liberdade que ainda vamos experimentando, apesar de tudo, radica na Democracia. O seu aperfeiçoamento, nunca será de mais referi-lo, também depende de cada um de nós.
Renato Nunes    

domingo, 16 de setembro de 2012

O estado do meu(nosso) País!!

Apresento aqui umas pequenas reflexões sobre as minhas breves leituras e imagens sobre o estado do meu país:
Ontem vi as manifestações e hoje não resisti a comprar o jornal, porque me arrepiou toda aquela gente que desespera e luta pelos seus direitos.Pessoas que choram e clamam por saúde, educação com qualidade e um emprego que lhe possa dar estabilidade.
Não resisiti a gravar, ontem as imagens da TV, momentos que espero rever em breve, como sendo más memórias na nossa rica História, ambicionando que todo este pesadelo passe rapidamente.Provavelmente toda esta esperança  não passa de utopia.
Que infeliz povo é este que tem governantes insensíveis, pouco crentes nas suas potencialidades e no real valor da sua mão de obra.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Um manifesto


A crueza das palavras não é mais impressionante do que certeira. Tudo se ajusta à vilania grotesca que se vive. Gostaria de ter escrito o texto que tem uma dignidade de manifesto. Não sei quem é o seu autor mas, por razões ainda mais desesperadas do que as suas, subscrevo inteiramente o conteúdo e o tom. Para a alcateia de talibãs neoliberais que nos esmagam, não há mais argumentos. E isto é que é perigoso.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Que a imperial não falte!

Parece que o senhor que o ministro Relvas arranjou para substituir a direcção da RTP sa(ca)neada pelo incumbente que mostra que a vida é para os espertos é um velho incondicional do Pedro (Passos Coelho), está nas cervejas e cheio de ligação aos negócios com Angola. Hum..