A poesia está antes de aprender a Juntar as letras. É a maior lição do "o Poeta Faz-se, iniciativa que, em Matosinhos, foi descobrir os poetas por trás de quem é adulto, a aprender a ler e a escrever
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
Quantas sardinhas cabem numa lata? (asas para poetas analfabetos)- Jornal Expresso
terça-feira, 20 de outubro de 2020
Faltam cada vez mais professores- Jornal Expresso
Número de horários de docentes ainda por preencher mais do que duplicou em relação a 2019
Na Secundária João de Barros, no Seixal, não se espera só pelo fim das obras, iniciadas pela Parque Escolar há mais de dez anos.
Desespera-se por professores.
Após um mês do início das aulas — período
que devia servir para recuperar o que não se aprendeu no passado ano letivo,
com o ensino à distância —, há turmas onde faltam seis docentes, o que
significa que os alunos estão sem aulas em metade das disciplinas.
“No agrupamento, temos três horários de
Português sem professor, dois de História e um de Informática. Francês e
Geografia são dificuldades que já tínhamos no ano passado e que se mantêm”,
explica Hugo Pereira, assessor da direção.
Desde o início do ano, já houve
necessidade de ir às listas nacionais onde constam os professores disponíveis
para encontrar 19 substitutos de docentes que estão de baixa, saíram ou
aposentaram-se.
“No 3º ciclo há mais de dez turmas com
horários muito esburacados.
Se as aulas em falta forem nas horas
intermédias, outros professores asseguram esse tempo, para manter os alunos na
sala. Nos extremos do dia, não fazemos substituição”, acrescenta Hugo Pereira.
O problema estende-se a muitos
agrupamentos. Não do país, mas de duas regiões em particular: Lisboa e Algarve.
Ainda há alguns milhares de professores
por colocar que constam das listas conhecidas como reservas de recrutamento.
Mas nem todos têm formação para dar as
disciplinas em que há mais lacunas ou não estão interessados em ir para os
locais onde são necessários — o que recebem não compensa ou pode mesmo não
chegar para a renda e deslocações.
No Agrupamento da Portela, em Loures,
procuram-se professores do 1º ciclo, de Português, Economia, Francês e História/Estudos
Sociais. Esta semana chegaram dois de Matemática, reduzindo o número de
horários por preencher.
Subsistem cinco lugares, que afetam mais
de 20 turmas desde o início do ano letivo, explica o diretor, Nuno Reis.
Num agrupamento onde a média de idades
ronda os 57 anos, o desgaste, a saúde e agora a pandemia fazem mossa.
“Neste momento, temos mais de 20
professores de baixa num total de 220. Noutros anos temos tido menos. Mas com
os casos de covid-19 a aumentar muito no concelho, as pessoas ficam receosas.
Temos vários atestados do foro psicológico.”
O diagnóstico está feito, mas faltam
soluções. E os números comprovam que as dificuldades agravam-se de ano para
ano. Só na primeira quinzena de outubro, as escolas viram-se obrigadas a pedir
1870 horários através do mecanismo de contratação de escola. Isso significa que
já não há professores disponíveis nas tais reservas de recrutamento ou os que
existem recusaram o lugar.
O processo começa sempre pelas reservas de
recrutamento.
Se ao fim de duas semanas os horários
continuarem vazios, passa-se para a fase de contratação de escola. Só na semana
passada foram solicitados por esta via 637 professores, mais do dobro do
registado no ano passado no mesmo período (255). Os distritos de Lisboa,
Setúbal e Faro são as zonas para onde é mais difícil encontrar professores.
Informática, Geografia, Inglês, Português e Educação Moral e Religiosa são as
disciplinas mais carenciadas.
As contas são feitas para o Expresso por
Davide Martins, professor de Matemática no Agrupamento de Matosinhos e
colaborador do blogue de Educação ArLindo. “Em 2019, desde o início do ano
letivo até 31 de outubro, saíram 1322 horários em contratação de escola, o que
já é um número considerável.
Este ano esse valor já foi ultrapassado no
dia 10, evidenciando que a falta de professores tem aumentado e se faz sentir
cada vez mais cedo”, explica.
Há mais dados a comprovar o problema.
Todas as semanas, as escolas comunicam os professores que têm em falta nesse momento.
Como em qualquer profissão, há baixas médicas, licenças de maternidade ou
reformas, que fazem com que a dada altura falte um professor. Desde o início de
setembro, já foram pedidos neste contexto mais de 21 mil docentes para
substituição.
No ano passado, no mesmo período de tempo,
foram menos cinco mil. “O envelhecimento e o burn out [esgotamento] são a causa
de muitas baixas. A que acrescem as aposentações, que têm vindo a subir”,
analisa o professor.
O medo do vírus O Ministério da Educação (ME)
garante que as faltas já estão a ser supridas e que os problemas no início
deste ano têm várias explicações: além dos mais de 500 docentes que pediram
substituição por serem de risco, houve um “número anormalmente alto de não
aceitações de horários, atendendo à situação de pandemia que leva os
professores a não quererem deslocar- -se da sua área de residência”. E houve
ainda este ano mais 1100 pedidos de mobilidade por doença (do próprio ou de um
familiar dependente), possibilidade que permite a colocação numa escola
diferente, libertando assim novos lugares. Há mais de 8 mil professores com
esta autorização, sendo que a maior parte saiu da Grande Lisboa para a região
Norte. Houve ainda autorização para contratar mais 3300 para o plano de
recuperação das aprendizagens.
“As listas do ME estão a esgotar-se, já
não há mais pessoas para recrutar. Sabemos que este problema vai crescer e
vamos ficar com muita carência. Deixaram de formar pessoas, outros
reformaram-se, e é uma carreira muito pouco aliciante”, aponta, por seu turno,
Maria Caldeira, diretora do Agrupamento do Alto do Lumiar, em Lisboa, onde
faltam agora oito professores, incluindo de Matemática.
De acordo com os cálculos de Davide
Martins, já há grupos de recrutamento com muito poucos ou mesmo sem candidatos
disponíveis para escolas da região do Algarve e da Grande Lisboa. Apenas um
exemplo: na lista de possíveis candidatos a dar aulas de História do 3º ciclo e
secundário em escolas desta última região, encontram-se neste momento apenas
três nomes; a nível nacional há 180, num total inicial de 1315. A Geo grafia já
não há nomes para Lisboa, tal como a Informática.
Significa que esses lugares vão ficar
vazios? Não. Esgotando-se os candidatos nestas listas nacionais, passa-se então
à contratação de escola, em que estas publicitam a oferta, recebem novas
candidaturas e escolhem.
O problema é quando nem nesta etapa surgem
interessados, levando a que os alunos fiquem sem aulas durante várias semanas
ou mesmo um período inteiro, como aconteceu no ano passado.
O ME também garante que há um “trabalho de
incentivo à fixação de professores que já foi iniciado e que será
incrementado”, mas não explica o que está ser feito.
ileiria@expresso.impresa.pt
Desde o início de setembro, já foram
pedidos pelas escolas mais de 21 mil docentes para substituição.
Texto Escrito por: Isabel Leiria e Raquel Albuquerque. (Jornal Expresso)
domingo, 18 de outubro de 2020
Desabafos de um professor após um mês de trabalho.
E já passou um mês desde o início do ano letivo. Apercebo-me que já fiz tanta coisa que às vezes penso que já passaram dois ou três meses. Quando alguém me dá uma oportunidade de fazer algo que gosto abraço-a e dedico-me ao trabalho com outra disposição.
Admito que por vezes os alunos não ajudam, sinto uma situação de desconforto enorme quando preparo uma aula e vejo praticamente todos os alunos desatentos sem qualquer respeito pelo professor. Admito que isso me dói e entristece profundamente. Sinto-me impotente para fazer face ao uso excessivo do telemóvel em sala de aula. Para colmatar essa falta de respeito sou um pouco mais duro com eles e chamo-os muitas vezes à atenção e acima de tudo tento arranjar estratégias que os consiga trazer mais para a minha aula, nem que seja por breves minutos.
No 10º ano a falta de respeito retratada no parágrafo anterior ainda não acontece, provavelmente pelo facto de ainda virem com os bons hábitos do ensino regular e ainda não ganharem os maus hábitos dos mais velhos. No 10º ano sinto o gosto por ensinar Geografia e não só.
No 11º ano e principalmente no 12º ano a situação é muito mais complicada. É desmotivante perceber o desinteresse da maior dos alunos.
Para tentar solucionar este problema coloco-me muitas vezes do lado do aluno e perceber quais serão as formas de ensino que as poderão captar mais a sua atenção. Até à data já tentei muita coisa mas irei continuar a batalhar.
Na passada sexta feira, exatamente no último tempo da semana, estava extremamente cansado após 4 dias de intenso trabalho decidi mudar um pouco a minha postura perante a turma e ser um pouco mais agressivo. Eles fizeram uma ficha na parte inicial da aula que quase todos cumpriram e na parte final decidi mostra-lhe um vídeo sobre o projeto Ferrovia 2020 sobre o corredor ferroviário do sul. Apesar de as condições de trabalho não serem as melhores e não ser possível ver o vídeo por causa da extrema claridade pedi-lhe que ouvissem com atenção. Realcei o facto que queria que todos estivessem atentos e se desligassem dos telemóveis, pois caso não o fizessem teriam ordem de saída da sala com a marcação da respetiva falta o que aconteceu com um aluno apenas no início da apresentação do vídeo. A atenção dos alunos a partir daí foi quase total, Eu parava constantemente o vídeo fazia questões e muitos deles respondiam de forma correta com um grande interesse sobre aquilo que estava a ser tratado. O facto de assunto tratado ser algo do interesse deles pois Grândola faz parte do corredor ferroviário do sul também ajudou ao sucesso da parte final da aula.
Após ter concluído a aula pude saborear um pouco o êxito conseguido naquela parte final da aula. Soube tão bem ter os alunos interessados em ouvir o que eu tinha para dizer. A vida de professor é esta e feliz ou infelizmente nem sempre as coisas correm bem. Faz parte do nosso crescimento profissional.
sábado, 17 de outubro de 2020
As cores do Alentejo. Memórias ano letivo 2010/11
Estive no Alentejo no ano letivo 2010/11. Admito que não gostei foi um ano muito difícil onde ao contrário do que acontece agora não desfrutava da profissão. Os dias demoravam mais a passar a desorganização na realização das tarefas e a falta confiança eram algumas das causas.
No entanto queria aproveitar para narrar o que de melhor pude ver naquele ano letivo, na viagem entre Sabóia e Ourique. Escrevi um texto no dia 28 de Maio de 2011 que intitulei de Alentejo II.
Na resposta a um dos comentários escrevi um texto que acho delicioso passados tantos anos. Reflete as mudanças de cores do Alentejo nas diferentes estações do ano que era tão visível na viagem entre Sabóia e Ourique.
O texto foi o seguinte:
"A paisagem ajuda a revigorar após um dia uma semana ou um mês de trabalho.
Além da beleza da paisagem uma das coisas mais aprecio são as diferenças das cores, que subjazem nas diferentes estações. Deve ser a Região onde as estações do ano melhor se distinguem.
Desde as cores outonais, passando pelo frio do Inverno onde as folhas caem, até à florida Primavera e ao amarelecido Verão. Nos vários trajetos que fiz para Sabóia deu para ir saboreando o passar do tempo e as alterações na paisagem. Deixo aqui o meu testemunho numa deslocação para Sabóia ao fim da tarde no longínquo mês de Novembro de 2011:
Na passada terça feira fui para mais uma das muitas reuniões em Sabóia. A escola onde tenho só 6 horas e me dá para me recompor o horário. Continuando, quando ia para a dita reunião apesar da pressa devido ao atraso não consegui deixar de me deslumbrar a beleza da paisagem de um Alentejo profundo onde o pôr do sol associado, a paisagem Outonal e uns toques de verde resultantes das últimas chuvas, concederam-lhe uma beleza que eu associei imediatamente a uma tela fascinante. Apeteceu-me parar o carro tirar um número infindável de fotos. Não deu, pois o tempo era escasso, mas surgirão novos oportunidades.
É triste e desolador aperceber-me de sítios tão bonitos que são esquecidos e mal aproveitados pelo nosso país.
Há-de correr tudo bem em mais esta etapa da minha vida, tenho estes momentos que me dá para apreciar a paisagem e encher um pouco o ego para enfrentar mais um dia de trabalho."
Com a leitura deste texto recordo por momento aquelas paisagens. Qualquer dia vou ao baú de recordações tentar recuperar algumas dessa imagens.
A música do Outono- Escola do Duarte
O Duarte hoje surpreender-nos com a música do Outono. Cantou a letra toda e eu não pude deixar de escreve-la para mais tarde recordar:
"Loucas. loucas andam as folhinhas;
Ficaram castanhas e amarelinhas;
Voam Voam como os passarinhos;
Depois lentamente dão-se ao abandono;
Ficam lá no chão chegou o Outono."
sábado, 10 de outubro de 2020
A falta de professores
Olho as notícias diariamente e oiço muitas informações, a triagem admito que por vezes não é fácil.
A falta de professores é uma notícia que sinto e percebo.. As mudanças na legislação no ensino têm sido muito rápidas e o papel do professor tem perdido importância,
A inclusão dos alunos com dificuldades de aprendizagem tem sido alvo de muitas mudanças e a falta de tempo para os professores a assimilarem e praticarem é evidente. O tempo letivo de um professor é uma pequena percentagem de todo o tempo que é dedicado à profissão. O que é exigido a um professor hoje retira tempo para o fundamental que é a preparação das aulas.
Os professores contratados por muitos designados os "professores da mala" são os que estão na base da pirâmide e têm que passar por imensos sacrifícios. As centenas de horas que passam na estrada em cada ano letivo faz logo uma triagem, perdendo-se muitos bons professores pelo caminho, pois desistem da profissão. Licenciam-se profissionais nesta profissão que optam por outras vias, pois a profissão é mal paga para a exigência e responsabilidade que nos é incutida.
A falta de professores deve ser olhada com muita atenção pelo Governo. Um maior respeito pelos professores contratados para mim é a solução para o problema, pois havendo uma base mais larga satisfeita com os seu trabalho vai atrair mais gente para uma profissão que tem sido tão mal tratada no passado recente.
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
Há falta de professores?- Autor Paulo Guinote
É estranho que o senhor ministro desconheça estas circunstâncias, pois vai a caminho de ser o titular mais tempo no cargo desde 1974. Era tempo de acelerar a sua curva de aprendizagem. Ou de resolver o problema, em vez de lançar acusações despropositadas, apenas para se livrar de qualquer responsabilidade política perante a opinião pública
O alarme chegou mais cedo do que o habitual: poucas semanas depois do início das aulas já é complicado encontrar professores para substituir aqueles que entram de baixa médica ou que, por outras razões, deixaram de leccionar. Embora esta situação se tenha tornado recorrente nos anos mais recentes, o habitual é que esta escassez se fizesse mais notar a partir do 2.º período ou, como o ano passado, no fim do 1.º período.
A explicação não passa pelo contexto de pandemia e por uma eventual inundação de pedidos de baixa médica por questões de risco. Os 12.000 docentes “de risco” que iriam pedir atestado, que algumas contas por demonstrar apresentaram quase como uma ameaça ao funcionamento das aulas, ficaram-se por escassas centenas. Pelo que teremos de procurar algures as razões para a situação de carência que se vive.
Falta de candidatos à docência? Também não. Às 872 vagas abertas este ano para os quadros concorreram quase 37.000 professores em busca de colocação, bem acima dos 34.000 do ano anterior. Dos que não conseguiram entrada nos quadros, cerca de 9300 entraram em contratação inicial para o que o Ministério da Educação considera “necessidades temporárias”. Restaram mais 24.000 para substituições a realizar durante o ano lectivo. E será aqui que já voltaremos, para perceber porque agora eles parecem ter desaparecido.
Naquela sua forma de falar sobre estes assuntos, num misto de aparente desconhecimento da realidade e desejo de afastar de si qualquer responsabilidade política, o ministro da Educação deu uma entrevista em que afirmou que a falta de professores que permanece em muitas escolas se deve à negligência das direcções, singularizando o caso da Escola Secundária Rainha Dona Amélia, acusando a sua directora de não ter pedido em devido tempo os horários “a que tinha direito”. A isso respondeu, nas páginas do PÚBLICO, a presidente do Conselho Geral da escola em causa, recordando ao ministro alguns factos concretos sobre a situação das reservas de recrutamento, acusando-o de negligência na forma como se expressou e de deslealdade institucional.
Fez muito bem, mas deveria ter ido mais além e questionado se o ministro desconhece os procedimentos para a contratação de professores em regime de substituição, em especial para os lugares de docentes que se encontram de baixa médica por motivo de doença prolongada e que têm reduções lectivas por motivo de idade. O que gera horários “incompletos” para quem concorre à contratação. Ou se ignora porque muitos candidatos desistem na fase das substituições ou recusam muitos dos horários disponíveis. Se ainda não percebeu que os encargos (com deslocações e alojamento) em muitos casos não compensam os ganhos, pois com horários incompletos há perda de salário, de tempo de serviço e a contagem de tempo para efeitos de aposentação também é “racionalizada” pela Segurança Social.
Perante isto, se é verdade que existe uma preocupação em prestar as melhores condições aos alunos e “estabilizar” o corpo docente (o que inclui o pessoal contratado), seria de regressar ao que foi possível muito tempo, ou seja, completar horários a partir de, por exemplo, as 16 horas, com tarefas não lectivas ou mesmo com funções na área da preparação/apoio à produção de materiais e ferramentas para um eventual período de ensino à distância. Permitindo um salário mensal completo e a não perda de tempo de serviço. Agora só se podem completar horários, na própria escola, quando aparecem necessidades “lectivas” que encaixem no horário ou os professores têm de andar de escola em escola em busca das horas em falta, chegando a ter de leccionar em dois ou mais estabelecimentos. O que, para além de ter uma parcela de indignidade profissional, é profundamente desgastante.
Adicionalmente, deveria acabar a regra, em nome da tal “autonomia”, que impede as escolas de pedirem professores para lugares que sabem muito antes de 1 de Setembro estarem em situação de baixa prolongada, mas que agora só podem ser providos a partir das reservas de recrutamento, com “poupanças” ridículas à escala do OE mas perdas significativas para quem está sem colocação e ainda a vê atrasada várias semanas em virtude desta questão formal.
É estranho que o senhor ministro desconheça estas circunstâncias, pois vai a caminho de ser o titular mais tempo no cargo desde 1974. Era tempo de acelerar a sua curva de aprendizagem. Ou de resolver o problema, em vez de lançar acusações despropositadas, apenas para se livrar de qualquer responsabilidade política perante a opinião pública.
Artigo de opinião Jornal Público de 5 de Outubro
Paulo Guinote Professor do 2º ciclo do ensino Básico
sábado, 3 de outubro de 2020
O início do ano letivo
E terminaram as duas primeiras semanas de aulas.
Confesso que este grande hiato temporal entre a colocação e o início da atividade como docente me deixou impaciente e com vontade de começar o mais rápido possível. Fui colocado em meados de Agosto e só comecei o ano letivo no dia 21 de Setembro, mais de um mês depois. O meu horário de terça feira foi me dado salvo erro no dia 17 de Setembro e o meu horário definitivo apenas me foi facultado no dia 22 de Setembro, o meu primeiro dia de trabalho.
Eu por norma não sou uma pessoa organizada e preciso de começar a trabalhar para as ideias e as aulas se começarem a organizar-se na minha cabeça. Com esta chegada tardia do horário derivado a problemas informáticos e às exigências da pandemia que dificultou muito a sua conclusão. Aproveitei os dias antes do começo do ano letivo para observar com mais cuidado a disciplina que eu desconhecia totalmente, Área de Integração. Na véspera de ir para Grândola preparei uma ficha com base nos conteúdos de Geografia do Secundário na esperança de que isso fosse suficiente para os meus primeiros dias de trabalho.
Bem como por norma acontece com toda a gente a primeira semana foi muito dolorosa.
Na escola sinto simpatia dos colegas para comigo, no entanto ainda não me sinto integrado no meio. Faltam-me pessoas para conversas e exprimir as minhas dificuldades, medos e dúvidas. Eu tento colmatar isso focando-me naquilo que tenho para fazer, tenho aproveitado para descansar e fazer caminhadas muitas vezes sem rumo definido, apenas andar um pouco, conhecer as ruas e observar as pessoas e os lugares.. Essa rotina faz-me sentir melhor antes de ir preparar o jantar numa casa que aluguei perto da escola.
Em tempos de pandemia conseguir uma casa perto da escola, que permita estar no meu local de trabalho em pouco mais de 5 minutos foi a melhor decisão que eu tomei.
A escola é muito pequena e não tem grande condições para o ensino teórico. A grande luminosidade que existe na escola e entra nas salas foi agravado com Covid 19, pois foram retiradas as cortinas que impediam a entrada de alguma luz. Outros constrangimentos é o acesso à internet e o facto de muitas salas não terem videoprojector. Um fator positivo da pandemia para mim foi a divisão das turmas em salas diferentes. Eu numa aula de 50 minutos apenas estou com a turma 25 minutos, tendo de me deslocar de sala em sala.
Um aspeto negativo que me apercebi que faz parte das rotinas de um grande número de alunos é que além de não para cumprirem o seu dever de tirarem o caderno e registarem o que eu digo usam o telemóvel de forma natural e sem qualquer noção do desrespeito que estão a ter perante o professor.
Estas duas semanas serviram para conhecer os alunos e organizar as aulas e os conteúdos que tenho lecionar, pois são muitas turmas e 6 níveis diferentes que tenho que preparar todas as semanas.
Lecionar apenas numa escola de ensino profissional para mim tem sido uma aventura e uma aprendizagem diária. O meu horário excede as 22h letivas semanais e são acrescentada horas caso eu possa e queira sempre que falta um docente. Esta lecionei duas horas a mais ao meu já extenso horário, tendo num dos casos apenas sido informado meia hora antes.
As formas de ensinar e avaliar terão necessariamente que ser diferentes do designado ensino regular. A capacidade de refazermos aprendizagens tem de ser um processo constante. Após estas duas semanas percebi que vai ser mais um enorme desfio que tudo farei para estar à altura.
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
Uma conversa ao jantar
Há refeições que temos mais paciência para saborear as conversas do Duarte. Infelizmente daqui para frente o tempo vai ser escasso e a paciência para tratear umas frase também, por isso vou aproveitar hoje.
A refeição começou com a habitual birra para comer a sopa. O espernear, gritar, pôr a mão na boca a dizer que não quer comer a sopa. Bem as birras vão ser rotinas habituais no futuro sempre que a sopa for um menos saborosa ou não tiver "canjicas".
Eu imbuído nos meus pensamentos e na dura batalha que me espera para a semana não estava a ligar à conversa fluida que o Duarte estava a ter com a mãe. Quando ele já comia um peixe cozido com batata doce cor de laranja com um sorriso e satisfação de fazer inveja a muita gente liguei-me definidamente ao discurso de ambos.
A conversa derivou para escola e foi aí que eu fiquei curioso espero conseguir narrar com o mesmo entusiasmo que o Duarte o fez.
A mãe perguntou "tu fazes chichi na sanita" ao que ele respondeu "mãe eu faço de pé, as meninas é que fazem sentadas"..."mãe eu não me sento senão caia lá dentro". A prontidão da resposta do Duarte deixou-me perplexo.
A mãe após uns sorrisos perguntou "são quantos os teus colegas", ao que o Duarte respondeu "são muitos mãe" e enumerou os números de 1 a 9 sem se enganar em nenhum.
Começámos por lhe perguntar o nome dos colegas da escola ao que ele de forma natural deu um enfâse maior aos rapazes e disse o "Gonçalo Salito, o Tim (Martim), O Duarte Tomás, o Leo (Leonardo) e o Lourenço". Depois de enumerar o nome dos colegas a mãe começou a contar o nome dos colegas através dos 5 dedos da mão ao que o Duarte de forma curiosa disse "o dedo mais pequeno é o do Tim" por ele ser o mais pequeno de todos. A mãe ainda disse que se calhar o dedo mendinho devia ser para o Leo ao que ele contrapôs "não não é para o Tim".
Depois de ter falados dos rapazes perguntámos então e as meninas como é que se chamam. É muito giro perceber que ele rapidamente adaptou a linguagem ao aumento do número de colegas que passaram de 7 para 24. No ano passado só tinha uma colega Matilde, mas como este ano são duas ele disse prontamente uma é Matilde Lopes e a outra é Matilde Costas. Concluiu a enumeração das meninas com a Ritinha, a Alice e a Leonor.
O Duarte sempre teve um poder de observação muito apurado. Lembro-me que quando lhe mostramos fotografia de familiares que viu muito poucas vezes, ele após lhe mostrarmos fotografias tem uma destreza de os reconhecer e enumerar com uma certeza cativante.
É muito interessante perceber a rapidez com que ele se apercebe das coisas que fazemos ou dizemos e imita tudo. Conta para o bem e para o mal.
A conversa terminou com duas fotografias que a Educadora Sofia me enviou. O Duarte explicou cada uma das fotos e descreveu as brincadeiras que tinha tido na pré-escola. Falou das antas e dos arcos que brincavam no recreio exterior, dos jogos dos animais e dos muitos jogos que haviam nas caixas amarelas e vermelhas.
sábado, 12 de setembro de 2020
Dormir
Dormir é maravilhoso.
Na passada quinta feira quando fazia mais uma viagem de Grândola para Oliveira do Hospital ouvi um podcast onde abordaram as várias variantes do conceito de segurança. Segurança é uma palavra com significados que eu desconhecia na sua plenitude, como ter uma refeição, um salário, não ter dívidas, ter saúde e um sentimento de segurança quando se circula na rua.
O ato de descansar bem está intrinsecamente ligado ao sentimento de segurança abordado no parágrafo anterior.
O Duarte nunca foi muito de dormir.
No dia 15 de Outubro de 2017, o dia dos grandes incêndios na região centro fomos de manhã ao pediátrico de Coimbra com o Duarte que na altura ainda não tinha 9 meses. Recordo-me que quando voltámos já perto da hora de almoço já se avistavam ao longe várias nuvens de fumo.Foi curioso pois o Duarte tinha passado várias noites a dormir muito mal e nessa noite muito difícil para as gentes da beira e particularmente de Oliveira do Hospital, dormiu muito bem.
A escola até aos três anos e 6 meses anos foi um espaço onde o Duarte não dormiu aquilo que na nossa opinião seria o desejável. Nas lembranças mais recentes relativas ao ano letivo 2019-20 lembro-me o que a educadora me disse "o Duarte dorme muito pouco, e por vezes temos de o tirar de lá pois está a incomodar". Após menos de uma hora a descansar colocavam-no a brincar com os mais velhos da pré-escola.
Já nos foi proposto para o Duarte deixar de dormir a sesta, no entanto consideramos que ele descansar por pouco que seja será bom para ele.
O Duarte durante o dia é muito estimulado quer pelas educadoras, pais e avós paternos. À medida que o Duarte foi crescendo e as estratégias para o adormecer foram-se tornando cada vez mais complexas, difíceis e resultavam cada vez menos. Nós nunca tivemos o dom de lhe saber contar histórias para o adormecer e recorremos ao método mais fácil que foi mostra-lhe a Heide, o Gombby ou a menina dos cabelos ruivos no telemóvel. Na fase inicial (verão de 2018) apenas precisava de um episódio para adormecer, no entanto à medida que foi crescendo as dificuldades foram maiores pois um episódio não bastava para que ele dormisse. No final de 2019 lembro-me que após lhe mostrar um episódio de uma série ele se sentava sempre na cama e dizia "pai não quero dormir". Foram duras batalhas que nós enquanto pais e professores tínhamos de ter para conseguir preparar as aulas, fazer as lides de casa e dormir uma horas para nos fazermos à estrada ao outro dia.
Como já foi noticiado por mim neste blogue em Março e Abril, o período de confinamento foi duro para o Duarte e para nós enquanto pais. O Duarte perdeu de um dia para o outro o contacto físico com os avós e ficou cingido aos poucos metros quadrados do apartamento. O adormecer foi cada vez mais difícil, e ganhou uma afinidade cada vez maior à mãe.
Nesta férias recordámos a sua alegria perante todos aquelas novidades. Notámos que ele absorveu todos os aqueles momentos com uma intensidade que eu não esperava. Não foi pois de estranhar que após o almoço fosse muito fácil de adormecer e dormisse horas a fio. Sentia-se feliz e seguro na companhia dos pais.
A visita aos avós maternos no Luso foram sempre para o Duarte locais em que ele sentiu uma tranquilidade, um sossego e segurança que não sentia em mais nenhum outro lugar. No fundo o Luso foi para o Duarte um espaço que ele sempre fez grandes sestas.
A insegurança da nossa profissão dos pais e a personalidade do Duarte podem explicar os sonos curtos após a hora da sesta.
terça-feira, 8 de setembro de 2020
Memórias de Tabuaço
O ano letivo 2019-20 foi muito difícil para mim.
Com a colocação em Tabuaço consegui obter o horário completo anual que era aquilo que mais desejada, no entanto foi extremamente doloroso dar aulas em duas escolas (Pampilhosa da Serra e Tabuaço) tão distantes e morar geograficamente no meio destas duas localidades.
Sinceramente no início pensei que não iria conseguir, disse-o a muito pouca gente. As mensagens da família e o excelente acolhimento que recebi em Tabuaço fizeram-me acreditar que seria possível.
À medida que o nervosismo foi desvanecendo fui conhecendo melhor a localidade e as suas gentes. A procura de um quarto que servisse as minhas necessidades e me permitisse descansar uma noite em Tabuaço não foi fácil.
Acabei por ficar numa casa no sopé da vila, onde coabitei com o senhorio dono da casa.
Aquele espaço onde pernoitava apenas uma noite por semana, a madrugada de terça feira foi muito importante para a minha integração. Não me esqueço daquela casa de banho com três sanitas e três chuveiros uns ao lado dos outros à semelhança do que acontece nos balneários. A expressão que o meu senhorio utilizou aquando da apresentação da casa foi surpreendente. "professor esta é uma casa a arder".
Logo na primeira noite que lá dormi percebi logo o intuito da expressão "Professor isto é uma casa a arder". Uma família grande e um grande número de amigos tornavam aquelas noites jantares em família ou somente de amigos. Nunca cheguei a perceber quem eram as pessoas, mas também não fiz por isso eu apenas as ouvia do quarto. Naquele período fez-me tão bem sentir a presença de pessoas, fez-me sentir menos sozinho.
A segunda feira era um dia particularmente complicado, pois tinha muitas aulas e concentradas essencialmente da parte da tarde. Eram dias que eu chegava a casa no sopé da vila de Tabuaço com a minha cabeça completamente destroçada. Cheguei a ir várias vezes ao Meu Super sem ter necessidade de lá ir apenas para desanuviar.
Segunda feira jantava cedo, pois na maior parte dos casos era só aquecer e comer. Após o jantar apesar de por vezes as temperaturas estarem muito baixas nunca abdiquei de ir tomar café ao " Arcada" que ficava a escassos 300 metros de minha casa. Lembro-me da forma acolhedora como sempre fui recebido, de terem uma salamandra dentro do café, onde muitas vezes a filha brincava enquanto a mãe trabalhava. Vi e conversei com outros clientes do café que trabalhavam nas obras, ou na agricultura e se reuniam ali para conversar, beber cerveja ou um copo de vinho.
Após umas semanas percebi a importância daqueles dias para recuperar energia para dedicar mais tempo ao meu filho. Para o Duarte à semelhança do que está a acontecer agora eu nunca deixei de dormir em casa apenas chegava tarde e saia cedo.
Hoje em Grândola, um pouco mais distante que Tabuaço de Oliveira do Hospital, o Duarte perguntou "o pai não vem", ao que a mãe retorqui "a escola é muito longe e demora muito a cá chegar" e ele concluiu "mas mãe eu estou preocupado" . Não sei quando ele vai perceber que eu não vou dormir a casa mas para já sabe bem ao Duarte ouvir a mãe ao outro dia de manhã dizer "O pai esteve cá mas chegou tarde e teve que sair muito cedo, ele deu-te um beijinho, deixou-te uns papeis para tu pintares e saiu".
Formas encontradas por nós para contornar a ausência.
quarta-feira, 2 de setembro de 2020
João Brandão, um vilão que aterrorizou as Beiras. Autor: Luís Filipe Torgal
A vida de João Victor da Silva Brandão (1825-1880) dava um romance e um filme magníficos. Esta é a perceção com que ficamos depois de melhor conhecermos as aventuras e desventuras desta personalidade que, como todos os protagonistas da história, só pode ser compreendida à luz da época em que viveu. E que, no seu caso, foi o período marcado pela afirmação do liberalismo em Portugal. Um tempo de crise política que modelou a primeira fase do sistema constitucional português – crise provocada por uma guerra civil entre liberais e miguelistas/absolutistas, depois por confrontos sucessivos entre diferentes fações liberais e pelos primeiros processos eleitorais do sistema constitucional, onde emergiram várias formas de caciquismo (termo originário dos idiomas da América pré-colombiana, com significado de “chefe”, que terá sido adotado pela primeira vez no léxico político português, em 1886, por Oliveira Martins, para rotular os indivíduos que tinham uma incontestável supremacia política e eleitoral a nível local). Uma época que determinou, afinal, a desagregação das estruturas seculares do “Antigo Regime” e o nascimento do Portugal contemporâneo.
Os feitos, reais ou imaginários, de João Brandão foram cantados em verso nas feiras e romarias do país e têm sido mesmo musicados para grupos corais. A sua história inspirou a literatura de cordel e originou a edição de vários outros livros, folhetos e artigos de jornal escritos por autores que proclamaram a apologia do herói ou apregoaram a delação do criminoso. Os seus maiores detratores, como o jornalista Joaquim Martins de Carvalho (Os Assassinos da Beira, 1889), identificam-no como um “sicário” sem escrúpulos que, com os seus crimes violentos, aterrorizou a vasta região das Beiras. Por sua vez, os seus defensores, como José Dias Ferrão (João Brandão, 1928), preferiram considerá-lo um “político” que se bateu corajosamente pelo triunfo da nova ordem liberal constitucional, mas que soçobrou vítima dos crimes cometidos nesse tempo revolucionário caracterizado pela desordem e a violência. O próprio João Brandão terá também contribuído para potenciar e perpetuar o seu mito com a representação hagiográfica que construiu sobre si próprio, numa curiosa e bem escrita obra autobiográfica (tendo em consideração a limitada formação literária do autor), bem ao gosto romântico da época, redigida na cadeia do Limoeiro (Apontamentos da vida de João Brandão, 1870).
Para além das interpretações e juízos de valor maniqueístas, existem dados objetivos que nos permitem conhecer melhor o homem que está por detrás do mito. Nasceu no Casal da Senhora (Midões), no seio de uma família rural proletária (o avô e o pai eram ferreiros) que ascendeu socialmente, graças a alianças e casamentos, bem como à audaciosa ação política em prol da causa liberal.
Em 1828, D. Miguel autoproclamou-se rei absoluto e o seu Governo lançou uma violenta ação repressiva contra os liberais que permaneceram no país, a qual culminou em inúmeros homicídios, prisões e condenações à morte por fuzilamento e enforcamento. Depois, Portugal mergulhou numa guerra fratricida que terminou com a assinatura da Convenção de Évora Monte (1834) e a consequente vitória dos liberais.
Nessa época agitada, o pai de João Brandão teve uma vida errante, a fugir às perseguições de que foi alvo por parte dos partidários miguelistas e a participar em ações de guerrilha que terão levado os seus inimigos absolutistas a confiscar e a incendiar os seus bens e a retaliar sobre a sua mulher e filhos. Ao invés, no rescaldo da derrota miguelista, a família Brandão terá participado, com a anuência declarada ou críptica do ainda débil Estado liberal, em violentas ações revanchistas contra os vencidos, extorquindo vultuosas indemnizações às famílias derrotadas e combatendo de forma implacável as quadrilhas de bandoleiros miguelistas que recusaram depor as armas. Este último procedimento mereceu mesmo, em 1841, por parte da rainha D. Maria II e do Governo constitucional, um louvor público formal aos Brandões do Casal da Senhora.
Durante a década de quarenta, eclodiram novas sublevações sociais e políticas agora contra o Governo cartista de Costa Cabral: Maria da Fonte (1846) e Patuleia (1846-47). João Brandão e os seus irmãos combateram em defesa do Cabralismo e por isso entraram em rota de colisão com os seus primos de Midões que haviam abraçado a fação setembrista implicada nas revoltas da Patuleia. A fidelidade de João Brandão à ordem cabralista vigente ter-lhe-á permitido assumir funções de vereador e fiscal da Câmara de Midões.
Com a Regeneração (1851-68), as recorrentes lutas armadas entre bandos rivais deram, gradualmente, lugar a combates políticos dentro da legalidade constitucional. O propósito fundamental seria, doravante, eleger os governantes do país e os deputados dos dois partidos que constituíam o sistema rotativista dominante: Regenerador e Histórico.
Contudo, à revelia deste ambiente mais conciliador, o bando de João Brandão, com a aquiescência do próprio ministro do Reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães, envolveu-se no célebre episódio da “montaria” ao salteador João Nunes, conhecido como o “Ferreiro da Várzea”, que culminou no bárbaro assassinato deste velho adversário de Brandão, em 1854. Tal ato originou uma campanha hostil no jornal O Conimbricense contra João Brandão e todos os ladrões e assassinos que, com a cumplicidade do poder estabelecido, continuavam a saquear a província da Beira, que “vive há muitos anos debaixo do império do trabuco e do punhal”.
Foi indiciado deste crime e perseguido por forças militares. Passou à clandestinidade durante cinco anos (1855-1860). Acabou por se entregar, tendo sido preso, julgado e absolvido pelo crime atrás citado, num rocambolesco processo judicial que foi denunciado pelos detratores de João Brandão como tendencioso e indulgente para com os culpados.
Saído em liberdade, casou com Ana Eugénia Correia Nobre (da Várzea da Candosa), que possuía alguma fortuna, pretendeu renunciar à sua anterior vida aventurosa e dedicar-se à administração das propriedades de sua mulher. Consta que, muito antes disso, chegou a planear casar com Maria Rita das Neves, a mulher que viria a ser mãe de António José de Almeida (1866-1929, presidente da República Portuguesa, entre 1919 e 1923), e que certa vez, no contexto das lutas entre liberais, teria ameaçado de morte o pai do futuro presidente (Luís Reis Torgal, António José de Almeida e a República, 2004, p. 33). A este propósito, importa esclarecer que as origens mais ancestrais da sua família provêm das freguesias de São Martinho da Cortiça (Arganil) e de Farinha Podre (atual São Pedro de Alva, Penacova), de onde são originários os avós paternos, a avó materna e os pais de António José de Almeida.
Porém, retomou as atividades de eleitor e cacique local, tendo-se envolvido, fervorosamente, nos processos nada democráticos de angariação de votos em benefício dos candidatos que apoiou e que concorreram sucessivamente à Câmara de Deputados pelos círculos de Arganil, Oliveira do Hospital e Penacova. Tais processos, que revelam bem o poder e a influência que João Brandão tinha na região, envolviam, por um lado, a lealdade, a reciprocidade de favores, a amizade, a adesão voluntária; por outro lado, desvendam a submissão pessoal e a ameaça de coerção de que era vítima a sua rede clientelar.
O fenómeno do caciquismo oitocentista aqui aflorado permite-nos ainda confirmar que as mais altas personalidades políticas das fações do Estado demoliberal recorriam amiúde aos serviços de homens truculentos como João Brandão – ou, sobretudo, de grandes proprietários agrícolas e altos funcionários do Estado – para obter triunfos eleitorais regionais e locais que lhes permitiam vencer eleições nacionais. Em contrapartida, estes conluios possibilitavam aos caciques organizarem-se em influentes oligarquias locais que obtinham avultadas benesses do poder central e dominavam de forma muito pouco transparente as administrações municipais e até os próprios tribunais.
Todavia, este tipo de ação política comportava também os seus riscos, sobretudo para aqueles caciques irredutíveis cuja fama de malfeitores começava a torná-los incompatíveis com uma fase mais consolidada, cívica e progressista da Monarquia Constitucional. Com efeito, os diversos inimigos que João Brandão foi gerando (alguns deles bem posicionados na hierarquia dos poderes político e judicial) jamais esqueceram os seus crimes e afrontas. Vários terão mesmo acabado por se coligar para mover-lhe um ardiloso processo de acusação pelo assassinato e roubo do padre José de Anunciação Portugal, na Várzea de Candosa. Foi preso por estes crimes cometidos em 1866. Após um julgamento parcial e crivado de infrações legais, onde a acusação nunca terá conseguido provar com clareza a culpabilidade do réu, João Brandão foi declarado culpado do crime de homicídio premeditado e condenado pelo tribunal da Comarca de Tábua à pena de morte comutada com o degredo perpétuo em África. Embarcou para Angola, em 1870, colónia em que manteve uma vida romanesca, terá amealhado proventos na produção de açúcar e de aguardente de cana, mas, também, onde acabou por morrer assassinado, em 1880. Suspeita-se que o seu sócio e o próprio Governador de Benguela estiveram envolvidos na sua morte. De todo o modo, a autoria e as motivações deste crime, assim como o caso macabro da decapitação do seu cadáver e o transporte da cabeça de João Brandão para Benguela estão ainda hoje por esclarecer.
Para quem desejar compreender melhor a extraordinária história da vida de João Brandão, aconselho seis obras fundamentais: João Brandão, Apontamentos da vida de João Brandão: por elle escritos nas prisões do Limoeiro envolvendo a história da Beira desde 1834, com [excelente] introdução de José Manuel Sobral, Lisboa, Vega, 1990; Joaquim Martins de Carvalho, Novos apontamentos para a história contemporânea: os assassinos da Beira, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1889; José Dias Ferrão, João Brandão, Porto, Litografia Nacional, 1928; José M. Castro Pinto, João Brandão, o «terror da Beira», Lisboa, Plátano Editora, 2004; Irene Vaquinhas, “Alguns aspetos da violência nos campos portugueses no século XIX”, in Revista de História da Sociedade e da Cultura, Coimbra, Centro de História da Sociedade e da Cultura da Universidade de Coimbra, 2001, pp. 285-325; e Marco Daniel Duarte, Tábua. História, Arte e Memória, Município de Tábua, 2009, pp. 287-320. Os dois últimos textos supracitados e até o prefácio de José Manuel Sobral atrás mencionado são das poucas obras publicadas de teor historiográfico, embora pouco exaustivas, sobre o tema aqui tratado. Quem pretender obter mais informações sobre a vida e a morte de João Brandão em Angola, deve também ler o folheto de César Santos, O desventurado de Midões. João Brandão em África, 1880-1950, Coimbra, Tipografia Coimbra Ed., 1950.
Apesar da prolífica literatura, mais ou menos recente, existente sobre este tema, continua por publicar uma obra historiográfica de grande fôlego acerca do homem que foi reconhecido, por alguns autores, como “benemérito, altruísta” e “desventurado”, mas cognominado, por outros escritores, de “terror da Beira”. Essa investigação detalhada e narrativa interpretativa fluente poderão desconstruir as representações fabulosas, paradoxais e redutoras de “bandido generoso” ou de “bandido facínora” e, porventura, apresentá-lo inserido numa tipologia mais inteligível. A saber: João Brandão teria sido, no mundo rural português oitocentista, um “cacique” ou uma espécie de “coronel” (trata-se de um modelo social que prosperou no Brasil no período da “República Velha”, 1889-1930), quase sempre armado e desprovido de escrúpulos, movido por motivações mais pessoais e económicas do que sociais e políticas, e simultaneamente temido e admirado pela população da região das Beiras.
Por tudo o que ficou escrito, creio que não devemos enquadrar João Brandão na controversa tipologia de «bandido social» conceptualizada pelo historiador Eric Hobsbawm. Ele foi, sobretudo, um fora-da-lei recalcitrante cuja conduta violenta, assassina e amoral não foi consagrada à defesa dos pobres e espoliados. Por isso, não se tornou um herói popular, mas antes um vilão intrépido tão respeitado como receado pelos diversos estratos da sociedade rural da sua época. Assim, apesar de o seu nome permanecer gravado na memória coletiva dos beirões, a sua trajetória de vida não faz dele uma personalidade especialmente talhada para intitular espaços públicos atuais. Muito menos para a autarquia de Tábua ter decidido destinar o nome de João Brandão para patrono da sua Biblioteca Municipal.
Autor: Luís Filipe Torgal
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
Férias 2020
No início do mês de Agosto o Duarte adorou ir à casa dos avós paternos regar a horta enquanto estes estavam de férias. Esta era uma rotina que o Duarte já adorava fazer nas constantes visitas aos avós antes e depois do confinamento. Ele adora o contacto com a natureza e por ser o único neto e mais novo membro da família é o centro de todas as atenções.
Este ano notámos que o Duarte ao contrário dos anos anteriores já se apercebe de tudo o que se passa à sua volta. Como pais ficamos muito felizes embora por vezes nos custe perceber que em consequência da nossa vida profissional não conseguimos acompanhar como queríamos o seu crescimento. Após uma breve visita aos avós paternos (praia) foram constantes as perguntas do Duarte "mãe quando é que voltamos à casa da praia". Ele adorou as rotinas da casa da praia , brincar ao ar livre, o contacto com a água salgada do mar deram-lhe uma cor e uma alegria no olhar que nos deixaram enternecidos.
As deslocações ao Luso para passar uma semana já são tradição no final do mês de Agosto. Durante e após o confinamento o Duarte perguntou constantemente aos pais "quando vamos ao Luso ver os avós". Ele gosta daquele rebuliço e liberdade na casa dos avós do Luso. Os mergulhos na piscina, as idas à horta, dar de comer às galinhas e coelhos. Os avós adoram vê-lo correr para cima e para baixo ao sabor do som dos animais e do rádio que avô colocou no quintal para afugentar os pássaros. Uma infância ao ar livre em meios pequenos com tradições rurais que o Duarte teve a sorte de observar e experimentar na sua infância muito feliz.
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Tão felizes que nós éramos - Clara Ferreira Alves
Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.
Eu não ponho flores neste cemitério.
Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo. A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, peras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos. As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais. Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos, era normal. Tive dez e morreram-me cinco. A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.
Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título ‘Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos’. A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas. As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid. Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras. O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos. Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido. A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum. De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar-se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da exceção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laboral, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia. Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca. A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente.
Clara Ferreira Alves- Jornal Expresso 18/3/2017
sábado, 22 de agosto de 2020
Grândola 2020-21
Olho para a frente, o caminho é sinuoso. Sinto que hoje já conheço melhor o percurso a seguir embora esteja longe de saber o que farei para o resto da minha vida. Hoje sei que faço aquilo que gosto, não sei se amanhã isso continuará a acontecer, no entanto sei que o que faço hoje me trará ferramentas para o futuro.
No desempenho da minha profissão de professor gosto de conhecer o meio e as pessoas com quem trabalho. Ser professor hoje é uma tarefa complicada, pois ao contrário do passado, não podemos apenas debitar conteúdos, é necessário adequar os conteúdos aos alunos que temos à nossa frente de modo a cativá-los para os conteúdos lecionados e prepara-los para enfrentar o futuro enquanto cidadãos
No final do ano letivo decidi mudar o rumo do meu concurso e alargar o leque de escolas para conseguir um horário completo anual. A dificuldade de conseguir um horário completo anual, e o cansaço dos constantes horários incompletos e temporários, para quem está no último terço da tabela e quer progredir obrigou-me a arriscar e concorrer para o Sul do Tejo. Foi uma decisão consciente embora me tenha custado muito por saber que iria deixar a família a centenas de quilómetros de distância.
O dia 14 de Agosto foi sem dúvida um dia fértil em emoções, pois soube que Grândola seria o local onde iria exercer a minha profissão no próximo ano letivo. Fiquei contente pois consegui um horário completo anual na contratação inicial que era o que pretendia, no entanto pensei nas inúmeras dificuldades que iria ter a minha esposa na gestão da casa sozinha, com a mesma profissão colocada a 1 hora e meias de casa, com um filho de três anos
Quando estamos mais longe sentimos a importância de ter amigos à distância de um telefonema e felizmente posso dizer que tenho alguns. No dia 14 de Agosto estávamos de férias e soube tão bem ter recebido a visita da minha irmã e do meu cunhado, pois pudemos compartilhar com eles os nossos receios e medos.
O Duarte vai ser sem dúvida aquele que vai sentir mais a falta do pai mas aos poucos já começa a estar habituado. Há uns dias no meio de umas brincadeiras disse-lhes que iria dentro de umas semanas recomeçar o trabalho na escola e não iria estar presente durante a semana, só viria ao fim de semana. O Duarte perguntou de imediato "porquê pai". Eu disse-lhe que tenho de ganhar o tostão para te comprar brinquedos ao qual ele de forma imediata disse "pai eu tenho aqui brinquedos não preciso de mais". O segundo argumento apresentado foi que lhe queria comprar uma bicicleta nova, pois a que ele tem já é demasiado pequena, ao que ele disse com naturalidade "pai eu tenho uma bike não preciso de mais nenhuma", depois e por fim disse-lhe que era para comprar comida e ele não resistiu e foi a correr para o colo da mãe com os olhos humedecidos e com vontade do conforto de um abraço. Estava longe de imaginar a reação do Duarte que já percebe e expressa muito bem aquilo que sente.
Neste ano letivo sentimos o conforto de saber que os avós estão por perto e vão ser um pilar essencial para que o Duarte continue a crescer feliz. A escolinha onde ele se encontra muito bem integrado dá-nos um enorme conforto para desempenharmos de forma tranquila a nossa profissão.
quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Breve história do Santuário de Nossa Senhora das Preces. Autor: Luís Filipe Torgal
Frei Agostinho de Santa Maria publicou, entre 1707 e 1723, uma obra mística, monumental e incontornável sobre o culto mariano em Portugal, intitulada: Santuário Mariano, e história das imagens milagrosas de Nossa Senhora. No tomo II desta obra (1712, pp. 517-519) relatou que no cume do monte Colcurinho, «terra tão alta que parece querer competir com as estrelas […]. E assim dizem que dela se vê a cidade de Lisboa», apareceu uma «milagrosa imagem», «muito pequena, porque não tem mais de palmo e meio de estatura», da «Rainha dos Anjos», que «uns invocam como Nossa Senhora do Colcurinho e outros como Nossa Senhora das Preces». Não esclareceu como esta «Senhora» se manifestou, segundo a tradição, a uns pastorinhos, nem o ano em que apareceu. Contudo, adiantou que a inacessibilidade da serra levou o pároco de Aldeia das Dez a transferir a imagem descoberta para a igreja da sua paróquia. Mas a «Senhora» queria ser venerada no cimo do monte e por isso a sua imagem teria reaparecido duas vezes no sítio onde foi encontrada. Padre e paroquianos decidiram, então, respeitar a vontade da «Senhora» e edificar um pequeno oratório no local onde, aliás, já existiam vestígios de uma muralha castreja e foram encontradas moedas romanas; mais tarde, foi aí construída a ermida de Nossa Senhora das Necessidades. As dificuldades extremas para se deslocarem àquele local tão ermo e agreste levou os fiéis, algures, em meados do século XVII, a acomodarem a imagem num sítio mais baixo, acessível e amplo, localizado nas faldas da serra: o povoado de Vale de Maceira. A imagem ganhou fama de obrar milagres, atraiu romeiros e peregrinos, originando o nascimento do santuário de Nossa Senhora das Preces.
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Junto à ermida atrás citada existe um cruzeiro, erigido em 1925, que substituiu um monumento idêntico ao anterior, do qual resta uma pedra desgastada pelo tempo que contém o mais antigo documento escrito do santuário. Aí pode ler-se: «[NESTE LUG]AR APA[RE]CEU N. SRA. [D]AS PRE[S]SAS NO A[N]O D. 1371».
Quando os imperadores romanos se converteram ao cristianismo e o impuseram como a religião oficial e única do império romano (édito de Tessalónica, 380), muitos dos remotos santuários pagãos associados a cultos mágicos de fertilidade, situados em locais ermos e belos, foram sendo oportunamente transformados em santuários cristãos. O caso da conversão do local sagrado do Colcurinho terá ocorrido antes ou depois de 1371. O pretexto para essa conversão ao cristianismo poderá ter sido a notícia do avistamento de uma «Senhora» que determinou a criação de uma imagem e a edificação de uma ermida. Com o fluir do tempo, a vetusta ermida teria ficado esquecida e arruinada e a imagem entretanto perdida seria depois descoberta nos seus escombros (Augusto Nunes Pereira e Mário Oliveira de Brito, Nossa Senhora das Preces, 1945, p. 16). Certo é que histórias de aparições análogas foram reproduzidas em tempos posteriores, sobretudo em épocas de fomes, pestes e guerras, as quais tendem a exacerbar no espírito dos homens comportamentos místicos. Ora, 1371 abarcou uma conjuntura particularmente conturbada da História Europeia e de Portugal: Guerra dos Cem Anos, vagas de peste negra, crises de escassez agrária; reinado de D. Fernando (1367-1383), marcado por surtos pestíferos, penúria agrícola, fomes e revoltas sociais, mas também pelo envolvimento do rei português em guerras desastrosas com Castela, as quais originaram o risco da perda da independência nacional.
O santuário de Nossa Senhora da Preces começou a erguer-se pelo menos no século XVII, foi ampliado nas centúrias subsequentes e conquistou novas valências. Casa do Púlpito (século XVII), antiga capela (século XVII) depois acoplada à igreja de Nossa Senhora das Preces, várias vezes aumentada (séculos XVIII-XIX), repleta de ex-votos que representam alegados milagres e o agradecimento dos crentes que deles teriam beneficiado, 12 ermidas representativas da Paixão de Cristo (século XIX), capelinhas de Santa Maria Madalena e de Santa Eufémia (século XIX), monumental chafariz de pedra servido por aparatosas escadarias (século XIX), jardim botânico ou «Quintal da Senhora» (século XIX), coreto (1895), albergue (1915-16), vedação em granito e pórticos de entrada do santuário (segunda década do século XX), uma vasta área florestal em redor da capela de Santa Eufémia, concedida pelo Estado à Irmandade de Nossa Senhora das Preces, para ampliar o logradouro do santuário (1941), e o empedramento da estrada oriunda da Aldeia das Dez até Vale de Maceira (1947), que permitiu o acesso de veículos motorizados ligeiros e pesados.
A Irmandade de Nossa Senhora das Preces, fundada em meados do século XVIII, orientada pelo capelão do santuário, assume várias responsabilidades definidas nos seus estatutos (os mais antigos conhecidos remontam a 1886): recolhe e administra as esmolas, preserva os bens móveis e imóveis do santuário, assim como organiza e promove o culto. Tal culto obrigava à celebração de três festas maiores: Pentecostes (50 dias após a ressurreição de Jesus), natividade de Maria (8 de setembro) e apresentação de Nossa Senhora (21 de novembro).
Para instigar o culto, anunciar os seus milagres e publicitar a sua obra, a Irmandade e o capelão, Mário Oliveira de Brito, criaram, em 1950, o jornal oficial de propaganda Voz do Santuário, que também não deixou de apregoar o seu absoluto alinhamento com o Estado Novo de Salazar, «homem providencial que Deus pôs no leme da barca portuguesa» (Voz do Santuário, 3-06-1956). O posicionamento incondicional do jornal ao lado do Estado Novo pode ser confirmado em diversos outros textos. Nomeadamente, nestes trechos retirados de um pequeno artigo publicado no refluxo das eleições presidenciais fraudulentas que usurparam a vitória ao candidato das oposições, general Humberto Delgado: «Os inimigos da ordem e da Pátria não se dão por vencidos. Nas eleições foram de caixão à cova, mas ficou-lhes a língua de fora. Não puderam vencer, nem convencer, mas agora procuram semear o terror, servindo-se de boatos, no intuito de desorientar e assustar a opinião pública. […] Tudo aproveitam, os inimigos da paz e da ordem, para inventar histórias de revoluções que estão a rebentar, exércitos que estão para ocupar o País e derrubar o Governo. […] O povo ingénuo acredita nisto, tanto mais que é dito em muito segredo, e porque acredita vive desassossegado» (Idem, 6-07-1958).
A consulta deste periódico dá-nos uma noção interessante da evolução do santuário e do culto da Senhora das Preces, desde os anos 50 do século XX. Por exemplo, é possível captar que, durante a década de 50, uma das principais preocupações da Irmandade e do capelão era a estrada de acesso ao povoado de Vale de Maceira proveniente da Ponte das Três Entradas, estreita, picada, mal sinalizada, demasiado sinuosa e perigosa, que por isso condicionava bastante a fluidez do trânsito e a afluência de romeiros e turistas. Outra inquietação era a circulação inadequada de veículos motorizados, ligeiros e pesados, dentro da propriedade do santuário e junto da igreja (apesar de uma variante externa ter sido aberta, em 1957, em redor da área do santuário), os quais causavam um ruído «ensurdecedor» que prejudicava a celebração dos atos religiosos. A falta de energia elétrica que tardava em chegar a Vale de Maceira, a ausência de espaços para os romeiros estacionarem e manobrarem carros e autocarros nos dias da grande romaria, a indiferença religiosa e os comportamentos mundanos e transgressores do espírito piedoso da festa assumidos por feirantes e romeiros eram outros problemas que preocupavam o capelão e a Irmandade. De resto, o confronto entre uma religião popular, mais alegre e relaxada, e uma religião oficial, mais diligente e penitencial, remontava a Oitocentos, século do liberalismo e da secularização de hábitos e costumes, ainda que, em Novecentos, nos anos do Estado Novo, as imposições austeras emanadas da hierarquia da Igreja tenham, geralmente, prevalecido sobre os comportamentos populares mais profanos.
Apesar dos condicionalismos supracitados, a romaria tradicional continuou a realizar-se com algum vigor, entre os anos 50 e 70 do século XX. No início, a grande festa celebrava-se no fim de semana do domingo de Pentecostes (vulgarmente designada por domingo do Espírito Santo). A partir dos inícios dos anos 70, por decisão do padre Mário Oliveira de Brito, quebrou-se a tradição e a romaria foi definitivamente transferida para o primeiro fim de semana de julho, que garantia dias mais quentes e secos, e por isso mais favoráveis à afluência de multidões. O programa religioso abria, no sábado, com uma missa na Igreja de Nossa Senhora das Preces. Incluía, depois, as confissões dos peregrinos, música religiosa, a oração do terço e a via-sacra noturna com pregação junto às capelinhas alumiadas por centenas de velas ostentadas pelos peregrinos. No domingo, realizavam-se missas rezadas e cantadas, uma missa campal, com sermão, preferencialmente, versando sobre a narrativa da Santa venerada, uma imponente procissão diurna — composta por irmandades, associações de várias freguesias e muitos peregrinos — que representava o clímax das celebrações. A parte profana da festa abarcava festivais de filarmónicas e ranchos no coreto do recinto, feira, comes e bebes, carrosséis e fogo-de-artifício.
O Voz do Santuário noticiava a presença nestas festas de milhares de pessoas oriundas de «todos os lados de Portugal»: dos distritos das Beiras — Coimbra, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Aveiro e Leiria —, mas também dos distritos de Lisboa, e até de Évora e de Portalegre (Idem, 3-06-1956). Um cronista anónimo mais arrebatado, embora, em certo sentido, mais clarividente (presumo tratar-se do padre Mário Oliveira de Brito, que era o capelão do santuário e também diretor e editor da publicação Voz do Santuário), arriscou escrever: «Se nos dessem licença e perdoassem o atrevimento, dizíamos que Fátima é que é uma segunda Senhora das Preces, porque Fátima é de há poucos anos e a Senhora das Preces é de alguns séculos. Simplesmente, Fátima, depois que Roma falou, foi desde os primeiros tempos amparada pela igreja e servida por muitos sacerdotes. A Senhora das Preces, porém, foi desde há muito tempo espoliada por leigos, desprezada e abandonada aos seus próprios destinos. Se a Senhora das Preces fosse sempre governada como nos seus tempos áureos de 1700 e 1800, seria hoje o que é Fátima, o que é o Bom Jesus, o que é o Sameiro – seria, sem dúvida alguma, o melhor e o mais espiritual santuário de Portugal» (Idem, 7-06-1959).
Pelo menos até 1974, a romaria da Senhora das Preces continuou a ser apresentada pelo Voz do Santuário como a «Fátima das Beiras», a «maior romaria das Beiras» ou mesmo o «mais antigo santuário mariano das Beiras». A afluência de romeiros e peregrinos a esta romaria manteve-se muito elevada, como comprovam as fotografias publicadas no jornal, que revelam muitas dezenas de autocarros amontoados ao longo da estrada e dos estacionamentos acanhados que envolvem o santuário (Idem, novembro-dezembro de 1974), ou a cifra de cerca de «16 mil pessoas» que teriam comparecido na romaria de julho de 1972 (Idem, julho de 1972).
De acordo com fontes orais consultadas, as relações entre o capelão, Mário Oliveira de Brito, a Irmandade e uma parte da população local estavam já bastante deterioradas, antes do 25 de abril de 1974. Esta última acusava o capelão de tratar os assuntos da paróquia e do santuário com vileza e prepotência. E chegou a denunciar a situação ao bispo de Coimbra, que, todavia, acabava sempre por proteger o seu sacerdote. Escassos meses depois da revolução que depôs o regime Marcelista, as relações incendiaram-se. Dessa vez, o motivo crucial que instigou o confronto foi a decisão ordenada pela mesa administrativa da Irmandade de cortar e vender pinheiros numa área baldia de 2 hectares. O capelão e o mencionado órgão administrativo da Irmandade alegavam que essa área tinha sido cedida pelo Estado à sua agremiação religiosa, em 1941; porém, alguns populares não reconheciam tal cedência, argumentando que esse terreno devia pertencer à junta de freguesia da Aldeia das Dez (Idem, novembro-dezembro de 1974). Decerto que este episódio deverá ser enquadrado nos conflitos pós-revolucionários emergentes entre uma população subitamente emancipada, mais politizada e menos devota, e a igreja oficial, os seus padres e militantes católicos mais conservadores, que apoiaram e justificaram, incondicionalmente, as políticas autoritárias e repressivas do Estado Novo. Porventura, este caso pode representar um indício de que as romarias ao santuário começavam a perder o fôlego de outros tempos. Por outro lado, é ainda plausível considerar que a magnitude crescente atribuída à Cova da Iria, à sua narrativa mística permanentemente recriada e ao culto nacional e internacional de Nossa Senhora de Fátima tenham contribuído para um paulatino esvaziamento dos santuários mais regionais de romaria e arraial como o de Nossa Senhora das Preces, na aldeia de Vale de Maceira.
Porém, como notou Célia Lourenço num artigo recente publicado na Comarca de Arganil (30-07-2020), há, hoje, sinais de uma revitalização da ancestral e outrora popular romaria da Senhora das Preces e, sobretudo, o desejo de colocar este local provido de especial beleza cultural e ambiental no centro dos roteiros turísticos alusivos ao concelho de Oliveira do Hospital e à Região Centro de Portugal.
Autor: Luís Filipe Torgal
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
"A nova década: Uma era de longevidade" -Notícia audio Caderno de Economia do Jornal Expresso
O jornal expresso inaugurou este fim de semana uma nova forma de ler notícias ou seja colocar em audio as noticias que são transcritas no caderno de economia..






