Reli os textos escritos durante todo o percurso deste projecto, que começou em 2007. Parei para pensar, abstrair-me e desfrutar de um prazer terapêutico. a escrita.
O afastamento da escrita é reflexo de momentos, onde o trabalho e a necessidade de encontrar saídas asfixiaram os pensamentos e me impediram de explanar as palavras, de me sentir FELIZ
Perguntaram-me porque é que não escrevia, que ficavam tristes quando se apercebiam que quando abriam o blogue não viam novos textos e novas ideias.
Fez-me pensar na minha utilidade e importância neste Mundo. Por vezes esqueço-me dela e descuro-a. Um abraço aqueles que me fizeram lembrar-me dela e perceber a sua importância .
domingo, 9 de fevereiro de 2014
sábado, 28 de dezembro de 2013
Conto de Natal: “Família que reza mantém-se unida”
Atravessavam-se quilómetros e aquele
apelido, por si só, era chave infalível para entrar em qualquer cofre-forte: “–
Sabe, venho da parte do sr. Forjaz”. E a casa escancarava-se mesmo à frente dos
nossos olhos, sem qualquer pergunta adicional.
A família Forjaz construíra um dos
maiores impérios da nação, graças, em primeiro lugar, à compra e venda de
habitações. Ao velho Forjaz costumavam, de resto, chamar o rei do imobiliário,
o que curiosamente até rimava com milionário.
Manuel Antunes de Pina Forjaz
nascera em Vila Marim, no norte do país, no seio de uma família da astuta
burguesia. Crescera numa velha casa de granito com vista para um penedo onde
alguém um dia inscrevera uma frase, que sempre guardaria inconscientemente por
dentro: “Família que reza mantém-se unida”. De resto, como não quisera queimar
as pestanas com os livros, acabara por casar-se com uma dama da nobreza, por
sinal bem mais velha, que, segundo acreditava, lhe poderia garantir o prestígio
de um nome azul até ao fim dos dias.
Logo após o matrimónio, partiram
para a capital e, graças ao belo pé-de-meia que traziam escondido, conseguiram
adquirir uns vastos quilómetros de terreno a escassos quarteirões do Tejo.
Apenas dois anos volvidos, revenderam alguns lotes e ganharam o suficiente para
adquirir três belas moradias na zona mais cara da cidade. A histórica Olisipo crescia então a olhos vistos e o
cobiçoso Forjaz, cada vez mais raposo, não perdia a oportunidade de ceifar a
seara.
Passaram-se anos e anos, os
suficientes para que a família Forjaz se tornasse sinónimo de sucesso em todo o
país. Aos poucos, começaram a minar as mais variadas áreas: restauração, saúde,
vestuário e, já numa fase mais recente, uma petrolífera – os reputados investidores
diziam que o ouro negro era o único futuro do país e o cobiçoso Forjaz, cada
vez mais lampeiro, em tudo o que via cheirava dinheiro.
Todavia, sobretudo a partir de uma
determinada fase da vida – talvez porque nunca tivessem filhos – os dias começaram
a parecer-lhes insuportavelmente iguais. O casal Forjaz sentia a rotina a
amargar-lhe na boca: acordar às 5h00 da madrugada, engolir o pequeno-almoço,
separar tarefas (– tu vais à clínica!; – tu segues para os restaurantes…),
atravessar a confusão dos carros parados nos semáforos, respirar o ruído do
fumo a fugir dos escapes das chapas andantes que acabavam de arrancar. E no
meio de tudo isso uma insuportável sensação de profundo vazio. Um vazio que, na
verdade, contrastava com as inúmeras pessoas que diariamente recebiam no
conforto das suas casas repletas de festas simuladas. Silêncio.
Forjaz casara-se com pouco mais de
18 anos. Maria teria na casa dos 30. Durante todas as suas vidas, nunca haviam
conhecido o sabor da fome, nem sequer algum dia haviam pensado em tal
realidade. As suas habitações eram fartas e as mesas estavam sempre recheadas
com tudo o que de melhor existia. Ainda assim, invadia-os a solidão, uma
desgastante e insuportável solidão que a cada minuto os fazia perguntar o
sentido da sua condição e, ao mais pequeno pretexto, os conduzia à discussão.
Um dia, Maria aproximou-se do velho
Forjaz e, estendendo-lhe delicadamente as mãos, mostrou-
-lhe uma caixa de sapatos, cujo interior fora forrado com um pano de seda. Lá dentro, dormitavam dois gatinhos recém-nascidos, ainda com os olhinhos bem fechados. O velho Forjaz coçou a cabeça e sorriu longamente, parecendo assim aprovar a ideia da mulher para combater aquele vazio. De resto, gostou tanto que, logo no dia seguinte, foi ele próprio que repetiu a proeza e trouxe para casa dois cãezinhos que passaram a ser uma das poucas alegrias dos seus dias de milionário solitário.
-lhe uma caixa de sapatos, cujo interior fora forrado com um pano de seda. Lá dentro, dormitavam dois gatinhos recém-nascidos, ainda com os olhinhos bem fechados. O velho Forjaz coçou a cabeça e sorriu longamente, parecendo assim aprovar a ideia da mulher para combater aquele vazio. De resto, gostou tanto que, logo no dia seguinte, foi ele próprio que repetiu a proeza e trouxe para casa dois cãezinhos que passaram a ser uma das poucas alegrias dos seus dias de milionário solitário.
A chegada dos irrequietos bicharocos
trouxe luz à escuridão do casal e a partir daquele momento os dias nunca mais
foram os mesmos. O velho Forjaz via os tapetes roídos e as cadeiras arranhadas,
mas perante o olhar complacente dos novos inquilinos nem sequer conseguia
erguer a voz para proferir a mais breve reprimenda. Limitava-se a sorrir à
esposa, que a todo o custo tentava esconder as asneiras dos bicharocos!
Bastaram alguns dias e tornou-se evidente que a harmonia trouxera finalmente
uma família à moradia. E pela primeira vez havia alegria.
Passaram-se meia dúzia de anos e os
animais cresceram alegremente na companhia uns dos outros. Nem os cães corriam
atrás dos gatos, nem os felinos se intrometiam nos afazeres caninos. Quando
muito, nos tempos mais recentes, lá vinha um miar mais assanhado ou um latido
mais assustador sempre que a comida parecia não chegar para todos. A princípio,
os quatro patas – amamentados no tempo das vacas gordas – começaram a estranhar
a diminuição progressiva da ração, mas ao fim de algum tempo lá acabaram por
convencer-se que tudo aquilo faria parte de uma dessas dietas malucas que a
dona tantas vezes prescrevia a si mesma. Arre que era teimosa!
Mesmo Fadista, o possante perdigueiro
de orelhas caídas que mais se aproximara do coração do velho Forjaz, deixara de
conseguir avançar o suficiente para sentir a mão no pêlo a afagar-lhe os
sentidos. Aliás, ainda se lembrava muito bem quando, talvez há menos de duas
semanas, tentara fazê-lo e tivera mesmo de fugir a sete pés, para não levar com
o ferro da lareira em cima da cachimónia. Gerou-se então longa discussão entre
a bicharada por muitas noites dentro.
Um dia, porém, logo pela madrugada,
chegou a ansiada explicação. Na mansão todos puderam ouvir que os Forjaz
acabavam de decretar falência e em breve tudo seria entregue aos credores. Num
ápice, as empresas foram seladas e quase de imediato vendidas em hasta pública,
o mesmo sucedendo com o restante património ampliado ao longo de décadas e
décadas de investimento e dura poupança.
Então, o velho casal, já sem o
prestígio que o dinheiro oferece ao nome de baptismo, foi forçado a deixar tudo
para trás. Quanto aos animais que um dia haviam acolhido, não hesitaram em
escorraçá-los imediatamente com sete pedras nas mãos. Pedrada após pedrada, os
desorientados bicharocos ganiam dolorosamente e rodopiavam em volta da porta,
nunca se afastando o suficiente para ficarem em segurança. Quando, por fim, as
pedras deixaram de cair sentaram-se sobre as patinhas traseiras e aguardaram.
Manuel e Maria abandonaram a mansão
pela porta das traseiras numa manhã de Inverno. Mais sós do que nunca,
arrastaram-se pelas ruas da cidade durante várias semanas. Sentiram frio,
conheceram a fome, dormiram nas entradas dos edifícios que no passado haviam
possuído e, ironia das ironias, acabaram a vasculhar a comida dos restaurantes
onde ainda há pouco davam ordens. E enquanto percorriam as ruas em busca das
portas abertas sentiam o desprezo das inúmeras visitas que durante anos e anos
haviam diariamente recebido nos seus lares…
Numa dessas intermináveis noites em
que vagueavam pelas ruas abandonadas atracaram na velha mansão onde um dia
haviam imperado. Repararam então que no interior da casa havia luzes, muitas
luzes, e decidiram esperar atrás de um enorme arcipreste que crescera do outro
lado da calçada. Estava escuro e, por certo, lá dentro, o jantar estaria
prestes a terminar. – Talvez depois algum
empregado venha despejar os restos das refeições no lixo... – matutaram
para os seus botões. E esperaram, sempre escondidos.
Estava frio, muito frio mesmo, e os
trovões sulcavam assustadoramente os céus. Manuel abrigava a mulher debaixo da
gabardina, apertando-a contra o peito quando, subitamente, o ansiado criado da
mansão ultrapassou o secular portão de castanho. Viram-no debruçar-se e
assobiar, durante alguns minutos. Logo depois, chegaram dois cães franzinos,
com as caudas a abanar, fixando atentamente o homem da camisa branca que lhes
estendia os restos da noite. O empregado aproximou-se e antes de partir
afagou-lhes ternamente o cachaço, sem sequer ter tempo para ver os dois gatos
que, entretanto, se haviam acercado da desejada comida.
À distância, Manuel podia jurar
conhecer aqueles animais de algum lado, mas a miopia cada vez mais acentuada
imprimia uma perspetiva impressionista a todas as imagens que lhe chegavam à
mente. Então, deixou o homem da camisa branca fechar completamente o portão e,
depois de avançar alguns metros, quase sentiu um aperto no peito, quando
identificou os bicharocos que ainda há tão pouco tempo havia escorraçado à
pedrada. Percebia agora que eles sempre haviam permanecido por ali…
Pressentindo-os avançar para a
desejada comida, Manuel assobiou o mais alto que conseguiu, enquanto coxeava em
direção ao centro dos acontecimentos, arrastando atrás de si a sua mulher, cada
vez mais fraca e dorida pelo gelo da noite, pelo imenso poder da fome. Vazio.
Ao assobio, os animais olharam em
uníssono para o casal, completamente absortos da cabeça às patas, sem qualquer
movimento, talvez estupefactos pela inesperada presença dos seus donos. Até
que, sem que nada o fizesse prever, um a um, todos se desviaram da fumegante
refeição, como que abrindo caminho aos estômagos vazios daqueles que ainda
recentemente os haviam abandonado.
Vendo aquela surpreendente prova de
fidelidade e bondade, Manuel baixou ternamente a face e apertou a mão de Maria
com mais força. Negociante de poucas palavras, sempre lhe haviam ensinado que
um homem não chora, e por isso continuou a arrastar a mulher pela calçada fora.
Depois, sempre juntos, sentaram-se lado a lado, recolheram a comida do chão e
começaram a atirá-la, alternadamente, a cada um dos animais, também eles
profundamente esfomeados. Já há vários dias que nenhum dava uso à dentuça.
Nas ruas não havia ninguém. O frio
descia silenciosamente das montanhas e atravessava cada ser até às mais
profundas entranhas. Aninhados sobre a entrada da mansão onde um dia haviam
crescido, os quatro patas envolviam-se num lânguido sussurro, rodeando
ternamente os seus donos, com ou sem dinheiro, com ou sem roupas douradas ou
insígnias imaginadas. Nem sr. Forjaz, nem sr. Manuel, nem conde, visconde, deão
ou barão. Apenas e sempre os seus donos, finalmente de regresso. Nada mais.
Ali mesmo, do outro lado dos seus
antigos abrigos, não havia solidão. Afinal, também ali chegara, provavelmente,
uma das maiores lições desta época: “Família que reza mantém-se unida” – e
existem tantas formas diferentes de rezar…
Naquele inesperado local, pela
primeira vez na vida daquele casal foi Natal…
[Natal,
Ferida sem mal,
Safanão de luz
Que nos conduz
A perceber
Que apenas reencontramos
O que somos
Quando fugimos do artificial.
Natal, cordão umbilical,
Caminho que nunca se constrói
sozinho;
É preciso merecê-lo
Para depois recebê-lo
E não
voltar a perdê-lo.]
Renato Nunes
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Entre a História e a vida
Historiadores
e filósofos clássicos como Heródoto, Tucídides ou Cícero acreditaram que “a
História é a mestra da vida”. Alguns autores mais recentes, no entanto, têm
vindo a sustentar que a grande mestra da História (e da Humanidade) é a vida: enquanto
esta nos grava na pele as duras aprendizagens adquiridas à custa dos nossos
próprios erros, a primeira limita-se, em traços sumários, a mostrar-nos à
distância alguns percursos trilhados pelos nossos antepassados. Trata-se de uma
distinção que, embora simplista, talvez possa ajudar-nos a compreender a
crónica dificuldade que sentimos em aprender com os erros dos outros…
Vem este arrazoado a propósito de
uma reflexão que já algum tempo venho amadurecendo acerca das relações do Homem
com a História, em particular nestes tempos tão estranhos que continuamos a
viver. Estar atento aos sinais dos dias deveria ser uma tarefa de todos os
cidadãos e, em particular, daqueles que consagram a vida ao estudo desta “narrativa
científica”. Também por isso, não consigo aceitar (embora me pareça fácil
explicar) o “enterrar da cabeça na areia” que para aí vai grassando, mesmo
entre pessoas com responsabilidades histórico-culturais evidentes…
Por isso, no início deste terceiro parágrafo
lanço um desafio ao leitor: perca algum do seu tempo a observar as emissões do “Canal
História”. Aí, poderá deparar-se com várias “preciosidades esotéricas”, que
podem passar pela procura de seres extra-
-terrestres nas mais surpreendentes construções feitas pelo Homem, no âmbito das várias civilizações, ou até mesmo, só para dar outros exemplos bizarros, pela busca de vampiros, monstros lendários ou deuses que se fizeram Homens… Podia, afinal, falar de um “Canal História” que, de um modo regular, parece querer falar de tudo, menos de História. Naturalmente que, se um canal que deveria ser de referência é assim, nem vale a pena explorar o que acontece no caso dos generalistas… big brother’s (ressalve-
-se aqui, apesar de tudo, o meritório esforço da RTP2 do ponto de vista cultural, pese embora a espada de Dâmocles – leia-se, privatização – que paira sobre a sua cabeça…).
-terrestres nas mais surpreendentes construções feitas pelo Homem, no âmbito das várias civilizações, ou até mesmo, só para dar outros exemplos bizarros, pela busca de vampiros, monstros lendários ou deuses que se fizeram Homens… Podia, afinal, falar de um “Canal História” que, de um modo regular, parece querer falar de tudo, menos de História. Naturalmente que, se um canal que deveria ser de referência é assim, nem vale a pena explorar o que acontece no caso dos generalistas… big brother’s (ressalve-
-se aqui, apesar de tudo, o meritório esforço da RTP2 do ponto de vista cultural, pese embora a espada de Dâmocles – leia-se, privatização – que paira sobre a sua cabeça…).
Esta é, no entanto – como outros
articulistas já denunciaram –, a ponta do icebergue de uma tendência mais
vasta, que se reflecte, por exemplo, no modo como a História aparece
representada nos escaparates das grandes superfícies comerciais, com títulos
cada vez mais sensacionalistas e graficamente adornados, mas cujo conteúdo
está, afinal, para a História como um camelo para o rio Mondego… Depois, quanto
aos estudos sérios que ainda vão existindo (sim, porque neste país ainda se
produz alguma investigação séria e rigorosa), quando conseguem ser editados,
raramente chegam ao grande público por mais de uns fugazes instantes, logo
desaparecendo (inexplicavelmente?) dos expositores.
Serão estas grandes transformações
inconscientemente fabricadas pelos arautos do neo-liberalismo reinante neste
novo século, quais usurários que há muito venderam a alma ao Diabo, em nome do
seu único deus, o dinheiro? Tratar-se-á apenas de ignorância ou as razões serão
mais obscuras? Existirá uma estratégia deliberada de reconverter os cidadãos em
súbditos, o pensamento em obediência? Estaremos, afinal, a regressar
paulatinamente, sub-repticiamente, a um Estado totalitário, que se intromete
nos mais variados domínios da existência do indivíduo, regulando e vigiando
obsessivamente tudo o que somos, passando até mesmo pelo número de animais que
acolhemos dentro das casas onde vivemos? Aproveitar-se-ão os líderes do facto
de as multidões preferirem ser conduzidas, em detrimento de tomar as rédeas do
futuro nas próprias mãos? E poderão, efectivamente, tomá-las? O leitor saberá
encontrar a sua resposta. Mas, por favor, reflicta. E ouse discordar das minhas
respostas.
Respostas que, afinal, são cada vez
mais difíceis de encontrar, sobretudo para aqueles que se sacrificaram ao longo
de uma vida inteira ou para os jovens que desperdiçaram décadas a concluírem
percursos académicos, muitas vezes com distinção, e depois são convidados a
emigrar para o resto dos seus dias. Respostas que, de resto, não estão ao
alcance dos comuns mortais e cujo sentido, por mais que os nossos manhosos líderes
nos procurem inculcar, deixam sempre qualquer ser pensante com a pulga atrás da
orelha. Afinal, como recentemente me escrevia um amigo, este país já não é para
jovens, nem para idosos e, naturalmente, ainda menos para crianças. Este país é
para as pedras e, claro, para os arrivistas, os burocratas mangas-de-alpaca, os
corruptos, os farsantes, tantos engenheiros ou doutores “à la burla”, que
depois até lançam livros onde se apresentam como vítimas de um sistema que
ainda há bem pouco tempo ajudaram habilmente a forjar…
Atravessamos um período de indefinição,
laxismo, niilismo, anomia e, sobretudo, de total impunidade em relação aos protegidos
dos vários reis que para aí existem. Efectivamente, pensando bem, Portugal abandonou
a Monarquia em 1910, mas nunca deixou de ser um conjunto de pequenos reinos,
governados por vários caciques, cuja utilidade é tantas vezes justificada com o
pretexto de um carimbo ou uma simples rubrica. Olhamos à nossa volta e vemos
polícias condenados à prisão por terem colocado a vida em risco, perseguindo
criminosos; pais com medo de imporem regras aos filhos, pela pressão social de
algumas correntes psico-pedagógicas que transformam as crianças em deuses que
não podem ouvir um não ou sentir o traumatismo da frustração e muito menos de
um berro; professores ameaçados, agredidos, publicamente humilhados e, agora,
forçados a fazer provas cujo principal objectivo, além de representar um belo
encaixe financeiro para os cofres do Estado, passa por escamotear os dramáticos
números do desemprego. Afinal, deixarão de existir docentes desempregados, cinicamente
reconvertidos em candidatos a professores que não conseguiram obter aprovação
na tal prova generalista já do dia 18 de Dezembro, onde serão testadas as
competências esotéricas que para aí grassam… A verdade é que a qualidade do
sistema não constitui o grande objectivo deste tipo de medidas com carácter
eliminatório que, de resto, me fazem lembrar um pouco a trágica anedota do
paciente que se dirige repetidamente ao médico, queixando-se de dores no peito
e o clínico limita-se a mandar-lhe repetir exames atrás de exames, até que o
desgraçado lá acaba por morrer e, desse modo, contribui para a redução
estatística do número de doentes. Não é, afinal, o que tem sucedido em Portugal
ao longo dos últimos anos com esta obsessiva ideia de que tudo se resolve com
mais exames, em detrimento de atacar as verdadeiras causas? A este ritmo, não
tardará que deixem de existir desempregados, pobres, deficientes ou quaisquer
outro tipo de calamidades e então o reino dos céus terá, finalmente, chegado a
este cantinho do Mundo… Hoje, no meio de tanta miséria e de tanto cinismo, os
acenos que o poder nos faz são cada vez mais apetecíveis. Depois, resistir-lhes
implica uma integridade, que, reconheço, nem sempre se coaduna com a
necessidade de sobrevivência.
As linhas traçadas para o futuro
deste país, nomeadamente ao nível da Educação, são simplesmente desastrosas.
Veja-se, por exemplo, a preconizada privatização das Escolas (ninguém se iluda:
é o que está realmente a acontecer), que significará “apenas” a destruição de
um dos mais poderosos meios de mobilidade social ascendente construído neste
país no pós-25 de Abril e que permitiu a vários jovens (entre os quais me
incluo) continuar a estudar e ensaiar construir um futuro diferente das raízes
onde nasceu. Com todas estas medidas, no mundo dos privados, as elites poderão
continuar a perpetuar-se (dinheiro gera dinheiro, poder gera poder) e os
desgraçados do berço poderão igualmente perpetuar-se… na miséria. Estamos,
afinal, perante um profundo retrocesso civilizacional.
Os arautos que nos desgovernam
parecem efectivamente acreditar no efeito Mateus: “Porque ao que tem, dar-se-á
e terá em abundância; mas ao que não tem, ser-
-lhe-á tirado até mesmo o que tem”. Será que é apenas porque nunca conheceram o amargo de não ter? A verdade é que – perdoem-me o desabafo – ninguém deveria governar os outros sem conhecer o sabor da fome, sem sentir na pele a verdadeira dimensão da realidade.
-lhe-á tirado até mesmo o que tem”. Será que é apenas porque nunca conheceram o amargo de não ter? A verdade é que – perdoem-me o desabafo – ninguém deveria governar os outros sem conhecer o sabor da fome, sem sentir na pele a verdadeira dimensão da realidade.
Neste último parágrafo, debruçado entre
a vida e a História, opto pelas pontes que unam as duas construtoras da memória
e, consequentemente, de tudo o que somos. Recordando o meu próprio percurso
pessoal e daqueles que me são mais próximos, regresso à História-ciência e
História-docência a que um dia pensei, ingenuamente, poder consagrar a vida, em
regime de exclusividade. Regresso a todos os gigantes que continuam a
transportar-nos aos ombros. Regresso a esses gigantes, a tantos heróis do
silêncio do anonimato, que merecem, pelo menos, a nossa indignação. E deles recupero
uma lição que a História parece querer gritar-me – se a indiferença vencer, o
século XXI não será muito diferente do século que o antecedeu: 1914-1918 – I
Guerra Mundial; 1939-1945 – II Guerra Mundial, Holocausto… Será mesmo
necessário continuar a escrever, sabendo que apenas este último conflito terá
provocado mais de 50 milhões de mortos e a banalização do genocídio? Até quando
a História e a vida caminharão de costas voltadas dentro de cada um de nós?
Renato
Nunes
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Os compromissos impossíveis (ou infrutíferos…)
Numa
entrevista a Igrejas Caeiro, em 1958, o historiador Jaime Cortesão disse: “Eu
penso também que toda a História tem um carácter contemporâneo. Nós estudamos a
História como quem procura responder a questões do nosso tempo” (Alfredo Ribeiro
dos Santos – Jaime Cortesão UM DOS
GRANDES DE PORTUGAL, 1993, p. 343).
Talvez resida aqui a génese do meu progressivo
interesse pelas primeiras décadas do século XX. De facto, é difícil não
encontrar aspectos análogos entre as duas primeiras décadas do século
transacto, em Portugal – e, de um modo mais vasto, em toda a Europa – e a
situação de clara indefinição política que vivemos na actualidade. No passado,
o descrédito dos actores políticos conduziu muitas pessoas, entre as quais se
contaram inúmeros intelectuais, a acreditar que a ditadura era o único caminho
possível para a salvação do país. O próprio António Sérgio, intelectual que
evoluiu para concepções socialistas democráticas e participou nos movimentos
oposicionistas ao Estado Novo, que se definia como “apartidário”, escreveu,
numa carta datada de 3 de Dezembro de 1912, a Raul Proença: “Sem tirania
governa-se e deve-se governar num
país educado, constituído, organizado; mas temo bem que sem tirania não será
possível meter na organização um país em que o governo, as classes dirigentes
são uma súcia de bandidos, charlatães e parasitas, como entre nós. Eu peço a
tirania, não a tirania de um, mas uma tirania trocada entre miúdos. Em cada
repartição, em cada escola, em cada quartel, em cada instituto, um pequeno
tirano cheio de boa vontade e de saber concreto, capaz de resistir à força
acumulada e asfixiante da imoralidade hereditária, que já deixou mesmo de ser
imoral, de tal maneira entrou nos costumes” (António Sérgio – CORRESPONDÊNCIA PARA RAUL PROENÇA, 1987,
p. 40).
E numa carta datada de 1923,
prosseguiu o mesmo ensaísta: “Os políticos procedem como se graves perigos nos
não ameaçassem a todos”. (obra citada, 1987, p. 166).
Noventa anos depois desta última
carta, quantos portugueses não se poderão, afinal, rever nas palavras do
ensaísta/historiador? Que outra caracterização se poderá atribuir ao modo como
o nosso Primeiro-Ministro tratou o seu parceiro de coligação do CDS/PP, ao
longo de vários meses, ou a “criancice” que Paulo Portas, já amuado, utilizou
para chamar a atenção? Cento e um anos depois da primeira carta, quantos
portugueses não acreditarão que, efectivamente, a única solução passa pela
ditadura? Pois bem, pese embora toda a desilusão que o actual sistema político
continua a merecer-me – já lá irei – continuo a não acreditar em tiranias ou em
tiranos, ainda que amplamente anunciados como temporários ou transitórios,
simples intermediários para depois chegar à “idade do ouro”, como, de resto, a
própria Manuela Ferreira Leite parece já ter defendido quando falou em
“suspensão da democracia”.
Dito isto, nada me inibe, também, de
escrever que não confio num entendimento a três partidos, que o ressabiado senhor
Presidente da República parece ter sonhado numa noite mal dormida. Quem quiser
acreditar que o “Governo de Salvação Nacional”, caso consiga, efectivamente,
formar-se (para além de um ineficaz plano de generalidades…), é capaz de
regenerar o sistema político em que nos movemos; quem quiser – repito –, que
acredite. A mim, que me perdoem, mas esta ideia de um “milagre” não me convence,
embora fique feliz, caso a História venha a comprovar que estou errado.
Se Cavaco Silva conhecesse esta
afirmação de António Sérgio, que a seguir reproduzo, talvez pensasse duas vezes
antes de avançar para a solução que anunciou: “As melhores reformas são aquelas
de que os legisladores não têm conhecimento, as que passam desapercebidas na
Imprensa Nacional. Uma reforma de organização nunca reforma cousa alguma, e
introduz confusão e indecisão nos serviços até que a nova organização se torna
habitual. Sou sempre portanto por que se mantenham as formas o mais possível” (obra
citada, 1987, p. 41). A educação e a
cultura não são, portanto, um bem supérfluo, mas uma necessidade.
É, de resto, extraordinário que numa
época em que se defenda, às vezes até à exaustão, a descentralização, se tenha
recentemente interferido com uma das vias que ainda podem ajudar-nos a
perseguir o caminho do desenvolvimento: as freguesias. O já decretado fim de
várias freguesias, concebido de régua e esquadro a partir dos gabinetes
ministeriais, sem tomar em conta as necessárias especificidades, não representa
apenas uma poderosa machadada no poder local ou nas legítimas e históricas
pretensões autonómicas das populações, mas, segundo creio, um rude golpe num
dos caminhos que nos permitiria apostar no crescimento. Bastará, de resto,
comparar a evolução de algumas das mais recentes freguesias para perceber, a
olho nu, as diferenças entre o antes e o depois, por vezes até mesmo sem o
auxílio dos fundos estruturais europeus… e, já agora, que daqui a alguns anos
se volte a fazer o mesmo exercício nas freguesias agora extintas…
Sem cair nas ilusões do
regionalismo, a verdade é que seria fundamental que o poder central passasse a
olhar o poder local de outro modo, muito especialmente no que diz respeito ao
extraordinário poder de influência das Juntas de Freguesia na própria vida das
populações e na gestão das melhores soluções para o seu desenvolvimento.
Bastará, de resto, pensar que, prestes a chegar ao mês de Agosto, continuamos a
assistir aos malogrados incêndios, que todos os anos consomem uma das maiores
riquezas naturais que possuímos, e continuamos, impávidos e serenos, com um
número significativo de beneficiários de vários subsídios a fazer,
rigorosamente nada. Pura e simplesmente, desprezamos o precioso conhecimento
que as Juntas possuem destas e de outras matérias…
É certo que a mediocridade e a
corrupção também chegam ao nível dos autarcas concelhios e dos presidentes das Juntas.
É igualmente evidente que nos faltam estadistas, capazes de, numa lógica de
médio e longo prazo, pensarem em estratégias eficazes para revitalizar,
sobretudo, os concelhos do interior do país, operacionalizar políticas de
desenvolvimento local e, por exemplo, estancar o êxodo rural, promovendo
políticas de incentivo à fixação das pessoas e à própria natalidade. É certo
que continuamos a navegar à cabotagem, pensando apenas no dia de hoje, mas, com
todos os vícios que o poder local possa, efectivamente, enfermar, é com ele que
devemos contar. É fundamental investir seriamente na formação das pessoas que
estão à frente do poder local, pois elas representam a linha da frente de todos
os combates, e, segundo creio, é com elas que, verdadeiramente, ainda poderemos
contar para melhorar a situação do país.
Enquanto cidadãos, que ousam pensar
pela própria cabeça e não devem hesitar em apontar o dedo aos (evidentes) erros
dos muitos mercantilistas que nos têm governado, a verdade é que também chegou
a altura de percebermos, enquanto simples cidadãos, que todo este sistema é
insustentável tal e qual como está estruturado. O “Estado Providência”, uma das
grandes conquistas do século XX, deve ser colocado à disposição daqueles que, efectivamente,
necessitam e não sob o interesse de corporações ou interesses partidários. Doa
a quem doer, esta mentalidade que, inacreditavelmente, ainda vai existindo
mesmo entre os mais jovens (“O Estado tem de aguentar, sempre aguentou”), esta “filosofia
de vida” é, quanto a mim, insustentável. Apoiar quem verdadeiramente necessita,
sim; alimentar a ideia de que não é necessário trabalhar, sustentar o
parasitismo, não. Até porque, não o esqueçamos, neste momento, enquanto país,
dependemos do dinheiro dos outros para continuar a funcionar.
Sem procurar aqui escamotear os
problemas intrínsecos a várias autarquias (endividamento imparável, elevado
número de funcionários públicos recompensados pelos partidos, ao longo de
décadas, com um lugarzinho ao sol…), a verdade é que, segundo creio, uma
efectiva visão estratégica, a médio e longo prazo, para o país poderia começar
pelo poder local. Seria um dos passos para privilegiar a economia, em
detrimentos das finanças o que equivale a dizer, pensar para além de hoje…
O país ganharia, aliás, se Cavaco
Silva (um dos responsáveis pela destruição da nossa agricultura e das pescas…) tivesse
nomeado ele mesmo um governo de transição, indo, por exemplo, buscar os seus
membros a todos os partidos – de um modo proporcional aos resultados obtidos
nas últimas eleições –, mas baseando a sua escolha no mérito, no curriculum, no percurso de uma vida (que
não tem de passar, necessariamente, pela Universidade) e não no sistema de
compadrio que para aí grassa. Bem sei que muitos me dirão que todos os partidos
estão “minados”, mas, goste-se ou não, eles são imprescindíveis numa democracia.
Todas as opções que consigo, de resto, imaginar – incluindo aceitar a proposta
de remodelação apresentada por Passos Coelho – me parecem, por conseguinte,
mais acertadas do que esta infeliz proposta de um “casamento a três”, que mais
não faz, afinal, do que prolongar a incerteza em que vivemos…
Face à importância do poder local,
seria importante encetar, de imediato, um contacto mais estreito com as autarquias
e as freguesias de todo o país. Ouvir as populações, sentir os seus problemas,
pressentir os obstáculos ao seu desenvolvimento e daí tirar conclusões que se
vertessem em medidas concretas… Com todos os defeitos que esta proposta possa
envolver, estou certo que seria, pelo menos, bem mais vantajosa para o país do
que uma visita às ilhas Selvagens, onde, neste momento, por certo, Cavaco Silva
deverá andar, absorto no mundo imaginário em que vive, a ouvir o som das cagarras...
A questão da credibilidade do regime
político e dos seus principais actores pode ser associada à grave crise
económica e financeira em que vivemos. Faltam-nos, eu diria que quase sempre
nos faltaram, ao longo da História, políticos competentes e acima de tudo bem-intencionados.
Neste momento e cada vez mais, a honestidade, o “dar o exemplo”, funcionariam
como factores decisivos de credibilização daqueles que nos conduzem.
Ademais, a curto prazo, a política
tem de abrir-se, forçosamente, aos cidadãos que não se encontram vinculados
partidariamente, pois este modelo de arregimentar os boys para os partidos (que chegam depois, rotativamente, ao poder)
está profundamente esgotado. É, de resto, inconcebível – pese embora todos os
perigos que daí possam resultar – que um simples cidadão não possa apresentar a
sua candidatura a Primeiro-
-Ministro, sem ter o trampolim dos partidos a catapultá-lo. Ademais, segundo creio, seria importante reformular o próprio modo de funcionamento da Assembleia da República, mas isso justificaria, por si só, um novo artigo, pelo menos…
-Ministro, sem ter o trampolim dos partidos a catapultá-lo. Ademais, segundo creio, seria importante reformular o próprio modo de funcionamento da Assembleia da República, mas isso justificaria, por si só, um novo artigo, pelo menos…
Se António Sérgio nos dizia que “uma
reforma de organização nunca reforma cousa alguma”, também é certo que a
História nos ensina que sempre que o Homem sonhou destruir tudo e começar a reedificar
a partir do zero o resultado final foi catastrófico. Esse extremismo foi, de
resto, um dos motivos que esteve na origem da perseguição movida aos Judeus ou,
apenas a título de exemplo, aos que ousaram pensar pela sua própria cabeça.
Vivemos num tempo em que o cata-vento do nosso destino pode, a qualquer
momento, virar-se para qualquer lado, um pouco à semelhança do que ocorreu nas
primeiras décadas do século XX. Ontem, como hoje, os ventos do extremismo são
fortes e, brevemente, tenderão a tornar-se ainda mais poderosos, com o
inevitável aumento do desemprego, dos problemas sociais e do aparecimento de
novos Messias portadores da Boa Nova, mas a decisão de escolher é apenas nossa…
Enquanto a tivermos, não a desperdicemos.
Na altura das grandes decisões, o
conhecimento da História fará toda a diferença. A educação, obtida com rigor,
método e trabalho, fará, cada vez mais, toda a diferença… Dessa diferença
resultará, afinal, o país que queremos legar aos nossos filhos.
Renato Nunes
domingo, 16 de junho de 2013
Eternas lições de palmo e meio
Já a manhã ia avançada quando a
versão musicada por Paco Bandeira do inesquecível poema de Fernando Pessoa atravessou
o infinito da sala: “No plaino abandonado//Que a morna brisa aquece//De balas
trespassado//Duas de lado a lado//Jaz morto e arrefece”. E estrofe a estrofe o
silêncio crescia dentro de nós.
Esgotada
a canção, regressou-se a cada verso, um a um. Bebemos então cada palavra, cada
letra, como quem alcança água em pleno deserto. E na cabeça da menina, tão grande
por fora e tão pequenina por dentro, começou a construir-se uma imagem. Uma
história talvez até mais concreta do que esta caneta que agora seguro entre os
dedos.
E
a menina viu, mesmo à sua frente, uma planície quase deserta, onde talvez ainda
pairasse no ar o cheiro da destruição que apenas as armas podem deixar. Um
jovem deitado no chão, com uma cigarreira ao lado e um lenço branco no bolso, a
esvoaçar interminavelmente. A farda raiada pelo sangue. O olhar vazio.
Silêncio. Dor indizível. E uma insuportável sensação de não haver tempo: “Tão
jovem, que jovem era//Agora que idade tem”.
Lá
longe, uma mãe que reza pelo seu menino, o seu único filho, estupidamente
mobilizado pelos homens de gabinete, para matar ou deixar-se matar. Na cozinha
ou na sala – quem nos pode impedir de imaginá-lo? – talvez uma “criada velha”
que chora, sempre que pensa naquele lenço branco que um dia deu ao menino que
ajudou a tornar homem. E, minuto após minuto, uma flor crescia no olhar daquela
menina, de quem tantos diziam (dizem) não ter emoções, por ser autista.
Verso
a verso, palavra a palavra, letra a letra, eis-nos chegados à antepenúltima
estrofe do poeta dos heterónimos. Então, a menina perguntou:
“–
A mãe queria muito que o filho voltasse, não queria?”.
“–
Queria! Nem podes imaginar como ela sonhava…”.
Mas
as lágrimas não me deixaram concluir a resposta. Num ápice, atracámos na última
estrofe; a meta tão aguardada por aquele olhar misterioso que teimava em perscrutar-me
por dentro, como se houvesse um segredo para lá da minha própria consciência,
um segredo que eu próprio nunca conhecera. Então, com os olhos entrelaçados, percorremos
com os dedos as últimas palavras: “Lá longe em casa há a prece//Que volte cedo
e bem//Malhas que o império tece//Jaz morto e apodrece//O menino de sua mãe”. E
mesmo a meu lado a pergunta voltou a ecoar:
“–
O menino nunca voltou para a mãe?”.
“–
Pois não. Nunca, nunca mais voltou. E todos os dias existem meninos que voltam
a partir, para nunca mais regressar…”.
E
eu vi – posso jurar que vi – o olhar daquela menina transformar-se num oceano,
onde o tempo e as civilizações se confundem. A escassos centímetros do meu
olhar, uma lágrima, da cor de cristal, escorreu-lhe ternamente pela face. E
todo o sentido da vida se condensou naquele momento.
Lá
longe, não consigo dizer muito bem onde, talvez Fernando Pessoa tenha sentido o
poder das palavras que nos deixou. Aquele poema, autêntica chave para abrir
corações, destruiu a poderosa armadura do autismo e foi alojar-se no local mais
profundo da consciência humana. E quiçá Pessoa tenha sorrido, perante o
incrível poder das palavras, perante o revolucionário poder da poesia.
Alguém
escreveu um dia, penso ter sido Günter Grass, que depois de Auschwitz não poderia haver mais poesia.
Pelo contrário, eu cada dia acredito com maior convicção que depois de Auschwitz – e de tudo o resto… – talvez
só a poesia (ou a arte, de um modo mais geral) ainda nos pode salvar.
Sensibilidade – ferida para a compreensão das diferenças e motor de todas as
mudanças… [As feridas//Portas abertas//Rumo ao vazio//Do
nosso silêncio. //Quando lá tocamos//É que nos arrepiamos//E lavamos//Com as
lágrimas que libertamos…].
A alguns minutos daquele episódio, chegou
outro menino. Vinha cansado de tanto correr, ávido de ser ouvido. E falou-me da
sua ida à igreja. Segredou-me que gostava de estar na casa de Deus, onde ia com
a “senhora” da instituição onde vivia. Quando lhe perguntei se rezava,
confessou-me nem saber em que pensava quando lá estava. E eu voltei
imediatamente à carga:
“–
Então, o que sentes?”.
“–
Sinto uma mão na cabeça, a proteger-me”.
Tantos
anos depois dos episódios aqui descritos, imbuído pelo vazio próprio do fim do
ano lectivo, dou por mim aqui sentado, nesta sala com vista para o infinito do
mar. E surpreendo-me a pensar que nenhum menino de 10 anos deveria conhecer o
sabor de tamanha solidão para necessitar desta mão, imaginária ou não…
[O
modo como lidamos//Com a diferença//Revela o que somos//Para lá do que a vista
alcança. //Abençoados aqueles que ouvem as estrelas//Pois, nem todos podem
ainda vê-las. //Talvez um dia, talvez um dia//Quando houver sabedoria…].
Renato Nunes
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“Alcança quem não cansa”
27 de Maio de 1963, meio-dia e
trinta: falecia, no Hospital da CUF, de Lisboa, Aquilino Ribeiro, depois de 50
anos de intenso labor literário, que lhe permitiram revelar à luz do dia cerca
de 70 livros, 17 dos quais romances. E, importa sublinhá-lo, falamos de um
autor cujas publicações rondam uma média de 200 páginas por volume! Ademais, poderíamos
mencionar as incursões histórico-biográficas feitas pelo escritor, os artigos
de investigação literária, as memórias, as crónicas, os textos publicados em
jornais, entre outros trabalhos que a própria investigação ainda vai resgatando
do desconhecimento público.
Ora, no ano em que também se
completam os 100 anos da sua estreia literária (1913, Jardim das Tormentas) não resistimos à tentação de deixar aqui
algumas reflexões sobre o notável romancista beirão, que foi, diga-se desde já,
um dos poucos autores nacionais a dedicar-se, praticamente ao longo de toda a
vida, em regime de exclusividade às letras.
Nascido na freguesia do Carregal,
concelho de Sernancelhe, no dia 13 de Setembro de 1885, quando reinava em
Portugal D. Luís I, Aquilino Ribeiro viveu num período de encruzilhadas:
Monarquia, I República, Ditadura Militar e Estado Novo. Filho de um sacerdote,
ingressou no Seminário de Beja, foi expulso, rumou para Lisboa, sentiu-se
atraído pelos ideais republicanos e, inclusivamente, tomou contacto com os
regicidas (na obra Dossier Regicídio o
Processo Desaparecido, o professor de Filosofia Política da Universidade
Católica Mendo Castro Henriques acusa o autor beirão de ser um dos regicidas,
embora, segundo a nossa perspectiva, nunca apresente factos contundentes sobre
essa ilação, sustentada apenas em indícios, que apesar de constituírem uma
importante base para futuras investigações não encerram definitivamente o
problema). Preso durante a Monarquia, detido durante a Ditadura Militar, evadiu-se
por duas vezes dos calabouços e lutou, de armas nas mãos, pelo restabelecimento
da República.
Já durante o Estado Novo
(1933-1974), Aquilino Ribeiro, pese embora o facto de ter sido durante vários
anos um dos (poucos) autores “intocáveis” e inclusivamente elogiado pelo
próprio António de Oliveira Salazar, viu, por exemplo, ser-lhe instaurado, em
1959, um processo-crime devido à publicação do seu romance Quando os Lobos Uivam, que, entretanto, foi proibido e retirado dos
escaparates.
Aquilino cultivou, como poucos, o
ideal humanista de conhecimento. Toda a sua obra transpira, afinal, o amor que
o autor do romance Terras do Demo (1919)
tinha pela vida, nas suas mais variadas e ínfimas formas. Por isso, deu voz aos
animais como dificilmente encontraremos paralelo na história da literatura
nacional. O paradigmático Romance da
Raposa (editado em 1924) e alguns contos da Arca de Noé – III Classe (1936) bem mereciam figurar na lista de textos
estudados nas Escolas…
Atento como poucos aos pormenores,
bebeu na Natureza grande parte da sua inspiração. O contacto com os clássicos,
o estudo afincado do latim, desde os seus tempos dos “Preparatórios” e do Seminário,
as vivências na Beira, as suas deambulações pela capital do início do século XX,
que então fervilhava em ideais revolucionários, bem como, inquestionavelmente,
a sua experiência de exilado político em Paris (ainda que de um modo
intermitente, entre 1908 e 1931 Aquilino esteve exilado por três vezes na
capital francesa) constituem factores determinantes para compreender o
(invulgar) domínio que o “Mestre” (como foi frequentemente apelidado) revelava
da língua materna.
Aquilino: um homem que viveu numa
época de encruzilhadas, mas também, conclusão da nossa responsabilidade, um
homem de charneira, que nos permite perceber que, se é bem verdade que as
épocas históricas são atravessadas por rupturas, não é menos verdade que também
podemos detectar continuidades... Pese embora o facto de continuar a ser um
autor pouco lido ou estudado (a começar nos bancos das Escolas ou das
Universidades), Aquilino revela-se fundamental para compreender uma parte
significativa da nossa História recente e, por conseguinte, o nosso próprio
presente…
Numa carta enviada a Vitorino Nemésio,
com a data de 25 de Abril de 1930, portanto quando decorria o seu III exílio, o
“Mestre” desabafa, em tom de presságio: “A verdade é que cada vez me convenço
mais que isso não é uma pátria, mas uma tripa. Com mágoa o penso e digo. Há uma
coisa que me enternece aí: a natureza e o camponês. No fundo, não fazem mais
que um: terra. Os poetas, os políticos, os literatos, na maioria, que
detestável cambada! […] Não auguro nada do futuro de Portugal e do final desta
tragicomédia”. (Cf. Jorge Reis – Aquilino
em Paris. 1.ª edição, Lisboa, Veja, 1988, p. 112).
Numa época em que, à semelhança do
passado, vemos os nossos jovens (quase sempre os melhores…) forçados a
abandonar o país, também por motivos políticos (a incompetência política de uma
parte significativa daqueles que nos governaram – governam – tinha de conduzir,
necessariamente, a este país sem futuro), pensamos que valerá a pena regressar
à obra aquiliniana. Além de constituir um tratamento profiláctico contra a
arrogância, será, por certo, um dos primeiros passos para começar a valorizar o
conteúdo, em detrimento da forma (uma batalha tão cara ao Neo-
-Realismo…).
-Realismo…).
Não imaginamos, de resto, outra
solução para os nossos problemas, além de mais trabalho, rigor e competência.
Um caminho que Aquilino perseguiu e eternizou na célebre máxima: “Alcança quem
não cansa”. Estaremos nós, verdadeiramente, predispostos a persegui-la?
Renato
Nunes
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quinta-feira, 13 de junho de 2013
Fernando Pessoa
Quando estava a organizar uns livros que já tinha lido e queria doar à biblioteca municipal de Oliveira, dei com um boletim cultural da Fundação Calouste Gulbenkian dos idos inícios dos anos 90 do século passado. O Titulo do boletim é "O Homem Português". Abri à sorte num artigo que se intitulava Portugueses: Heróis Adiados e comecei a ler: "Das feições de alma que caracterizam o povo português, a mais irritante é sem duvida o seu excesso de disciplina. Somos um povo disciplinado por excelência.(...) Age sempre em grupo, sente sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo. E quando por milagre de desnacionalização temporária, pratica a traição à Pátria, de ter um gesto , um pensamento, ou um sentimento dependente, a sua audácia nunca é completa, porque não tira os olhos dos outros, nem a sua atenção à critica.(...) Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma "revolução" foi para implantar uma coisa igual ao que já estava." Tendo em conta as ideias tão próximas do que acontece nos dias de hoje esperei quando virei a página ver o nome de um autor recente, qual não é o meu espanto quando vejo que esta dissertação foi escrita por FERNANDO PESSOA. A génese do povo português não muda apesar do tempo.
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sexta-feira, 7 de junho de 2013
A Greve docente aos exames
Numa conversa que mantive no passado mês de Abril, com um colega professor, ele disse que a forma mais visível para que os professores fizessem pressão sobre o governo seria fazer greve aos exames, pois isso poria em causa o futuro dos alunos e a sua entrada no ensino superior. Revolta-me aperceber-me que ele tem toda a razão, pois agora apercebemo-nos do medo dos nosso governantes, que a situação... por mim anteriormente descrita se concretize. Revolta-me e entristece-me principalmente, pois na minha opinião a preocupação do governo com os professores devia ocorrer durante todo o ano, dando-lhe condições para que os alunos estejam o mais bem preparados possíveis. Infelizmente não é isso que tem acontecido, com o aumento do número de aluno por turmas, os mega agrupamentos e o constante medo da mobilidade, os professores sentem-se inseguros e sem as melhores condições para o desempenho das suas funções e dar aos alunos tudo o que eles merecem. Infelizmente o nosso governo, só se lembra dos professores quando a sua imagem é colocada em causa no exterior. Pois seria uma vergonha para o país os alunos não poderem fazer os exames de acesso à universidade.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
A passagem do ano
Estamos prestes a entrar em mais um ano, passar do dia 31 de dezembro para o dia 1 de janeiro. Umas transição festiva que onde se auguram coisas boas e desejos positivos para o ano que se avizinha. Há várias formas de viver estes dias, em casa na companhia da lareira, de amigos ou familiares ou ar livre com garrafa de champanhe em punho e as passas no bolso prestes a serem contadas e retiradas quando soam as doze badaladas e começa um novo ano.
O articular de pensamentos e ideias nesta transição esvoaçam entre trabalho e saúde, para nós e para os que que nos estão mais próximos. A linearidade das ideias transvassam na importância da sua realização para que possamos entrar com o pé direito e de forma positiva no ano novo.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Sensações estranhas
O prazer da escrita é-me algo intrínseco que eu não consigo descrever, funciono muito por impulsos e motivações. Lamento não ter consigo manter a regularidade na edição de textos, tendo decorrido um interregno de cerca de duas semanas.
Nos últimos tempos tenho convivido com sensações
estranhas que eu muitas vezes não consigo descrever ou perceber. Há poucos dias
tivemos a visita da chanceler alemã que veio averiguar o estado da nação
portuguesa. A História diz-nos que algures em séculos passados houve países que
foram colonizados hoje não se impregna o mesmo termo no entanto as
consequências são similares. Vivemos numa sociedade que está a ferver. Pergunto
quando será que irá explodir? Será que isso vai acontecer? As consequências são
boas ou más?
As sensações estranhas que eu tenho convivido
prendem-se com o estado do meu país mas também devido às convivências com uma
sociedade que não olha para o lado, cansada e focada apenas no trabalho, ou
quando não o têm nas preocupações do desemprego. Refiro-me ao cansaço, quando
vejo pessoas a trabalhar desalmadamente, com objetivo de ganhar um mísero
ordenado que em nada recompensa o valor das tarefas desempenhadas.
Com a crise as pessoas perderam esperança e
deixaram de ter objetivos a longo prazo pensando apenas no dia de amanhã, focando-se
apenas nos planos a curto prazo. O risco de perder o emprego retrai e induz as
pessoas ao silêncio engolindo muitas injustiças. Todas estas contingências são
aproveitadas pelo Estado Português e capitalista que reina na Europa e no
Mundo.
Eu induzido num ritmo louco de trabalho vejo-me
por vezes com receio de onde eu irei parar. É alucinante o ritmo de trabalho no
ensino privado. Nota-se diariamente uma competitividade latente e eu dou por mim
naturalmente a ter que ir aos meus limites.
Questiono
até quando aguentarão os portugueses os sacrifícios que estão a ser sujeitosA neurociência ao serviço da aprendizagem
Poucos conseguirão ficar indiferentes quando se fala
em cérebro. Aliás, os vários crânios “trepanados” ainda no período da Pré-História,
encontrados, por exemplo, em múltiplos locais da Europa, parecem constituir um
indício de que o interesse do Homem pela compreensão do cérebro (leia-se, pela
compreensão do “eu” mais profundo…) o acompanha desde as suas mais recônditas
origens.
Ao
longo das últimas décadas têm sido verdadeiramente surpreendentes os avanços
verificados neste domínio, destacando-se os trabalhos de vários neurologistas,
como sejam, apenas a título meramente exemplificativo, António Damásio ou a sua
esposa Hanna Damásio.
As
implicações dessas recém-descobertas começam agora a chegar, paulatinamente, ao
domínio da Educação. De um modo simplificado, imagine-
-se o alcance de conclusões deste género: a consciência começa por ser um sentimento; as emoções desempenham um papel fundamental no processo de tomada de decisões e na própria regulação homeostática; o “cérebro” não cristaliza e à medida que aprendemos ele parece reajustar-se. Outras duas conclusões de um estudo dinamizado pelo português Paulo Ventura, em articulação com investigadores internacionais, seguem nesta mesma linha: “Aprender a ler, mesmo na idade adulta, é uma experiência tão importante para o cérebro que este concentra todas as suas forças neste acto e muda para conseguir realizar esta actividade. […] O que acontece é que quando se aprende a ler existe uma reciclagem neuronal: o cérebro aproveita as áreas que realizam funções semelhantes à leitura para poder ler” (Cf. http://brissoslino.wordpress.com/2010/11/12/aprender-a-ler-muda-o-cerebro/). Consequentemente, um estímulo a valer e quase tudo pode acontecer…
-se o alcance de conclusões deste género: a consciência começa por ser um sentimento; as emoções desempenham um papel fundamental no processo de tomada de decisões e na própria regulação homeostática; o “cérebro” não cristaliza e à medida que aprendemos ele parece reajustar-se. Outras duas conclusões de um estudo dinamizado pelo português Paulo Ventura, em articulação com investigadores internacionais, seguem nesta mesma linha: “Aprender a ler, mesmo na idade adulta, é uma experiência tão importante para o cérebro que este concentra todas as suas forças neste acto e muda para conseguir realizar esta actividade. […] O que acontece é que quando se aprende a ler existe uma reciclagem neuronal: o cérebro aproveita as áreas que realizam funções semelhantes à leitura para poder ler” (Cf. http://brissoslino.wordpress.com/2010/11/12/aprender-a-ler-muda-o-cerebro/). Consequentemente, um estímulo a valer e quase tudo pode acontecer…
É
na linha do que temos vindo a escrever que a neurociência, aqui entendida
enquanto estudo científico do cérebro e do sistema nervoso, pode desempenhar um
papel importante, sendo a este propósito inevitável falar da mais recente obra
do investigador Rafael Silva Pereira – Programa
de Neurociência: Intervenção em Leitura e Escrita. Se existem mesmo livros
que não temos o direito de guardar só para nós, este é, em nosso entender, um
deles. E é, afinal, este desejo de partilha que motiva este breve artigo.
A referida obra, que complementa o anterior Programa de Intervenção e Reeducação em Dislexia e Disortografia,
constitui, segundo a nossa perspectiva, uma das poderosas ferramentas de
auxílio para todos aqueles que, diariamente, têm a nobre, mas extenuante,
missão de ajudar a ler e escrever todas as crianças, mas, sobretudo, aquelas
que registam dificuldades de aprendizagem. O
trabalho dado à estampa em 2011 começa por apresentar, em traços gerais, uma
fundamentação teórica, que procura assim introduzir o leitor menos
familiarizado nestas temáticas. Depois, o professor/investigador propõe um
conjunto de exercícios lúdicos que “comprovadamente ajudam o aluno a melhorar a
sua capacidade de memória, atenção, linguagem, raciocínio lógico e visão
espacial” (Cf. Rafael Silva Pereira, 2011, p. 9). Por fim, são apresentados
exercícios que enformam um programa de desenvolvimento da consciência
fonológica (engloba todos os níveis de consciência da estrutura sonora das
palavras), através da exploração da “motricidade fina” e da estimulação multissensorial.
Pena é, na nossa opinião, que o autor não tenha optado por direccionar o seu
programa para um grupo etário específico, pois talvez assim conseguisse
maximizar os efeitos da intervenção. Como refere a neurocientista Sally
Shaywitz: “o que funciona melhor para uma criança de 6 anos de idade não irá
ser a abordagem mais útil para um sujeito de 16 anos” (Cf. Vencer a dislexia: Como dar resposta às
perturbações da leitura em qualquer fase da vida, 1.ª edição, 2008, Porto,
Porto Editora, p. 189).
Num
mundo em que os ponteiros do relógio parecem avançar a um ritmo alucinante, em
que quase tudo se decide à velocidade da luz, é verdadeiramente dramático ver o
sacrifício que uma criança disléxica, com uma inteligência (pelo menos) média,
sublinhe-se, faz para conseguir, quando consegue, alinhavar uma palavra ou
“simplesmente” lê-la. E, recorde-se, ao contrário do que durante muito tempo se
pensou, a dislexia (cujo diagnóstico é de natureza clínica) existe mesmo, tem na
sua raiz um factor neurobiológico, não se resolve com a simples passagem dos
anos e tem consequências em todo o processo de desenvolvimento (Cf.
a este propósito Sally Shaywitz, M. D., ob.
cit., pp. 13-82). Programas de
intervenção pedagógica como aquele que Rafael Silva Pereira nos confia podem
fazer toda a diferença no futuro da vida de muitos meninos, desde que, importa
reforçá-lo, sejam trabalhados em estreita articulação entre os vários agentes (família,
professores…). Programas deste género poderão, afinal, fazer toda a diferença
entre a inclusão efectiva e a exclusão.
Claro
está que a Educação Especial desempenha aqui um papel determinante, desde que,
também importa reforçá-lo, não seja apenas percepcionada como mais um apoio às
áreas académicas tradicionais, mas se assuma como um agente de intervenção face
às dificuldades específicas dos alunos e, naturalmente, tendo em consideração
os avanços científicos registados. Daí a necessidade de investigar
constantemente (uma tarefa difícil face à actual malha burocrática do sistema
educativo) e de, entre outras áreas prementes, existirem pontes mais regulares
entre as Universidades e as Escolas do Ensino Básico e Secundário ou mesmo
entre os docentes, sobretudo, de ciclos diferentes (a efectiva articulação
vertical ainda está a dar os primeiros passos…).
Portanto,
a metodologia correcta pode fazer toda a diferença, até porque “diferentes
formas de aprender implicam necessariamente diferentes formas de ensinar”.
Claro está que, se pretendemos efectivamente uma Escola inclusiva, promovendo
uma filosofia de trabalho em conjunto, onde todos os alunos, considerados (ou
não) como tendo Necessidades Educativas Especiais, podem ganhar, teremos de
perceber que, numa fase inicial, isso implicará forçosamente estar disponível
para investir mais. Trata-se, no entanto, de custos que serão recuperados a
médio e longo prazo; ao passo que as perdas, essas sim, serão dificilmente
recuperáveis.
A
este propósito, o Diário Insular de 7
de Novembro de 2012 trazia a seguinte notícia: “44 por cento dos jovens
açorianos entre os 18 e os 24 anos não ultrapassa o 9.º ano de escolaridade”
(p. 4). Poderíamos, ainda, fazer uso de outros números igualmente dramáticos,
como sejam a taxa de abandono escolar no Ensino Secundário ou de reprovações, a
percentagem de analfabetismo (já para não falar de iliteracia) ou os resultados
nos Exames Nacionais… Todos os números nos demonstram que é urgente intervir e…
precocemente, com equipas inter e multidisciplinares, científica e
pedagogicamente sustentadas. E é aqui, mais uma vez, que também os serviços
especializados das Escolas, nomeadamente no que diz respeito à Educação
Especial, poderão fazer toda a diferença, numa área onde, apesar das inegáveis
portas que se abriram depois da revolução de 25 de Abril de 1974, ainda existe
um longo caminho a percorrer… Daí a importância de conhecer e dar a conhecer,
para sensibilizar e intervir.
Renato Nunes
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