quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Breve história do Santuário de Nossa Senhora das Preces. Autor: Luís Filipe Torgal



Frei Agostinho de Santa Maria publicou, entre 1707 e 1723, uma obra mística, monumental e incontornável sobre o culto mariano em Portugal, intitulada: Santuário Mariano, e história das imagens milagrosas de Nossa Senhora. No tomo II desta obra (1712, pp. 517-519) relatou que no cume do monte Colcurinho, «terra tão alta que parece querer competir com as estrelas […]. E assim dizem que dela se vê a cidade de Lisboa», apareceu uma «milagrosa imagem», «muito pequena, porque não tem mais de palmo e meio de estatura», da «Rainha dos Anjos», que «uns invocam como Nossa Senhora do Colcurinho e outros como Nossa Senhora das Preces». Não esclareceu como esta «Senhora» se manifestou, segundo a tradição, a uns pastorinhos, nem o ano em que apareceu. Contudo, adiantou que a inacessibilidade da serra levou o pároco de Aldeia das Dez a transferir a imagem descoberta para a igreja da sua paróquia. Mas a «Senhora» queria ser venerada no cimo do monte e por isso a sua imagem teria reaparecido duas vezes no sítio onde foi encontrada. Padre e paroquianos decidiram, então, respeitar a vontade da «Senhora» e edificar um pequeno oratório no local onde, aliás, já existiam vestígios de uma muralha castreja e foram encontradas moedas romanas; mais tarde, foi aí construída a ermida de Nossa Senhora das Necessidades. As dificuldades extremas para se deslocarem àquele local tão ermo e agreste levou os fiéis, algures, em meados do século XVII, a acomodarem a imagem num sítio mais baixo, acessível e amplo, localizado nas faldas da serra: o povoado de Vale de Maceira. A imagem ganhou fama de obrar milagres, atraiu romeiros e peregrinos, originando o nascimento do santuário de Nossa Senhora das Preces.

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Junto à ermida atrás citada existe um cruzeiro, erigido em 1925, que substituiu um monumento idêntico ao anterior, do qual resta uma pedra desgastada pelo tempo que contém o mais antigo documento escrito do santuário. Aí pode ler-se: «[NESTE LUG]AR APA[RE]CEU N. SRA. [D]AS PRE[S]SAS NO A[N]O D. 1371».


Quando os imperadores romanos se converteram ao cristianismo e o impuseram como a religião oficial e única do império romano (édito de Tessalónica, 380), muitos dos remotos santuários pagãos associados a cultos mágicos de fertilidade, situados em locais ermos e belos, foram sendo oportunamente transformados em santuários cristãos. O caso da conversão do local sagrado do Colcurinho terá ocorrido antes ou depois de 1371. O pretexto para essa conversão ao cristianismo poderá ter sido a notícia do avistamento de uma «Senhora» que determinou a criação de uma imagem e a edificação de uma ermida. Com o fluir do tempo, a vetusta ermida teria ficado esquecida e arruinada e a imagem entretanto perdida seria depois descoberta nos seus escombros (Augusto Nunes Pereira e Mário Oliveira de Brito, Nossa Senhora das Preces, 1945, p. 16). Certo é que histórias de aparições análogas foram reproduzidas em tempos posteriores, sobretudo em épocas de fomes, pestes e guerras, as quais tendem a exacerbar no espírito dos homens comportamentos místicos. Ora, 1371 abarcou uma conjuntura particularmente conturbada da História Europeia e de Portugal: Guerra dos Cem Anos, vagas de peste negra, crises de escassez agrária; reinado de D. Fernando (1367-1383), marcado por surtos pestíferos, penúria agrícola, fomes e revoltas sociais, mas também pelo envolvimento do rei português em guerras desastrosas com Castela, as quais originaram o risco da perda da independência nacional.


O santuário de Nossa Senhora da Preces começou a erguer-se pelo menos no século XVII, foi ampliado nas centúrias subsequentes e conquistou novas valências. Casa do Púlpito (século XVII), antiga capela (século XVII) depois acoplada à igreja de Nossa Senhora das Preces, várias vezes aumentada (séculos XVIII-XIX), repleta de ex-votos que representam alegados milagres e o agradecimento dos crentes que deles teriam beneficiado, 12 ermidas representativas da Paixão de Cristo (século XIX), capelinhas de Santa Maria Madalena e de Santa Eufémia (século XIX), monumental chafariz de pedra servido por aparatosas escadarias (século XIX), jardim botânico ou «Quintal da Senhora» (século XIX), coreto (1895), albergue (1915-16), vedação em granito e pórticos de entrada do santuário (segunda década do século XX), uma vasta área florestal em redor da capela de Santa Eufémia, concedida pelo Estado à Irmandade de Nossa Senhora das Preces, para ampliar o logradouro do santuário (1941), e o empedramento da estrada oriunda da Aldeia das Dez até Vale de Maceira (1947), que permitiu o acesso de veículos motorizados ligeiros e pesados.


A Irmandade de Nossa Senhora das Preces, fundada em meados do século XVIII, orientada pelo capelão do santuário, assume várias responsabilidades definidas nos seus estatutos (os mais antigos conhecidos remontam a 1886): recolhe e administra as esmolas, preserva os bens móveis e imóveis do santuário, assim como organiza e promove o culto. Tal culto obrigava à celebração de três festas maiores: Pentecostes (50 dias após a ressurreição de Jesus), natividade de Maria (8 de setembro) e apresentação de Nossa Senhora (21 de novembro).


Para instigar o culto, anunciar os seus milagres e publicitar a sua obra, a Irmandade e o capelão, Mário Oliveira de Brito, criaram, em 1950, o jornal oficial de propaganda Voz do Santuário, que também não deixou de apregoar o seu absoluto alinhamento com o Estado Novo de Salazar, «homem providencial que Deus pôs no leme da barca portuguesa» (Voz do Santuário, 3-06-1956). O posicionamento incondicional do jornal ao lado do Estado Novo pode ser confirmado em diversos outros textos. Nomeadamente, nestes trechos retirados de um pequeno artigo publicado no refluxo das eleições presidenciais fraudulentas que usurparam a vitória ao candidato das oposições, general Humberto Delgado: «Os inimigos da ordem e da Pátria não se dão por vencidos. Nas eleições foram de caixão à cova, mas ficou-lhes a língua de fora. Não puderam vencer, nem convencer, mas agora procuram semear o terror, servindo-se de boatos, no intuito de desorientar e assustar a opinião pública. […] Tudo aproveitam, os inimigos da paz e da ordem, para inventar histórias de revoluções que estão a rebentar, exércitos que estão para ocupar o País e derrubar o Governo. […] O povo ingénuo acredita nisto, tanto mais que é dito em muito segredo, e porque acredita vive desassossegado» (Idem, 6-07-1958).    


A consulta deste periódico dá-nos uma noção interessante da evolução do santuário e do culto da Senhora das Preces, desde os anos 50 do século XX. Por exemplo, é possível captar que, durante a década de 50, uma das principais preocupações da Irmandade e do capelão era a estrada de acesso ao povoado de Vale de Maceira proveniente da Ponte das Três Entradas, estreita, picada, mal sinalizada, demasiado sinuosa e perigosa, que por isso condicionava bastante a fluidez do trânsito e a afluência de romeiros e turistas. Outra inquietação era a circulação inadequada de veículos motorizados, ligeiros e pesados, dentro da propriedade do santuário e junto da igreja (apesar de uma variante externa ter sido aberta, em 1957, em redor da área do santuário), os quais causavam um ruído «ensurdecedor» que prejudicava a celebração dos atos religiosos. A falta de energia elétrica que tardava em chegar a Vale de Maceira, a ausência de espaços para os romeiros estacionarem e manobrarem carros e autocarros nos dias da grande romaria, a indiferença religiosa e os comportamentos mundanos e transgressores do espírito piedoso da festa assumidos por feirantes e romeiros eram outros problemas que preocupavam o capelão e a Irmandade. De resto, o confronto entre uma religião popular, mais alegre e relaxada, e uma religião oficial, mais diligente e penitencial, remontava a Oitocentos, século do liberalismo e da secularização de hábitos e costumes, ainda que, em Novecentos, nos anos do Estado Novo, as imposições austeras emanadas da hierarquia da Igreja tenham, geralmente, prevalecido sobre os comportamentos populares mais profanos.


Apesar dos condicionalismos supracitados, a romaria tradicional continuou a realizar-se com algum vigor, entre os anos 50 e 70 do século XX. No início, a grande festa celebrava-se no fim de semana do domingo de Pentecostes (vulgarmente designada por domingo do Espírito Santo). A partir dos inícios dos anos 70, por decisão do padre Mário Oliveira de Brito, quebrou-se a tradição e a romaria foi definitivamente transferida para o primeiro fim de semana de julho, que garantia dias mais quentes e secos, e por isso mais favoráveis à afluência de multidões. O programa religioso abria, no sábado, com uma missa na Igreja de Nossa Senhora das Preces. Incluía, depois, as confissões dos peregrinos, música religiosa, a oração do terço e a via-sacra noturna com pregação junto às capelinhas alumiadas por centenas de velas ostentadas pelos peregrinos. No domingo, realizavam-se missas rezadas e cantadas, uma missa campal, com sermão, preferencialmente, versando sobre a narrativa da Santa venerada, uma imponente procissão diurna — composta por irmandades, associações de várias freguesias e muitos peregrinos — que representava o clímax das celebrações. A parte profana da festa abarcava festivais de filarmónicas e ranchos no coreto do recinto, feira, comes e bebes, carrosséis e fogo-de-artifício.


O Voz do Santuário noticiava a presença nestas festas de milhares de pessoas oriundas de «todos os lados de Portugal»: dos distritos das Beiras — Coimbra, Viseu, Guarda, Castelo Branco, Aveiro e Leiria —, mas também dos distritos de Lisboa, e até de Évora e de Portalegre (Idem, 3-06-1956). Um cronista anónimo mais arrebatado, embora, em certo sentido, mais clarividente (presumo tratar-se do padre Mário Oliveira de Brito, que era o capelão do santuário e também diretor e editor da publicação Voz do Santuário), arriscou escrever: «Se nos dessem licença e perdoassem o atrevimento, dizíamos que Fátima é que é uma segunda Senhora das Preces, porque Fátima é de há poucos anos e a Senhora das Preces é de alguns séculos. Simplesmente, Fátima, depois que Roma falou, foi desde os primeiros tempos amparada pela igreja e servida por muitos sacerdotes. A Senhora das Preces, porém, foi desde há muito tempo espoliada por leigos, desprezada e abandonada aos seus próprios destinos. Se a Senhora das Preces fosse sempre governada como nos seus tempos áureos de 1700 e 1800, seria hoje o que é Fátima, o que é o Bom Jesus, o que é o Sameiro – seria, sem dúvida alguma, o melhor e o mais espiritual santuário de Portugal» (Idem, 7-06-1959).


Pelo menos até 1974, a romaria da Senhora das Preces continuou a ser apresentada pelo Voz do Santuário como a «Fátima das Beiras», a «maior romaria das Beiras» ou mesmo o «mais antigo santuário mariano das Beiras». A afluência de romeiros e peregrinos a esta romaria manteve-se muito elevada, como comprovam as fotografias publicadas no jornal, que revelam muitas dezenas de autocarros amontoados ao longo da estrada e dos estacionamentos acanhados que envolvem o santuário (Idem, novembro-dezembro de 1974), ou a cifra de cerca de «16 mil pessoas» que teriam comparecido na romaria de julho de 1972 (Idem, julho de 1972).


De acordo com fontes orais consultadas, as relações entre o capelão, Mário Oliveira de Brito, a Irmandade e uma parte da população local estavam já bastante deterioradas, antes do 25 de abril de 1974. Esta última acusava o capelão de tratar os assuntos da paróquia e do santuário com vileza e prepotência. E chegou a denunciar a situação ao bispo de Coimbra, que, todavia, acabava sempre por proteger o seu sacerdote. Escassos meses depois da revolução que depôs o regime Marcelista, as relações incendiaram-se. Dessa vez, o motivo crucial que instigou o confronto foi a decisão ordenada pela mesa administrativa da Irmandade de cortar e vender pinheiros numa área baldia de 2 hectares. O capelão e o mencionado órgão administrativo da Irmandade alegavam que essa área tinha sido cedida pelo Estado à sua agremiação religiosa, em 1941; porém, alguns populares não reconheciam tal cedência, argumentando que esse terreno devia pertencer à junta de freguesia da Aldeia das Dez (Idem, novembro-dezembro de 1974). Decerto que este episódio deverá ser enquadrado nos conflitos pós-revolucionários emergentes entre uma população subitamente emancipada, mais politizada e menos devota, e a igreja oficial, os seus padres e militantes católicos mais conservadores, que apoiaram e justificaram, incondicionalmente, as políticas autoritárias e repressivas do Estado Novo. Porventura, este caso pode representar um indício de que as romarias ao santuário começavam a perder o fôlego de outros tempos. Por outro lado, é ainda plausível considerar que a magnitude crescente atribuída à Cova da Iria, à sua narrativa mística permanentemente recriada e ao culto nacional e internacional de Nossa Senhora de Fátima tenham contribuído para um paulatino esvaziamento dos santuários mais regionais de romaria e arraial como o de Nossa Senhora das Preces, na aldeia de Vale de Maceira.


Porém, como notou Célia Lourenço num artigo recente publicado na Comarca de Arganil (30-07-2020), há, hoje, sinais de uma revitalização da ancestral e outrora popular romaria da Senhora das Preces e, sobretudo, o desejo de colocar este local provido de especial beleza cultural e ambiental no centro dos roteiros turísticos alusivos ao concelho de Oliveira do Hospital e à Região Centro de Portugal.

Autor: Luís Filipe Torgal

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"A nova década: Uma era de longevidade" -Notícia audio Caderno de Economia do Jornal Expresso

O jornal expresso inaugurou este fim de semana uma nova forma de ler notícias ou seja colocar em audio as noticias que são transcritas no caderno de economia..

Ouvi esta notícia ,"Uma década: Uma era de longevidade", que me suscitou particular atenção pois é da área da Geografia, mais particularmente da demografia.Ouçam,não se vão arrepender. Pode haver opiniões contraditórias mas é sempre bom ouvir várias ideias sobre o mesmo assunto, ajuda-nos a crescer no nosso conhecimento sobre um tema.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

CHEGA: direita radical ou extrema-direita?

Riccardo Marchi, investigador e professor universitário, publicou em Junho de 2020, um ensaio a respeito do CHEGA, no qual sustenta, entre outros aspectos, que o partido criado por André Ventura não pertence à extrema-direita, mas sim à “direita radical”, pois “a sua cultura política não tem nada a ver, do ponto de vista doutrinário, com os autoritarismos de direita dos anos 20 e 30 do século passado” (Riccardo Marchi, 2020, p. 194). Ainda segundo Riccardo Marchi, o CHEGA não é racista, embora ― como admitiu André Ventura ― o discurso do partido possa ser favorável à aproximação dos racistas.

            Na obra de Riccardo Marchi sustenta-se ainda que a acção de André Ventura é controlada pela moral cristã e que várias propostas do CHEGA, nomeadamente ao nível fiscal, padecem “ainda de clareza” (Riccardo Marchi, 2020, p. 156). Já na parte das conclusões do aludido ensaio que inspira este artigo, Ventura é descrito como um “político jovem, ambicioso, pragmático, empático, telegénico, com discurso contundente e capacidade oratória já treinada na polémica mediática”, cujo perfil e prática, até ao momento, não tem pretendido “promover o culto da personalidade” (Riccardo Marchi, 2020, ps. 198 e 199). No entanto, na entrevista que concedeu ao Diário de Notícias (25/6/2020), o politólogo sustentou que o partido em causa ainda não possui uma “coluna vertebral”, parecendo, por conseguinte, ignorar que esse facto deriva, sobretudo, da excessiva concentração de poderes no mediático André Ventura que, de resto, se confunde com o CHEGA. Um pouco à semelhança — acrescentado da minha responsabilidade — do que sucedeu com o Estado Novo de Salazar, que não se cansou de sustentar a sua suposta originalidade e no pós II Guerra Mundial, perante a derrota dos regimes fascistas e nazi, chegou mesmo a caracterizar-se como uma “democracia orgânica”.

            No que diz respeito à distinção apresentada entre “extrema-direita” e “direita radical”, segundo Riccardo Marchi “o primeiro tem carácter anti-sistema e objectivos subversivos de abate do regime vigente, através também de meios violentos”, enquanto o segundo respeita as regras do jogo (Riccardo Marchi, 2020, pp. 191-192). Uma distinção, de resto, presente no ideário do CHEGA: “Confunde-se muito radicalismo com extremismo” (Programa 2019). A este respeito, importa, porém, recuperar uma das pertinentes interrogações de André Freire, num artigo recentemente dado à estampa: o CHEGA pretende acabar com a III República, através de um referendo constitucional, “mas não será que tal proposta viola a ordem constitucional vigente, democraticamente instituída”? (Jornal de Letras, 15 a 28/7/2020).

            Na página oficial do CHEGA, é possível encontrar o Programa 2019, um extenso documento, cujos enunciados são muitas vezes ambíguos, vagos e até mesmo contraditórios (https://partidochega.pt/programa-politico-2019/). Em jeito de síntese, trata-se de um conjunto de princípios neo-liberais, que pretendem acabar com o “Estado Providência” e iniciar um processo de privatizações (inclusive no ensino, na saúde e no património), cujo desenlace inevitável seria colocar o destino nacional nas mãos do mercado (algo ainda mais estranho, se pensarmos que André Ventura se assume claramente como um nacionalista defensor da soberania nacional, uma matéria tão importante que, se colocada em causa, o levaria até mesmo a sustentar a saída de Portugal da União Europeia — neste domínio, será interessante mencionar que numa fase anterior o CHEGA assumiu-se mesmo como antieuropeísta). Veja-se ainda o que figura, no citado documento, no ponto quatro do tema Emprego: “Para que os fluxos aumentem é necessário facilitar as contratações e isto só é possível se os custos de «empregabilidade» – salários, restrições legais, horários de trabalho rígidos, difícil acesso a informação, contribuições para a segurança social e custos de despedimento – forem reduzidos”.

Face ao exposto, conclui-se facilmente que as actuais preocupações sociais do Estado passariam a pertencer às designadas funções “acessórias, subsidiárias e/ou supletivas”, tendendo, portanto, para a mera residualidade. A respeito das escolas, que poderiam ser compradas pelos professores (?!), o CHEGA defende o “fim da aplicação das ideologias de inclusão e ideologia de género no sistema nacional de educação, colocando-se termo à aplicação das orientações da ONU relativamente às chamadas «questões psicológicas de transtorno de identidade de género»”.

            Entre os princípios defendidos no aludido Programa, importará ainda destacar: o aumento das propinas universitárias para os cursos das ciências sociais e humanas, privilegiando, por oposição, as áreas científicas e técnicas (“as propinas a pagar por um curso de Sociologia terão de tender para o custo real do curso”); o alargamento do horário de trabalho dos profissionais de saúde das 35 horas para as 40 horas; a redução dos deputados, de 230 para 100; a defesa da tauromaquia, por oposição à eutanásia e ao aborto (que, neste último caso, apesar de pretenderem proibir, não querem criminalizar…) e a desvalorização do poder legislativo e executivo, em função do presidencialismo puro. Numa época em que o poder local dos cidadãos assume cada vez maior importância, o CHEGA preconiza, com inequívoca incoerência à mistura, a redução do número de freguesias, sustentando ainda que todos “os ministérios e serviços correspondentes” passem a concentrar-se “numa mesma área geográfica, de forma a permitir uma diminuição drástica dos seus custos operacionais, bem como das imensas horas perdidas, para a economia nacional, pelos cidadãos” (Programa 2019).  

Invocando a iminente perda da nossa identidade judaico-cristã, o CHEGA proclama o perigo da imigração ilegal (prevê, pois, a eliminação de quaisquer apoios aos imigrantes ilegais, que seriam deportados para os seus países de origem): “Qualquer imigrante que tenha entrado ilegalmente em Portugal estará incapacitado, para o resto da sua vida, para legalizar a sua situação e, portanto, a receber qualquer auxílio da Administração” (Programa 2019). Sustenta-se também a “abolição das autorizações de residência por razões humanitárias, redução do sistema de acolhimento de refugiados só para menores desacompanhados e pessoas qualificadas para protecção internacional” (Riccardo Marchi, 2020, p. 173). Enfim, coloca a tónica na distinção entre nós, herdeiros da matriz judaico-cristã, e os outros. Neste sentido, o islão é percepcionado como “uma ideologia político-religiosa, totalitária e imperial […] a principal e permanente ameaça à Civilização ocidental” (Riccardo Marchi, 2020, p. 182). Além disso, a comunidade cigana, os homossexuais e outras minorias são frequentes alvos de crítica pública por parte dos adeptos do CHEGA. A respeito dos homossexuais, o Programa 2019 defende o “fim da promoção, pelo Estado, de incentivos e medidas que institucionalizem os casamentos entre homossexuais e a adopção de crianças por «casais» homossexuais”, parecendo, no entanto, deixar em aberto a possibilidade das uniões de facto.

            O objectivo do CHEGA é fundar a IV República em Portugal e não apenas melhorar o sistema que existe, herdado da revolução de Abril de 1974. Por muito que os seus dirigentes defendam que ninguém seria prejudicado, por exemplo, com as privatizações levadas a cabo na educação (seriam atribuídos cheques-ensino, até mesmo na Universidade), é evidente que, nesses tão ansiados novos moldes neo-liberais, a economia de mercado aumentaria ainda mais as desigualdades sociais. 

            Disse André Ventura: “Chamam-nos fascistas, mas é por não terem noção do que é o fascismo. Só pode ser. Porque o fascismo é o oposto do liberalismo” (Riccardo Marchi, 2020, p. 83). Nas suas habituais arremetidas mediáticas, Ventura procura criar mundos antagónicos e irreais, a preto e branco, esquecendo-se, no entanto, que o fascismo, enquanto realidade histórica, da primeira metade do século XX, bem mais complexa do que as suas palavras dão a entender, socorreu-se do grande capital. Como escreveu Umberto Eco: “O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, uma amálgama de contradições” (Umberto Eco, 2017, p. 17). Além disso, não deixa de ser interessante constatar que, no que diz respeito à política orçamental, o CHEGA pretende dar prioridade absoluta “às necessidades dos ministérios que consubstanciam as Funções Soberanas do Estado, ou seja, Ministérios da Justiça, Administração Interna, Defesa e Negócios Estrangeiros” (Programa 2019). Matérias, afinal, determinantes para um maior controlo da sociedade, ou não fosse a garantia da ordem (naquele que ainda é, contudo, um dos países mais seguros do mundo) uma das bandeiras de marca de André Ventura.

            Se, por um lado, o ideário do CHEGA parece reivindicar uma certa “objectividade” no ensino da História: “O ensino e a promoção, sem interferências revisionistas e ideologias que a adulterem, da História de Portugal, alicerçadas nos Factos objectivos que a marcaram”; por outro lado, defende um: “Sistema Educativo acessível a todos, vocacionado para a consolidação dos valores culturais e civilizacionais judaico-cristãos, sem interferência de correntes que se filiam na chamada «ideologia do género» e no dito «marxismo cultural»” (Programa 2019). Ainda no âmbito da História, tal como Riccardo Marchi recordou, o CHEGA “contesta o enviesamento ideológico presente, por exemplo, na estigmatização da secular expansão ultramarina e na visão unilateral do 25 de Abril” (Riccardo Marchi, 2020, p. 95). Temos, pois, o ensino “objectivo” da História, mas com base na matriz da identidade portuguesa imaginada e oficializada pelo CHEGA, que, como já tivemos oportunidade de verificar, pretende eliminar a escola pública — aquela que, com todos os defeitos, ainda permanece como uma das grandes conquistas da revolução de Abril. Eis, por conseguinte, um amontoado de incoerências, contradições e ambiguidades, que permitem todo o tipo de leituras e perniciosos desenvolvimentos futuros.

            É altura de dizer que, de acordo com a minha interpretação, o CHEGA é um partido de extrema-direita. Aliás, Ventura “reconhece publicamente a sua proximidade ao Vox espanhol e à Lega italiana” (Riccardo Marchi, 2020, p. 149). No pretérito dia 2 de Julho, vários órgãos da imprensa, entre os quais O Observador, noticiaram que: “O Chega aceitou o convite para aderir ao grupo europeu Identidade e Democracia (ID), que integra partidos de extrema-direita”. O Observador transcreveu mesmo as reacções de Ventura: “Nós tínhamos já feito alguns contactos europeus. Tivemos primeiro uma maior aproximação ao grupo onde está o Vox, mas o desenvolvimento dos contactos internacionais aproximou-nos mais, quer do partido de Matteo Salvini, quer da Frente Nacional francesa”.

Entre as referências políticas de Ventura encontram-se Beppe Grillo e o Movimento 5 Estrelas, bem como Donald Trump (Riccardo Marchi, 2020, p. 147). Importa, pois, reconhecer que, contrariando a tese de Riccardo Marchi, a “Nova Direita Radical” não é mais do que a velha extrema-direita, travestida de algumas supostas alterações, mas que continua a alimentar-se do medo reinante nos povos, o qual, por sua vez, fomenta o ódio entre as pessoas. São, afinal, evidentes as contradições e ambiguidade que atravessam o ideário do CHEGA e que se espelham nas práticas do próprio líder: acérrimo defensor da exclusividade de funções dos deputados, André Ventura apenas passou, de acordo com a biografia constante na página do Parlamento, a cumpri-la muito recentemente, pois até ao dia 30 de Junho de 2020 exerceu funções de consultor na Finpartner, SA   (https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Biografia.aspx?BID=6535). Isto para já não falar, claro, das contradições, que o próprio reconheceu, entre as ideias sustentadas na sua tese de doutoramento e as ideias políticas actualmente defendidas pelo mesmo, bem como o apoio da Igreja Maná à sua causa. Mas, como é evidente, os apoiantes do CHEGA poderão sempre dizer que isso são pormenores e que o programa do partido (dotado de uma ideologia supostamente flexível) irá ser clarificado, pois está a ser interpretado de modo erróneo. Certo é que, enquanto se levanta a dúvida e também graças às circunstâncias dramáticas que se avizinham (com o desemprego a atingir números assustadores) e também, importa sublinhá-lo, devido a estudos pouco rigorosos como o do historiador-politólogo Riccardo Marchi, continuarão a chegar novos filiados ao CHEGA; e as Presidenciais e as Autárquicas serão já em 2021... Como André Freire teve oportunidade de escrever, em muitos casos, o estudo de Marchi “destaca-se pouco da forma como o partido se apresenta a si próprio na arena política, ou problematiza pouco ou nada determinadas contradições insanáveis nas suas propostas” (Jornal de Letras, 15 a 28/7/2020). Além disso, continuando a seguir as palavras de André Freire, a obra de Marchi, apesar de ser importante para compreender, por exemplo, a evolução do partido de André Ventura, foi elaborada fundamentalmente a partir de um conjunto de entrevistas a dirigentes do CHEGA e no “escrutínio de documentos do partido e de peças jornalísticas”, sendo de realçar a ausência de “bibliografia académica” indispensável, de resto, para um estudo historiográfico.  

            As previsões demográficas mais recentes calculam que Portugal continuará a perder população a um ritmo assustador: “há 23 nações, incluindo Portugal e Espanha, que devem ter metade da população em 2100” (RTP, 15/7/2020). Nesse sentido, como escreveu Milton Blay: “A história do mundo é uma história das migrações e querer fechar fronteiras é uma tentativa de contrariar a natureza humana, sobretudo em uma época em que a Europa envelhece e vive em deficit demográfico crónico, precisando do aporte de estrangeiros” (Milton Blay, 2019, s/p). Num país fortemente marcado pela emigração como é Portugal (que ainda permanece como um dos mais seguros do mundo), não deixa de ser curioso verificar até que ponto o discurso propagandístico de Ventura tem vindo a colher votos, a ponto de as sondagens já colocarem o CHEGA como a terceira força partidária nacional. Algo que a crise económico-financeira e social dinamitada pela pandemia tenderá ainda a fazer aumentar nos próximos anos, um pouco à semelhança do que ocorreu no século passado com a Grande Depressão. Isto para já não falar nos inúmeros exemplos de ineficácia da justiça perante a corrupção...

Numa época em que a União Europeia corre o risco de desmoronar-se, em que os Estados Unidos deixaram de ser reconhecidos como o farol do mundo e que espreita a provável segunda vaga da COVID-19, tudo pode acontecer (aliás, o líder do PSD, Rui Rio, até já admitiu a possibilidade de futuras “conversações com o Chega”, apesar de reconhecer tratar-se de “um partido marcadamente de direita, em muitos casos de extrema-direita”: Público, 30/7/2020). As palavras do historiador Yuval Noah Harari parecem-me cada vez mais significativas: a estupidez humana não pode ser subestimada…

            Como escreveu Umberto Eco, seria “tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: «Quero reabrir Auschwitz, quero que as camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!» Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-Fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes. O nosso dever é desmascará-lo e apontar a dedo cada uma das suas novas formas — diariamente, em todo o mundo” (Umberto Eco, 2017, p. 29).

Os muros da extrema-direita entre nós e os outros, por muito tentadores que se apresentem nas redes sociais, serão novamente pagos com o sangue de milhões de seres humanos…

 

Referências bibliográficas: Milton Blay ― A Europa Hipnotizada. A escalada da extrema-direita, São Paulo, editora Contexto, 2019; Riccardo Marchi A Nova Direita Anti-Sistema. O caso do CHEGA, 1.ª edição, Lisboa, Edições 70, 2020; Umberto Eco — Como reconhecer o Fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, Lisboa, Relógio D’Água, 2017.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Alves Redol: ensinar o Povo ao Povo



Em Maio de 1944, Alves Redol foi preso pela polícia política do Estado Novo e encaminhado para a prisão de Caxias. Em 1963, voltou a ser detido pela PIDE e levado para o Aljube, em Lisboa. Do seu currículo fazem também parte várias obras apreendidas e a obrigatoriedade de, pelo menos a partir de 1943/1944, enviar todos os seus livros à censura prévia. Destacado membro do PCP, integrou o Movimento de Unidade Democrática, logo em 1945, e foi um dos grandes escritores do século XX, cujas obras conheceram tiragens invulgares para a sua época, caso d’A Barca dos Sete Lemes, em 1958, com 5000 exemplares ou O Cavalo Espantado, em 1960, com 6000 exemplares. Eis, por conseguinte, alguns ingredientes que me levaram a aceitar o repto de um leitor para redigir este breve artigo.
Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira, em 29 de Dezembro de 1911, e faleceu, com 57 anos, em 29 de Novembro de 1969, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na sequência de um cancro recentemente diagnosticado. O contacto, durante a infância, com familiares ferreiros e camponeses, bem como a sua passagem por Angola (1928-1931), onde contraiu malária, irão marcá-lo profundamente. Além de uma intensa actividade literária, ao longo da sua vida desempenhou várias funções ligadas ao comércio, à publicidade e à intervenção cívica e cultural, organizando, por exemplo, bibliotecas populares ou passeios culturais e proferindo palestras.
Apontado como o autor da obra que marcou o início do neo-realismo em Portugal (Gaibéus: 1939), Alves Redol embrenhava-se na realidade, estudando-a minuciosamente antes de procurar escrever o que quer que fosse. Daí que as suas palavras sejam atravessadas pela dureza que marcava a vida dos trabalhadores durante o Estado Novo, mas também pela condenação das injustiças sociais e políticas que tanto atormentavam o escritor.
Em 15 de Fevereiro de 1940, um relatório da censura pronunciava-se do seguinte modo em relação a Gaibéus: “Este romance que revela um autor de forte poder de análise, descreve a vida do trabalhador humilde do norte que vem trabalhar para as ceifas do arroz no Ribatejo. A sua vida de sacrifício, os aspectos dolorosos do seu desconforto, o cansaço e o desalento do trabalho ao sol forte da canícula, são bem retratados nesta obra que se impõe pelo seu recorte literário. […] Há, porém, páginas neste livro que chocam pelo realismo, que nalgumas se transforma em pornografia e prejudicam o seu incontestável valor” (https://ephemerajpp.com). Pese embora o deslumbramento do censor pelas páginas analisadas, a obra foi proibida em 26 de Abril de 1940 (nesta época, Redol ainda não enviava os livros à censura prévia) e a 2.ª edição apenas foi autorizada em 1 de Junho de 1949.
Permita-se-nos também destacar aqui aquela que, de acordo com o consagrado historiador da Literatura Óscar Lopes, pode ser considerada a obra-prima de Redol: Barranco de Cegos (1961). Dado à estampa nesse ano horribilis de Salazar (marcado, por exemplo, pelo início da guerra colonial, pelo assalto ao Paquete Santa Maria, pela Abrilada ou pelo Golpe de Beja), o enredo da obra de Redol desenrola-se em torno do latifundiário Diogo Relvas, que, entre o final do século XIX e a primeira metade da centúria seguinte, assiste ao crepúsculo do velho mundo em que tinha sido educado: a crise da Monarquia Constitucional, a propagação do republicanismo, a lenta industrialização do país, a ditadura de João Franco, o regicídio e, entre outros, a árdua luta pelos emergentes direitos sociais da classe trabalhadora.
Perante o iminente desmoronar desse velho mundo, o leitor acompanha a luta do poderoso terratenente Diogo Relvas, em pleno Ribatejo, para conservar o seu prestígio e poder, perpetuando-os nas próximas gerações. E para evitar a anarquia que as indústrias, o progresso, a instrução, a imprensa e os sindicatos agrícolas iriam supostamente trazer, o latifundiário não hesita em defender soluções mais musculadas (leia-se, absolutistas e ditatoriais), como sejam o facto de ter ordenado a morte de um dos seus criados porque este envolvera-se sexualmente com a sua filha Maria do Pilar. Eis as ordens que dá a esse respeito ao mercenário de serviço: “— Fá-lo sentir bem a morte. Não tenhas pressa. E corta-lhe as partes à navalha. Corta-lhas e mete-as no estrume. […] Ou mete-lhas na boca… Sim, na boca, se lha conseguires abrir”.
Além de ser um homem poderoso, trata-se, contudo, de um lavrador que é também conhecido entre os populares pela sua bondade e sensibilidade, características bem evidentes quando — comovido com os pedidos da mulher do lavrador Tóino Valador — recua na decisão de expulsar esta numerosa e pobre família da sua casa em Aldebarã e se predispõe mesmo ajudá-los.
Assim, à semelhança da sua conturbada época, Diogo Relvas, “o Rei dos Lavradores” (único título pelo qual gostava de ser conhecido), é também uma personagem sólida e profundamente complexa, a fazer lembrar o inesquecível príncipe de Salina, Dom Fabrízio, do romance de Tomasi di Lampedusa: O Leopardo (1958). Afinal, ambos compreendem que vivem numa época de charneira, com o iminente desmoronar de um mundo velho. Todavia, apenas o aristocrata italiano Dom Fabrízio tem a capacidade de adaptar-se aos novos tempos.
Quanto ao conservador português Diogo Relvas, depois de mandar assassinar o criado que se envolvera com a filha, condena-a à reclusão, em Cuba (Alentejo), e posteriormente recusa mesmo participar no seu funeral. Mas será um humilde caiador, de nome Norberto, a conseguir fazer cair o latifundiário do seu pedestal, quando se recusa cumprir a ordem que o poderoso terratenente repetidamente lhe dava: entrar na taberna e pedir que lhe trouxessem os jornais. Eis a desafiadora resposta do trabalhador ao poderoso: “— Ouvi, sim, ouvi. Mas estou cá a pensar… Sim, estou a pensar porque diabo não hás-de tu apear-te da pileca e ires tratar duma coisa que é a tua…”
Assim se desmoronava o mundo de Diogo Relvas, humilhado em público por um humilde caiador que ousou pensar pela própria cabeça. Nesta sequência, o latifundiário acabou por isolar-se na “Torre dos quatro ventos”, refúgio familiar onde ia, sobretudo nos momentos mais difíceis, consultar os seus antepassados já falecidos. Lá acabará por morrer, enquanto o sobrinho Rui Diogo encontra uma hábil estratégia para perpetuar durante vários anos a vida do falecido e, consequentemente, o seu próprio poder. E talvez seja esta permanente luta pelo poder que possa ser considerada o motor da História, como escreveu Marx, mas também desta notável obra literária publicada em pleno Estado Novo salazarista.
Hoje, numa época de forçada reclusão e de ensino a distância, seria fundamental que os portugueses regressassem aos grandes clássicos da literatura, entre os quais figura por direito próprio este romance de Alves Redol. De resto, tenho para mim que o país ganharia muito mais se os professores portugueses tivessem a possibilidade de aproveitar o que resta do presente ano lectivo para incentivar os seus alunos (logo a partir do 2.º ciclo) a lerem esta e outras obras, em detrimento de insistirem na tremenda parafernália de fichas de trabalho e mais instrumentos de avaliação prenhes de intricadas funções gramaticais e outras quejandas parvoíces que apenas têm o condão de matar ainda mais o gosto pela escola e pelo conhecimento, além, evidentemente, de contribuírem para agravar as assimetrias sociais e culturais entre os que nasceram num “berço de ouro” e os que tiveram a infelicidade de pertencer ao grupo dos que continuam a não ter voz para fazer escutar os seus problemas.
Alves Redol e os escritores neo-realistas fazem-nos falta. As suas palavras sabem a realidade, ajudam-nos a tomar consciência do que sucede diariamente à nossa volta e, além disso, alimentam a alma com um dos mais preciosos bens da vida, a beleza. Também por isso, deixo um convite ao leitor. Assista em família à representação da peça “Uma sementinha cheia de histórias” (encenação de José Teles a partir da obra infantil A Vida Mágica da Sementinha, dada à estampa por Redol em 1956). O Museu do neo-realismo, em Vila Franca de Xira, disponibiliza-a on-line (http://www.museudoneorealismo.pt/pages/1367?event_id=11297). E, claro, quando as circunstâncias o permitirem, caso tenha oportunidade, não deixe de visitar este fantástico Museu na cidade natal de Alves Redol, onde poderá recordar, entre outras, essa batalha pelo “conteúdo” que os neo-realistas portugueses empreenderam a partir da década de 30 do século passado. Uma batalha que ainda continua actual, para evitar a epígrafe de São Mateus que Redol simbolicamente colocou no pórtico do seu romance Barranco de Cegos: “Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco”. Afinal, como escreveu o padre António Vieira: “Não pode haver maior cegueira, nem mais cega, que ser um homem cego e cuidar que o não é”.
Os livros de Redol, Soeiro Pereira Gomes, Aquilino, Torga, Namora e muitos outros poderão abrir os olhos a muita gente. Resta é perceber se isso continua a interessar a quem nos governa ou pretende vir a governar…  
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com) 

terça-feira, 7 de abril de 2020

O Giz roxo



Acedi ao convite de Mónica Menezes, formadora de escrita criativa, onde esta propôs  aos interessados que escrevessem um breve texto de 30 a 50 palavras onde não estivesse presente  a letra "U":


Cito as breves linhas:

"Valorizei o gesto mas não dei grande importância ao giz roxo oferecido pela Elisabete na primeira visita do herdeiro da família à  Escola. Tive a sensibilidade de o recolher com carinho e o acomodar na minha casa. Hoje são  amigos inseparáveis nas visitas ao exterior neste período de isolamento."








sábado, 4 de abril de 2020

A magia da linguagem na idade dos porquês.


Neste período de quarentena temos ouvido com particular atenção o Duarte, tanto porque ele não se cala como porque ele de dia para dia evolui e expressa-se de uma forma mais fluente.

Já há algum tempo que digo que tenho de fazer a evolução da linguagem no Duarte mas arranjo sempre qualquer coisa para fazer e essa tarefa tem sido continuamente adiada.

Vou enunciar lembranças dispersas pois não tenho um fio condutor claro na minha cabeça.

Vou começar com o enorme gosto do Duarte por comida: O Duarte foi habituado aos ovos caseiros da avó materna, avó Cidália ou como ele diz a avó “Lái”. Desde muito novo para ele não estar sempre a pedir ovos dizíamos que o carteiro naquele dia não tinha trazido um ovo ou que as pititas da avó “Lai” não tinham mandado ovos. A partir daí as perguntas do Duarte foram “ O Carteiro não trouxe ovo” ou “as pititas da avó lai não mandaram ovo”. O Duarte é um grande comilão e agora em que ele está em casa dias a fio perde a noção dos horários e quando não está a brincar está a perguntar à “mãe o comer já está pronto”.

O Duarte tal como a maior parte das crianças a partir do momento que consegue fazer algo de novo usa e abusa dessa nova conquista na sua evolução como criança. Aconteceu isso no andar, onde passou do gatinhar ao correr sem passar pelo andar. É arrepiante ver a velocidade daquelas pernas pequenitas a correrem e o ar de felicidade  estampado no rosto daquela criança. Neste período de quarentena nos seus passeios curtos à volta do prédio quantas vezes o pai ou a mãe se vêem-se obrigados a correr a sério, pois quando ele sai porta fora corre tanto que não é nada fácil agarrá-lo, a mãe que o diga.

As perguntas do Duarte no período de quarentena: O Duarte não percebe bem o que se passa e faz inúmeras perguntas. Mais no início quando acordava perguntava “amanhã a avó Paulita (avó paterna) não me vem buscar para irmos à escola” uma rotina frequente neste ano letivo que foi abruptamente interrompida, sem que ele percebesse porquê. A forma de nós contornarmos a situação é dizer-lhe que a escola está muito suja e as professoras Fátima e Lurdes estão a limpá-la. Outra questão que ele faz é “porque é que as pessoas têm um papel na boca” e nós tentamos explicar-lhe dizendo que é para evitar que um bicho entre no corpo delas.

Uma saída no 2º dia de quarentena: A mãe teve duas reuniões em videoconferência e o Duarte foi com o pai dar uma volta de carro. Pensei em lugares onde houvesse o menor número de pessoas possível e desci até ao rio alva pois lembrei-me que o Duarte adora ver o rio. Fui ver o rio e subi a encosta em direção a São Romão. À medida que ia subindo apercebi-me que ele estava a adormecer e eu não queria isso e decidi parar o carro a meio da encosta e comentei com ele a paisagem. Disse-lhe que lá ao fundo no cimo da encosta fica a casa da Heide e um pouco mais a baixo junto à igreja fica a casa da avó e mãe do Pedro, tudo tal como na história real. Lá consegui que ele espevitasse e subi em direção a um fontanário parei e disse-lhe que era ali que as cabras da Hide bebiam água após virem dos prados. O Duarte pôs a mão na água que saía da fonte e disse que estava fria e eu realcei que nas montanhas da Heide faz muito frio e por isso a água é tão fria. Nestas idades é maravilhosa a capacidade que as crianças têm de absorver tudo aquilo que vêm e ouvem. Continuámos viagem e um pouco mais em frente parámos junto a uma ex escola da mãe. Nós já lhe tínhamos dito que a escola atual da mãe fica junto às montanhas, apesar de não ser esta(São Romão) fez-se a ligação com a história da Heide para tudo fazer sentido. Realcei o facto de a escola estar fechada e de as professoras estarem todas lá dentro a limpar a escola.  Após a passagem pela escola da mãe o Duarte pediu-me para ir ver o campo de ténis e assim o fiz levei-o a ver tanto ao campos de ténis como ao de futebol.A viagem prossegui com a ideia de ainda irmos à ponte de madeira da história da Heidei. O Duarte não se esqueceu e salientou por diversas vezes no regresso a Oliveira do Hospital que tínhamos ainda que ir à ponte de madeira. Lembrei-me de ir ao parque do Mandanelho,  já em Oliveira do Hospital para ele ver uma ponte de madeira mas com o adiantado da hora e a fome a apertar acabou por se esquecer e fomos diretos a casa.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A História do moliço

Os momentos para adormecer o Duarte depois de almoço  são cada vez mais difíceis. A adaptação de uma criança de 3 anos à quarentena tem sido boa mas devido à quantidade de horas que ele passa dentro de casa é difícil que ele gaste energia como dantes. Nós pais temos a sorte de estar ambos em casa e engendramos tudo para o manter ativo sem ecrãs, mas por vezes com a quantidade de tarefas que temos para fazer não lhe conseguimos dar a atenção desejada e recorremos ao telemóvel para o manter quieto e entretido. Ambos sabemos que não é a estratégia mais correta, e observamos que ele por ser mais estimulado é mais difícil de acalmar para adormecer tanto na hora da sesta como de noite.

Antes nós passávamos-lhe um episódio da Heide ou do Bombeiro Sam e ele acalmava e acabava por adormecer, agora apercebo-me que é necessário mais estratégias e por vezes é preciso  zangar-mo-nos com ele para sossegar e adormecer. Hoje não parava de trautear as músicas daqueles vídeos estúpidos que ele viu no telemóvel.
Ele quando adormece com o pai pergunta sempre pela mãe mas a partir de ontem a pergunta recorrente foi se a mãe estava numa reunião em vez das normais: está a trabalhar no computador ou a arrumar a cozinha.

Após uns breves minutos a pensar como o podia aclamar inventei a história do moliço a partir daquilo que tinha visto da minha visita ao museu do mar em Ílhavo e de algumas pesquisas na Internet.

História do moliço  

Indiquei-lhe que  os moliceiros são barcos que apanham o moliço. O moliço é apanhado na ria de Aveiro e serve para fertilizar os solos ou como eu lhe disse para tornar as terras mais felizes. Para fixar a atenção dele perguntei-lhe se um barco andava no mar ou na terra, e ele após uns breves instantes lá me disse que  andava sobre a água. Aos pouco foi conseguindo que ele deixasse de trautear a música estranha dos vídeos.

Duarte há pessoas que trabalham na apanha do moliço, chamam-se moliceiros. Essas pessoas residentes em Aveiro estavam dependentes da chuva do Inverno para que houvesse muito moliço para que este tornasse as terras muito felizes. A abundâncias de alimentos hortícolas e frutícolas era frequente e por isso as pessoas perderam o hábito de poupar e comiam em abundância o ano todo. 

Num certo ano, consequência de um Inverno muito seco o moliço foi escasso, e as terras estavam pouco férteis ou tristes dando origem a uma forme generalizada.  A população habituada à abundância ressentiu-se ,pois não se precaveu para uma eventualidade dessas. Com o passar do tempo as pessoas com mais recursos foram percebendo as dificuldades dos mais desfavorecidos ou mais expostos à fome ofereceram um pouco do que tinham para que aquelas pessoas pudessem ter um verão mais acolhedor e com menos dificuldades.

A solidariedade e a necessidade de poupar de pensar mais a longo prazo foi algo pensado e implementado com mais frequência a partir daquele verão quente, que não lhes deu os alimentos a que estavam acostumados.



Com esta história inventada pela minha imaginação conseguir acalmar o Duarte. O que achei mais giro foi ele após entrar na história ter colocado todos os bonecos sentados a ouvir a história.

sábado, 28 de março de 2020

Merkel conseguiu evitar o pior. Resta saber por quanto tempo (Artigo de Opinião de Teresa Sousa- Jornal Público)


1. Esperava-se que corresse mal. Correu pior. A única réstia de esperança é que poderia ter corrido ainda pior. Mas continua a ser legítimo dizer que não parece haver número de infectados ou de mortos, cenários catastróficos para a economia, números do desemprego a dispararem a uma velocidade raramente vista, cidades-fantasmas, angústia generalizada quanto ao futuro, que consiga levar os líderes dos 27 países da União Europeia a agirem como europeus. Foi triste a imagem que o terceiro Conselho Europeu por teleconferência deu de si próprio. E não foi por culpa de todos.
Também é legítima uma discussão sobre dívida conjunta ou sobre o montante de crédito que o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) deve conceder aos Estados-membros. Ela foi, certamente, intensa na última reunião do Eurogrupo que precedeu a cimeira e que, perante a constatação de divisões insanáveis, preferiu passar aos líderes a responsabilidade da decisão. Não é essa a questão essencial. O que é mais perigoso na situação que a Europa vive neste momento e na sua incapacidade de reagir em conjunto é que alguns dos seus líderes (ainda) não mudaram a sua forma de pensar. Pensam hoje o que pensavam antes da pandemia.
2. O primeiro-ministro português referiu quatro países que se opuseram à emissão de dívida conjunta para enfrentar a reconstrução económica e social da Europa. Depois corrigiu: três irredutíveis e um quarto que aceita o debate. Não revelou quais foram. Não lhe compete. Mas a forma como decorreu o Conselho, num clima tão tempestuoso que ia levando à ruptura, permite algumas conclusões.
Que os Países Baixos se opõem furiosamente aos eurobonds, seja qual for a forma que revistam, já sabíamos, e não houve qualquer esforço de Mark Rutte em desmenti-lo. Foram, aliás, as declarações do seu ministro das Finanças que levaram António Costa a dizer o que disse durante a conferência de imprensa final do Conselho Europeu, classificando-as de “repugnantes”. As suas palavras tornaram-se virais, provavelmente porque exprimem um sentimento partilhado em muitos países europeus. Na sexta-feira, o primeiro-ministro holandês não as quis comentar, mas sentiu-se obrigado a esclarecer que as palavras do seu ministro terão sido mal interpretadas – qualquer coisa entre “não escolheu bem as palavras” e “não o interpretaram bem”. Rutte também disse que eram “muitos” os países que pensavam como ele sobre a emissão de dívida. Hoje, sabemos que “muitos” quer dizer quatro, mesmo que haja ainda alguns líderes europeus que tenham preferido um relativo silêncio. Mesmo assim, nas últimas horas, mais três países juntaram a sua assinatura aos nove chefes de Estado e de Governo que, na véspera da cimeira, enviaram uma carta conjunta a Charles Michel, defendendo que a Europa precisa de recorrer a todos os instrumentos à sua disposição para enfrentar esta crise, incluindo a emissão de dívida. Entre eles, estão países ricos do Norte, como a Bélgica ou o Luxemburgo, mas também a França, a Itália e a Espanha, respectivamente a segunda, terceira e quarta economias do euro, ou Portugal, Irlanda e Grécia e, a partir de sexta-feira, Malta, Chipre e Lituânia.
3. O choque frontal que quase levou o Conselho Europeu à ruptura foi, como seria de prever, entre Mark Rutte e os primeiros-ministros dos dois países onde o sofrimento atingiu já as proporções de uma tragédia humana: Giuseppe Conte e Pedro Sánchez. Nem um nem outro estavam disponíveis para assinar uma Declaração conjunta cheia de palavras vazias, espelhando apenas o “menor denominador comum”, ou seja, o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) em determinadas condições e a exclusão de “coronabonds”. A ruptura acabou por ser evitada in extremis pela chanceler alemã através de uma intervenção considerada em Lisboa como “construtiva e moderada”, ainda muito longe de ceder no que diz respeito à emissão de dívida conjunta, mas capaz de evitar o pior. O argumento de Angela Merkel em relação aos “coronabonds” não é igual ao “nunca, jamais” de Rutte ou do chanceler austríaco Sebastian Kurz. O seu argumento é que não se deve prometer o que não se tem a certeza de poder cumprir. Mesmo assim, a sua intervenção permitiu aliviar a tensão e encontrar um acordo em torno do ponto 14.º da Declaração, onde nenhuma solução é mencionada para a reconstrução económica pós-pandemia, nem nenhuma é rejeitada. O Eurogrupo volta a ser mandatado para apresentar propostas concretas em duas semanas. “As propostas devem ter em conta a natureza sem precedentes do choque da covid-19, que afecta os nossos países todos”. “A nossa resposta decorrerá passo a passo, à medida que for necessária, com novas acções e de uma forma inclusiva, à luz dos desenvolvimentos e de forma a dar uma resposta abrangente.”
A Alemanha, como Merkel voltou a dizer no final da reunião, prefere o recurso ao MEE. Mas uma das razões pelas quais a Itália, entre outros países, se opõe a este mecanismo de resgate europeu (240 mil milhões dos 410 de que dispõe, que correspondem ao limite máximo de 2 por cento do PIB de cada país), está nas condicionalidades que impõe para a concessão de empréstimos – vistas como uma espécie de “programas de ajustamento” aplicados pela troika durante a crise das dívidas soberanas, com a mesma natureza estigmatizante. Nenhum país, de Portugal a Itália, quer voltar ao tempo da resposta à crise financeira de 2008, com as suas hesitações, as suas decisões no último minuto, as suas “estratégias de punição”, a sua execução em tempo recorde, impedindo as economias de respirar e saldando-se em custos sociais elevados. Sexta-feira, António Costa voltou a insistir nesta comparação.

Também esta sexta-feira, o Financial Times resumia bem a discussão que envolveu os lideres europeus. “Praticamente todos os países sairão desta crise com as suas dívidas inflacionadas e um défice mais pesado. Perante um pano de fundo desta natureza, discutir quem sairá com finanças ligeiramente mais saudáveis seria como vangloriar-se de ter a cara mais limpa depois de um combate na lama.”

4. O Presidente francês e o primeiro-ministro português insistiram no risco de vida que a Europa corre. Não estarão a exagerar. Se esta é a maior crise que os europeus enfrentam depois da II Guerra – como diz Merkel -, se esta é uma “guerra” contra um inimigo comum que não escolha quem ataca, como voltou a dizer esta sexta-feira António Costa, então a resposta só pode ter uma dimensão equivalente. Também esta sexta-feira, o Presidente do Parlamento Europeu, o italiano David Sassoli, manifestando a sua desilusão perante os fracos resultados do Conselho Europeu, lembrou que “ninguém conseguirá escapar a esta emergência sozinho”. “A Europa que vai emergir desta crise não será a mesma. Mas há quem ainda não tenha compreendido isso.”

Artigo de opinião escrito por Teresa Sousa 
Jornal Público 28 de Março

quarta-feira, 25 de março de 2020

Memórias e desabafos em tempo de quarentena

Lembro-me perfeitamente de Janeiro de 2018, o meu reingresso no ensino. O recomeço foi muito duro e a vontade de desistir por diversas vezes assolou a minha cabeça. O nervosismo era imenso e a vontade de falhar maior ainda. Foi com alegria que no final do ano letivo 2017/18 me despedi da Escola Secundária do Fundão com a sensação de dever cumprido e ter ultrapassado este primeiro obstáculo sem distinção mas com dignidade e muito trabalho.

No ano letivo 2018/19 estive nas escolas de Manteigas e Pampilhosa da Serra.  Retomei o ensino do terceiro ciclo e a necessidade de me adaptar a realidades muito distintas. Ambas as escolas têm muito poucos alunos e foi o meu primeiro contacto com uma escola TEIP, Pampilhosa da Serra. Senti que este foi um ano der transição de preparação, no fundo de acreditar que era possível e capaz de abraçar esta profissão. Foi o ano que comecei a organizar na minha cabeça como tornar as coisas mais fáceis e aprender com os erros e consegui aos poucos construir a minha metodologia de trabalho.

Este ano letivo está a ser sem dúvida o maior desafio da minha vida profissional. Aceitei-o com algum medo mas com uma grande determinação que ia conseguir, fui colocado em Tabuaço e Pampilhosa da Serra com horário completo anual. Foi uma loucura para tanta gente mas um desafio de constante auto-superação para mim. Uma vez que entro sempre às 9 horas há segunda feira fico em Tabuaço, dia esse que aproveito para descansar mais um pouco e recuperar baterias para os restantes dias da semana, pois em todos os outros vou e venho para Oliveira do Hospital.  Considero o dia que fico em Tabuaço o meu dia livre. Neste ano letivo muito difícil estou a lecionar  3º ciclo, 12º ano e Economia a um Curso Profissional de Restauração e Bar. Tenho conseguido ultrapassar tudo com muito trabalho em casa, apoio da minha esposa, pais e sogros. Neste período aprendi a simplificar processos a improvisar.Foram tantas as vezes que sem a aula devidamente planeada tive que contornar a situação em contexto sala de aula e mesmo saindo da escola tantas vezes triste comigo, ter a noção que amanhã tudo irá ser melhor. O pensamento positivo e o olhar em frente acreditando nas minhas potencialidades foi sem dúvida a minha maior conquista.

O segundo período estava quase a acabar quando surgiu esta triste notícia do corona virus que nos obrigou a estar em casa e a ter de lidar com rotinas tão diferentes. Sinto saudades de dar aulas presenciais e da adrenalina de ter de ultrapassar os obstáculo diariamente. Já tinha tudo muito bem definido na minha cabeça e as coisas estavam a correr bem.
A adaptação a estas novas rotinas têm sido muito difícil para mim. Sinto vontade de sair de enfrentar a vida lá fora mas não posso, sinto que perdi liberdade e é tão duro. Readaptar-me a outros método de ensino tem sido tão difícil, ainda mais quando olho e leio mails e vejo que outros o fazem com tamanha facilidade. Sinto que é o começar do zero e o nervosismo do Fundão está a voltar, a necessidade de me adaptar a uma situação nova,  com novas  metodologias e com novas formas de lidar com o tempo.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Soeiro Pereira Gomes: um escritor esquecido?


Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô (concelho de Baião, Porto), no dia 14 de Abril de 1909, e faleceu no dia 5 de Dezembro de 1949, com apenas 40 anos. Se fosse vivo, completaria 111 anos. O seu exemplo de luta cívica e a sua obra bem mereciam outro destaque, daí este breve artigo.
Quando morreu, Soeiro vivia na clandestinidade há cerca de 5 anos, pois, enquanto membro do Partido Comunista, fora um dos dirigentes locais, em Alhandra (Vila Franca de Xira), da greve de 8 de Maio de 1944. Sublinhe-se que Soeiro era, desde 1932, empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo, em Alhandra.
Ao longo da sua curta vida, colaborou com o jornal O Diabo, publicou, entre outros, Esteiros (1941) e, já a título póstumo, Refúgio Perdido (1950) e o romance inacabado Engrenagem (1951). Além disso, profundamente comprometido com a transformação da realidade social, desempenhou também um papel importante ao nível da comunidade local, ajudando a construir uma piscina para que as crianças e os jovens aprendessem a nadar sem enfrentarem os perigos dos esteiros do Tejo, desenvolvendo actividades de cariz cultural ou dando lições de ginástica aos filhos dos operários.
Quem hoje fala em Soeiro Pereira Gomes recorda-se, sobretudo, da obra Esteiros, dada à estampa durante a II Guerra Mundial, quando o autor tinha 32 anos. O livro — um dos marcos do Neo-Realismo português — contou com uma capa e ilustrações de Álvaro Cunhal e foi dedicado aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”.
O enredo do romance gira em torno de 5 crianças (Maquineta, Gaitinhas, Guedelhas, Gineto e Sagui), que são obrigadas pelas duras circunstâncias da vida a tornarem-se adultos antes do tempo, ingressando no árduo mundo do trabalho e da exploração capitalista, para conseguirem, graças ao parco rendimento auferido, ajudar as famílias a pagar a sobrevivência. Por exemplo, no forno, onde se fazia o tijolo, “Gaitinhas deu o ombro à carga, mas deixou-a cair, derreado, pela violência do calor que lhe trespassou a camisa e queimou os ombros e orelhas. Um empurrão do mestre fez-lhe brotar lágrimas de raiva”.
Este é também, como escreveu Isabel Pires de Lima, em jeito de introdução à 5.ª edição do livro (1979), um “grito de denúncia”, que alerta para as profundas clivagens entre os explorados e os exploradores, a miséria social, a fome. Eis-nos perante um conjunto de crianças que, impedidas de frequentar a escola, acabam por ter de mendigar e roubar, por vezes até mesmo outros miseráveis como elas.
Muitas pessoas, sobretudo aquelas que nasceram no Estado Novo salazarista, recordar-se-ão das circunstâncias descritas por Soeiro Pereira Gomes no romance Esteiros. Lembrar-se-ão dos seus próprios percursos ao relerem os relatos pungentes daquelas crianças e das suas famílias exploradas pelos patrões capitalistas; reconhecer-
-se-ão no sofrimento que ainda os atravessa por terem sido incapazes de ultrapassar a dureza das suas circunstâncias. O espelho intemporal criado pelo talento literário de Soeiro ajudará muitos a compreenderem ainda melhor aquilo que a vida lhes roubou — quantos não desejariam ter estudado, concluído um curso superior e não o fizeram porque foram forçados a abandonar a escola para ir trabalhar? Deixo somente um exemplo, entre muitos outros igualmente significativos. Gaitinhas (cujo verdadeiro nome era João) vivia com a mãe, Madalena, que estava muito doente com tuberculose (acabaria, de resto, por falecer). Madalena, devido às dificuldades financeiras, teve de convencer Gaitinhas a sair da escola e, por isso, foi pedir ajuda ao sr. Castro para empregar o filho na Fábrica Grande. Durante a conversa, porém, Madalena deixou escapar a mágoa de ver o seu menino abandonar os estudos (o Mestre-Escola previra que ele tinha muitas capacidades e podia ir longe. Já o pai de Gaitinhas, que andava algures pelo mundo, queria mesmo que ele fosse um médico que ajudasse os mais pobres…). Eis a resposta do ricaço à malograda mãe: “Que mal tem isso? […] Evidentemente que vossemecê não queria fazer dele um doutor”. Afinal, isso estava reservado para o seu filho Arturinho e para os restantes filhos dos capitalistas, pois os pobres estavam — na lógica da sua época — condenados a perpetuar a herança da miséria e do analfabetismo.
A luta destas crianças e das suas famílias pela sobrevivência representa o trágico percurso de tantas gerações portuguesas, às quais a realidade roubou os sonhos: como no caso de Maquineta, que tanto desejara ir trabalhar para as máquinas na Fábrica Grande e acabou por ter de carregar carvão no cais. Ou das trágicas consequências das cheias no rio Tejo, durante o Inverno: “O caudal barrento do rio arrastava fardos de palha, animais e lágrimas. E o homem daqueles sítios, alheio às conversas, nada mais via do que luto à sua frente”.
Mas as páginas de Esteiros também reflectem a gradual tomada de consciência cívica e política das suas personagens: “Madalena cerrou os lábios. Bem sabia ela que o destino era a vontade dos homens”. Ou ainda: “Maquineta bateu com força na nuca, e asseverou, como se discutisse com o próprio mestre: — Aqui é que ninguém põe a canga, nem que me matem”.
Claro que este perigo não poderia passar despercebido à censura do Estado Novo, que, em 1966, ou seja, 25 anos após a edição do livro, afirmava num dos seus relatórios:
“É um romance regionalista de análise crítica da vida miserável das populações ribeirinhas do rio Tejo, nas zonas das Lezírias, fazendo realçar a injustiça, a exploração da miséria, resultado das desigualdades sociais, no que o livro não é justo, mas antes especula.
[…] Julgo por isso que este livro deveria ter sido proibido quando apareceu, mas agora dever ser ignorado”.
O leitor Francisco C. Salgado (censor especializado na análise das obras literárias) pesava, portanto, os efeitos contraproducentes de uma eventual proibição da obra (fruto proibido é o mais apetecido), mas encerrava, considerando que deveriam ser impedidas as referências ao livro nos meios de comunicação social, condenando-o assim, na prática, à não-existência.
O final dos Esteiros representa uma inequívoca mensagem de esperança, ou não tivesse este livro sido publicado em 1941, quando decorria a II Guerra Mundial e nascia, gradualmente, entre as oposições portuguesas, a esperança de que a vitória dos Aliados traria consigo o fim do regime salazarista. Este esforço de procurar colocar o texto no seu contexto, segundo penso, revela-se fundamental para compreender esta obra e em particular o seu desenlace.
Eis o final do romance, com sabor a futuro de mudança: Gineto, preso na cela (depois de ter sido apanhado a roubar carvão), pensou ouvir Gaitinhas, que todavia já partira com Sagui para percorrer o mundo, em busca do pai. O pano encerra com o sonho de Gineto: quando os amigos regressarem, virão libertá-lo e “mandar para a escola aquela malta dos telhais — moços que parecem homens e nunca foram meninos”. A escola — sublinhe-se — surge aqui como um instrumento de libertação individual e social. E o sonho fica em aberto. Até hoje...
Soeiro Pereira Gomes passou à clandestinidade em 1944. Nessa sequência, a sua esposa, Manuela Câncio Reis, foi presa pela PIDE, mas nem isso levou o escritor a entregar-se. Em 1947, na sequência de uma queda de bicicleta (pensaria que estava a ser perseguido pela PIDE), foi-lhe diagnosticado um cancro nos pulmões, que acabaria mesmo por matá-lo dois anos depois. Hoje, as suas obras não fazem parte do Plano Nacional de Leitura e dificilmente se consegue adquiri-las numa livraria. A RTP, porém, dedicou-lhe, numa das suas emissões pedagógicas, um breve programa particularmente interessante, que recomendo vivamente a todos os leitores (https://ensina.rtp.pt/artigo/esteiros-de-soeiro-pereira-gomes/).
Numa época em que todos vivemos um drama mundial, com impactos imprevisíveis, é altura de aproveitar o nosso isolamento para regressar aos grandes clássicos da literatura. Soeiro Pereira Gomes figura, por direito próprio, no patamar dos grandes escritores e merece, por conseguinte, que as escolas o estudem e os portugueses o leiam.
Esteiros, esses braços (canais) do rio Tejo, “como dedos de mão espalmada”, ajudam-nos também a não esquecer que o destino dos Homens é construído diariamente por cada um de nós. E que é, sobretudo, pelos mais desfavorecidos que vale a pena lutar. Uma mensagem cada vez mais útil e que importa repetir à exaustão. Também por isso, a reedição das obras de Soeiro Pereira Gomes é, segundo penso, uma necessidade premente...
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com) 

segunda-feira, 16 de março de 2020

Uma semana que me irá ficar para sempre na memória.


O planeta está doente e pela primeira vez na minha vida sinto pânico generalizado.

Nas escolas na passada semana vivi uma situação de crescente alarmismo à medida que os casos foram aumentando e as conversas entre professores, nos corredores, na sala de professores ou no restaurante onde por norma vamos simplesmente para desligar do trabalho. Manter a sanidade mental, focar-mo-nos no essencial, transmitir tranquilidade aos alunos foi essa a tarefa que nos moveu.

Ensinar conteúdos da nossa disciplina foi uma tarefa que passou para mim para plano secundário. No meu caso acabei para fazer exercícios para consolidação dos conteúdos até porque esta semana coincidiu com uma semana de testes ou de revisões para os mesmos.

Nesta semana não foi fácil passar aos alunos a mensagem da verdadeira gravidade da situação, uma vez que para eles a suspensão das aulas é um sinal positivo não levando a peito todas as indicações de professores, auxiliares. Eu leciono essencialmente ao 3ºciclo a realidades sociais e económicas muito difíceis, onde os pais na maior parte dos casos não têm capacidade para os conter em casa e para lhe explicar o estado de emergência que vivemos. Tudo isso me assusta imenso e me deixa muito preocupado.

Recordo-me de um episódio que vivi na passada sexta feira  e me ficará para sempre na memória. Na última aula do dia quando a funcionária foi à sala e me deu um comunicado para ler, senti a minha voz tremula e insegura, e admito que foi a mensagem que mais me custou ler  aos meus alunos. Após a leitura da mensagem de encerramento antecipado das aulas senti um burburinho generalizado e eu ainda com a máscara de professor lembro -me que pousei de uma forma mais brusca o relógio sobre a minha secretária e gerou um silêncio geral na sala e reafirmei novamente o estado de emergência que todos vivemos e que o papel deles será muito importante, para a contenção do vírus. Terminei a aula com a auto-avaliação dizendo que as aulas presenciais poderiam neste ano lectivo  ter terminado naquele dia ao que me apercebi que alguns alunos expressaram um "Ooooh" em sinal de admiração. O futuro será incerto e para o bem da humanidade tenho de acreditar na ciência e como professor e cidadão tudo farei o que estiver ao meu alcance para ajudar. Após o final da aula senti um vazio. A partir de agora vão-me faltar as rotinas que eu me habituei a gostar.

Passado o fim de semana e começou o período de quarentena. Ao longo da vida aprendi a ser otimista e a enfrentar os problemas que sobre mim se debruçam. Nesta fase tento ver tudo o que de positivo está à minha volta para sorrir, ter esperança e dá-la à minha família mais próxima. Observar que Macau já não há casos há largos dias ou que na China a tendência é de recuperação. O povo português é um povo solidário que não vira a cara à luta mas agora mais do que nunca temos de o ser verdadeiramente e contribuir para que juntos possamos ultrapassar esta pandemia que nos encontramos.
Para mim a escrita vai ser uma rotina que me fará ultrapassar os dias em casa. Como professor estarei disponível para dar aos meus alunos as ferramentas e conteúdos para trabalharem e nãos se esquecerem da importância da escola.


sábado, 7 de março de 2020

Memórias de 2020 que me fizeram recordar 2016


Para se conseguir aguentar as agruras da vida sempre com um sorriso tem de se ter amor por aquilo que se faz, de outra forma trabalhar passa a ser um sacrifício e não um prazer o que é muito doloroso. Já passei pelos dois estados e é muito interessante perceber que mesmo com as opções menos felizes que tomamos aprendemos tanto.

Eu em 2016 tinha muitas dúvidas sobre o caminho a seguir, conhecer aquilo que de facto me faz feliz e realizado. Apercebi-me que esse ano foi o ano de viragem da minha vida sem dúvida. No Verão de 2016 estava desempregado e ligou-me uma amiga a perguntar-me se eu estava disponível para ser carteiro no giro da Vide(Seia), posso dizer hoje que é o mais difícil que havia naquele concelho. Assenti  ao convite no desespero de conseguir uma ocupação. Tive até ao mês de Julho à experiência e a partir de agosto entrei num empresa externa que trabalhava para os correios, pois aos CTT não compensava fazer aquele giro. Com a regressão do número de pessoas e de correspondência o número de carteiros decresceu naquela zona de 4 para 1. Para mim que estava a dar os primeiros passos foi uma entrada demolidora.



Lembro-me perfeitamente do clima frio que existia naquele Centro de Distribuição Postal (CDP) e da forma sobranceira que o chefe olhava para os seus empregados.
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Vou dar dois exemplos para explicar a forma fria com que trabalhava no CDP de Seia em 2016
O primeiro exemplo foi no dia 10 de Julho, dia em que Portugal conquistou o Euro 2016. Nesse dia tal como todos os outros apresentei-me ao trabalho às 7:30 fiz o cumprimento normal e não ouvi naqueles 45 minutos que passei a organizar as coisas para ir para a rua um único comentário à grande e inédita vitória de Portugal. Observei rostos fechados e um enorme peso na realização daquele trabalho.
O segundo exemplo,  foi um acidente que tive em trabalho quando me deslocava com o carro para fazer o meu serviço e embati frontalmente com o outro carro. Foi a primeira vez e espero que a única que tive um acidente deste género. Neste segundo exemplo, o embate foi duro apesar de ter tido a sorte de não ter ficado com sequelas físicas. Lembro-me que fui ao hospital e tive alta cerca de um par de horas depois e o meu chefe veio ter comigo e disse-me para ir trabalhar de tarde no meu carro e eu assenti. Durante a realização do giro alguns populares perguntaram-me se estava bem mas foi muito triste saber que havia um conhecimento geral sobre o que tinha acontecido e na Vide, os CTT que eu tinha que ir todos os dias, não haver uma palavra de conforto naquele dia particularmente difícil para mim.

Naqueles meses que estive a trabalhar para os CTT ultrapassei todas as adversidades com afinco, apesar de sentir que o meu trabalho não era minimamente reconhecido. Senti que a satisfação e gosto por aquilo que se fazia não contava para aquela gente que liderava os CTT de Seia, o que lhes interessava era que o trabalho aparecesse feito. A cada dia que passava senti um avolumar de queixas dos CTT e dos populares sobre o meu trabalho.

Eu apesar de todos os problemas que me deparei senti a enorme importância do carteiro para aquelas pessoas que vivem no extremo isolamento. Lembro-me que além de pagar reformas fazia inúmeros outros serviços como pagar água, luz, gás, Tv cabo, levantava receitas de farmácia etc.
Lembro-me que passei um verão tórrido e  sozinho calcorreava quilómetros de estrada em mau estado, muitas vezes terra batida. Não me cansei de dizer tudo o que me ia na alma e lembro-me perfeitamente de um dos representantes da junta da Vide me dizer que iria levar a discussão toda aquela problemática que o carteiro passava diariamente. Era de facto preciso fazer alguma coisa. Sinceramente penso que nada foi feito e que continua tudo na mesma com cada vez menos gente e cada vez mais abandonada. Deixei a profissão de carteiro no final de novembro após ter sido demitido.

Passados todos este anos, hoje decidi enveredar pelo profissão de professor e estou a leccionar na Pampilhosa da Serra, onde  muitas vezes passo junto das placas que nos indicam a direção a  seguir para  localidades onde trabalhei em 2016 e esboço um sorriso não sei se de satisfação se de desanimo por quem tem o azar de não poder sair daqueles lugares.

Esta semana um colega meu que faz o mesmo percurso para ir trabalhar como professor na escola da Pampilhosa da Serra despistou-se. Felizmente correu tudo bem e penso eu que não teve sequelas físicas preocupantes . Atualmente está uns dias em casa  a recuperar do choque que foi aquele acontecimento. No final desta semana quando falava com ele ao telefone lembrei-me imediatamente do tempo em que trabalhava nos CTT e que fui trabalhar no próprio dia em que  tive o acidente. Nós mais que ninguém temos que pensar em nós e se fosse hoje rejeitava ir trabalhar naquele dia e provavelmente nos restantes.