Este fim de semana li no expresso uma reportagem que retrata a triste realidade do maior campo de refugiados do Mundo, no Bangladesh. Optei apesar da sua extensão por expor a reportagem na integra.
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A fuga de mais de 740 mil pessoas da minoria étnica muçulmana rohingya,
de Myanmar, fez com que nascesse no sul do Bangladesh o maior campo de
refugiados do mundo. Em apenas três meses. São hoje 1,2 milhões de pessoas
dependentes de assistência humanitária
Há nos olhos raiados de Jamila uma tristeza profunda.
“Quando me lembro da situação em Myanmar quase choro.” Pausa.
As frases chegam devagar e sem força. Saem dos seus olhos
mais palavras do que as que a boca carrega. Não precisaria de falar para que se
entendesse a dureza impregnada nos seus 50 anos. “Incêndios, pessoas
chacinadas, casas queimadas, pessoas violadas.” Perdeu o marido. O irmão. A
irmã. “Foram mortos pelos rakhines.”
Ela, as quatro filhas, os dois filhos e o neto conseguiram
fugir. Embrenharam-se floresta dentro durante quatro dias até alcançarem a
margem do rio Naf. “Sem comida. Sem água”, lembra sentada numa cadeira de
plástico à entrada da casa de bambu que lhe serviu de teto no último ano e meio
de vida. Para aqui chegar, ao Bangladesh, faltava-lhe ainda esperar cinco dias
na margem do rio até que lhes fosse possível fazer a travessia de barco. Foram
necessárias 12 horas para chegar, por fim, ao país. “Sofremos muito. Tínhamos
fome. Tivemos de beber água salgada.”
Regressamos a agosto de 2017, quando uma vaga de violência
explodiu no Estado de Rakhine, em Myanmar, entre militares birmaneses e a
minoria muçulmana rohingya. Foi este conflito que fez com que nascesse na
divisão de Chittagong, Bangladesh, o maior campo de refugiados do mundo. “Eram
ondas e ondas de pessoas a chegar sem parar.” Um anos depois a memória de Sunee
Singh, responsável pelo departamento político do Programa Alimentar Mundial
(PAM), continua bem fresca. “Chovia e eles estavam completamente molhados.
Todos choravam. Fiquei chocada e pensei que aquele era um momento que só vemos
nos filmes. Não tínhamos comida para todos. Em 2016 tivemos um pequeno influxo
de cerca de 75 mil pessoas. Estávamos à espera de algo semelhante ou um pouco
mais.” Chegaram mais de 745 mil pessoas em três meses.
Terrível poderá não ser palavra suficiente para descrever as
histórias vividas pelos rohingya. Fatama Begum, 33 anos, foi violada por cinco
homens. “Primeiro mataram o meu irmão. Depois atiraram-me para o lado e um
rasgou-me as vestes, agarrou-me pela boca e manteve-me quieta. Espetou-me uma
faca e manteve-a ali enquanto os homens me violaram.” Sobreviveu. A filha de
Hassina, com um ano, não. Foi retirada dos braços da mãe e atirada viva para
uma fogueira onde os corpos dos homens que haviam sido mortos eram queimados.
Hassina, de 20 anos, e outras mulheres foram levadas depois até uma casa onde
foram violadas, esfaqueadas e pontapeadas. A casa foi depois incendiada, mas
ela acordou a tempo de fugir. As outras não.

De acordo com os Médicos sem Fronteiras e a Human Rights
Watch (HRW ) mais de metade das vítimas de violação em tratamento nos campos
têm menos de 18 anos, algumas menos de 10 anos. Não se sabe o número total de
vítimas. Referem-se milhares. Só ao Fundo de População das Nações Unidas,
UNFPA, foram reportados mais de 10 mil casos. O acesso a elas está vedado aos
jornalistas, seguindo o protocolo internacional para que o trauma não seja
repetidamente revivido. Apesar do apoio psicológico, 20% da população do campo
ainda apresenta problemas do foro mental, segundo dados do ACNUR.“O estado em
que chegaram era gravíssimo.”, recorda Manuel Pereira, coordenador de
emergências da OIM em Cox Bazar. “Em termos de resposta humanitária, a pressão
das pessoas a chegar não tem muitos precedentes.” 52% eram mulheres. Mais de
meio milhão crianças. Durante o denominado estado de emergência, organizações
governamentais e não-governamentais trabalharam em conjunto para dar resposta
ao monstruoso influxo de pessoas: providenciar cuidados de saúde básicos,
abrigo, alimentação e água, preparar o terreno para as chuvas fortes. “Foi uma
resposta muito em cima do joelho para garantir que as pessoas tinham os
mínimos.”, explica Pereira.
O MAIOR CAMPO DE
REFUGIADOS DO MUNDO
Os rohingyas foram acampando entre Teknaf e Palong Khlai,
dois territórios do Bangladesh separados por mais de 50 quilómetros e
embrenhados no santuário de vida selvagem de Teknaf. A vegetação teve de ser
destruída para que dos montes se fizesse casa para o maior
influxo de refugiados que o mundo presenciou na sua
História. Aí nasceram 33 campos, adicionados aos refugiados que já se haviam
instalado no local anteriormente a 2017, perfazendo um total de 909 mil
rohingyas.
Mas os cálculos incluem ainda as comunidades afetadas pelo
influxo, levando a que o número ultrapasse o milhão — 1,2 milhões de pessoas
dependente de assistência humanitária. Os números catapultaram o Bangladesh
para o topo mundial das crises humanitárias, atribuindo a este território o título
de maior campo de refugiados do mundo.
Do topo de um dos montes em Kutupalong, a cerca de uma hora
de Cox Bazar, seria fácil imaginar que a vida se havia aqui instalado há anos.
O pó amarelo levado pelo vento quente e forte cobriu os plásticos que formam
paredes e tetos em conjunto com o bambu. Os olhos perdem-se na imensidão dos
campos.
Há pontes e escadarias feitas em bambu, estradas de tijolo,
placas de localização, campos de futebol improvisados, centros de saúde e de
distribuição de comida, escolas, mercados, barbeiros, pequenos cafés, muita
construção que prepara os campos para a época das monções. Chamar-lhe cidade
seria desajustado, dizer organizado é “demasiado forte”. Manuel Pereira prefere
a palavra “estruturado”, um terreno gigante onde a vegetação começa a surgir e
uma ou outra árvore se manteve hirta.
É necessário descer o monte para se entender as muitas
dificuldades. O risco de cólera e de outras doenças infetocontagiosas
permanece. Faltam ainda estradas, pontes, centros de alimentação e saúde em
lugares estratégicos. Falta reconstruir e reforçar os abrigos, melhorar a
iluminação, preparar os terrenos para as cheias, reflorestar. E falta aumentar
o número de postos de abastecimentos de água, melhorar o escoamento de
efluentes, com consequências no ambiente, na qualidade da água e na saúde. É um
leque de trabalhos que conta com a participação dos refugiados.
COMBATER O TRÁFICO
HUMANO
Descendo o monte até ao campo 4 entramos no Centro de
Mulheres. Escondem-se os rostos entre os lenços. Um sorriso tímido aqui e ali.
A cabeça voltada para o chão. Aqui não há homens. Ouve-se o barulho das muitas
máquinas de costura vindo de uma das salas do centro, um refúgio da vida, um
espaço que pretende dotar as raparigas de qualificações e oportunidades. Sunee
Singh, do PAM, criou o primeiro programa mundial de resiliência para mulheres
em campos de refugiados, em parceria com outros programas das Nações Unidas e o
Governo do Bangladesh. “As mulheres foram as mais afetadas e percebi que, além
do apoio psicológico, era necessário providenciar um acompanhamento
especializado.” Aqui ensina-se a costurar, a fazer pintura de panos e a
arranjar telemóveis. “Estamos a dar-lhes algo que elas nunca tiveram, algo que
vai para lá da sobrevivência. Estamos a dar-lhes dignidade, a contribuir para a
economia local e do campo.”
Num dos cantos, um pequeno grupo de mulheres junta-se em
redor de uma mesa onde se acumulam peças de telemóveis antigos. Ummesalina,
olhos presos ao chão, está a aprender a arranjar telemóveis. “Nós encarámos
tantas adversidades até chegarmos à margem. Chovia e os montes foram tão
difíceis. Aqui somos felizes.” A voz jovem treme por trás da burqa, mas não lhe
falha. “Quando ouvi falar do serviço que estava a ser providenciado no Centro
de Mulheres disse à minha mãe que era importante vir e ser uma mulher
qualificada”, conta enquanto esconde o rosto e fala repetidamente do irmão e da
irmã que ainda se encontram em Myanmar. “É muito importante ser educada, porque
quando nos casarmos as nossas crianças serão também educadas”, acredita. Na
sala ao lado, cheia de tecidos coloridos e antigas máquinas de costura pintadas
com flores, as palavras de Khaleda demonstram já a transformação pessoal
ocorrida nos últimos meses: “Ser educada permite-nos ser resilientes, ter
autoconfiança, fazer parte das decisões da comunidade. Nós não sabíamos sequer
escrever o nosso nome”, conta, escrevendo a sua assinatura num caderno, ar
orgulhoso e letra vinda de mãos ainda pouco acostumadas ao peso da caneta.

É preciso mais meia hora de viagem para abandonar o grande
complexo de Kutupalong-Balukhali onde vivem quase 750 mil pessoas, passar por
campos de arroz e estradas em terra batida para chegar ao campo 22, onde o
isolamento é visível e as condições de vida ainda mais precárias. As raparigas
caminham uma hora para chegar ao Centro de Mulheres deste campo. Sentadas em
fila, pedem mais, de olhar determinado. Mais centros, mais máquinas. Ao lado
das instalações, Laila, viúva e mãe de três filhos, mostra-nos embevecida a sua
horta, fruto das sementes dadas pelo programa. É um quadrado de terra que lhe
alimenta a família e lhe gera dinheiro no bolso. Cerca de cinco euros que lhe
transformam a vida.
Existem 226 mil mulheres no campo com mais de 18 anos. O
programa do Centro de Mulheres iniciado em julho de 2018 chega, por agora, a
seis mil mulheres, com um custo de 200 dólares por pessoa [cerca de 175 euros].
Até ao final de 2019 o objetivo é, combatendo a falta de terrenos e
financiamento, aumentar o número de atividades, passar de 10 a 14 centros e
envolver 15 mil pessoas, incluindo homens.
A questão cultural é, porém, ainda uma grande barreira. As
mulheres não tiveram acesso a educação, sofrem um grande isolamento social, são
vítimas de violência de género e discriminação étnica. O programa foi
apresentado porta a porta. Inicialmente cerca de 5% das mulheres desistiram.
Foram proibidas pelo pai ou pelo marido, engravidaram, mudaram de campo.
A par da aprendizagem cada mulher recebe cerca de 10 euros
em forma de e-voucher, um incentivo que, pretende-se, funcione como motivador
de participação e colmate alguns dos grandes problemas atuais que assolam os
campos: tráfico humano, prostituição, trabalho forçado e casamento precoce. A
responsável pelo programa explica: “Mulheres, homens e crianças viveram debaixo
de uma monitorização muito restrita, de ação e mobilidade, o que os torna muito
inocentes e ingénuos, especialmente as raparigas e mulheres que não tiveram
muita exposição. Por isso, é fácil enganá-las, dar-lhes esperança. É fácil
levá-las para uma teia de crimes.”
Diariamente, 60 mulheres e raparigas são paradas pelas
agências de segurança do Bangladesh numa tentativa de abandonar o campo. Entre
as raparigas que se encontram a receber assistência médica física e mental por
parte da organização após serem resgatadas, dois terços foram vítimas de
trabalho forçado e 10% de exploração sexual. “Estes são riscos muito reais
vividos pelas crianças nos campos”, reconhece Karen Reldy, da UNICEF.
O Bangladesh tem um dos maiores índices mundiais de
casamento precoce. 50% das raparigas casam-se com menos de 18 anos, 18% com
menos de 15 anos. A fim de eliminar o problema, a UNICEF criou em parceria com
o Governo do país um Plano de Ação Nacional, que pretende erradicar o casamento
precoce até 2041, informa Reldy.
POBREZA E MÁ
ALIMENTAÇÃO
O suor escorre da testa de Azizur Rahman. A camisa verde
escureceu com a transpiração. Azizur e o filho acabam de caminhar vinte minutos
desde o centro de distribuição de comida até à pequena casa no campo 3, subindo
e descendo montes, com a ração dos próximos 15 dias carregada às costas: 30
quilos de arroz, alguns sacos de lentilhas e óleo de palma.
Há mais de um ano que é esta a alimentação dos cinco
elementos da família. As filhas escondem-se nas pequenas separações da casa,
enquanto a mulher, Arefa, posicionada atrás de Azizur, se queixa da qualidade
do arroz. Estende-o num saco sobre o chão de terra e mostra os arrozeiros que
não são consumíveis.
Há um simultâneo sentimento de agradecimento e saturação. “Não
temos dinheiro para comprar nada. Temos apenas a ração. Precisamos de mais para
nos alimentarmos”, lamenta Azizur. A frustração é generalizada. Desde a sua
chegada que os rohingyas vivem, quase na totalidade, sem qualquer fonte de
rendimento e um terço da população continua a aceder apenas ao sistema de
distribuição geral de comida do PAM. Sacos e sacos seguem sobre os corpos
curvados de homens. Um camião de comida circula a cada 15 minutos dos armazéns
para os campos. São quase 400 mil quilos de comida distribuída diariamente só
para este sistema do PAM. Mas esta é uma realidade em metamorfose.

No campo 5 nasceu o que o PAM apelida de megaloja, um
armazém gigante com três vendedores locais. Nas paredes encontram-se cartazes
com os 18 ingredientes disponíveis e o preço de cada um. Há filas e filas de
sacos de arroz e lentilhas empilhados, vegetais, ovos, especiarias, peixe seco
e ainda sabonete. A entrada e saída de pessoas é constante e fora das grades do
armazém a curiosidade é evidente. O medo de que os alimentos escasseiem faz com
que a meio da tarde as prateleiras estejam quase vazias. Só a partir deste
centro são alimentadas 40 mil pessoas. Ao membro feminino mais velho da família
foi entregue um e-voucher que funciona por impressão digital, com 750 taka,
cerca de 7,5 euros, atribuído a cada membro da família mensalmente. “Estou
feliz. Aqui tenho o que a minha família necessita”, diz uma das mulheres. 324
mil pessoas têm já acesso a este sistema através das 21 lojas existentes. O PAM
pretende que até ao final do ano todos tenham acesso ao programa alimentar
e-voucher a uma distância máxima de 1,5 quilómetros de cada casa.

Nem só de comida vive o homem. Da colina mais elevada do
campo 12, Massud escava a terra onde foram colocados seis tanques de água,
quase 600 mil litros, o suficiente para providenciar água a 30 mil refugiados
Rohingya. São números referentes à primeira fase do sistema de água potável
movido a energia solar. É o maior sistema do campo de refugiados do Bangladesh.
Será o maior do mundo em campos de refugiados quando o sistema funcionar para o
mais de um milhão de pessoas.
O parque com 180 painéis solares está quase concluído. É um
plano preparado ao pormenor e com vantagens assinaladas em todas as áreas.
Mohan Mishra e Watsan, da equipa WASH (Água, Saneamento e Higiene) da OIM,
sublinham a qualidade da água. “Cerca de 70% da água obtida estava
contaminada”. As consequências na saúde são previsíveis. Para este projeto,
perfurou-se até 400 metros, reduzindo o risco de contaminação e escassez de
água e a necessidade de manutenção do sistema. Simplifica-se a operação,
diminuem-se as consequências ambientais e cria-se uma rede preparada para a
época forte das chuvas, salienta Mohan Mishra.

Os parâmetros humanitários indicam que cada pessoa deverá
ter acesso a água até 500 metros. A equipa WASH quer reduzir o número para 100
metros e permitir que cada pessoa usufrua de 17 litros de água diários, ao
invés dos 15 indicados. Com estas mudanças, as mulheres, habitualmente
responsáveis por carregar a água necessária para a casa, não só precisarão de
menos tempo como estarão menos sujeitas à insegurança provocada pelas longas
caminhadas noturnas.
"TODOS OS DIAS SÃO DIAS DE PONTA"
Cheira ainda a novo. Se esquecêssemos a realidade para lá
das portas deste centro de saúde poderíamos acreditar que estávamos numa vila.
No espaço recentemente aberto no campo 3, onde o bambu deu lugar ao tijolo, há
uma farmácia, uma sala de emergência, uma sala de partos, espaço para consultas
e vacinação e apoio psicológico [nos campos, 4% dos jovens reportaram
comportamentos suicidas]. É a imagem que as organizações querem futuramente
transportar para as mais de 190 instalações médicas existentes. Os quatro
médicos e três assistentes deste centro não têm tempo para parar. “Todos os
dias são dias de ponta”, desabafa o clínico, enquanto assiste uma criança
vítima de afogamento. Todos os dias, são aqui atendidas 250 pessoas.

“Falamos de pessoas que não tinham qualquer tipo de ajuda
médica, mulheres que não sabem que cuidados ter durante a gravidez.”, diz o
médico. 30 mil mulheres chegaram ao Bangladesh grávidas (várias em consequência
de violações). Mais de 80% continuam a realizar os partos em casa. “Não basta
dar assistência médica. É necessário educar sobre os cuidados de saúde mais
primários”, refere. Nurbaar concorda. A acompanhar a mãe com um carcinoma, a
mulher de 32 anos reconhece que nunca foi a um médico e que os cuidados aqui
providenciados são cruciais. Na sala, a maioria dos casos são de varicela, um
espelho da realidade atual dos campos: só este ano foram reportados quase 10
mil casos; mais de 340 mil crianças com menos de cinco anos sofrem de
subnutrição.
HOW ARE YOU?
As ruas estão cheias de crianças. Algumas descalças, outras
desnudas. A pele e a roupa sujas. Um laço rosa a servir de enfeite na cabeça
das meninas. Varicela no corpo de alguns. Riem-se muito. Acenam muito. Gritam
“Hello! How are you?”. Nunca pedem. Nem comida. Nem dinheiro. Brincam com rodas
de ferro empurradas pela terra por um outro cabo de ferro, carros em bambu com
tampas de garrafa a servir de rodas. Se tiverem sorte de estar em determinadas
localizações nos campos há escorregas e cavalinhos de brincar. São mais de 500
mil crianças, ou seja, 55% da população refugiada no campo.
São mais de meio milhão. Para eles foram criados 3700
espaços de aprendizagem, outros tantos onde lhes tentam apagar os traumas
vividos. “Quando chegaram, as crianças desenhavam helicópteros a disparar balas
sobre as pessoas, pessoas a fugir de casas e vilas incendiadas, pessoas
enforcadas nas árvores”, descreve Karen Reldy, da UNICEF. Hoje essas mesmas
crianças já desenham as suas casas rodeadas de rios, campos verdes e animais.
Nos centros de aprendizagem ensina-se inglês e birmanês, matemática, ciências e
competências básicas. O bengalês não está permitido por parte do Governo do
Bangladesh.
A UNICEF, em conjunto com organizações parceiras, indica que
até ao ano passado 216 mil crianças rohingya estavam envolvidas em algum tipo
de educação. As sondagens do último relatório da OIM mostram que entre os 5 e
os 11 anos, cerca de 10% não frequentam os centros educativos. O valor cresce
quando olhamos para os adolescentes entre os 12 e os 17 anos. Sobretudo no
sector feminino. Mais de 80% das raparigas não frequentam a escola.
Do campo Nayapara, em Teknaf, avista-se facilmente o Estado
de Rakhine e as suas montanhas Arakan disfarçadas pela neblina da manhã. Nas
águas onde hoje se passeiam cruzeiros, há mais de um ano singravam barcos e
barcos carregados de rohingyas, cruzando os três mil metros desde Myanmar até
alcançar as margens do Bangladesh. Nadar seria ousado. Perigoso, na realidade.
O rio chega a alcançar os 120 metros de profundidade. Ainda assim, muitos
tentaram.
“Vimos os refugiados chegar. Eram tantos. Víamos o fumo
desde o outro lado das montanhas das vilas a arder. Que mal fizeram estas
crianças? Que mal fizeram as mulheres para serem violadas?” As palavras em
inglês chegam de Mohammed Sadek, 21 anos. A mãe chegou grávida ao Bangladesh
nos anos 90, fugindo da antiga Birmânia exatamente pelas mesmas razões que as
mais de 740 mil pessoas em 2017.
O estatuto de refugiado é também atribuído a Mohammed e, por
isso, não lhe é permitido, à semelhança dos restantes refugiados rohingya,
trabalhar fora do campo. Nayapara é possivelmente o maior palco onde se cruzam
antigos e novos refugiados, onde a presença de militares é mais visível.
920 milhões de dólares [mais de 800 milhões de euros] são
necessários para continuar a dar resposta à crise humanitária dos rohingyas em
2019. O denominado Plano de Resposta Conjunta é o apelo de mais de 130
organizações — agências das Nações Unidas e organizações não-governamentais —
que trabalham no maior campo de refugiados do mundo. A maior parte dos fundos
servirá para a “ajuda crítica” no que diz respeito a comida, água, saneamento e
abrigos. “É um plano altamente priorizado. É só mesmo, mesmo, para o essencial.
É um pedido, como uma carta ao Pai Natal”, reconhece o coordenador de
emergências da OIM em Cox Bazar.
Dificilmente as organizações recebem 100% do valor pedido,
por isso Manuel Pereira gostaria de ver chegar pelo menos 50% e faz uso de uma
comparação para que se entenda a realidade em que vivem os rohingyas: “É como
se estivéssemos todos deitados numa cama com uma manta muito pequenina. Puxa de
um lado, falha no outro. E não há dinheiro suficiente para comprar uma manta
maior.”
909 mil rohingyas encontraram no Bangladesh a segurança que
procuravam. Das bocas dos refugiados reconhecem-se muitas incertezas no futuro,
mas de todas elas sai uma certeza: a de que não regressam sem que os direitos
humanos e de cidadãos de Myanmar lhes sejam reconhecidos e garantidos. “O
Governo do Bangladesh quer que as pessoas regressem o mais cedo possível, as
pessoas querem regressar o mais cedo possível e nós queremos apoiar o regresso,
mas todos concordamos que se as condições não forem seguras, se não forem
dignificadas, não pode haver regresso. Estamos a tentar encontrar formas de
mobilizar apoio no mundo com diversos parceiros para promover a resolução
política em Myanmar”, declara Manuel Pereira, que indica ainda que é objetivo
das organizações que muita da gestão dos campos vá sendo passada para o Governo
do Bangladesh.

Dialogamos e assinamos acordos com Myanmar para a
repatriação dos rohingyas. Mas o Governo de Myanmar não está a atuar nesse
sentido”, afirmou Sheikh Hasina, primeira-ministra do Bangladesh. A viver em
Myanmar desde o século XIX, os rohingyas tentam obter o cartão de cidadão desde
a independência da ex-Birmânia. Até hoje, o Governo de Myanmar recusou-se a reconhecer
a minoria étnica — que perfazia mais de um terço da população do Estado de
Rakhine — como cidadãos de pleno direito do país e nega a crise existente
relativa à etnia.
A Human Rights Watch acusa o país de ter realizado uma
limpeza étnica, incriminando Myanmar de crimes contra a humanidade. Na mais
recente missão das Nações Unidas à antiga Birmânia a ONU afirmou ao que os
militares do país deveriam ser investigados por genocídio e que tinham sido
ignorados os sinais alarmantes verificados anteriormente ao alegado genocídio.
Azizur Rahman está cansado. Jamila quebrada. Sanuara tem
saudades. Ummesalina anseia pelos irmãos e por um Myanmar livre. Manuel Pereira
acredita que um dia os Rohingya vão olhar para o mundo e ver-se “como iguais,
dignos”. Khaleda sonha com o dia em que possa regressar. No interior da sua
casa, com vista sobre o enorme descampado amarelo, com o braço sobre uma trave
de bambu que lhe segura a cabeça, Azizur diz, resiliente, o que todas as bocas
querem dizer: “Não há lugar mais feliz do que a nossa pátria”.
Lá fora ouve-se o vento e as crianças a brincar.
Jornal Expresso
REPORTAGEM MULTIMÉDIA:PAULA ALVES SILVA
INFOGRAFIA:CARLOS ESTEVES
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