Nestes dias de Abril, a incredulidade vai-se apoderando de mim. Com a bancarrota à espreita, vêm-me à memória os terríveis anos que anunciaram o final do século XIX em Portugal. Nessa época, o Estado não conseguiu cumprir muitas das suas obrigações económicas, foi forçado a abandonar o padrão-ouro (sensivelmente, o equivalente ao nosso Euro) e contraiu um empréstimo, cujo pagamento apenas concluímos recentemente, mais de 100 anos depois…
A entrada do FMI em Portugal anuncia medidas absolutamente drásticas para a população e, invariavelmente, serão os mais desfavorecidos a pagarem os efeitos da impunidade política que grassa por aí. Lá fora, os comentários que a toda a hora se fazem e escrevem sobre os portugueses dificilmente poderiam ser piores.
Se, porventura, a unanimidade não for atingida dentro da União Europeia (UE) e o nosso país não começar a receber os empréstimos que o momento exige, será, verdadeiramente, difícil imaginar até que ponto poderemos descer. Vários movimentos nacionais europeus contestam a injecção de capital em Portugal e até já existem economistas que sustentam a nossa saída da UE.
Caso Portugal abandone o Euro, prevê-se o rebentar do caos. Se, neste momento, a Europa quiser expurgar-se eliminando um dos elos mais fracos (depois de, estrategicamente, pagar para as periferias se autodestruírem…) dificilmente antevejo uma posterior intervenção, a qualquer nível, em território nacional. Ora, com o agravamento exponencial do desemprego, com a ausência de dinheiro para pagar aos funcionários públicos e cumprir as demais obrigações do Estado (acabo de conversar com um jovem da minha idade que, com os olhos arrasados de água, me testemunha na primeira pessoa o drama de já não receber salário há vários meses…), com a falta de alimentos, a inevitável desvalorização da antiga moeda, o corte de água potável e de electricidade, entre muitas outras possibilidades, o poder poderá voltar a cair nas ruas.
O caos poderá estar iminente. E, no entanto, as sondagens mais actuais trazem-me previsões absolutamente inquietantes, que me levam a perguntar: onde está a memória dos cidadãos do meu país? Onde se encontram, afinal, os cidadãos do meu país?
Ontem como hoje, apesar das “Farpas” do Eça de Queirós e de tantos outros, os cidadãos continuam perigosamente adormecidos. Como diria José Gil, “nada se inscreve” e, consequentemente, os grandes responsáveis pelos anos dramáticos que nos preparamos para, verdadeiramente, começar a enfrentar insistem em pavonear-se impunemente, reinventando congressos/comícios, onde a (poderosa) lógica sofista, aplicada aos novos tempos dos mass media e da informática, é habilmente explorada para fazer crer aos mais incautos que a responsabilidade tem, afinal, outros donos.
Neste país (nesta União Europeia) do faz-de-conta, a irresponsabilidade e a impunidade não podem continuar a grassar. As Democracias têm este facto extraordinário de permitir que os povos exijam a mudança, venha ela de onde vier. Se há manifestações da “Geração à rasca”, é altura de promover manifestações pelo início da responsabilização criminal de todos aqueles que nos governam. As palavras já não são suficientes. É necessária justiça, efectiva.
A desilusão e a descrença tomaram conta do meu país. Otelo Saraiva de Carvalho, um dos rostos mais conhecidos da “Revolução dos Cravos”, acabou de anunciar que se soubesse como o país ia ficar, não teria feito a Revolução (Público, 14 de Abril de 2011).
Em meu entender, a solução para o grave problema que enfrentamos não passa por responsabilizar a Revolução e camuflar as consequências dramáticas que resultaram do longo período em que Portugal viveu sob a égide da ditadura fascista. Isto para não recuar mais no longo poço da existência nacional e resgatar “As causas da decadência dos povos peninsulares…” – parafraseando o título do extraordinário discurso de Antero de Quental, em 1871 – que também nos ajudam a compreender o que hoje somos e/ou não podemos ser…
Quando, em 1933, Franklin Roosevelt pretendeu tirar os EUA da Grande Depressão, que já havia atirado para o desemprego milhares de pessoas, teve necessidade de basear-se num economista britânico, de seu nome John Keynes (hoje, quase votado ao ostracismo pelos Manuais de História). As ideias de Keynes, profundamente originais para a época, levaram Roosevelt a promover, entre outros aspectos, a intervenção do Estado na economia.
Hoje, numa profunda lógica salazarista, a tendência nacional e europeia continua a incidir, invariavelmente, no aumento dos impostos e na redução das despesas públicas. Ora, será necessário tirar um curso universitário para colocar em prática estas medidas? Aos políticos não se exigirá muito mais?
Se a resposta à questão anterior for positiva, talvez estejamos na hora de definir outros critérios para ascender à parte mais alta da pirâmide política, ou seja, de renovar o próprio sistema. Concretizando: o mérito, o trabalho e o percurso de vida deverão passar a ter um peso efectivo na chegada ao mais alto patamar da vida pública nacional, em detrimento do actual carreirismo… Ao contrário do que poderemos pensar, a Democracia não é um regime inacabado, necessita de ser constantemente reinventado e aperfeiçoado. Ao matar as utopias, a lógica moderna, que tudo subjuga aos cifrões, matou também a imaginação e o sonho, fundamentais para aprender a “pensar fora da caixa”… e do sistema.
Mas, bem o sei, as regras não vão mudar de cima para baixo, pois quem, efectivamente, se perpetua no poder não está minimamente interessado nisso. É aqui que entram (que podem entrar) os cidadãos, quando, efectivamente, eles existirem…
O poder local, se conseguir mobilizar os cidadãos, na restrita área das suas freguesias, dos seus concelhos, pode assumir um papel decisivo no futuro imediato deste país.
Numa era da propalada globalização, é preciso descer ao terreno e sentir as pessoas, promover encontros/debates, ouvir os problemas e aspirações das nossas gentes… ajudar, lentamente, a nascer cidadãos.
A esperança é reduzida? A mudança será ínfima? O meu optimismo é manifestamente escasso? O estudo da História não me dá ilusões e a resposta terá, necessariamente, de ser afirmativa. Mas reside aqui a única alternativa sustentável que, a médio e longo prazo, ainda consigo vislumbrar para um país extraordinariamente rico do ponto de vista geográfico, histórico... mas tão pobre ao nível dos seus governantes máximos, mais empenhados em criar “carneiros” prontos a segui-los do que cidadãos capazes de fazer crescer a nação.
Que o mês em que se comemora Camões e, em última instância, Portugal represente, verdadeiramente, o final de um ciclo conjuntural. Aí, nesse mês, nesse dia, nessa hora, nesse minuto, a responsabilidade é única e exclusivamente nossa. Demitir-se dessa obrigação é desistir do país, é permanecer indiferente ao nosso próprio destino, individual e colectivo. Em meu entender, o cerne de “Abril” ainda reside aqui.
Renato Nunes