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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Palavras de um Professor

 Há momentos em que as lágrimas nos caem involuntariamente quando sentimos a voz do nosso filho  a largas centenas de quilómetros. É duro, muito duro ser professor nos dias que correm. 

Dói demasiado quando as coisas correm mal em catadupa, falhamos em consequência do cansaço que aumenta o medo de falhar.  Em frente de um público não podemos mostrar insegurança, mas por vezes é inevitável em consequência da pressão, da burocracia, de querer chegar a todo o lado ao mesmo tempo e não conseguir. 

Os papéis acumulam-se ao lado da secretária assim como as tarefas para o dia seguinte. Recordo-me hoje de manhã enquanto fazia uma pausa para comer uma sandes no bar da escola,  desabafei com uma colega de Geografia " por mais anos que tenha de experiência o cansaço nesta fase do ano letivo é inevitável " Ela disse-me "Tiago não desanimes ainda tens muitos anos pela frente". Depois de ela ter dito aquilo pensei "será que eu vou aguentar este ritmo durante muito mais anos, bem tendo em conta o panorama extra ensino talvez não tenha escolha"

Trabalho imenso para melhorar e conseguir ser melhor professor mas esbarro muitas vezes em pensamentos que limitam o desenvolvimento das minhas capacidades. Isso enerva-me tanto.

Ser professor é sentir muitas vezes a desilusão quando preparamos tudo para que as coisas nos corram bem e depois a turma não nos deixar explicar os conteúdos com a clareza desejamos. Fico triste por saber que não correu tão bem, com imensas dores de cabeça, no entanto procuro encontrar forças na esperança que o próximo dia será melhor. 

Ser professor é ser resiliente é abdicar de ter tempo com os nossos filhos e familiares e dedicar o nosso tempo aos outros na esperança de ouvir um dia destes um Obrigado. Estou tão habituado a ouvir criticas ou chamadas de atenção dos alunos dos colegas que até me esqueço daquela vez em que os alunos do EFA em Rio Maior me disseram " Obrigado professor" ou no Fundão quando um aluno do secundário me disse na última aula do ano letivo após todos os restantes alunos terem saído da sala  "O professor explica muito bem, podia ser é mais simpático". Fiquei surpreendido, se calhar devia perguntar mais a opinião dos alunos sobre mim. 

Escrevo este texto depois de um início de semana menos bom na esperança que com trabalho dias melhores virão. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A menina do 2º ciclo

Este ano letivo estou a lecionar no Plano Casa.

Comecei há cerca de duas semanas e a minha tarefa é dar apoio a uma instituição de acolhimento de raparigas que são retiradas ao seu lar familiar por diversos motivos. 

Quando entrei lá no primeiro dia observei um meio calmo, estranhei um pouco confesso. A Educadora muito simpática, afável e sempre com um sorriso na cara. Para ser Educadora numa Instituição de acolhimento de crianças é preciso gostar mesmo daquilo que se faz e dedicar-se de corpo e alma a uma causa tão nobre, admiro-a muito por isso.

Sobre o meu primeiro dia, lembro-me de uma conversa que a Educadora partilhou comigo enquanto eu estava a dar apoio na sala de estudo. Ela indicou-me as peripécias que tinha tido durante a madrugada onde teve que ir buscar uma residente da casa a um hospital de Lisboa em consequência dos excessos cometidos, lembro-me perfeitamente da expressão dela sobre a sua menina "Ela está a fazer mal a ela própria".

O apoio que eu faço é muito generalizado e acabo muitas vezes por divagar por caminhos das vidas das educandas. Uma delas ainda no segundo ciclo quando eu lhe coloquei um mapa de Portugal, perguntei-lhe onde era Lisboa, ela não me conseguiu dizer onde era, indicando-me que gostava de ir ao Porto, pois tinha lá um irmão ou um primo. Acabei por dizer-lhe onde era Lisboa e ela conseguiu depois dizer onde era o Porto. Aquando da conversa disse-lhe que o Porto ficava muito distante do local onde ela se encontra, cerca de 5 horas de carro. A menina dizia muitas frases repetidamente "pois é muito longe" "gostava muito de lá ir".... Notei um discurso vago e vazio. Percebi imediatamente a falta de bases e alguém que lhe indicasse um rumo. Devido ao pouco acolhimento para a minha presença  das restantes educandas voltei à menina do segundo ciclo no segundo dia e entre a realização dos exercícios de Português íamos divagando por histórias da sua vida que eu levanto aqui um pouco da ponta do véu. Eu percebi que ela de 15 em 15 dias já vai a casa de familiares e subentendi a sua  da vontade de sair daquele espaço e voltar para a família. Não percebi se ela gostou de estar em casa dos familiares no fim de semana, pois enquanto falávamos deixou escapar a expressão "felizmente ou finalmente (não me recordo ao certo) voltei para a instituição". Sinto quando falo  com ela no seu tom monocórdico e pouco expressivo que ela ainda não está preparada para estar ali e o lar familiar também não será o local ideal. Assustou-me ouvir repetidas vezes ela dizer "Eu quero seguir a minha vida, eu não quero ser como as outras meninas". Quando ouvi dizer a primeira vez fiquei contente, mas quando a ouvi dizer quatro vezes fiquei preocupado. Após as sucessivas repetições senti que não era ela a pensar mas uma cartilha que lhe foi comunicada e ela segue-a sem perceber bem o seu significado. Na instituição sinto-a isolada e perdida. No terceiro dia eu propositadamente não fui ter com ela. Quando faltava pouco mais de meia hora para me ir embora veio ter comigo olhou para o meu telemóvel observou o meu filho e a partir daí decorreu mais uma conversa espontânea.

Fico por aqui nesta minhas novas experiência como professor.

 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Educação e Arte

Uma escola deve ser um espaço embelezado essencialmente pelos alunos. Este ano letivo no Agrupamento de escolas de Vendas Novas, recordo-me perfeitamente nos primeiros dias andar "a partir pedra" de modo a que me apresentassem os cantos à casa. Assim do nada e com muita sorte deparei-me com uma pessoa muito simpática que me mostrou o Agrupamento de Escolas nº 1 de Vendas Novas. Subi as escadas e deparei-me com dois ou três magníficos quadros na parede da escola que me fizeram por momentos parar, deixar de a ouvir e contemplar a beleza daquelas obras de arte feita por alunos. Pedi-lhe desculpa em consequência de por breves instantes deixar de ouvir mas foi mais forte do que eu.

Gosto muito da minha escola pela forma bonita como está embelezada por dentro. Na minha opinião a arte permite aumentar a criatividade dos alunos.





Trabalhar na escola de hoje é um desafio diário, pois a heterogeneidade  dos alunos é cada vez maior e temos de saber lidar como imensos alunos com profundas dificuldades. Por vezes não é fácil mas improvisamos à nossa maneira.

Lembro-me que o Duarte pergunta por muitas vezes o significado da morte à maneira dele. Nós tentamos sempre suavizar e dizer-lhe que está a dormir. 

Para fazer a ligação entre a arte, as dificuldades de aprendizagens e o Duarte vou citar um excerto do II diário escrito por Fernando Alva designado "Pedra após pedra". O Renato Nunes autor do livro que criou o pseudónimo Fernando Alva enquanto narrador das suas peripécias enquanto professor de Ensino Especial nos Açores.

Cito a pág. 120 " ...Vivo em função dos outros. Falta-me um equilíbrio suficiente para me esquecer de mim. 

Hoje, fui à escola, talvez a minha segunda casa, pedi a um menino com Perturbação do Espectro do Autismo que folheasse uma obra sobre Rembrant, pintor do século XVII, da designada escola realista. Ao ver "A descida da cruz", os olhos do jovem condoeram-se com o cenário dantesco. Depois de chocar com a mãe de Jesus deitada no chão, quis saber se estava morta e respondi-lhe que por certo havia apenas  desmaiado. Senti-o mais tranquilo, mas os seus olhos rapidamente regressaram ao corpo martirizado de Messias, magro, barbudo e cabeludo....Que turbilhão de emoções terão atravessado a poderosa armadura daquele menino habituado a desviar o olhar?

Um colega de trabalho (não digo a profissão ressalve-se), vendo esta minha teimosia em expor "estes jovens" (para mim são apenas jovens) às mais nobres revelações artísticas, riu-.se sobranceiramente e jurou-me que não valia a pena.

Não sei se, na verdade, o faço mais por eles do que por mim próprio. Mas tenho a certeza absoluta que vale a pena. Quase todas as armaduras para não dizer todas têm um calcanhar de Aquiles e arte pode destruir muitas barreiras. 

Van Gogh, Da Vinci, Rembrandt ... decisivamente, eu irei continuar."

sábado, 5 de junho de 2021

O Nosso Henrique - Autora do texto Lucinda Maria

Após ver a foto do Henrique na sua página do facebook da professora Lucinda Maria, imediatamente me cativou ler o texto. O Henrique era conhecido por todos em Oliveira do Hospital, mas infelizmente não teve a sorte de nascer numa família que o fizesse crescer  como merecia.  Ler o o texto trouxe-me súbitas saudades do Henrique.

Passo a citar:

" Era assim o Henrique, eterno menino de fala cantante… franzino…olhar vivo. Nascido no seio de uma família humilde e marcada pelo álcool, que ia sobrevivendo com algumas dificuldades financeiras. Lembro bem a casa rasteirinha onde viviam, lá para os lados da fonte do Rebolo. Vários rapazes e uma irmã, a mais nova. 

O Henrique não foi à escola… Tinha algumas dificuldades cognitivas, assim como outro dos irmãos, precisamente o que viveu com ele até ao fim. Penso que os outros ainda são todos vivos… casaram e têm a sua vida normal.



Ele calcorreava as ruas da nossa terra… e ajudava uns e outros… fazia vários trabalhos. Sempre prestativo… sempre simpático… sempre humilde. Uma altura, ajudou numa peixaria. Com uma caixa de peixe à cabeça, apregoava:

- Peixe fêco! Peixe fêco!

E a sua voz fazia-se ouvir como uma canção infantil…ingénua e genuína, como ele próprio. Havia quem pretendesse “gozar” à custa dele. Penso que esses intentos não eram bem sucedidos. A sua perspicácia segredava-lhe sempre uma resposta pronta que desarmava os “espertinhos”. Podia contar muitos episódios que atestam bem esta sua característica. Vou contar apenas um.

Recordo-me do Henrique. Lembro-me de na década de 90 o ver a vender cautelas nas ruas de Oliveira do Hospital. Via-o como uma pessoa pobre com uma deficiência mas humilde e sempre pronto a ajudar.

Vou citar um texto que Lucinda Maria, professora aposentada do 1ºciclo, mora no concelho de Oliveira do Hospital. A professora Lucinda dignou.se a escrever um texto sobre o Henrique que me ajudou a conhece-lo e provocou em mim subitas saudades do Henrique.  

Passo a citar o texto de Lucinda Maria

"Certa manhã, saía o Henrique da casa comercial Júlio dos Santos, todo contente e sempre de ar afável. À porta, cruzou-se com um senhor engenheiro cá da cidade, pessoa bem conceituada, que entrava no mesmo estabelecimento. Ao vê-lo, o nosso amigo estendeu a mão para cumprimentá-lo. Ele correspondeu, mas resolveu dizer:

- Estou cheio de sorte! 

Meio admirado, o Henrique perguntou:

- Então poquê, senhole engenheilo?

- Porque ainda é cedo e é a primeira mão de porco que aperto hoje!

Prontamente, sem pensar duas vezes, ajeitando o seu boné de pala quase a tapar-lhe os olhitos vivos, o nosso Henrique respondeu:

- Então, eu ainda estou com mais sote, poque já é a segunda!

Perante isto, o que dizer? O que pensar? Como terá ficado o senhor engenheiro? Desconcertado, certamente. 

Era assim o eterno menino. A mim, chamava-me “senhola pofessola” e, muitas vezes, tentou vender-me cautelas, com aquela sua lógica de que “Há horas felizes!”. É verdade, mas, infelizmente, não gosto de jogo. Penso que nunca lhe comprei nenhuma, mas também nunca fui sarcástica com ele… sempre o estimei… como merecia, de resto.

Um dia, partiu… sem que déssemos por isso… sem ele próprio dar por isso. A sua voz cantante deixou de ecoar nas ruas da nossa terra. Ou será que não? No fundo, ele ainda está aqui. 

Lucinda Maria"

sexta-feira, 21 de maio de 2021

História do Corinde e do Torcaz

Noite após noite e sempre que estou com o Duarte vou reinventando as múltiplas histórias que leio nos livros infantis.

A primeira vez que consegui adormecer o Duarte através narração de uma história, aconteceu apenas em agosto do ano passado quando estávamos no Luso. Nesse dia uns instantes após o almoço o Duarte abriu o estojo da mãe e encontrou lá um objeto que desconhecia um X ATO aberto. O Duarte de forma instintiva pegou na parte cortante e fechou a mão. Ele não se assustou, talvez por não se aperceber o que tinha acontecido. Quando chegou à cozinha,  abriu a mão e nós ficámos muito assutados pois ele não conseguiu explicar a origem do sangue. Já não me recordo se o Duarte chorou mas penso que não, neste caso a aflição foi apenas nossa. Felizmente ele não fez muita força quando apertou a mão e o golpe foi pequeno, ficou o alerta para nós.

Após realizarmos os curativos dissemos para ele segurar um  pouco de algodão e fechar a mão. Ele estava com sono e decidimos deitá-lo um pouco no sofá. Nessa altura adormecê-lo durante a tarde já era uma tarefa hercúlea. Eu decidi fazer uma coisa que adoro fazer sempre que vou ao Luso, ler as histórias da avozinha escritas há mais de quarenta anos, uma coleção de 7 ou 8 livros que o meu sogro tem.

Naquela tarde decidi abrir um dos livros que compõem a coleção e contei-lhe a história do Corinde e do Torcaz. Foi a primeira vez que li aquela história e dado a extensão e complexidade do texto limitei-me a ver as imagens e a narrar a minha história através das imagens  

Passado alguns meses já li a história varias vezes, mas devido às múltiplas alterações que já lhe fiz não consigo contar a história original,  no entanto conto a minha história com base no contexto expresso no livro.

O Corinde e o Torcaz 

"Há muito séculos atrás uma aldeia estava em festa e decidiu convidar os habitantes mais abastados das aldeias vizinhas para comer, beber e divertirem-se. Para a parte da diversão decidiram convidar dois cavaleiros para lutarem a cavalo, O Corinde e o Torcaz. 

O Corinde tinha um  bom coração e apesar de ser um valente cavaleiro não gostava muito de intrigas e conflitos, enquanto que o Torcaz era mais conflituoso estava sempre em lutas e brigas.  Ambos aceitaram o convite para a batalha que estava marcada para a tarde de um dia de primavera. há muito séculos atrás.

Ambos subiram ao cavalo com um pau enorme, era assim que se começavam as lutas nessa época. O Torcaz mais agressivo na fase inicial conseguiu deitar o Corinde ao chão através de uma forte pancada no peito. Nesse tempo usavam grande fatos de ferro que vestiam por cima da sua roupa e muitas vezes o peso da vestimenta era muito elevado, no entanto nesta altura os homens tinham muito mais força que hoje. Outros tempos.

Após o Torcaz ter deitado ao chão o Corinde a luta passou a ser realizada no chão através das espadas que tinham à cintura. No chão, com a espada o Corinde teve uma destreza maior   e apesar da maior agressividade do Torcaz este acabou por sair derrotado.

Após a luta ambos guerreiros tinham direito a um jantar, no entanto o Torcaz acabou por não aceitar e foi para casa cabisbaixo e enraivecido.

Passado umas semanas o Corinde foi dar um passeio a cavalo com os seus cães nas montanhas que envolviam a sua aldeia. Quando chegou ao cimo da encosta observou que no sopé da montanha  a aldeia dos mouros estava a ser atacada e observava já algumas casas em chamas.  O Corinde ficou apreensivo e decidiu soprar num objeto comprido que trazia sempre consigo que expelia um som alto e forte do conhecimento dos habitantes da sua aldeia. que chegaram poucos instantes depois.  

O Corinde e os amigos desceram a encosta em direção à aleia dos mouros que estava a ser atacada. Quando se aproximaram viram que as tropas do Torcaz estavam a tentar conquistar a aldeia dos mouros de forma a alargar o seu território No entanto a batalha não estava as correr nada bem ao Torcaz. O Corinde e os amigos decidiram salvar o Torcaz e dar entender aos mouros da rendição das suas tropas,

Acabaram por levar o Torcaz e alguns dos seus homens para a sua aldeia e trataram deles antes de estes regressarem a casa.

O Torcaz quando já encontrava restabelecido veio ter com o Corinde e agradecer-lhe o gesto que ele teve para com ele e disse-lhe que tinha aprendido a lição e que daí em diante nunca mais se  iria meter em conflitos."

Naquela tarde de agosto de 2020 não precisei de contar a história toda ao Duarte, pois ele passado alguns minutos adormeceu agarrado ao algodão que a mãe lhe tinha dado.

Ontem chegou a  encomenda de mais dois livros infantis da Boutique da Cultura: A flor mais alta do mundo" de José Saramago  e  "A girafa que comia estrelas" de José Eduardo Agualusa.

Aquando da receção da encomenda observei que me tinham enviado um bilhete personalizado desejando-me boas leituras. Um gesto simples que eu dei um grande valor por não ser um gesto vulgar. Para mim foi como se fosse um autografo.


No dia 2 de Abril de 2020 escrevi a minha primeira e única história Infantil. " A História do Moliço"
Quem não leu diga-me o que achou.

Termino o texto com uma mensagem de José Saramago no livro " A maior flor do mundo":
"E se as histórias para crianças passassem a ser obrigatórias para adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar"  

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Pela primeira vez senti-me bem em Mirandela

Hoje passado mais de uma década após a Cecília ter estado na escola profissional de desenvolvimento rural de Mirandela, percebo a expressão dela aquando da observação do fogo de artificio numa festa local, "pela primeira vez senti-me bem em Mirandela".

Hoje eu na escola profissional de desenvolvimento rural de Grândola, ainda não posso dizer que houve um momento que me sentisse feliz. Talvez esteja a exagerar mas seguramente não foram muitos e sem dúvida não houve qualquer momento que sentisse o coração cheio.

A vida de professor não é fácil. Ao longo dos anos aprendi a gostar da profissão e como qualquer pessoa gosta de ver o seu trabalho reconhecido.

Desde o reingresso na profissão há quatro anos tenho sentido um distanciamento maior entre professor e o aluno. Os alunos vêm cada vez mais o professor como alguém distante e quando nos despedimos no final do ano letivo a despedida é fria, trespassando a ideia que fomos apenas mais um professor. 

Hoje aquando da ida bar da escola para comer uma sandes, falei uns minutos com a funcionária e enquanto conversávamos  veio um senhor que pediu um café. Observei que ele estava a tirar moedas e por isso deduzi que não tinha o cartão da escola. Ofereci-me de forma espontânea para lhe pagar o café ao que ele assentiu e agradeceu. Acabámos por trocar dois dedos de conversa que passo a citar:

Senhor: Você é professor cá na escola 

Eu: Sim fui colocado no início do ano letivo 

Senhor: Sabe eu trabalho na escola mas na parte agrícola, venho cá poucas vezes a acima. Eu tenho duas filhas a estudar nesta escola.

Eu acabei por ficar um pouco receoso dada a pouca empatia que os alunos têm por mim. 

Senhor: Que disciplinas leciona?

Eu referi que lecionava Área de Integração (AI), Geografia e Ambiente e Desenvolvimento Rural (ADR)

O senhor  disse o nome de ambas as filhas e indicou que  uma estudava  no décimo e a outra no décimo primeiro do curso de Turismo e Ambiente e Rural.

Suspirei um pouco de alívio pois as alunas são adoráveis e eu tenho um enorme respeito e empatia por elas. Ao contrário da grande maioria são alunas muito aplicadas. Acabei por elogiá-las, pois não tinha qualquer razão para dizer o contrário.

Após os meus elogios o senhor disse:

Eu: A mais velha fala muito e gosta muito de si.

Eu não sou daquelas pessoas que gosta muito de estar sempre a ser elogiado mas pontualmente quando acontece, sabe bem. Pela forma como ele se expressou penso que foi sincero. No entanto mesmo que não tenha sido eu acreditei que sim.

Após aquele momento, pude pensar que o dia estava ganho.

domingo, 11 de abril de 2021

Balanço do ano letivo

No dia 19 de Abril retomo a atividade presencial em Grândola. Passado largos meses não consigo dizer que tenho saudades de retomar o ritmo de trabalho presencial. Sinto que este ano letivo foi um ano de aprendizagem e apesar de não haver certezas absolutas sobre o que será o próximo ano letivo, pressuponho ter sido apenas o início de um percurso profissional a sul do rio Tejo.

Apercebo-me cada dia que passa, sinto que desempenho de forma mais competente esta profissão, embora ainda muito longe daquilo que idealizo.


Este ano letivo começou muito mal, devido à inadaptação aos métodos de avaliação e às estratégias escolhidas para às aulas,  ao que se associou um cansaço subjacentes às viagens para Oliveira do Hospital de que não abdiquei em nenhum fim de semana. 

O primeiro período foi muito difícil devido à distância e a impossibilidade de estar com a Cecília quando ela mais precisava. Ela dá aulas numa escoa secundária da  Guarda e no estabelecimento prisional da mesma cidade. Para ela a impossibilidade de ter um dia livre contribui para que o cansaço se acumulasse e não houvesse tempo para recuperar. Apesar de todos os cuidados que ela  teve aconteceu, em meados de novembro do ano passado descobriu que tinha sido infetada com  Covid 19. Nessa sexta feira recordo-me que cheguei de Grândola e sentia-a cansada, estava deitada no sofá, acabei por não ligar de imediato,  pois a sexta feira por norma é um  dia de descompressão em que por vezes aproveitava para descansar um pouco ao fim da tarde. No sábado ligámos à nossa médica de família e já tínhamos quase a certeza da infeção, pois os sintomas eram evidentes.

Para mim foram quinze dias muito complicada, pois tive de fazer tudo um pouco em casa. O dia mais complicado em que eu a Cecília chorámos juntos foi o dia em que o Duarte teve de ir para casa dos meus pais por tempo indeterminado, pois não era saudável ele permanecer num apartamento, naquele ambiente, A tenacidade para mim teve de ser a palavra de ordem e acabei por ter de delinear estratégias de ocupação do tempo de forma a manter o discernimento  e tratar da melhor forma a Cecília.  Apesar de a Cecília ter conseguido curar-se em casa, temi vários vezes o internamento, pois os sintomas agravaram-se principalmente durante a primeira semana.

Curiosamente para mim o isolamento em consequência do apoio à Cecília e o atual confinamento vieram em momentos chave que me ajudou a ultrapassar melhor este ano letivo.

Quando terminei o primeiro período devido às dificuldades de adaptação ao currículo dos cursos profissionais,   decidi que tinha de estudar e repensar o segundo período de uma outra forma até  porque devido aos 15 dias de isolamento teria necessariamente em janeiro o horário muito preenchido. 

Recordo-me que a melhor coisa que fiz no início do segundo período foi levar uma mesa redonda velha de casa da minha mãe e colocar um aquecedor a óleo no meu quarto em Grândola. O mês de janeiro foi excecionalmente frio em Grândola, como em todo o país,  atingindo todas as noites temperaturas negativas. 

Senti que levei o início do segundo período de uma forma mais calma e as viagens diárias para a escola  foram feitas quase todas a pé, pois moro a cerca de 700 metros da escola. Aos poucos senti que me estava a adaptar ao ensino profissional e aos meus afazeres diários.

No dia 21 de janeiro o Governo indicou que iria começar no dia seguinte um novo confinamento na educação. Na  minha opinião neste segundo confinamento, a paragem letiva de duas semana entre 22 de janeiro e 7 de fevereiro foi exagerada, uma semana seria suficiente. Senti a necessidade de mais tempo para descansar na interrupção letiva da Páscoa, essencialmente devido à dureza e à pressão sentida na parte final do segundo período.

O segundo confinamento para mim que dou aulas a 340km da minha área de residência foi a melhor coisa que me aconteceu, pois deixei de ter o desgaste das viagens o que me forneceu mais tempo para organizar as aulas e as avaliações dos 9 módulos que conclui no final do segundo período. 

Termino o texto com o Duarte, realçando a importância que este confinamento teve para a minha reaproximação ao meu filho. Ele nunca percebeu bem a razão da minha ausência durante tantos dias da semana e aos poucos senti que ele se estava a distanciar um pouco de mim aproximando-se mais da mãe. O que mais me custou neste comportamento do Duarte foi que deixei de conseguir adormecê-lo pois ele deitava-se e passado uns breves minutos ia chamar a mãe. Esse comportamento do Duarte deixou-me muito triste, no entanto foi a forma que ele encontrou de mostrar o seu descontentamento perante a minha ausência. 

Neste período em que o covid 19 nos obrigou a estar em casa aproveitei para conversar e brincar muito com o Duarte e aos poucos senti uma progressiva aproximação . Foi uma sensação fantástica, e que me fez tão bem,

Hoje posso dizer  que voltámos a ser grandes amigos.  Darmos grandes e infindáveis  passeios e apercebi-me que o tempo que passo com  Duarte passou a ser vivido com mais qualidade e sem pressa. Hoje já o consigo adormecê-lo, dar-lhe banho e acima conseguir que ele me escolhesse de forma espontânea  para brincar. Desta forma consegui libertar algum peso sobre os ombros da mãe conseguindo que ela tivesse mais tempo para realizar as suas múltiplas tarefas 

Dia 19 de Abril recomeço a minha atividade de forma presencial mais feliz.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Cansaço

Amanhã para mim já começa o último período, ainda com o ensino à distância.

Sinto-me cansado.

Os dias de descanso entre o segundo e terceiro período, foram insuficientes para desligar completamente de um final do segundo período diabólico onde a pressão e o desgaste foram tremendos. 

quarta-feira, 3 de março de 2021

O sonho do Duarte

Bem nem sei por onde começar. Arrepiei-me com a descrição tão exaustiva da imaginação do Duarte. Desta  vez fui eu que fiz as perguntas. A minha ambição é transparecer um bocadinho da emoção que o Duarte descreveu o seu sonho.

Tudo começou há breves minutos, sentei-me e comecei a conversar com o Duarte na esperança que ele acalmasse depois de um período após o jantar onde ele correu, saltou do sofá, caiu  e calcorreou todos os recantos da casa como é o normal no final do dia.

Comecei a fazer uns riscos numa folha branca de rascunho e a contar a minha história. Lembrei-me de há uns dias o Duarte ter falado de um sonho que tinha tido, onde dizia que estava no Luso a brincar com os seus brinquedos. O grande hiato temporal sem ir à casa dos avós maternos deixou mossa naquele cérebro pequenino, mas com uma tremenda imaginação.

Contei o meu sonho inventado começando por dizer que ele estava no Luso com a mãe. A mãe Cecília inesperadamente teve uma reunião que demorou muito tempo e quando se apercebeu já era muito tarde para regressarem. Decidiram jantar e passar a noite no Luso.  Senti que a partir daqui já tinha cativado a atenção do Duarte. Parei uns segundos a narração e o Duarte disse "e depois pai". Estava a conseguir acalmá-lo e  a fixar a atenção dele naquilo que eu dizia. Prossegui a narração do sonho inventado. Ao outro dia de manhã bem cedo a mãe acordou e começou a trabalhar horas a fio. A avó "Lai", diminutivo de Cidália, teve que ir acordar o Duarte, vesti-lo, dar-lhe o pequeno almoço e brincar toda a manhã com o neto. A Cecília em consequência das inúmeras tarefas que teve de fazer mais uma vez nem se apercebeu das horas e quando finalmente terminou a última reunião, já era hora de almoço. Cecília disse "não pode ser, como é possível a manhã ter passado tão rápido". A avó Cidália pôs as mãos na cabeça e disse  "como é possível ter-me esquecido de dar de comer às galinhas e aos coelhos". Saiu a correr muito e foi perguntar ao avô "Xandre",diminutivo de Alexandre, se podia dar de comer às galinhas e aos coelhos para ela poder ir tratar do almoço. Após o almoço a Cecília disse à mãe Cidália que tinha de ir para Oliveira do Hospital pois tinha que fazer análises e o pai Tiago estava sozinho,  não sabia fazer comer e estava a passar fome. Bem o meu sonho estapafúrdio terminou quando o Duarte e a mãe iam a caminho de Oliveira do Hospital.

Bem Duarte agora é a tua vez de contar o teu sonho.

Duarte- "Pai eu esta noite ouvi os cães a ladrar muito e um homem a acompanhá-los. Ladravam muito alto, gritavam."

Eu- "Gritavam como?"

Duarte- "Au, Au muito alto". Foi tudo tão assustador pai.

O Duarte pôs as mãos na cabeça e disse "Ai meu deus foi tudo tão horrível"

Eu "Mas o que é que se passou no teu sonho filho, conta-me por favor"

Eu suspirava tentando demonstrar um sinal de medo e de envolvência na história.

Duarte" Pai começou tudo a tremer"

Eu com um ar muito espantado argumentei "Como assim Duarte diz-me o que é se passou"

Duarte "Os prédios começaram a levantar-se do chão"

Por momentos pensei que estava a entrar num livro, mas estava apenas a entrar na cabeça do Duarte.

Eu "Mas quem é que levantou os prédios, Duarte diz-me"

Duarte " Foram bruxas pai. Elas com as mãos conseguiram levantar o prédio e move-lo para longe, destruíram tudo à  sua volta, foi horrível pai"

O Duarte com as mãos na cabeça andava de um lado para o outro, mexia nas coisas do escritório e voltava a colocá-las no lugar.

Duarte "Pai foi tudo tão horrível"

Duarte " As escavadoras começaram a levantar as pás a fazer mal aos prédios e às pessoas"

Duarte "Os carros de bombeiros começaram a levantara a escadas descontroladamente"

Duarte "Foi tudo destruído à volta do prédio"

Eu nesta altura já suspirava. Pedia-lhe para respirar fundo.

Eu " A história acabou bem ou mal, o que aconteceu aos cães que começaram o sonho"

Duarte " Os cães ladraram a pedir ajuda"

Eu " E acabou a história ou ainda tens mais a contar"

Duarte" Depois apareceram os polícias para tentar prender as bruxas, lançaram a rede mas não conseguiram e as bruxas venceram"

O Duarte enumerou um conjunto de personagens penso da história da branca de neve e dos sete que não tive capacidade de reter.

E assim acabou a narração diabólica que o Duarte fez do seu sonho.

Os dois sonhos que eu acabei de descrever retratam as realidade que vivemos. Muito trabalho que nós enquanto professores temos, por vezes não conseguimos dar à atenção que o Duarte merecia e socorremo-nos dos avós para darmos conta dos muito recados que temos que fazer. O Duarte por sua vês infelizmente vicia-se cada vez mais em histórias de super-heróis de bruxas e vive aquilo com uma intensidade tal que por vezes não distingue a realidade da ficção.

Apesar de ter tentado puxar por ele preocupou-me a forma entusiasmada e assustadora como ele descreveu tudo aquilo.

Fica o alerta para nós pais e educadores.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Há pedras que não se levantam- Artigo de Mia Couto (escritor Moçambicano)


Um texto maravilhoso de um grande escritor escritor moçambicano que nos dá a conhecer os motivos que levaram à ascensão do Estado Islâmico em Moçambique. Redigido em exclusivo no Newletter do  Fumaça. Um fantástico grupo de jovens jornalistas. Consultem o site. 

Deixo-vos o texto de Mia Couto:

 Olá. 

Os escritores alimentam uma relação equivocada com os outros. Talvez eles sejam escritores por essa mesma razão: a consciência de que estão equivocados quando representam o mundo. Os escritores, em geral, não resistem à tentação de ficarem calados quando lhes dirigem todo o tipo de perguntas. Vão a todas. Têm opinião sobre tudo: sobre a situação no Iraque, sobre as ameaças climáticas, sobre o destino do Trump, sobre os caminhos atribulados da COVID-19. Perguntas que não se fazem a um exímio dentista ou a um engenheiro espacial são dirigidas aos escritores como se eles fossem dotados de uma sabedoria particular. No meu caso, quando me fazem essas perguntas, a resposta mais honesta seria confessar: eu escrevo exatamente porque não sei. Sou um especialista em ignorâncias. E imagino que essa seja a mesma condição de todos os poetas e escritores: o gosto de reconhecer a sua mais profunda falta de erudição sobre o mundo. A única habilidade do escritor é enfrentar sem disfarce este desamparo. 

Toda esta palavrosa introdução vem a propósito do desafio que a Fumaça me lançou: escrever umas tantas linhas sobre a situação de guerra em Cabo Delgado. Quando me pedem explicação sobre o conflito no Norte de Moçambique, a primeira coisa que me ocorre é a admissão da minha incapacidade. Sei que esta declaração de não entendimento não resulta. O mais fácil e o mais lucrativo para um jornal seria apresentar certezas com a energia com que um jogador de cartas joga um trunfo sobre a mesa. 

Esta minha contribuição tem a pretensão de sugerir como a abordagem jornalística da situação em Cabo Delgado tem alertado para a existência de um drama de dimensão global. Mas nem sempre a abordagem redutora de um certo tipo de jornalismo nos ajuda ao entendimento das causas daquela violência. 

Quando surgiram os primeiros ataques na província nortenha de Cabo Delgado alguns sociólogos ligados a ONGs anunciaram que tinham uma explicação sobre o que estava a acontecer. A elucidação não variava: os revoltosos insurgiam-se contra a exclusão social, manifestam-se contra práticas injustas de representantes do Estado. Tratava-se, pois, de uma violência esperada e legitimada contra a violência do Estado moderno. Essa explicação tinha um “senão”: ela explicava muito pouco. Em todas as províncias de Maputo acontece a mesma exclusão e a injustiça. Porquê só ali, na costa de Cabo Delgado, ocorria esse fenómeno? Não existe Estado que não imponha a sua presença por vias que não tomam em conta as especificidades das práticas rurais e locais de governação que uns chamam de “tradicional”. 

Por um acaso, posso dizer que conheço aquela região. Desde 2004 que, no meu trabalho de biólogo, visito os distritos de Palma e Mocímboa da Praia, os mesmos distritos onde hoje sucedem os ataques terroristas. Perdi a conta às vezes em que, de tenda às costas, fiz estudos de ecologia naquelas zonas costeiras. Essas permanências duravam, por vezes, várias semanas. Nas primeiras visitas, eu vi aquilo que corresponde ao estereótipo que a Europa construiu da “África profunda”. Cruzávamos na estrada com elefantes, a aldeia onde eu acampava foi objeto de ataques de leões que, num espaço de três meses, devoraram 25 mulheres camponesas. A presença do Estado era uma coisa vaga, quase inexistente. Foi ali – e não podia ser em mais nenhum lugar de Moçambique – que escrevi o romance “A Confissão da Leoa”. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que entre os camponeses, pescadores e caçadores daqueles lugares era muito nebuloso o sentimento de pertença nacional. Quando queria saber do mundo, aquela gente olha para o oceano. É ali que mora o grande caminho, é por esse grande mar que se encontra o grande cordão que os mantém ligados a uma identidade antiga e coletiva. Até ao início do século XX, aquela região, apesar de estar dentro do mapa de Moçambique, funcionava como parte orgânica de um velho império Swahili que, durante séculos, respondeu perante o sultão de Zanzibar. 

Era raro ver por ali uma autoridade que representasse o Estado, essa criatura abstrata e distante cuja cabeça está a três mil quilómetros, lá no Sul, onde se fala outra língua, se pratica outra religião e se constrói uma outra narrativa do que será o futuro. As pessoas raramente falavam português, não escutavam nem as rádios e muito menos as televisões de Moçambique. Sintonizavam as estações tanzanianas. Aos poucos, porém, aquela paisagem humana foi mudando. E o que eu não via era bem mais do que era visível. Negócios obscuros de drogas, de negócios de trânsito de imigrantes vindos dos Grandes Lagos, de venda de rubis fizeram enriquecer camponeses pobres que beneficiavam da ausência total do Estado. Não se pode ser ilegal quando a lei do Estado não prevalece. Não havia outra lei senão os mandamentos locais. Não era preciso ser informal. Porque faltava o formal. Camponeses viraram garimpeiros, pescadores viraram transportadores de mercadorias, caçadores viraram motoristas que transportavam cargas humanas. Enfim, uma terra completamente periférica passou a sentir que era o centro e que vivia bem sem a presença de outros. Mas a riqueza criada por esses pequenos e clandestinos negócios deixava de lado a grande maioria da população local. 

De repente chegou o Estado. E quis impor ordem. Quis controlar, quis ficar dono como é da sua própria natureza. Chegaram também as empresas estrangeiras. Que obrigou a que se pagasse impostos e exigiu dos camponeses ricos e pobres que passassem a ser cidadãos de um Estado moderno. Esse foi o grande primeiro embate. Essa modernidade que assim se estabelecia roubava espaço aos mecanismos locais legítimos (e sobretudo os ilegítimos) que se haviam estabelecido. 

Mas houve mais, houve uma invasão progressiva de profetas radicais que, em nome da religião, preparavam a violência que hoje se manifesta. Jovens que tinham sido enviados para “estudar” na Arábia Saudita e no Sudão regressavam como mensageiros de uma nova verdade. E que consideravam que o islamismo há séculos estabelecido na região era uma deturpação de uma leitura mais pura do Alcorão. Testemunhei encontros de violência verbal e física entre os muçulmanos já instalados em Cabo Delgado e os que chegavam vindo de outras madrassas, de outras geografias. Em 2004, fui obrigado a fugir do pátio de uma mesquita para onde eu tinha sido convidado para falar com a comunidade religiosa. Inesperadamente, a mesquita foi assaltada violentamente por jovens muçulmanos que defendiam “outro” Islão.

Vou deixar de lado outras dimensões daquelas sociedades da costa de Cabo Delgado (é importante entender que a violência atinge sobretudo os distritos litorais). Seria importante conhecer tensões étnicas que possuem raízes antigas, sobretudo naquela zona costeira. Recordo-me de que, enquanto preparava para escrever um outro livro, viajei por aquelas zonas em busca de memórias da escravatura. Ninguém se oferecia para depor, ninguém queria partilhar histórias antigas. Escravatura?, perguntavam, fingindo-se perplexos. Nunca aqui houve nada disso, respondiam. Até que um dia um velho deu-me o seguinte conselho: há pedras que não se levantam, debaixo delas moram fantasmas que nunca foram enterrados. 

Não quis neste breve artigo dar respostas. A intenção foi apenas sugerir que, como disse o velho pescador, há fantasmas antigos por debaixo de pedras. A violência em Cabo Delgado tem dimensões históricas, sociais, religiosas que escapam a uma resposta fácil e total. 


Mia Couto

Escritor e biólogo moçambicano

sábado, 13 de fevereiro de 2021

"Pai como é que metem a água na garrafa?"

Hoje eu e o Duarte fomos passear de manhã a Travanca de Lagos.

No final do passeio sentámo-nos no muro da escola primária e o Duarte perguntou enquanto bebia água de uma pequena garrafa de plástico "pai como é que metem a água na garrafa".

A minha imaginação percorreu um conjunto de caminhos para encontrar uma explicação simples que uma criança de 4 anos acabados de fazer percebesse. 

Refleti um pouco e apercebi-me que só há pouco mais de uma década entendi porque é que a água brotava das nascentes dos rios. Na minha mente permaneceu durante muito tempo a ideia da minha avó Prazeres, muito religiosa, que dizia que a água brotava debaixo da terra devido a um milagre divino.

Bem continuando a minha exposição à pergunta do Duarte:

"Duarte a água vem das nuvens e quando chove a água cai no solo e vai para debaixo da terra"

"A água permanece debaixo da terra criando rios"

O Duarte não percebeu muito bem essa parte (rios de baixo da terra) e tive que lhe dizer explicar melhor: "imagina um copo gigante que está debaixo na terra que apanha a água que cai da chuva". "Lembra-te naquela água que está naquele copo gigante debaixo da terra, nunca há sol e a água fica lá muito tempo".

"Porque é que o sol não entra pai" perguntou o Duarte ao que eu respondi "Não entra porque como te disse a água do copo gigante está debaixo da terra e o sol não consegue lá chegar" Para não estar a introduzir a palavra infiltrar que dava azo a outro diálogo e mais perguntas avancei com a explicação.

 "Há duas maneiras que o Homem tem de tirar a água do copo gigante que está debaixo da terra" 

"Quais são as duas maneiras" perguntou o Duarte 

"Sabes Duarte a primeira maneira é furar a terra com uma broca gigante para chegar à água que está no copo gigante"

"Pai como é que conseguimos tirar a água do copo gigante?"

"Bem quem tira a água é um motor" "pai como é que o motor tira a água" Bem inverti a exposição e falei-lhe do aspirador. "Sabes Duarte imagina que o motor é um aspirador que aspira o lixo qua anda no chão da nossa  casa" "O motor aspira a água que está no copo e vai para as torneiras e daí para a garrafa de água".

Queres saber qual a segunda maneira. Ele estava confuso mas aceitou que eu continuasse a explicação. A segunda maneira foi mais difícil de explicar. Foi a minha dúvida que permaneceu na minha cabeça durante mais de duas décadas.




"A  segunda maneira acontece quando o copo gigante fica cheio e a água entorna e forma rios de baixo da terra. Os rios percorrem distâncias muito grandes debaixo da terra até que encontram um local mais fraco e conseguem aparecer à superfície dando origem às nascentes dos rios e ribeiros" 

Esta segunda ideia definitivamente o Duarte não percebeu bem ou talvez eu não tenha conseguido ter a capacidade de a explicar de um modo mais simples. Ficou a tentativa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A minha família

Saudade é uma palavra não tem sinónimo em mais nenhuma língua.No ano 2020 essa palavra fez-se sentir de forma muito cruel. Não poder abraçar quem mais amamos por medo de lhe passar o maldito vírus, é duro.

Não tem sido fácil para mim perceber qual a decisão certa a tomar num determinado momento. Sem dúvida é o coração a falar de uma maneira diferente da razão.

Desde o tão polémico natal de 2020 que não estou à mesa com ninguém da minha família. Antes do Natal evitava ao máximo estar em casa dos meus pais por momentos que seja sem máscara. É uma mistura de sentimentos que me tornou aqueles momentos em famílias diferentes e sem a descontração habitual. 

A última vez que consegui estar descontraído em família foi nas férias de verão naquela semana na praia da Tocha, onde nos reunimos em pequenos grupos naquela casa da praia com um terraço onde ainda hoje sinto o palato daquele peixe grelhado e o sol quente daquela semana de agosto. 

A derradeira vez que chorei de alegria foi na primeira semana de agosto  após ter recebido a  notícia que ia ser tio, estávamos então na Figueira da Foz com os meus pais, avó, irmã, cunhado, Cecília e com o meu filho.

Tenho saudades das conversas com a minha irmã e o meu cunhado sem máscara, de discutir política com o meu tio ao domingo ou História com o meu pai.

Os meus pais têm sido incansáveis e admito que por vezes tenho  agido de forma demasiado apreensiva quando lhes faço uma visita, daí evitar lá ir. As deslocações para Grândola contribuíram para aliviar esses contactos e obrigado a focar-me apenas no trabalho.

Os meus pais desde o nascimento do Duarte, nunca nos negaram  o auxílio e foram essenciais na definição da nossa vida profissional. A minha mãe várias vezes acordou às 6h para estar às 6h30 em nossa casa, esperar que o Duarte acordasse para o levar à creche com mais horas de sono. Por várias noites o Duarte ficou a dormir em casa dos meus pais com pouco mais de um ano de vida.

 A minha mãe foi bafejada com uma reforma longa mas merecida em consequência de um  trabalho que começou aos 18 anos como professora em Chãs de Égua. Que história bonita que ela me contou sobre  a sua primeira escola em Chãs de Égua. Quando fui carteiro passava junto da antiga escola primária de Chãs de Égua, atualmente um centro de interpretação da arte rupestre e lembrava-me do ano longínquo de 1973 quando quando a minha mãe se foi apresentar como professora naquela localidade, localizada numa encosta da Serra do Açor no concelho de Arganil.

Em 1973 a minha mãe, ainda há muito pouco tempo tinha feito 18 anos, quando foi com o tio Renato que eu nunca tive a sorte de conhecer, com a sua esposa a minha tia Graça (irmã da minha avó), com o meu tio Vasco (irmão da minha mãe) então com 7 anos e a minha avó na época uma jovem com 38 anos . Os 5  foram no carro do meu tio Renato em direção a Chãs de Égua com o intuito de a minha mãe se apresentar na escola onde iria começar a exercer a profissão de professora do primeiro ciclo. 

 A estrada era de terra batida e as constantes dúvidas na direção a tomar levaram à necessidade de parar várias vezes para perguntar qual o melhor caminho a seguir. Em 1973 as aldeias serranas do concelho de Arganil eram habitadas por muita gente e não foi difícil encontrar quem os ajudasse. Após longos quilómetros a viagem terminou finalmente após uma descida muito íngreme num caminho de  terra batida. Após aquela viagem atribulada a minha avó comentou "filha vamos embora, não te quero a trabalhar neste lugar".

Aquando da chegada daqueles 5 estranhos, os locais perceberam que era a professora que por tanto ansiavam e foram de imediato tocar o sino para avisar da boa nova. Perguntaram se a professora seria a tia Graça  dada a juventude da minha mãe.

A minha avó, a minha mãe e o meu tio instalaram-se na "casa do professor" e preparam-se para uma fase muito difícil, ainda em ditadura sem água, nem luz e longe de casa. Foi em Chãs de Égua que o meu tio Vasco e irmão da minha mãe aprendeu a ler.

Ao domingo a minha avó acordava muito cedo (ainda de noite) e levava um tronco quente da lareira e usava-o para lhe alumiar o caminho que fazia todas as semanas para assistir à missa no Piódão, a localidade mais próxima.

Avançando pouco mais de uma década, recordo-me através das fotografias da minha primeira casa em Andorinha, local onde os meus pais estavam a lecionar na altura. Revejo a casa através das fotos, ficava perto da escola primária.  Andorinha pertence à freguesia de Travanca de Lagos (Oliveira do Hospital). Travanca de Lagos foi o local onde eu em meados da década de oitenta  e o meu filho Duarte em 2017 se batizaram na igreja matriz que jaz naquela localidade. Revejo as memórias do batizado do Duarte com saudade. O Duarte nessa altura tinha pouco mais de sete meses e começava a descobrir o mundo e o seu olhar de explorador já latejava naquele tempo. Observou a igreja e toda aquela ambiência preparada minuciosamente por Isilda, pertencente ao grupo de jovens, que afinou as vozes e os acordes das guitarras numa linda cerimónia plena de harmonia. Para mim foi bonito pela primeira vez ver a minha família e a da Cecília juntas, foi pena a minha madrinha não ter vindo mas foi maravilhoso rever os meus primos e tios da Costa da Caparica que vejo tão ténues vezes.

Em meados da década de oitenta a minha mãe já tinha alguns anos de experiência mas o meu pai mais novo três anos e com um ingresso na carreira mais tardio ainda estava a dar os primeiros passos na profissão docente. Desses tempos recordo-me da vivacidade dos meus pais que dinamizavam inúmeras atividades num terreiro que ficava na parte de trás da escola primária de Andorinha. Recordo-me que na altura eles organizaram uma feira medieval com um grande impacto na comunidade escolar. Posso estar enganado mas senti que nesse tempo havia mais tempo para conhecer o espaço e as gentes, valorizavam mais o professor e os   encontros entre colegas tinham uma alegria muito diferente de hoje. 

Os meus pais são uns lutadores e pilares essenciais no meu crescimento e agora do Duarte. A minha mãe apresenta sempre  um sorriso no seu semblante não expressando por vezes a dor em consequência do trabalho que a minha avós lhe tem dado nos últimos anos. Admiro-a muito por isso. A minha avó, hoje com 86 anos, perdeu a sua autonomia e ganhou medos após uma queda que a obrigou a ser operada à bacia. A partir desse dia nunca mais foi a mesma, pois além da confiança perdeu a vivacidade e a vontade de habitar a sua casa, dar  o almoço todos os dias úteis da semana ao meu tio Vasco (meu  primo) e ao seu filho Diogo.

O  meu pai com o seu enorme jeito para brincar e ensinar crianças sempre deu ao neto um carinho imenso que através das inúmeras e sempre muito cúmplices brincadeiras que os tornaram inseparáveis. As saudades que o Duarte tem dos avós Pedro e Paulita evidenciam o enorme amor que eles têm por ele. O  imenso jeito que o meu pai tem para contar histórias  "hipnotizaram-no" desde muito cedo o Duarte que as ouve atentamente e transmitiram-lhe um imenso gosto pela leitura que eu tento dar continuidade. A minha mãe  com imenso jeito para a pintura que aprimorou durante a reforma transportou para o Duarte outros ensinamentos como a capacidade de concentração. Sem dúvida são duas pessoas que tornaram o Duarte uma pessoa cheia de sorte.

Espero sinceramente que muito em breve tudo volte à normalidade e possamos novamente conviver  abraçar e beijar sem medo. Muita saúde para todos.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Memórias da década de noventa

A infância e adolescência, são fases da minha vida que evito falar.

Quando algum colega ou amigo falava das aventuras e desventuras desta fase da sua vida eu imiscuía-me de dizer o que quer que fosse. Lembro-me que fui sempre muito reservado e metido comigo mesmo. Nas saídas sociais recordo-me que tinha receio de falar e emitir a minha opinião, pois achava que não tinha relevância. O nervosismo o desconforto quando estava em grupo eram latentes.

As minha memórias são muito ténues e refletem momentos bons e menos bons que passo a narrar de forma salteada:

No primeiro ciclo do ensino básico recordo-me do meu primeiro dia de aulas, ainda na antiga escola primária, atual escola Profissional de Oliveira do Hospital (Eptoliva) no final da década de 80. Como entrei um pouco mais tarde lembro-me que fui recebido de forma calorosa pelos meus colegas de turma.

As minhas professoras do 1º ciclo ainda faziam parte da velha guarda de professores, onde o castigo por errar tinha consequências diferentes das atuais. Cito duas situações que me recordo: a primeira prendia-se com a penalização aquando dos erros nos ditados, no qual erámos castigados com uma reguada de madeira por cada erro que dessemos, lembro-me que quando tentava tirar era pior pois batia-me no osso e eram dores horríveis; a segunda história aconteceu no final do quarto ano, que em consequência de uma ação que eu fiz (sinceramente não me recordo) a professora castigou-me colocando-me de joelhos em frente ao quadro. Tudo castigos que já não se usam há mais de duas décadas. A minha professora do 1º ano reformou-se no final desse ano letivo e a professora que a seguiu até ao final do meu primeiro ciclo reformou-se uns anos depois da conclusão do meu quarto ano de escolaridade.

No primeiro ciclo estive em duas escolas diferentes: nos dois primeiros anos estive na escola antiga  e nos dois anos seguintes fiz a transição para a nova escola e atual escola primária de Oliveira do Hospital.  No início da década de 90 o momentos mais marcantes foi o encerramento da escola por causa da neve. Foi a primeira e única vez que isso aconteceu. Na altura a ainda vila de Oliveira do Hospital ficou coberta de neve. O meu desalento veio quando cheguei a casa e soube que tinha de ir para Coimbra com os meus pais e não podia brincar com a neve ao outro dia salvo erro uma sexta feira do mês de fevereiro do inicio da década de 90.

As mudanças de ciclo foram para mim sempre uma grande tormenta, principalmente do 1º para o 2º ciclo e do 3º ciclo para o secundário.

Em consequência de naquele tempo o primeiro ciclo ser composto apenas por um professor a adaptação às mudanças para uma escola maior onde passei a ter quase 10 professores e várias salas de aula foi dura e difícil durante as primeiras semanas.

Nos tempos de escola, tal como agora nunca fui um grande jogador de futebol ao contrário do meu pai.  Lembro-me de dois torneios inter-turmas onde sobressaí, daí estar a falar disso, pois por norma era uma peça acessória e não saía do banco: o primeiro momento que quero destacar estava no segundo ou terceiro ciclo e recordo-me que na altura me colocaram a jogar e marquei um golo a alguns metros da baliza e na altura todos vieram a correr na minha direção, abraçaram-me deixando-me no meio de um conjunto de braços e pernas. Sentimentos estranhos para mim na altura e se calhar ainda hoje. O segundo torneio fora do normal, não me recordo ao certo se foi no terceiro ciclo ou secundário coincidiu com a ausência dos melhores jogadores e eu acabei por ter uma preponderância fora do normal, ganhámos e eu marquei dois golos o que para mim era um feito.. Acabámos por ganhar esses torneio e ainda tenho a medalha em casa dos meus pais. 

Outra mudança que eu me ressenti  muito foi a passagem do ensino básico para o secundário. A mudança de escola assim como a tipologia de ensino teve consequências nas notas que foram mais baixas no primeiro período. 

O meu ensino secundário coincidiu com a introdução dos telemóveis e da Informática na educação em Portugal. Lembro-me que nas aulas de Introdução às tecnologias de informação (ITI) se trabalhava com o Windows 95 onde ainda se dava umas pinceladas de MS DOS. Recordo-me de um colega que partilhava comigo o computador que já tinha telemóvel e sempre que recebia uma chamada ou uma mensagem sentiam-se as vibrações no ecrã do computador.

Nunca fui de grandes saídas à noite, restringia-me muito ao seio familiar que era onde me sentia mais confortável. Recordo-me de brincadeiras que tive com dois amigos que na altura eram os meus dois melhores amigos, o Pedro e o Ricardo. Hoje devido a  termos percorrido caminhos diferentes falamos de vez em quando por telefone. As brincadeiras de crianças hoje são reconhecidas como infantis ou adequados à época que vivíamos.

Uma das brincadeiras menos felizes foi lembrarmo-nos de combinarmos um encontro em minha casa à noite para darmos uma volta de bicicleta. Eles chegaram lá cada um com o seu foco e prontos para a aventura. A casa dos meus pais fica a cerca de 3 quilómetros de Oliveira do Hospital e na altura não havia tanta iluminação como há hoje e recordo-me muito bem que pouco víamos à frente da bicicleta mas lá fomos. Fomos até Oliveira do Hospital, na altura ainda não tínhamos o hábito dos bares, calcorreamos algumas ruas e estradas, levámos uma buzinadelas de carros que nos ultrapassavam e depois cada um foi para sua casa. Nesta fase da minha vida foi a coisa mais estapafúrdia que me recordo de ter feito, felizmente ninguém se aleijou.

Naquela altura não havia os mails nem telemóveis e o contacto com as raparigas era feito através de cartas que lhe chegavam através de amigos ou familiares. Eles faziam-no muito, enquanto eu não tinha tanto esse hábito. Lembro-me que fiz um bilhete para uma rapariga e não tive grande sucesso. 

Nas férias reuníamo-nos em minha casa para jogar à bola num terreno por trás da garagem onde o meu pai tinha apenas mato. Nós limpámos aquele espaço e improvisámos um campo de futebol com pedras e acho que aproveitámos as árvores que lá gereciam para servir de postes.  Passávamos ali tardes os três quando não convidámos mais 1 ou 2 para fazerem parte das nossas conversas e das correrias atrás de uma bola.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Memórias da minha vida profissional

Ser professor com gosto é algo fantástico!  Eu dedico-me imenso àquilo que faço quando sinto que sou útil e contribuiu para o meu crescimento profissional. Sabe bem passado vários anos os alunos não terem vergonha de virem ter connosco e cumprimentarem-nos com respeito e admiração.

Lembro-me quando estive em Sabóia- Odemira (2009/10) a minha colega de História com uma simpatia e simplicidade singulares me disse "ser professor é duro mas quando as coisas correm bem é tão bom".  Apesar de já não me lembrar  do nome dela ainda recordo-me das suas feições e da paixão que ela tinha em ser professora. Tinha imenso respeito por ela e adorei trabalhar com ela.

A minha fase inicial de carreira foi muito difícil, definitivamente não estava preparado para desempenhar tais funções. 

Lembro-me de dois episódios positivos que aconteceram no início da minha carreira docente:

O primeiro aconteceu em Rio Maior (2010/11) após 2 anos a dar aulas a alunos do 3º ciclo e secundário que não ligavam nenhuma à minhas aulas. Nesse ano em Rio maior dei aulas à noite a turmas de adultos e  recordo-me que numa aula que me correu particularmente bem ter dito  aos formandos no final. "obrigado". Sabe bem quando estão atentamente a olhar para nós a ouvir-nos com gosto. Não estava habituado a isso e como nunca tinha tido essa sensação a expressão veio do coração e foi espontânea.

O segundo episódio aconteceu no início da segunda década do século XXI onde estive alguns meses desempregado e as aulas como professor de ténis mantiveram a minha cabeça ocupada. Foi uma experiência muito boa pois dessa forma senti que estava mais preparado para entrar no mercado de trabalho. Na altura Portugal vivia uma situação de crise económica e havia muito desemprego docente. Concorri a um colégio sem esperança de lá ficar pois nessa altura entrar num colégio só mesmo com contactos terceiros. Após a entrevista no regresso a casa lembro-me perfeitamente que parei em Coimbra para comer qualquer coisa quando me ligaram a dizer que tinha sido selecionado. Lembro-me que fiquei muito contente e recordo-me perfeitamente, quando após me terem dado a notícia inesperada eu ter dito prolongadamente obrigaaaadoooo.

Aquele mês que passei no Colégio Rainha Dona Leonor nas Caldas da Rainha no ano letivo 2011/12 foi muito duro, trabalhei muito e  ainda hoje me recordo do dia da apresentação e o principalmente do dia da despedida  onde a diretora, uma engenheira com formação na área da gestão me disse " já vai embora", "nota-se que gosta de ensinar". São expressões que nos enchem o ego e vamos buscar quando estamos menos bem.

A partir daí consegui contactos com colégio privados onde andei até final de 2012, e devido à má experiência acabei por deixar de vez o ensino durante um longo período de tempo.

Entre 2013 e 2017 estive sempre fora do ensino. 

Neste período distante das salas de aula tive várias profissões. Aprendi e conheci gente muito interessante em todas elas, no entanto houve uma que me marcou particularmente, técnico de campo no projeto piloto do cadastro predial de Oliveira do Hospital. Cresci imenso profissionalmente nesse período  entre 2014 e 2015.

Nesta altura os empregos que exercia eram precários:  estagiário na Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, carteiro, comercial da Vodafone, ou guia turístico na freguesia da Bobadela.  Penso que não me esqueci de nenhuma função realizada. De todas as profissões descrita neste parágrafo a que mais gostei foi a de guia turístico, não me revendo a trabalhar em qualquer uma das outras.

O nascimento do meu filho em Janeiro de 2017 teve um peso fundamental no meu reerguer profissional e regresso de uma forma mais segura à vertente educativa.

Curiosamente no dia em que ele fez uma ano, a 29 de janeiro de 2018, fui-me apresentar na escola secundária do Fundão. O regresso ao ativo não foi fácil no entanto soube muito bem  no final aperceber-me que tinha conseguido ultrapassar o primeiro obstáculo onde foi muito importante a ajuda da Cecília 

Daí para a frente os obstáculos prosseguiram e nos dois ano letivos seguintes lecionei em duas escolas em simultâneo. Em 2018/19 (Manteigas e Pampilhosa da Serra) e 2019/20 (Pampilhosa da Serra e Tabuaço). A vontade de ir a casa  e poder ver o meu filho diariamente suplantou a dureza que as centenas de quilómetros ofereciam. No ano letivo 2019/20, especialmente duro. guardo a simpatia das escolas por onde passei e nunca me irei esquecer daquele mail que a escola de Tabuaço me enviou quando fui colocado em Grândola, agradecendo o meu trabalho e desejando-me sorte para o desafio que iria ter no ano letivo 2020/21. São gestos simples que eu dou um enorme valor.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Confinamento- a minha opinião

Vivemos dias muito difíceis. 

Pela primeira vez desde o início da pandemia apercebo-me de dezenas de pessoas infetadas e algumas  internadas no seio da minha família e amigos mais próximos. Estamos todos assustados com a evolução desta doença onde muitos hospitais já atingiram o seu limite. Os profissionais de saúde são uns verdadeiros heróis que devem recompensados financeiramente por tudo o que têm feito. O meu Obrigado a todos!

Para mim o que mais me tranquiliza é saber que tenho um Governo e um Presidente da República que assegura o funcionamento de uma democracia estável. Quando vejo pessoas a reclamar os seus direitos, para mim é algo positivo pois é sinal que as pessoas têm esperança e sabem que o governo apesar de não lhe poder dar resposta as ouve e tenta dentro das suas possibilidades arranjar-lhes uma solução.

Nas redes sociais sucedem-se comentários que afirmam a necessidade de voltar ao ensino à distância. Eu próprio já assenti com um "gosto" ao fecho dos estabelecimentos de ensino e ao retorno ao ensino à distância.

Bem, tendo a experiência do que sucedeu no confinamento de março apercebo-me que o fecho total das escolas é a solução mais fácil mas não é a melhor solução. 

Na minha opinião o ensino universitário e secundário devia encerrar totalmente ou grande parte da semana. Os professores  deverão ir apenas um a dois dias à escola  para tirar dúvidas. Neste tipo de ensino os alunos já são autónomos e os pais já terão liberdade para trabalhar quer presencialmente quer em teletrabalho..

Nos restantes níveis de ensino é menos produtivo o ensino à distância. Neste caso faria mais sentido um ensino presencial com uma redução da carga horária dos alunos, a redução  dos programas e optar-se por métodos de ensino onde o teste não seja  o centro da avaliação. Esta fase pode ser aproveitada para valorizar o tempo em sala de aula onde  o professor deixe de ter tanta pressão no cumprimento dos programas. Em tempos de pandemia o primeiro, segundo e terceiro ciclos poderiam ter aulas apenas  de manhã ou de tarde, ficando com o restante tempo livre. Caso os pais não os possam ir buscar poder-se-ia optar por ATL's.

O professor com menos tempo letivo aproveitaria com certeza o tempo livre de modo a prepara aulas com mais qualidade, rentabilizando melhor o tempo. O trabalho do professor em sala de aula é apenas uma pequena percentagem do total. 

 Na minha opinião os exames nacionais deveriam existir apenas no ensino secundário e extintos nos restantes níveis de ensino.

Na terça feira (12 de janeiro) após a reunião com o Infarmed o governo decidirá sobre o modo como será feito o confinamento. Desejo que sejam tomadas decisões conscientes para a conclusão do segundo e terceiros períodos e assim  como toda a gente desejo que a partir do próximo ano letivo já consigamos trabalhar de uma forma mais próxima do normal.

Opinar num blogue é muito fácil, pois as minhas responsabilidade são apenas como professor e pai. Admiro a coragem de quem tem de tomar decisões numa altura tão difícil.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Bom ano aos leitores do blogue

Tencionava parar de escrever durante um tempo. No entanto há algo mais forte que eu que me pede para desenlaçar umas breves frases neste início de 2021.

Amanhã vou começar mais um trimestre neste ano letivo atípico para escolas, professores, alunos e pais. Ninguém estava preparado para isto, no entanto e apesar dos contratempos cada profissional da educação tem feito um trabalho exemplar e merece ser reconhecido por todos. 

Portugal tem excelentes profissionais que se adaptam com facilidade às situações particularmente difíceis.

Como já escrevi anteriormente a mim enquanto professor custa-me imenso não poder ver a face das pessoas com quem trabalho, perceber as suas expressões. Passados mais de três meses sinto que não conheço os meus alunos nem os meus colegas. A Cecília foi infetada com Covid 19 em Novembro e ainda hoje diz que apenas recuperou ligeiramente o olfato e o paladar. É muito desconfortável estar a comer e não cheirar e sentir o paladar da comida.  Na escola sinto-me um bocadinho assim faltam-me os alicerces para construir com solidez a minha casa que abana quando há uma simples tempestade.

Não sei se até ao final do ano letivo vou sentir a escola e sentir mais estabilidade no meu edifício. Tudo irei fazer para que isso aconteça embora saiba as inúmeras dificuldades que me esperam. As horas que me faltam para acabar a formação são 502 e sinto a pressão do tempo escassear.  A diversidade de módulos e de conteúdos novos onde apesar de eu ter acesso a materiais passados por colegas, sinto que não tenho tempo para os trabalhar e adaptar à minha maneira de ensinar. Tudo isso a associar à distância de casa, à insegurança resultante da pandemia dificulta que eu consiga sentir-me bem em Grândola.

Tenho pena de não ter mais tempo para desfrutar da vila, de fazer uma visita à serra de Grândola ou simplesmente passear à beira mar nas belas praias da costa vicentina, pois apesar da distância faço questão de ir todos os fins de semana a Oliveira do Hospital abraçar o meu filho e dar uma ajuda à Cecília. 

Termino com os desejos de um Bom ano a todos os leitores do blogue.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Uma breve reflexão no final do primeiro período.

Chega ao fim mais um dia e quase mais uma semana de trabalho.

Observo que a interrupção letiva do natal se aproxima rapidamente. Sinto-me muito cansado e com muita vontade de abraçar o meu filho e a minha esposa e sentir o aconchego da minha família mais de perto. 

Na passada segunda feira, antes de me fazer à estrada para mais 3h e meia de caminho ficou-me no ouvido as breves palavras do meu filho Duarte:

"Pai não vás, está muita chuva, gosto muito de brincar contigo". Palavras que inevitavelmente nos tocam o coração.

A semana passou e inevitavelmente já não é possível transpor na integra o diálogo naquele final de tarde de segunda feira tive com o meu filho. As viagens são extremamente cansativas, no entanto não consigo abdicar delas. Elas são fundamentais para suavizar um pouco a dureza da  minha semana de trabalho.

Já passaram alguns meses e apesar da passagem do tempo, não consigo sentir o calor e a alegria de estar no meu local de trabalho. A impossibilidade de ver a cara das pessoas e de nos aproximar tornou ainda mais difícil difícil à adaptação e a uma escola profissional fria.

Hoje numa conversa com uma colega na sala de professores disse-lhe que sentia falta exigência e rigor no ensino nesta escola profissional. Aos alunos basta marcarem presença nas aulas ou mesmo que faltem há sempre uma justificação que cola e lhes permite continuar a faltar sempre que quiserem.

Nós professores somos sem dúvida quem trabalha mais na escola.

O que acho mais confrangedor é andarmos atrás dos alunos para eles fazerem as fichas para conseguirem concluir o módulo, quando eles nas aulas não quiseram saber e posso dizer mesmo andaram a gozar connosco. Sem dúvida isto é um ciclo vicioso que os alunos conhecem muito bem.

É interessante perceber que que a minha colega pensa exatamente o que escrevi no dia 14 de Novembro. Nós desaprendemos de ser professores

É gritante a falta de autonomia dos alunos e vontade de ter acesso ao conhecimento.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Yazidis: O genocídio esquecido

No rebuliço dos nossos dias não nos apercebemos ou ignoramos por vezes, o que se passa em determinados países, onde inocentes sofrem as consequências da guerra no seu país. Infelizmente morrem crianças que desde muito cedo deixam as brincadeiras e lutam pela sobrevivência.

É arrepiante ouvir a reportagem de uma jovem equipa de jornalistas que fez um trabalho excelente sobre o Genocídio cometido pelo Daesh sobre a comunidade Yazidis no norte do Iraque. 

Esta comunidade que habitava na localidade de Sinjar  no norte do Iraque. Esta cidade foi completamente destruída e ainda hoje mesmo após a derrota do Daesh continua desabitada. A comunidade  Yazidis não teve a proteção de ninguém  sendo evadidas de surpresa quase sem tempo para fugir. 

Os milhares que conseguiram fugir foram para as montanhas, onde não tinham mantimentos nem água. Morreram bébes e crianças de sede e de fome nas montanhas de Sinjar.

A comunidade Yazidi no Iraque tinha cerca de 1 milhão de habitantes sofreu um rude golpe do Daesh sendo os Homens mortos e enterrados em valas comuns, as mulheres mais jovens separadas das mais velhas torturadas, escravizadas vendidas no mercado do tráfego de pessoas. 

As razões do Daesh são estritamente fundamentalistas e sem qualquer respeito pela diferença. 

Estas pessoas são seres humanos como nós. Têm família e sonhos, no entanto ao contrário de nós têm ambições mais simples como ter uma casa, liberdade e sorrirem, olharem em frente e esquecerem a dor e sofrimento porque passaram.

A Humanidade tem de envergonhar com o que se passou. Devemos evitar que episódios semelhantes se voltem a repetir.

Não me canso de publicitar o excelente trabalho jornalístico. A Comunidade Fumaça deu -nos a conhecer de uma forma dura uma realidade que de outra forma nos passava ao lado.

Obrigado Equipa do Fumaça.

Ouçam esta reportagem de dois episódios.

Episódio 1

Episódio 2


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O pedido do Duarte ao Pai Natal

 O pedido do pai natal este ano do Duarte foi um carro com guincho. Ficou registado em desenho.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Um passeio matinal natalício.

O isolamento profilático chegou ao fim. Para a Cecília está a ser mas difícil do que ela desejava o regresso às rotinas e futuramente ao trabalho.
O regresso do Duarte à casa dos pais depois de ter cumprido quase duas semanas de isolamento em casa dos avós foi misturado com a alegria do Natal e o retorno às brincadeira. O Duarte consegue distinguir perfeitamente os brinquedos da casa dos avós e da casa dele. Durante o isolamento dei aos meus pais alguns brinquedos cá de casa e o  Duarte disse aos avós que não queria, pois esses brinquedos eram para brincar na casa dele.

Este fim de semana depois de um progressivo regresso ao trabalho que aconteceu apenas na quinta e sexta feira tive um tempo para sair com o Duarte e saborear novamente o prazer das brincadeiras e conversas ao ar livre nas ruas de Oliveira do Hospital.

Este sábado de manhã esteve um sol radiante depois da tormenta que foi a sexta feira onde choveu muito na região centro e até nevou cerca de 1 hora em Oliveira do Hospital. Nota-se que a chuva e o  Inverno finalmente chegaram. Gosto do Inverno, de saborear os momento à lareira na companhia da família.

Neste sábado acordámos cedo, ainda antes das 9h. O passeio deste sábado com o Duarte foi um passeio natalício. A mãe antes de sairmos por volta das 10h30 disse-nos para irmos ver os presépios e passear junto ao Largo Ribeiro do Amaral.

Após ter parado para comprar pellets, o combustíveis para alimentar e tornar mais quentes as noites frias de Dezembro o Duarte insistia que queria ir ao parque do Mandanelho. Eu disse-lhe que hoje iriamos fazer uma volta diferente mas devido à insistência da criança estacionei o carro junto do parque do Mandanelho e fomos a pé até ao Largo Ribeiro do Amaral.

Nós evitamos ir para esta zona devido à presença dos baloiços que o Duarte adora e agora infelizmente não os pode frequentar. 

Quando chegámos ao Largo Ribeiro do Amaral olhei para biblioteca municipal e lembrei-me dos tempos em que o Duarte com apenas 2 e 3 anos acabados de fazer ia à biblioteca comigo. Eu deixava-o  circular e desfrutar do espaço lúdico para crianças. O jogo que ele mais gostava era o  Gombby onde ele numa espécie de puzzle em círculo com cores observava as várias fazes do dia através de uma  personagem que ele adorava. De vez em quando pegava em livros, folheava e contava histórias à sua  maneira com base aquilo que via nas imagens. Foi dos primeiros contactos que ele teve contacto com tantos livros ao mesmo tempo e adorou. Outras das brincadeiras que nós fazíamos era com almofadas em forma de cilindro, colocávamos uns em cima dos outros e contruíamos castelos, ou então usávamos as almofadas como se fossem rodas e empurrávamo-los para onde queríamos. Por vezes quando os avós  paternos lá iam ter, aproveitávamos uma grande almofada em a forma de um crocodilo  usada para nos sentarmos no chão, sentávamos lá o Duarte e eu ou meu pai puxávamos. Ele adorava ser transportado sentado em cima da almofada, principalmente quando algum de nós puxava com mais velocidade.

Hoje decidi ir de novo à biblioteca para lhe mostrar os enfeites de Natal e reviver velhos tempos.
Quando entrámos ele dirigiu-se imediatamente para a árvore de Natal e teve um breve diálogo com a senhora da receção que passo a descrever:
Duarte: "A árvore de Natal tem presentes de verdade"
A senhora com um ar de desilusão após ver o ar expressivo da criança e disse-lhe: "não são apenas caixas sem nada lá dentro"
Senhora: "Como te chamas?"
Duarte: "Duarte Sousa"
Senhora: "Que idade tens"
Duarte" Vou fazer quatro anos em Janeiro"
Senhora" Porque viste à biblioteca"
Duarte "Venho cá ver histórias de natal"
Senhora " Toma estes livros de natal, podes ver aqui se quiseres"
O Duarte agradeceu os livros pegou neles e levou-os para a ludoteca 

Quando chegámos à ludoteca eu ainda lhe tentei ler umas histórias mas definitivamente não era altura para isso. O Duarte observou um cenário de madeira contruído para o  natal e foi-se imediatamente sentar no trono do pai natal. Após uns breves instantes contornou o cenário natalício e dirigiu-se para os bastidores, o local onde se preparam as festas de natal. Antes de irmos embora sentou-se num trenó e tocou num bonecos de natal e umas bengalas que estavam junto a um vidro. Nesta idades a curiosidade fá-los ter necessidade de tocar  e mexer nas coisas. O pai por vezes tem que chamar a atenção.

Antes de sairmos da Biblioteca perguntámos se o presépio do Largo Ribeiro do Amaral já estava pronto ao que a senhora disse que sim. Descemos uns metros e quando estávamos a chegar junto do presépio vimos que a porta lateral da igreja matriz estava aberta. O Duarte perguntou-me "podemos entrar pai". Eu respondi-lhe que teria que perguntar primeiro. 

Dirigimo-nos para a Igreja Matriz e após nos darem autorização entrámos.

Foi muito curiosa aquela visita à Igreja, pois entrámos no preciso momento em que estavam a fazer o presépio de natal.
A curiosidade do Duarte é imensa e o à vontade que ele tem para questionar e meter conversa com quem não conhece é surpreendente.

Quando chegámos junto ao presépio  que se encontrava na parte central da igreja no chão por baixo da mesa onde o padre celebra as missa. Eu relembrei-lhe as imagens do presépio que estavam ali representadas José, Maria e os  reis magos. O diálogo que se seguiu entre o nós e as pessoas que lá estavam a trabalhavam foi o seguinte:

Duarte: "Este presépio não tem tantas figuras como o do meu avós"
Eu: "Neste presépio as figuras são maiores que as dos avós e por isso estas são menos. O presépio dos avós tem músicos, lavadeiras, animais...."
Senhora" Mas olha que este presépio também tem animais, procura-os"
O Duarte e eu olhámos lá por trás de José e Maria e de facto lá estavam escondidos o burro e a vaca.
Após uns breves momentos apareceu o padre António que lhe fez mais perguntas 
Padre António " Sabes porque é que o menino jesus ainda não está nas palhinhas deitado"
O Duarte não respondeu
Padre António: " A Maria está grávida e o menino jesus só irá nascer no dia 25 de Dezembro"
Duarte: " Quem o vai ajudar a nascer"
O Senhor Padre com um sorriso no rosto pela pergunta inesperada da criança disse-lhe a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
Padre António "o José dará uma ajuda quando o menino jesus nascer"
O Padre António perguntou-lhe onde estava o Burro e a Vaca, o José e a Maria ao que o Duarte apontou para as figuras de uma forma certeira,
Passado uns minutos o Duarte disse "Pai olha uma borboleta" 
Eu não  discerni de imediato onde ele tinha visto uma borboleta.
Duarte: Ele apontou "pai ali" por cima do presépio.
Após breves minutos eu conclui que ele se estava a referir a um anjo que estava na mesa do padre por cima do presépio. 
Eu respondi-lhe que aquilo não era uma borboleta, mas sim um anjo. Achei deliciosa esta observação.
Felizmente não me perguntou o que era um anjo pois teria novamente de puxar pela imaginação para lhe dar uma resposta.



Após este breve diálogo despedimo-nos das senhoras e dos senhor padre e  fomos ver o presépio do Largo Ribeiro do Amaral que tinha quase todas as figuras do presépio da igreja à exceção  do menino jesus que naquele presépio já tinha nascido. 

Neste passeio matinal ainda fomos ao parque do mandanelho e depois fomos para casa.