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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Palavras de um Professor

 Há momentos em que as lágrimas nos caem involuntariamente quando sentimos a voz do nosso filho  a largas centenas de quilómetros. É duro, muito duro ser professor nos dias que correm. 

Dói demasiado quando as coisas correm mal em catadupa, falhamos em consequência do cansaço que aumenta o medo de falhar.  Em frente de um público não podemos mostrar insegurança, mas por vezes é inevitável em consequência da pressão, da burocracia, de querer chegar a todo o lado ao mesmo tempo e não conseguir. 

Os papéis acumulam-se ao lado da secretária assim como as tarefas para o dia seguinte. Recordo-me hoje de manhã enquanto fazia uma pausa para comer uma sandes no bar da escola,  desabafei com uma colega de Geografia " por mais anos que tenha de experiência o cansaço nesta fase do ano letivo é inevitável " Ela disse-me "Tiago não desanimes ainda tens muitos anos pela frente". Depois de ela ter dito aquilo pensei "será que eu vou aguentar este ritmo durante muito mais anos, bem tendo em conta o panorama extra ensino talvez não tenha escolha"

Trabalho imenso para melhorar e conseguir ser melhor professor mas esbarro muitas vezes em pensamentos que limitam o desenvolvimento das minhas capacidades. Isso enerva-me tanto.

Ser professor é sentir muitas vezes a desilusão quando preparamos tudo para que as coisas nos corram bem e depois a turma não nos deixar explicar os conteúdos com a clareza desejamos. Fico triste por saber que não correu tão bem, com imensas dores de cabeça, no entanto procuro encontrar forças na esperança que o próximo dia será melhor. 

Ser professor é ser resiliente é abdicar de ter tempo com os nossos filhos e familiares e dedicar o nosso tempo aos outros na esperança de ouvir um dia destes um Obrigado. Estou tão habituado a ouvir criticas ou chamadas de atenção dos alunos dos colegas que até me esqueço daquela vez em que os alunos do EFA em Rio Maior me disseram " Obrigado professor" ou no Fundão quando um aluno do secundário me disse na última aula do ano letivo após todos os restantes alunos terem saído da sala  "O professor explica muito bem, podia ser é mais simpático". Fiquei surpreendido, se calhar devia perguntar mais a opinião dos alunos sobre mim. 

Escrevo este texto depois de um início de semana menos bom na esperança que com trabalho dias melhores virão. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A menina do 2º ciclo

Este ano letivo estou a lecionar no Plano Casa.

Comecei há cerca de duas semanas e a minha tarefa é dar apoio a uma instituição de acolhimento de raparigas que são retiradas ao seu lar familiar por diversos motivos. 

Quando entrei lá no primeiro dia observei um meio calmo, estranhei um pouco confesso. A Educadora muito simpática, afável e sempre com um sorriso na cara. Para ser Educadora numa Instituição de acolhimento de crianças é preciso gostar mesmo daquilo que se faz e dedicar-se de corpo e alma a uma causa tão nobre, admiro-a muito por isso.

Sobre o meu primeiro dia, lembro-me de uma conversa que a Educadora partilhou comigo enquanto eu estava a dar apoio na sala de estudo. Ela indicou-me as peripécias que tinha tido durante a madrugada onde teve que ir buscar uma residente da casa a um hospital de Lisboa em consequência dos excessos cometidos, lembro-me perfeitamente da expressão dela sobre a sua menina "Ela está a fazer mal a ela própria".

O apoio que eu faço é muito generalizado e acabo muitas vezes por divagar por caminhos das vidas das educandas. Uma delas ainda no segundo ciclo quando eu lhe coloquei um mapa de Portugal, perguntei-lhe onde era Lisboa, ela não me conseguiu dizer onde era, indicando-me que gostava de ir ao Porto, pois tinha lá um irmão ou um primo. Acabei por dizer-lhe onde era Lisboa e ela conseguiu depois dizer onde era o Porto. Aquando da conversa disse-lhe que o Porto ficava muito distante do local onde ela se encontra, cerca de 5 horas de carro. A menina dizia muitas frases repetidamente "pois é muito longe" "gostava muito de lá ir".... Notei um discurso vago e vazio. Percebi imediatamente a falta de bases e alguém que lhe indicasse um rumo. Devido ao pouco acolhimento para a minha presença  das restantes educandas voltei à menina do segundo ciclo no segundo dia e entre a realização dos exercícios de Português íamos divagando por histórias da sua vida que eu levanto aqui um pouco da ponta do véu. Eu percebi que ela de 15 em 15 dias já vai a casa de familiares e subentendi a sua  da vontade de sair daquele espaço e voltar para a família. Não percebi se ela gostou de estar em casa dos familiares no fim de semana, pois enquanto falávamos deixou escapar a expressão "felizmente ou finalmente (não me recordo ao certo) voltei para a instituição". Sinto quando falo  com ela no seu tom monocórdico e pouco expressivo que ela ainda não está preparada para estar ali e o lar familiar também não será o local ideal. Assustou-me ouvir repetidas vezes ela dizer "Eu quero seguir a minha vida, eu não quero ser como as outras meninas". Quando ouvi dizer a primeira vez fiquei contente, mas quando a ouvi dizer quatro vezes fiquei preocupado. Após as sucessivas repetições senti que não era ela a pensar mas uma cartilha que lhe foi comunicada e ela segue-a sem perceber bem o seu significado. Na instituição sinto-a isolada e perdida. No terceiro dia eu propositadamente não fui ter com ela. Quando faltava pouco mais de meia hora para me ir embora veio ter comigo olhou para o meu telemóvel observou o meu filho e a partir daí decorreu mais uma conversa espontânea.

Fico por aqui nesta minhas novas experiência como professor.

 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Educação e Arte

Uma escola deve ser um espaço embelezado essencialmente pelos alunos. Este ano letivo no Agrupamento de escolas de Vendas Novas, recordo-me perfeitamente nos primeiros dias andar "a partir pedra" de modo a que me apresentassem os cantos à casa. Assim do nada e com muita sorte deparei-me com uma pessoa muito simpática que me mostrou o Agrupamento de Escolas nº 1 de Vendas Novas. Subi as escadas e deparei-me com dois ou três magníficos quadros na parede da escola que me fizeram por momentos parar, deixar de a ouvir e contemplar a beleza daquelas obras de arte feita por alunos. Pedi-lhe desculpa em consequência de por breves instantes deixar de ouvir mas foi mais forte do que eu.

Gosto muito da minha escola pela forma bonita como está embelezada por dentro. Na minha opinião a arte permite aumentar a criatividade dos alunos.





Trabalhar na escola de hoje é um desafio diário, pois a heterogeneidade  dos alunos é cada vez maior e temos de saber lidar como imensos alunos com profundas dificuldades. Por vezes não é fácil mas improvisamos à nossa maneira.

Lembro-me que o Duarte pergunta por muitas vezes o significado da morte à maneira dele. Nós tentamos sempre suavizar e dizer-lhe que está a dormir. 

Para fazer a ligação entre a arte, as dificuldades de aprendizagens e o Duarte vou citar um excerto do II diário escrito por Fernando Alva designado "Pedra após pedra". O Renato Nunes autor do livro que criou o pseudónimo Fernando Alva enquanto narrador das suas peripécias enquanto professor de Ensino Especial nos Açores.

Cito a pág. 120 " ...Vivo em função dos outros. Falta-me um equilíbrio suficiente para me esquecer de mim. 

Hoje, fui à escola, talvez a minha segunda casa, pedi a um menino com Perturbação do Espectro do Autismo que folheasse uma obra sobre Rembrant, pintor do século XVII, da designada escola realista. Ao ver "A descida da cruz", os olhos do jovem condoeram-se com o cenário dantesco. Depois de chocar com a mãe de Jesus deitada no chão, quis saber se estava morta e respondi-lhe que por certo havia apenas  desmaiado. Senti-o mais tranquilo, mas os seus olhos rapidamente regressaram ao corpo martirizado de Messias, magro, barbudo e cabeludo....Que turbilhão de emoções terão atravessado a poderosa armadura daquele menino habituado a desviar o olhar?

Um colega de trabalho (não digo a profissão ressalve-se), vendo esta minha teimosia em expor "estes jovens" (para mim são apenas jovens) às mais nobres revelações artísticas, riu-.se sobranceiramente e jurou-me que não valia a pena.

Não sei se, na verdade, o faço mais por eles do que por mim próprio. Mas tenho a certeza absoluta que vale a pena. Quase todas as armaduras para não dizer todas têm um calcanhar de Aquiles e arte pode destruir muitas barreiras. 

Van Gogh, Da Vinci, Rembrandt ... decisivamente, eu irei continuar."

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Pela primeira vez senti-me bem em Mirandela

Hoje passado mais de uma década após a Cecília ter estado na escola profissional de desenvolvimento rural de Mirandela, percebo a expressão dela aquando da observação do fogo de artificio numa festa local, "pela primeira vez senti-me bem em Mirandela".

Hoje eu na escola profissional de desenvolvimento rural de Grândola, ainda não posso dizer que houve um momento que me sentisse feliz. Talvez esteja a exagerar mas seguramente não foram muitos e sem dúvida não houve qualquer momento que sentisse o coração cheio.

A vida de professor não é fácil. Ao longo dos anos aprendi a gostar da profissão e como qualquer pessoa gosta de ver o seu trabalho reconhecido.

Desde o reingresso na profissão há quatro anos tenho sentido um distanciamento maior entre professor e o aluno. Os alunos vêm cada vez mais o professor como alguém distante e quando nos despedimos no final do ano letivo a despedida é fria, trespassando a ideia que fomos apenas mais um professor. 

Hoje aquando da ida bar da escola para comer uma sandes, falei uns minutos com a funcionária e enquanto conversávamos  veio um senhor que pediu um café. Observei que ele estava a tirar moedas e por isso deduzi que não tinha o cartão da escola. Ofereci-me de forma espontânea para lhe pagar o café ao que ele assentiu e agradeceu. Acabámos por trocar dois dedos de conversa que passo a citar:

Senhor: Você é professor cá na escola 

Eu: Sim fui colocado no início do ano letivo 

Senhor: Sabe eu trabalho na escola mas na parte agrícola, venho cá poucas vezes a acima. Eu tenho duas filhas a estudar nesta escola.

Eu acabei por ficar um pouco receoso dada a pouca empatia que os alunos têm por mim. 

Senhor: Que disciplinas leciona?

Eu referi que lecionava Área de Integração (AI), Geografia e Ambiente e Desenvolvimento Rural (ADR)

O senhor  disse o nome de ambas as filhas e indicou que  uma estudava  no décimo e a outra no décimo primeiro do curso de Turismo e Ambiente e Rural.

Suspirei um pouco de alívio pois as alunas são adoráveis e eu tenho um enorme respeito e empatia por elas. Ao contrário da grande maioria são alunas muito aplicadas. Acabei por elogiá-las, pois não tinha qualquer razão para dizer o contrário.

Após os meus elogios o senhor disse:

Eu: A mais velha fala muito e gosta muito de si.

Eu não sou daquelas pessoas que gosta muito de estar sempre a ser elogiado mas pontualmente quando acontece, sabe bem. Pela forma como ele se expressou penso que foi sincero. No entanto mesmo que não tenha sido eu acreditei que sim.

Após aquele momento, pude pensar que o dia estava ganho.

domingo, 11 de abril de 2021

Balanço do ano letivo

No dia 19 de Abril retomo a atividade presencial em Grândola. Passado largos meses não consigo dizer que tenho saudades de retomar o ritmo de trabalho presencial. Sinto que este ano letivo foi um ano de aprendizagem e apesar de não haver certezas absolutas sobre o que será o próximo ano letivo, pressuponho ter sido apenas o início de um percurso profissional a sul do rio Tejo.

Apercebo-me cada dia que passa, sinto que desempenho de forma mais competente esta profissão, embora ainda muito longe daquilo que idealizo.


Este ano letivo começou muito mal, devido à inadaptação aos métodos de avaliação e às estratégias escolhidas para às aulas,  ao que se associou um cansaço subjacentes às viagens para Oliveira do Hospital de que não abdiquei em nenhum fim de semana. 

O primeiro período foi muito difícil devido à distância e a impossibilidade de estar com a Cecília quando ela mais precisava. Ela dá aulas numa escoa secundária da  Guarda e no estabelecimento prisional da mesma cidade. Para ela a impossibilidade de ter um dia livre contribui para que o cansaço se acumulasse e não houvesse tempo para recuperar. Apesar de todos os cuidados que ela  teve aconteceu, em meados de novembro do ano passado descobriu que tinha sido infetada com  Covid 19. Nessa sexta feira recordo-me que cheguei de Grândola e sentia-a cansada, estava deitada no sofá, acabei por não ligar de imediato,  pois a sexta feira por norma é um  dia de descompressão em que por vezes aproveitava para descansar um pouco ao fim da tarde. No sábado ligámos à nossa médica de família e já tínhamos quase a certeza da infeção, pois os sintomas eram evidentes.

Para mim foram quinze dias muito complicada, pois tive de fazer tudo um pouco em casa. O dia mais complicado em que eu a Cecília chorámos juntos foi o dia em que o Duarte teve de ir para casa dos meus pais por tempo indeterminado, pois não era saudável ele permanecer num apartamento, naquele ambiente, A tenacidade para mim teve de ser a palavra de ordem e acabei por ter de delinear estratégias de ocupação do tempo de forma a manter o discernimento  e tratar da melhor forma a Cecília.  Apesar de a Cecília ter conseguido curar-se em casa, temi vários vezes o internamento, pois os sintomas agravaram-se principalmente durante a primeira semana.

Curiosamente para mim o isolamento em consequência do apoio à Cecília e o atual confinamento vieram em momentos chave que me ajudou a ultrapassar melhor este ano letivo.

Quando terminei o primeiro período devido às dificuldades de adaptação ao currículo dos cursos profissionais,   decidi que tinha de estudar e repensar o segundo período de uma outra forma até  porque devido aos 15 dias de isolamento teria necessariamente em janeiro o horário muito preenchido. 

Recordo-me que a melhor coisa que fiz no início do segundo período foi levar uma mesa redonda velha de casa da minha mãe e colocar um aquecedor a óleo no meu quarto em Grândola. O mês de janeiro foi excecionalmente frio em Grândola, como em todo o país,  atingindo todas as noites temperaturas negativas. 

Senti que levei o início do segundo período de uma forma mais calma e as viagens diárias para a escola  foram feitas quase todas a pé, pois moro a cerca de 700 metros da escola. Aos poucos senti que me estava a adaptar ao ensino profissional e aos meus afazeres diários.

No dia 21 de janeiro o Governo indicou que iria começar no dia seguinte um novo confinamento na educação. Na  minha opinião neste segundo confinamento, a paragem letiva de duas semana entre 22 de janeiro e 7 de fevereiro foi exagerada, uma semana seria suficiente. Senti a necessidade de mais tempo para descansar na interrupção letiva da Páscoa, essencialmente devido à dureza e à pressão sentida na parte final do segundo período.

O segundo confinamento para mim que dou aulas a 340km da minha área de residência foi a melhor coisa que me aconteceu, pois deixei de ter o desgaste das viagens o que me forneceu mais tempo para organizar as aulas e as avaliações dos 9 módulos que conclui no final do segundo período. 

Termino o texto com o Duarte, realçando a importância que este confinamento teve para a minha reaproximação ao meu filho. Ele nunca percebeu bem a razão da minha ausência durante tantos dias da semana e aos poucos senti que ele se estava a distanciar um pouco de mim aproximando-se mais da mãe. O que mais me custou neste comportamento do Duarte foi que deixei de conseguir adormecê-lo pois ele deitava-se e passado uns breves minutos ia chamar a mãe. Esse comportamento do Duarte deixou-me muito triste, no entanto foi a forma que ele encontrou de mostrar o seu descontentamento perante a minha ausência. 

Neste período em que o covid 19 nos obrigou a estar em casa aproveitei para conversar e brincar muito com o Duarte e aos poucos senti uma progressiva aproximação . Foi uma sensação fantástica, e que me fez tão bem,

Hoje posso dizer  que voltámos a ser grandes amigos.  Darmos grandes e infindáveis  passeios e apercebi-me que o tempo que passo com  Duarte passou a ser vivido com mais qualidade e sem pressa. Hoje já o consigo adormecê-lo, dar-lhe banho e acima conseguir que ele me escolhesse de forma espontânea  para brincar. Desta forma consegui libertar algum peso sobre os ombros da mãe conseguindo que ela tivesse mais tempo para realizar as suas múltiplas tarefas 

Dia 19 de Abril recomeço a minha atividade de forma presencial mais feliz.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Memórias da minha vida profissional

Ser professor com gosto é algo fantástico!  Eu dedico-me imenso àquilo que faço quando sinto que sou útil e contribuiu para o meu crescimento profissional. Sabe bem passado vários anos os alunos não terem vergonha de virem ter connosco e cumprimentarem-nos com respeito e admiração.

Lembro-me quando estive em Sabóia- Odemira (2009/10) a minha colega de História com uma simpatia e simplicidade singulares me disse "ser professor é duro mas quando as coisas correm bem é tão bom".  Apesar de já não me lembrar  do nome dela ainda recordo-me das suas feições e da paixão que ela tinha em ser professora. Tinha imenso respeito por ela e adorei trabalhar com ela.

A minha fase inicial de carreira foi muito difícil, definitivamente não estava preparado para desempenhar tais funções. 

Lembro-me de dois episódios positivos que aconteceram no início da minha carreira docente:

O primeiro aconteceu em Rio Maior (2010/11) após 2 anos a dar aulas a alunos do 3º ciclo e secundário que não ligavam nenhuma à minhas aulas. Nesse ano em Rio maior dei aulas à noite a turmas de adultos e  recordo-me que numa aula que me correu particularmente bem ter dito  aos formandos no final. "obrigado". Sabe bem quando estão atentamente a olhar para nós a ouvir-nos com gosto. Não estava habituado a isso e como nunca tinha tido essa sensação a expressão veio do coração e foi espontânea.

O segundo episódio aconteceu no início da segunda década do século XXI onde estive alguns meses desempregado e as aulas como professor de ténis mantiveram a minha cabeça ocupada. Foi uma experiência muito boa pois dessa forma senti que estava mais preparado para entrar no mercado de trabalho. Na altura Portugal vivia uma situação de crise económica e havia muito desemprego docente. Concorri a um colégio sem esperança de lá ficar pois nessa altura entrar num colégio só mesmo com contactos terceiros. Após a entrevista no regresso a casa lembro-me perfeitamente que parei em Coimbra para comer qualquer coisa quando me ligaram a dizer que tinha sido selecionado. Lembro-me que fiquei muito contente e recordo-me perfeitamente, quando após me terem dado a notícia inesperada eu ter dito prolongadamente obrigaaaadoooo.

Aquele mês que passei no Colégio Rainha Dona Leonor nas Caldas da Rainha no ano letivo 2011/12 foi muito duro, trabalhei muito e  ainda hoje me recordo do dia da apresentação e o principalmente do dia da despedida  onde a diretora, uma engenheira com formação na área da gestão me disse " já vai embora", "nota-se que gosta de ensinar". São expressões que nos enchem o ego e vamos buscar quando estamos menos bem.

A partir daí consegui contactos com colégio privados onde andei até final de 2012, e devido à má experiência acabei por deixar de vez o ensino durante um longo período de tempo.

Entre 2013 e 2017 estive sempre fora do ensino. 

Neste período distante das salas de aula tive várias profissões. Aprendi e conheci gente muito interessante em todas elas, no entanto houve uma que me marcou particularmente, técnico de campo no projeto piloto do cadastro predial de Oliveira do Hospital. Cresci imenso profissionalmente nesse período  entre 2014 e 2015.

Nesta altura os empregos que exercia eram precários:  estagiário na Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, carteiro, comercial da Vodafone, ou guia turístico na freguesia da Bobadela.  Penso que não me esqueci de nenhuma função realizada. De todas as profissões descrita neste parágrafo a que mais gostei foi a de guia turístico, não me revendo a trabalhar em qualquer uma das outras.

O nascimento do meu filho em Janeiro de 2017 teve um peso fundamental no meu reerguer profissional e regresso de uma forma mais segura à vertente educativa.

Curiosamente no dia em que ele fez uma ano, a 29 de janeiro de 2018, fui-me apresentar na escola secundária do Fundão. O regresso ao ativo não foi fácil no entanto soube muito bem  no final aperceber-me que tinha conseguido ultrapassar o primeiro obstáculo onde foi muito importante a ajuda da Cecília 

Daí para a frente os obstáculos prosseguiram e nos dois ano letivos seguintes lecionei em duas escolas em simultâneo. Em 2018/19 (Manteigas e Pampilhosa da Serra) e 2019/20 (Pampilhosa da Serra e Tabuaço). A vontade de ir a casa  e poder ver o meu filho diariamente suplantou a dureza que as centenas de quilómetros ofereciam. No ano letivo 2019/20, especialmente duro. guardo a simpatia das escolas por onde passei e nunca me irei esquecer daquele mail que a escola de Tabuaço me enviou quando fui colocado em Grândola, agradecendo o meu trabalho e desejando-me sorte para o desafio que iria ter no ano letivo 2020/21. São gestos simples que eu dou um enorme valor.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Confinamento- a minha opinião

Vivemos dias muito difíceis. 

Pela primeira vez desde o início da pandemia apercebo-me de dezenas de pessoas infetadas e algumas  internadas no seio da minha família e amigos mais próximos. Estamos todos assustados com a evolução desta doença onde muitos hospitais já atingiram o seu limite. Os profissionais de saúde são uns verdadeiros heróis que devem recompensados financeiramente por tudo o que têm feito. O meu Obrigado a todos!

Para mim o que mais me tranquiliza é saber que tenho um Governo e um Presidente da República que assegura o funcionamento de uma democracia estável. Quando vejo pessoas a reclamar os seus direitos, para mim é algo positivo pois é sinal que as pessoas têm esperança e sabem que o governo apesar de não lhe poder dar resposta as ouve e tenta dentro das suas possibilidades arranjar-lhes uma solução.

Nas redes sociais sucedem-se comentários que afirmam a necessidade de voltar ao ensino à distância. Eu próprio já assenti com um "gosto" ao fecho dos estabelecimentos de ensino e ao retorno ao ensino à distância.

Bem, tendo a experiência do que sucedeu no confinamento de março apercebo-me que o fecho total das escolas é a solução mais fácil mas não é a melhor solução. 

Na minha opinião o ensino universitário e secundário devia encerrar totalmente ou grande parte da semana. Os professores  deverão ir apenas um a dois dias à escola  para tirar dúvidas. Neste tipo de ensino os alunos já são autónomos e os pais já terão liberdade para trabalhar quer presencialmente quer em teletrabalho..

Nos restantes níveis de ensino é menos produtivo o ensino à distância. Neste caso faria mais sentido um ensino presencial com uma redução da carga horária dos alunos, a redução  dos programas e optar-se por métodos de ensino onde o teste não seja  o centro da avaliação. Esta fase pode ser aproveitada para valorizar o tempo em sala de aula onde  o professor deixe de ter tanta pressão no cumprimento dos programas. Em tempos de pandemia o primeiro, segundo e terceiro ciclos poderiam ter aulas apenas  de manhã ou de tarde, ficando com o restante tempo livre. Caso os pais não os possam ir buscar poder-se-ia optar por ATL's.

O professor com menos tempo letivo aproveitaria com certeza o tempo livre de modo a prepara aulas com mais qualidade, rentabilizando melhor o tempo. O trabalho do professor em sala de aula é apenas uma pequena percentagem do total. 

 Na minha opinião os exames nacionais deveriam existir apenas no ensino secundário e extintos nos restantes níveis de ensino.

Na terça feira (12 de janeiro) após a reunião com o Infarmed o governo decidirá sobre o modo como será feito o confinamento. Desejo que sejam tomadas decisões conscientes para a conclusão do segundo e terceiros períodos e assim  como toda a gente desejo que a partir do próximo ano letivo já consigamos trabalhar de uma forma mais próxima do normal.

Opinar num blogue é muito fácil, pois as minhas responsabilidade são apenas como professor e pai. Admiro a coragem de quem tem de tomar decisões numa altura tão difícil.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Bom ano aos leitores do blogue

Tencionava parar de escrever durante um tempo. No entanto há algo mais forte que eu que me pede para desenlaçar umas breves frases neste início de 2021.

Amanhã vou começar mais um trimestre neste ano letivo atípico para escolas, professores, alunos e pais. Ninguém estava preparado para isto, no entanto e apesar dos contratempos cada profissional da educação tem feito um trabalho exemplar e merece ser reconhecido por todos. 

Portugal tem excelentes profissionais que se adaptam com facilidade às situações particularmente difíceis.

Como já escrevi anteriormente a mim enquanto professor custa-me imenso não poder ver a face das pessoas com quem trabalho, perceber as suas expressões. Passados mais de três meses sinto que não conheço os meus alunos nem os meus colegas. A Cecília foi infetada com Covid 19 em Novembro e ainda hoje diz que apenas recuperou ligeiramente o olfato e o paladar. É muito desconfortável estar a comer e não cheirar e sentir o paladar da comida.  Na escola sinto-me um bocadinho assim faltam-me os alicerces para construir com solidez a minha casa que abana quando há uma simples tempestade.

Não sei se até ao final do ano letivo vou sentir a escola e sentir mais estabilidade no meu edifício. Tudo irei fazer para que isso aconteça embora saiba as inúmeras dificuldades que me esperam. As horas que me faltam para acabar a formação são 502 e sinto a pressão do tempo escassear.  A diversidade de módulos e de conteúdos novos onde apesar de eu ter acesso a materiais passados por colegas, sinto que não tenho tempo para os trabalhar e adaptar à minha maneira de ensinar. Tudo isso a associar à distância de casa, à insegurança resultante da pandemia dificulta que eu consiga sentir-me bem em Grândola.

Tenho pena de não ter mais tempo para desfrutar da vila, de fazer uma visita à serra de Grândola ou simplesmente passear à beira mar nas belas praias da costa vicentina, pois apesar da distância faço questão de ir todos os fins de semana a Oliveira do Hospital abraçar o meu filho e dar uma ajuda à Cecília. 

Termino com os desejos de um Bom ano a todos os leitores do blogue.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Uma breve reflexão no final do primeiro período.

Chega ao fim mais um dia e quase mais uma semana de trabalho.

Observo que a interrupção letiva do natal se aproxima rapidamente. Sinto-me muito cansado e com muita vontade de abraçar o meu filho e a minha esposa e sentir o aconchego da minha família mais de perto. 

Na passada segunda feira, antes de me fazer à estrada para mais 3h e meia de caminho ficou-me no ouvido as breves palavras do meu filho Duarte:

"Pai não vás, está muita chuva, gosto muito de brincar contigo". Palavras que inevitavelmente nos tocam o coração.

A semana passou e inevitavelmente já não é possível transpor na integra o diálogo naquele final de tarde de segunda feira tive com o meu filho. As viagens são extremamente cansativas, no entanto não consigo abdicar delas. Elas são fundamentais para suavizar um pouco a dureza da  minha semana de trabalho.

Já passaram alguns meses e apesar da passagem do tempo, não consigo sentir o calor e a alegria de estar no meu local de trabalho. A impossibilidade de ver a cara das pessoas e de nos aproximar tornou ainda mais difícil difícil à adaptação e a uma escola profissional fria.

Hoje numa conversa com uma colega na sala de professores disse-lhe que sentia falta exigência e rigor no ensino nesta escola profissional. Aos alunos basta marcarem presença nas aulas ou mesmo que faltem há sempre uma justificação que cola e lhes permite continuar a faltar sempre que quiserem.

Nós professores somos sem dúvida quem trabalha mais na escola.

O que acho mais confrangedor é andarmos atrás dos alunos para eles fazerem as fichas para conseguirem concluir o módulo, quando eles nas aulas não quiseram saber e posso dizer mesmo andaram a gozar connosco. Sem dúvida isto é um ciclo vicioso que os alunos conhecem muito bem.

É interessante perceber que que a minha colega pensa exatamente o que escrevi no dia 14 de Novembro. Nós desaprendemos de ser professores

É gritante a falta de autonomia dos alunos e vontade de ter acesso ao conhecimento.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Lágrimas

Escrever é uma forma de ganhar forças para conseguir resistir. Sinto que à medida que o tempo passa apercebo-me que sou cada vez menos professor e a minha presença é inútil.

Custa-me tanto terminar um dia.

Sinto a falta de uma conversa descontraída na sala de professores, de ir almoçar fora com um grupo de colegas e desligar-me da escola. Faz-me falta o aconchego da família.

sábado, 7 de novembro de 2020

Desabafos de fim de semana.

O fim de semana é um período de relaxamento. Quando estou na escola estou constantemente a  reinventar metodologias de ensino procurando tornar o ensino mais prático possível dentro das limitações que a pandemia nos exige.
Trabalhar numa escola exclusivamente profissional tem sido para mim uma aprendizagem diária. O que mais me entristeceu é que neste processo de ensino aprendizagem o professor tem cada vez menos peso sobre o comportamento dos alunos. Sinto-me impotente para fazer face a vicios que já estão esmiuçados dentro dos currículos profissionais,  onde aprender, escrever e discutir abertamente os temas da matéria passou a ser em muitos casos difícil.

Observo que nestas gerações o conhecimento deixou de ocupar um lugar que tinha no passado..

As estratégias que nós possamos implementar para conseguir reconhecer a nossa função de professor  esbarram na ideia bem vincada que existe nestas escolas onde estão os alunos mais preguiçosos e com mais vontades de completar o 12º sem esforço. Sem dúvida estão no sítio certo.

De um modo individual, os professores podem fazer muito pouco para fazer face a tudo isto.  Como se diz se não os queres vencer junta-te a eles, no entanto eu ainda não consigo fazer isso.

Nesta fase de pandemia e estando numa escola de alunos com uma tipologia própria, que sobrevive à custa dos alunos para se manter aberta, não percebo como é possível uma escola publica ter tão más condições de trabalho

 Por vezes é inevitável que  repense sobre a minha vontade de prosseguir nesta profissão. 

Quando cheguei a Grândola chamou-me a atenção o estado de degradação visível do exterior da Escola Secundária de Grândola paredes meias com a minha escola, a EPDRG. Cada vez mais sinto que os alunos não sabem estimar a escola, porque não lhe reconhecem o seu merecido valor para o seu crescimento enquanto Homens e futuros membros integrantes da população ativa.
Já por várias vezes perguntei aos alunos quais são as suas revindicações ao que estes na maior parte não me respondem, pois estão cismados de cabeça baixa a olhar para o telemóvel ou então quando tenho de algum me responder, as respostas são vagas.

Principalmente na disciplina de Área de integração os debates sobre imigração e cumprimento dos direitos humanos fazem parte dos conteúdos programáticos. Aquando da abordagem do tema não pude deixar de ficar surpreendido por a quase totalidade dos alunos ser contra a imigração e serem completamente insensíveis ao incumprimento dos direitos humanos que existem em Portugal, só por serem populações de cor. Assusta-me profundamente ver uma juventude que pensa cada vez menos no outro. Já devia estar preparado para isso mas infelizmente não estava. 


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Quantas sardinhas cabem numa lata? (asas para poetas analfabetos)- Jornal Expresso

A poesia está antes de aprender a Juntar as letras. É a maior lição do "o Poeta Faz-se, iniciativa que, em Matosinhos, foi descobrir os poetas por trás de quem é adulto, a aprender a ler e a escrever


Três! Júlia tem a certeza. A pergunta da formadora parece que foi feita para si, que ainda ontem abriu uma lata de sardinhas. Vinham lá três, só, e picantes, em molho de tomate, junto com “um jindungo deste tamanho”. Com as mãos, estabelece um comprimento exagerado enquanto a entoação lhe foge para mostrar que o achou isso mesmo, exagerado, para uma lata só com três sardinhas. A professora escreve:

“Três sardinhas numa lata

Com um jindungo deste tamanho”

“Isto ainda não rima, mas depois nós damos a volta”, antecipa Maria David. As regras para rimar poemas, que havia ensinado nas duas aulas passadas, não estavam a ser, para já, ali aplicadas, pensava alto, alheia a Júlia, que continuava numa descrição empolgada da lata para mostrar indignação com a falta de peixe nela. “Conclusão: o piripiri era mais do que as sardinhas”.

Alguém bate à porta da sala de aula. É Albina. Já que o tema para a poesia é sardinhas enlatadas, foi buscar uns quantos exemplares, ela que trabalhou uma série de anos na Conserveira Portuguesa, ali em Matosinhos. Albina é a pessoa certa para responder à pergunta-mote da última sessão do curso de poesia. Quantas sardinhas cabem numa lata? Mas antes de se aperceber da problemática, pousa irrequieta pratos de plástico azuis sobre uma mesa desocupada, com a expressão de uma quase ceia de Natal. Quando se apercebe, pergunta: “Quem é que disse que eram três?”. “Eu”, afirma Júlia. “Mas eu digo que são quatro”, discorda Albina. “As latas de conserva, tanto de óleo, como de azeite, como de tomate ou malagueta, têm todas de quatro para cima”, reforça. “Mas aquela tinha três”, insiste Júlia. Os dois primeiros versos do poema estavam transformados num diálogo entre Júlia e Albina.

Com o resto da turma calada e a quadra a precisar de ser terminada, Maria David procura apanhar, entre as conversas cruzadas, alguma lógica para os próximos versos, e escreve no quadro “Mas eu digo…”. Albina interrompe-lhe o pensamento. “Você diz o quê? Eu aqui é que sou a peixeira!”, e vai buscar uma lata das que trouxe, abre-a sem que o óleo lhe suje demasiado aos mãos, e prossegue. “Quantas sardinhas tem?”. “Cinco”, diz a professora, para espanto da aluna. “Cinco? Eu aqui é que sou a analfabeta!”.

Naquela e noutras sete turmas do projeto +Literacia, promovido pela Biblioteca Municipal de de Matosinhos, todos estão a aprender a ler e a escrever, embora já tenham ultrapassado a idade escolar a passos largos. Às aulas de todo o ano, foi agora acrescentada uma variável: a do curso de poesia, em três sessões, na primeira metade do mês de outubro, para mostrar que “O Poeta Faz-se”.

“Toda a gente sabe ler”, diz Júlia, após presentear a última sessão com a leitura esforçada de um poema de Eugénio de Andrade. “Isso não é verdade”, contesta Albina, que ainda se esforça por dar significado às letras. “Mas toda a gente pode fazer poesia, mesmo que não saiba ler”, diz a formadora Maria David, como que a afincar o mote do projeto e a última lição da lição do dia.

Quando a cooperativa cultural Bairro dos Livros, junto com a autarquia da mesma cidade, lhe propuseram dar seis sessões de poesia a analfabetos, pensou como é que um mestrado em literatura moderna, focado na poesia narrativa de Al Berto, e duas décadas de experiência no mundo editorial poderiam aproximar a poesia de quem viveu sempre tão longe dela. “Tendemos a associar a literatura a questões romantizadas e sentimentalizadas. Eu, pessoalmente, evito um bocadinho essa abordagem. Tenho um certo gosto em pensar nestas coisas e agrada-me a ideia de as desconstruir ao ponto de serem acessíveis para qualquer pessoa”. Por isso, tratou de conhecer as duas turmas em que pegou, e trazer o dia a dia delas para a sala de aula. Com sardinhas, quis mostrar “como a potencialidade poética da linguagem está sempre presente, até na linguagem de todos os dias”.

ENLATADOS
Quantas sardinhas cabem numa lata? Os últimos números oficiais, que remontam aos Censos de 2011, dão conta de um analfabetismo que atinge cerca de 5% da população. A maioria, idosos a viverem em zonas do interior. O número baixou 20 pontos percentuais em 50 anos. Nos anos 70, 25% da população era analfabeta. Mas desenganemo-nos. Portugal continua no topo da tabela dos países europeus com maior taxa de analfabetismo. Há 30 mil pessoas em idade ativa (entre os 18 e os 65 anos) que não sabem ler nem escrever. E quase nunca sobre o investimento sobra para as desenlatar.

O +Literacia surgiu há quatro anos, “após um diagnóstico social no concelho de Matosinhos de que não havia uma resposta para as pessoas que não sabiam ler nem escrever ou que tinham baixos níveis de literacia”, explica a professora Ana Sofia Lopes que, com 25 anos e um curso de 1º e 2º ciclos do Ensino Básico, se viu a ensinar a adultos o que aprendeu a ensinar a crianças. O método é o mesmo, mas há um choque constante de realidade. “Ver as montras e conseguir ler, ver as placas na estrada e saber para onde se vai, assinar, quando muitos o fazem com impressão digital. Às vezes não paramos para pensar em que é que isto limita a vida destas pessoas - e limita muito”.

Pedro começou a aprender a ler esta semana. Reformado aos 42 anos, por invalidez, só sabe assinar o nome. Vai à caixa multibanco e faz “tudo sem saber ler”. No computador, usa um programa que transforma as palavras ditadas em palavras escritas. Quando recebe mensagens ou notificações no telemóvel, usa outro programa para lhe dar sentido às letras. “É muito bonito termos um telemóvel, mas dá-lo a um amigo ou a um irmão para nos escreverem uma mensagem faz com que não guardemos segredo para nós”, conta ao Expresso.

É o aluno mais recente do projeto que quer retirar da vulnerabilidade social os que, por uma razão ou por outra, não puderam completar o ensino básico regular antes de entrarem para o mercado de trabalho. Uma amiga que tem há 19 anos disse-lhe: “Vais tirar a carta!”. Só que, para isso, precisa primeiro de aprender a ler. Ela pegou nele por uma mão e levou-o ao Centro Qualifica, da associação Adeima. E a coincidência do calendário fê-lo confrontar-se logo no começo das aulas com três sessões de poesia, ao leme da outra formadora do curso, Raquel Patriarca. Poesia, essa coisa longínqua que pensava ser “uma coisa de poetas, só”

SAIR DA LATA
“Os livros não são para mim. A poesia é coisa de pessoas inteligentes”, resume Raquel, pondo em palavras o que vai na cabeça dos alunos com que se viu à frente nas seis sessões que conduziu. Nesta ideia de relação direta entre a inteligência e a escolaridade, “que não é tão líquida quanto isso - aliás, não tem nada de líquido, é bastante gasoso, até” - está assente uma crença enraizada de fracasso com que a formadora se viu a debater pela primeira vez.

Após uma carreira como professora e autora de livros para crianças, diz que a vantagem de levar a poesia a adultos é, precisamente, retirá-los dessa crença. “A poesia é algo que não se ensina a ninguém”, começou por explicar. Tal como nas crianças, ela vem “antes de aprender a ler e a escrever”. Por isso abraçou este projeto da Adeima, e diz que, “tal como os projetos primos e irmãos, ele tem uma importância incrível porque apoia uma faixa da população que está a cair nas frinchas da sociedade. O mundo democrácio não pode dar-se ao luxo de ter pessoas sem acesso à literacia”.

Pedro quer fazer a quarta classe, e, talvez um dia saber decifrar a informática. “Eu sei muita coisa, mas o que me custa é juntar as letras”. Com ajudas, escreveu o primeiro esboço da sua incursão no mundo poético.

“O coração fica nervoso

quando sentimos algo

por uma pessoa

Eu fico ansioso”

Escolheu o amor como tema. “Se o coração fica nervoso e o poeta fica ansioso, o que é que se está a passar aqui?”, pergunta a formadora da turma de Custóias. “O coração palpita como uma batata frita”, ouve-se ao fundo. É Rosário a fazer brilhar os olhos de Raquel com uma comparação, uma metáfora e uma rima, tudo junto num verso só. Na sua vez de ler o que escreveu, agarra logo na folha, colocando-a melhor no campo de visão, e lê:

“O sol, quando brilha

Todos ficamos contentes

Onde vais, minha filha?

Vou buscar os meus presentes”

Com 58 anos, Rosário entrou para o projeto +Literacia em fevereiro, “antes disto da pandemia”, e juntou-se aos cerca de 100 outros alunos, distribuídos pelas quatro uniões de freguesia do concelho. Está no fundo de desemprego, tem estado em casa. Tem a quarta classe, “mas mal”, e todos os trabalhos que se lhe apresentam pedem pelo menos o 6º ano. “Hoje em dia, se a gente não souber ler e escrever em condições, não é nada.”

Raquel apaixonou-se desde logo pelo projeto. Na primeira aula, trouxe às suas turmas um poema em forma de chave. Visualmente, é uma chave, cujo único texto que tem é o abecedário. “Alguns deles disseram logo que não conseguiam ler”. Um conjunto de letras que nem fazia sentido. Depois, trouxe-lhes uma página do manuscrito inicial do "Guardador de Rebanhos", de Fernando Pessoa, impossível de ler. “Aquilo tem anotações na margem, tem palavras riscadas, tem palavras substituídas, mudadas de sítio. A leitura que eu queria que eles fizessem era a do curso. Nenhum poeta, nem os mais geniais, fazem tudo à primeira”.

Na última das sessões que se comprometeu a dar, despediu-se com um pedido. “Agora que já abriram a porta, venham saber todos os caminhos que essa chave pode abrir.” As letras são chaves, abre-latas, asas, ou outros lugares comuns quaisquer, a partir do momento em que soubermos casá-las bem.

“Ele está aí

Vamos todos agasalhar-nos

Vai ter vento, chuva

E, se calhar, vai até

Nevar”

Maria das Graças

“As folhas caíram da árvore

O vento assobia no monte

A chuva bate no telhado”

José Maria

“Eu sinto borboletas dentro de mim

Não se apaga do coração

O sentimento assim”

Fernando

“Como gostaria de mergulhar

No fundo de mim

Para dizer-te o quanto sinto

Como gostaria de ter as

Palavras certas

Para te dizer o quanto te sinto”

Maria João

(O projeto “O Poeta Faz-se” culminará numa instalação artística exposta em espaço público, em Matosinhos, no mês de novembro)

Texto Escrito por Joana Ascensão e Rui Duarte Silva
20 de Outubro de 2020

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Faltam cada vez mais professores- Jornal Expresso


Número de horários de docentes ainda por preencher mais do que duplicou em relação a 2019


Na Secundária João de Barros, no Seixal, não se espera só pelo fim das obras, iniciadas pela Parque Escolar há mais de dez anos.

 

Desespera-se por professores.

 

Após um mês do início das aulas — período que devia servir para recuperar o que não se aprendeu no passado ano letivo, com o ensino à distância —, há turmas onde faltam seis docentes, o que significa que os alunos estão sem aulas em metade das disciplinas.

 

“No agrupamento, temos três horários de Português sem professor, dois de História e um de Informática. Francês e Geografia são dificuldades que já tínhamos no ano passado e que se mantêm”, explica Hugo Pereira, assessor da direção.

 

Desde o início do ano, já houve necessidade de ir às listas nacionais onde constam os professores disponíveis para encontrar 19 substitutos de docentes que estão de baixa, saíram ou aposentaram-se.

 

“No 3º ciclo há mais de dez turmas com horários muito esburacados.

 

Se as aulas em falta forem nas horas intermédias, outros professores asseguram esse tempo, para manter os alunos na sala. Nos extremos do dia, não fazemos substituição”, acrescenta Hugo Pereira.

 

O problema estende-se a muitos agrupamentos. Não do país, mas de duas regiões em particular: Lisboa e Algarve.

 

Ainda há alguns milhares de professores por colocar que constam das listas conhecidas como reservas de recrutamento.

 

Mas nem todos têm formação para dar as disciplinas em que há mais lacunas ou não estão interessados em ir para os locais onde são necessários — o que recebem não compensa ou pode mesmo não chegar para a renda e deslocações.

 

No Agrupamento da Portela, em Loures, procuram-se professores do 1º ciclo, de Português, Economia, Francês e História/Estudos Sociais. Esta semana chegaram dois de Matemática, reduzindo o número de horários por preencher.

 

Subsistem cinco lugares, que afetam mais de 20 turmas desde o início do ano letivo, explica o diretor, Nuno Reis.

 

Num agrupamento onde a média de idades ronda os 57 anos, o desgaste, a saúde e agora a pandemia fazem mossa.

 

“Neste momento, temos mais de 20 professores de baixa num total de 220. Noutros anos temos tido menos. Mas com os casos de covid-19 a aumentar muito no concelho, as pessoas ficam receosas. Temos vários atestados do foro psicológico.”

O diagnóstico está feito, mas faltam soluções. E os números comprovam que as dificuldades agravam-se de ano para ano. Só na primeira quinzena de outubro, as escolas viram-se obrigadas a pedir 1870 horários através do mecanismo de contratação de escola. Isso significa que já não há professores disponíveis nas tais reservas de recrutamento ou os que existem recusaram o lugar.

 

O processo começa sempre pelas reservas de recrutamento.

 

Se ao fim de duas semanas os horários continuarem vazios, passa-se para a fase de contratação de escola. Só na semana passada foram solicitados por esta via 637 professores, mais do dobro do registado no ano passado no mesmo período (255). Os distritos de Lisboa, Setúbal e Faro são as zonas para onde é mais difícil encontrar professores. Informática, Geografia, Inglês, Português e Educação Moral e Religiosa são as disciplinas mais carenciadas.

 

As contas são feitas para o Expresso por Davide Martins, professor de Matemática no Agrupamento de Matosinhos e colaborador do blogue de Educação ArLindo. “Em 2019, desde o início do ano letivo até 31 de outubro, saíram 1322 horários em contratação de escola, o que já é um número considerável.

 

Este ano esse valor já foi ultrapassado no dia 10, evidenciando que a falta de professores tem aumentado e se faz sentir cada vez mais cedo”, explica.

 

Há mais dados a comprovar o problema. Todas as semanas, as escolas comunicam os professores que têm em falta nesse momento. Como em qualquer profissão, há baixas médicas, licenças de maternidade ou reformas, que fazem com que a dada altura falte um professor. Desde o início de setembro, já foram pedidos neste contexto mais de 21 mil docentes para substituição.

 

No ano passado, no mesmo período de tempo, foram menos cinco mil. “O envelhecimento e o burn out [esgotamento] são a causa de muitas baixas. A que acrescem as aposentações, que têm vindo a subir”, analisa o professor.

 

O medo do vírus O Ministério da Educação (ME) garante que as faltas já estão a ser supridas e que os problemas no início deste ano têm várias explicações: além dos mais de 500 docentes que pediram substituição por serem de risco, houve um “número anormalmente alto de não aceitações de horários, atendendo à situação de pandemia que leva os professores a não quererem deslocar- -se da sua área de residência”. E houve ainda este ano mais 1100 pedidos de mobilidade por doença (do próprio ou de um familiar dependente), possibilidade que permite a colocação numa escola diferente, libertando assim novos lugares. Há mais de 8 mil professores com esta autorização, sendo que a maior parte saiu da Grande Lisboa para a região Norte. Houve ainda autorização para contratar mais 3300 para o plano de recuperação das aprendizagens.

 

“As listas do ME estão a esgotar-se, já não há mais pessoas para recrutar. Sabemos que este problema vai crescer e vamos ficar com muita carência. Deixaram de formar pessoas, outros reformaram-se, e é uma carreira muito pouco aliciante”, aponta, por seu turno, Maria Caldeira, diretora do Agrupamento do Alto do Lumiar, em Lisboa, onde faltam agora oito professores, incluindo de Matemática.

 

De acordo com os cálculos de Davide Martins, já há grupos de recrutamento com muito poucos ou mesmo sem candidatos disponíveis para escolas da região do Algarve e da Grande Lisboa. Apenas um exemplo: na lista de possíveis candidatos a dar aulas de História do 3º ciclo e secundário em escolas desta última região, encontram-se neste momento apenas três nomes; a nível nacional há 180, num total inicial de 1315. A Geo grafia já não há nomes para Lisboa, tal como a Informática.

 

Significa que esses lugares vão ficar vazios? Não. Esgotando-se os candidatos nestas listas nacionais, passa-se então à contratação de escola, em que estas publicitam a oferta, recebem novas candidaturas e escolhem.

 

O problema é quando nem nesta etapa surgem interessados, levando a que os alunos fiquem sem aulas durante várias semanas ou mesmo um período inteiro, como aconteceu no ano passado.

 

O ME também garante que há um “trabalho de incentivo à fixação de professores que já foi iniciado e que será incrementado”, mas não explica o que está ser feito.

ileiria@expresso.impresa.pt

 

Desde o início de setembro, já foram pedidos pelas escolas mais de 21 mil docentes para substituição.


Texto Escrito por: Isabel Leiria e Raquel Albuquerque. (Jornal Expresso)


domingo, 18 de outubro de 2020

Desabafos de um professor após um mês de trabalho.

E já passou um mês desde o início do ano letivo. Apercebo-me que já fiz tanta coisa que às vezes penso que já passaram dois ou três meses.  Quando alguém me dá uma oportunidade de fazer algo que gosto abraço-a e dedico-me ao trabalho com outra disposição.

Admito que por vezes os alunos não ajudam, sinto uma situação de desconforto enorme quando preparo uma aula e vejo praticamente todos os alunos desatentos sem qualquer respeito pelo professor. Admito que isso me dói e entristece profundamente. Sinto-me impotente para fazer face ao uso excessivo do telemóvel em sala de aula. Para colmatar essa falta de respeito sou um pouco mais duro com eles e chamo-os muitas vezes à atenção e acima de tudo tento arranjar estratégias que os consiga trazer mais para a minha aula, nem que seja por breves minutos.

No 10º ano a falta de respeito retratada no parágrafo anterior ainda não acontece, provavelmente pelo facto de ainda virem com os bons hábitos do ensino regular e ainda não ganharem os maus hábitos dos mais velhos. No 10º ano sinto o gosto por ensinar Geografia e não só.

No 11º ano e principalmente no 12º ano a situação é muito mais complicada. É desmotivante perceber o desinteresse da maior dos alunos. 

Para tentar solucionar este problema coloco-me muitas vezes do lado do aluno e perceber quais serão as formas de ensino que as poderão captar mais a sua atenção. Até à data já tentei muita coisa mas irei continuar a batalhar.

Na passada sexta feira, exatamente no último tempo da semana, estava extremamente cansado após 4 dias de intenso trabalho decidi mudar um pouco a minha postura perante a turma e ser um pouco mais agressivo. Eles fizeram uma ficha na parte inicial da aula que quase todos cumpriram e na parte final decidi mostra-lhe um vídeo sobre o projeto Ferrovia 2020 sobre o corredor ferroviário do sul. Apesar de as condições de trabalho não serem as melhores e não ser possível ver o vídeo por causa da extrema claridade pedi-lhe que ouvissem com atenção. Realcei o facto que queria que todos estivessem atentos e se desligassem dos telemóveis, pois caso não o fizessem teriam ordem de saída da sala com a marcação da respetiva falta o que aconteceu com um aluno apenas no início da apresentação do vídeo. A atenção dos alunos a partir daí foi quase total, Eu parava constantemente o vídeo fazia questões e muitos deles respondiam de forma correta com um grande interesse sobre aquilo que estava a ser tratado. O facto de assunto tratado ser algo do interesse deles pois Grândola faz parte do corredor ferroviário do sul também ajudou ao sucesso da parte final da aula.  

 Após ter concluído a aula pude saborear um pouco o êxito conseguido naquela parte final da aula. Soube tão bem ter os alunos interessados em ouvir o que eu tinha para dizer. A vida de professor é esta e feliz ou infelizmente nem sempre as coisas correm bem. Faz parte do nosso crescimento profissional.

sábado, 17 de outubro de 2020

A música do Outono- Escola do Duarte

O Duarte hoje surpreender-nos com a música do Outono. Cantou a letra toda e eu não pude deixar de escreve-la para mais tarde recordar:

"Loucas. loucas andam as folhinhas;

Ficaram castanhas e amarelinhas; 

Voam Voam como os passarinhos; 

Depois lentamente dão-se ao abandono;

Ficam lá no chão chegou o Outono."


sábado, 10 de outubro de 2020

A falta de professores

Olho as notícias diariamente e oiço muitas informações, a triagem admito que por vezes não é fácil.

A falta de professores é uma notícia que sinto e percebo.. As mudanças na legislação no ensino têm sido muito rápidas e o papel do professor tem perdido importância,

A inclusão dos alunos com dificuldades de aprendizagem tem sido alvo de muitas mudanças e a falta de tempo para os professores a assimilarem e praticarem é evidente. O tempo letivo de um professor é uma pequena percentagem de todo o tempo que é dedicado à profissão. O que é exigido a um professor hoje retira tempo para o fundamental que é a preparação das aulas.

Os professores contratados por muitos designados os "professores da mala" são os que estão na base da pirâmide e têm que passar por imensos sacrifícios. As centenas de horas que passam na estrada em cada ano letivo faz logo uma triagem, perdendo-se muitos bons professores pelo caminho, pois desistem da profissão. Licenciam-se profissionais nesta profissão que optam por outras vias, pois a profissão é mal paga  para a exigência e responsabilidade que nos é incutida.

A falta de professores deve ser olhada com muita atenção pelo Governo. Um maior  respeito pelos professores contratados para mim é a solução para o problema, pois havendo uma base mais larga satisfeita com os seu trabalho vai atrair mais gente para uma profissão que tem sido tão mal tratada no passado recente.


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Há falta de professores?- Autor Paulo Guinote

 É estranho que o senhor ministro desconheça estas circunstâncias, pois vai a caminho de ser o titular mais tempo no cargo desde 1974. Era tempo de acelerar a sua curva de aprendizagem. Ou de resolver o problema, em vez de lançar acusações despropositadas, apenas para se livrar de qualquer responsabilidade política perante a opinião pública


O alarme chegou mais cedo do que o habitual: poucas semanas depois do início das aulas já é complicado encontrar professores para substituir aqueles que entram de baixa médica ou que, por outras razões, deixaram de leccionar. Embora esta situação se tenha tornado recorrente nos anos mais recentes, o habitual é que esta escassez se fizesse mais notar a partir do 2.º período ou, como o ano passado, no fim do 1.º período.

A explicação não passa pelo contexto de pandemia e por uma eventual inundação de pedidos de baixa médica por questões de risco. Os 12.000 docentes “de risco” que iriam pedir atestado, que algumas contas por demonstrar apresentaram quase como uma ameaça ao funcionamento das aulas, ficaram-se por escassas centenas. Pelo que teremos de procurar algures as razões para a situação de carência que se vive.

Falta de candidatos à docência? Também não. Às 872 vagas abertas este ano para os quadros concorreram quase 37.000 professores em busca de colocação, bem acima dos 34.000 do ano anterior. Dos que não conseguiram entrada nos quadros, cerca de 9300 entraram em contratação inicial para o que o Ministério da Educação considera “necessidades temporárias”. Restaram mais 24.000 para substituições a realizar durante o ano lectivo. E será aqui que já voltaremos, para perceber porque agora eles parecem ter desaparecido.

Naquela sua forma de falar sobre estes assuntos, num misto de aparente desconhecimento da realidade e desejo de afastar de si qualquer responsabilidade política, o ministro da Educação deu uma entrevista em que afirmou que a falta de professores que permanece em muitas escolas se deve à negligência das direcções, singularizando o caso da Escola Secundária Rainha Dona Amélia, acusando a sua directora de não ter pedido em devido tempo os horários “a que tinha direito”. A isso respondeu, nas páginas do PÚBLICO, a presidente do Conselho Geral da escola em causa, recordando ao ministro alguns factos concretos sobre a situação das reservas de recrutamento, acusando-o de negligência na forma como se expressou e de deslealdade institucional.

Fez muito bem, mas deveria ter ido mais além e questionado se o ministro desconhece os procedimentos para a contratação de professores em regime de substituição, em especial para os lugares de docentes que se encontram de baixa médica por motivo de doença prolongada e que têm reduções lectivas por motivo de idade. O que gera horários “incompletos” para quem concorre à contratação. Ou se ignora porque muitos candidatos desistem na fase das substituições ou recusam muitos dos horários disponíveis. Se ainda não percebeu que os encargos (com deslocações e alojamento) em muitos casos não compensam os ganhos, pois com horários incompletos há perda de salário, de tempo de serviço e a contagem de tempo para efeitos de aposentação também é “racionalizada” pela Segurança Social.

Perante isto, se é verdade que existe uma preocupação em prestar as melhores condições aos alunos e “estabilizar” o corpo docente (o que inclui o pessoal contratado), seria de regressar ao que foi possível muito tempo, ou seja, completar horários a partir de, por exemplo, as 16 horas, com tarefas não lectivas ou mesmo com funções na área da preparação/apoio à produção de materiais e ferramentas para um eventual período de ensino à distância. Permitindo um salário mensal completo e a não perda de tempo de serviço. Agora só se podem completar horários, na própria escola, quando aparecem necessidades “lectivas” que encaixem no horário ou os professores têm de andar de escola em escola em busca das horas em falta, chegando a ter de leccionar em dois ou mais estabelecimentos. O que, para além de ter uma parcela de indignidade profissional, é profundamente desgastante.

Adicionalmente, deveria acabar a regra, em nome da tal “autonomia”, que impede as escolas de pedirem professores para lugares que sabem muito antes de 1 de Setembro estarem em situação de baixa prolongada, mas que agora só podem ser providos a partir das reservas de recrutamento, com “poupanças” ridículas à escala do OE mas perdas significativas para quem está sem colocação e ainda a vê atrasada várias semanas em virtude desta questão formal.

É estranho que o senhor ministro desconheça estas circunstâncias, pois vai a caminho de ser o titular mais tempo no cargo desde 1974. Era tempo de acelerar a sua curva de aprendizagem. Ou de resolver o problema, em vez de lançar acusações despropositadas, apenas para se livrar de qualquer responsabilidade política perante a opinião pública.

Artigo de opinião Jornal Público de 5 de Outubro

Paulo Guinote Professor do 2º ciclo do ensino Básico

sábado, 3 de outubro de 2020

O início do ano letivo

 E terminaram as duas primeiras semanas de aulas.

Confesso que este grande hiato temporal entre a colocação e o início da atividade como docente me deixou impaciente e com vontade de começar o mais rápido possível. Fui colocado em meados de Agosto e só comecei o ano letivo no dia 21 de Setembro, mais de um mês depois. O meu  horário de terça feira foi me dado salvo erro no dia 17 de Setembro e o meu horário definitivo apenas me foi facultado no dia 22 de Setembro, o meu primeiro dia de trabalho.

Eu por norma não sou uma pessoa organizada e preciso de começar a trabalhar para as ideias e as aulas se começarem a organizar-se na minha cabeça. Com esta chegada tardia do horário derivado a problemas informáticos e às exigências da pandemia que dificultou muito a sua conclusão. Aproveitei os dias antes do começo do ano letivo para observar com mais cuidado a disciplina que eu desconhecia totalmente, Área de Integração. Na véspera de ir para Grândola preparei uma ficha com base nos conteúdos de Geografia do Secundário na esperança de que isso fosse suficiente para os meus primeiros dias de trabalho.

Bem como por norma acontece com toda a gente a primeira semana foi muito dolorosa. 

Na escola sinto simpatia dos colegas para comigo, no entanto ainda não me sinto integrado no meio. Faltam-me pessoas para conversas e exprimir as minhas dificuldades, medos e dúvidas. Eu tento colmatar isso focando-me naquilo que tenho para fazer, tenho aproveitado para descansar e fazer caminhadas muitas vezes sem rumo definido, apenas andar  um pouco, conhecer as ruas e observar as pessoas e os lugares.. Essa rotina faz-me sentir melhor antes de ir preparar o jantar numa casa que aluguei perto da escola.

Em tempos de pandemia conseguir uma casa perto da escola, que permita estar no meu local de trabalho em pouco mais de 5 minutos foi a melhor decisão que eu tomei.

A escola é muito pequena e não tem grande condições para o ensino teórico. A grande luminosidade que existe na escola e entra nas salas foi agravado com  Covid 19, pois foram retiradas as cortinas que impediam a entrada de alguma luz. Outros constrangimentos é o acesso à internet e o facto de muitas salas não terem videoprojector. Um fator positivo da pandemia para mim foi a divisão das turmas em salas diferentes. Eu numa aula de 50 minutos apenas estou com a turma 25 minutos, tendo de me deslocar de sala em sala.  

Um aspeto negativo  que me  apercebi que faz parte das rotinas de um grande número de alunos é que além de não para cumprirem o seu dever de tirarem o caderno e registarem o que eu digo usam o telemóvel de forma natural e sem qualquer noção do desrespeito que estão a ter perante o professor. 

Estas duas semanas serviram para conhecer os alunos e organizar as aulas e os conteúdos que tenho lecionar, pois são muitas turmas e 6 níveis diferentes que tenho que preparar todas as semanas.

Lecionar apenas numa escola de ensino profissional para mim tem sido uma aventura e uma aprendizagem diária. O meu  horário excede as 22h letivas semanais e são acrescentada horas caso eu possa e queira sempre que falta um docente.  Esta lecionei duas horas a mais ao meu já extenso horário, tendo num dos casos apenas sido informado meia hora antes.

As formas de ensinar e avaliar terão necessariamente que ser diferentes  do designado ensino regular. A capacidade de refazermos aprendizagens tem de ser um processo constante. Após estas duas semanas percebi que vai ser mais um enorme desfio que tudo farei para estar à altura.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Memórias de Tabuaço

O ano letivo 2019-20 foi muito difícil para mim. 

Com a colocação em Tabuaço consegui obter o horário completo anual que era aquilo que mais desejada, no entanto foi extremamente doloroso dar aulas em duas escolas (Pampilhosa da Serra e Tabuaço) tão distantes e morar geograficamente no meio destas duas localidades.

Sinceramente no início pensei que não iria conseguir, disse-o a muito pouca gente. As mensagens da família e o excelente acolhimento que recebi em Tabuaço fizeram-me acreditar que seria possível.

À medida que o nervosismo foi desvanecendo fui conhecendo melhor a localidade e as suas gentes. A procura de um quarto que servisse as minhas necessidades e me permitisse descansar uma noite em Tabuaço não foi fácil. 

Acabei por ficar  numa casa no sopé da vila, onde coabitei com o senhorio dono da casa. 

Aquele espaço onde pernoitava apenas uma noite por semana, a madrugada de terça feira foi muito importante para a minha integração. Não me esqueço daquela casa de banho com três sanitas e três chuveiros uns ao lado dos outros à semelhança do que acontece nos balneários. A expressão que o meu senhorio utilizou aquando da apresentação da casa foi surpreendente. "professor esta é uma casa a arder".

Logo na primeira noite que lá dormi percebi logo o intuito da expressão "Professor isto é uma casa a arder". Uma família grande e um grande número de amigos tornavam aquelas noites jantares em família ou somente de amigos. Nunca cheguei a perceber quem eram as pessoas, mas também não fiz por isso eu apenas as ouvia do quarto. Naquele período fez-me tão bem sentir a presença de pessoas, fez-me sentir menos sozinho.

A segunda feira era um dia particularmente complicado, pois tinha muitas aulas e concentradas essencialmente da parte da tarde. Eram dias que eu chegava a casa no sopé da vila de Tabuaço com a minha cabeça completamente destroçada. Cheguei a ir várias vezes ao Meu Super sem ter necessidade de lá ir apenas para desanuviar. 

Segunda feira jantava cedo, pois na maior parte dos casos era só aquecer e comer. Após o jantar apesar de por vezes as temperaturas estarem muito baixas nunca abdiquei de ir tomar café ao " Arcada" que ficava a escassos 300 metros de minha casa. Lembro-me da forma acolhedora como sempre fui recebido, de terem uma salamandra dentro do café, onde muitas vezes a filha brincava enquanto a mãe trabalhava. Vi e conversei com outros clientes do café que trabalhavam nas obras, ou na agricultura e se reuniam ali para conversar, beber cerveja ou um copo de vinho.

Após umas semanas percebi a importância daqueles dias para recuperar energia para dedicar mais tempo ao meu filho. Para o Duarte à semelhança do que está a acontecer agora eu nunca deixei de dormir em casa apenas chegava tarde e saia cedo.

Hoje em  Grândola, um pouco mais distante que Tabuaço de Oliveira do Hospital, o Duarte perguntou "o pai não vem", ao que a mãe retorqui "a escola é muito longe e demora muito a cá chegar" e ele concluiu "mas mãe eu estou preocupado" . Não sei quando ele vai perceber que eu não vou dormir a casa mas para já sabe bem ao Duarte ouvir a mãe ao outro dia de manhã dizer "O pai esteve cá mas chegou tarde e teve que sair muito cedo, ele deu-te um beijinho, deixou-te uns papeis para tu pintares e saiu".

Formas encontradas por nós para contornar a ausência.


sábado, 22 de agosto de 2020

Grândola 2020-21

Olho para a frente, o caminho é sinuoso. Sinto que hoje já conheço melhor o percurso a seguir embora esteja longe de saber o que farei para o resto da minha vida.  Hoje sei que faço aquilo que gosto, não sei se amanhã isso continuará a acontecer, no entanto sei que o que faço hoje me trará ferramentas para o futuro. 

No desempenho da minha profissão de professor gosto de conhecer o meio e as pessoas com quem trabalho. Ser professor hoje é uma tarefa complicada, pois ao contrário do passado, não podemos apenas debitar conteúdos, é necessário adequar os conteúdos aos alunos que temos à nossa frente de modo a cativá-los para os conteúdos lecionados e prepara-los para enfrentar o futuro enquanto cidadãos 

No final do ano letivo decidi mudar o rumo do meu concurso e alargar o leque de escolas para conseguir um horário completo anual. A dificuldade de conseguir um horário completo anual, e o cansaço dos constantes horários incompletos e temporários, para quem está no último terço da tabela e quer progredir obrigou-me a arriscar e concorrer para o Sul do Tejo. Foi uma decisão consciente embora me tenha custado muito por saber que iria deixar a família a centenas de quilómetros de distância.

O dia 14 de Agosto foi sem dúvida um dia fértil em emoções, pois soube que Grândola seria o local onde iria exercer a minha profissão no próximo ano letivo. Fiquei contente pois consegui um horário completo anual na contratação inicial que era o que pretendia, no entanto pensei nas inúmeras dificuldades que iria ter a minha esposa na gestão da casa sozinha, com a mesma profissão colocada a 1 hora e meias de casa, com um filho de três anos

Quando estamos mais longe sentimos a importância de ter amigos à distância de um telefonema e felizmente posso dizer que tenho alguns. No dia 14 de Agosto estávamos de férias e soube tão bem ter recebido a visita  da minha irmã e do meu cunhado, pois pudemos compartilhar com eles os nossos receios e medos. 

O Duarte vai ser sem dúvida aquele que vai sentir mais a falta do pai mas aos poucos já começa a estar habituado. Há uns dias no meio de umas brincadeiras disse-lhes que iria dentro de umas semanas recomeçar o trabalho na escola e não iria estar presente durante a semana, só viria ao fim de semana.  O Duarte perguntou de imediato "porquê pai". Eu disse-lhe que tenho de ganhar o tostão para te comprar brinquedos ao qual ele de forma imediata  disse "pai eu tenho aqui brinquedos não preciso de mais". O segundo argumento apresentado foi que lhe queria comprar uma bicicleta nova, pois a que ele tem já é demasiado pequena, ao que ele disse com naturalidade "pai eu tenho uma bike não preciso de mais nenhuma", depois e por fim disse-lhe que era para comprar comida e ele não resistiu e foi a correr para o colo da mãe com os olhos humedecidos e com vontade do conforto de um abraço. Estava longe de imaginar a reação do Duarte que já percebe e expressa muito bem aquilo que sente.

Neste ano letivo sentimos o conforto de saber que os avós estão por perto e vão ser um pilar essencial para que o Duarte continue a crescer feliz. A escolinha onde ele se encontra muito bem integrado  dá-nos um enorme conforto para desempenharmos de forma tranquila a nossa profissão.