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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A FANTÁSTICA AVENTURA DE UM AMIGO

       "AINDA HÁ QUEM GOSTE DE LIVROS"

          O Amigo que me inspirou a escrever esta crónica nasceu no seio de uma família de modestos recursos no interior de Portugal. O seu interesse pela leitura e pelo conhecimento fê-lo sonhar, desde muito jovem, com estudos universitários, ao arrepio da vontade do seu pai, carpinteiro de profissão, que queria vê-lo seguir a mesma arte. Venceu o seu desejo e perseguiu o amor que tinha pela História. Desde sempre, para além da sua profissão de professor, é leitor compulsivo e dedica-se à escrita, em prosa e sobretudo poesia.

Recentemente, quando regressava a casa, cheio de dores devido aos trabalhos agrícolas que vai exercendo na sua horta nos tempos livres, viu uma mulher a despejar livros no contentor do lixo da sua rua. Atónito, esperou que a anónima se afastasse e logo se aproximou do cemitério dos livros condenados. Espantado, constatou que se tratava de várias obras dos nossos melhores escritores, não hesitando em salvá-las do contentor dos indiferenciados. Não tardou que a mulher voltasse de novo com mais um saco de livros para lhe dar o mesmo destino. Ele interpelou-a com um diálogo que transcrevo tal e qual ele mo contou e que consta de uma crónica de um jornal digital para onde habitualmente escreve:

“─ Minha senhora, estes livros eram seus?

─ A minha mãe foi por estes dias a enterrar e não quero isto lá em casa.

─ A sua mãe era professora, não era?

─ Você parece que é bruxo! Mas, diga lá a verdade, você gosta mesmo disto?

─ Sim, gosto. Nem pode calcular a minha alegria. Esta foi talvez a minha melhor prenda deste Natal. Mas já reparou que também tem aqui papéis que fazem parte da sua história, da sua família?

─ Olhe…, se fossem umas notas das gordas, isso é que era!”

Depois desta primeira aproximação à mulher-verduga dos livros, inteirou-se de que ela ainda tinha mais livros para deitar ao lixo, ao que ele propôs, para a livrar de posteriores trabalhos, ir ele próprio buscá-los a casa dela. Não tardou a ir lá, visto ela habitar nas cercanias da sua casa. E de lá não trouxe apenas livros, mas também, por exemplo, diversos manuscritos. Aproveitou para saber que a mulher que conhecera, tal como a sua falecida mãe, também desempenhava funções na área da cultura, o que lhe aumentou os arrepios na alma. E também ficou a saber que o pai daquela senhora, já falecido há muito, também tinha sido poeta, o que lhe aguçou ainda mais a curiosidade. No regresso a casa, ele, por um lado, ia feliz, pois salvara muitos livros da destruição, mas, por outro, ia triste porque encontrara uma filha que não quisera preservar a memória dos seus pais...

Alguns dias passaram, até que este meu Amigo me enviasse uma fotografia estranha. Tratava-se de uma foto de uma campa do cemitério local, acompanhada da seguinte pergunta:

- O que vê nesta foto?”

Respondi-lhe que via um monumento funerário com uma grande cruz de pedra, um livro aberto em mármore sobre a campa e um gato preto, aninhado sobre a estela funerária, de onde a cruz se ergue e onde está também uma fotografia do falecido, em ferro esmaltado. De facto, a campa funerária, não sendo, como muitos, um monumento imponente, como alguns jazigos que parecem catedrais, era modesta, mas possuidora de muita dignidade. Acrescentei que suspeitava ser nessa campa que repousava o nosso desconhecido poeta, antigo dono de grande parte dos livros recuperados (a outra parte pertencera à esposa dele). Acertara em cheio!

Um par de dias passaram, até que, numa conversa telefónica, o meu Amigo me confessou que estava deliciado a ler o livro de poemas do nosso poeta, cujo nome prefiro conservar no anonimato. E desabafou que estava especialmente sensibilizado com um soneto escrito pelo autor em memória do seu gato, no dia em que o bichano falecera. Chamava-se Miki e era preto.

Fiquei momentaneamente sem palavras. Depois de terminar a conversa com o meu Amigo, fiquei a pensar na extraordinária coincidência do soneto sobre o gato preto, Miky e do aparecimento do gato preto na foto do cemitério, que me havia sido enviada dias antes. Creiam, caros leitores, que eu nunca fui crente na imortalidade, apesar de que muitos tolos sempre a perseguiram. E no que respeita à crença na eternidade, como muitos de nós, também sempre tive muitas dúvidas. Porém, o avanço da idade transforma a nossa espiritualidade e molda, progressivamente, o nosso pensamento e o desejo de que haja vida para além da morte. E acontecimentos como este que vos relato são um contributo para nos aproximarmos dessa crença. Neste sentido, coloco a seguinte questão: os passos dados pelo meu Amigo, a salvação dos livros, o conhecimento do nome dos seus falecidos proprietários, a curiosidade de conhecer o que eles foram, ao ponto de ir mesmo visitar o lugar onde repousam os seus restos mortais, faziam apenas parte do processo científico de investigação por parte de um historiador? E foi o aparecimento de um gato preto que aparece na fotografia tirada pelo meu Amigo, dias antes de ele encontrar no livro de poesias deixado pelo poeta, que continha o soneto em homenagem ao seu gato preto, uma notável coincidência? Cabe a todos interpretar estes episódios e guardar para si as suas interpretações.

Eu, que vivi de perto estes acontecimentos que até me fizeram sonhar, quero acreditar que estas circunstâncias não foram obra do acaso ou de uma coincidência inexplicável. Eis a minha hipótese: o poeta e a sua mulher, ao saberem que o seu espólio literário, ameaçado de destruição, ia ser salvo por um jovem, trataram de segui-lo e influenciar os seus passos. A visita que o meu Amigo fez ao cemitério para homenagear o poeta foi por este instigada, que fez questão de o receber dignamente para “pessoalmente” lhe agradecer. E até fez questão de chamar o seu gato preto, colocando-o em lugar bem visível sobre a estela da sua campa funerária. Só mais tarde, ao ler o soneto do poeta falecido, o meu Amigo se lembrou do tal gatinho preto!

Caros leitores, misteriosamente fechou-se este episódio, mas não definitivamente. Creio que à medida que o meu Amigo vá avançando na leitura dos livros que salvou da imundície, todos os seus autores, como forma de gratidão, o irão empurrar para outras aventuras, algumas carregadas de misticismo e outras nem tanto, mas todas enriquecedoras!

Agora, digam lá, a vida é (ou não) um profundo mistério?!

 Antenor Santos 

                                                             Vila Verde, 19-01-2026

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Recordações em confinamento. Autor: Antenor Santos

Nós, os homens, temos formas curiosas de dizer às pessoas que amamos. (Renato Nunes)

              A Catarina, a minha filha mais nova, agora com 46 anos, foi uma criança adorável. Sempre muito curiosa e esperta, nas brincadeiras infantis sabia lidar com acontecimentos menos favoráveis e sair airosamente de situações complicadas.

 Já passaram várias décadas desde as inúmeras viagens de férias que fazíamos juntos, por essa Europa fora. O nosso Mercedes amarelo tinha a dimensão ideal para cabermos todos, a Catarina, os seus três irmãos, a minha mulher e eu. O porta-bagagens, que tinha grande capacidade, era pequeno para caberem todos os pertences de seis viajantes: equipamento de cozinha, uma pequena tenda de montagem rápida e as malas, que, por ser verão, carregavam poucas roupas e muitos sonhos.

Depois de atravessarmos as grandes planícies de Espanha e as belas paisagens pirenaicas, penetrávamos em território francês, pernoitando em pequenos e funcionais parques de campismo municipais, quase desertos e sem qualquer pessoa a vigiá-los, onde, até com água quente, podíamos limpar os corpos e, no meio de tanta liberdade, purificar as almas.

Visitar Paris era o objetivo principal, que atingíamos com relativa facilidade. Subir à Torre Eiffel era para todos um grande desejo e uma tarefa bem simples, exceto para o Fabrício! Quando chegou a nossa vez de entrarmos no elevador de acesso ao monumento, o miúdo fez finca-pé e não queria entrar. Tinha medo, que vergonha, o único rapaz dos quatro irmãos, que foi obrigado a entrar, puxado pelo ascensorista e empurrado pelo resto do grupo, com a Suzana, a Mariana e a Catarina à cabeça!

Um pouco mais tarde, depois da visita ao Museu do Louvre, passeávamos nas ruas ao lado daquele monumento histórico, dedicado à arte, onde, para se circular, era necessário romper, já naqueles tempos, entre mares de gente. As instruções que tínhamos dado era que os miúdos se mantivessem unidos e a Catarina de mãos dadas connosco. Porém, depois de alguns minutos, demos conta que ela não estava connosco. Pensávamos que se tivesse juntado aos irmãos que vinham alguns passos atrás, mas ela não estava com eles. Que sufoco, a Catarina tinha-se perdido. Rompendo a multidão, voltámos para trás e fomos encontrá-la, parada, estática, exatamente no lugar onde, disse-nos ela depois, se tinha perdido do grupo. Com apenas seis ou sete anos, a nossa querida filha tinha acabado de nos dar uma lição, de como proceder em casos parecidos; não arredou pé, esperou, como é lógico, que nós voltássemos atrás para a procurar. Se ela se tivesse deslocado dali, para tentar encontrar-nos, teria sido muito difícil sairmos daquela situação a rir, no meio de muitos beijinhos e abraços de felicidade.

Sem percalços de maior, a viagem continuou para sudeste, cujo objetivo era agora ir para Itália. No percurso tivemos ainda a oportunidade de visitar a costa mediterrânica do sudeste francês e o Principado do Mónaco, com o seu famoso casino, onde não nos atrevemos a entrar, tanto pela feliz inaptidão ao jogo, como pelo aspeto andrajoso das nossas roupas de viagem, naquele fim de tarde de verão.

Mais tarde, depois de Florença e Pisa, já em Roma, não podíamos evitar a visita ao Vaticano. Tinha prometido aos meus filhos que iríamos ser recebidos pelo Papa! E eles tinham duvidado disso. Pensavam que era brincadeira, mas aguardava-os uma bela surpresa. À saída da Capela Sistina estendemo-nos pela esplendorosa Praça de São Pedro. Os miúdos, que viam terminar a visita, chamavam-me já “mentirosito”, por afinal irmos embora sem ver o Papa. Levei-os então para um canto da praça onde estava um expositor de postais turísticos, onde se destacava a figura de João Paulo II. Ali, reunidos em silêncio e simulando o ar mais sério possível declarei:

- Quem disse que eu sou mentiroso, quem se atreve? Ora aí está o Papa, eu não vos garanti que o íamos ver?! Numa explosão de insultos carinhosos lá partimos para o sul, onde nos aguardavam visitas a Nápoles, Capri e a Pompeios (que as pessoas insistem erradamente em denominar “Pompeia”.

O desejado regresso a casa, cansados de tão longa viagem, iniciou-se com um lanche. O açucareiro de esmalte, herança da minha avó, já mais antigo que somadas todas as nossas idades, ainda tinha açúcar deixado um mês antes. Dentro, para nosso espanto, estavam algumas minúsculas formigas já mortas. Enquanto eu retirava os restos dos gulosos insetos, de dentro do açucareiro, a Catarina, mostrando a sua habitual perspicácia, afirmou autoritariamente que as formigas tinham morrido porque eram diabéticas!  

A Catarina, atualmente é profissional de saúde e acaba de ser diagnosticada com covid 19. Esta situação é, para toda a nossa família, uma situação angustiante, mas todos acreditamos que ela consiga, tal como sempre o fez na vida, escapar airosamente das garras desta ameaça tão constrangedora.

Antenor Santos


segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Vírus made in USA- Autor Antenor Santos

 A invasão do Capitólio nos Estados Unidos da América não ameaça apenas a democracia americana. Tal como a Covid 19, também os acontecimentos da semana passada, na casa de uma das supostas mais consolidadas democracias do mundo, pode trazer consequências a nível global, com contágios difíceis de conter em algumas repúblicas inspiradas na Constituição Americana de 1787. Em muitos países, que conviveram com a falta de liberdade e que a recuperaram à custa de tantos sacrifícios, repressões e mortes provocadas por guerras impiedosas, já poucos se lembram do passado bem recente. 

Com acenos de promessas vãs, já por demais conhecidas, mais “Trumps” espreitam novas oportunidades. Os seus seguidores, que, impunemente, vêm já mostrando há algumas décadas os seus ódios mais ou menos contidos, têm agora mais motivos para mostrar as suas garras. A tentativa torpe de anulação da decisão legítima da maioria do povo americano foi um mau exemplo, que poderá contagiar muitos cidadãos ingénuos espalhados por todo o mundo. E dentro do próprio país é também muito fácil de acontecer. 

A civilização americana tem dado bons exemplos no cumprimento dos princípios consagrados na sua constituição. Porém, nas relações internacionais, frequentemente parece comportar-se com demasiada sobranceria e até mesmo arrogância, querendo impor a sua vontade à custa da ostentação do seu poder económico e, em alguns casos, apoiado na força das suas armas. O seu povo é globalmente generoso, mas a ignorância tem alastrado a um ritmo vertiginoso. 

Se os protagonistas desse acontecimento surreal, passado há dias na casa da democracia americana, não forem exemplarmente vacinados (leia-se punidos), o vírus, agora made in USA, poderá causar muitos estragos intramuros e nas frágeis repúblicas onde muitos lobos estão travestidos de inocentes cordeirinhos. 

Para evitar a propagação dessa peçonha, cabe aos norte-americanos contê-la e erradicá-la dentro das suas fronteiras, sob pena de se deixarem desacreditar ainda mais, no que respeita à tentativa de impor a nível global a paz que não conseguiram fazer triunfar no seu próprio país. 

Não quero ser pessimista e muito menos fazer futurologia, mas temo que, se os cidadãos dos Estados Unidos da América, país que admiro bastante, não conseguirem reconciliar-se rapidamente, e curarem as suas feridas sem as deixar infetar e as deixarem propagar, este império que já dominou o mundo, possa ter os dias contados.

Quem conhece o passado histórico sabe muito bem que não há impérios eternos

                                                                                                                                Antenor Santos