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sábado, 9 de janeiro de 2021

Confinamento- a minha opinião

Vivemos dias muito difíceis. 

Pela primeira vez desde o início da pandemia apercebo-me de dezenas de pessoas infetadas e algumas  internadas no seio da minha família e amigos mais próximos. Estamos todos assustados com a evolução desta doença onde muitos hospitais já atingiram o seu limite. Os profissionais de saúde são uns verdadeiros heróis que devem recompensados financeiramente por tudo o que têm feito. O meu Obrigado a todos!

Para mim o que mais me tranquiliza é saber que tenho um Governo e um Presidente da República que assegura o funcionamento de uma democracia estável. Quando vejo pessoas a reclamar os seus direitos, para mim é algo positivo pois é sinal que as pessoas têm esperança e sabem que o governo apesar de não lhe poder dar resposta as ouve e tenta dentro das suas possibilidades arranjar-lhes uma solução.

Nas redes sociais sucedem-se comentários que afirmam a necessidade de voltar ao ensino à distância. Eu próprio já assenti com um "gosto" ao fecho dos estabelecimentos de ensino e ao retorno ao ensino à distância.

Bem, tendo a experiência do que sucedeu no confinamento de março apercebo-me que o fecho total das escolas é a solução mais fácil mas não é a melhor solução. 

Na minha opinião o ensino universitário e secundário devia encerrar totalmente ou grande parte da semana. Os professores  deverão ir apenas um a dois dias à escola  para tirar dúvidas. Neste tipo de ensino os alunos já são autónomos e os pais já terão liberdade para trabalhar quer presencialmente quer em teletrabalho..

Nos restantes níveis de ensino é menos produtivo o ensino à distância. Neste caso faria mais sentido um ensino presencial com uma redução da carga horária dos alunos, a redução  dos programas e optar-se por métodos de ensino onde o teste não seja  o centro da avaliação. Esta fase pode ser aproveitada para valorizar o tempo em sala de aula onde  o professor deixe de ter tanta pressão no cumprimento dos programas. Em tempos de pandemia o primeiro, segundo e terceiro ciclos poderiam ter aulas apenas  de manhã ou de tarde, ficando com o restante tempo livre. Caso os pais não os possam ir buscar poder-se-ia optar por ATL's.

O professor com menos tempo letivo aproveitaria com certeza o tempo livre de modo a prepara aulas com mais qualidade, rentabilizando melhor o tempo. O trabalho do professor em sala de aula é apenas uma pequena percentagem do total. 

 Na minha opinião os exames nacionais deveriam existir apenas no ensino secundário e extintos nos restantes níveis de ensino.

Na terça feira (12 de janeiro) após a reunião com o Infarmed o governo decidirá sobre o modo como será feito o confinamento. Desejo que sejam tomadas decisões conscientes para a conclusão do segundo e terceiros períodos e assim  como toda a gente desejo que a partir do próximo ano letivo já consigamos trabalhar de uma forma mais próxima do normal.

Opinar num blogue é muito fácil, pois as minhas responsabilidade são apenas como professor e pai. Admiro a coragem de quem tem de tomar decisões numa altura tão difícil.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Yazidis: O genocídio esquecido

No rebuliço dos nossos dias não nos apercebemos ou ignoramos por vezes, o que se passa em determinados países, onde inocentes sofrem as consequências da guerra no seu país. Infelizmente morrem crianças que desde muito cedo deixam as brincadeiras e lutam pela sobrevivência.

É arrepiante ouvir a reportagem de uma jovem equipa de jornalistas que fez um trabalho excelente sobre o Genocídio cometido pelo Daesh sobre a comunidade Yazidis no norte do Iraque. 

Esta comunidade que habitava na localidade de Sinjar  no norte do Iraque. Esta cidade foi completamente destruída e ainda hoje mesmo após a derrota do Daesh continua desabitada. A comunidade  Yazidis não teve a proteção de ninguém  sendo evadidas de surpresa quase sem tempo para fugir. 

Os milhares que conseguiram fugir foram para as montanhas, onde não tinham mantimentos nem água. Morreram bébes e crianças de sede e de fome nas montanhas de Sinjar.

A comunidade Yazidi no Iraque tinha cerca de 1 milhão de habitantes sofreu um rude golpe do Daesh sendo os Homens mortos e enterrados em valas comuns, as mulheres mais jovens separadas das mais velhas torturadas, escravizadas vendidas no mercado do tráfego de pessoas. 

As razões do Daesh são estritamente fundamentalistas e sem qualquer respeito pela diferença. 

Estas pessoas são seres humanos como nós. Têm família e sonhos, no entanto ao contrário de nós têm ambições mais simples como ter uma casa, liberdade e sorrirem, olharem em frente e esquecerem a dor e sofrimento porque passaram.

A Humanidade tem de envergonhar com o que se passou. Devemos evitar que episódios semelhantes se voltem a repetir.

Não me canso de publicitar o excelente trabalho jornalístico. A Comunidade Fumaça deu -nos a conhecer de uma forma dura uma realidade que de outra forma nos passava ao lado.

Obrigado Equipa do Fumaça.

Ouçam esta reportagem de dois episódios.

Episódio 1

Episódio 2


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Tão felizes que nós éramos - Clara Ferreira Alves

Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.

Eu não ponho flores neste cemitério.

Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo. A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, peras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos. As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais. Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos, era normal. Tive dez e morreram-me cinco. A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.

Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título ‘Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos’. A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas. As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid. Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras. O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos. Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido. A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum. De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar-se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da exceção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laboral, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia. Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca. A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente.

Clara Ferreira Alves- Jornal Expresso 18/3/2017


sexta-feira, 31 de julho de 2020

CHEGA: direita radical ou extrema-direita?

Riccardo Marchi, investigador e professor universitário, publicou em Junho de 2020, um ensaio a respeito do CHEGA, no qual sustenta, entre outros aspectos, que o partido criado por André Ventura não pertence à extrema-direita, mas sim à “direita radical”, pois “a sua cultura política não tem nada a ver, do ponto de vista doutrinário, com os autoritarismos de direita dos anos 20 e 30 do século passado” (Riccardo Marchi, 2020, p. 194). Ainda segundo Riccardo Marchi, o CHEGA não é racista, embora ― como admitiu André Ventura ― o discurso do partido possa ser favorável à aproximação dos racistas.

            Na obra de Riccardo Marchi sustenta-se ainda que a acção de André Ventura é controlada pela moral cristã e que várias propostas do CHEGA, nomeadamente ao nível fiscal, padecem “ainda de clareza” (Riccardo Marchi, 2020, p. 156). Já na parte das conclusões do aludido ensaio que inspira este artigo, Ventura é descrito como um “político jovem, ambicioso, pragmático, empático, telegénico, com discurso contundente e capacidade oratória já treinada na polémica mediática”, cujo perfil e prática, até ao momento, não tem pretendido “promover o culto da personalidade” (Riccardo Marchi, 2020, ps. 198 e 199). No entanto, na entrevista que concedeu ao Diário de Notícias (25/6/2020), o politólogo sustentou que o partido em causa ainda não possui uma “coluna vertebral”, parecendo, por conseguinte, ignorar que esse facto deriva, sobretudo, da excessiva concentração de poderes no mediático André Ventura que, de resto, se confunde com o CHEGA. Um pouco à semelhança — acrescentado da minha responsabilidade — do que sucedeu com o Estado Novo de Salazar, que não se cansou de sustentar a sua suposta originalidade e no pós II Guerra Mundial, perante a derrota dos regimes fascistas e nazi, chegou mesmo a caracterizar-se como uma “democracia orgânica”.

            No que diz respeito à distinção apresentada entre “extrema-direita” e “direita radical”, segundo Riccardo Marchi “o primeiro tem carácter anti-sistema e objectivos subversivos de abate do regime vigente, através também de meios violentos”, enquanto o segundo respeita as regras do jogo (Riccardo Marchi, 2020, pp. 191-192). Uma distinção, de resto, presente no ideário do CHEGA: “Confunde-se muito radicalismo com extremismo” (Programa 2019). A este respeito, importa, porém, recuperar uma das pertinentes interrogações de André Freire, num artigo recentemente dado à estampa: o CHEGA pretende acabar com a III República, através de um referendo constitucional, “mas não será que tal proposta viola a ordem constitucional vigente, democraticamente instituída”? (Jornal de Letras, 15 a 28/7/2020).

            Na página oficial do CHEGA, é possível encontrar o Programa 2019, um extenso documento, cujos enunciados são muitas vezes ambíguos, vagos e até mesmo contraditórios (https://partidochega.pt/programa-politico-2019/). Em jeito de síntese, trata-se de um conjunto de princípios neo-liberais, que pretendem acabar com o “Estado Providência” e iniciar um processo de privatizações (inclusive no ensino, na saúde e no património), cujo desenlace inevitável seria colocar o destino nacional nas mãos do mercado (algo ainda mais estranho, se pensarmos que André Ventura se assume claramente como um nacionalista defensor da soberania nacional, uma matéria tão importante que, se colocada em causa, o levaria até mesmo a sustentar a saída de Portugal da União Europeia — neste domínio, será interessante mencionar que numa fase anterior o CHEGA assumiu-se mesmo como antieuropeísta). Veja-se ainda o que figura, no citado documento, no ponto quatro do tema Emprego: “Para que os fluxos aumentem é necessário facilitar as contratações e isto só é possível se os custos de «empregabilidade» – salários, restrições legais, horários de trabalho rígidos, difícil acesso a informação, contribuições para a segurança social e custos de despedimento – forem reduzidos”.

Face ao exposto, conclui-se facilmente que as actuais preocupações sociais do Estado passariam a pertencer às designadas funções “acessórias, subsidiárias e/ou supletivas”, tendendo, portanto, para a mera residualidade. A respeito das escolas, que poderiam ser compradas pelos professores (?!), o CHEGA defende o “fim da aplicação das ideologias de inclusão e ideologia de género no sistema nacional de educação, colocando-se termo à aplicação das orientações da ONU relativamente às chamadas «questões psicológicas de transtorno de identidade de género»”.

            Entre os princípios defendidos no aludido Programa, importará ainda destacar: o aumento das propinas universitárias para os cursos das ciências sociais e humanas, privilegiando, por oposição, as áreas científicas e técnicas (“as propinas a pagar por um curso de Sociologia terão de tender para o custo real do curso”); o alargamento do horário de trabalho dos profissionais de saúde das 35 horas para as 40 horas; a redução dos deputados, de 230 para 100; a defesa da tauromaquia, por oposição à eutanásia e ao aborto (que, neste último caso, apesar de pretenderem proibir, não querem criminalizar…) e a desvalorização do poder legislativo e executivo, em função do presidencialismo puro. Numa época em que o poder local dos cidadãos assume cada vez maior importância, o CHEGA preconiza, com inequívoca incoerência à mistura, a redução do número de freguesias, sustentando ainda que todos “os ministérios e serviços correspondentes” passem a concentrar-se “numa mesma área geográfica, de forma a permitir uma diminuição drástica dos seus custos operacionais, bem como das imensas horas perdidas, para a economia nacional, pelos cidadãos” (Programa 2019).  

Invocando a iminente perda da nossa identidade judaico-cristã, o CHEGA proclama o perigo da imigração ilegal (prevê, pois, a eliminação de quaisquer apoios aos imigrantes ilegais, que seriam deportados para os seus países de origem): “Qualquer imigrante que tenha entrado ilegalmente em Portugal estará incapacitado, para o resto da sua vida, para legalizar a sua situação e, portanto, a receber qualquer auxílio da Administração” (Programa 2019). Sustenta-se também a “abolição das autorizações de residência por razões humanitárias, redução do sistema de acolhimento de refugiados só para menores desacompanhados e pessoas qualificadas para protecção internacional” (Riccardo Marchi, 2020, p. 173). Enfim, coloca a tónica na distinção entre nós, herdeiros da matriz judaico-cristã, e os outros. Neste sentido, o islão é percepcionado como “uma ideologia político-religiosa, totalitária e imperial […] a principal e permanente ameaça à Civilização ocidental” (Riccardo Marchi, 2020, p. 182). Além disso, a comunidade cigana, os homossexuais e outras minorias são frequentes alvos de crítica pública por parte dos adeptos do CHEGA. A respeito dos homossexuais, o Programa 2019 defende o “fim da promoção, pelo Estado, de incentivos e medidas que institucionalizem os casamentos entre homossexuais e a adopção de crianças por «casais» homossexuais”, parecendo, no entanto, deixar em aberto a possibilidade das uniões de facto.

            O objectivo do CHEGA é fundar a IV República em Portugal e não apenas melhorar o sistema que existe, herdado da revolução de Abril de 1974. Por muito que os seus dirigentes defendam que ninguém seria prejudicado, por exemplo, com as privatizações levadas a cabo na educação (seriam atribuídos cheques-ensino, até mesmo na Universidade), é evidente que, nesses tão ansiados novos moldes neo-liberais, a economia de mercado aumentaria ainda mais as desigualdades sociais. 

            Disse André Ventura: “Chamam-nos fascistas, mas é por não terem noção do que é o fascismo. Só pode ser. Porque o fascismo é o oposto do liberalismo” (Riccardo Marchi, 2020, p. 83). Nas suas habituais arremetidas mediáticas, Ventura procura criar mundos antagónicos e irreais, a preto e branco, esquecendo-se, no entanto, que o fascismo, enquanto realidade histórica, da primeira metade do século XX, bem mais complexa do que as suas palavras dão a entender, socorreu-se do grande capital. Como escreveu Umberto Eco: “O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, uma amálgama de contradições” (Umberto Eco, 2017, p. 17). Além disso, não deixa de ser interessante constatar que, no que diz respeito à política orçamental, o CHEGA pretende dar prioridade absoluta “às necessidades dos ministérios que consubstanciam as Funções Soberanas do Estado, ou seja, Ministérios da Justiça, Administração Interna, Defesa e Negócios Estrangeiros” (Programa 2019). Matérias, afinal, determinantes para um maior controlo da sociedade, ou não fosse a garantia da ordem (naquele que ainda é, contudo, um dos países mais seguros do mundo) uma das bandeiras de marca de André Ventura.

            Se, por um lado, o ideário do CHEGA parece reivindicar uma certa “objectividade” no ensino da História: “O ensino e a promoção, sem interferências revisionistas e ideologias que a adulterem, da História de Portugal, alicerçadas nos Factos objectivos que a marcaram”; por outro lado, defende um: “Sistema Educativo acessível a todos, vocacionado para a consolidação dos valores culturais e civilizacionais judaico-cristãos, sem interferência de correntes que se filiam na chamada «ideologia do género» e no dito «marxismo cultural»” (Programa 2019). Ainda no âmbito da História, tal como Riccardo Marchi recordou, o CHEGA “contesta o enviesamento ideológico presente, por exemplo, na estigmatização da secular expansão ultramarina e na visão unilateral do 25 de Abril” (Riccardo Marchi, 2020, p. 95). Temos, pois, o ensino “objectivo” da História, mas com base na matriz da identidade portuguesa imaginada e oficializada pelo CHEGA, que, como já tivemos oportunidade de verificar, pretende eliminar a escola pública — aquela que, com todos os defeitos, ainda permanece como uma das grandes conquistas da revolução de Abril. Eis, por conseguinte, um amontoado de incoerências, contradições e ambiguidades, que permitem todo o tipo de leituras e perniciosos desenvolvimentos futuros.

            É altura de dizer que, de acordo com a minha interpretação, o CHEGA é um partido de extrema-direita. Aliás, Ventura “reconhece publicamente a sua proximidade ao Vox espanhol e à Lega italiana” (Riccardo Marchi, 2020, p. 149). No pretérito dia 2 de Julho, vários órgãos da imprensa, entre os quais O Observador, noticiaram que: “O Chega aceitou o convite para aderir ao grupo europeu Identidade e Democracia (ID), que integra partidos de extrema-direita”. O Observador transcreveu mesmo as reacções de Ventura: “Nós tínhamos já feito alguns contactos europeus. Tivemos primeiro uma maior aproximação ao grupo onde está o Vox, mas o desenvolvimento dos contactos internacionais aproximou-nos mais, quer do partido de Matteo Salvini, quer da Frente Nacional francesa”.

Entre as referências políticas de Ventura encontram-se Beppe Grillo e o Movimento 5 Estrelas, bem como Donald Trump (Riccardo Marchi, 2020, p. 147). Importa, pois, reconhecer que, contrariando a tese de Riccardo Marchi, a “Nova Direita Radical” não é mais do que a velha extrema-direita, travestida de algumas supostas alterações, mas que continua a alimentar-se do medo reinante nos povos, o qual, por sua vez, fomenta o ódio entre as pessoas. São, afinal, evidentes as contradições e ambiguidade que atravessam o ideário do CHEGA e que se espelham nas práticas do próprio líder: acérrimo defensor da exclusividade de funções dos deputados, André Ventura apenas passou, de acordo com a biografia constante na página do Parlamento, a cumpri-la muito recentemente, pois até ao dia 30 de Junho de 2020 exerceu funções de consultor na Finpartner, SA   (https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Biografia.aspx?BID=6535). Isto para já não falar, claro, das contradições, que o próprio reconheceu, entre as ideias sustentadas na sua tese de doutoramento e as ideias políticas actualmente defendidas pelo mesmo, bem como o apoio da Igreja Maná à sua causa. Mas, como é evidente, os apoiantes do CHEGA poderão sempre dizer que isso são pormenores e que o programa do partido (dotado de uma ideologia supostamente flexível) irá ser clarificado, pois está a ser interpretado de modo erróneo. Certo é que, enquanto se levanta a dúvida e também graças às circunstâncias dramáticas que se avizinham (com o desemprego a atingir números assustadores) e também, importa sublinhá-lo, devido a estudos pouco rigorosos como o do historiador-politólogo Riccardo Marchi, continuarão a chegar novos filiados ao CHEGA; e as Presidenciais e as Autárquicas serão já em 2021... Como André Freire teve oportunidade de escrever, em muitos casos, o estudo de Marchi “destaca-se pouco da forma como o partido se apresenta a si próprio na arena política, ou problematiza pouco ou nada determinadas contradições insanáveis nas suas propostas” (Jornal de Letras, 15 a 28/7/2020). Além disso, continuando a seguir as palavras de André Freire, a obra de Marchi, apesar de ser importante para compreender, por exemplo, a evolução do partido de André Ventura, foi elaborada fundamentalmente a partir de um conjunto de entrevistas a dirigentes do CHEGA e no “escrutínio de documentos do partido e de peças jornalísticas”, sendo de realçar a ausência de “bibliografia académica” indispensável, de resto, para um estudo historiográfico.  

            As previsões demográficas mais recentes calculam que Portugal continuará a perder população a um ritmo assustador: “há 23 nações, incluindo Portugal e Espanha, que devem ter metade da população em 2100” (RTP, 15/7/2020). Nesse sentido, como escreveu Milton Blay: “A história do mundo é uma história das migrações e querer fechar fronteiras é uma tentativa de contrariar a natureza humana, sobretudo em uma época em que a Europa envelhece e vive em deficit demográfico crónico, precisando do aporte de estrangeiros” (Milton Blay, 2019, s/p). Num país fortemente marcado pela emigração como é Portugal (que ainda permanece como um dos mais seguros do mundo), não deixa de ser curioso verificar até que ponto o discurso propagandístico de Ventura tem vindo a colher votos, a ponto de as sondagens já colocarem o CHEGA como a terceira força partidária nacional. Algo que a crise económico-financeira e social dinamitada pela pandemia tenderá ainda a fazer aumentar nos próximos anos, um pouco à semelhança do que ocorreu no século passado com a Grande Depressão. Isto para já não falar nos inúmeros exemplos de ineficácia da justiça perante a corrupção...

Numa época em que a União Europeia corre o risco de desmoronar-se, em que os Estados Unidos deixaram de ser reconhecidos como o farol do mundo e que espreita a provável segunda vaga da COVID-19, tudo pode acontecer (aliás, o líder do PSD, Rui Rio, até já admitiu a possibilidade de futuras “conversações com o Chega”, apesar de reconhecer tratar-se de “um partido marcadamente de direita, em muitos casos de extrema-direita”: Público, 30/7/2020). As palavras do historiador Yuval Noah Harari parecem-me cada vez mais significativas: a estupidez humana não pode ser subestimada…

            Como escreveu Umberto Eco, seria “tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: «Quero reabrir Auschwitz, quero que as camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!» Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-Fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes. O nosso dever é desmascará-lo e apontar a dedo cada uma das suas novas formas — diariamente, em todo o mundo” (Umberto Eco, 2017, p. 29).

Os muros da extrema-direita entre nós e os outros, por muito tentadores que se apresentem nas redes sociais, serão novamente pagos com o sangue de milhões de seres humanos…

 

Referências bibliográficas: Milton Blay ― A Europa Hipnotizada. A escalada da extrema-direita, São Paulo, editora Contexto, 2019; Riccardo Marchi A Nova Direita Anti-Sistema. O caso do CHEGA, 1.ª edição, Lisboa, Edições 70, 2020; Umberto Eco — Como reconhecer o Fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, Lisboa, Relógio D’Água, 2017.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)


sábado, 28 de março de 2020

Merkel conseguiu evitar o pior. Resta saber por quanto tempo (Artigo de Opinião de Teresa Sousa- Jornal Público)


1. Esperava-se que corresse mal. Correu pior. A única réstia de esperança é que poderia ter corrido ainda pior. Mas continua a ser legítimo dizer que não parece haver número de infectados ou de mortos, cenários catastróficos para a economia, números do desemprego a dispararem a uma velocidade raramente vista, cidades-fantasmas, angústia generalizada quanto ao futuro, que consiga levar os líderes dos 27 países da União Europeia a agirem como europeus. Foi triste a imagem que o terceiro Conselho Europeu por teleconferência deu de si próprio. E não foi por culpa de todos.
Também é legítima uma discussão sobre dívida conjunta ou sobre o montante de crédito que o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) deve conceder aos Estados-membros. Ela foi, certamente, intensa na última reunião do Eurogrupo que precedeu a cimeira e que, perante a constatação de divisões insanáveis, preferiu passar aos líderes a responsabilidade da decisão. Não é essa a questão essencial. O que é mais perigoso na situação que a Europa vive neste momento e na sua incapacidade de reagir em conjunto é que alguns dos seus líderes (ainda) não mudaram a sua forma de pensar. Pensam hoje o que pensavam antes da pandemia.
2. O primeiro-ministro português referiu quatro países que se opuseram à emissão de dívida conjunta para enfrentar a reconstrução económica e social da Europa. Depois corrigiu: três irredutíveis e um quarto que aceita o debate. Não revelou quais foram. Não lhe compete. Mas a forma como decorreu o Conselho, num clima tão tempestuoso que ia levando à ruptura, permite algumas conclusões.
Que os Países Baixos se opõem furiosamente aos eurobonds, seja qual for a forma que revistam, já sabíamos, e não houve qualquer esforço de Mark Rutte em desmenti-lo. Foram, aliás, as declarações do seu ministro das Finanças que levaram António Costa a dizer o que disse durante a conferência de imprensa final do Conselho Europeu, classificando-as de “repugnantes”. As suas palavras tornaram-se virais, provavelmente porque exprimem um sentimento partilhado em muitos países europeus. Na sexta-feira, o primeiro-ministro holandês não as quis comentar, mas sentiu-se obrigado a esclarecer que as palavras do seu ministro terão sido mal interpretadas – qualquer coisa entre “não escolheu bem as palavras” e “não o interpretaram bem”. Rutte também disse que eram “muitos” os países que pensavam como ele sobre a emissão de dívida. Hoje, sabemos que “muitos” quer dizer quatro, mesmo que haja ainda alguns líderes europeus que tenham preferido um relativo silêncio. Mesmo assim, nas últimas horas, mais três países juntaram a sua assinatura aos nove chefes de Estado e de Governo que, na véspera da cimeira, enviaram uma carta conjunta a Charles Michel, defendendo que a Europa precisa de recorrer a todos os instrumentos à sua disposição para enfrentar esta crise, incluindo a emissão de dívida. Entre eles, estão países ricos do Norte, como a Bélgica ou o Luxemburgo, mas também a França, a Itália e a Espanha, respectivamente a segunda, terceira e quarta economias do euro, ou Portugal, Irlanda e Grécia e, a partir de sexta-feira, Malta, Chipre e Lituânia.
3. O choque frontal que quase levou o Conselho Europeu à ruptura foi, como seria de prever, entre Mark Rutte e os primeiros-ministros dos dois países onde o sofrimento atingiu já as proporções de uma tragédia humana: Giuseppe Conte e Pedro Sánchez. Nem um nem outro estavam disponíveis para assinar uma Declaração conjunta cheia de palavras vazias, espelhando apenas o “menor denominador comum”, ou seja, o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) em determinadas condições e a exclusão de “coronabonds”. A ruptura acabou por ser evitada in extremis pela chanceler alemã através de uma intervenção considerada em Lisboa como “construtiva e moderada”, ainda muito longe de ceder no que diz respeito à emissão de dívida conjunta, mas capaz de evitar o pior. O argumento de Angela Merkel em relação aos “coronabonds” não é igual ao “nunca, jamais” de Rutte ou do chanceler austríaco Sebastian Kurz. O seu argumento é que não se deve prometer o que não se tem a certeza de poder cumprir. Mesmo assim, a sua intervenção permitiu aliviar a tensão e encontrar um acordo em torno do ponto 14.º da Declaração, onde nenhuma solução é mencionada para a reconstrução económica pós-pandemia, nem nenhuma é rejeitada. O Eurogrupo volta a ser mandatado para apresentar propostas concretas em duas semanas. “As propostas devem ter em conta a natureza sem precedentes do choque da covid-19, que afecta os nossos países todos”. “A nossa resposta decorrerá passo a passo, à medida que for necessária, com novas acções e de uma forma inclusiva, à luz dos desenvolvimentos e de forma a dar uma resposta abrangente.”
A Alemanha, como Merkel voltou a dizer no final da reunião, prefere o recurso ao MEE. Mas uma das razões pelas quais a Itália, entre outros países, se opõe a este mecanismo de resgate europeu (240 mil milhões dos 410 de que dispõe, que correspondem ao limite máximo de 2 por cento do PIB de cada país), está nas condicionalidades que impõe para a concessão de empréstimos – vistas como uma espécie de “programas de ajustamento” aplicados pela troika durante a crise das dívidas soberanas, com a mesma natureza estigmatizante. Nenhum país, de Portugal a Itália, quer voltar ao tempo da resposta à crise financeira de 2008, com as suas hesitações, as suas decisões no último minuto, as suas “estratégias de punição”, a sua execução em tempo recorde, impedindo as economias de respirar e saldando-se em custos sociais elevados. Sexta-feira, António Costa voltou a insistir nesta comparação.

Também esta sexta-feira, o Financial Times resumia bem a discussão que envolveu os lideres europeus. “Praticamente todos os países sairão desta crise com as suas dívidas inflacionadas e um défice mais pesado. Perante um pano de fundo desta natureza, discutir quem sairá com finanças ligeiramente mais saudáveis seria como vangloriar-se de ter a cara mais limpa depois de um combate na lama.”

4. O Presidente francês e o primeiro-ministro português insistiram no risco de vida que a Europa corre. Não estarão a exagerar. Se esta é a maior crise que os europeus enfrentam depois da II Guerra – como diz Merkel -, se esta é uma “guerra” contra um inimigo comum que não escolha quem ataca, como voltou a dizer esta sexta-feira António Costa, então a resposta só pode ter uma dimensão equivalente. Também esta sexta-feira, o Presidente do Parlamento Europeu, o italiano David Sassoli, manifestando a sua desilusão perante os fracos resultados do Conselho Europeu, lembrou que “ninguém conseguirá escapar a esta emergência sozinho”. “A Europa que vai emergir desta crise não será a mesma. Mas há quem ainda não tenha compreendido isso.”

Artigo de opinião escrito por Teresa Sousa 
Jornal Público 28 de Março

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Comentário Artigo de Opinião de Óscar Afonso


O artigo intitulado por Óscar Afonso "Pobre Interior" chamou-me a atenção pelo titulo e li-o atentamente.

Revejo na integra no que ele escreveu. Apenas pretendia que ele e outras pessoas com influência política viessem ao interior, falassem com as pessoas e ganhassem credibilidade perante elas.
Nós pagamos impostos mas não  temos as mesmas facilidades de nos deslocarmos e em muitos casos fecham-nos serviços, conquistados tão arduamente no passado, como os CTT, Centro de Saúde ou Tribunais. Todos os serviços perdidos pela escassa utilização SÃO DE VITAL IMPORTÂNCIA para esta população já tão carenciada.
Nós somos um país tão pequeno, não podemos caminhar a várias velocidade. Há vários problemas no litoral e nas grandes cidades mas existem porque há um excesso de população e as pessoas não têm alternativa e não são aliciadas com incentivos, para se fixarem no interior e com o seu dinamismo, atraírem  gerações mais jovens. É urgente trazer mais vida a regiões que precisam mesmo dela para não morrerem e deixarem de ter voz.

Eu vivo no interior e percebo as enormes dificuldades que os mais jovens têm dificuldades em fixar-se cá. Trabalho numa escola e custa-me perceber que só há uma turma por ano desde o 5o ao 9º ano de escolaridade. Os serviços vão fechando à medida que as vozes criticas vão perdendo força em consequência da idade e da percepção da inutilidade das suas lutas. Há um longo trabalho e caminho a percorrer, Hoje as autarquias e o Governo deveriam cativar os mais jovens para lá permanecerem, valorizando-os e acarinhando-os. Considero um retrocesso a perda de serviços como os CTT, tribunais ou centro de saúde.... Bolas afinal ainda há gente a morar no interior!
Relembro novamente que o EQUILIBRIO deve ser feito para o bem do país.
Não se lembrem só do interior quando precisam ou seja na época das eleições. Por favor passem das palavras aos atos.

"Pobre interior" -Artigo de Opinião Jornal Expresso

Em Portugal, a distribuição geográfica da atividade económica, social e cultural entre o litoral e o interior é, como todos sabemos, demasiadamente assimétrica e, consequentemente, o mesmo acontece com a distribuição da população. O litoral é jovem, urbano, povoado, dinâmico e ativo. Pelo contrário, o interior é envelhecido, rural, desertificado, estagnado, deprimido e associado a uma milenar vida de miséria.
Porque as pessoas vão para onde há “economia”, a emigração para os centros urbanos do litoral tem sido a tendência histórica. A escassez de população nas zonas de fronteira com Espanha começou com a conflitualidade histórica entre os Reinos de Portugal e de Castela-Leão: sem população, infraestruturas e oportunidades de emprego gerou-se uma barreira entre Reinos. Posteriormente, a orientação marítima imposta pelos descobrimentos acentuou o atraso do interior. Desde os anos 30 do século passado, mas sobretudo no pós-II Guerra Mundial, com a globalização e o aumento da concorrência, aumentou a pressão competitiva sobre as empresas pelo que, sem ajuda pública, passaram a concentrar-se no litoral. A tendência agravou-se com a adesão à EFTA nos anos 60 e a adesão à CEE/UE nos anos 80 do século passado. O reforço da atraso do interior foi sempre potenciado pelo poder político com maior investimento público em infraestruturas, serviços e criação de emprego no litoral, onde há eleitores.
Em suma, as migrações que têm assolado o interior à procura de melhores condições de empregabilidade no litoral (e no estrangeiro) conduziram ao progressivo esvaziamento demográfico e empresarial. Apesar de todos os constrangimentos que historicamente se têm imposto ao interior, representa – e representará – cerca de 70% do território nacional e, atualmente, já menos de 30% da população.
Como a generalidade dos governos anteriores, porque fica sempre bem dizer que há que apostar no “pobre” interior, também o atual manifestou “desejo” de contribuir para a diminuição do atraso. Como de todas as outras vezes, também na presente legislatura tal não passou de um “desejo”. O mais admirável é que o processo continua a repetir-se e os políticos continuam a apostar na memória curta dos eleitores, continuando a ficar bem – e, provavelmente, a “render” votos – manifestar “desejo” de apoiar o “desgraçado” interior. Assim, em pré-campanha, o primeiro-ministro deu-se ao luxo de “perder” uma semana em viajem mais ou menos turística pelo interior para, com a afetuosa comunicação social por perto, dar conta do novo futuro “desejo”. Curiosamente, com a mesma intensidade que se diz apostar no interior, vão-se encerrando serviços (veja-se o encerramento de diversos balcões da CGD ou de estações dos CTT), pelo que as populações esquecidas do interior terão de satisfazer as suas necessidades em centros urbanos mais pró litoral.
É verdade que o avanço nas tecnologias de informação – televisão, internet e telemóveis – pode atenuar o isolamento de algumas pessoas esquecidas do interior, mas não favorece a fixação no interior e, portanto, não promove a inclusão e a coesão social e territorial. Também as melhorias nas vias de comunicação – estradas e autoestradas – podem atenuar o isolamento, mas não promoveram o desenvolvimento e a coesão, acabando sobretudo por permitir maior mobilidade entre regiões. Em particular, muita gente, como eu, que saiu para o litoral pode agora, mais facilmente, passar fins de semana ou férias na terra natal do interior.
O que se espera dos governos é que sejam capazes de corrigir as falhas de mercado, pelo que devem intervir no sentido de promover / reestruturar a atividade económica no interior. Se assim não for, como não tem sido, entra-se, como tem acontecido, num círculo vicioso. A “economia” foi deixando de ser suficiente para melhorar as condições de vida, passando a faltar empregos e equipamentos básicos. À medida que a população do interior foi diminuindo, menos “economia” foi sendo precisa e muitas empresas foram fechando: o círculo vicioso da pobreza e da desertificação foi-se autoalimentando “a olhos vistos”.
Face ao litoral, permanece uma enorme desigualdade de oportunidades. Desde logo pela inferior qualidade dos serviços fornecidos pelo Estado nas áreas da cultura, educação, justiça e saúde. Permite-se que a elite dirigente e técnica de um sem número de organismos com funções de regulação, controlo e fiscalização, cuja atividade produtiva se concentra no interior, desempenhe as suas funções no litoral. Refira-se a título de exemplo o Instituto da Vinha e do Vinho, o Instituto dos Vinhos do Porto e Douro, a Administração e todos os serviços da EDP, Iberdrola e outras.
Consideram as barragens como “investimentos de desenvolvimento local” (embora para alguns até já sejam um problema porque, pasme-se, contribuem, por evaporação, para a perda de água!), mas apenas criam o posto de trabalho do vigilante durante a sua fase de exploração, pois o “real” emprego concentra-se no litoral. Aliás, o que o Estado tem feito com estes empreendimentos é nacionalizar, ao abrigo do interesse nacional, os meios de produção de milhares de anónimos que tinham aí a sua independência económica e simultaneamente garantida a liberdade, para depois concessionar a uma entidade privada a sua exploração, cujos detentores de capital jamais contribuíram para a melhoria da massa crítica social destes lugares. O mesmo vai obviamente passar-se com a exploração de lítio que não passará de mais um recurso sugado do interior.
Resumindo, o investimento que o Estado tem promovido no interior, em vez de criar efeito de replicação/imitação, concentra ainda mais o emprego e a riqueza no litoral, alargando o fosso entre as regiões. Há apenas investimentos pontuais, intempestivos, sem qualquer possibilidade de adensamento do tecido económico e social. Investe no turismo, mas corta serviços de saúde. Investe na educação, mas cria organismos com capacidade de absorção de recursos humanos de elevada formação no litoral. Despeja milhões no combate aos incêndios rurais, mas os beneficiários estão no litoral. Não existe, de facto, uma política integrada de aumento de competitividade do território do interior, para que os recursos dos residentes lhes permita aceder aos bens e serviços que a sociedade fornece. Resta a migração que tem sido e continua a ser a sina de transmontanos, beirões, alentejanos e de parte de minhotos.
Desejando agora promover a coesão e o desenvolvimento social e territorial, se não houvesse hipocrisia, o governo concederia de imediato incentivos generosos, compensando os custos da interioridade. O montante adequado seria certamente menor que o despendido com a recente ajuda à banca! Seguindo a máxima “não dê o peixe, ensine a pescar”, a forma de distribuição desses incentivos requer a formulação de estratégias que tornem o interior competitivo, o que significa que é necessário saber identificar as vantagens competitivas que devem ser preservadas. Com ajuda pública, o interior, desde logo pela mão de autarcas competentes, deve aproveitar capacidades instaladas e características que o diferenciam, potenciando-as e traçando uma estratégia que fortaleça o aproveitamento económico das oportunidades. O interior tem recursos mais ou menos abundantes que devem ser valorizados e aproveitados a seu favor – e nunca sugados –, desde o património cultural (monumental e imaterial) aos espaços naturais, desde produtos agrícolas singulares aos recursos do subsolo. Em algumas indústrias tem até tradição. É assim que se deve pensar o desenvolvimento.
O interior deve finalmente beneficiar do princípio da solidariedade interterritorial, como Portugal na totalidade (e o litoral, em particular) tem beneficiado dos países mais ricos da União Europeia. Isso faz-se, por exemplo, invertendo a lógica de desqualificação dos serviços e infra-estruturas existentes. Faz-se também por via do reforço de serviços e da atratividade de alguns centros urbanos do interior, estrategicamente posicionados. Faz-se, ainda, olhando para os recursos e capacidades endógenas e pensando o respetivo desenvolvimento a partir do aproveitamento desses recursos e dessas competências.
Portugal será forte se tiver também um interior forte!
Artigo de opinião Jornal Expresso de 26 de Setembro de 2019
Óscar Afonso Presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude e docente na FEP

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sensações estranhas

O prazer da escrita é-me algo intrínseco que eu não consigo descrever, funciono muito por impulsos e motivações. Lamento não ter consigo manter a regularidade na edição de textos, tendo decorrido um interregno de cerca de duas semanas.
 
Nos últimos tempos tenho convivido com sensações estranhas que eu muitas vezes não consigo descrever ou perceber. Há poucos dias tivemos a visita da chanceler alemã que veio averiguar o estado da nação portuguesa. A História diz-nos que algures em séculos passados houve países que foram colonizados hoje não se impregna o mesmo termo no entanto as consequências são similares. Vivemos numa sociedade que está a ferver. Pergunto quando será que irá explodir? Será que isso vai acontecer? As consequências são boas ou más?

As sensações estranhas que eu tenho convivido prendem-se com o estado do meu país mas também devido às convivências com uma sociedade que não olha para o lado, cansada e focada apenas no trabalho, ou quando não o têm nas preocupações do desemprego. Refiro-me ao cansaço, quando vejo pessoas a trabalhar desalmadamente, com objetivo de ganhar um mísero ordenado que em nada recompensa o valor das tarefas desempenhadas.

Com a crise as pessoas perderam esperança e deixaram de ter objetivos a longo prazo pensando apenas no dia de amanhã, focando-se apenas nos planos a curto prazo. O risco de perder o emprego retrai e induz as pessoas ao silêncio engolindo muitas injustiças. Todas estas contingências são aproveitadas pelo Estado Português e capitalista que reina na Europa e no Mundo.

Eu induzido num ritmo louco de trabalho vejo-me por vezes com receio de onde eu irei parar. É alucinante o ritmo de trabalho no ensino privado. Nota-se diariamente uma competitividade latente e eu dou por mim naturalmente a ter que ir aos meus limites.
Questiono até quando aguentarão os portugueses os sacrifícios que estão a ser sujeitos

sábado, 13 de outubro de 2012

O fim da classe média

Parafrasenado Renato Nunes no seu post de 27 de Setembro, vivemos dias muitos estranhos. Ao longo da vida tenho-me apercebido-me de uma sociedade que devido às contingências sociais se vira cada vez mais para ela própria. O instinto de sobrevivência impera quando nos é imposta a lei do mais forte.
 
Já poucas coisas me surpreendem, no entanto há algo que me faz confusão e magoa, a desumanização que reina no mercado laboral onde os valores deixaram de existir. Esta semana soube do despedimento de um conhecido meu, que com vários anos dedicados ao ensino, foi depedido por simplesmente não assinar um papel que lhe imporia a necessidade de trabalhar mais e receber menos.
 
 Como será possível o Estado ficar indiferente aos despedimentos massivos, situações de pessoas desempregadas que dependiam do salário para a muito custo dar de comer aos seus. É triste e desolador aperceber-me de tudo isto, ver dia após dia ser aniquilado o que a muito custo foi conquistado após o 25 de Abril, o direito de ter uma classe média.

domingo, 30 de setembro de 2012

Mudanças sociais

Os dias esvoaçam a um ritmo infernal. Nos tempos mortos, poucas horas que me mantenho acordado, com pensamentos que divirjam do cerne da questão, a preparação das aulas. Os tempos para ver televisão são muito reduzidos e tento casualmente através da rádio escutar as diabruras do nosso tempo e perceber sinteticamente as convulsões que se passam à minha volta. Em Espanha, esta semana, mais uma vez houve manifestações, a que naturalmente se irão juntar outras. Começo a perceber que as manifestações e os insultos contra estas políticas deixam progressivamente de ser consideradas notícias.

Da varanda da minha casa na Venda do Pinheiro vou observando diariamente as rotinas dos meus vizinhos e dos transeuntes que diariamente se deslocam para trabalhar em Lisboa. Não é fácil a vida nos dias que correm. Ouvimos várias vezes falar das dificuldades da vida de outrora, onde a maior parte da população era pobre vivia daquilo que a terra dava. Atualmente as pessoas, grande parte com cursos superiores, ou com o 12º ano, vêm muitas dificuldades para conseguir ter um emprego, arrastando-se indefinidamente nas casas dos pais.
Em poucos anos a sociedade mudou assim como as expectativas das pessoas, no entanto atualmente como há  50 anos observa-se algo em comum, a falta de esperança e expectativas no futuro o que está a conduzir tal como aconteceu em meados do século passado, à emigração.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

É só malandros!

A sacanice do momento, agora pela voz do obscuro e inenerrável ministro (?) Miguel Macedo.

A cigarra e a formiga...

La bise des marchés et la cigale athénienne

par Pierre-Antoine Delhommais


Jean de La Fontaine avait donc tout compris, tout analysé, tout deviné, même la crise financière grecque. La bise des marchés est venue et la cigale athénienne s'est retrouvée fort dépourvue. La fourmi allemande n'étant pas prêteuse, c'est là son moindre défaut, il a fallu que Dominique Strauss-Kahn et Jean-Claude Trichet interviennent pour forcer sa nature et convaincre Mme Merkel de la nécessité d'agir au plus vite. Ce sont pas moins de 25 milliards d'euros que Berlin va, selon toute vraisemblance, débourser pour sauver la Grèce, peut-être pas de la famine, mais au moins de la faillite. Cela fait cher le morceau de vermisseau.

Puisqu'on est dans les fables et les morales, restons-y. La crise grecque, c'est d'abord le triomphe de l'orthodoxie économique. De la gestion budgétaire rigoureuse, de l'obsession de la compétitivité et des excédents commerciaux à l'allemande sur les déficits et le gaspillage des deniers publics à la grecque. Lesquels, selon M. Papandréou lui-même, "au lieu d'être utilisés pour le développement ont fréquemment servi à acheter des maisons, des voitures, et à vivre dans le farniente".

On ne résiste pas au plaisir de paraphraser une nouvelle fois le footballeur anglais Gary Lineker : "L'euro, c'est une monnaie qui se partage à seize, et à la fin, c'est toujours l'Allemagne qui gagne."

Sauf que là, dans l'affaire grecque, tout le monde est perdant. A commencer par l'Allemagne, vilipendée pour son égoïsme, critiquée pour ses tergiversations... et qui n'est pas certaine du tout de récupérer un jour ses 25 milliards. Le président de l'Institut de conjoncture allemand IFO, Hans-Werner Sinn, est persuadé que non. Les Grecs, publiquement humiliés, contraints de faire la manche et promis à des années d'austérité. La zone euro, qui a affiché ses divisions et révélé ses gravissimes défauts de structure et de conception. Les banques françaises, qui ont démontré leur imprudence en se gavant d'emprunts grecs (52 milliards d'euros). Jean-Claude Trichet qui, après avoir exclu catégoriquement que le FMI puisse intervenir, a dû s'y résoudre, ce qui a fait gentiment dire à Mme Lagarde "qu'il n'y a que les imbéciles qui ne changent pas d'avis". L'Elysée, aussi, persuadé dans un premier temps que la crise grecque avait du bon puisqu'elle permettait de faire baisser l'euro et de relancer les exportations et qui n'a rien fait pour arrêter à temps la gangrène. Les dirigeants politiques, qui ont prouvé leur impuissance face aux mouvements d'humeur des marchés financiers. Les contribuables européens, enfin, qui seront sollicités tôt ou tard pour payer in fine un prêt à la Grèce que les Etats eux-mêmes financent par l'emprunt. On ne fait que creuser des trous et des déficits pour en boucher d'autres.
Après tout, l'affaire grecque ne serait pas si grave si on pouvait se dire qu'elle est terminée. Les 120 milliards qu'Athènes va toucher devraient certes lui éviter une crise de liquidités et un défaut de paiement. Ils ne serviront en revanche pas à grand-chose pour résoudre sa crise de compétitivité. Il faut tout changer de "fond en comble", reconnaît M. Papandréou, faire en trois ans ce qui n'a pas été réalisé en trente ans. Passer de la fabrication d'huile d'olive à celle de produits industriels performants, transformer les Cyclades en Silicon Valley, ce n'est pas gagné. Et ce qui vaut pour la Grèce vaut aussi pour le Portugal et l'Espagne. Comment ces pays feront-ils pour retrouver de la croissance sans pouvoir dévaluer tout en pratiquant des politiques de rigueur extrême ? Une fois n'est pas coutume, les agences de notation semblent avoir fait preuve de simple bon sens en abaissant cette semaine la note de ces trois pays. Au lieu de cela, on préfère dire, comme l'Elysée, qu'elles ont une attitude "criminelle". Le politiquement correct ne fait pas bon ménage avec l'économiquement sérieux.

C'est aussi au nom du politiquement correct que personne, il y a quinze ans, n'avait voulu prêter attention aux dirigeants de la Bundesbank qui expliquaient, un peu abruptement, certes, qu'il était dangereux - pour eux comme pour leurs partenaires - que les pays d'Europe du Sud rejoignent trop tôt la zone euro. A l'époque, c'était tellement facile, les gnomes de Francfort furent accusés de racisme monétaire. Ce ne sont sûrement pas aujourd'hui les Grecs, durablement promis à vivre l'horreur économique, qui diraient que ces avertissements et ces réserves étaient injustifiés.

En ces temps si sombres, il convient de dire un grand merci au Parti socialiste français, dont la lecture des 23 pages du document de travail pour un "Nouveau modèle économique, social et écologique" nous a fait passer un bon moment. Et bien fait rire. On a préféré en rire pour ne pas en pleurer. Eric Le Boucher, dans un point de vue publié sur le site Slate, a trouvé ce texte "consternant ". Comme nous. Il évoque le retour des années 1970. C'est cela. Une sorte de programme commun mais nappé de sauce verdâtre, un cocktail de dirigisme et d'écolo-boboisme, Georges Marchais revisité par Nicolas Hulot.

A bas l'entreprise et vive l'Etat, qui seul garantira le bien-être économique pour tous ! Dans ce monde idéal vers lequel le PS promet de nous conduire en 2012, tout sera juste : le commerce (le juste-échange remplacera le libre-échange), les salaires, la fiscalité locale, la rémunération des agriculteurs, les services publics, etc. L'industrie sera forte, cela va de soi, et le consommateur sera remplacé par un "consom'acteur". Tout sera fait pour les jeunes mais aussi pour les retraités - à 60 ans - "parce qu'il y a une vie après le travail qui mérite d'être vécue pleinement".

Le plus inquiétant, dans ces 23 pages, ce n'est pas tant l'absence de mesures concrètes et détaillées pour édifier ce paradis, ce n'est pas tant la stratégie d'évitement sur des sujets essentiels (la gouvernance mondiale, la concurrence de la Chine, la compétitivité, la dette publique), ce n'est pas tant le manque total d'inventivité et la mièvrerie générale du discours et son côté "Oui-Oui fait de l'économie". Non, c'est l'impression de grand renfermement qui le parcourt de bout en bout. De peur du monde extérieur, de grand repli sur soi, une volonté de se réfugier dans une sorte de cocooning économique. "Collectivement, une société sous pression est une société stérile, incapable de créer, d'innover." Tout est dit.

transcrito, com a devida vénia, de Le Monde de hoje

domingo, 16 de setembro de 2012

O estado do meu(nosso) País!!

Apresento aqui umas pequenas reflexões sobre as minhas breves leituras e imagens sobre o estado do meu país:
Ontem vi as manifestações e hoje não resisti a comprar o jornal, porque me arrepiou toda aquela gente que desespera e luta pelos seus direitos.Pessoas que choram e clamam por saúde, educação com qualidade e um emprego que lhe possa dar estabilidade.
Não resisiti a gravar, ontem as imagens da TV, momentos que espero rever em breve, como sendo más memórias na nossa rica História, ambicionando que todo este pesadelo passe rapidamente.Provavelmente toda esta esperança  não passa de utopia.
Que infeliz povo é este que tem governantes insensíveis, pouco crentes nas suas potencialidades e no real valor da sua mão de obra.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Um manifesto


A crueza das palavras não é mais impressionante do que certeira. Tudo se ajusta à vilania grotesca que se vive. Gostaria de ter escrito o texto que tem uma dignidade de manifesto. Não sei quem é o seu autor mas, por razões ainda mais desesperadas do que as suas, subscrevo inteiramente o conteúdo e o tom. Para a alcateia de talibãs neoliberais que nos esmagam, não há mais argumentos. E isto é que é perigoso.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Que a imperial não falte!

Parece que o senhor que o ministro Relvas arranjou para substituir a direcção da RTP sa(ca)neada pelo incumbente que mostra que a vida é para os espertos é um velho incondicional do Pedro (Passos Coelho), está nas cervejas e cheio de ligação aos negócios com Angola. Hum..

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Heróis

Ao pensar nos resultados eleitorais gregos e, em particular naqueles que não votaram troika, ocorreu-me isto. Heróis por um dia, talvez pudessem ser...

http://www.youtube.com/watch?v=Tgcc5V9Hu3g&ob=av2n

quarta-feira, 25 de abril de 2012

48


No longínquo mês de Setembro aquando da minha passagem pela festa do Avante, onde pude compartilhar uma variedade imensa de ofertas culturais, parei ocasionalmente, durante alguns minutos, num anfiteatro onde passava um documentário. Observei uma atenção invulgar das pessoas à medida que íam vendo rostos e ouvindo testemunhos que transpareciam através das rugas a dureza vivida durante o Estado Novo e a repressão sentida na pele. Sentei-me e ouvi. Olhei fixamente as faces que passavam, ouvindo a voz do seu discurso, arrepiei-me com a sua experiência de vida.

Uma experiência que me marcou, pois saí daquele espaço com a intenção de conseguir adquirir aquele precioso testemunho. Adquiri-o ontem, num quiosque através do jornal público.

Este documentário é um retrato lúcido e rude do que foi o Regime do Estado Novo. Todos o deviam ver nem que seja a espaços como foi o meu caso, pois, principalmente quem nasceu e viveu com a liberdade, passará certamente a dar-lhe mais valor.

Um suspiro pela Liberdade

Actulamente encontro-me a ler o livro de José Saramago "Ensaio sobre a lucidez", um livro brilhante, que retrata as mutações políticas inerentes à manifestação de descontentamento do povo, através o voto em branco e as consequentes reacções menos democráticas dos governantes perante toda esta situação.

A democracia é um conceito com vários significados podendo ser usado e conduzido de diferentes formas consoante o seu objectivo. Actualmente vivemos uma situação em que a democracia não se presencia, pois todas as decisões são tomadas sem tomar em conta a opinião do povo, sendo que quando este pretende dar a entender a sua indignação, procedem pelo caminho mais fácil, ignoram ou humilham batendo, como aconteceu na recente manifestação.

Sente-se medo de se dizer e escrever o que se pensa, com receio de retaliações, de se perder o emprego, a estabilidade social e económica. Uma época dificil vivida por nós portugueses, habitantes do Mundo.

As opções de Mário Soares e Manuel Alegre de não marcarem, hoje presença nas comemorações do 25 de Abril, é um sinal que não estamos a caminhar pelo caminho certo.

No dia da Liberdade clamo aos políticos do meu país que apresentam na sua lapela a bandeira de Portugal, que pensem, de uma forma mais holística e não se restrijam, às limitações impostas por eles mesmos e por uma política externa demasiado dogmática e pouco realistica. Peço que tenham em conta a capacidade de luta e a tenacidade desta gente que Adora o seu país e fará tudo para o tirar da situação difícil que está. Deixem pensar e expressar um povo que resistiu a muitos anos de ditadura e repressão, não limitem os seus ambiciosos horizontes,  ouçam, dialoguem, pois dessa forma tudo será mais fácil.

Um dia com sentido

Diferente, sem alguns dos justamente e indefectíveis democratas nas comemorações mas com os cínicos e hipócritas em destaque. Eles que sempre quiseram acabar com a evocação do fim da ditadura.

Isto vai mal, mas não foi por causa deste senhor:


Não sei o que pensaria dos dias que temos, mas a culpa não foi de quem sempre ocupou o seu lugar com dignidade. Como ele. Obrigado, Capitão.



P.S. O 25 de Abril também se fez contra a arbitariedade bruta da autoridade. Ora, em tempos de crise e de alguma (pouquíssima) agitação social, as autoridades policiais têm mostrado o músculo e o bastão a não meliantes. Desde as manifs em frente à AR, no Rossio, os agentes infiltrados e, agora, a indigna actuação da PSP no Porto, contra a ES.COL.A. E dizem os mediáticos e regiamente pagos comentadores de impecável fato e penteado fancy que deixou de fazer sentido comemorar o 25 de Abril? Só se for pelo abastardamento austeritário do regime... ou deles...

terça-feira, 24 de abril de 2012

Notícias tristes

Morreu Miguel Portas. Um deputado ao Parlamento Europeu sério, empenhado nos valores de esquerda e da resolução desta miserável crise que nos aperta.

Curiosamente nasceu no dia 1 de Maio e faleceu no dia 24 de Abril... Coisas madrastas.

Obrigado por tudo.