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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Intervenções Político Ideológicas - Autor Renato Nunes

 Nuno Palma, professor de História Económica na Universidade de Manchester, participou recentemente na 3.ª Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL) com uma comunicação intitulada “As causas míticas da divergência económica portuguesa”. Ao longo da sua prelecção, entre outros aspectos, Nuno Palma denunciou a suposta falsificação da nossa História por parte das entidades oficiais: “os partidos da Democracia e em especial os da esquerda construíram uma narrativa que associou o atraso económico e social do país ao Estado Novo”, mas “essa narrativa é falsa. O Estado Novo até correspondeu a um período de rápida convergência económica com a Europa ocidental”. O salazarismo “resolveu o problema do analfabetismo”: nos anos 50, entre as crianças, o analfabetismo “já era absolutamente residual”. Ademais, prosseguiu, os manuais escolares do 12.º ano de escolaridade não apresentam bibliografia científica em relação ao Nazismo/Fascismo e ao Estado Novo, sendo apenas “referido o comunista historiador Hobsbawm e Fernando Rosas…” — ora, bastará consultar alguns manuais de História para perceber que este último argumento é pouco rigoroso. De resto, numa entrevista que posteriormente concedeu ao Jornal Económico e que divulgou no seu blogue “Portugal no longo prazo”, Nuno Palma foi mesmo mais longe: “O que é essencial percebermos, é que o licenciado Pacheco Pereira é um académico falhado. A suposta «história» que ele ou indivíduos como Fernando Rosas fazem é apenas política disfarçada de história. É tudo normativo, por isso não são capazes de conceber que outros queiram olhar para a História de forma objetiva e sem constantes julgamentos de valor” (https://nunopgpalma.wordpress.com/). Ainda em relação às afirmações de Nuno Palma a respeito dos manuais escolares de História, importa sublinhar que o aludido académico não menciona, estrategicamente, o facto de os programas oficiais aludirem às transformações verificadas, apesar de tudo, em alguns sectores da sociedade portuguesa, sobretudo a partir da década de 60 (de resto, sem essas transformações não seria possível compreender, por exemplo, as greves académicas).

Concluída a apresentação do orador principal, o moderador deu a palavra aos outros membros do painel e, por exemplo, de modo muito sintomático, João Marques Almeida destacou aquela que na sua opinião seria a principal conclusão da palestra apresentada por Nuno Palma: “Quanto mais um país é socialista e mais à esquerda, mais pobre é”.

Importa, desde já, registar que, atendendo à polémica provocada pelas palavras de Nuno Palma na Convenção do MEL, ele foi posteriormente convidado pelo jornalista Camilo Lourenço para participar no programa “A cor do dinheiro”. As duas intervenções em causa encontram-se disponíveis online (ver referências bibliográficas no final deste artigo) e ajudam-nos a compreender o pensamento do professor de História Económica.

Assim, na conversa com Camilo Lourenço, Nuno Palma procurou clarificar a sua tese: embora seja indefensável a ditadura, que tinha a censura e a polícia política (num artigo dado à estampa no jornal Público, em 8/6/2021, Nuno Palma classificou mesmo o Estado Novo como “uma ditadura execrável”), o regime salazarista/marcelista representou “um regime de relativa baixa repressão”, onde “não havia pena de morte” e no decurso do qual “houve algumas execuções extra-judiciais, mas que eram até relativamente baixas”.   

Comecemos pelos principais aspectos positivos (ainda que, diga-se, pouco inéditos) da intervenção de Nuno Palma: alertar para o peso enorme do endividamento externo de Portugal, para o enorme peso do Estado na sociedade portuguesa, para a deterioração da qualidade das instituições políticas nacionais, para a insustentabilidade da Segurança Social nos actuais moldes, para a delapidação dos fundos estruturais europeus, para as “portas giratórias” (clientelismo e caciquismo omnipresentes) e, por exemplo, em jeito de antevisão fundamentada, para os perigos que nos espreitam no futuro imediato, caso insistamos em perpetuar as políticas que têm vindo a ser implementadas.

Ora, pese embora o facto de Nuno Palma insistir em reafirmar a validade das suas afirmações com base em supostos estudos científicos, certo é que a sua comunicação representou, em traços gerais, o contrário do que significa fazer História. As suas descobertas apressadas constituem um amontoado de generalizações e acusações, com inequívoco pendor político-ideológico, que importará desconstruir. 

I ― Disse Nuno Palma que o regime salazarista/marcelista representou “um regime de relativa baixa repressão”, onde “não havia pena de morte” e no decurso do qual “houve algumas execuções extra-judiciais, mas que eram até relativamente baixas”. Ora, existem factos históricos que desmentem categoricamente as conclusões de Nuno Palma, nomeadamente: o campo de concentração do Tarrafal, as prisões políticas dos comunistas, mas também de espíritos liberais, a censura, os assassinatos consumados pela “PIDE” (caso de Humberto Delgado, em 1965, entre outros), a farsa dos “julgamentos” concretizados pelos Tribunais Plenários, as constantes coerções sobre os funcionários públicos por questões políticas e, por exemplo, a Guerra Colonial, em Angola, Guiné e Moçambique, entre 1961 e 1974 (com os crimes de guerra cometidos de ambos os lados, os milhares de vítimas, a delapidação de dispendiosos recursos desviados para o esforço bélico e que seriam fundamentais para o desenvolvimento dos países envolvidos…). Ainda nesta sequência, registe-se que a Guerra Colonial foi responsável por milhares de mortos, feridos e mutilados, para já não falar nas terríveis consequências psicológicas (traumas) que os ex-combatentes continuam ainda hoje a enfrentar (quase sempre, reflicta-se, sob a indiferença dos órgãos estatais).

II ― Sustentou Nuno Palma que o salazarismo “resolveu o problema do analfabetismo”, que, nos anos 50, entre as crianças “já era absolutamente residual”. Como é evidente, para fazer História, Nuno Palma não pode limitar-se a mobilizar apenas os números que mais convêm à sua tese, neste caso falando tão-só do analfabetismo entre as crianças (e o analfabetismo global, que em 1970 rondava os 26%? — PORDATA — e como ignorar, apesar de tudo — como ele insiste em fazer — o papel pioneiro desempenhado ao nível da alfabetização pela I República, ainda que em circunstâncias muito complicadas, de resto, agravadas pela participação do país na I Guerra Mundial?). Poderíamos, de resto, estabelecer uma conclusão idêntica no que diz respeito à suposta convergência económica do país em relação à Europa Ocidental, durante o Estado Novo, mas já durante os “Trinta Anos Gloriosos” (fim da II Guerra Mundial — início da década de 70) — e com a existência de um império colonial… dois “pormenores” contextuais que o orador se esqueceu convenientemente de explorar... 

Importa sublinhar que o Estado Novo foi um regime repressivo que insistiu, contra todos os ventos (ONU, EUA, grupo de novos países nascidos do processo descolonizador dos anos 50 e 60…), em perpetuar um estratégico Império colonial e que durante a II Guerra Mundial (1939-1945) estabeleceu rentáveis ligações comerciais, quer com a Alemanha Nazi, quer com a Inglaterra (nomeadamente em relação ao volfrâmio). Pese embora as transformações verificadas, a verdade é que a estrutura do país permaneceu idêntica durante o salazarismo/marcelismo: agricultura de subsistência, indústria incipiente e com fortes ligações das oligarquias ao poder central, forte condicionamento à iniciativa privada, manutenção dos monopólios e do caciquismo encobertos pela forte máquina repressiva e censória, concentração da riqueza em elites, enquanto a maioria da população passava fome e mantinha uma mentalidade profundamente conservadora (sobretudo nos meios rurais), mesmo após a liberalização (fracassada) da era marcelista (1968-1974)…

Mas debrucemo-nos ainda sobre a questão do analfabetismo. Como escreveu Adélia Carvalho Mineiro, ao Estado Novo interessava “que todos aprendessem a ler e escrever ― condição segura para se propagandear a ideologia ― mas que não se fosse muito além da escolaridade obrigatória” (Adélia Carvalho Mineiro ― Valores e Ensino no Estado Novo. Análise dos Livros Únicos, p. 293). Tratava-se, por conseguinte, de um sistema educativo autoritário e repressivo orientado para formatar os alunos para a obediência (se necessário, à custa da dolorosa “menina dos cinco olhos”, leia-se “palmatória”), para a memorização e simples repetição, para a perpetuação da hierarquia social (filho de camponês seria camponês) e para a permanente subjugação da mulher, no plano social, familiar, financeiro e profissional. Um ensino, portanto, que pretendia ensinar a ler e a escrever, fundamentalmente para garantir a sua perpetuação no poder e que, nessa sequência, divulgava uma narrativa nacionalista e hagiográfica da História de Portugal. Falamos, afinal, de um sistema educativo marcado pela falta de docentes, pela desvalorização e subalternização da classe profissional (veja-se o caso dos regentes escolares e a necessidade dos professores assinarem uma declaração de concordância com a Constituição de 1933 e de renegação do Comunismo), a política do livro único (oficialmente aprovado pelo regime), a integração dos jovens (7 a 14 anos, limite cronológico que poderia ser estendido) na Mocidade Portuguesa, que adoptou a saudação fascista, a intervenção do regime no casamento das professoras, que carecia de autorização do Estado Novo (Rómulo de Carvalho ― História do Ensino em Portugal. Desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano, p. 762). E muitos outros exemplos poderiam ser aqui invocados, a respeito de um sistema que apenas em 1960 consagrou a obrigatoriedade de as mulheres frequentarem a escola até à quarta classe. Em sentido inverso, importará, no entanto, não esquecer a construção de uma rede de escolas nacionais ou as políticas educativas reformistas de Veiga Simão, já na era marcelista (em 1973, seria aprovada uma lei que previa, por exemplo, a institucionalização da educação pré-escolar e a extensão da escolaridade obrigatória de seis para oito anos ― Rómulo de Carvalho ― ob. cit., p. 809).

III ― Nuno Palma alude ainda a outros supostos “indicadores de bem-estar” que caracterizaram a sociedade portuguesa durante o Estado Novo, essa mesma sociedade, na qual o alegado especialista económico parece desconhecer que muita gente andava descalça, incluindo centenas de crianças. Ora, sendo certo que a mortalidade infantil desceu ao longo do regime, é ou não verdade que em 1974 ela continuava a ser muito superior em relação a vários países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)? É ou não verdade que a década de 60 foi marcada, em Portugal, por elevadas taxas de emigração? E qual a razão que levou milhares de portugueses analfabetos e miseráveis a sair, clandestinamente, da pátria, por exemplo, em direcção aos andrajosos bidonvilles de França? E, já agora, qual a diferença entre o nível de vida dos portugueses que, nas décadas de 60 e 70, viviam nas cidades e nos campos? E qual o peso para as estatísticas das remessas enviadas para Portugal pelos nossos emigrantes para essa suposta convergência nacional em relação aos países da Europa Ocidental? Afinal, como recentemente escreveu o historiador Fernando Rosas a respeito da realidade portuguesa: “Ao chegar a 1973, o salário médio nacional era 25% do alemão, 29% do francês e menos de metade do espanhol; as famílias mais ricas (4,9 % do total) concentravam um quarto do rendimento familiar global; um terço das famílias portuguesas não dispunha de rendimento anual mínimo para satisfazer as necessidades elementares; 36% dos alojamentos familiares não tinham luz elétrica e 41% não dispunham de saneamento básico” (Público, P2, 20/6/2021, p. 17).

Ainda a este respeito, no blogue de Nuno Palma é possível ler uma das suas mais recentes intervenções: o Estado Novo não foi fascista, mas sim “uma ditadura nacionalista de direita”, “como afirmam claramente os verdadeiros especialistas”. E para concluir, num golpe de génio: “Aliás os verdadeiros regimes fascistas tinham orgulho nisso, mas o Estado Novo nunca se definiu a si próprio como tal” (https://nunopgpalma.wordpress.com/)... 

IV ― Segundo Nuno Palma, o Partido Comunista Português nunca lutou pela liberdade e pela democracia, sendo assim falsas as representações veiculadas na Fortaleza de Peniche, onde se diz que ali estiveram presos aqueles que lutaram pela democracia e pela liberdade. Pese embora ser forçoso reconhecer que os crimes cometidos pelos partidos comunistas durante o século XX, por exemplo na URSS, foram igualmente comparáveis e por isso igualmente condenáveis aos que foram cometidos pelo Nazismo e pelo Fascismo (ver Alain Besançon ― A dor do século. Sobre o comunismo, o nazismo e a unicidade da Shoah, p. 138), é fundamental destacar o extraordinário papel desempenhado pelos comunistas portugueses na luta contra o Estado Novo. Uma luta que implicou, frequentemente, colocar em causa a sua própria sobrevivência. De resto, não foram apenas os comunistas que estiveram presos em Peniche (e nas restantes prisões políticas e no campo de concentração do Tarrafal). Já agora, não foram apenas os comunistas que foram vigiados, perseguidos, torturados e até mesmo mortos pelo regime de Salazar/Marcello Caetano. Escrever um simples livro poderia implicar a prisão, como, por exemplo, sucedeu com Miguel Torga, em 1939-1940, e com muitos outros cidadãos portugueses, facto bem evidente quando se consultam os arquivos da “PIDE” na Torre do Tombo, em Lisboa (será que Nuno Palma algum dia se predispôs a desenvolver essas e outras árduas pesquisas nos arquivos?).

Escrever e reescrever a História é um pouco como estar dentro de uma sala completamente escura e ir procurando iluminar o mais possível o que nos rodeia, procedendo assim à sua interpretação e contextualização, do modo mais objectivo possível. Ora, Nuno Palma tem uma lanterna no bolso, mas só ilumina o que lhe dá mais jeito ou então insiste em não querer ver... Queixa-se de ser vítima de uma campanha de falsificação e manipulação, quando na verdade é ele que, embora invocando constantemente a ciência, insiste em apenas mobilizar os dados que mais lhe convêm.

Os novos ideólogos gritam frequentemente pela ciência e declaram-se imunes à ideologia. Deveriam assumir, porventura, uma atitude mais humilde: reconhecer que ninguém é completamente imune à ideologia e que, por isso, deveriam proceder a uma auto-crítica permanente. Daí o conselho de José Pacheco Pereira, que, afinal, serve para todas as pessoas verdadeiramente interessadas em perseguir o conhecimento e não apenas fazer parte de manifestações político-ideológicas: ESTUDEM!

Referências bibliográficas: Conversa de Camilo Lourenço com Nuno Palma, no programa “A cor do dinheiro”: https://fb.watch/64DFdES75S/; Movimento Europa e Liberdade (3.ª Convenção, 4/6/2021) — https://youtu.be/v4zr58fJq6s; Blogue de Nuno Palma ― “Portugal no longo prazo”: https://nunopgpalma.wordpress.com/; José Pacheco Pereira, “A indústria de falsificações do Estado Novo”, Público, 5/6/2021; Nuno Palma, “Cortinas de fumo: a indústria de falsificações e deturpações”, Público, 8/6/2021; Nuno Palma, “A profundidade histórica do atraso português”, Público, 27/6/2021; Fernando Rosas, “O milagre da economia sem política”, Público, P2, 20/6/2021; PORDATA: “Taxa de analfabetismo segundo os censos” (https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+analfabetismo+segundo+os+Censos+total+e+por+sexo-2517); Adélia Carvalho Mineiro ― Valores e Ensino no Estado Novo. Análise dos Livros Únicos, 1.ª edição, Lisboa, Edições Sílabo, 2007; Alain Besançon ― A dor do século. Sobre o comunismo, o nazismo e a unicidade da Shoah, Lisboa, Quetzal Editores, 1999; Rómulo de Carvalho ― História do Ensino em Portugal. Desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-

-Caetano, 4.ª edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Há pedras que não se levantam- Artigo de Mia Couto (escritor Moçambicano)


Um texto maravilhoso de um grande escritor escritor moçambicano que nos dá a conhecer os motivos que levaram à ascensão do Estado Islâmico em Moçambique. Redigido em exclusivo no Newletter do  Fumaça. Um fantástico grupo de jovens jornalistas. Consultem o site. 

Deixo-vos o texto de Mia Couto:

 Olá. 

Os escritores alimentam uma relação equivocada com os outros. Talvez eles sejam escritores por essa mesma razão: a consciência de que estão equivocados quando representam o mundo. Os escritores, em geral, não resistem à tentação de ficarem calados quando lhes dirigem todo o tipo de perguntas. Vão a todas. Têm opinião sobre tudo: sobre a situação no Iraque, sobre as ameaças climáticas, sobre o destino do Trump, sobre os caminhos atribulados da COVID-19. Perguntas que não se fazem a um exímio dentista ou a um engenheiro espacial são dirigidas aos escritores como se eles fossem dotados de uma sabedoria particular. No meu caso, quando me fazem essas perguntas, a resposta mais honesta seria confessar: eu escrevo exatamente porque não sei. Sou um especialista em ignorâncias. E imagino que essa seja a mesma condição de todos os poetas e escritores: o gosto de reconhecer a sua mais profunda falta de erudição sobre o mundo. A única habilidade do escritor é enfrentar sem disfarce este desamparo. 

Toda esta palavrosa introdução vem a propósito do desafio que a Fumaça me lançou: escrever umas tantas linhas sobre a situação de guerra em Cabo Delgado. Quando me pedem explicação sobre o conflito no Norte de Moçambique, a primeira coisa que me ocorre é a admissão da minha incapacidade. Sei que esta declaração de não entendimento não resulta. O mais fácil e o mais lucrativo para um jornal seria apresentar certezas com a energia com que um jogador de cartas joga um trunfo sobre a mesa. 

Esta minha contribuição tem a pretensão de sugerir como a abordagem jornalística da situação em Cabo Delgado tem alertado para a existência de um drama de dimensão global. Mas nem sempre a abordagem redutora de um certo tipo de jornalismo nos ajuda ao entendimento das causas daquela violência. 

Quando surgiram os primeiros ataques na província nortenha de Cabo Delgado alguns sociólogos ligados a ONGs anunciaram que tinham uma explicação sobre o que estava a acontecer. A elucidação não variava: os revoltosos insurgiam-se contra a exclusão social, manifestam-se contra práticas injustas de representantes do Estado. Tratava-se, pois, de uma violência esperada e legitimada contra a violência do Estado moderno. Essa explicação tinha um “senão”: ela explicava muito pouco. Em todas as províncias de Maputo acontece a mesma exclusão e a injustiça. Porquê só ali, na costa de Cabo Delgado, ocorria esse fenómeno? Não existe Estado que não imponha a sua presença por vias que não tomam em conta as especificidades das práticas rurais e locais de governação que uns chamam de “tradicional”. 

Por um acaso, posso dizer que conheço aquela região. Desde 2004 que, no meu trabalho de biólogo, visito os distritos de Palma e Mocímboa da Praia, os mesmos distritos onde hoje sucedem os ataques terroristas. Perdi a conta às vezes em que, de tenda às costas, fiz estudos de ecologia naquelas zonas costeiras. Essas permanências duravam, por vezes, várias semanas. Nas primeiras visitas, eu vi aquilo que corresponde ao estereótipo que a Europa construiu da “África profunda”. Cruzávamos na estrada com elefantes, a aldeia onde eu acampava foi objeto de ataques de leões que, num espaço de três meses, devoraram 25 mulheres camponesas. A presença do Estado era uma coisa vaga, quase inexistente. Foi ali – e não podia ser em mais nenhum lugar de Moçambique – que escrevi o romance “A Confissão da Leoa”. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que entre os camponeses, pescadores e caçadores daqueles lugares era muito nebuloso o sentimento de pertença nacional. Quando queria saber do mundo, aquela gente olha para o oceano. É ali que mora o grande caminho, é por esse grande mar que se encontra o grande cordão que os mantém ligados a uma identidade antiga e coletiva. Até ao início do século XX, aquela região, apesar de estar dentro do mapa de Moçambique, funcionava como parte orgânica de um velho império Swahili que, durante séculos, respondeu perante o sultão de Zanzibar. 

Era raro ver por ali uma autoridade que representasse o Estado, essa criatura abstrata e distante cuja cabeça está a três mil quilómetros, lá no Sul, onde se fala outra língua, se pratica outra religião e se constrói uma outra narrativa do que será o futuro. As pessoas raramente falavam português, não escutavam nem as rádios e muito menos as televisões de Moçambique. Sintonizavam as estações tanzanianas. Aos poucos, porém, aquela paisagem humana foi mudando. E o que eu não via era bem mais do que era visível. Negócios obscuros de drogas, de negócios de trânsito de imigrantes vindos dos Grandes Lagos, de venda de rubis fizeram enriquecer camponeses pobres que beneficiavam da ausência total do Estado. Não se pode ser ilegal quando a lei do Estado não prevalece. Não havia outra lei senão os mandamentos locais. Não era preciso ser informal. Porque faltava o formal. Camponeses viraram garimpeiros, pescadores viraram transportadores de mercadorias, caçadores viraram motoristas que transportavam cargas humanas. Enfim, uma terra completamente periférica passou a sentir que era o centro e que vivia bem sem a presença de outros. Mas a riqueza criada por esses pequenos e clandestinos negócios deixava de lado a grande maioria da população local. 

De repente chegou o Estado. E quis impor ordem. Quis controlar, quis ficar dono como é da sua própria natureza. Chegaram também as empresas estrangeiras. Que obrigou a que se pagasse impostos e exigiu dos camponeses ricos e pobres que passassem a ser cidadãos de um Estado moderno. Esse foi o grande primeiro embate. Essa modernidade que assim se estabelecia roubava espaço aos mecanismos locais legítimos (e sobretudo os ilegítimos) que se haviam estabelecido. 

Mas houve mais, houve uma invasão progressiva de profetas radicais que, em nome da religião, preparavam a violência que hoje se manifesta. Jovens que tinham sido enviados para “estudar” na Arábia Saudita e no Sudão regressavam como mensageiros de uma nova verdade. E que consideravam que o islamismo há séculos estabelecido na região era uma deturpação de uma leitura mais pura do Alcorão. Testemunhei encontros de violência verbal e física entre os muçulmanos já instalados em Cabo Delgado e os que chegavam vindo de outras madrassas, de outras geografias. Em 2004, fui obrigado a fugir do pátio de uma mesquita para onde eu tinha sido convidado para falar com a comunidade religiosa. Inesperadamente, a mesquita foi assaltada violentamente por jovens muçulmanos que defendiam “outro” Islão.

Vou deixar de lado outras dimensões daquelas sociedades da costa de Cabo Delgado (é importante entender que a violência atinge sobretudo os distritos litorais). Seria importante conhecer tensões étnicas que possuem raízes antigas, sobretudo naquela zona costeira. Recordo-me de que, enquanto preparava para escrever um outro livro, viajei por aquelas zonas em busca de memórias da escravatura. Ninguém se oferecia para depor, ninguém queria partilhar histórias antigas. Escravatura?, perguntavam, fingindo-se perplexos. Nunca aqui houve nada disso, respondiam. Até que um dia um velho deu-me o seguinte conselho: há pedras que não se levantam, debaixo delas moram fantasmas que nunca foram enterrados. 

Não quis neste breve artigo dar respostas. A intenção foi apenas sugerir que, como disse o velho pescador, há fantasmas antigos por debaixo de pedras. A violência em Cabo Delgado tem dimensões históricas, sociais, religiosas que escapam a uma resposta fácil e total. 


Mia Couto

Escritor e biólogo moçambicano

sábado, 30 de janeiro de 2021

O passaporte da minha avó Autor: Renato Nunes

Tenho à minha frente o passaporte da minha avó materna, nascida em 1911, ano em que foi publicada a lei da separação das Igrejas do Estado. O referido passaporte, emitido na década de 30 do século passado, invoca as viagens marítimas realizadas entre Portugal e o Brasil (Santos), contendo os necessários carimbos da polícia política do Estado Novo (à época designada Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). O regresso definitivo ao território nacional ocorreu entre os derradeiros dias de Agosto e o início de Setembro de 1939. Eis, por conseguinte, a minha avó no meio do Atlântico, provavelmente temerosa com a passagem do Equador, enquanto deflagrava a II Guerra Mundial (1 de Setembro).

Chegava, assim, ao fim uma aventura iniciada uns anos antes, em circunstâncias pouco ou nada favoráveis, pois o crash da bolsa de Nova Iorque, em 1929, desencadeara uma das maiores crises financeiras, políticas e sociais, com ramificações a nível mundial. O repatriamento para Portugal, enquanto “indigente” (como figura no passaporte), comprova o que acabei de dizer. Alguns meses depois nasceria a minha mãe, filha de mãe solteira e de pai incógnito, numa remota aldeia do interior beirão. E penso que não serão necessárias mais palavras para o leitor imaginar o profundo estigma que à época recaiu sobre essa mulher recém-chegada do Brasil, de olhos castanhos, com 1,51m de altura e, como era comum na época, sem nunca ter desfrutado do privilégio de frequentar a escola para aprender a ler e a escrever…

Enquanto jovem, mal tive a oportunidade de conhecer a minha avó materna, mas hoje, já na casa dos 40, penso muitas vezes nesta destemida mulher e no drama da sua vida, passada a tratar das pesadas lides domésticas e agrícolas, próprias ou alheias, para à noite regressar a um casebre de granito, sem água, sem luz ou gás, onde o vento e a chuva faziam sentir a sua presença. Mas sempre com os velhos baús de madeira, vindos do Brasil, presentes no espaço nobre da sala improvisada... 

À medida que os anos transcorrem, o estudo do indivíduo e das suas circunstâncias insiste em fascinar-me cada vez mais. O exercício biográfico proporciona-nos, desde logo, um “encontro” com o ser humano, nas suas várias facetas e realidades quotidianas, quer enquanto personalidade pública ou simples cidadão anónimo. Quando se estuda um Homem, o local e o global entrelaçam-se de um modo tão inextricável, que é impossível compreender um sem mobilizar o outro. O exemplo concreto da minha avó e das circunstâncias dramáticas nas quais o mundo estava mergulhado quando ela procurou viver a aventura do Brasil poderão ajudar o leitor a compreender melhor o que pretendo afirmar. Outro exemplo concreto poderia passar pela participação dos portugueses na I Guerra Mundial: imaginar um dos meus conterrâneos beirões, “serranos”, nas trincheiras da Flandres, entre 1917 e 1918, é um pouco como se me fosse permitido contemplar o momento em que a história do indivíduo e a história do mundo deram as mãos (a obra de Isabel Pestana Marques — Das Trincheiras com saudade — é a este respeito uma sugestão de leitura incontornável).

É nesta mesma linha que gostaria de partilhar o entusiasmo que vivi recentemente, enquanto lia sofregamente um livro intitulado História Global de Portugal, dirigido por Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva. Trata-se de um conjunto de 93 textos produzidos por cerca de 80 autores, integrados em cinco partes aglutinadoras: Pré e Proto-História, Antiguidade, Idade Média, Época Moderna e Época Contemporânea.

Um dos aspectos surpreendentes da obra, com um total de 660 páginas, reside, desde logo, na sua estrutura coerente e rara limpidez textual. Os textos individuais, com cerca de seis páginas, podem ser lidos nos momentos mais banais do quotidiano, trazendo-nos um conjunto de sínteses, que colocam em causa vários mitos que continuam erradamente a ser repetidos até à exaustão. Apenas alguns exemplos: a associação simplista dos Montes Hermínios à Serra da Estrela, bem como da Lusitânia ao actual território português ou até mesmo a pouco sustentada associação de Fernão Magalhães a um suposto projecto de circum-navegação do Mundo, quando, de acordo com as fontes disponíveis, o seu objectivo passou isso sim por atingir as Molucas (ou ilhas de “Maluco”), na Indonésia. Poderia também destacar teses particularmente interessantes, como sejam as sucessivas movimentações humanas, já desde a Pré-História, a emissão de gás metano antes da Revolução Industrial (século XVIII), o entrelaçamento entre o mundo atlântico e o mundo mediterrânico, pelo menos desde a Idade do Bronze (III milénio a.C.), bem como alguns apontamentos interessantes a respeito da presença dos Viquingues no território que actualmente integra Portugal ou ainda um actual exercício de síntese a respeito da peste negra, no século XIV, que teria provocado a morte de aproximadamente 50 milhões de pessoas, das cerca de 80 milhões que à época viveriam na “Europa” (p. 272), bem como uma interessante entrada sobre o estudo da cultura do arroz em Portugal (pp. 347-351).

Este esforço, ainda pouco comum mesmo na comunidade científica nacional, de congregar um número elevado de investigadores à volta de um projecto comum, procurando entrelaçar o local e o global afigura-se-me meritório, sendo que a obra em causa passa a constituir uma ferramenta de trabalho quase obrigatória, quer na mesa de outros investigadores, professores ou simples curiosos pela compreensão do mundo em que vivem.

A reflexão que agora procuro desenvolver ajuda-me também a recordar um antigo professor universitário chamado Saul António Gomes, um historiador especializado na Época Medieval, ao qual, se bem me lembro, ouvi repetidamente — durante as aulas de Paleografia e Diplomática — sustentar que era forçoso ultrapassar a velha dicotomia entre o local e o nacional/mundial, pois os designados “estudos locais” ainda eram frequentemente percepcionados de um modo particularmente pejorativo. Não posso assegurar que eram exactamente aquelas as palavras utilizadas pelo aludido docente, mas aquela ideia continua, cerca de duas décadas depois, bem presente no meu espírito e esta também é, por conseguinte, uma das melhores homenagens, que, segundo creio, posso continuar a prestar-lhe.

Entre os aspectos mais discutíveis da obra, talvez seja importante destacar os seguintes: associação, frequentemente forçada, do tema em estudo a um suposto e quase obsessivo carácter global, o que, como teve oportunidade de assinalar Diogo Rama Curto numa crítica particularmente incisiva (p. 401), se traduziu, por vezes, em exercícios que roçam o anacronismo; uma perspectiva, porventura, demasiado decalcada da interpretação eclesiástica do fenómeno das “Aparições” de Fátima (1917), apresentada pelo historiador do Departamento de Estudos do Santuário de Fátima, Marco Daniel Duarte (pp. 573-578), parecendo ignorar, por exemplo, a transformação da própria mensagem apresentada pela Igreja Católica (os designados “segredos”) ao longo do século XX (ver, a este respeito, os estudos do historiador Luís Filipe Torgal ou numa perspectiva mais teológica as obras do proscrito padre Mário de Oliveira, bem como os “inflamados” textos de Tomás da Fonseca). Destaque-se, ainda, a quase omissão dos Açores (abordados superficialmente), que, à semelhança do que sucedeu com a Madeira, bem mereciam um texto individualizado; a integração do Estado Novo, num período situado logo a partir de 1928 (p. 359), o que, em certo sentido, escamoteia as especificidades da Ditadura Militar/Nacional (1926-1932); a ausência de notas de rodapé, o que se por um lado permite uma leitura mais fluida dos textos, por outro lado impede a confirmação dos elementos mencionados e, neste sentido, dificulta o trabalho de outros investigadores que pretendam debruçar-se sobre o tema.

Estes e outros aspectos da obra, que mereciam ser discutidos e aprofundados, não obscurecem, no entanto, o seu inestimável valor e pertinência, justificando-se plenamente a sua leitura. Afinal, os tempos que vivemos revelam-se cada vez mais incertos e com perigosas e assustadoras similitudes com as décadas de 20 e 30 do século passado, no decurso das quais milhões de pessoas ansiaram por um salvador, que destruísse o sistema e voltasse a construir, do vazio, um mundo perfeito. O resultado monstruoso desse passado já muitos de nós o conhecem, mas qual será o resultado deste presente que agora vivemos? Qual será o desfecho desta tendência assustadora que leva a que, em várias freguesias portuguesas, a extrema-direita se torne numa das forças políticas mais votadas?

Os argumentos, os não-argumentos, a hipocrisia e a loucura dos novos potenciais ditadores que por aí pululam, alimentados pelos dramas que estamos a viver, apenas poderão ser combatidos com mais conhecimento científico e políticas inclusivas. Eu não conheço outra ferramenta que possa ajudar-nos tanto nesse combate como a História. É também por isso que, apesar de as contingências da vida me terem forçado a procurar a sobrevivência para além das suas fronteiras profissionais, continuo frequentemente a agradecer o privilégio de poder estudá-la. A agradecer a todos aqueles que me ajudaram a amá-la, em especial aos professores com os quais tive a sorte de cruzar-me. É também graças a essa ciência-narrativa que pude e posso diariamente compreender melhor aqueles que me rodeiam e rodearam, como a minha querida e saudosa avó materna, que um dia rumou para o sonho do Brasil, em busca de uma vida melhor, mas poucos anos depois foi forçada, também pelo terrível poder da crise global, a regressar ao país natal, no navio “Highland Princess” e a enfrentar uma sociedade ultraconservadora e machista, onde a mãe solteira era frequentemente alvo da chacota e da exclusão social…

Mais do que através de leis e mais papéis, a inclusão constrói-se com conhecimento e sabedoria, algo que dificilmente se poderá separar da História. Ignorar isto é continuar a alimentar os extremismos. E quem alimenta monstros, acaba por ser devorado por eles — é apenas uma questão de tempo…       

Referências bibliográficas: Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva (direcção) — História Global de Portugal, 1.ª edição, Lisboa, Temas e Debates, 2020.

 

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sexta-feira, 31 de julho de 2020

CHEGA: direita radical ou extrema-direita?

Riccardo Marchi, investigador e professor universitário, publicou em Junho de 2020, um ensaio a respeito do CHEGA, no qual sustenta, entre outros aspectos, que o partido criado por André Ventura não pertence à extrema-direita, mas sim à “direita radical”, pois “a sua cultura política não tem nada a ver, do ponto de vista doutrinário, com os autoritarismos de direita dos anos 20 e 30 do século passado” (Riccardo Marchi, 2020, p. 194). Ainda segundo Riccardo Marchi, o CHEGA não é racista, embora ― como admitiu André Ventura ― o discurso do partido possa ser favorável à aproximação dos racistas.

            Na obra de Riccardo Marchi sustenta-se ainda que a acção de André Ventura é controlada pela moral cristã e que várias propostas do CHEGA, nomeadamente ao nível fiscal, padecem “ainda de clareza” (Riccardo Marchi, 2020, p. 156). Já na parte das conclusões do aludido ensaio que inspira este artigo, Ventura é descrito como um “político jovem, ambicioso, pragmático, empático, telegénico, com discurso contundente e capacidade oratória já treinada na polémica mediática”, cujo perfil e prática, até ao momento, não tem pretendido “promover o culto da personalidade” (Riccardo Marchi, 2020, ps. 198 e 199). No entanto, na entrevista que concedeu ao Diário de Notícias (25/6/2020), o politólogo sustentou que o partido em causa ainda não possui uma “coluna vertebral”, parecendo, por conseguinte, ignorar que esse facto deriva, sobretudo, da excessiva concentração de poderes no mediático André Ventura que, de resto, se confunde com o CHEGA. Um pouco à semelhança — acrescentado da minha responsabilidade — do que sucedeu com o Estado Novo de Salazar, que não se cansou de sustentar a sua suposta originalidade e no pós II Guerra Mundial, perante a derrota dos regimes fascistas e nazi, chegou mesmo a caracterizar-se como uma “democracia orgânica”.

            No que diz respeito à distinção apresentada entre “extrema-direita” e “direita radical”, segundo Riccardo Marchi “o primeiro tem carácter anti-sistema e objectivos subversivos de abate do regime vigente, através também de meios violentos”, enquanto o segundo respeita as regras do jogo (Riccardo Marchi, 2020, pp. 191-192). Uma distinção, de resto, presente no ideário do CHEGA: “Confunde-se muito radicalismo com extremismo” (Programa 2019). A este respeito, importa, porém, recuperar uma das pertinentes interrogações de André Freire, num artigo recentemente dado à estampa: o CHEGA pretende acabar com a III República, através de um referendo constitucional, “mas não será que tal proposta viola a ordem constitucional vigente, democraticamente instituída”? (Jornal de Letras, 15 a 28/7/2020).

            Na página oficial do CHEGA, é possível encontrar o Programa 2019, um extenso documento, cujos enunciados são muitas vezes ambíguos, vagos e até mesmo contraditórios (https://partidochega.pt/programa-politico-2019/). Em jeito de síntese, trata-se de um conjunto de princípios neo-liberais, que pretendem acabar com o “Estado Providência” e iniciar um processo de privatizações (inclusive no ensino, na saúde e no património), cujo desenlace inevitável seria colocar o destino nacional nas mãos do mercado (algo ainda mais estranho, se pensarmos que André Ventura se assume claramente como um nacionalista defensor da soberania nacional, uma matéria tão importante que, se colocada em causa, o levaria até mesmo a sustentar a saída de Portugal da União Europeia — neste domínio, será interessante mencionar que numa fase anterior o CHEGA assumiu-se mesmo como antieuropeísta). Veja-se ainda o que figura, no citado documento, no ponto quatro do tema Emprego: “Para que os fluxos aumentem é necessário facilitar as contratações e isto só é possível se os custos de «empregabilidade» – salários, restrições legais, horários de trabalho rígidos, difícil acesso a informação, contribuições para a segurança social e custos de despedimento – forem reduzidos”.

Face ao exposto, conclui-se facilmente que as actuais preocupações sociais do Estado passariam a pertencer às designadas funções “acessórias, subsidiárias e/ou supletivas”, tendendo, portanto, para a mera residualidade. A respeito das escolas, que poderiam ser compradas pelos professores (?!), o CHEGA defende o “fim da aplicação das ideologias de inclusão e ideologia de género no sistema nacional de educação, colocando-se termo à aplicação das orientações da ONU relativamente às chamadas «questões psicológicas de transtorno de identidade de género»”.

            Entre os princípios defendidos no aludido Programa, importará ainda destacar: o aumento das propinas universitárias para os cursos das ciências sociais e humanas, privilegiando, por oposição, as áreas científicas e técnicas (“as propinas a pagar por um curso de Sociologia terão de tender para o custo real do curso”); o alargamento do horário de trabalho dos profissionais de saúde das 35 horas para as 40 horas; a redução dos deputados, de 230 para 100; a defesa da tauromaquia, por oposição à eutanásia e ao aborto (que, neste último caso, apesar de pretenderem proibir, não querem criminalizar…) e a desvalorização do poder legislativo e executivo, em função do presidencialismo puro. Numa época em que o poder local dos cidadãos assume cada vez maior importância, o CHEGA preconiza, com inequívoca incoerência à mistura, a redução do número de freguesias, sustentando ainda que todos “os ministérios e serviços correspondentes” passem a concentrar-se “numa mesma área geográfica, de forma a permitir uma diminuição drástica dos seus custos operacionais, bem como das imensas horas perdidas, para a economia nacional, pelos cidadãos” (Programa 2019).  

Invocando a iminente perda da nossa identidade judaico-cristã, o CHEGA proclama o perigo da imigração ilegal (prevê, pois, a eliminação de quaisquer apoios aos imigrantes ilegais, que seriam deportados para os seus países de origem): “Qualquer imigrante que tenha entrado ilegalmente em Portugal estará incapacitado, para o resto da sua vida, para legalizar a sua situação e, portanto, a receber qualquer auxílio da Administração” (Programa 2019). Sustenta-se também a “abolição das autorizações de residência por razões humanitárias, redução do sistema de acolhimento de refugiados só para menores desacompanhados e pessoas qualificadas para protecção internacional” (Riccardo Marchi, 2020, p. 173). Enfim, coloca a tónica na distinção entre nós, herdeiros da matriz judaico-cristã, e os outros. Neste sentido, o islão é percepcionado como “uma ideologia político-religiosa, totalitária e imperial […] a principal e permanente ameaça à Civilização ocidental” (Riccardo Marchi, 2020, p. 182). Além disso, a comunidade cigana, os homossexuais e outras minorias são frequentes alvos de crítica pública por parte dos adeptos do CHEGA. A respeito dos homossexuais, o Programa 2019 defende o “fim da promoção, pelo Estado, de incentivos e medidas que institucionalizem os casamentos entre homossexuais e a adopção de crianças por «casais» homossexuais”, parecendo, no entanto, deixar em aberto a possibilidade das uniões de facto.

            O objectivo do CHEGA é fundar a IV República em Portugal e não apenas melhorar o sistema que existe, herdado da revolução de Abril de 1974. Por muito que os seus dirigentes defendam que ninguém seria prejudicado, por exemplo, com as privatizações levadas a cabo na educação (seriam atribuídos cheques-ensino, até mesmo na Universidade), é evidente que, nesses tão ansiados novos moldes neo-liberais, a economia de mercado aumentaria ainda mais as desigualdades sociais. 

            Disse André Ventura: “Chamam-nos fascistas, mas é por não terem noção do que é o fascismo. Só pode ser. Porque o fascismo é o oposto do liberalismo” (Riccardo Marchi, 2020, p. 83). Nas suas habituais arremetidas mediáticas, Ventura procura criar mundos antagónicos e irreais, a preto e branco, esquecendo-se, no entanto, que o fascismo, enquanto realidade histórica, da primeira metade do século XX, bem mais complexa do que as suas palavras dão a entender, socorreu-se do grande capital. Como escreveu Umberto Eco: “O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, uma amálgama de contradições” (Umberto Eco, 2017, p. 17). Além disso, não deixa de ser interessante constatar que, no que diz respeito à política orçamental, o CHEGA pretende dar prioridade absoluta “às necessidades dos ministérios que consubstanciam as Funções Soberanas do Estado, ou seja, Ministérios da Justiça, Administração Interna, Defesa e Negócios Estrangeiros” (Programa 2019). Matérias, afinal, determinantes para um maior controlo da sociedade, ou não fosse a garantia da ordem (naquele que ainda é, contudo, um dos países mais seguros do mundo) uma das bandeiras de marca de André Ventura.

            Se, por um lado, o ideário do CHEGA parece reivindicar uma certa “objectividade” no ensino da História: “O ensino e a promoção, sem interferências revisionistas e ideologias que a adulterem, da História de Portugal, alicerçadas nos Factos objectivos que a marcaram”; por outro lado, defende um: “Sistema Educativo acessível a todos, vocacionado para a consolidação dos valores culturais e civilizacionais judaico-cristãos, sem interferência de correntes que se filiam na chamada «ideologia do género» e no dito «marxismo cultural»” (Programa 2019). Ainda no âmbito da História, tal como Riccardo Marchi recordou, o CHEGA “contesta o enviesamento ideológico presente, por exemplo, na estigmatização da secular expansão ultramarina e na visão unilateral do 25 de Abril” (Riccardo Marchi, 2020, p. 95). Temos, pois, o ensino “objectivo” da História, mas com base na matriz da identidade portuguesa imaginada e oficializada pelo CHEGA, que, como já tivemos oportunidade de verificar, pretende eliminar a escola pública — aquela que, com todos os defeitos, ainda permanece como uma das grandes conquistas da revolução de Abril. Eis, por conseguinte, um amontoado de incoerências, contradições e ambiguidades, que permitem todo o tipo de leituras e perniciosos desenvolvimentos futuros.

            É altura de dizer que, de acordo com a minha interpretação, o CHEGA é um partido de extrema-direita. Aliás, Ventura “reconhece publicamente a sua proximidade ao Vox espanhol e à Lega italiana” (Riccardo Marchi, 2020, p. 149). No pretérito dia 2 de Julho, vários órgãos da imprensa, entre os quais O Observador, noticiaram que: “O Chega aceitou o convite para aderir ao grupo europeu Identidade e Democracia (ID), que integra partidos de extrema-direita”. O Observador transcreveu mesmo as reacções de Ventura: “Nós tínhamos já feito alguns contactos europeus. Tivemos primeiro uma maior aproximação ao grupo onde está o Vox, mas o desenvolvimento dos contactos internacionais aproximou-nos mais, quer do partido de Matteo Salvini, quer da Frente Nacional francesa”.

Entre as referências políticas de Ventura encontram-se Beppe Grillo e o Movimento 5 Estrelas, bem como Donald Trump (Riccardo Marchi, 2020, p. 147). Importa, pois, reconhecer que, contrariando a tese de Riccardo Marchi, a “Nova Direita Radical” não é mais do que a velha extrema-direita, travestida de algumas supostas alterações, mas que continua a alimentar-se do medo reinante nos povos, o qual, por sua vez, fomenta o ódio entre as pessoas. São, afinal, evidentes as contradições e ambiguidade que atravessam o ideário do CHEGA e que se espelham nas práticas do próprio líder: acérrimo defensor da exclusividade de funções dos deputados, André Ventura apenas passou, de acordo com a biografia constante na página do Parlamento, a cumpri-la muito recentemente, pois até ao dia 30 de Junho de 2020 exerceu funções de consultor na Finpartner, SA   (https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Biografia.aspx?BID=6535). Isto para já não falar, claro, das contradições, que o próprio reconheceu, entre as ideias sustentadas na sua tese de doutoramento e as ideias políticas actualmente defendidas pelo mesmo, bem como o apoio da Igreja Maná à sua causa. Mas, como é evidente, os apoiantes do CHEGA poderão sempre dizer que isso são pormenores e que o programa do partido (dotado de uma ideologia supostamente flexível) irá ser clarificado, pois está a ser interpretado de modo erróneo. Certo é que, enquanto se levanta a dúvida e também graças às circunstâncias dramáticas que se avizinham (com o desemprego a atingir números assustadores) e também, importa sublinhá-lo, devido a estudos pouco rigorosos como o do historiador-politólogo Riccardo Marchi, continuarão a chegar novos filiados ao CHEGA; e as Presidenciais e as Autárquicas serão já em 2021... Como André Freire teve oportunidade de escrever, em muitos casos, o estudo de Marchi “destaca-se pouco da forma como o partido se apresenta a si próprio na arena política, ou problematiza pouco ou nada determinadas contradições insanáveis nas suas propostas” (Jornal de Letras, 15 a 28/7/2020). Além disso, continuando a seguir as palavras de André Freire, a obra de Marchi, apesar de ser importante para compreender, por exemplo, a evolução do partido de André Ventura, foi elaborada fundamentalmente a partir de um conjunto de entrevistas a dirigentes do CHEGA e no “escrutínio de documentos do partido e de peças jornalísticas”, sendo de realçar a ausência de “bibliografia académica” indispensável, de resto, para um estudo historiográfico.  

            As previsões demográficas mais recentes calculam que Portugal continuará a perder população a um ritmo assustador: “há 23 nações, incluindo Portugal e Espanha, que devem ter metade da população em 2100” (RTP, 15/7/2020). Nesse sentido, como escreveu Milton Blay: “A história do mundo é uma história das migrações e querer fechar fronteiras é uma tentativa de contrariar a natureza humana, sobretudo em uma época em que a Europa envelhece e vive em deficit demográfico crónico, precisando do aporte de estrangeiros” (Milton Blay, 2019, s/p). Num país fortemente marcado pela emigração como é Portugal (que ainda permanece como um dos mais seguros do mundo), não deixa de ser curioso verificar até que ponto o discurso propagandístico de Ventura tem vindo a colher votos, a ponto de as sondagens já colocarem o CHEGA como a terceira força partidária nacional. Algo que a crise económico-financeira e social dinamitada pela pandemia tenderá ainda a fazer aumentar nos próximos anos, um pouco à semelhança do que ocorreu no século passado com a Grande Depressão. Isto para já não falar nos inúmeros exemplos de ineficácia da justiça perante a corrupção...

Numa época em que a União Europeia corre o risco de desmoronar-se, em que os Estados Unidos deixaram de ser reconhecidos como o farol do mundo e que espreita a provável segunda vaga da COVID-19, tudo pode acontecer (aliás, o líder do PSD, Rui Rio, até já admitiu a possibilidade de futuras “conversações com o Chega”, apesar de reconhecer tratar-se de “um partido marcadamente de direita, em muitos casos de extrema-direita”: Público, 30/7/2020). As palavras do historiador Yuval Noah Harari parecem-me cada vez mais significativas: a estupidez humana não pode ser subestimada…

            Como escreveu Umberto Eco, seria “tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: «Quero reabrir Auschwitz, quero que as camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!» Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-Fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes. O nosso dever é desmascará-lo e apontar a dedo cada uma das suas novas formas — diariamente, em todo o mundo” (Umberto Eco, 2017, p. 29).

Os muros da extrema-direita entre nós e os outros, por muito tentadores que se apresentem nas redes sociais, serão novamente pagos com o sangue de milhões de seres humanos…

 

Referências bibliográficas: Milton Blay ― A Europa Hipnotizada. A escalada da extrema-direita, São Paulo, editora Contexto, 2019; Riccardo Marchi A Nova Direita Anti-Sistema. O caso do CHEGA, 1.ª edição, Lisboa, Edições 70, 2020; Umberto Eco — Como reconhecer o Fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, Lisboa, Relógio D’Água, 2017.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)