Mostrar mensagens com a etiqueta União Europeia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta União Europeia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 28 de março de 2020

Merkel conseguiu evitar o pior. Resta saber por quanto tempo (Artigo de Opinião de Teresa Sousa- Jornal Público)


1. Esperava-se que corresse mal. Correu pior. A única réstia de esperança é que poderia ter corrido ainda pior. Mas continua a ser legítimo dizer que não parece haver número de infectados ou de mortos, cenários catastróficos para a economia, números do desemprego a dispararem a uma velocidade raramente vista, cidades-fantasmas, angústia generalizada quanto ao futuro, que consiga levar os líderes dos 27 países da União Europeia a agirem como europeus. Foi triste a imagem que o terceiro Conselho Europeu por teleconferência deu de si próprio. E não foi por culpa de todos.
Também é legítima uma discussão sobre dívida conjunta ou sobre o montante de crédito que o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) deve conceder aos Estados-membros. Ela foi, certamente, intensa na última reunião do Eurogrupo que precedeu a cimeira e que, perante a constatação de divisões insanáveis, preferiu passar aos líderes a responsabilidade da decisão. Não é essa a questão essencial. O que é mais perigoso na situação que a Europa vive neste momento e na sua incapacidade de reagir em conjunto é que alguns dos seus líderes (ainda) não mudaram a sua forma de pensar. Pensam hoje o que pensavam antes da pandemia.
2. O primeiro-ministro português referiu quatro países que se opuseram à emissão de dívida conjunta para enfrentar a reconstrução económica e social da Europa. Depois corrigiu: três irredutíveis e um quarto que aceita o debate. Não revelou quais foram. Não lhe compete. Mas a forma como decorreu o Conselho, num clima tão tempestuoso que ia levando à ruptura, permite algumas conclusões.
Que os Países Baixos se opõem furiosamente aos eurobonds, seja qual for a forma que revistam, já sabíamos, e não houve qualquer esforço de Mark Rutte em desmenti-lo. Foram, aliás, as declarações do seu ministro das Finanças que levaram António Costa a dizer o que disse durante a conferência de imprensa final do Conselho Europeu, classificando-as de “repugnantes”. As suas palavras tornaram-se virais, provavelmente porque exprimem um sentimento partilhado em muitos países europeus. Na sexta-feira, o primeiro-ministro holandês não as quis comentar, mas sentiu-se obrigado a esclarecer que as palavras do seu ministro terão sido mal interpretadas – qualquer coisa entre “não escolheu bem as palavras” e “não o interpretaram bem”. Rutte também disse que eram “muitos” os países que pensavam como ele sobre a emissão de dívida. Hoje, sabemos que “muitos” quer dizer quatro, mesmo que haja ainda alguns líderes europeus que tenham preferido um relativo silêncio. Mesmo assim, nas últimas horas, mais três países juntaram a sua assinatura aos nove chefes de Estado e de Governo que, na véspera da cimeira, enviaram uma carta conjunta a Charles Michel, defendendo que a Europa precisa de recorrer a todos os instrumentos à sua disposição para enfrentar esta crise, incluindo a emissão de dívida. Entre eles, estão países ricos do Norte, como a Bélgica ou o Luxemburgo, mas também a França, a Itália e a Espanha, respectivamente a segunda, terceira e quarta economias do euro, ou Portugal, Irlanda e Grécia e, a partir de sexta-feira, Malta, Chipre e Lituânia.
3. O choque frontal que quase levou o Conselho Europeu à ruptura foi, como seria de prever, entre Mark Rutte e os primeiros-ministros dos dois países onde o sofrimento atingiu já as proporções de uma tragédia humana: Giuseppe Conte e Pedro Sánchez. Nem um nem outro estavam disponíveis para assinar uma Declaração conjunta cheia de palavras vazias, espelhando apenas o “menor denominador comum”, ou seja, o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) em determinadas condições e a exclusão de “coronabonds”. A ruptura acabou por ser evitada in extremis pela chanceler alemã através de uma intervenção considerada em Lisboa como “construtiva e moderada”, ainda muito longe de ceder no que diz respeito à emissão de dívida conjunta, mas capaz de evitar o pior. O argumento de Angela Merkel em relação aos “coronabonds” não é igual ao “nunca, jamais” de Rutte ou do chanceler austríaco Sebastian Kurz. O seu argumento é que não se deve prometer o que não se tem a certeza de poder cumprir. Mesmo assim, a sua intervenção permitiu aliviar a tensão e encontrar um acordo em torno do ponto 14.º da Declaração, onde nenhuma solução é mencionada para a reconstrução económica pós-pandemia, nem nenhuma é rejeitada. O Eurogrupo volta a ser mandatado para apresentar propostas concretas em duas semanas. “As propostas devem ter em conta a natureza sem precedentes do choque da covid-19, que afecta os nossos países todos”. “A nossa resposta decorrerá passo a passo, à medida que for necessária, com novas acções e de uma forma inclusiva, à luz dos desenvolvimentos e de forma a dar uma resposta abrangente.”
A Alemanha, como Merkel voltou a dizer no final da reunião, prefere o recurso ao MEE. Mas uma das razões pelas quais a Itália, entre outros países, se opõe a este mecanismo de resgate europeu (240 mil milhões dos 410 de que dispõe, que correspondem ao limite máximo de 2 por cento do PIB de cada país), está nas condicionalidades que impõe para a concessão de empréstimos – vistas como uma espécie de “programas de ajustamento” aplicados pela troika durante a crise das dívidas soberanas, com a mesma natureza estigmatizante. Nenhum país, de Portugal a Itália, quer voltar ao tempo da resposta à crise financeira de 2008, com as suas hesitações, as suas decisões no último minuto, as suas “estratégias de punição”, a sua execução em tempo recorde, impedindo as economias de respirar e saldando-se em custos sociais elevados. Sexta-feira, António Costa voltou a insistir nesta comparação.

Também esta sexta-feira, o Financial Times resumia bem a discussão que envolveu os lideres europeus. “Praticamente todos os países sairão desta crise com as suas dívidas inflacionadas e um défice mais pesado. Perante um pano de fundo desta natureza, discutir quem sairá com finanças ligeiramente mais saudáveis seria como vangloriar-se de ter a cara mais limpa depois de um combate na lama.”

4. O Presidente francês e o primeiro-ministro português insistiram no risco de vida que a Europa corre. Não estarão a exagerar. Se esta é a maior crise que os europeus enfrentam depois da II Guerra – como diz Merkel -, se esta é uma “guerra” contra um inimigo comum que não escolha quem ataca, como voltou a dizer esta sexta-feira António Costa, então a resposta só pode ter uma dimensão equivalente. Também esta sexta-feira, o Presidente do Parlamento Europeu, o italiano David Sassoli, manifestando a sua desilusão perante os fracos resultados do Conselho Europeu, lembrou que “ninguém conseguirá escapar a esta emergência sozinho”. “A Europa que vai emergir desta crise não será a mesma. Mas há quem ainda não tenha compreendido isso.”

Artigo de opinião escrito por Teresa Sousa 
Jornal Público 28 de Março

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Europa?

Para quem quiser perceber perceber porque é que muitos europeístas deixaram de se rever nessa coisa a que já se chamou projecto europeu é ler este artigo de Viriato Soromenho Marques.
E sobre os seus ecos em Portugal, este de Manuel Maria Carrilho.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Maus caminhos

Que a UE está transformada numa esfarrapada caricatura daquilo que foram as expectativas que gerou, já se sabia. Que a democracia social se vai esvaziando à conta dos cânones emanados pelos centros económicos e fielmente seguidos pelos idólatras que se sentam nas cadeiras dos governos de turno, também. Que existiam, particularmente nos países do centro e leste, coisas um pouco estranhas, não é novidade. Mas isto...

Fiquei a saber, graças a um magnífico artigo de Jorge Almeida Fernandes, no Público, que, na Hungria, o governo de direita nacionalista fez uma revisão constitucional de tal forma severa que, de futuro, se tornará praticamente impossível a outros governos seguirem políticas que não sejam nacionalistas, etnocentradas (o irredentismo magiar) e retrógradas nos costumes e valores. Pior, para além de a Cosntituição deixar de fazer referência à forma republicana, coloca a «nação» sob os auspícios de «Deus e da Coroa» e a forma como a comunicação social está manietada e controlada, os lugares do aparelho de Estado entregues, de forma blindada, a comissários políticos.

É verdade que não tenho visto televisão nem lido muitos jornais. Mas não me surpreenderia que esta deriva proto-autoritária no país de Horthy não tivesse merecido grande destaque...

De qualquer forma, fica mais esta nota desconfortante sobre os caminhos que se seguem no seio da UE, outrora vista como um notável projecto político.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Entretanto

... a UE deu uma monumental cacetada no sentido da democracia ao aprovar (26 Estados!) o exame prévio de burocracia de Bruxelas de latos poderes sobre os orçamentos nacionais. Sendo o orçamento o grande instumento de qualquer país para executar uma determinada política, a possibilidade de alternativa fica fora da equação. Eleições para quê? Pior mesmo é que isto não tenha merecido uma comoção colectiva. Enfim... tempos de vil decadência.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Indicadores demográficos e económicos

O jornal Público na sua edição online publicou, os indicadores demográficos e económicos dos países do Mundo especificando a  Zona Euro. Pode ser interessante para perceber as discrepâncias existentes e tirar ilações reflexivas.

Deixo aqui o link:
http://static.publico.pt/homepage/infografia/mundo/IndiceDesenvolvimento/?mid=536

domingo, 13 de novembro de 2011

Numa rua da Alemanha!!!!

Não posso deixar de referir uma imagem colocada no blogue Arrastão, por Daniel Oliveira, que retrata com clareza, a forma como o povo alemão vê os países que se encontram endividados e necessitam recorrer ao FMI. A Alemanha e a França, cegamente não se apercebem do mal que estão a fazer a eles próprios, assim como à própria União Europeia, que tem o seu futuro em Risco.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quem cospe para o ar...

É inacreditável o baixo nível e o rasteirismo xenófobo da "boa Europa" contra a "má Europa". Old habbits die hard, com efeito. Sem querer escamotear certos desvarios gregos, há que reconhecer que os PIIGS que estão a morrer não se limitaram a correr para o matadouro, alguém os levou até lá. E esse alguém foi a própria UE construída à luz dos rígidos princípios do mais fanático monetarismo que transformou o BCE numa perfeita inutilidade que, não só nada resolve, como complica e que impede os Estados de utilizarem políticas monetárias (como a desvalorização cambial) para financiar os défices, antes os prendendo a uma moeda hipervalorizada e que beneficia a Alemanha e mais um punhado de países que acumularam enormes quantias de excedentes que exportam para os endividados. Ora, é precisamente daqueles que vêm os comentários mais badalhocos sobre a situação... mas que ocasionalmente recebem resposta à altura. É caso para dizer: para moralista, moralista e meio.

domingo, 6 de novembro de 2011

Million dollars question

Um aspecto que sempre me fascinou nos temas da UE é a ambiguidade da sua natureza que leva os "cientistas políticos" a falarem de uma entidade política (uma polity no linguajar sofisticado do mundo anglo-saxónico) híbrida, em aberto, um objecto político indeterminado, entre outras possibilidades mais ou menos conceptualmente virtuosas como a de multi-level, de F. Scharpf, ou a de federalismo frustrado, de Villaverde Cabral.
Seja como for, a actual farsa que tomou conta de uma UE há muito à deriva parece ser o lado negro dessa mesma indefinição de natureza e de objectivos agravada por lideranças nacionais absolutamente lamentáveis.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Once upon a time...

Não há nada tão mau que não possa piorar...
Já agora, permito-me uma sugestão de leitura algo saudosista (os tempos eram outros e os problemas também) What's Wrong With European Union and How to Fix It, Simon Hix. Três anos é mesmo muito tempo... Não é só a fruta que é biodegradável...


O desmoronar da Democracia

Escrevi no longínquo mês de Março, no contexto da "Primavera Árabe" um enquadramento da palavra Democracia. Curiosamente começou por ser implementado na Grécia ,o designado berço da civilização, que agora esta a desagregar-se, em resultado da convalescença dos mercados, ou melhor da ascensão meteórica do seu poder e influência.

Após a publicação do referido texto, já ocorreram uma convulsão de acontecimentos, que nos atormentam a todos, principalmente a maior franja da sociedade os "plebeus da sociedade média e baixa", os muito afamados 99%.

Atormenta-me perceber que o caminho traçado pela Europa nas últimas décadas conduziu à progressiva fragmentação da sua União Política, observando-se o descalabro da União Monetária. Observa-se que conquistas dos trabalhadores e do povo, que ocorreram durante décadas, os Subsídios de Férias e de Natal, foram aniquilados, em consequência de políticas descompensadas dos sucessivos governos, que beneficiam consecutivamente os grandes lobbies.

Apraz-me registar todos estes cortes, reflectidos nos salários e impostos inferidos ao portugueses, no entanto não é principalmente isso que me atormenta. Preocupa-me sim, que com o alargamento dos mercados e o ganho de influência do poder financeiro sintamos que a corrupção é cada vez mais declarada e a transparência inexistente. Caso os cortes referidos mostrassem um caminho claro, onde a saída fosse detectável, não veria qualquer problema em fazer sacrifícios, o problema é que não é isso que acontece.

A democracia é poder que foi concebido ao povo, através do voto, no entanto os nossos governantes traem diariamente os seus eleitores, escondendo sucessivamente negócios obscuros, que arruiam(ram) as nossas contas públicas, em favor de interesse económicos.
É por todas estas situações que eu me apercebo que a democracia nos seus trâmites originais , está a desmoronar-se, pois como refere José Saramago, quem Governa não são os governos mas as Grande empresas e interesses económicos. No fundo quem manda, ou neste caso ganha sempre, são os mercados e cada vez menos os cidadãos. 

domingo, 25 de setembro de 2011

Na Grécia

http://www.presseurop.eu/pt/content/article/978511-um-verdadeiro-genocidio-financeiro

STOP

De paragem obrigatória para ler e pensar. Infelizmente pouco mais se poderá fazer. Estes dramas pouco dizem e em nada comovem aos graves e seráficos senhores do dinheiro e aos seus subservientes comissários políticos.

Texto sugerido por Sérgio Vieira


A trivialização do desespero

Há uma página particularmente perturbadora no Público de quarta-feira passada. É a página do artigo assinado por Isabel Arriaga e Cunha, sobre as conversações entre a troika e o governo grego. Em causa está o acordo sobre medidas adicionais de austeridade (orçadas em 4 mil milhões de euros), necessárias à aprovação de uma tranche de 8 mil milhões de euros, aprovada em Maio de 2010.

Embora constitua mais uma evidência dos resultados contraproducentes da sangria austeritária, não é o artigo em si que perturba de forma particular. Nem é, sequer, o facto de vir acompanhado pela foto que o ladeia. Essa foto - pelo que é e representa - será sempre terrível, quando e onde quer que seja publicada. O que é particularmente perturbador - ou melhor, acrescidamente perturbador - é a legenda escolhida: «Protestos voltaram há vários dias às ruas de Atenas». Isto é, o texto escolhido para entitular a foto em que um homem se imola pelo fogo assume essa precisa imagem como ilustração «normal» (corrente, comum), do regresso dos protestos às ruas de Atenas.

Presumo, sem dificuldade, que o título escolhido não pretenda «normalizar» esta forma limite de protesto (ilustrando-a como se poderiam ilustrar outras formas, comuns, de protesto). Mas nem por isso a relação entre a fotografia e a legenda deixa de ser menos perturbadora. Ela mostra, porventura, uma das faces mais sinistras da vertigem austeritária: o ajustar progressivo do que é tolerável para níveis crescentemente indignos e imorais; a resignação que desce, um a um, os degraus do fosso dos retrocessos sociais que a austeridade cava consecutivamente.

(Sobre a destruição do tecido económico local e a deterioração das condições de vida em Atenas, resultante das ondas do choque austeritário, vale a pena ler este testemunho de um jurista de Viena, que há cerca de ano e meio vive num apartamento da capital grega).

Texto publicado por Nuno Serpa por Nuno Serra a 23 de Setembro de 2011 no Blogue Ladrões de Bicicletas


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Para ler e reter

Um belíssimo texto sobre as raízes fundas do pesadelo financeiro que vivemos. Para não andarmos sempre a falar do mesmo moralismo. http://jugular.blogs.sapo.pt/2877850.html

Texto sugerido pelo Sérgio Vieira

That which is unsustainable shall not be sustained

Vários responsáveis europeus têm dito que a Zona Euro está melhor do que os EUA, e portanto que os americanos não têm qualquer legitimidade para nos dar lições. O último episódio desta triste novela ocorreu há dias, aquando da visita de Geithner à Europa. Geithner disse o óbvio, e a resposta dos Europeus, não menos óbvia, coube à ministra das finanças austríaca:
I found it peculiar that even though the Americans have significantly worse fundamental data than the eurozone, that they tell us what we should do and when we make a suggestion … that they say no straight away.
Como escreveu Yanis Varoufakis, esta resposta é a demonstração de que os europeus continuam a pensar que os problemas da Zona Euro se devem à indisciplina financeira de uns quantos países - e não a qualquer pecado original na arquitectura institucional da Zona Euro - e que, por isso, a solução só pode passar por mais austeridade. Invariavelmente, o argumento europeu socorre-se dos chamados 'fundamentais', a saber: défice em % do PIB, dívida em % do PIB e défice externo. Em vez de perder tempo, imaginação e capital político a defender uma arquitectura institucional falida, seria mais útil se estas luminárias se dedicassem a tentar perceber por que razão os EUA, o Japão e o Reino Unido, que têm 'fundamentais' piores que a Zona Euro, não têm uma crise das dívidas soberanas. Falo, claro, daquilo que torna o Euro um regime monetário singular: a questão da soberania monetária. Ao contrário do que tem sido dito, a crise das dívidas soberanas é uma ficção, porque não existe qualquer dívida soberana na Zona Euro. Há dívida Grega, Portuguesa, Alemã, Holandesa, mas dívida soberana é coisa que não existe na Zona Euro. Com a prestimosa ajuda do BCE, soberanos só mesmo os mercados de capitais: o BCE é o credor de último recurso do sistema financeiro da Zona Euro, mas nunca dos Estados. É isto, e apenas isto, que torna o nosso problema diferente de todos os outros.
 
O Euro foi criado no pressuposto de que era possível (e desejável) separar a política fiscal (a cargo dos Estados) da política monetária (a cargo do BCE). E a crise actual existe não porque persista a indisciplina orçamental, mas porque a Zona Euro não parece disposta a reavaliar essa ficção e a (auto-)mutilação institucional que é o seu corolário. A pressão do BCE para que os líderes dos governos da Zona Euro aprovem o mais rapidamente possível a flexibilização do FEEF é o último avatar da ilusão de que essa separação é sustentável. No fundo, o BCE quer deixar de se ver forçado a comprar dívida pública para poder regressar ao recato da estabilidade de preços, onde a política monetária é um assunto técnico que pertence a especialistas O que o BCE (e todos aqueles para quem o FEEF é a solução para os males da Zona Euro) não entendem é que, independentemente da flexibilização do fundo, há algo que o FEEF - qualquer FEEF - nunca será: uma entidade monetariamente soberana, capaz de resolver, de uma vez por todas, os riscos de solvabilidade dos Estados. Por esta razão, o FEEF só poderia verdadeiramente substituir o BCE se se tornasse noutro...BCE. Como explicou Yanis Varoufakis neste post, a estrutura de capital do FEEF assegura que este será sempre uma arma de destruição maciça. No dia em que o BCE disser: a partir de agora é o FEEF, e apenas o FEEF, que faz aquilo que o BCE tem sido forçado a fazer, das duas uma: ou euro implode ou o BCE tem de engolir as suas palavras e ver-se-á forçado regressar à função de bombeiro.
 
Essencialmente, tudo o que a Zona Euro tem feito no último ano e meio resume-se a uma variação sobre o mesmo tema: como sustentar a narrativa de que a culpa é de alguns países indisciplinados. Enquanto a Zona Euro não estiver disposta a abadonar esta narrativa e a repensar a questão da soberania monetária, haverá sempre mais uma cimeira extraordinária para resolver aquilo que nenhuma das cimeiras extraordinárias anteriores conseguiu resolver. Para evitar o colapso do Euro, talvez fosse sensato repensar os artigos 123 (financiamento monetário dos défices) e 125 (cada país é responsável apenas pela sua dívida), que não são compatíveis com a estabilidade de uma união monetária. É verdade que estes dois artigos são peças centrais da actual união monetária, mas isso diz mais sobre a falência do actual modelo do que da sua razoabilidade.
 
Em Agosto, à saída de um encontro Troika, perguntei a Rasmus Ruffer, representante do BCE, se ele achava que, na situação actual, a estabilidade dos preços devia continuar a ser a única preocupação do BCE. Respondeu-me que sim, claro, porque a inflação é a mãe de todas as ameaças e está sempre ao virar da esquina. Eu disse-lhe que a única solução para a crise actual teria de passar pela revisão dos artigos 123 e 125 dos Tratados e por uma reconfiguração do papel do BCE. Ruffer, chocado, respondeu: isso nunca, porque a possibilidade de monetizar os défices causa (necessariamente) inflação. Em jeito de argumento de autoridade, acrescentou: 'porque sou alemão, sei que é assim'. Disse-lhe que respeitava esse trauma, mas que a causalidade entre financiamento monetário dos défices e inflação não era necessária, recordando, por exemplo, os casos americano e japonês. A resposta foi desconcertante: esses países não têm, mas hão-de ter inflação. A relação não é contingente, é necessária. Aqui saimos da discussão económica e entramos no domínio da profecia especulativa. Para Ruffer, a experiência de Weimar (e do Zimbabué) revelou uma lei, uma espécie de imperativo categórico: não imprimirás moeda, sob pena de severa punição! Há casos onde isso foi evidente, e há os outros onde ainda não é mas há-de ser, porque tem de ser assim. Que isto não satisfaça qualquer critério de cientificidade não parece perturbar Ruffer. Mas esta posição não se limita a falhar o teste da cientificidade, também ameaça falhar o teste da inteligibilidade: em si mesma, a natureza privada (via financiamento dos bancos) ou pública (via financiamento monetário dos défices públicos) do modo como um banco central injecta liquidez na economia nada nos diz sobre potenciais efeitos inflacionistas. Afinal, despesa é despesa, e não há nada na despesa pública, por contraposição a outro tipo de despesa, que a torne intrinsecamente inflacionista. A única forma de conferir inteligibilidade a esta posição resume-se, afinal, à seguinte posição: a proibição de financiamento monetário dos défices não visa controlar a inflação, mas apenas garantir que os Estados não têm instrumentos para agir enquanto soberano e, em determinadas situações, assumir o papel de consumidor e investidor de último recurso. Ruffer não só não entende como funciona o mecanismo de transmissão monetária do banco onde trabalha, como também não percebe que, em determinadas situações, só a acção determinada dos Estados é capaz de evitar o colapso de uma economia de mercado. O que aconteceu em 2009 foi que todos perceberam que os Estados tinham de gastar para evitar a repetição da grande depressão, mas ninguém se lembrou de que os Estados só poderiam desempenhar este papel se a política monetária assegurasse a sua viabilidade financeira. E não se lembraram porque a arquitectura institucional da zona euro foi criada no pressuposto de que esse sacrilégio tinha sido definitivamente derrotado pela história. Estamos todos a pagar o preço deste dogma, que a realidade, todos os dias, tem mostrado ser insustentável. Haja quem abra os olhos e se liberte do dogma.

Texto escrito por João Galamba no Blogue Jugular 19 de Setembro de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Vasos comunicantes



E daqui a um ano, será com o Galo de Barcelos?



segunda-feira, 23 de maio de 2011

Etnopolitik

Que o preconceito é danado de extirpar como qualquer irritante erva daninha, já se sabe. Que venha da Alemanha, enfim, também não surpreende (embora dizer isto assim também seja uma generalização abusiva, pois claro). Pior é que venha da Chanceler de um país que passou pelo trauma existencial do nazismo e que levou, por exemplo, Gunter Grass à redacção de «Escrever Depois de Auschwitz». E nem o facto de a barbaridade da insinuação de que os PIGS, esses sulistas malandros dados à corrupção ociosa dos climas meridionais que pouco trabalham e mutito preguiçam em pândegas improdutivas, se ter dado num reles comício partidário para mostrar à linha dura dos grunhos que quem manda é a Alemanha, diliu responsabilidades. Pelo contrário, é a cedência fácil à demagogia, à ignorância e a uma visão sucidária da Europa e do papel que a Alemanha aí deve ter.

Merkel já nasceu depois do IIIº Reich e parece ter-se «emancipado» da culpa, assumindo essa bacoquismo laudatório do «politicamente incorrecto» e da política grossa com laivos de preconceito étnico.

Felizmente, a coisa foi criticada até na Alemanha. E por cá também. E de forma informada.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sófia e Bucareste condenadas a ficar à porta

A Roménia e a Bulgária são as ovelhas negras da Segurança da União, sendo vetada a sua entrada no Espaço Schengen.

As razões da não entrada no Espaço Schengen da Bulgária e Roménia,  prendem-se com questões de imigração ilegal, da impossibilidade do controlo de fronteiras assim como devido à corrupção e crime organizado que imperam nestes dois países de leste.

O vídeo da euronews revela esta recente decisão da União Europeia.