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quinta-feira, 22 de abril de 2021

"Liberdade" Poema de Maria Teresa Horta

 

Há pouco li no Newsletter do Fumaça um poema maravilhoso de Maria Teresa Horta que passo a partilhar convosco:

Ainda há pouco acontecia Maria Teresa Horta acordar sobressaltada com a ideia de que a PIDE lhe estava à porta. Tinha que se voltar a surpreender com a recordação do 25 de Abril. “Continua a ser o dia mais feliz da minha vida.” A propósito do aniversário da Revolução, pedimos-lhe um poema. Chamou-lhe Liberdade.

Liberdade

É dia de liberdade

ano após ano

de punho erguido

   e preciso


Memória acrisolada

cravos

no cimo do riso


Com a sua côr

encarnada

e o olhar resgatado


Dando conta

dos indícios

sonho a crescer do nada


Sendo o nada

o seu princípio

e em seguida infinito


Liberdade libertada

de liberdade hasteada

sendo o sonhar

   seu grito


Maria Teresa Horta

Lisboa, Abril de 2021

                                                             

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Há pedras que não se levantam- Artigo de Mia Couto (escritor Moçambicano)


Um texto maravilhoso de um grande escritor escritor moçambicano que nos dá a conhecer os motivos que levaram à ascensão do Estado Islâmico em Moçambique. Redigido em exclusivo no Newletter do  Fumaça. Um fantástico grupo de jovens jornalistas. Consultem o site. 

Deixo-vos o texto de Mia Couto:

 Olá. 

Os escritores alimentam uma relação equivocada com os outros. Talvez eles sejam escritores por essa mesma razão: a consciência de que estão equivocados quando representam o mundo. Os escritores, em geral, não resistem à tentação de ficarem calados quando lhes dirigem todo o tipo de perguntas. Vão a todas. Têm opinião sobre tudo: sobre a situação no Iraque, sobre as ameaças climáticas, sobre o destino do Trump, sobre os caminhos atribulados da COVID-19. Perguntas que não se fazem a um exímio dentista ou a um engenheiro espacial são dirigidas aos escritores como se eles fossem dotados de uma sabedoria particular. No meu caso, quando me fazem essas perguntas, a resposta mais honesta seria confessar: eu escrevo exatamente porque não sei. Sou um especialista em ignorâncias. E imagino que essa seja a mesma condição de todos os poetas e escritores: o gosto de reconhecer a sua mais profunda falta de erudição sobre o mundo. A única habilidade do escritor é enfrentar sem disfarce este desamparo. 

Toda esta palavrosa introdução vem a propósito do desafio que a Fumaça me lançou: escrever umas tantas linhas sobre a situação de guerra em Cabo Delgado. Quando me pedem explicação sobre o conflito no Norte de Moçambique, a primeira coisa que me ocorre é a admissão da minha incapacidade. Sei que esta declaração de não entendimento não resulta. O mais fácil e o mais lucrativo para um jornal seria apresentar certezas com a energia com que um jogador de cartas joga um trunfo sobre a mesa. 

Esta minha contribuição tem a pretensão de sugerir como a abordagem jornalística da situação em Cabo Delgado tem alertado para a existência de um drama de dimensão global. Mas nem sempre a abordagem redutora de um certo tipo de jornalismo nos ajuda ao entendimento das causas daquela violência. 

Quando surgiram os primeiros ataques na província nortenha de Cabo Delgado alguns sociólogos ligados a ONGs anunciaram que tinham uma explicação sobre o que estava a acontecer. A elucidação não variava: os revoltosos insurgiam-se contra a exclusão social, manifestam-se contra práticas injustas de representantes do Estado. Tratava-se, pois, de uma violência esperada e legitimada contra a violência do Estado moderno. Essa explicação tinha um “senão”: ela explicava muito pouco. Em todas as províncias de Maputo acontece a mesma exclusão e a injustiça. Porquê só ali, na costa de Cabo Delgado, ocorria esse fenómeno? Não existe Estado que não imponha a sua presença por vias que não tomam em conta as especificidades das práticas rurais e locais de governação que uns chamam de “tradicional”. 

Por um acaso, posso dizer que conheço aquela região. Desde 2004 que, no meu trabalho de biólogo, visito os distritos de Palma e Mocímboa da Praia, os mesmos distritos onde hoje sucedem os ataques terroristas. Perdi a conta às vezes em que, de tenda às costas, fiz estudos de ecologia naquelas zonas costeiras. Essas permanências duravam, por vezes, várias semanas. Nas primeiras visitas, eu vi aquilo que corresponde ao estereótipo que a Europa construiu da “África profunda”. Cruzávamos na estrada com elefantes, a aldeia onde eu acampava foi objeto de ataques de leões que, num espaço de três meses, devoraram 25 mulheres camponesas. A presença do Estado era uma coisa vaga, quase inexistente. Foi ali – e não podia ser em mais nenhum lugar de Moçambique – que escrevi o romance “A Confissão da Leoa”. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que entre os camponeses, pescadores e caçadores daqueles lugares era muito nebuloso o sentimento de pertença nacional. Quando queria saber do mundo, aquela gente olha para o oceano. É ali que mora o grande caminho, é por esse grande mar que se encontra o grande cordão que os mantém ligados a uma identidade antiga e coletiva. Até ao início do século XX, aquela região, apesar de estar dentro do mapa de Moçambique, funcionava como parte orgânica de um velho império Swahili que, durante séculos, respondeu perante o sultão de Zanzibar. 

Era raro ver por ali uma autoridade que representasse o Estado, essa criatura abstrata e distante cuja cabeça está a três mil quilómetros, lá no Sul, onde se fala outra língua, se pratica outra religião e se constrói uma outra narrativa do que será o futuro. As pessoas raramente falavam português, não escutavam nem as rádios e muito menos as televisões de Moçambique. Sintonizavam as estações tanzanianas. Aos poucos, porém, aquela paisagem humana foi mudando. E o que eu não via era bem mais do que era visível. Negócios obscuros de drogas, de negócios de trânsito de imigrantes vindos dos Grandes Lagos, de venda de rubis fizeram enriquecer camponeses pobres que beneficiavam da ausência total do Estado. Não se pode ser ilegal quando a lei do Estado não prevalece. Não havia outra lei senão os mandamentos locais. Não era preciso ser informal. Porque faltava o formal. Camponeses viraram garimpeiros, pescadores viraram transportadores de mercadorias, caçadores viraram motoristas que transportavam cargas humanas. Enfim, uma terra completamente periférica passou a sentir que era o centro e que vivia bem sem a presença de outros. Mas a riqueza criada por esses pequenos e clandestinos negócios deixava de lado a grande maioria da população local. 

De repente chegou o Estado. E quis impor ordem. Quis controlar, quis ficar dono como é da sua própria natureza. Chegaram também as empresas estrangeiras. Que obrigou a que se pagasse impostos e exigiu dos camponeses ricos e pobres que passassem a ser cidadãos de um Estado moderno. Esse foi o grande primeiro embate. Essa modernidade que assim se estabelecia roubava espaço aos mecanismos locais legítimos (e sobretudo os ilegítimos) que se haviam estabelecido. 

Mas houve mais, houve uma invasão progressiva de profetas radicais que, em nome da religião, preparavam a violência que hoje se manifesta. Jovens que tinham sido enviados para “estudar” na Arábia Saudita e no Sudão regressavam como mensageiros de uma nova verdade. E que consideravam que o islamismo há séculos estabelecido na região era uma deturpação de uma leitura mais pura do Alcorão. Testemunhei encontros de violência verbal e física entre os muçulmanos já instalados em Cabo Delgado e os que chegavam vindo de outras madrassas, de outras geografias. Em 2004, fui obrigado a fugir do pátio de uma mesquita para onde eu tinha sido convidado para falar com a comunidade religiosa. Inesperadamente, a mesquita foi assaltada violentamente por jovens muçulmanos que defendiam “outro” Islão.

Vou deixar de lado outras dimensões daquelas sociedades da costa de Cabo Delgado (é importante entender que a violência atinge sobretudo os distritos litorais). Seria importante conhecer tensões étnicas que possuem raízes antigas, sobretudo naquela zona costeira. Recordo-me de que, enquanto preparava para escrever um outro livro, viajei por aquelas zonas em busca de memórias da escravatura. Ninguém se oferecia para depor, ninguém queria partilhar histórias antigas. Escravatura?, perguntavam, fingindo-se perplexos. Nunca aqui houve nada disso, respondiam. Até que um dia um velho deu-me o seguinte conselho: há pedras que não se levantam, debaixo delas moram fantasmas que nunca foram enterrados. 

Não quis neste breve artigo dar respostas. A intenção foi apenas sugerir que, como disse o velho pescador, há fantasmas antigos por debaixo de pedras. A violência em Cabo Delgado tem dimensões históricas, sociais, religiosas que escapam a uma resposta fácil e total. 


Mia Couto

Escritor e biólogo moçambicano

sábado, 12 de dezembro de 2020

Yazidis: O genocídio esquecido

No rebuliço dos nossos dias não nos apercebemos ou ignoramos por vezes, o que se passa em determinados países, onde inocentes sofrem as consequências da guerra no seu país. Infelizmente morrem crianças que desde muito cedo deixam as brincadeiras e lutam pela sobrevivência.

É arrepiante ouvir a reportagem de uma jovem equipa de jornalistas que fez um trabalho excelente sobre o Genocídio cometido pelo Daesh sobre a comunidade Yazidis no norte do Iraque. 

Esta comunidade que habitava na localidade de Sinjar  no norte do Iraque. Esta cidade foi completamente destruída e ainda hoje mesmo após a derrota do Daesh continua desabitada. A comunidade  Yazidis não teve a proteção de ninguém  sendo evadidas de surpresa quase sem tempo para fugir. 

Os milhares que conseguiram fugir foram para as montanhas, onde não tinham mantimentos nem água. Morreram bébes e crianças de sede e de fome nas montanhas de Sinjar.

A comunidade Yazidi no Iraque tinha cerca de 1 milhão de habitantes sofreu um rude golpe do Daesh sendo os Homens mortos e enterrados em valas comuns, as mulheres mais jovens separadas das mais velhas torturadas, escravizadas vendidas no mercado do tráfego de pessoas. 

As razões do Daesh são estritamente fundamentalistas e sem qualquer respeito pela diferença. 

Estas pessoas são seres humanos como nós. Têm família e sonhos, no entanto ao contrário de nós têm ambições mais simples como ter uma casa, liberdade e sorrirem, olharem em frente e esquecerem a dor e sofrimento porque passaram.

A Humanidade tem de envergonhar com o que se passou. Devemos evitar que episódios semelhantes se voltem a repetir.

Não me canso de publicitar o excelente trabalho jornalístico. A Comunidade Fumaça deu -nos a conhecer de uma forma dura uma realidade que de outra forma nos passava ao lado.

Obrigado Equipa do Fumaça.

Ouçam esta reportagem de dois episódios.

Episódio 1

Episódio 2


sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Quantas sardinhas cabem numa lata? (asas para poetas analfabetos)- Jornal Expresso

A poesia está antes de aprender a Juntar as letras. É a maior lição do "o Poeta Faz-se, iniciativa que, em Matosinhos, foi descobrir os poetas por trás de quem é adulto, a aprender a ler e a escrever


Três! Júlia tem a certeza. A pergunta da formadora parece que foi feita para si, que ainda ontem abriu uma lata de sardinhas. Vinham lá três, só, e picantes, em molho de tomate, junto com “um jindungo deste tamanho”. Com as mãos, estabelece um comprimento exagerado enquanto a entoação lhe foge para mostrar que o achou isso mesmo, exagerado, para uma lata só com três sardinhas. A professora escreve:

“Três sardinhas numa lata

Com um jindungo deste tamanho”

“Isto ainda não rima, mas depois nós damos a volta”, antecipa Maria David. As regras para rimar poemas, que havia ensinado nas duas aulas passadas, não estavam a ser, para já, ali aplicadas, pensava alto, alheia a Júlia, que continuava numa descrição empolgada da lata para mostrar indignação com a falta de peixe nela. “Conclusão: o piripiri era mais do que as sardinhas”.

Alguém bate à porta da sala de aula. É Albina. Já que o tema para a poesia é sardinhas enlatadas, foi buscar uns quantos exemplares, ela que trabalhou uma série de anos na Conserveira Portuguesa, ali em Matosinhos. Albina é a pessoa certa para responder à pergunta-mote da última sessão do curso de poesia. Quantas sardinhas cabem numa lata? Mas antes de se aperceber da problemática, pousa irrequieta pratos de plástico azuis sobre uma mesa desocupada, com a expressão de uma quase ceia de Natal. Quando se apercebe, pergunta: “Quem é que disse que eram três?”. “Eu”, afirma Júlia. “Mas eu digo que são quatro”, discorda Albina. “As latas de conserva, tanto de óleo, como de azeite, como de tomate ou malagueta, têm todas de quatro para cima”, reforça. “Mas aquela tinha três”, insiste Júlia. Os dois primeiros versos do poema estavam transformados num diálogo entre Júlia e Albina.

Com o resto da turma calada e a quadra a precisar de ser terminada, Maria David procura apanhar, entre as conversas cruzadas, alguma lógica para os próximos versos, e escreve no quadro “Mas eu digo…”. Albina interrompe-lhe o pensamento. “Você diz o quê? Eu aqui é que sou a peixeira!”, e vai buscar uma lata das que trouxe, abre-a sem que o óleo lhe suje demasiado aos mãos, e prossegue. “Quantas sardinhas tem?”. “Cinco”, diz a professora, para espanto da aluna. “Cinco? Eu aqui é que sou a analfabeta!”.

Naquela e noutras sete turmas do projeto +Literacia, promovido pela Biblioteca Municipal de de Matosinhos, todos estão a aprender a ler e a escrever, embora já tenham ultrapassado a idade escolar a passos largos. Às aulas de todo o ano, foi agora acrescentada uma variável: a do curso de poesia, em três sessões, na primeira metade do mês de outubro, para mostrar que “O Poeta Faz-se”.

“Toda a gente sabe ler”, diz Júlia, após presentear a última sessão com a leitura esforçada de um poema de Eugénio de Andrade. “Isso não é verdade”, contesta Albina, que ainda se esforça por dar significado às letras. “Mas toda a gente pode fazer poesia, mesmo que não saiba ler”, diz a formadora Maria David, como que a afincar o mote do projeto e a última lição da lição do dia.

Quando a cooperativa cultural Bairro dos Livros, junto com a autarquia da mesma cidade, lhe propuseram dar seis sessões de poesia a analfabetos, pensou como é que um mestrado em literatura moderna, focado na poesia narrativa de Al Berto, e duas décadas de experiência no mundo editorial poderiam aproximar a poesia de quem viveu sempre tão longe dela. “Tendemos a associar a literatura a questões romantizadas e sentimentalizadas. Eu, pessoalmente, evito um bocadinho essa abordagem. Tenho um certo gosto em pensar nestas coisas e agrada-me a ideia de as desconstruir ao ponto de serem acessíveis para qualquer pessoa”. Por isso, tratou de conhecer as duas turmas em que pegou, e trazer o dia a dia delas para a sala de aula. Com sardinhas, quis mostrar “como a potencialidade poética da linguagem está sempre presente, até na linguagem de todos os dias”.

ENLATADOS
Quantas sardinhas cabem numa lata? Os últimos números oficiais, que remontam aos Censos de 2011, dão conta de um analfabetismo que atinge cerca de 5% da população. A maioria, idosos a viverem em zonas do interior. O número baixou 20 pontos percentuais em 50 anos. Nos anos 70, 25% da população era analfabeta. Mas desenganemo-nos. Portugal continua no topo da tabela dos países europeus com maior taxa de analfabetismo. Há 30 mil pessoas em idade ativa (entre os 18 e os 65 anos) que não sabem ler nem escrever. E quase nunca sobre o investimento sobra para as desenlatar.

O +Literacia surgiu há quatro anos, “após um diagnóstico social no concelho de Matosinhos de que não havia uma resposta para as pessoas que não sabiam ler nem escrever ou que tinham baixos níveis de literacia”, explica a professora Ana Sofia Lopes que, com 25 anos e um curso de 1º e 2º ciclos do Ensino Básico, se viu a ensinar a adultos o que aprendeu a ensinar a crianças. O método é o mesmo, mas há um choque constante de realidade. “Ver as montras e conseguir ler, ver as placas na estrada e saber para onde se vai, assinar, quando muitos o fazem com impressão digital. Às vezes não paramos para pensar em que é que isto limita a vida destas pessoas - e limita muito”.

Pedro começou a aprender a ler esta semana. Reformado aos 42 anos, por invalidez, só sabe assinar o nome. Vai à caixa multibanco e faz “tudo sem saber ler”. No computador, usa um programa que transforma as palavras ditadas em palavras escritas. Quando recebe mensagens ou notificações no telemóvel, usa outro programa para lhe dar sentido às letras. “É muito bonito termos um telemóvel, mas dá-lo a um amigo ou a um irmão para nos escreverem uma mensagem faz com que não guardemos segredo para nós”, conta ao Expresso.

É o aluno mais recente do projeto que quer retirar da vulnerabilidade social os que, por uma razão ou por outra, não puderam completar o ensino básico regular antes de entrarem para o mercado de trabalho. Uma amiga que tem há 19 anos disse-lhe: “Vais tirar a carta!”. Só que, para isso, precisa primeiro de aprender a ler. Ela pegou nele por uma mão e levou-o ao Centro Qualifica, da associação Adeima. E a coincidência do calendário fê-lo confrontar-se logo no começo das aulas com três sessões de poesia, ao leme da outra formadora do curso, Raquel Patriarca. Poesia, essa coisa longínqua que pensava ser “uma coisa de poetas, só”

SAIR DA LATA
“Os livros não são para mim. A poesia é coisa de pessoas inteligentes”, resume Raquel, pondo em palavras o que vai na cabeça dos alunos com que se viu à frente nas seis sessões que conduziu. Nesta ideia de relação direta entre a inteligência e a escolaridade, “que não é tão líquida quanto isso - aliás, não tem nada de líquido, é bastante gasoso, até” - está assente uma crença enraizada de fracasso com que a formadora se viu a debater pela primeira vez.

Após uma carreira como professora e autora de livros para crianças, diz que a vantagem de levar a poesia a adultos é, precisamente, retirá-los dessa crença. “A poesia é algo que não se ensina a ninguém”, começou por explicar. Tal como nas crianças, ela vem “antes de aprender a ler e a escrever”. Por isso abraçou este projeto da Adeima, e diz que, “tal como os projetos primos e irmãos, ele tem uma importância incrível porque apoia uma faixa da população que está a cair nas frinchas da sociedade. O mundo democrácio não pode dar-se ao luxo de ter pessoas sem acesso à literacia”.

Pedro quer fazer a quarta classe, e, talvez um dia saber decifrar a informática. “Eu sei muita coisa, mas o que me custa é juntar as letras”. Com ajudas, escreveu o primeiro esboço da sua incursão no mundo poético.

“O coração fica nervoso

quando sentimos algo

por uma pessoa

Eu fico ansioso”

Escolheu o amor como tema. “Se o coração fica nervoso e o poeta fica ansioso, o que é que se está a passar aqui?”, pergunta a formadora da turma de Custóias. “O coração palpita como uma batata frita”, ouve-se ao fundo. É Rosário a fazer brilhar os olhos de Raquel com uma comparação, uma metáfora e uma rima, tudo junto num verso só. Na sua vez de ler o que escreveu, agarra logo na folha, colocando-a melhor no campo de visão, e lê:

“O sol, quando brilha

Todos ficamos contentes

Onde vais, minha filha?

Vou buscar os meus presentes”

Com 58 anos, Rosário entrou para o projeto +Literacia em fevereiro, “antes disto da pandemia”, e juntou-se aos cerca de 100 outros alunos, distribuídos pelas quatro uniões de freguesia do concelho. Está no fundo de desemprego, tem estado em casa. Tem a quarta classe, “mas mal”, e todos os trabalhos que se lhe apresentam pedem pelo menos o 6º ano. “Hoje em dia, se a gente não souber ler e escrever em condições, não é nada.”

Raquel apaixonou-se desde logo pelo projeto. Na primeira aula, trouxe às suas turmas um poema em forma de chave. Visualmente, é uma chave, cujo único texto que tem é o abecedário. “Alguns deles disseram logo que não conseguiam ler”. Um conjunto de letras que nem fazia sentido. Depois, trouxe-lhes uma página do manuscrito inicial do "Guardador de Rebanhos", de Fernando Pessoa, impossível de ler. “Aquilo tem anotações na margem, tem palavras riscadas, tem palavras substituídas, mudadas de sítio. A leitura que eu queria que eles fizessem era a do curso. Nenhum poeta, nem os mais geniais, fazem tudo à primeira”.

Na última das sessões que se comprometeu a dar, despediu-se com um pedido. “Agora que já abriram a porta, venham saber todos os caminhos que essa chave pode abrir.” As letras são chaves, abre-latas, asas, ou outros lugares comuns quaisquer, a partir do momento em que soubermos casá-las bem.

“Ele está aí

Vamos todos agasalhar-nos

Vai ter vento, chuva

E, se calhar, vai até

Nevar”

Maria das Graças

“As folhas caíram da árvore

O vento assobia no monte

A chuva bate no telhado”

José Maria

“Eu sinto borboletas dentro de mim

Não se apaga do coração

O sentimento assim”

Fernando

“Como gostaria de mergulhar

No fundo de mim

Para dizer-te o quanto sinto

Como gostaria de ter as

Palavras certas

Para te dizer o quanto te sinto”

Maria João

(O projeto “O Poeta Faz-se” culminará numa instalação artística exposta em espaço público, em Matosinhos, no mês de novembro)

Texto Escrito por Joana Ascensão e Rui Duarte Silva
20 de Outubro de 2020

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Faltam cada vez mais professores- Jornal Expresso


Número de horários de docentes ainda por preencher mais do que duplicou em relação a 2019


Na Secundária João de Barros, no Seixal, não se espera só pelo fim das obras, iniciadas pela Parque Escolar há mais de dez anos.

 

Desespera-se por professores.

 

Após um mês do início das aulas — período que devia servir para recuperar o que não se aprendeu no passado ano letivo, com o ensino à distância —, há turmas onde faltam seis docentes, o que significa que os alunos estão sem aulas em metade das disciplinas.

 

“No agrupamento, temos três horários de Português sem professor, dois de História e um de Informática. Francês e Geografia são dificuldades que já tínhamos no ano passado e que se mantêm”, explica Hugo Pereira, assessor da direção.

 

Desde o início do ano, já houve necessidade de ir às listas nacionais onde constam os professores disponíveis para encontrar 19 substitutos de docentes que estão de baixa, saíram ou aposentaram-se.

 

“No 3º ciclo há mais de dez turmas com horários muito esburacados.

 

Se as aulas em falta forem nas horas intermédias, outros professores asseguram esse tempo, para manter os alunos na sala. Nos extremos do dia, não fazemos substituição”, acrescenta Hugo Pereira.

 

O problema estende-se a muitos agrupamentos. Não do país, mas de duas regiões em particular: Lisboa e Algarve.

 

Ainda há alguns milhares de professores por colocar que constam das listas conhecidas como reservas de recrutamento.

 

Mas nem todos têm formação para dar as disciplinas em que há mais lacunas ou não estão interessados em ir para os locais onde são necessários — o que recebem não compensa ou pode mesmo não chegar para a renda e deslocações.

 

No Agrupamento da Portela, em Loures, procuram-se professores do 1º ciclo, de Português, Economia, Francês e História/Estudos Sociais. Esta semana chegaram dois de Matemática, reduzindo o número de horários por preencher.

 

Subsistem cinco lugares, que afetam mais de 20 turmas desde o início do ano letivo, explica o diretor, Nuno Reis.

 

Num agrupamento onde a média de idades ronda os 57 anos, o desgaste, a saúde e agora a pandemia fazem mossa.

 

“Neste momento, temos mais de 20 professores de baixa num total de 220. Noutros anos temos tido menos. Mas com os casos de covid-19 a aumentar muito no concelho, as pessoas ficam receosas. Temos vários atestados do foro psicológico.”

O diagnóstico está feito, mas faltam soluções. E os números comprovam que as dificuldades agravam-se de ano para ano. Só na primeira quinzena de outubro, as escolas viram-se obrigadas a pedir 1870 horários através do mecanismo de contratação de escola. Isso significa que já não há professores disponíveis nas tais reservas de recrutamento ou os que existem recusaram o lugar.

 

O processo começa sempre pelas reservas de recrutamento.

 

Se ao fim de duas semanas os horários continuarem vazios, passa-se para a fase de contratação de escola. Só na semana passada foram solicitados por esta via 637 professores, mais do dobro do registado no ano passado no mesmo período (255). Os distritos de Lisboa, Setúbal e Faro são as zonas para onde é mais difícil encontrar professores. Informática, Geografia, Inglês, Português e Educação Moral e Religiosa são as disciplinas mais carenciadas.

 

As contas são feitas para o Expresso por Davide Martins, professor de Matemática no Agrupamento de Matosinhos e colaborador do blogue de Educação ArLindo. “Em 2019, desde o início do ano letivo até 31 de outubro, saíram 1322 horários em contratação de escola, o que já é um número considerável.

 

Este ano esse valor já foi ultrapassado no dia 10, evidenciando que a falta de professores tem aumentado e se faz sentir cada vez mais cedo”, explica.

 

Há mais dados a comprovar o problema. Todas as semanas, as escolas comunicam os professores que têm em falta nesse momento. Como em qualquer profissão, há baixas médicas, licenças de maternidade ou reformas, que fazem com que a dada altura falte um professor. Desde o início de setembro, já foram pedidos neste contexto mais de 21 mil docentes para substituição.

 

No ano passado, no mesmo período de tempo, foram menos cinco mil. “O envelhecimento e o burn out [esgotamento] são a causa de muitas baixas. A que acrescem as aposentações, que têm vindo a subir”, analisa o professor.

 

O medo do vírus O Ministério da Educação (ME) garante que as faltas já estão a ser supridas e que os problemas no início deste ano têm várias explicações: além dos mais de 500 docentes que pediram substituição por serem de risco, houve um “número anormalmente alto de não aceitações de horários, atendendo à situação de pandemia que leva os professores a não quererem deslocar- -se da sua área de residência”. E houve ainda este ano mais 1100 pedidos de mobilidade por doença (do próprio ou de um familiar dependente), possibilidade que permite a colocação numa escola diferente, libertando assim novos lugares. Há mais de 8 mil professores com esta autorização, sendo que a maior parte saiu da Grande Lisboa para a região Norte. Houve ainda autorização para contratar mais 3300 para o plano de recuperação das aprendizagens.

 

“As listas do ME estão a esgotar-se, já não há mais pessoas para recrutar. Sabemos que este problema vai crescer e vamos ficar com muita carência. Deixaram de formar pessoas, outros reformaram-se, e é uma carreira muito pouco aliciante”, aponta, por seu turno, Maria Caldeira, diretora do Agrupamento do Alto do Lumiar, em Lisboa, onde faltam agora oito professores, incluindo de Matemática.

 

De acordo com os cálculos de Davide Martins, já há grupos de recrutamento com muito poucos ou mesmo sem candidatos disponíveis para escolas da região do Algarve e da Grande Lisboa. Apenas um exemplo: na lista de possíveis candidatos a dar aulas de História do 3º ciclo e secundário em escolas desta última região, encontram-se neste momento apenas três nomes; a nível nacional há 180, num total inicial de 1315. A Geo grafia já não há nomes para Lisboa, tal como a Informática.

 

Significa que esses lugares vão ficar vazios? Não. Esgotando-se os candidatos nestas listas nacionais, passa-se então à contratação de escola, em que estas publicitam a oferta, recebem novas candidaturas e escolhem.

 

O problema é quando nem nesta etapa surgem interessados, levando a que os alunos fiquem sem aulas durante várias semanas ou mesmo um período inteiro, como aconteceu no ano passado.

 

O ME também garante que há um “trabalho de incentivo à fixação de professores que já foi iniciado e que será incrementado”, mas não explica o que está ser feito.

ileiria@expresso.impresa.pt

 

Desde o início de setembro, já foram pedidos pelas escolas mais de 21 mil docentes para substituição.


Texto Escrito por: Isabel Leiria e Raquel Albuquerque. (Jornal Expresso)


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Há falta de professores?- Autor Paulo Guinote

 É estranho que o senhor ministro desconheça estas circunstâncias, pois vai a caminho de ser o titular mais tempo no cargo desde 1974. Era tempo de acelerar a sua curva de aprendizagem. Ou de resolver o problema, em vez de lançar acusações despropositadas, apenas para se livrar de qualquer responsabilidade política perante a opinião pública


O alarme chegou mais cedo do que o habitual: poucas semanas depois do início das aulas já é complicado encontrar professores para substituir aqueles que entram de baixa médica ou que, por outras razões, deixaram de leccionar. Embora esta situação se tenha tornado recorrente nos anos mais recentes, o habitual é que esta escassez se fizesse mais notar a partir do 2.º período ou, como o ano passado, no fim do 1.º período.

A explicação não passa pelo contexto de pandemia e por uma eventual inundação de pedidos de baixa médica por questões de risco. Os 12.000 docentes “de risco” que iriam pedir atestado, que algumas contas por demonstrar apresentaram quase como uma ameaça ao funcionamento das aulas, ficaram-se por escassas centenas. Pelo que teremos de procurar algures as razões para a situação de carência que se vive.

Falta de candidatos à docência? Também não. Às 872 vagas abertas este ano para os quadros concorreram quase 37.000 professores em busca de colocação, bem acima dos 34.000 do ano anterior. Dos que não conseguiram entrada nos quadros, cerca de 9300 entraram em contratação inicial para o que o Ministério da Educação considera “necessidades temporárias”. Restaram mais 24.000 para substituições a realizar durante o ano lectivo. E será aqui que já voltaremos, para perceber porque agora eles parecem ter desaparecido.

Naquela sua forma de falar sobre estes assuntos, num misto de aparente desconhecimento da realidade e desejo de afastar de si qualquer responsabilidade política, o ministro da Educação deu uma entrevista em que afirmou que a falta de professores que permanece em muitas escolas se deve à negligência das direcções, singularizando o caso da Escola Secundária Rainha Dona Amélia, acusando a sua directora de não ter pedido em devido tempo os horários “a que tinha direito”. A isso respondeu, nas páginas do PÚBLICO, a presidente do Conselho Geral da escola em causa, recordando ao ministro alguns factos concretos sobre a situação das reservas de recrutamento, acusando-o de negligência na forma como se expressou e de deslealdade institucional.

Fez muito bem, mas deveria ter ido mais além e questionado se o ministro desconhece os procedimentos para a contratação de professores em regime de substituição, em especial para os lugares de docentes que se encontram de baixa médica por motivo de doença prolongada e que têm reduções lectivas por motivo de idade. O que gera horários “incompletos” para quem concorre à contratação. Ou se ignora porque muitos candidatos desistem na fase das substituições ou recusam muitos dos horários disponíveis. Se ainda não percebeu que os encargos (com deslocações e alojamento) em muitos casos não compensam os ganhos, pois com horários incompletos há perda de salário, de tempo de serviço e a contagem de tempo para efeitos de aposentação também é “racionalizada” pela Segurança Social.

Perante isto, se é verdade que existe uma preocupação em prestar as melhores condições aos alunos e “estabilizar” o corpo docente (o que inclui o pessoal contratado), seria de regressar ao que foi possível muito tempo, ou seja, completar horários a partir de, por exemplo, as 16 horas, com tarefas não lectivas ou mesmo com funções na área da preparação/apoio à produção de materiais e ferramentas para um eventual período de ensino à distância. Permitindo um salário mensal completo e a não perda de tempo de serviço. Agora só se podem completar horários, na própria escola, quando aparecem necessidades “lectivas” que encaixem no horário ou os professores têm de andar de escola em escola em busca das horas em falta, chegando a ter de leccionar em dois ou mais estabelecimentos. O que, para além de ter uma parcela de indignidade profissional, é profundamente desgastante.

Adicionalmente, deveria acabar a regra, em nome da tal “autonomia”, que impede as escolas de pedirem professores para lugares que sabem muito antes de 1 de Setembro estarem em situação de baixa prolongada, mas que agora só podem ser providos a partir das reservas de recrutamento, com “poupanças” ridículas à escala do OE mas perdas significativas para quem está sem colocação e ainda a vê atrasada várias semanas em virtude desta questão formal.

É estranho que o senhor ministro desconheça estas circunstâncias, pois vai a caminho de ser o titular mais tempo no cargo desde 1974. Era tempo de acelerar a sua curva de aprendizagem. Ou de resolver o problema, em vez de lançar acusações despropositadas, apenas para se livrar de qualquer responsabilidade política perante a opinião pública.

Artigo de opinião Jornal Público de 5 de Outubro

Paulo Guinote Professor do 2º ciclo do ensino Básico

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Tão felizes que nós éramos - Clara Ferreira Alves

Anda por aí gente com saudades da velha portugalidade. Saudades do nacionalismo, da fronteira, da ditadura, da guerra, da PIDE, de Caxias e do Tarrafal, das cheias do Tejo e do Douro, da tuberculose infantil, das mulheres mortas no parto, dos soldados com madrinhas de guerra, da guerra com padrinhos políticos, dos caramelos espanhóis, do telefone e da televisão como privilégio, do serviço militar obrigatório, do queres fiado toma, dos denunciantes e informadores e, claro, dessa relíquia estimada que é um aparelho de segurança.

Eu não ponho flores neste cemitério.

Nesse Portugal toda a gente era pobre com exceção de uma ínfima parte da população, os ricos. No meio havia meia dúzia de burgueses esclarecidos, exilados ou educados no estrangeiro, alguns com apelidos que os protegiam, e havia uma classe indistinta constituída por remediados. Uma pequena burguesia sem poder aquisitivo nem filiação ideológica a rasar o que hoje chamamos linha de pobreza. Neste filme a preto e branco, pintado de cinzento para dar cor, podia observar-se o mundo português continental a partir de uma rua. O resto do mundo não existia, estávamos orgulhosamente sós. Numa rua de cidade havia uma mercearia e uma taberna. Às vezes, uma carvoaria ou uma capelista. A mercearia vendia açúcar e farinha fiados. E o bacalhau. Os clientes pagavam os géneros a prestações e quando recebiam o ordenado. Bifes, peixe fino e fruta eram um luxo. A fruta vinha da província, onde camponeses de pouca terra praticavam uma agricultura de subsistência e matavam um porco uma vez por ano. Batatas, peras, maçãs, figos na estação, uvas na vindima, ameixas e de vez em quando uns preciosos pêssegos. As frutas tropicais só existiam nas mercearias de luxo da Baixa. O ananás vinha dos Açores no Natal e era partido em fatias fininhas para render e encharcado em açúcar e vinho do Porto para render mais. Como não havia educação alimentar e a maioria do povo era analfabeta ou semianalfabeta, comia-se açúcar por tudo e por nada e, nas aldeias, para sossegar as crianças que choravam, dava-se uma chucha embebida em açúcar e vinho. A criança crescia com uma bola de trapos por brinquedo, e com dentes cariados e meia anã por falta de proteínas e de vitaminas. Tinha grande probabilidade de morrer na infância, de uma doença sem vacina ou de um acidente por ignorância e falta de vigilância, como beber lixívia. As mães contavam os filhos vivos e os mortos, era normal. Tive dez e morreram-me cinco. A altura média do homem lusitano andava pelo metro e sessenta nos dias bons. Havia raquitismo e poliomielite e o povo morria cedo e sem assistência médica. Na aldeia, um João Semana fazia o favor de ver os doentes pobres sem cobrar, por bom coração.

Amortalhado a negro, o povo era bruto e brutal. Os homens embebedavam-se com facilidade e batiam nas mulheres, as mulheres não tinham direitos e vingavam-se com crimes que apareciam nos jornais com o título ‘Mulher Mata Marido com Veneno de Ratos’. A violação era comum, dentro e fora do casamento, o patrão tinha direito de pernada, e no campo, tão idealizado, pais e tios ou irmãos mais velhos violavam as filhas, sobrinhas e irmãs. Era assim como um direito constitucional. Havia filhos bastardos com pais anónimos e mães abandonadas que se convertiam em putas. As filhas excedentárias eram mandadas servir nas cidades. Os filhos estudiosos eram mandados para o seminário. Este sistema de escravatura implicava o apartheid. Os criados nunca dirigiam a palavra aos senhores e viviam pelas traseiras. O trabalho infantil era quase obrigatório porque não havia escolaridade obrigatória. As mulheres não frequentavam a universidade e eram entregues pelos pais aos novos proprietários, os maridos. Não podiam ter passaporte nem sair do país sem autorização do homem. A grande viagem do mancebo era para África, nos paquetes da guerra colonial. Aí combatiam por um império desconhecido. A grande viagem da família remediada ao estrangeiro era a Badajoz, a comprar caramelos e castanholas. A fronteira demorava horas a ser cruzada, era preciso desdobrar um milhão de autorizações, era-se maltratado pelos guardas e o suborno era prática comum. De vez em quando, um grande carro passava, de um potentado veloz que não parecia sujeitar-se à burocracia do regime que instituíra uma teoria da exceção para os seus acólitos. O suborno e a cunha dominavam o mercado laboral, onde não vigorava a concorrência e onde o corporativismo e o capitalismo rentista imperavam. Salazar dispensava favores a quem o servia. Não havia liberdade de expressão e o lápis da censura aplicava-se a riscar escritores, jornalistas, artistas e afins. Os devaneios políticos eram punidos com perseguição e prisão. Havia presos políticos, exilados e clandestinos. O serviço militar era obrigatório para todos os rapazes e se saíssem de Portugal depois dos quinze anos aqui teriam de voltar para apanhar o barco da soldadesca. A fé era a única coisa que o povo tinha e se lhe tirassem a religião tinha nada. Deus era a esperança numa vida melhor. Depois da morte, evidentemente.

Clara Ferreira Alves- Jornal Expresso 18/3/2017


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"A nova década: Uma era de longevidade" -Notícia audio Caderno de Economia do Jornal Expresso

O jornal expresso inaugurou este fim de semana uma nova forma de ler notícias ou seja colocar em audio as noticias que são transcritas no caderno de economia..

Ouvi esta notícia ,"Uma década: Uma era de longevidade", que me suscitou particular atenção pois é da área da Geografia, mais particularmente da demografia.Ouçam,não se vão arrepender. Pode haver opiniões contraditórias mas é sempre bom ouvir várias ideias sobre o mesmo assunto, ajuda-nos a crescer no nosso conhecimento sobre um tema.

sábado, 28 de março de 2020

Merkel conseguiu evitar o pior. Resta saber por quanto tempo (Artigo de Opinião de Teresa Sousa- Jornal Público)


1. Esperava-se que corresse mal. Correu pior. A única réstia de esperança é que poderia ter corrido ainda pior. Mas continua a ser legítimo dizer que não parece haver número de infectados ou de mortos, cenários catastróficos para a economia, números do desemprego a dispararem a uma velocidade raramente vista, cidades-fantasmas, angústia generalizada quanto ao futuro, que consiga levar os líderes dos 27 países da União Europeia a agirem como europeus. Foi triste a imagem que o terceiro Conselho Europeu por teleconferência deu de si próprio. E não foi por culpa de todos.
Também é legítima uma discussão sobre dívida conjunta ou sobre o montante de crédito que o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) deve conceder aos Estados-membros. Ela foi, certamente, intensa na última reunião do Eurogrupo que precedeu a cimeira e que, perante a constatação de divisões insanáveis, preferiu passar aos líderes a responsabilidade da decisão. Não é essa a questão essencial. O que é mais perigoso na situação que a Europa vive neste momento e na sua incapacidade de reagir em conjunto é que alguns dos seus líderes (ainda) não mudaram a sua forma de pensar. Pensam hoje o que pensavam antes da pandemia.
2. O primeiro-ministro português referiu quatro países que se opuseram à emissão de dívida conjunta para enfrentar a reconstrução económica e social da Europa. Depois corrigiu: três irredutíveis e um quarto que aceita o debate. Não revelou quais foram. Não lhe compete. Mas a forma como decorreu o Conselho, num clima tão tempestuoso que ia levando à ruptura, permite algumas conclusões.
Que os Países Baixos se opõem furiosamente aos eurobonds, seja qual for a forma que revistam, já sabíamos, e não houve qualquer esforço de Mark Rutte em desmenti-lo. Foram, aliás, as declarações do seu ministro das Finanças que levaram António Costa a dizer o que disse durante a conferência de imprensa final do Conselho Europeu, classificando-as de “repugnantes”. As suas palavras tornaram-se virais, provavelmente porque exprimem um sentimento partilhado em muitos países europeus. Na sexta-feira, o primeiro-ministro holandês não as quis comentar, mas sentiu-se obrigado a esclarecer que as palavras do seu ministro terão sido mal interpretadas – qualquer coisa entre “não escolheu bem as palavras” e “não o interpretaram bem”. Rutte também disse que eram “muitos” os países que pensavam como ele sobre a emissão de dívida. Hoje, sabemos que “muitos” quer dizer quatro, mesmo que haja ainda alguns líderes europeus que tenham preferido um relativo silêncio. Mesmo assim, nas últimas horas, mais três países juntaram a sua assinatura aos nove chefes de Estado e de Governo que, na véspera da cimeira, enviaram uma carta conjunta a Charles Michel, defendendo que a Europa precisa de recorrer a todos os instrumentos à sua disposição para enfrentar esta crise, incluindo a emissão de dívida. Entre eles, estão países ricos do Norte, como a Bélgica ou o Luxemburgo, mas também a França, a Itália e a Espanha, respectivamente a segunda, terceira e quarta economias do euro, ou Portugal, Irlanda e Grécia e, a partir de sexta-feira, Malta, Chipre e Lituânia.
3. O choque frontal que quase levou o Conselho Europeu à ruptura foi, como seria de prever, entre Mark Rutte e os primeiros-ministros dos dois países onde o sofrimento atingiu já as proporções de uma tragédia humana: Giuseppe Conte e Pedro Sánchez. Nem um nem outro estavam disponíveis para assinar uma Declaração conjunta cheia de palavras vazias, espelhando apenas o “menor denominador comum”, ou seja, o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) em determinadas condições e a exclusão de “coronabonds”. A ruptura acabou por ser evitada in extremis pela chanceler alemã através de uma intervenção considerada em Lisboa como “construtiva e moderada”, ainda muito longe de ceder no que diz respeito à emissão de dívida conjunta, mas capaz de evitar o pior. O argumento de Angela Merkel em relação aos “coronabonds” não é igual ao “nunca, jamais” de Rutte ou do chanceler austríaco Sebastian Kurz. O seu argumento é que não se deve prometer o que não se tem a certeza de poder cumprir. Mesmo assim, a sua intervenção permitiu aliviar a tensão e encontrar um acordo em torno do ponto 14.º da Declaração, onde nenhuma solução é mencionada para a reconstrução económica pós-pandemia, nem nenhuma é rejeitada. O Eurogrupo volta a ser mandatado para apresentar propostas concretas em duas semanas. “As propostas devem ter em conta a natureza sem precedentes do choque da covid-19, que afecta os nossos países todos”. “A nossa resposta decorrerá passo a passo, à medida que for necessária, com novas acções e de uma forma inclusiva, à luz dos desenvolvimentos e de forma a dar uma resposta abrangente.”
A Alemanha, como Merkel voltou a dizer no final da reunião, prefere o recurso ao MEE. Mas uma das razões pelas quais a Itália, entre outros países, se opõe a este mecanismo de resgate europeu (240 mil milhões dos 410 de que dispõe, que correspondem ao limite máximo de 2 por cento do PIB de cada país), está nas condicionalidades que impõe para a concessão de empréstimos – vistas como uma espécie de “programas de ajustamento” aplicados pela troika durante a crise das dívidas soberanas, com a mesma natureza estigmatizante. Nenhum país, de Portugal a Itália, quer voltar ao tempo da resposta à crise financeira de 2008, com as suas hesitações, as suas decisões no último minuto, as suas “estratégias de punição”, a sua execução em tempo recorde, impedindo as economias de respirar e saldando-se em custos sociais elevados. Sexta-feira, António Costa voltou a insistir nesta comparação.

Também esta sexta-feira, o Financial Times resumia bem a discussão que envolveu os lideres europeus. “Praticamente todos os países sairão desta crise com as suas dívidas inflacionadas e um défice mais pesado. Perante um pano de fundo desta natureza, discutir quem sairá com finanças ligeiramente mais saudáveis seria como vangloriar-se de ter a cara mais limpa depois de um combate na lama.”

4. O Presidente francês e o primeiro-ministro português insistiram no risco de vida que a Europa corre. Não estarão a exagerar. Se esta é a maior crise que os europeus enfrentam depois da II Guerra – como diz Merkel -, se esta é uma “guerra” contra um inimigo comum que não escolha quem ataca, como voltou a dizer esta sexta-feira António Costa, então a resposta só pode ter uma dimensão equivalente. Também esta sexta-feira, o Presidente do Parlamento Europeu, o italiano David Sassoli, manifestando a sua desilusão perante os fracos resultados do Conselho Europeu, lembrou que “ninguém conseguirá escapar a esta emergência sozinho”. “A Europa que vai emergir desta crise não será a mesma. Mas há quem ainda não tenha compreendido isso.”

Artigo de opinião escrito por Teresa Sousa 
Jornal Público 28 de Março

domingo, 1 de dezembro de 2019

Chuva, precisa-se- Artigo de opinião Jornal Expresso

Eis o primeiro número: em apenas um ano, Valter Luz perdeu 80% da sua produção. O olival que detém no nordeste do Algarve está a morrer. A seca que tem atacado o sul do país não o surpreende, mas revolta-o. “Neste momento, os lençóis freáticos não têm água. Toda a gente sabia do problema, não foram tomadas medidas, e agora estamos nesta situação.” O seu olival é um exemplo de agricultura de regadio, cada vez mais prejudicada pela falta de precipitação. E mesmo quando esta existe, é insuficiente, diz Valter: “o que tem chovido agora não dá para encher um copo de água”. O presente ano hidrológico — quando as reservas de água estão no mínimo com as chuvas prestes a começar — iniciou-se a 1 de outubro, mas até agora ainda não deu de si. No Algarve quase não chove há mais de sete meses. “Nos últimos dias já choveu qualquer coisa, e até pode ser que na agricultura de sequeiro haja uma recuperação, mas continua a ser bastante abaixo dos valores médios para esta altura do ano”, explica ao Expresso José Tomás, da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve.
O Índice PDSI do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), referente a outubro, diz que “houve um desagravamento” da seca no norte e no centro do país, mas a sul do Tejo a situação é preocupante. No total, 93,2% do território português estão em seca — 33,5% em seca ligeira, 31,9% severa, 4,3% extrema. Os concelhos de Castro Marim e Alcoutim — onde está a empresa agrícola de Valter — foram os mais atingidos. “Esta crise é quase tão severa como a grande seca de 2005”, garante José Tomás. Um outro indicador do IPMA, o índice de água no solo, mostra vários pontos algarvios e alentejanos em ponto de emurchecimento permanente, ou seja, com menos de 1% de água no solo. Pedro Monteiro, presidente da Direção Regional, acrescenta que “além do baixo nível de armazenamento das barragens e dos aquíferos [recursos hídricos subterrâneos], observamos que em alguns casos o nível de água no solo já está abaixo do necessário para as próprias plantas e vegetação natural.” Ou seja: há zonas do Algarve onde nem as raízes das plantas conseguem captar a água de que precisam. Enquanto vê a sua subsistência extinguir-se, Valter desabafa: “Só vamos começar a preocupar-nos com a água quando abrirmos a torneira e ela faltar.” O problema não é só português, e a recente polémica envolvendo Espanha e os caudais do rio Tejo prova-o: devido à falta de chuva, o país vizinho pode invocar condições de exceção para não enviar para Portugal os valores mínimos de água acordados. Aliás, uma previsão recente diz que a Península Ibérica deverá ver a sua precipitação diminuir entre 20% a 40% até 2100.
No relatório “Vulnerabilidade de Portugal à Seca e Escassez de Água”, publicado em outubro pela Associação Natureza Portugal em parceria com a World Wide Fund for Nature, é apontado que “desde a década de 70 têm sido cada vez mais frequentes anos com precipitação inferior à média, e cada vez mais raros anos muito chuvosos.” No último ano, mostra o IPMA, em apenas dois meses os valores de precipitação em Portugal foram acima do valor médio: novembro 2018 e abril 2019. Porém, alargando a análise a todo a Europa, a Agência Europeia do Ambiente conclui a existência de duas realidades distintas: durante o verão, a precipitação média diminui bastante na última década na maior parte do sul da Europa (mais de 20 mm), mas aumentou mais de 18 mm no mesmo período em muitos locais do norte do continente. Dados do Sistema de Informação de Recursos Hídricos mostram que de janeiro a setembro último, Portugal continental teve níveis de precipitação de 17 mm, quando a média é de 41,8 mm. Há dez anos, esse valor era ainda mais seco (7,9 mm).
Cá, a falta de chuva representa, historicamente, um problema caro. Afonso do Ó, o autor do relatório da ANP, garante ao Expresso que os prejuízos económicos e ambientais da seca atual “deverão ser ainda mais elevados” do que os registados em 2004-06, quando só o sector agrícola perdeu €130 milhões, toda a produção privada sofreu um impacto de €519 milhões, e €234 milhões evaporaram-se no turismo, na economia, e a garantir abastecimento urbano. Já em 1999, ano também severo, a escassez de água nas várias bacias hidrográficas do país fez o país perder €1,432 milhões só no continente — 22% do produto agrícola bruto. Este ano, especifica o relatório, perderam-se rendimentos nas culturas de outono/inverno (como o trigo e a cevada), pastagens para alimentar o gado, e ocorreu “uma quebra de 10% da área prevista para cultivo de arroz”.
O MUNDO A SECAR
No início do relatório de Afonso do Ó estão presentes alguns dados importantes a nível global: por exemplo, a estimativa de que todos os anos morrem 20 mil pessoas devido ao impacto das secas, e 50 milhões sofrem as suas consequências diretas. Pode estar a cair mais chuva sobre o norte da Europa, mas os períodos de seca — que são “naturais”, aponta Afonso do Ó — estão a evoluir para um problema estrutural de escassez de água um pouco por todo o mundo. Em agosto último, o “The New York Times” alertou para a “ameaça do dia zero” — o dia em que, como avisava Valter, “a torneira deixará de deitar água”, e que estará próximo para um quarto da população mundial. São Paulo e a Cidade do Cabo são algumas das cidades que sofreram recentemente crises de falta de água; a Cidade do México está no fim das suas reservas subterrâneas, e Daca, no Bangladesh, já tem de ir buscar água a mais de 100 metros de profundidade. Países tão diferentes como as Honduras e o Paquistão partilham a mesma fonte de dois problemas distintos: enquanto que no primeiro os incentivos à agricultura existem mas esmorecem perante “o corredor da seca”, no segundo o sector precisa de ser domado para travar o uso desregulado de água.

O mesmo artigo do “The New York Times” sinaliza que já há 255 milhões de pessoas no mundo a viver em stresse hídrico extremamente elevado; até 2030, serão 470 milhões. O portal Aqueduct, pertencente ao World Resources Institute, ordenou os países de acordo com a sua utilização e gestão da água em várias frentes, e concluiu que Qatar, Israel e Líbano são os países que pior o fazem. O top 10 é dominado por países africanos; Portugal surge na posição 41, mas é logo o 7º entre países europeus.
DANÇAS DA CHUVA?
As únicas técnicas conhecidas para forçar a precipitação são a dança da chuva, rituais que algumas comunidades nativo americanas (e não só) praticam quando o desespero da seca mais aperta. Infelizmente, não há dados científicos que comprovam a sua eficácia, tornando-se necessário contornar o problema com outros métodos. Em Portugal, tanto Valter Luz como Pedro Monteiro concordam que, além da sensibilização pública para a importância de poupar água, é necessário mudar a agricultura, com “sistemas de rega mais eficientes e alterações no perímetro agrícola”, aponta Pedro Monteiro. Elenca ainda o tratamento de águas residuais, as recargas artificiais dos aquíferos e a transformação da água do mar em água potável através de centrais de dessalinização (Portugal tem uma em Porto Santo, na Madeira). No entanto, as soluções perfeitas parecem escassear tanto quanto a água. No Guatemala, já é possível recolher água de nevoeiro, mas a energia necessária para que este sistema funciona torna-o pouco viável. E a dessalinização, apesar de ser agora mais barata, tem um grande impacto ambiental, contribuindo para o aquecimento global e prejudicando a vida marinha.
E claro, existem as barragens. Valter Luz dá o exemplo da barragem da Foupana, exigida por agricultores e criadores de gado e a construir em Castro Marim, mas cujo projeto foi abortado pelo Governo. Para o agricultor, só alguém que não conhece o terreno é que pode dizer que há barragens a mais em Portugal. Mas a ciência diz o contrário. “Há de facto barragens a mais no mundo ocidental. Têm um impacto ecológico enorme, destroem praticamente os rios, não há hipótese de haver vida num rio que é como uma veia toda compartimentada”, garante Afonso do Ó. Embora reconheça que as barragens foram importantes para garantir os abastecimentos mínimos, diz que no futuro tem de haver articulação entre aquíferos e albufeiras, uso de águas residuais, e dessalinização “só em casos em que não há alternativa”. Adianta que se não chover este inverno, o Algarve terá de ser abastecido de emergência, mas não culpa a rega dos campos de golfe [consomem 7% da água na região] por isso: “cientificamente é uma falsa questão”.
Pelo contrário, lamenta a escassez de progressos políticos e medidas concretas desde a seca de 2005-06. “Na sequência de uma seca há sempre pequenos avanços, mas mal volta a chover as coisas ficam esquecidas. Não passou a haver uma gestão preventiva do risco de seca, não se diversificaram as origens da água, nem para abastecimento urbano nem para regadios. O Plano Nacional da Água [criado em 2002 e atualizado pela última vez em 2016] é demasiado genérico e teórico, não chega a esse nível de detalhe.” Apesar de tudo, Afonso do Ó sublinha que “não há uma tendência clara de redução da precipitação.” Mesmo com os efeitos das alterações climáticas, depois da seca podem vir dois ou três anos muitíssimo chuvosos. Por isso, “a responsabilidade é sempre nossa: temos de aprender a lidar com o consumo de água que fazemos.”
Artigo de opinião: Tiago Soares 
Jornal Expresso- 30 Novembro de2019

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

"Pobre interior" -Artigo de Opinião Jornal Expresso

Em Portugal, a distribuição geográfica da atividade económica, social e cultural entre o litoral e o interior é, como todos sabemos, demasiadamente assimétrica e, consequentemente, o mesmo acontece com a distribuição da população. O litoral é jovem, urbano, povoado, dinâmico e ativo. Pelo contrário, o interior é envelhecido, rural, desertificado, estagnado, deprimido e associado a uma milenar vida de miséria.
Porque as pessoas vão para onde há “economia”, a emigração para os centros urbanos do litoral tem sido a tendência histórica. A escassez de população nas zonas de fronteira com Espanha começou com a conflitualidade histórica entre os Reinos de Portugal e de Castela-Leão: sem população, infraestruturas e oportunidades de emprego gerou-se uma barreira entre Reinos. Posteriormente, a orientação marítima imposta pelos descobrimentos acentuou o atraso do interior. Desde os anos 30 do século passado, mas sobretudo no pós-II Guerra Mundial, com a globalização e o aumento da concorrência, aumentou a pressão competitiva sobre as empresas pelo que, sem ajuda pública, passaram a concentrar-se no litoral. A tendência agravou-se com a adesão à EFTA nos anos 60 e a adesão à CEE/UE nos anos 80 do século passado. O reforço da atraso do interior foi sempre potenciado pelo poder político com maior investimento público em infraestruturas, serviços e criação de emprego no litoral, onde há eleitores.
Em suma, as migrações que têm assolado o interior à procura de melhores condições de empregabilidade no litoral (e no estrangeiro) conduziram ao progressivo esvaziamento demográfico e empresarial. Apesar de todos os constrangimentos que historicamente se têm imposto ao interior, representa – e representará – cerca de 70% do território nacional e, atualmente, já menos de 30% da população.
Como a generalidade dos governos anteriores, porque fica sempre bem dizer que há que apostar no “pobre” interior, também o atual manifestou “desejo” de contribuir para a diminuição do atraso. Como de todas as outras vezes, também na presente legislatura tal não passou de um “desejo”. O mais admirável é que o processo continua a repetir-se e os políticos continuam a apostar na memória curta dos eleitores, continuando a ficar bem – e, provavelmente, a “render” votos – manifestar “desejo” de apoiar o “desgraçado” interior. Assim, em pré-campanha, o primeiro-ministro deu-se ao luxo de “perder” uma semana em viajem mais ou menos turística pelo interior para, com a afetuosa comunicação social por perto, dar conta do novo futuro “desejo”. Curiosamente, com a mesma intensidade que se diz apostar no interior, vão-se encerrando serviços (veja-se o encerramento de diversos balcões da CGD ou de estações dos CTT), pelo que as populações esquecidas do interior terão de satisfazer as suas necessidades em centros urbanos mais pró litoral.
É verdade que o avanço nas tecnologias de informação – televisão, internet e telemóveis – pode atenuar o isolamento de algumas pessoas esquecidas do interior, mas não favorece a fixação no interior e, portanto, não promove a inclusão e a coesão social e territorial. Também as melhorias nas vias de comunicação – estradas e autoestradas – podem atenuar o isolamento, mas não promoveram o desenvolvimento e a coesão, acabando sobretudo por permitir maior mobilidade entre regiões. Em particular, muita gente, como eu, que saiu para o litoral pode agora, mais facilmente, passar fins de semana ou férias na terra natal do interior.
O que se espera dos governos é que sejam capazes de corrigir as falhas de mercado, pelo que devem intervir no sentido de promover / reestruturar a atividade económica no interior. Se assim não for, como não tem sido, entra-se, como tem acontecido, num círculo vicioso. A “economia” foi deixando de ser suficiente para melhorar as condições de vida, passando a faltar empregos e equipamentos básicos. À medida que a população do interior foi diminuindo, menos “economia” foi sendo precisa e muitas empresas foram fechando: o círculo vicioso da pobreza e da desertificação foi-se autoalimentando “a olhos vistos”.
Face ao litoral, permanece uma enorme desigualdade de oportunidades. Desde logo pela inferior qualidade dos serviços fornecidos pelo Estado nas áreas da cultura, educação, justiça e saúde. Permite-se que a elite dirigente e técnica de um sem número de organismos com funções de regulação, controlo e fiscalização, cuja atividade produtiva se concentra no interior, desempenhe as suas funções no litoral. Refira-se a título de exemplo o Instituto da Vinha e do Vinho, o Instituto dos Vinhos do Porto e Douro, a Administração e todos os serviços da EDP, Iberdrola e outras.
Consideram as barragens como “investimentos de desenvolvimento local” (embora para alguns até já sejam um problema porque, pasme-se, contribuem, por evaporação, para a perda de água!), mas apenas criam o posto de trabalho do vigilante durante a sua fase de exploração, pois o “real” emprego concentra-se no litoral. Aliás, o que o Estado tem feito com estes empreendimentos é nacionalizar, ao abrigo do interesse nacional, os meios de produção de milhares de anónimos que tinham aí a sua independência económica e simultaneamente garantida a liberdade, para depois concessionar a uma entidade privada a sua exploração, cujos detentores de capital jamais contribuíram para a melhoria da massa crítica social destes lugares. O mesmo vai obviamente passar-se com a exploração de lítio que não passará de mais um recurso sugado do interior.
Resumindo, o investimento que o Estado tem promovido no interior, em vez de criar efeito de replicação/imitação, concentra ainda mais o emprego e a riqueza no litoral, alargando o fosso entre as regiões. Há apenas investimentos pontuais, intempestivos, sem qualquer possibilidade de adensamento do tecido económico e social. Investe no turismo, mas corta serviços de saúde. Investe na educação, mas cria organismos com capacidade de absorção de recursos humanos de elevada formação no litoral. Despeja milhões no combate aos incêndios rurais, mas os beneficiários estão no litoral. Não existe, de facto, uma política integrada de aumento de competitividade do território do interior, para que os recursos dos residentes lhes permita aceder aos bens e serviços que a sociedade fornece. Resta a migração que tem sido e continua a ser a sina de transmontanos, beirões, alentejanos e de parte de minhotos.
Desejando agora promover a coesão e o desenvolvimento social e territorial, se não houvesse hipocrisia, o governo concederia de imediato incentivos generosos, compensando os custos da interioridade. O montante adequado seria certamente menor que o despendido com a recente ajuda à banca! Seguindo a máxima “não dê o peixe, ensine a pescar”, a forma de distribuição desses incentivos requer a formulação de estratégias que tornem o interior competitivo, o que significa que é necessário saber identificar as vantagens competitivas que devem ser preservadas. Com ajuda pública, o interior, desde logo pela mão de autarcas competentes, deve aproveitar capacidades instaladas e características que o diferenciam, potenciando-as e traçando uma estratégia que fortaleça o aproveitamento económico das oportunidades. O interior tem recursos mais ou menos abundantes que devem ser valorizados e aproveitados a seu favor – e nunca sugados –, desde o património cultural (monumental e imaterial) aos espaços naturais, desde produtos agrícolas singulares aos recursos do subsolo. Em algumas indústrias tem até tradição. É assim que se deve pensar o desenvolvimento.
O interior deve finalmente beneficiar do princípio da solidariedade interterritorial, como Portugal na totalidade (e o litoral, em particular) tem beneficiado dos países mais ricos da União Europeia. Isso faz-se, por exemplo, invertendo a lógica de desqualificação dos serviços e infra-estruturas existentes. Faz-se também por via do reforço de serviços e da atratividade de alguns centros urbanos do interior, estrategicamente posicionados. Faz-se, ainda, olhando para os recursos e capacidades endógenas e pensando o respetivo desenvolvimento a partir do aproveitamento desses recursos e dessas competências.
Portugal será forte se tiver também um interior forte!
Artigo de opinião Jornal Expresso de 26 de Setembro de 2019
Óscar Afonso Presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude e docente na FEP