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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Comentário Artigo de Opinião de Óscar Afonso


O artigo intitulado por Óscar Afonso "Pobre Interior" chamou-me a atenção pelo titulo e li-o atentamente.

Revejo na integra no que ele escreveu. Apenas pretendia que ele e outras pessoas com influência política viessem ao interior, falassem com as pessoas e ganhassem credibilidade perante elas.
Nós pagamos impostos mas não  temos as mesmas facilidades de nos deslocarmos e em muitos casos fecham-nos serviços, conquistados tão arduamente no passado, como os CTT, Centro de Saúde ou Tribunais. Todos os serviços perdidos pela escassa utilização SÃO DE VITAL IMPORTÂNCIA para esta população já tão carenciada.
Nós somos um país tão pequeno, não podemos caminhar a várias velocidade. Há vários problemas no litoral e nas grandes cidades mas existem porque há um excesso de população e as pessoas não têm alternativa e não são aliciadas com incentivos, para se fixarem no interior e com o seu dinamismo, atraírem  gerações mais jovens. É urgente trazer mais vida a regiões que precisam mesmo dela para não morrerem e deixarem de ter voz.

Eu vivo no interior e percebo as enormes dificuldades que os mais jovens têm dificuldades em fixar-se cá. Trabalho numa escola e custa-me perceber que só há uma turma por ano desde o 5o ao 9º ano de escolaridade. Os serviços vão fechando à medida que as vozes criticas vão perdendo força em consequência da idade e da percepção da inutilidade das suas lutas. Há um longo trabalho e caminho a percorrer, Hoje as autarquias e o Governo deveriam cativar os mais jovens para lá permanecerem, valorizando-os e acarinhando-os. Considero um retrocesso a perda de serviços como os CTT, tribunais ou centro de saúde.... Bolas afinal ainda há gente a morar no interior!
Relembro novamente que o EQUILIBRIO deve ser feito para o bem do país.
Não se lembrem só do interior quando precisam ou seja na época das eleições. Por favor passem das palavras aos atos.

"Pobre interior" -Artigo de Opinião Jornal Expresso

Em Portugal, a distribuição geográfica da atividade económica, social e cultural entre o litoral e o interior é, como todos sabemos, demasiadamente assimétrica e, consequentemente, o mesmo acontece com a distribuição da população. O litoral é jovem, urbano, povoado, dinâmico e ativo. Pelo contrário, o interior é envelhecido, rural, desertificado, estagnado, deprimido e associado a uma milenar vida de miséria.
Porque as pessoas vão para onde há “economia”, a emigração para os centros urbanos do litoral tem sido a tendência histórica. A escassez de população nas zonas de fronteira com Espanha começou com a conflitualidade histórica entre os Reinos de Portugal e de Castela-Leão: sem população, infraestruturas e oportunidades de emprego gerou-se uma barreira entre Reinos. Posteriormente, a orientação marítima imposta pelos descobrimentos acentuou o atraso do interior. Desde os anos 30 do século passado, mas sobretudo no pós-II Guerra Mundial, com a globalização e o aumento da concorrência, aumentou a pressão competitiva sobre as empresas pelo que, sem ajuda pública, passaram a concentrar-se no litoral. A tendência agravou-se com a adesão à EFTA nos anos 60 e a adesão à CEE/UE nos anos 80 do século passado. O reforço da atraso do interior foi sempre potenciado pelo poder político com maior investimento público em infraestruturas, serviços e criação de emprego no litoral, onde há eleitores.
Em suma, as migrações que têm assolado o interior à procura de melhores condições de empregabilidade no litoral (e no estrangeiro) conduziram ao progressivo esvaziamento demográfico e empresarial. Apesar de todos os constrangimentos que historicamente se têm imposto ao interior, representa – e representará – cerca de 70% do território nacional e, atualmente, já menos de 30% da população.
Como a generalidade dos governos anteriores, porque fica sempre bem dizer que há que apostar no “pobre” interior, também o atual manifestou “desejo” de contribuir para a diminuição do atraso. Como de todas as outras vezes, também na presente legislatura tal não passou de um “desejo”. O mais admirável é que o processo continua a repetir-se e os políticos continuam a apostar na memória curta dos eleitores, continuando a ficar bem – e, provavelmente, a “render” votos – manifestar “desejo” de apoiar o “desgraçado” interior. Assim, em pré-campanha, o primeiro-ministro deu-se ao luxo de “perder” uma semana em viajem mais ou menos turística pelo interior para, com a afetuosa comunicação social por perto, dar conta do novo futuro “desejo”. Curiosamente, com a mesma intensidade que se diz apostar no interior, vão-se encerrando serviços (veja-se o encerramento de diversos balcões da CGD ou de estações dos CTT), pelo que as populações esquecidas do interior terão de satisfazer as suas necessidades em centros urbanos mais pró litoral.
É verdade que o avanço nas tecnologias de informação – televisão, internet e telemóveis – pode atenuar o isolamento de algumas pessoas esquecidas do interior, mas não favorece a fixação no interior e, portanto, não promove a inclusão e a coesão social e territorial. Também as melhorias nas vias de comunicação – estradas e autoestradas – podem atenuar o isolamento, mas não promoveram o desenvolvimento e a coesão, acabando sobretudo por permitir maior mobilidade entre regiões. Em particular, muita gente, como eu, que saiu para o litoral pode agora, mais facilmente, passar fins de semana ou férias na terra natal do interior.
O que se espera dos governos é que sejam capazes de corrigir as falhas de mercado, pelo que devem intervir no sentido de promover / reestruturar a atividade económica no interior. Se assim não for, como não tem sido, entra-se, como tem acontecido, num círculo vicioso. A “economia” foi deixando de ser suficiente para melhorar as condições de vida, passando a faltar empregos e equipamentos básicos. À medida que a população do interior foi diminuindo, menos “economia” foi sendo precisa e muitas empresas foram fechando: o círculo vicioso da pobreza e da desertificação foi-se autoalimentando “a olhos vistos”.
Face ao litoral, permanece uma enorme desigualdade de oportunidades. Desde logo pela inferior qualidade dos serviços fornecidos pelo Estado nas áreas da cultura, educação, justiça e saúde. Permite-se que a elite dirigente e técnica de um sem número de organismos com funções de regulação, controlo e fiscalização, cuja atividade produtiva se concentra no interior, desempenhe as suas funções no litoral. Refira-se a título de exemplo o Instituto da Vinha e do Vinho, o Instituto dos Vinhos do Porto e Douro, a Administração e todos os serviços da EDP, Iberdrola e outras.
Consideram as barragens como “investimentos de desenvolvimento local” (embora para alguns até já sejam um problema porque, pasme-se, contribuem, por evaporação, para a perda de água!), mas apenas criam o posto de trabalho do vigilante durante a sua fase de exploração, pois o “real” emprego concentra-se no litoral. Aliás, o que o Estado tem feito com estes empreendimentos é nacionalizar, ao abrigo do interesse nacional, os meios de produção de milhares de anónimos que tinham aí a sua independência económica e simultaneamente garantida a liberdade, para depois concessionar a uma entidade privada a sua exploração, cujos detentores de capital jamais contribuíram para a melhoria da massa crítica social destes lugares. O mesmo vai obviamente passar-se com a exploração de lítio que não passará de mais um recurso sugado do interior.
Resumindo, o investimento que o Estado tem promovido no interior, em vez de criar efeito de replicação/imitação, concentra ainda mais o emprego e a riqueza no litoral, alargando o fosso entre as regiões. Há apenas investimentos pontuais, intempestivos, sem qualquer possibilidade de adensamento do tecido económico e social. Investe no turismo, mas corta serviços de saúde. Investe na educação, mas cria organismos com capacidade de absorção de recursos humanos de elevada formação no litoral. Despeja milhões no combate aos incêndios rurais, mas os beneficiários estão no litoral. Não existe, de facto, uma política integrada de aumento de competitividade do território do interior, para que os recursos dos residentes lhes permita aceder aos bens e serviços que a sociedade fornece. Resta a migração que tem sido e continua a ser a sina de transmontanos, beirões, alentejanos e de parte de minhotos.
Desejando agora promover a coesão e o desenvolvimento social e territorial, se não houvesse hipocrisia, o governo concederia de imediato incentivos generosos, compensando os custos da interioridade. O montante adequado seria certamente menor que o despendido com a recente ajuda à banca! Seguindo a máxima “não dê o peixe, ensine a pescar”, a forma de distribuição desses incentivos requer a formulação de estratégias que tornem o interior competitivo, o que significa que é necessário saber identificar as vantagens competitivas que devem ser preservadas. Com ajuda pública, o interior, desde logo pela mão de autarcas competentes, deve aproveitar capacidades instaladas e características que o diferenciam, potenciando-as e traçando uma estratégia que fortaleça o aproveitamento económico das oportunidades. O interior tem recursos mais ou menos abundantes que devem ser valorizados e aproveitados a seu favor – e nunca sugados –, desde o património cultural (monumental e imaterial) aos espaços naturais, desde produtos agrícolas singulares aos recursos do subsolo. Em algumas indústrias tem até tradição. É assim que se deve pensar o desenvolvimento.
O interior deve finalmente beneficiar do princípio da solidariedade interterritorial, como Portugal na totalidade (e o litoral, em particular) tem beneficiado dos países mais ricos da União Europeia. Isso faz-se, por exemplo, invertendo a lógica de desqualificação dos serviços e infra-estruturas existentes. Faz-se também por via do reforço de serviços e da atratividade de alguns centros urbanos do interior, estrategicamente posicionados. Faz-se, ainda, olhando para os recursos e capacidades endógenas e pensando o respetivo desenvolvimento a partir do aproveitamento desses recursos e dessas competências.
Portugal será forte se tiver também um interior forte!
Artigo de opinião Jornal Expresso de 26 de Setembro de 2019
Óscar Afonso Presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude e docente na FEP

domingo, 9 de junho de 2019

O sofrimento nos olhos deles (Reportagem Jornal Expresso)




Este fim de semana li no expresso uma reportagem que retrata a triste realidade do maior campo de refugiados do Mundo, no Bangladesh. Optei apesar da sua extensão por expor a reportagem na integra.

"A fuga de mais de 740 mil pessoas da minoria étnica muçulmana rohingya, de Myanmar, fez com que nascesse no sul do Bangladesh o maior campo de refugiados do mundo. Em apenas três meses. São hoje 1,2 milhões de pessoas dependentes de assistência humanitária

Há nos olhos raiados de Jamila uma tristeza profunda. “Quando me lembro da situação em Myanmar quase choro.” Pausa.
As frases chegam devagar e sem força. Saem dos seus olhos mais palavras do que as que a boca carrega. Não precisaria de falar para que se entendesse a dureza impregnada nos seus 50 anos. “Incêndios, pessoas chacinadas, casas queimadas, pessoas violadas.” Perdeu o marido. O irmão. A irmã. “Foram mortos pelos rakhines.”
Ela, as quatro filhas, os dois filhos e o neto conseguiram fugir. Embrenharam-se floresta dentro durante quatro dias até alcançarem a margem do rio Naf. “Sem comida. Sem água”, lembra sentada numa cadeira de plástico à entrada da casa de bambu que lhe serviu de teto no último ano e meio de vida. Para aqui chegar, ao Bangladesh, faltava-lhe ainda esperar cinco dias na margem do rio até que lhes fosse possível fazer a travessia de barco. Foram necessárias 12 horas para chegar, por fim, ao país. “Sofremos muito. Tínhamos fome. Tivemos de beber água salgada.”
Regressamos a agosto de 2017, quando uma vaga de violência explodiu no Estado de Rakhine, em Myanmar, entre militares birmaneses e a minoria muçulmana rohingya. Foi este conflito que fez com que nascesse na divisão de Chittagong, Bangladesh, o maior campo de refugiados do mundo. “Eram ondas e ondas de pessoas a chegar sem parar.” Um anos depois a memória de Sunee Singh, responsável pelo departamento político do Programa Alimentar Mundial (PAM), continua bem fresca. “Chovia e eles estavam completamente molhados. Todos choravam. Fiquei chocada e pensei que aquele era um momento que só vemos nos filmes. Não tínhamos comida para todos. Em 2016 tivemos um pequeno influxo de cerca de 75 mil pessoas. Estávamos à espera de algo semelhante ou um pouco mais.” Chegaram mais de 745 mil pessoas em três meses.
Terrível poderá não ser palavra suficiente para descrever as histórias vividas pelos rohingya. Fatama Begum, 33 anos, foi violada por cinco homens. “Primeiro mataram o meu irmão. Depois atiraram-me para o lado e um rasgou-me as vestes, agarrou-me pela boca e manteve-me quieta. Espetou-me uma faca e manteve-a ali enquanto os homens me violaram.” Sobreviveu. A filha de Hassina, com um ano, não. Foi retirada dos braços da mãe e atirada viva para uma fogueira onde os corpos dos homens que haviam sido mortos eram queimados. Hassina, de 20 anos, e outras mulheres foram levadas depois até uma casa onde foram violadas, esfaqueadas e pontapeadas. A casa foi depois incendiada, mas ela acordou a tempo de fugir. As outras não.
De acordo com os Médicos sem Fronteiras e a Human Rights Watch (HRW ) mais de metade das vítimas de violação em tratamento nos campos têm menos de 18 anos, algumas menos de 10 anos. Não se sabe o número total de vítimas. Referem-se milhares. Só ao Fundo de População das Nações Unidas, UNFPA, foram reportados mais de 10 mil casos. O acesso a elas está vedado aos jornalistas, seguindo o protocolo internacional para que o trauma não seja repetidamente revivido. Apesar do apoio psicológico, 20% da população do campo ainda apresenta problemas do foro mental, segundo dados do ACNUR.“O estado em que chegaram era gravíssimo.”, recorda Manuel Pereira, coordenador de emergências da OIM em Cox Bazar. “Em termos de resposta humanitária, a pressão das pessoas a chegar não tem muitos precedentes.” 52% eram mulheres. Mais de meio milhão crianças. Durante o denominado estado de emergência, organizações governamentais e não-governamentais trabalharam em conjunto para dar resposta ao monstruoso influxo de pessoas: providenciar cuidados de saúde básicos, abrigo, alimentação e água, preparar o terreno para as chuvas fortes. “Foi uma resposta muito em cima do joelho para garantir que as pessoas tinham os mínimos.”, explica Pereira.
O MAIOR CAMPO DE REFUGIADOS DO MUNDO
Os rohingyas foram acampando entre Teknaf e Palong Khlai, dois territórios do Bangladesh separados por mais de 50 quilómetros e embrenhados no santuário de vida selvagem de Teknaf. A vegetação teve de ser destruída para que dos montes se fizesse casa para o maior
influxo de refugiados que o mundo presenciou na sua História. Aí nasceram 33 campos, adicionados aos refugiados que já se haviam instalado no local anteriormente a 2017, perfazendo um total de 909 mil rohingyas.

Mas os cálculos incluem ainda as comunidades afetadas pelo influxo, levando a que o número ultrapasse o milhão — 1,2 milhões de pessoas dependente de assistência humanitária. Os números catapultaram o Bangladesh para o topo mundial das crises humanitárias, atribuindo a este território o título de maior campo de refugiados do mundo.

Do topo de um dos montes em Kutupalong, a cerca de uma hora de Cox Bazar, seria fácil imaginar que a vida se havia aqui instalado há anos. O pó amarelo levado pelo vento quente e forte cobriu os plásticos que formam paredes e tetos em conjunto com o bambu. Os olhos perdem-se na imensidão dos campos.

Há pontes e escadarias feitas em bambu, estradas de tijolo, placas de localização, campos de futebol improvisados, centros de saúde e de distribuição de comida, escolas, mercados, barbeiros, pequenos cafés, muita construção que prepara os campos para a época das monções. Chamar-lhe cidade seria desajustado, dizer organizado é “demasiado forte”. Manuel Pereira prefere a palavra “estruturado”, um terreno gigante onde a vegetação começa a surgir e uma ou outra árvore se manteve hirta.
É necessário descer o monte para se entender as muitas dificuldades. O risco de cólera e de outras doenças infetocontagiosas permanece. Faltam ainda estradas, pontes, centros de alimentação e saúde em lugares estratégicos. Falta reconstruir e reforçar os abrigos, melhorar a iluminação, preparar os terrenos para as cheias, reflorestar. E falta aumentar o número de postos de abastecimentos de água, melhorar o escoamento de efluentes, com consequências no ambiente, na qualidade da água e na saúde. É um leque de trabalhos que conta com a participação dos refugiados.

COMBATER O TRÁFICO HUMANO
Descendo o monte até ao campo 4 entramos no Centro de Mulheres. Escondem-se os rostos entre os lenços. Um sorriso tímido aqui e ali. A cabeça voltada para o chão. Aqui não há homens. Ouve-se o barulho das muitas máquinas de costura vindo de uma das salas do centro, um refúgio da vida, um espaço que pretende dotar as raparigas de qualificações e oportunidades. Sunee Singh, do PAM, criou o primeiro programa mundial de resiliência para mulheres em campos de refugiados, em parceria com outros programas das Nações Unidas e o Governo do Bangladesh. “As mulheres foram as mais afetadas e percebi que, além do apoio psicológico, era necessário providenciar um acompanhamento especializado.” Aqui ensina-se a costurar, a fazer pintura de panos e a arranjar telemóveis. “Estamos a dar-lhes algo que elas nunca tiveram, algo que vai para lá da sobrevivência. Estamos a dar-lhes dignidade, a contribuir para a economia local e do campo.”

Num dos cantos, um pequeno grupo de mulheres junta-se em redor de uma mesa onde se acumulam peças de telemóveis antigos. Ummesalina, olhos presos ao chão, está a aprender a arranjar telemóveis. “Nós encarámos tantas adversidades até chegarmos à margem. Chovia e os montes foram tão difíceis. Aqui somos felizes.” A voz jovem treme por trás da burqa, mas não lhe falha. “Quando ouvi falar do serviço que estava a ser providenciado no Centro de Mulheres disse à minha mãe que era importante vir e ser uma mulher qualificada”, conta enquanto esconde o rosto e fala repetidamente do irmão e da irmã que ainda se encontram em Myanmar. “É muito importante ser educada, porque quando nos casarmos as nossas crianças serão também educadas”, acredita. Na sala ao lado, cheia de tecidos coloridos e antigas máquinas de costura pintadas com flores, as palavras de Khaleda demonstram já a transformação pessoal ocorrida nos últimos meses: “Ser educada permite-nos ser resilientes, ter autoconfiança, fazer parte das decisões da comunidade. Nós não sabíamos sequer escrever o nosso nome”, conta, escrevendo a sua assinatura num caderno, ar orgulhoso e letra vinda de mãos ainda pouco acostumadas ao peso da caneta.
É preciso mais meia hora de viagem para abandonar o grande complexo de Kutupalong-Balukhali onde vivem quase 750 mil pessoas, passar por campos de arroz e estradas em terra batida para chegar ao campo 22, onde o isolamento é visível e as condições de vida ainda mais precárias. As raparigas caminham uma hora para chegar ao Centro de Mulheres deste campo. Sentadas em fila, pedem mais, de olhar determinado. Mais centros, mais máquinas. Ao lado das instalações, Laila, viúva e mãe de três filhos, mostra-nos embevecida a sua horta, fruto das sementes dadas pelo programa. É um quadrado de terra que lhe alimenta a família e lhe gera dinheiro no bolso. Cerca de cinco euros que lhe transformam a vida.

Existem 226 mil mulheres no campo com mais de 18 anos. O programa do Centro de Mulheres iniciado em julho de 2018 chega, por agora, a seis mil mulheres, com um custo de 200 dólares por pessoa [cerca de 175 euros]. Até ao final de 2019 o objetivo é, combatendo a falta de terrenos e financiamento, aumentar o número de atividades, passar de 10 a 14 centros e envolver 15 mil pessoas, incluindo homens.

A questão cultural é, porém, ainda uma grande barreira. As mulheres não tiveram acesso a educação, sofrem um grande isolamento social, são vítimas de violência de género e discriminação étnica. O programa foi apresentado porta a porta. Inicialmente cerca de 5% das mulheres desistiram. Foram proibidas pelo pai ou pelo marido, engravidaram, mudaram de campo.

A par da aprendizagem cada mulher recebe cerca de 10 euros em forma de e-voucher, um incentivo que, pretende-se, funcione como motivador de participação e colmate alguns dos grandes problemas atuais que assolam os campos: tráfico humano, prostituição, trabalho forçado e casamento precoce. A responsável pelo programa explica: “Mulheres, homens e crianças viveram debaixo de uma monitorização muito restrita, de ação e mobilidade, o que os torna muito inocentes e ingénuos, especialmente as raparigas e mulheres que não tiveram muita exposição. Por isso, é fácil enganá-las, dar-lhes esperança. É fácil levá-las para uma teia de crimes.”
Diariamente, 60 mulheres e raparigas são paradas pelas agências de segurança do Bangladesh numa tentativa de abandonar o campo. Entre as raparigas que se encontram a receber assistência médica física e mental por parte da organização após serem resgatadas, dois terços foram vítimas de trabalho forçado e 10% de exploração sexual. “Estes são riscos muito reais vividos pelas crianças nos campos”, reconhece Karen Reldy, da UNICEF.

O Bangladesh tem um dos maiores índices mundiais de casamento precoce. 50% das raparigas casam-se com menos de 18 anos, 18% com menos de 15 anos. A fim de eliminar o problema, a UNICEF criou em parceria com o Governo do país um Plano de Ação Nacional, que pretende erradicar o casamento precoce até 2041, informa Reldy.

POBREZA E MÁ ALIMENTAÇÃO
O suor escorre da testa de Azizur Rahman. A camisa verde escureceu com a transpiração. Azizur e o filho acabam de caminhar vinte minutos desde o centro de distribuição de comida até à pequena casa no campo 3, subindo e descendo montes, com a ração dos próximos 15 dias carregada às costas: 30 quilos de arroz, alguns sacos de lentilhas e óleo de palma.

Há mais de um ano que é esta a alimentação dos cinco elementos da família. As filhas escondem-se nas pequenas separações da casa, enquanto a mulher, Arefa, posicionada atrás de Azizur, se queixa da qualidade do arroz. Estende-o num saco sobre o chão de terra e mostra os arrozeiros que não são consumíveis.

Há um simultâneo sentimento de agradecimento e saturação. “Não temos dinheiro para comprar nada. Temos apenas a ração. Precisamos de mais para nos alimentarmos”, lamenta Azizur. A frustração é generalizada. Desde a sua chegada que os rohingyas vivem, quase na totalidade, sem qualquer fonte de rendimento e um terço da população continua a aceder apenas ao sistema de distribuição geral de comida do PAM. Sacos e sacos seguem sobre os corpos curvados de homens. Um camião de comida circula a cada 15 minutos dos armazéns para os campos. São quase 400 mil quilos de comida distribuída diariamente só para este sistema do PAM. Mas esta é uma realidade em metamorfose.
No campo 5 nasceu o que o PAM apelida de megaloja, um armazém gigante com três vendedores locais. Nas paredes encontram-se cartazes com os 18 ingredientes disponíveis e o preço de cada um. Há filas e filas de sacos de arroz e lentilhas empilhados, vegetais, ovos, especiarias, peixe seco e ainda sabonete. A entrada e saída de pessoas é constante e fora das grades do armazém a curiosidade é evidente. O medo de que os alimentos escasseiem faz com que a meio da tarde as prateleiras estejam quase vazias. Só a partir deste centro são alimentadas 40 mil pessoas. Ao membro feminino mais velho da família foi entregue um e-voucher que funciona por impressão digital, com 750 taka, cerca de 7,5 euros, atribuído a cada membro da família mensalmente. “Estou feliz. Aqui tenho o que a minha família necessita”, diz uma das mulheres. 324 mil pessoas têm já acesso a este sistema através das 21 lojas existentes. O PAM pretende que até ao final do ano todos tenham acesso ao programa alimentar e-voucher a uma distância máxima de 1,5 quilómetros de cada casa.
Nem só de comida vive o homem. Da colina mais elevada do campo 12, Massud escava a terra onde foram colocados seis tanques de água, quase 600 mil litros, o suficiente para providenciar água a 30 mil refugiados Rohingya. São números referentes à primeira fase do sistema de água potável movido a energia solar. É o maior sistema do campo de refugiados do Bangladesh. Será o maior do mundo em campos de refugiados quando o sistema funcionar para o mais de um milhão de pessoas.

O parque com 180 painéis solares está quase concluído. É um plano preparado ao pormenor e com vantagens assinaladas em todas as áreas. Mohan Mishra e Watsan, da equipa WASH (Água, Saneamento e Higiene) da OIM, sublinham a qualidade da água. “Cerca de 70% da água obtida estava contaminada”. As consequências na saúde são previsíveis. Para este projeto, perfurou-se até 400 metros, reduzindo o risco de contaminação e escassez de água e a necessidade de manutenção do sistema. Simplifica-se a operação, diminuem-se as consequências ambientais e cria-se uma rede preparada para a época forte das chuvas, salienta Mohan Mishra.
Os parâmetros humanitários indicam que cada pessoa deverá ter acesso a água até 500 metros. A equipa WASH quer reduzir o número para 100 metros e permitir que cada pessoa usufrua de 17 litros de água diários, ao invés dos 15 indicados. Com estas mudanças, as mulheres, habitualmente responsáveis por carregar a água necessária para a casa, não só precisarão de menos tempo como estarão menos sujeitas à insegurança provocada pelas longas caminhadas noturnas.

"TODOS OS DIAS SÃO DIAS DE PONTA"
Cheira ainda a novo. Se esquecêssemos a realidade para lá das portas deste centro de saúde poderíamos acreditar que estávamos numa vila. No espaço recentemente aberto no campo 3, onde o bambu deu lugar ao tijolo, há uma farmácia, uma sala de emergência, uma sala de partos, espaço para consultas e vacinação e apoio psicológico [nos campos, 4% dos jovens reportaram comportamentos suicidas]. É a imagem que as organizações querem futuramente transportar para as mais de 190 instalações médicas existentes. Os quatro médicos e três assistentes deste centro não têm tempo para parar. “Todos os dias são dias de ponta”, desabafa o clínico, enquanto assiste uma criança vítima de afogamento. Todos os dias, são aqui atendidas 250 pessoas.

“Falamos de pessoas que não tinham qualquer tipo de ajuda médica, mulheres que não sabem que cuidados ter durante a gravidez.”, diz o médico. 30 mil mulheres chegaram ao Bangladesh grávidas (várias em consequência de violações). Mais de 80% continuam a realizar os partos em casa. “Não basta dar assistência médica. É necessário educar sobre os cuidados de saúde mais primários”, refere. Nurbaar concorda. A acompanhar a mãe com um carcinoma, a mulher de 32 anos reconhece que nunca foi a um médico e que os cuidados aqui providenciados são cruciais. Na sala, a maioria dos casos são de varicela, um espelho da realidade atual dos campos: só este ano foram reportados quase 10 mil casos; mais de 340 mil crianças com menos de cinco anos sofrem de subnutrição.

HOW ARE YOU?
As ruas estão cheias de crianças. Algumas descalças, outras desnudas. A pele e a roupa sujas. Um laço rosa a servir de enfeite na cabeça das meninas. Varicela no corpo de alguns. Riem-se muito. Acenam muito. Gritam “Hello! How are you?”. Nunca pedem. Nem comida. Nem dinheiro. Brincam com rodas de ferro empurradas pela terra por um outro cabo de ferro, carros em bambu com tampas de garrafa a servir de rodas. Se tiverem sorte de estar em determinadas localizações nos campos há escorregas e cavalinhos de brincar. São mais de 500 mil crianças, ou seja, 55% da população refugiada no campo.
São mais de meio milhão. Para eles foram criados 3700 espaços de aprendizagem, outros tantos onde lhes tentam apagar os traumas vividos. “Quando chegaram, as crianças desenhavam helicópteros a disparar balas sobre as pessoas, pessoas a fugir de casas e vilas incendiadas, pessoas enforcadas nas árvores”, descreve Karen Reldy, da UNICEF. Hoje essas mesmas crianças já desenham as suas casas rodeadas de rios, campos verdes e animais. Nos centros de aprendizagem ensina-se inglês e birmanês, matemática, ciências e competências básicas. O bengalês não está permitido por parte do Governo do Bangladesh.

A UNICEF, em conjunto com organizações parceiras, indica que até ao ano passado 216 mil crianças rohingya estavam envolvidas em algum tipo de educação. As sondagens do último relatório da OIM mostram que entre os 5 e os 11 anos, cerca de 10% não frequentam os centros educativos. O valor cresce quando olhamos para os adolescentes entre os 12 e os 17 anos. Sobretudo no sector feminino. Mais de 80% das raparigas não frequentam a escola.
Do campo Nayapara, em Teknaf, avista-se facilmente o Estado de Rakhine e as suas montanhas Arakan disfarçadas pela neblina da manhã. Nas águas onde hoje se passeiam cruzeiros, há mais de um ano singravam barcos e barcos carregados de rohingyas, cruzando os três mil metros desde Myanmar até alcançar as margens do Bangladesh. Nadar seria ousado. Perigoso, na realidade. O rio chega a alcançar os 120 metros de profundidade. Ainda assim, muitos tentaram.
“Vimos os refugiados chegar. Eram tantos. Víamos o fumo desde o outro lado das montanhas das vilas a arder. Que mal fizeram estas crianças? Que mal fizeram as mulheres para serem violadas?” As palavras em inglês chegam de Mohammed Sadek, 21 anos. A mãe chegou grávida ao Bangladesh nos anos 90, fugindo da antiga Birmânia exatamente pelas mesmas razões que as mais de 740 mil pessoas em 2017.
O estatuto de refugiado é também atribuído a Mohammed e, por isso, não lhe é permitido, à semelhança dos restantes refugiados rohingya, trabalhar fora do campo. Nayapara é possivelmente o maior palco onde se cruzam antigos e novos refugiados, onde a presença de militares é mais visível.
920 milhões de dólares [mais de 800 milhões de euros] são necessários para continuar a dar resposta à crise humanitária dos rohingyas em 2019. O denominado Plano de Resposta Conjunta é o apelo de mais de 130 organizações — agências das Nações Unidas e organizações não-governamentais — que trabalham no maior campo de refugiados do mundo. A maior parte dos fundos servirá para a “ajuda crítica” no que diz respeito a comida, água, saneamento e abrigos. “É um plano altamente priorizado. É só mesmo, mesmo, para o essencial. É um pedido, como uma carta ao Pai Natal”, reconhece o coordenador de emergências da OIM em Cox Bazar.

Dificilmente as organizações recebem 100% do valor pedido, por isso Manuel Pereira gostaria de ver chegar pelo menos 50% e faz uso de uma comparação para que se entenda a realidade em que vivem os rohingyas: “É como se estivéssemos todos deitados numa cama com uma manta muito pequenina. Puxa de um lado, falha no outro. E não há dinheiro suficiente para comprar uma manta maior.”
909 mil rohingyas encontraram no Bangladesh a segurança que procuravam. Das bocas dos refugiados reconhecem-se muitas incertezas no futuro, mas de todas elas sai uma certeza: a de que não regressam sem que os direitos humanos e de cidadãos de Myanmar lhes sejam reconhecidos e garantidos. “O Governo do Bangladesh quer que as pessoas regressem o mais cedo possível, as pessoas querem regressar o mais cedo possível e nós queremos apoiar o regresso, mas todos concordamos que se as condições não forem seguras, se não forem dignificadas, não pode haver regresso. Estamos a tentar encontrar formas de mobilizar apoio no mundo com diversos parceiros para promover a resolução política em Myanmar”, declara Manuel Pereira, que indica ainda que é objetivo das organizações que muita da gestão dos campos vá sendo passada para o Governo do Bangladesh.

Dialogamos e assinamos acordos com Myanmar para a repatriação dos rohingyas. Mas o Governo de Myanmar não está a atuar nesse sentido”, afirmou Sheikh Hasina, primeira-ministra do Bangladesh. A viver em Myanmar desde o século XIX, os rohingyas tentam obter o cartão de cidadão desde a independência da ex-Birmânia. Até hoje, o Governo de Myanmar recusou-se a reconhecer a minoria étnica — que perfazia mais de um terço da população do Estado de Rakhine — como cidadãos de pleno direito do país e nega a crise existente relativa à etnia.

A Human Rights Watch acusa o país de ter realizado uma limpeza étnica, incriminando Myanmar de crimes contra a humanidade. Na mais recente missão das Nações Unidas à antiga Birmânia a ONU afirmou ao que os militares do país deveriam ser investigados por genocídio e que tinham sido ignorados os sinais alarmantes verificados anteriormente ao alegado genocídio.

Azizur Rahman está cansado. Jamila quebrada. Sanuara tem saudades. Ummesalina anseia pelos irmãos e por um Myanmar livre. Manuel Pereira acredita que um dia os Rohingya vão olhar para o mundo e ver-se “como iguais, dignos”. Khaleda sonha com o dia em que possa regressar. No interior da sua casa, com vista sobre o enorme descampado amarelo, com o braço sobre uma trave de bambu que lhe segura a cabeça, Azizur diz, resiliente, o que todas as bocas querem dizer: “Não há lugar mais feliz do que a nossa pátria”.

Lá fora ouve-se o vento e as crianças a brincar.

Jornal Expresso

REPORTAGEM MULTIMÉDIA:PAULA ALVES SILVA
INFOGRAFIA:CARLOS ESTEVES
WEB DESIGN: JOÃO MELANCIA E TIAGO PEREIRA SANTOS
WEB DEVELOPER: MARIA ROMERO
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quinta-feira, 25 de abril de 2019

Fundação dos Afetos com letras (Guine Bissau)

O nosso mundo é tão injusto. Falo insistentemente com os meus alunos da sorte que eles têm por poderem ir à escola. Infelizmente isso ainda não é possível para milhares de crianças, onde esse direito lhes é vedado, porque simplesmente nasceram num país e numa família que não lhe dá esse direito. É muito triste. Força àquelas crianças que lutam por aprender.



Joana Benzinho é um exemplo. Aquando de uma visita à Guiné Bissau esta Portuguesa no Mundo apercebeu-se que as crianças na Guiné Bissau que lutavam para ir à escola e trabalhavam no Verão para concretizar esse sonho. Esta Portuguesa no Mundo criou a Fundação Afetos com letras, uma ONG reconhecida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Português, que possibilita através da construção de escolas e bibliotecas que neste país milhares de crianças possam ter acesso à educação.

domingo, 31 de março de 2019

Dia Mundial da Paz


Anualmente no primeiro dia de cada ano comemora-se o do dia Mundial da paz. Infelizmente o Mundo está repleto de situações de guerra e conflitos, onde quem mais sofre são os mais frágeis ou seja as crianças e o idosos.
Para a comemoração deste dia, o papa Francisco dirigiu-se aos fieis indicando os males latentes na política como a corrupção, o abuso de poder, enriquecimento ilegal, xenofobia e racismo. Todos estes abusos dão azo a guerras e consequente à necessidade de as pessoas procurarem melhores condições de vida noutros locais aumentando as migrações.
As migrações são muitas vezes observadas de forma negativa pelas populações locais que vêm os seus empregos em risco com a entrada de estrangeiros no seu país.
Sobre a mensagem do Papa Francisco queria realçar a necessidade de em primeiro lugar os governos fazerem bem o seu papel gerindo convenientemente os seus recursos distribuindo-os de forma homogénea pela população local de forma a que esta não sinta necessidade de sair por motivos políticos ou religiosos. Por outro lado os países mais desenvolvidos que são uma fonte de esperança para pessoas que perderam tudo deverão mudar a sua mentalidade recebendo esta gente jovem que poderá ser uma mais valia para a dinamização do país. O caso do Fundão é um caso a observar com a atenção e repetir, pois houve sucesso no processo de integração dos imigrantes.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Uma imagem e uma história para refletirmos

Alheia ao que se passa ao seu redor, junto à praça do município da Beira, Zinha tenta secar os seus livros uma semana depois da sua casa, de construção precária, ter desabado. Para além da sua vontade de aprender ela quer salvar o seu único bem: os livros de distribuição gratuita.
by 
Rui Miguel Lamarques

Grupo 420( Facebook)
https://www.facebook.com/groups/1480385788912391/

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país!

Mas não de acordo com o ranking das escolas, onde a Básica do Bairro Padre Cruz, em Lisboa, ficou em 1044o. Aliás, dependendo do ranking das escolas, pais e alunos fugiriam a sete pés desta escola, rapidamente levando ao seu encerramento e ao fim de um dos pilares deste bairro social.
Porque na Básica do Bairro Padre Cruz nenhum aluno fica sem comer. E há muitos em risco de passar o dia sem comer. Para muitos, a refeição na escola será a única do dia inteiro. Para muitos, poder comer é a razão de ir à escola. Mas não só.
Porque a Básica do Bairro Padre Cruz coloca o carinho e o  afecto antes do currículo, fazendo de tudo para que os alunos passem mais um dia na escola e menos um dia na rua, passo a passo reconstruindo as vidas perdidas de tantas crianças perdidas. O Bairro Padre Cruz é assim chamado em homenagem ao Padre Francisco Rodrigues da Cruz e a uma vida dedicada em pleno aos mais desfavorecidos. E outra coisa não se pode dizer sobre a sua Escola, onde os professores são mesmo a família que os alunos nunca tiveram, nunca terão, têm agora, na escola, na professora, nos professores e auxiliares, no Director da escola.
Porque um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor.
E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças,tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que
somos.
É impossível não nos envolvermos. É impossível não nos emocionarmos. E esta é a maior aprendizagem de quem vem ensinar para esta escola. Esta é a maior prova de crescimento num corpo docente com 60% de professores novos este ano, professores esses que em setembro estarão noutro lado, isto se não estiverem desempregados.
Meus caros, a mobilidade docente é um crime. É dizer às crianças que não há mais ninguém. É deixá-las por sua conta. É deixá-las à deriva no meio da tempestade, outra vez, e ninguém se habitua a uma tempestade. À deriva, as tempestades aumentam. É frustrar as expectativas, os sonhos, as lágrimas, é criar mais raiva, mais ódio, solidão, angústia.
Não obstante, sem desistir, esperançosos, os professores multiplicam-se e desdobram-se entre as aulas e os apoios individuais, entre os projectos e as reuniões com os pais, educando alunos mas também famílias inteiras, fazendo milagres com os poucos recursos ao seu dispor. Isto porque a diminuição do número de alunos ao longo da última década levou sucessivos governos a retirar à escola desde psicólogos ao grupo de teatro, sem esquecer o grupo de música, as colónias de férias, visitas de estudo. Outro crime, e os alunos não são números, as crianças não são números, mas são, são o futuro, o nosso futuro, nem por isso risonho. A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país! Digam o que disserem. Por não se limitar a ensinar, a formar, por querer saber de facto sobre as crianças, por viver os seus problemas, por sair dos muros da escola ao encontro do bairro, por abrir as portas ao bairro, por fazer parte de um todo e no todo trabalhar, sem parar, à procura de respostas. E as respostas para o abandono escolar, para as reprovações consecutivas, para o analfabetismo, para os problemas sociais e as famílias desestruturadas começam pela fixação do corpo docente. Para que estas crianças possam voltar a sonhar. E nós também.



Rui Cardoso
http://www.arlindovsky.net/2019/02/a-escola-basica-do-bairro-padre-cruz-e-a-melhor-escola-do-pais-joao-andre-costa/

sábado, 27 de maio de 2017

Casas abandonadas

A partir do momento em que a minha avó materna faleceu, já lá vão 22 anos, a sua casa de granito na Beira Alta passou a ficar desabitada. Ao longo destas décadas, sempre que lá entrei, contorcendo-me entre as teias de aranha, senti que fazia uma viagem ao passado.
            Nada do que hoje reencontro naquela casa abandonada continua a pertencer a este tempo, pois o contexto que lhe conferia sentido há muito que se apagou irremediavelmente. Desapareceu a dona das pedras de granito, a janela de carvalho perdeu a cor e até o menino que lá entrava, a tactear as paredes em plena escuridão, deixou em grande parte de existir.
            Ainda assim, as fotografias a preto e branco, as cartas religiosamente depositadas na gaveta, as velhas arcas brasileiras a testemunharem a aventura transatlântica que tantos portugueses empreenderam, os tachos e a trempe enferrujada… tudo o que hoje ainda reconheço naquele santuário me ajuda a marcar um encontro comigo mesmo, com uma parte da minha identidade. Deste modo, ao interrogar cada fragmento, vou reconstruindo e desfazendo imagens, onde a luz e a escuridão se materializam em memórias fugazes e intermináveis esquecimentos, que mais tarde, na busca do rigor, vou cruzando com as narrações de outras vozes que ainda recordam o passado partilhado.
            Eis aqui a imagem que melhor me ocorre quando penso no ofício de estudar História: regressar ciclicamente às casas abandonadas (moradias, mais ou menos familiares, que nunca param de aumentar dentro de nós), para interrogar incessantemente o que somos, à luz das nossas preocupações actuais. História: uma narrativa científica feita de luzes, sombras, silêncios, memórias e esquecimentos, à qual, nos últimos anos, deixei de dever o pão que me alimenta, mas que, ainda assim, jamais poderei apagar do meu posicionamento cívico perante o mundo.
            Ora, no âmbito das comemorações dos 43 anos da Revolução de 1974, a RTP2 (balão de oxigénio da televisão pública nacional) transmitiu um interessante programa a respeito das conquistas de Abril (“Sociedade Civil”, XIII, 26/4, episódio 68). Já na parte final das conversas, o jornalista confrontou o historiador António José Telo com a seguinte questão:
              – Estamos a ensinar aos mais novos verdadeiramente o que foi o 25 de Abril? Estamos a passar-lhes os valores de Abril, estamos a ensinar-lhes as diferenças que existiam com a ditadura e aquilo que é a vida deles agora com a democracia?
            A resposta do académico – autor de uma prolífica, séria e multifacetada obra, decisiva para compreender o último século da nossa existência colectiva – fez-me saltar do sofá:
            – Todas essas preocupações são preocupações mais a ver com a política do que com a História. Esta preocupa-se em explicar o que aconteceu (https://www.rtp.pt/play/p3150/e285778/sociedade-civil).
            Devo dizer que discordo em absoluto desta posição. Afinal, como escreveu Marc Ferro, as primeiras etapas do ensino desempenham um papel fundamental na “imagem que fazemos de outros povos e de nós mesmos” (A manipulação da História no ensino e nos meios de comunicação, Brasil, IBRASA, 1983, p. 11), daí – acrescento eu – o carácter absolutamente determinante do educador de infância e do professor do 1.º ciclo na formação do indivíduo. Um tema que, de resto, bem justificaria outro artigo…      
.           Segundo creio, vários dos nossos problemas radicam no modo como continuamos a tratar as ciências estruturantes do pensamento, caso da História, mas também da Literatura e da Filosofia, que ainda há pouco tempo vi ser apelidada, por uma professora britânica, como o domínio do “nonsense”, perante a gargalhada geral da plateia.
            As sociedades contemporâneas necessitam de ética e pensamento próprio como pão para a boca, a começar pelos líderes que governam o que ainda sobra da União Europeia. Pese embora as profundas transformações a que continuamos a assistir, a Escola continuará a desempenhar um papel decisivo na construção dos nossos alicerces civilizacionais. É a partir dela que poderemos continuar a combater de modo sustentado Trump, Le Pen e demais extremismos, que nos poderão conduzir, num ápice, a mergulhar no inferno auto-destrutivo da guerra total. Estar atento é, portanto, uma necessidade, para todos os cidadãos.
            Mais do que nunca faltam-nos pontes de sabedoria, nesta era dos muros de aço. E os (denominados) intelectuais deveriam ser os primeiros a compreendê-lo, descer das torres de marfim em que tantas vezes vivem enclausurados, erguer a voz e intervir. Por conseguinte, os historiadores que desprezam problematizar o modo como a sua ciência é trabalhada nos vários níveis de ensino estão a demitir-se da sua função cívica.
            Todos nós temos as nossas casas abandonadas, esqueletos aos quais somos tentados a regressar. A História exerce um fascínio tremendo sobre o indivíduo, a começar pela maioria das crianças e jovens das nossas escolas. Falta-nos garantir que os programas curriculares da disciplina sejam ajustados à faixa etária dos alunos, que sejam pensados como um todo (numa perspectiva global, estruturada e articulada entre os vários ciclos), que a disciplina passe a contar com uma maior carga horária, que as turmas sejam efectivamente reduzidas (não me refiro às recentes produções de cosmética que continuam a vir a lume) e, por exemplo, que os professores passem a ter tempo para estudar e aprender. O que equivale a dizer que é urgente expurgar o sistema das inúteis burocracias e da kafkiana máquina de fazer dinheiro em que se transformaram as inúteis formações que para aí proliferam.
            Nestes estranhos tempos em que quase tudo nos faz adormecer e obedecer, a Escola ainda pode continuar a fazer toda a diferença. Para isso, terá de constituir-se enquanto um jardineiro do pensamento e do espírito democrático. Ora, um dos primeiros passos concretos poderia ser o regresso da eleição da figura do diretor por todos os seus pares pedagógicos.
            Caso a Escola não consiga adaptar-se, a mensagem dos Pink Floyd continuará a ser cada vez mais actual: “We don’t need no education”. E todos os extremismos terão cada vez mais escravos à sua disposição…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)  

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

HDR/DRH

Na sequência do importante post do Tiago, deixo aqui o link para o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2011 elaborado pelas Nações Unidas. É, a quem puder interessar ou servir utilidade, de uma grande valia informativa.
E, para um nível nacional, fica este.

sábado, 28 de maio de 2011

Olhar o Alentejo II

Olhar um espaço poder compartilha-lo sentir a sua gente e um carinho por ele. Nestes (longos) meses compartilhei um espaço físico duro onde as temperaturas variam muito ao longo do ano. Ao longo do tempo aprendi a conhecer melhor as gentes, integrar-me no espaço, conhecendo-o interagindo conseguindo desta forma ultrapassar mais facilmente os obstáculos que se me depararam.

Quando olhamos o Alentejo observamos uma paisagem monótona mas encantadoramente bela onde perfazem montes salpicados por oliveiras, sobreiros e vinhas, vislumbram-se espaços amaralecidos pelo calor do Verão onde se extraem os cereais que dão cor à paisagem. Os fardos de palha encubados ou enrolados em cilindros alimentam o gado que livremente circula em espaços que já consideram seu. 

Falta gente nesta terra, sendo que a existente em consequência da idade se abstraiu de fazer planos a longo prazo. É cada vez mais urgente promover o desenvolvimento humano em detrimento do económico para que pessoas que trabalharam uma vida inteira sintam conforto e felicidade nos últimos anos das suas vidas.   

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A necessidade de conhecer os nossos direitos

O ano de 2010 que está prestes a terminar foi celebrado pela União Europeia como sendo o Ano Europeu contra a Pobreza e Exclusão Social. É cada vez mais importante percebermos a realidade que nos rodeia, as desigualdades espaciais e económicas, entender as suas razões e consequências.
A disciplina de Geografia tem o papel de aferir as competências, de acordo com o grau de ensino, ajudando os alunos a interpretar melhor o nosso Mundo, pois considero que a sua boa percepção os poderá tornar cidadãos mais conscientes no futuro.
As desigualdades económicas, sociais e demográficas são cada vez mais evidentes. Na nossa sociedade é cada vez mais difícil triunfar e ter êxito, pois valoriza-se cada vez mais a qualificação, assim como a autoconfiança e a capacidade de arriscar.
O conhecimento dos nossos direitos é por isso cada vez algo indispensável. No dia 10 de Dezembro celebra-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos, declaração proferida em 1948 pela ONU. Há várias omissões aos Direitos Humanos em vários países que é necessário alertar, pois todo o ser humano tem os mesmos direitos, devendo por isso ser respeitados em qualquer parte do Mundo.
É um percurso longo, provavelmente não atingível a curto prazo, mas é preciso dar um crescente valor à pessoa humana em detrimento dos interesses económicos, que na maior parte das vezes sobressaem. Em Portugal começam a notar-se cada vez mais casos de pobreza, observam-se que a linha entre a estabilidade e instabilidade é cada vez mais ténue e muito dos direitos fundamentais do Homem são colocados em causa.
A alterações dos valores e princípios é algo cada vez mais urgente, deixar de pensar unicamente em nós e preocuparmo-nos mais com o bem estar dos outros. É importante recuperar um pouco da inter-ajuda que existia num passado próximo. Por isso é com satisfação que devemos assumir a proposta da União Europeia de comemorar o próximo ano de 2011 como sendo o Ano do Voluntariado e da Cidadania Activa. Para que para que a dávida de nós aos outros e a garantia do respeito pelos Direitos Humanos sejam uma realidade.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Cal


Outrora nas minhas leituras de Verão, li “Cal” de José Luís Peixoto que me suscitou interesse e me fez reflectir sobre a sociedade, o envelhecimento da população


No nosso Mundo mais concretamente nos designados países desenvolvidos, onde se inclui naturalmente Portugal o conceito de envelhecimento tem sido cada vez mais referenciado por uma multiplicidade de razões.

Neste livro de crónicas intitulado Cal por José Luís Peixoto, este descreve a rugosidade e o saudosismo de vidas envelhecidas pelo trabalho e pelas dificuldades insurgentes da dureza de outros tempos. Pessoas que envelhecem e sofrem actualmente as incompreensões e injustiças de uma sociedade, de um país que os esquece e não lhes concede o devido valor.

As consequências de tudo isto são diversas e sujeitas a várias interpretações. Presenciamos situações em que a mobilidade está cada vez mais patente, é cada vez mais fácil deslocarmo-nos, mobilizarmos informação entre espaços longínquos em segundos. Actualmente podemos ascender socialmente se trabalharmos ou estudarmos, caminhando-se para um maior bem-estar, qualidade de vida e um consequente aumento da esperança média de vida.

O envelhecimento apresenta-se como o resultado desta evolução social, tecnológica, saúde, educação…

No entanto nem tudo é positivo pois o aumento da riqueza conduziu a desequilíbrios cada vez mais acentuados, promovendo a criação de uma sociedade narcisista que por vezes se esquece dela própria. Observam-se cada vez mais casas vazias, o esquecimento de pessoas que nos são próximas pelo simples facto de já não nos serem úteis. Posso não estar correcto mas sinto que actualmente a palavra solidão ganhou uma outra profundidade.

As pessoas idosas perdem cada vez mais o simbolismo que detinham num passado recente onde havia um outro respeito e atenção pelas pessoas de idade. Não me estou apenas a falar daqueles que são esquecidos em lares ou hospitais, mas também os que são burlados por pessoas sem princípios nem valores morais.

Não há melhor cura para uma doença do que sentirmo-nos a presença de alguém que gostamos próximo de nós.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Desigualdades e pobreza

A análise à escala mundial das desigualdades permite traçar, grosso modo, uma divisão Norte/Sul. Como é óbvio, esta divisão generalista desvaloriza as tremendas diferenças existentes dentro de cada país ou entre países dentro do mesmo hemisfério. Portugal, por exemplo, embora geograficamente posicionado entre os «ricos» e tendo níveis de desenvolvimento superiores à média dos países em desenvolvimento, é um Estado de desenvolvimento intermédio que apresenta um elevado nível de pobreza (entre 18% e 20%) e graves desigualdades sociais.
Um dos grandes estudiosos sobre as temáticas ligadas à pobreza em Portugal, Bruto da Costa, apresenta os baixos salários como factor principal para explicar a persistência da pobreza, ou seja, é o modelo de económico que protela o verdadeiro desenvolvimento e condena à pobreza, não só os desempregados e desvalidos, mas uma parte importante das classes trabalhadoras.
Voltarei a estes assuntos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Parabéns!

O Tiago está de parabéns. Aquele orgulho que manifestou é inteiramente justificado.
Confesso que deveria ter escrito um texto há mais tempo, mas aquela bengala do trabalho aplica-se: uma tremenda barafunda burocrática tem-me conduzido a labirintos de ataraxia mental que me impedem de pensar em postar com um mínimo de dignidade.

Tinha pensado, inicialmente, num post sobre os tristes caminhos da escola, nas suas derivas pedagogistas, de estupidificação lúdica ou nas ilusões comunitaristas que se confundem com afirmação cultural, bah... Os posts do Tiago resolveram o problema: ensaiarei, numa próxima incursão, umas linhas sobre desigualdades. O tema é de uma acuidade insuperável.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Nosso Mundo




















O Ano 2010 é o ano Europeu contra a Pobreza e da Exclusão Social… bem já é um começo no entanto e tal como acontece com a Alterações Climáticas este deve ser um problema global e não apenas um problema que na Europa passou a ser a preocupação central de um ano.

Não quero com isto desprestigiar esta iniciativa tomada pela União Europeia, quero com isto dizer que deve ser generalizada a toda a Humanidade e durante um tempo indeterminado, isto é até que os conceitos de pobreza e exclusão social sejam banidos do Nosso dicionário. Pode parecer utopia, provavelmente é, no entanto tentemos amenizar tudo isto através de acções simples que melhorem a situação do nosso planeta e ajudem a resolver um problema de tão grande complexidade.

Como cidadãos temos o dever de melhorar o planeta onde habitamos. Para resolver o problema das Alterações Climáticas há muita informação que podemos ter acesso pela televisão ou pela internet.É cada vez mais urgente evitarmos os desperdícios, é importante promover uma mentalidade onde a reciclagem seja essencial e obrigatória e a utilização de energias renováveis se torne norma. Tudo isto são situações que podemos fazer para tornar o nosso planeta mais saudável, duradouro e onde a qualidade de vida continue a crescer.

No entanto e no que atenta à pobreza e exclusão social a situação não é assim tão linear. As desigualdades, o fosso entre os países ricos e pobres continuam a crescer desmesurada e assustadoramente. É preciso colocar um travão, no entanto a tarefa não se avizinha nada fácil.

A Humanidade evolui em campos opostos, a maior parte dos países do Hemisfério Norte preferiu investir em políticas capitalistas onde o lucro está acima de tudo e muitas vezes as condições de trabalho, os salários, a qualidade de vida dos trabalhadores são em muitos casos deprimentes. Esta situação deu origem a um crescimento muito elevado das economias descurando-se a vertente social.

Por outro lado no Hemisfério Sul, mais concretamente no continente Africano, a maior parte da população vive em condições indignas para o ser humano, na maior parte dos casos estas pessoas não vivem sobrevivem. África um continente tão rico em recursos do subsolo, com paisagens naturais magníficas, permanece num processo de autodestruição quer devido a políticas corruptas onde o júbilo pessoal permanece sobre a subsistência das populações, quer devido a fronteiras mal definidas pelos colonizadores europeus que conduziram à ocorrência de constantes conflitos internos.

Toda esta situação tem-se vindo a agravar com a revolta dos cidadãos que se apercebem das discrepâncias existentes, sentem-se revoltados e impotentes para amenizar a injustiça social que vigora de uma forma cada vez mais evidente.

Todos nós como cidadãos podemos contribuir para redução da pobreza e exclusão social, quer seja de uma forma simples através de doações a instituições de caridade, quer de um modo mais complexo através da participação em organizações da sociedade civil. No entanto e apesar de tudo o mais importante é estarmos cada vez mais atentos e apercebemo-nos do Mundo que nos rodeia, da sua complexidade e envolvência, pois só o conhecendo poderemos ter argumentos para criticar as políticas e agir de uma forma mais consciente e eficiente de modo a amenizar os nossos e os problemas da Humanidade.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Haiti- Uma tragédia dentro de uma tragédia


















Início as minhas postagens deste ano infelizmente com a referência a uma tragédia que se assolou dentro de outra tragédia.


Haiti considerado um dos países mais pobres do Mundo e o mais pobre do Hemisfério Norte.
Num país onde 80% da população vive com menos de 2 dólares por dia, não há um exército que restabeleça ou pelos menos ameniza situações de desordem e anarquia nas ruas de Port au Prince.


Port au Prince é uma cidade paralisada a esperar ansiosamente a ajuda internacional. Calcula-se que cerca de 3 milhões de pessoas tenham sido afectadas pelo terramoto de terça feira que atingiu uma magnitude de sete na escala de Richter. O sismo provocou uma situação de caos, não há água, luz, comunicações transportes, os edifícios presidências e mais robustos ruíram e os bairros de lata que circundavam a cidade foram completamente destruídos.


Toda esta situação se agravou profundamente pelo desgoverno que o país padece de há uns anos a esta parte. Não há meios de defesa, os hospitais estão sobrelotados e sem meios para fazer face ao número tão elevado de feridos. O Primeiro Ministro aguarda à ajuda internacional, o Presidente da Republica fugiu na altura que o país mais precisava da sua presença.


Tudo situações tenebrosas e assustadoras que arrepiam e nos fazem pensar na força que a mãe natureza que escolheu o “pior” local do Mundo para suceder uma tragédia desta ordem.

A Humanidade mais uma vez terá que se unir para que sejam salvas o maior número de pessoas possíveis, e amenizar o sofrimento de um povo que necessita tanto do seu auxílio.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Quando os governos perferem que o seu país fique offline


Este é um título de um artigo de Nuno Sá Lourenço escrito no jornal Público do dia 27 de Outubro de 2007. O título por si só é muito interessante podendo dar origem a uma longa troca de ideias.

A primeira impressão que eu retiro deste título é a existência de uma relação clara entre os governos e a internet. Pois é, provavelmente muitos de nós nunca tínhamos pensado nisto, mas a internet é o principal centro de informação que nos permite estar constantemente ligados com o “exterior”.

No Mundo em que nós vivemos existem grandes assimetrias, basta lembrar que entre a margem norte e a margem sul do Mediterrâneo se encontra hoje o maior desnível de rendimento per capita do mundo, com tudo o que isso significa. (Teresa de Sousa Jornal Público 7 de Novembro de 2007)

Numa sociedade tão heterogénea, surgem por vezes atritos derivados da diferença, do despotismo resultante de um abuso da liberdade, que origina sentimentos de repressão e medo por parte de quem é subjugado. Este poder autocrático que reina em inúmeros países mundiais impossibilita o direito à informação, ao saber…censurando e reprimindo ideologias vindas de países estrangeiros.

Há já algum tempo li um artigo do geógrafo Jorge Gaspar, onde ele faz referência a um conceito que eu desconhecia completamente, que achei muito interessante e que na minha opinião se enquadra perfeitamente neste contexto, o conceito de “muros de invisíveis”.

Actualmente temos os casos do Chipre e da Palestina/Israel, onde se observam “muros visíveis” que separam regimes governamentais antagónicos. No entanto infelizmente além dos “muros visíveis” que se observam a olho nu, existem ainda os “invisíveis” que não se observam mas se sentem, através das desigualdades sócio económicas, que se reprecutem através de um crescente aumento da emigração clandestina. O Mar Mediterrâneo que foi referido no segundo parágrafo pode-se considerar um “muro invisível”, pois os países Europeus tomam diversas medidas para susterem o enorme surto de migratório, vindo essencialmente do Norte de África, criando desta forma uma barreira por vezes intransponível.

Com a alusão aos "muros" pretendo essencialmente alertar para os problemas que subsistem actualmente de uma forma muito preocupante, a pobreza,a criminalidade, a delinquência juvenil, as desigualdades socio económicas etc. É pois necessário tomar medida, educar, ensinar, alterar mentalidades e porque não colocar todos os governos colarem o seu país on line…o repto está feito, agora tem de se passar à prática....