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quinta-feira, 1 de julho de 2021

Intervenções Político Ideológicas - Autor Renato Nunes

 Nuno Palma, professor de História Económica na Universidade de Manchester, participou recentemente na 3.ª Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL) com uma comunicação intitulada “As causas míticas da divergência económica portuguesa”. Ao longo da sua prelecção, entre outros aspectos, Nuno Palma denunciou a suposta falsificação da nossa História por parte das entidades oficiais: “os partidos da Democracia e em especial os da esquerda construíram uma narrativa que associou o atraso económico e social do país ao Estado Novo”, mas “essa narrativa é falsa. O Estado Novo até correspondeu a um período de rápida convergência económica com a Europa ocidental”. O salazarismo “resolveu o problema do analfabetismo”: nos anos 50, entre as crianças, o analfabetismo “já era absolutamente residual”. Ademais, prosseguiu, os manuais escolares do 12.º ano de escolaridade não apresentam bibliografia científica em relação ao Nazismo/Fascismo e ao Estado Novo, sendo apenas “referido o comunista historiador Hobsbawm e Fernando Rosas…” — ora, bastará consultar alguns manuais de História para perceber que este último argumento é pouco rigoroso. De resto, numa entrevista que posteriormente concedeu ao Jornal Económico e que divulgou no seu blogue “Portugal no longo prazo”, Nuno Palma foi mesmo mais longe: “O que é essencial percebermos, é que o licenciado Pacheco Pereira é um académico falhado. A suposta «história» que ele ou indivíduos como Fernando Rosas fazem é apenas política disfarçada de história. É tudo normativo, por isso não são capazes de conceber que outros queiram olhar para a História de forma objetiva e sem constantes julgamentos de valor” (https://nunopgpalma.wordpress.com/). Ainda em relação às afirmações de Nuno Palma a respeito dos manuais escolares de História, importa sublinhar que o aludido académico não menciona, estrategicamente, o facto de os programas oficiais aludirem às transformações verificadas, apesar de tudo, em alguns sectores da sociedade portuguesa, sobretudo a partir da década de 60 (de resto, sem essas transformações não seria possível compreender, por exemplo, as greves académicas).

Concluída a apresentação do orador principal, o moderador deu a palavra aos outros membros do painel e, por exemplo, de modo muito sintomático, João Marques Almeida destacou aquela que na sua opinião seria a principal conclusão da palestra apresentada por Nuno Palma: “Quanto mais um país é socialista e mais à esquerda, mais pobre é”.

Importa, desde já, registar que, atendendo à polémica provocada pelas palavras de Nuno Palma na Convenção do MEL, ele foi posteriormente convidado pelo jornalista Camilo Lourenço para participar no programa “A cor do dinheiro”. As duas intervenções em causa encontram-se disponíveis online (ver referências bibliográficas no final deste artigo) e ajudam-nos a compreender o pensamento do professor de História Económica.

Assim, na conversa com Camilo Lourenço, Nuno Palma procurou clarificar a sua tese: embora seja indefensável a ditadura, que tinha a censura e a polícia política (num artigo dado à estampa no jornal Público, em 8/6/2021, Nuno Palma classificou mesmo o Estado Novo como “uma ditadura execrável”), o regime salazarista/marcelista representou “um regime de relativa baixa repressão”, onde “não havia pena de morte” e no decurso do qual “houve algumas execuções extra-judiciais, mas que eram até relativamente baixas”.   

Comecemos pelos principais aspectos positivos (ainda que, diga-se, pouco inéditos) da intervenção de Nuno Palma: alertar para o peso enorme do endividamento externo de Portugal, para o enorme peso do Estado na sociedade portuguesa, para a deterioração da qualidade das instituições políticas nacionais, para a insustentabilidade da Segurança Social nos actuais moldes, para a delapidação dos fundos estruturais europeus, para as “portas giratórias” (clientelismo e caciquismo omnipresentes) e, por exemplo, em jeito de antevisão fundamentada, para os perigos que nos espreitam no futuro imediato, caso insistamos em perpetuar as políticas que têm vindo a ser implementadas.

Ora, pese embora o facto de Nuno Palma insistir em reafirmar a validade das suas afirmações com base em supostos estudos científicos, certo é que a sua comunicação representou, em traços gerais, o contrário do que significa fazer História. As suas descobertas apressadas constituem um amontoado de generalizações e acusações, com inequívoco pendor político-ideológico, que importará desconstruir. 

I ― Disse Nuno Palma que o regime salazarista/marcelista representou “um regime de relativa baixa repressão”, onde “não havia pena de morte” e no decurso do qual “houve algumas execuções extra-judiciais, mas que eram até relativamente baixas”. Ora, existem factos históricos que desmentem categoricamente as conclusões de Nuno Palma, nomeadamente: o campo de concentração do Tarrafal, as prisões políticas dos comunistas, mas também de espíritos liberais, a censura, os assassinatos consumados pela “PIDE” (caso de Humberto Delgado, em 1965, entre outros), a farsa dos “julgamentos” concretizados pelos Tribunais Plenários, as constantes coerções sobre os funcionários públicos por questões políticas e, por exemplo, a Guerra Colonial, em Angola, Guiné e Moçambique, entre 1961 e 1974 (com os crimes de guerra cometidos de ambos os lados, os milhares de vítimas, a delapidação de dispendiosos recursos desviados para o esforço bélico e que seriam fundamentais para o desenvolvimento dos países envolvidos…). Ainda nesta sequência, registe-se que a Guerra Colonial foi responsável por milhares de mortos, feridos e mutilados, para já não falar nas terríveis consequências psicológicas (traumas) que os ex-combatentes continuam ainda hoje a enfrentar (quase sempre, reflicta-se, sob a indiferença dos órgãos estatais).

II ― Sustentou Nuno Palma que o salazarismo “resolveu o problema do analfabetismo”, que, nos anos 50, entre as crianças “já era absolutamente residual”. Como é evidente, para fazer História, Nuno Palma não pode limitar-se a mobilizar apenas os números que mais convêm à sua tese, neste caso falando tão-só do analfabetismo entre as crianças (e o analfabetismo global, que em 1970 rondava os 26%? — PORDATA — e como ignorar, apesar de tudo — como ele insiste em fazer — o papel pioneiro desempenhado ao nível da alfabetização pela I República, ainda que em circunstâncias muito complicadas, de resto, agravadas pela participação do país na I Guerra Mundial?). Poderíamos, de resto, estabelecer uma conclusão idêntica no que diz respeito à suposta convergência económica do país em relação à Europa Ocidental, durante o Estado Novo, mas já durante os “Trinta Anos Gloriosos” (fim da II Guerra Mundial — início da década de 70) — e com a existência de um império colonial… dois “pormenores” contextuais que o orador se esqueceu convenientemente de explorar... 

Importa sublinhar que o Estado Novo foi um regime repressivo que insistiu, contra todos os ventos (ONU, EUA, grupo de novos países nascidos do processo descolonizador dos anos 50 e 60…), em perpetuar um estratégico Império colonial e que durante a II Guerra Mundial (1939-1945) estabeleceu rentáveis ligações comerciais, quer com a Alemanha Nazi, quer com a Inglaterra (nomeadamente em relação ao volfrâmio). Pese embora as transformações verificadas, a verdade é que a estrutura do país permaneceu idêntica durante o salazarismo/marcelismo: agricultura de subsistência, indústria incipiente e com fortes ligações das oligarquias ao poder central, forte condicionamento à iniciativa privada, manutenção dos monopólios e do caciquismo encobertos pela forte máquina repressiva e censória, concentração da riqueza em elites, enquanto a maioria da população passava fome e mantinha uma mentalidade profundamente conservadora (sobretudo nos meios rurais), mesmo após a liberalização (fracassada) da era marcelista (1968-1974)…

Mas debrucemo-nos ainda sobre a questão do analfabetismo. Como escreveu Adélia Carvalho Mineiro, ao Estado Novo interessava “que todos aprendessem a ler e escrever ― condição segura para se propagandear a ideologia ― mas que não se fosse muito além da escolaridade obrigatória” (Adélia Carvalho Mineiro ― Valores e Ensino no Estado Novo. Análise dos Livros Únicos, p. 293). Tratava-se, por conseguinte, de um sistema educativo autoritário e repressivo orientado para formatar os alunos para a obediência (se necessário, à custa da dolorosa “menina dos cinco olhos”, leia-se “palmatória”), para a memorização e simples repetição, para a perpetuação da hierarquia social (filho de camponês seria camponês) e para a permanente subjugação da mulher, no plano social, familiar, financeiro e profissional. Um ensino, portanto, que pretendia ensinar a ler e a escrever, fundamentalmente para garantir a sua perpetuação no poder e que, nessa sequência, divulgava uma narrativa nacionalista e hagiográfica da História de Portugal. Falamos, afinal, de um sistema educativo marcado pela falta de docentes, pela desvalorização e subalternização da classe profissional (veja-se o caso dos regentes escolares e a necessidade dos professores assinarem uma declaração de concordância com a Constituição de 1933 e de renegação do Comunismo), a política do livro único (oficialmente aprovado pelo regime), a integração dos jovens (7 a 14 anos, limite cronológico que poderia ser estendido) na Mocidade Portuguesa, que adoptou a saudação fascista, a intervenção do regime no casamento das professoras, que carecia de autorização do Estado Novo (Rómulo de Carvalho ― História do Ensino em Portugal. Desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano, p. 762). E muitos outros exemplos poderiam ser aqui invocados, a respeito de um sistema que apenas em 1960 consagrou a obrigatoriedade de as mulheres frequentarem a escola até à quarta classe. Em sentido inverso, importará, no entanto, não esquecer a construção de uma rede de escolas nacionais ou as políticas educativas reformistas de Veiga Simão, já na era marcelista (em 1973, seria aprovada uma lei que previa, por exemplo, a institucionalização da educação pré-escolar e a extensão da escolaridade obrigatória de seis para oito anos ― Rómulo de Carvalho ― ob. cit., p. 809).

III ― Nuno Palma alude ainda a outros supostos “indicadores de bem-estar” que caracterizaram a sociedade portuguesa durante o Estado Novo, essa mesma sociedade, na qual o alegado especialista económico parece desconhecer que muita gente andava descalça, incluindo centenas de crianças. Ora, sendo certo que a mortalidade infantil desceu ao longo do regime, é ou não verdade que em 1974 ela continuava a ser muito superior em relação a vários países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)? É ou não verdade que a década de 60 foi marcada, em Portugal, por elevadas taxas de emigração? E qual a razão que levou milhares de portugueses analfabetos e miseráveis a sair, clandestinamente, da pátria, por exemplo, em direcção aos andrajosos bidonvilles de França? E, já agora, qual a diferença entre o nível de vida dos portugueses que, nas décadas de 60 e 70, viviam nas cidades e nos campos? E qual o peso para as estatísticas das remessas enviadas para Portugal pelos nossos emigrantes para essa suposta convergência nacional em relação aos países da Europa Ocidental? Afinal, como recentemente escreveu o historiador Fernando Rosas a respeito da realidade portuguesa: “Ao chegar a 1973, o salário médio nacional era 25% do alemão, 29% do francês e menos de metade do espanhol; as famílias mais ricas (4,9 % do total) concentravam um quarto do rendimento familiar global; um terço das famílias portuguesas não dispunha de rendimento anual mínimo para satisfazer as necessidades elementares; 36% dos alojamentos familiares não tinham luz elétrica e 41% não dispunham de saneamento básico” (Público, P2, 20/6/2021, p. 17).

Ainda a este respeito, no blogue de Nuno Palma é possível ler uma das suas mais recentes intervenções: o Estado Novo não foi fascista, mas sim “uma ditadura nacionalista de direita”, “como afirmam claramente os verdadeiros especialistas”. E para concluir, num golpe de génio: “Aliás os verdadeiros regimes fascistas tinham orgulho nisso, mas o Estado Novo nunca se definiu a si próprio como tal” (https://nunopgpalma.wordpress.com/)... 

IV ― Segundo Nuno Palma, o Partido Comunista Português nunca lutou pela liberdade e pela democracia, sendo assim falsas as representações veiculadas na Fortaleza de Peniche, onde se diz que ali estiveram presos aqueles que lutaram pela democracia e pela liberdade. Pese embora ser forçoso reconhecer que os crimes cometidos pelos partidos comunistas durante o século XX, por exemplo na URSS, foram igualmente comparáveis e por isso igualmente condenáveis aos que foram cometidos pelo Nazismo e pelo Fascismo (ver Alain Besançon ― A dor do século. Sobre o comunismo, o nazismo e a unicidade da Shoah, p. 138), é fundamental destacar o extraordinário papel desempenhado pelos comunistas portugueses na luta contra o Estado Novo. Uma luta que implicou, frequentemente, colocar em causa a sua própria sobrevivência. De resto, não foram apenas os comunistas que estiveram presos em Peniche (e nas restantes prisões políticas e no campo de concentração do Tarrafal). Já agora, não foram apenas os comunistas que foram vigiados, perseguidos, torturados e até mesmo mortos pelo regime de Salazar/Marcello Caetano. Escrever um simples livro poderia implicar a prisão, como, por exemplo, sucedeu com Miguel Torga, em 1939-1940, e com muitos outros cidadãos portugueses, facto bem evidente quando se consultam os arquivos da “PIDE” na Torre do Tombo, em Lisboa (será que Nuno Palma algum dia se predispôs a desenvolver essas e outras árduas pesquisas nos arquivos?).

Escrever e reescrever a História é um pouco como estar dentro de uma sala completamente escura e ir procurando iluminar o mais possível o que nos rodeia, procedendo assim à sua interpretação e contextualização, do modo mais objectivo possível. Ora, Nuno Palma tem uma lanterna no bolso, mas só ilumina o que lhe dá mais jeito ou então insiste em não querer ver... Queixa-se de ser vítima de uma campanha de falsificação e manipulação, quando na verdade é ele que, embora invocando constantemente a ciência, insiste em apenas mobilizar os dados que mais lhe convêm.

Os novos ideólogos gritam frequentemente pela ciência e declaram-se imunes à ideologia. Deveriam assumir, porventura, uma atitude mais humilde: reconhecer que ninguém é completamente imune à ideologia e que, por isso, deveriam proceder a uma auto-crítica permanente. Daí o conselho de José Pacheco Pereira, que, afinal, serve para todas as pessoas verdadeiramente interessadas em perseguir o conhecimento e não apenas fazer parte de manifestações político-ideológicas: ESTUDEM!

Referências bibliográficas: Conversa de Camilo Lourenço com Nuno Palma, no programa “A cor do dinheiro”: https://fb.watch/64DFdES75S/; Movimento Europa e Liberdade (3.ª Convenção, 4/6/2021) — https://youtu.be/v4zr58fJq6s; Blogue de Nuno Palma ― “Portugal no longo prazo”: https://nunopgpalma.wordpress.com/; José Pacheco Pereira, “A indústria de falsificações do Estado Novo”, Público, 5/6/2021; Nuno Palma, “Cortinas de fumo: a indústria de falsificações e deturpações”, Público, 8/6/2021; Nuno Palma, “A profundidade histórica do atraso português”, Público, 27/6/2021; Fernando Rosas, “O milagre da economia sem política”, Público, P2, 20/6/2021; PORDATA: “Taxa de analfabetismo segundo os censos” (https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+analfabetismo+segundo+os+Censos+total+e+por+sexo-2517); Adélia Carvalho Mineiro ― Valores e Ensino no Estado Novo. Análise dos Livros Únicos, 1.ª edição, Lisboa, Edições Sílabo, 2007; Alain Besançon ― A dor do século. Sobre o comunismo, o nazismo e a unicidade da Shoah, Lisboa, Quetzal Editores, 1999; Rómulo de Carvalho ― História do Ensino em Portugal. Desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-

-Caetano, 4.ª edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Manuel da Fonseca: a voz do Alentejo- Autor Renato Nunes




Em 1943, o escritor neo-realista Manuel da Fonseca (1911-1993) apresentou o seu romance Cerromaior à censura prévia. A análise da obra ficou a cargo do capitão Silva Dias.

Cerromaior é um livro que colheu as suas raízes na realidade alentejana, das décadas de 30 e 40 do século XX. Como escreveu Mário Dionísio: “Manuel da Fonseca nasceu para revelar o Alentejo” (Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, direcção — Dicionário de História do Estado Novo, p. 366). Importa, de resto, não esquecer que Manuel da Fonseca tem as suas origens em Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal. 

Com um total de aproximadamente 250 páginas, Cerromaior narra o percurso de Adriano, que, apesar das suas origens burguesas, foi gradualmente tomando consciência da injusta divisão do mundo entre os que obedecem e os que mandam e acabou mesmo por decidir colocar-se ao lado dos mais pobres e oprimidos. Pobres e explorados camponeses, aos quais ouvira relatar pungentes histórias de vida: “Olhe… nós éramos seis irmãos e a minha mãe passava fome por mor da gente. E o meu pai, quando chegava do trabalho, começava a ralhar e acabava a bater-lhe. Encolhidos a um canto, a gente chorava. Mais tarde, o meu pai deu em beber e abandonou o trabalho. Um dia, desapareceu; nunca mais voltou. E a minha mãe, que era doente, passou a ir à monda, à ceifa e a tudo o que aparecia. Depois, a minha mãe morreu…” (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 184).

A descrição da situação vivida pelos ceifeiros aquando dos intensos trabalhos nos campos alentejanos, na canícula de Verão, é igualmente dramática: “Autómatos, os homens lançavam a foice. Cabeças tombadas, bocas abertas, barbas crescidas, pingando suor. Suor amargo na boca e nos olhos, escorrendo entre a pele e a roupa, empapando tudo. Um formigueiro a borbulhar da testa e a foice ia e vinha. / O manajeiro olhava ainda o relógio” (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 166). Ao longo do enredo, destaca-se também a história de Doninha, antigo carteiro local, que acabou por enlouquecer e que depois foi preso, tal como um criminoso. Um episódio que levou um homem do Povo a protestar: “Não está certo. Digo e repito: leve-se para o hospital, para o manicómio; para a cadeia, não. Bolas! Não matou, nem roubou (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 195). Ora, esta contundente crítica, sintomaticamente colocada pelo narrador na boca de um dos anónimos do Povo, denunciava um dos dramas da saúde psiquiátrica, durante o Portugal salazarista: a falta de respostas clínicas levava ao encaminhamento destas complexas situações para a polícia e frequentemente para a mendicidade nas ruas (Susana Pereira Bastos — O Estado Novo e os seus vadios, ps. 263 e 266). E a descrição do narrador acompanha-nos, sempre que pensamos na imagem da noite cerrada, na vila de Cerromaior, a ser invadida pelo grito de desespero do encarcerado: “Era a espantosa imagem do Doninha, todo nu por detrás das grades da cadeia, uivando para a vila” (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 206).  

Cerromaior denuncia também a situação vivida pelas mulheres, vítimas dos permanentes abusos por parte de uma sociedade profundamente machista, como bem o demonstra o exemplo da criada Antoninha, alvo de uma tentativa de estupro e imediatamente despedida... Uma sociedade na qual os homens derretiam na taberna quase todo o dinheiro que, dolorosamente, ganhavam, para depois, frequentemente, espancarem as esposas já em casa, onde reencontravam a nua realidade dos filhos com fome. Uma sociedade marcada pela palmatória na escola, pelos abusos dos poderosos patrões perante a fragilidade dos dependentes empregados sazonais, como bem evidencia o abate (a tiro) da cadela de João Codesso, após este se ter recusado a vender ou dar o pobre animal ao terratenente Carlos Runa, ou ainda os despedimentos de Maltês e de Toino Revel, motivados pelos meros rumores de que eles teriam publicamente denegrido a imagem do patrão. Uma sociedade, afinal, onde os mais pobres não podiam ter opiniões: “São como um rebanho: pedrada nos cornos, e boca calada” (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 213). 

Ora, estas e outras matérias politicamente perigosas — o romance neo-realista encerrava mesmo com um acto de revolta de alguns camponeses — não poderiam ter passado despercebidas ao censor literário incumbido de analisar a obra. Eis as principais conclusões apresentadas pelo censor Silva Dias ao longo do seu relatório: “Este romance, tal como está concebido, não o julgo com possibilidade de ser autorizado”. E seguia-se a justificação: a obra em causa “apresenta ao leitor factos concretos que revelam profundas deficiências da estrutura social, entre nós. / A vida dura e miserável do trabalhador rural alentejano, a carência ao mesmo de assistência social, a indiferença do abastado pelo humilde que trabalha em seu proveito, cenas pornográficas e imorais efectuadas por pessoas de melhor condição, são neste romance postas em evidência, podendo concluir-se que o seu autor não mediu os perigos para a sociedade, de narrativas sobre pretensos preconceitos demolidores que levam os fracos ou os menos preparados a meditações condenáveis. / A descrição da desgraça a que chegou um antigo carteiro, que fora sempre zeloso e que enlouqueceu e foi levado para uma cadeia onde morreu, sem qualquer protecção das autoridades, dá-nos logo de começo uma má impressão do livro. / Depois espraia-se sobre a vida angustiosa do camponês, realçando-se as inúmeras agruras dos que vivem da terra, mais parecendo mendigos. As faltas de trabalho, a diferença, doentias, entre o patrão e o trabalhador e também exposições de atitudes indecorosas referentes aos amores clandestinos dum patrão, leva-nos à conclusão que inicialmente escrevi: o livro não deve ser autorizado, tal como é apresentado”. E, após mencionar que já tinha assinalado no original as passagens inconvenientes, acrescentou: “Um arranjo com o que fica, julgo tornar-se difícil, pelo sabor anti-social que pode ainda deixar transparecer” (EPHEMERA). No entanto, através de um posterior despacho superior (22/11/1943), o livro acabaria por ser autorizado, embora com cortes. Seria, de resto, interessante cotejar a versão inicialmente prevista por Manuel da Fonseca com os cortes solicitados pela censura, mas não se revelou, por enquanto, possível aceder a essas fontes (uma situação, de resto, muito comum quando se exploram os caóticos e dispersos arquivos da censura literária, durante o Estado Novo).

Seara do Vento foi outro dos romances escritos por Manuel da Fonseca que também foi analisado pela censura prévia. Em 1959, o censor literário coronel Fernando Salgado decidiu aprovar a sua publicação, mediante as seguintes conclusões: “ Retrata um meio rural, rude e de miséria, onde se sente formar o sentimento amargo e de revolta dos que se sentem escravos da terra e do patrão. […] / Parece-me, creio, que tudo isto tende a formar no juízo do leitor o sentimento de revolta contra a organização actual da sociedade. […] / É de deixar publicar, pois é do mesmo género explorado, há uns anos, pelos Fernandos [sic] Namora, Aquilino, etc., etc.” (EPHEMERA). Certo é que a reedição da mesma obra seria proibida em 1966, tendo como base, entre outros aspectos, os “novos elementos agora controlados sobre a tendência política do escritor e das suas possíveis ligações com o partido comunista” (Cândido de Azevedo — A censura de Salazar e Marcello Caetano, p. 608). A eventual ligação de Manuel da Fonseca ao Partido Comunista foi, por conseguinte, um dos motivos para justificar a interdição de um livro já anteriormente permitido, sublinhe-se, pelo mesmo censor (Cândido de Azevedo — Mutiladas e proibidas, p. 83)…

Manuel da Fonseca foi um dos mais destacados autores do neo-realismo português. Os dramas do mundo contemporâneo reclamam uma atitude mais interventiva, ainda que em novos moldes, de todos os cidadãos, nomeadamente dos intelectuais. Nesse sentido, o neo-realismo é uma lição que bem merece ser estudada, pelo que o reencontro com os seus autores revela-se uma necessidade premente…


Referências bibliográficas: Cândido de Azevedo — A censura de Salazar e Marcello Caetano. Imprensa, teatro, cinema, televisão, radiodifusão, livro, Lisboa, Caminho, 1999; Cândido de Azevedo — Mutiladas e proibidas. Para a história da censura literária em Portugal nos tempos do Estado Novo, Lisboa, Caminho, 1997; “Censura – despachos da direcção dos serviços da censura relativos a livros de Manuel da Fonseca”, EPHEMERA (26/6/2021); Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito (direcção) – Dicionário de História do Estado Novo, volumes I, 1.ª edição, Venda Nova, Bertrand Editora, 1996; Manuel da Fonseca — Cerromaior, 4.ª edição, Lisboa, Forja, 1976; Susana Pereira Bastos — O Estado Novo e os seus vadios. Contribuição para o estudo das identidades marginais e da sua repressão, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)  


sábado, 30 de janeiro de 2021

O passaporte da minha avó Autor: Renato Nunes

Tenho à minha frente o passaporte da minha avó materna, nascida em 1911, ano em que foi publicada a lei da separação das Igrejas do Estado. O referido passaporte, emitido na década de 30 do século passado, invoca as viagens marítimas realizadas entre Portugal e o Brasil (Santos), contendo os necessários carimbos da polícia política do Estado Novo (à época designada Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). O regresso definitivo ao território nacional ocorreu entre os derradeiros dias de Agosto e o início de Setembro de 1939. Eis, por conseguinte, a minha avó no meio do Atlântico, provavelmente temerosa com a passagem do Equador, enquanto deflagrava a II Guerra Mundial (1 de Setembro).

Chegava, assim, ao fim uma aventura iniciada uns anos antes, em circunstâncias pouco ou nada favoráveis, pois o crash da bolsa de Nova Iorque, em 1929, desencadeara uma das maiores crises financeiras, políticas e sociais, com ramificações a nível mundial. O repatriamento para Portugal, enquanto “indigente” (como figura no passaporte), comprova o que acabei de dizer. Alguns meses depois nasceria a minha mãe, filha de mãe solteira e de pai incógnito, numa remota aldeia do interior beirão. E penso que não serão necessárias mais palavras para o leitor imaginar o profundo estigma que à época recaiu sobre essa mulher recém-chegada do Brasil, de olhos castanhos, com 1,51m de altura e, como era comum na época, sem nunca ter desfrutado do privilégio de frequentar a escola para aprender a ler e a escrever…

Enquanto jovem, mal tive a oportunidade de conhecer a minha avó materna, mas hoje, já na casa dos 40, penso muitas vezes nesta destemida mulher e no drama da sua vida, passada a tratar das pesadas lides domésticas e agrícolas, próprias ou alheias, para à noite regressar a um casebre de granito, sem água, sem luz ou gás, onde o vento e a chuva faziam sentir a sua presença. Mas sempre com os velhos baús de madeira, vindos do Brasil, presentes no espaço nobre da sala improvisada... 

À medida que os anos transcorrem, o estudo do indivíduo e das suas circunstâncias insiste em fascinar-me cada vez mais. O exercício biográfico proporciona-nos, desde logo, um “encontro” com o ser humano, nas suas várias facetas e realidades quotidianas, quer enquanto personalidade pública ou simples cidadão anónimo. Quando se estuda um Homem, o local e o global entrelaçam-se de um modo tão inextricável, que é impossível compreender um sem mobilizar o outro. O exemplo concreto da minha avó e das circunstâncias dramáticas nas quais o mundo estava mergulhado quando ela procurou viver a aventura do Brasil poderão ajudar o leitor a compreender melhor o que pretendo afirmar. Outro exemplo concreto poderia passar pela participação dos portugueses na I Guerra Mundial: imaginar um dos meus conterrâneos beirões, “serranos”, nas trincheiras da Flandres, entre 1917 e 1918, é um pouco como se me fosse permitido contemplar o momento em que a história do indivíduo e a história do mundo deram as mãos (a obra de Isabel Pestana Marques — Das Trincheiras com saudade — é a este respeito uma sugestão de leitura incontornável).

É nesta mesma linha que gostaria de partilhar o entusiasmo que vivi recentemente, enquanto lia sofregamente um livro intitulado História Global de Portugal, dirigido por Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva. Trata-se de um conjunto de 93 textos produzidos por cerca de 80 autores, integrados em cinco partes aglutinadoras: Pré e Proto-História, Antiguidade, Idade Média, Época Moderna e Época Contemporânea.

Um dos aspectos surpreendentes da obra, com um total de 660 páginas, reside, desde logo, na sua estrutura coerente e rara limpidez textual. Os textos individuais, com cerca de seis páginas, podem ser lidos nos momentos mais banais do quotidiano, trazendo-nos um conjunto de sínteses, que colocam em causa vários mitos que continuam erradamente a ser repetidos até à exaustão. Apenas alguns exemplos: a associação simplista dos Montes Hermínios à Serra da Estrela, bem como da Lusitânia ao actual território português ou até mesmo a pouco sustentada associação de Fernão Magalhães a um suposto projecto de circum-navegação do Mundo, quando, de acordo com as fontes disponíveis, o seu objectivo passou isso sim por atingir as Molucas (ou ilhas de “Maluco”), na Indonésia. Poderia também destacar teses particularmente interessantes, como sejam as sucessivas movimentações humanas, já desde a Pré-História, a emissão de gás metano antes da Revolução Industrial (século XVIII), o entrelaçamento entre o mundo atlântico e o mundo mediterrânico, pelo menos desde a Idade do Bronze (III milénio a.C.), bem como alguns apontamentos interessantes a respeito da presença dos Viquingues no território que actualmente integra Portugal ou ainda um actual exercício de síntese a respeito da peste negra, no século XIV, que teria provocado a morte de aproximadamente 50 milhões de pessoas, das cerca de 80 milhões que à época viveriam na “Europa” (p. 272), bem como uma interessante entrada sobre o estudo da cultura do arroz em Portugal (pp. 347-351).

Este esforço, ainda pouco comum mesmo na comunidade científica nacional, de congregar um número elevado de investigadores à volta de um projecto comum, procurando entrelaçar o local e o global afigura-se-me meritório, sendo que a obra em causa passa a constituir uma ferramenta de trabalho quase obrigatória, quer na mesa de outros investigadores, professores ou simples curiosos pela compreensão do mundo em que vivem.

A reflexão que agora procuro desenvolver ajuda-me também a recordar um antigo professor universitário chamado Saul António Gomes, um historiador especializado na Época Medieval, ao qual, se bem me lembro, ouvi repetidamente — durante as aulas de Paleografia e Diplomática — sustentar que era forçoso ultrapassar a velha dicotomia entre o local e o nacional/mundial, pois os designados “estudos locais” ainda eram frequentemente percepcionados de um modo particularmente pejorativo. Não posso assegurar que eram exactamente aquelas as palavras utilizadas pelo aludido docente, mas aquela ideia continua, cerca de duas décadas depois, bem presente no meu espírito e esta também é, por conseguinte, uma das melhores homenagens, que, segundo creio, posso continuar a prestar-lhe.

Entre os aspectos mais discutíveis da obra, talvez seja importante destacar os seguintes: associação, frequentemente forçada, do tema em estudo a um suposto e quase obsessivo carácter global, o que, como teve oportunidade de assinalar Diogo Rama Curto numa crítica particularmente incisiva (p. 401), se traduziu, por vezes, em exercícios que roçam o anacronismo; uma perspectiva, porventura, demasiado decalcada da interpretação eclesiástica do fenómeno das “Aparições” de Fátima (1917), apresentada pelo historiador do Departamento de Estudos do Santuário de Fátima, Marco Daniel Duarte (pp. 573-578), parecendo ignorar, por exemplo, a transformação da própria mensagem apresentada pela Igreja Católica (os designados “segredos”) ao longo do século XX (ver, a este respeito, os estudos do historiador Luís Filipe Torgal ou numa perspectiva mais teológica as obras do proscrito padre Mário de Oliveira, bem como os “inflamados” textos de Tomás da Fonseca). Destaque-se, ainda, a quase omissão dos Açores (abordados superficialmente), que, à semelhança do que sucedeu com a Madeira, bem mereciam um texto individualizado; a integração do Estado Novo, num período situado logo a partir de 1928 (p. 359), o que, em certo sentido, escamoteia as especificidades da Ditadura Militar/Nacional (1926-1932); a ausência de notas de rodapé, o que se por um lado permite uma leitura mais fluida dos textos, por outro lado impede a confirmação dos elementos mencionados e, neste sentido, dificulta o trabalho de outros investigadores que pretendam debruçar-se sobre o tema.

Estes e outros aspectos da obra, que mereciam ser discutidos e aprofundados, não obscurecem, no entanto, o seu inestimável valor e pertinência, justificando-se plenamente a sua leitura. Afinal, os tempos que vivemos revelam-se cada vez mais incertos e com perigosas e assustadoras similitudes com as décadas de 20 e 30 do século passado, no decurso das quais milhões de pessoas ansiaram por um salvador, que destruísse o sistema e voltasse a construir, do vazio, um mundo perfeito. O resultado monstruoso desse passado já muitos de nós o conhecem, mas qual será o resultado deste presente que agora vivemos? Qual será o desfecho desta tendência assustadora que leva a que, em várias freguesias portuguesas, a extrema-direita se torne numa das forças políticas mais votadas?

Os argumentos, os não-argumentos, a hipocrisia e a loucura dos novos potenciais ditadores que por aí pululam, alimentados pelos dramas que estamos a viver, apenas poderão ser combatidos com mais conhecimento científico e políticas inclusivas. Eu não conheço outra ferramenta que possa ajudar-nos tanto nesse combate como a História. É também por isso que, apesar de as contingências da vida me terem forçado a procurar a sobrevivência para além das suas fronteiras profissionais, continuo frequentemente a agradecer o privilégio de poder estudá-la. A agradecer a todos aqueles que me ajudaram a amá-la, em especial aos professores com os quais tive a sorte de cruzar-me. É também graças a essa ciência-narrativa que pude e posso diariamente compreender melhor aqueles que me rodeiam e rodearam, como a minha querida e saudosa avó materna, que um dia rumou para o sonho do Brasil, em busca de uma vida melhor, mas poucos anos depois foi forçada, também pelo terrível poder da crise global, a regressar ao país natal, no navio “Highland Princess” e a enfrentar uma sociedade ultraconservadora e machista, onde a mãe solteira era frequentemente alvo da chacota e da exclusão social…

Mais do que através de leis e mais papéis, a inclusão constrói-se com conhecimento e sabedoria, algo que dificilmente se poderá separar da História. Ignorar isto é continuar a alimentar os extremismos. E quem alimenta monstros, acaba por ser devorado por eles — é apenas uma questão de tempo…       

Referências bibliográficas: Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva (direcção) — História Global de Portugal, 1.ª edição, Lisboa, Temas e Debates, 2020.

 

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sexta-feira, 31 de julho de 2020

CHEGA: direita radical ou extrema-direita?

Riccardo Marchi, investigador e professor universitário, publicou em Junho de 2020, um ensaio a respeito do CHEGA, no qual sustenta, entre outros aspectos, que o partido criado por André Ventura não pertence à extrema-direita, mas sim à “direita radical”, pois “a sua cultura política não tem nada a ver, do ponto de vista doutrinário, com os autoritarismos de direita dos anos 20 e 30 do século passado” (Riccardo Marchi, 2020, p. 194). Ainda segundo Riccardo Marchi, o CHEGA não é racista, embora ― como admitiu André Ventura ― o discurso do partido possa ser favorável à aproximação dos racistas.

            Na obra de Riccardo Marchi sustenta-se ainda que a acção de André Ventura é controlada pela moral cristã e que várias propostas do CHEGA, nomeadamente ao nível fiscal, padecem “ainda de clareza” (Riccardo Marchi, 2020, p. 156). Já na parte das conclusões do aludido ensaio que inspira este artigo, Ventura é descrito como um “político jovem, ambicioso, pragmático, empático, telegénico, com discurso contundente e capacidade oratória já treinada na polémica mediática”, cujo perfil e prática, até ao momento, não tem pretendido “promover o culto da personalidade” (Riccardo Marchi, 2020, ps. 198 e 199). No entanto, na entrevista que concedeu ao Diário de Notícias (25/6/2020), o politólogo sustentou que o partido em causa ainda não possui uma “coluna vertebral”, parecendo, por conseguinte, ignorar que esse facto deriva, sobretudo, da excessiva concentração de poderes no mediático André Ventura que, de resto, se confunde com o CHEGA. Um pouco à semelhança — acrescentado da minha responsabilidade — do que sucedeu com o Estado Novo de Salazar, que não se cansou de sustentar a sua suposta originalidade e no pós II Guerra Mundial, perante a derrota dos regimes fascistas e nazi, chegou mesmo a caracterizar-se como uma “democracia orgânica”.

            No que diz respeito à distinção apresentada entre “extrema-direita” e “direita radical”, segundo Riccardo Marchi “o primeiro tem carácter anti-sistema e objectivos subversivos de abate do regime vigente, através também de meios violentos”, enquanto o segundo respeita as regras do jogo (Riccardo Marchi, 2020, pp. 191-192). Uma distinção, de resto, presente no ideário do CHEGA: “Confunde-se muito radicalismo com extremismo” (Programa 2019). A este respeito, importa, porém, recuperar uma das pertinentes interrogações de André Freire, num artigo recentemente dado à estampa: o CHEGA pretende acabar com a III República, através de um referendo constitucional, “mas não será que tal proposta viola a ordem constitucional vigente, democraticamente instituída”? (Jornal de Letras, 15 a 28/7/2020).

            Na página oficial do CHEGA, é possível encontrar o Programa 2019, um extenso documento, cujos enunciados são muitas vezes ambíguos, vagos e até mesmo contraditórios (https://partidochega.pt/programa-politico-2019/). Em jeito de síntese, trata-se de um conjunto de princípios neo-liberais, que pretendem acabar com o “Estado Providência” e iniciar um processo de privatizações (inclusive no ensino, na saúde e no património), cujo desenlace inevitável seria colocar o destino nacional nas mãos do mercado (algo ainda mais estranho, se pensarmos que André Ventura se assume claramente como um nacionalista defensor da soberania nacional, uma matéria tão importante que, se colocada em causa, o levaria até mesmo a sustentar a saída de Portugal da União Europeia — neste domínio, será interessante mencionar que numa fase anterior o CHEGA assumiu-se mesmo como antieuropeísta). Veja-se ainda o que figura, no citado documento, no ponto quatro do tema Emprego: “Para que os fluxos aumentem é necessário facilitar as contratações e isto só é possível se os custos de «empregabilidade» – salários, restrições legais, horários de trabalho rígidos, difícil acesso a informação, contribuições para a segurança social e custos de despedimento – forem reduzidos”.

Face ao exposto, conclui-se facilmente que as actuais preocupações sociais do Estado passariam a pertencer às designadas funções “acessórias, subsidiárias e/ou supletivas”, tendendo, portanto, para a mera residualidade. A respeito das escolas, que poderiam ser compradas pelos professores (?!), o CHEGA defende o “fim da aplicação das ideologias de inclusão e ideologia de género no sistema nacional de educação, colocando-se termo à aplicação das orientações da ONU relativamente às chamadas «questões psicológicas de transtorno de identidade de género»”.

            Entre os princípios defendidos no aludido Programa, importará ainda destacar: o aumento das propinas universitárias para os cursos das ciências sociais e humanas, privilegiando, por oposição, as áreas científicas e técnicas (“as propinas a pagar por um curso de Sociologia terão de tender para o custo real do curso”); o alargamento do horário de trabalho dos profissionais de saúde das 35 horas para as 40 horas; a redução dos deputados, de 230 para 100; a defesa da tauromaquia, por oposição à eutanásia e ao aborto (que, neste último caso, apesar de pretenderem proibir, não querem criminalizar…) e a desvalorização do poder legislativo e executivo, em função do presidencialismo puro. Numa época em que o poder local dos cidadãos assume cada vez maior importância, o CHEGA preconiza, com inequívoca incoerência à mistura, a redução do número de freguesias, sustentando ainda que todos “os ministérios e serviços correspondentes” passem a concentrar-se “numa mesma área geográfica, de forma a permitir uma diminuição drástica dos seus custos operacionais, bem como das imensas horas perdidas, para a economia nacional, pelos cidadãos” (Programa 2019).  

Invocando a iminente perda da nossa identidade judaico-cristã, o CHEGA proclama o perigo da imigração ilegal (prevê, pois, a eliminação de quaisquer apoios aos imigrantes ilegais, que seriam deportados para os seus países de origem): “Qualquer imigrante que tenha entrado ilegalmente em Portugal estará incapacitado, para o resto da sua vida, para legalizar a sua situação e, portanto, a receber qualquer auxílio da Administração” (Programa 2019). Sustenta-se também a “abolição das autorizações de residência por razões humanitárias, redução do sistema de acolhimento de refugiados só para menores desacompanhados e pessoas qualificadas para protecção internacional” (Riccardo Marchi, 2020, p. 173). Enfim, coloca a tónica na distinção entre nós, herdeiros da matriz judaico-cristã, e os outros. Neste sentido, o islão é percepcionado como “uma ideologia político-religiosa, totalitária e imperial […] a principal e permanente ameaça à Civilização ocidental” (Riccardo Marchi, 2020, p. 182). Além disso, a comunidade cigana, os homossexuais e outras minorias são frequentes alvos de crítica pública por parte dos adeptos do CHEGA. A respeito dos homossexuais, o Programa 2019 defende o “fim da promoção, pelo Estado, de incentivos e medidas que institucionalizem os casamentos entre homossexuais e a adopção de crianças por «casais» homossexuais”, parecendo, no entanto, deixar em aberto a possibilidade das uniões de facto.

            O objectivo do CHEGA é fundar a IV República em Portugal e não apenas melhorar o sistema que existe, herdado da revolução de Abril de 1974. Por muito que os seus dirigentes defendam que ninguém seria prejudicado, por exemplo, com as privatizações levadas a cabo na educação (seriam atribuídos cheques-ensino, até mesmo na Universidade), é evidente que, nesses tão ansiados novos moldes neo-liberais, a economia de mercado aumentaria ainda mais as desigualdades sociais. 

            Disse André Ventura: “Chamam-nos fascistas, mas é por não terem noção do que é o fascismo. Só pode ser. Porque o fascismo é o oposto do liberalismo” (Riccardo Marchi, 2020, p. 83). Nas suas habituais arremetidas mediáticas, Ventura procura criar mundos antagónicos e irreais, a preto e branco, esquecendo-se, no entanto, que o fascismo, enquanto realidade histórica, da primeira metade do século XX, bem mais complexa do que as suas palavras dão a entender, socorreu-se do grande capital. Como escreveu Umberto Eco: “O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas uma colagem de diversas ideias políticas e filosóficas, uma amálgama de contradições” (Umberto Eco, 2017, p. 17). Além disso, não deixa de ser interessante constatar que, no que diz respeito à política orçamental, o CHEGA pretende dar prioridade absoluta “às necessidades dos ministérios que consubstanciam as Funções Soberanas do Estado, ou seja, Ministérios da Justiça, Administração Interna, Defesa e Negócios Estrangeiros” (Programa 2019). Matérias, afinal, determinantes para um maior controlo da sociedade, ou não fosse a garantia da ordem (naquele que ainda é, contudo, um dos países mais seguros do mundo) uma das bandeiras de marca de André Ventura.

            Se, por um lado, o ideário do CHEGA parece reivindicar uma certa “objectividade” no ensino da História: “O ensino e a promoção, sem interferências revisionistas e ideologias que a adulterem, da História de Portugal, alicerçadas nos Factos objectivos que a marcaram”; por outro lado, defende um: “Sistema Educativo acessível a todos, vocacionado para a consolidação dos valores culturais e civilizacionais judaico-cristãos, sem interferência de correntes que se filiam na chamada «ideologia do género» e no dito «marxismo cultural»” (Programa 2019). Ainda no âmbito da História, tal como Riccardo Marchi recordou, o CHEGA “contesta o enviesamento ideológico presente, por exemplo, na estigmatização da secular expansão ultramarina e na visão unilateral do 25 de Abril” (Riccardo Marchi, 2020, p. 95). Temos, pois, o ensino “objectivo” da História, mas com base na matriz da identidade portuguesa imaginada e oficializada pelo CHEGA, que, como já tivemos oportunidade de verificar, pretende eliminar a escola pública — aquela que, com todos os defeitos, ainda permanece como uma das grandes conquistas da revolução de Abril. Eis, por conseguinte, um amontoado de incoerências, contradições e ambiguidades, que permitem todo o tipo de leituras e perniciosos desenvolvimentos futuros.

            É altura de dizer que, de acordo com a minha interpretação, o CHEGA é um partido de extrema-direita. Aliás, Ventura “reconhece publicamente a sua proximidade ao Vox espanhol e à Lega italiana” (Riccardo Marchi, 2020, p. 149). No pretérito dia 2 de Julho, vários órgãos da imprensa, entre os quais O Observador, noticiaram que: “O Chega aceitou o convite para aderir ao grupo europeu Identidade e Democracia (ID), que integra partidos de extrema-direita”. O Observador transcreveu mesmo as reacções de Ventura: “Nós tínhamos já feito alguns contactos europeus. Tivemos primeiro uma maior aproximação ao grupo onde está o Vox, mas o desenvolvimento dos contactos internacionais aproximou-nos mais, quer do partido de Matteo Salvini, quer da Frente Nacional francesa”.

Entre as referências políticas de Ventura encontram-se Beppe Grillo e o Movimento 5 Estrelas, bem como Donald Trump (Riccardo Marchi, 2020, p. 147). Importa, pois, reconhecer que, contrariando a tese de Riccardo Marchi, a “Nova Direita Radical” não é mais do que a velha extrema-direita, travestida de algumas supostas alterações, mas que continua a alimentar-se do medo reinante nos povos, o qual, por sua vez, fomenta o ódio entre as pessoas. São, afinal, evidentes as contradições e ambiguidade que atravessam o ideário do CHEGA e que se espelham nas práticas do próprio líder: acérrimo defensor da exclusividade de funções dos deputados, André Ventura apenas passou, de acordo com a biografia constante na página do Parlamento, a cumpri-la muito recentemente, pois até ao dia 30 de Junho de 2020 exerceu funções de consultor na Finpartner, SA   (https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Biografia.aspx?BID=6535). Isto para já não falar, claro, das contradições, que o próprio reconheceu, entre as ideias sustentadas na sua tese de doutoramento e as ideias políticas actualmente defendidas pelo mesmo, bem como o apoio da Igreja Maná à sua causa. Mas, como é evidente, os apoiantes do CHEGA poderão sempre dizer que isso são pormenores e que o programa do partido (dotado de uma ideologia supostamente flexível) irá ser clarificado, pois está a ser interpretado de modo erróneo. Certo é que, enquanto se levanta a dúvida e também graças às circunstâncias dramáticas que se avizinham (com o desemprego a atingir números assustadores) e também, importa sublinhá-lo, devido a estudos pouco rigorosos como o do historiador-politólogo Riccardo Marchi, continuarão a chegar novos filiados ao CHEGA; e as Presidenciais e as Autárquicas serão já em 2021... Como André Freire teve oportunidade de escrever, em muitos casos, o estudo de Marchi “destaca-se pouco da forma como o partido se apresenta a si próprio na arena política, ou problematiza pouco ou nada determinadas contradições insanáveis nas suas propostas” (Jornal de Letras, 15 a 28/7/2020). Além disso, continuando a seguir as palavras de André Freire, a obra de Marchi, apesar de ser importante para compreender, por exemplo, a evolução do partido de André Ventura, foi elaborada fundamentalmente a partir de um conjunto de entrevistas a dirigentes do CHEGA e no “escrutínio de documentos do partido e de peças jornalísticas”, sendo de realçar a ausência de “bibliografia académica” indispensável, de resto, para um estudo historiográfico.  

            As previsões demográficas mais recentes calculam que Portugal continuará a perder população a um ritmo assustador: “há 23 nações, incluindo Portugal e Espanha, que devem ter metade da população em 2100” (RTP, 15/7/2020). Nesse sentido, como escreveu Milton Blay: “A história do mundo é uma história das migrações e querer fechar fronteiras é uma tentativa de contrariar a natureza humana, sobretudo em uma época em que a Europa envelhece e vive em deficit demográfico crónico, precisando do aporte de estrangeiros” (Milton Blay, 2019, s/p). Num país fortemente marcado pela emigração como é Portugal (que ainda permanece como um dos mais seguros do mundo), não deixa de ser curioso verificar até que ponto o discurso propagandístico de Ventura tem vindo a colher votos, a ponto de as sondagens já colocarem o CHEGA como a terceira força partidária nacional. Algo que a crise económico-financeira e social dinamitada pela pandemia tenderá ainda a fazer aumentar nos próximos anos, um pouco à semelhança do que ocorreu no século passado com a Grande Depressão. Isto para já não falar nos inúmeros exemplos de ineficácia da justiça perante a corrupção...

Numa época em que a União Europeia corre o risco de desmoronar-se, em que os Estados Unidos deixaram de ser reconhecidos como o farol do mundo e que espreita a provável segunda vaga da COVID-19, tudo pode acontecer (aliás, o líder do PSD, Rui Rio, até já admitiu a possibilidade de futuras “conversações com o Chega”, apesar de reconhecer tratar-se de “um partido marcadamente de direita, em muitos casos de extrema-direita”: Público, 30/7/2020). As palavras do historiador Yuval Noah Harari parecem-me cada vez mais significativas: a estupidez humana não pode ser subestimada…

            Como escreveu Umberto Eco, seria “tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: «Quero reabrir Auschwitz, quero que as camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!» Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-Fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes. O nosso dever é desmascará-lo e apontar a dedo cada uma das suas novas formas — diariamente, em todo o mundo” (Umberto Eco, 2017, p. 29).

Os muros da extrema-direita entre nós e os outros, por muito tentadores que se apresentem nas redes sociais, serão novamente pagos com o sangue de milhões de seres humanos…

 

Referências bibliográficas: Milton Blay ― A Europa Hipnotizada. A escalada da extrema-direita, São Paulo, editora Contexto, 2019; Riccardo Marchi A Nova Direita Anti-Sistema. O caso do CHEGA, 1.ª edição, Lisboa, Edições 70, 2020; Umberto Eco — Como reconhecer o Fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, Lisboa, Relógio D’Água, 2017.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)


segunda-feira, 11 de maio de 2020

Alves Redol: ensinar o Povo ao Povo



Em Maio de 1944, Alves Redol foi preso pela polícia política do Estado Novo e encaminhado para a prisão de Caxias. Em 1963, voltou a ser detido pela PIDE e levado para o Aljube, em Lisboa. Do seu currículo fazem também parte várias obras apreendidas e a obrigatoriedade de, pelo menos a partir de 1943/1944, enviar todos os seus livros à censura prévia. Destacado membro do PCP, integrou o Movimento de Unidade Democrática, logo em 1945, e foi um dos grandes escritores do século XX, cujas obras conheceram tiragens invulgares para a sua época, caso d’A Barca dos Sete Lemes, em 1958, com 5000 exemplares ou O Cavalo Espantado, em 1960, com 6000 exemplares. Eis, por conseguinte, alguns ingredientes que me levaram a aceitar o repto de um leitor para redigir este breve artigo.
Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira, em 29 de Dezembro de 1911, e faleceu, com 57 anos, em 29 de Novembro de 1969, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na sequência de um cancro recentemente diagnosticado. O contacto, durante a infância, com familiares ferreiros e camponeses, bem como a sua passagem por Angola (1928-1931), onde contraiu malária, irão marcá-lo profundamente. Além de uma intensa actividade literária, ao longo da sua vida desempenhou várias funções ligadas ao comércio, à publicidade e à intervenção cívica e cultural, organizando, por exemplo, bibliotecas populares ou passeios culturais e proferindo palestras.
Apontado como o autor da obra que marcou o início do neo-realismo em Portugal (Gaibéus: 1939), Alves Redol embrenhava-se na realidade, estudando-a minuciosamente antes de procurar escrever o que quer que fosse. Daí que as suas palavras sejam atravessadas pela dureza que marcava a vida dos trabalhadores durante o Estado Novo, mas também pela condenação das injustiças sociais e políticas que tanto atormentavam o escritor.
Em 15 de Fevereiro de 1940, um relatório da censura pronunciava-se do seguinte modo em relação a Gaibéus: “Este romance que revela um autor de forte poder de análise, descreve a vida do trabalhador humilde do norte que vem trabalhar para as ceifas do arroz no Ribatejo. A sua vida de sacrifício, os aspectos dolorosos do seu desconforto, o cansaço e o desalento do trabalho ao sol forte da canícula, são bem retratados nesta obra que se impõe pelo seu recorte literário. […] Há, porém, páginas neste livro que chocam pelo realismo, que nalgumas se transforma em pornografia e prejudicam o seu incontestável valor” (https://ephemerajpp.com). Pese embora o deslumbramento do censor pelas páginas analisadas, a obra foi proibida em 26 de Abril de 1940 (nesta época, Redol ainda não enviava os livros à censura prévia) e a 2.ª edição apenas foi autorizada em 1 de Junho de 1949.
Permita-se-nos também destacar aqui aquela que, de acordo com o consagrado historiador da Literatura Óscar Lopes, pode ser considerada a obra-prima de Redol: Barranco de Cegos (1961). Dado à estampa nesse ano horribilis de Salazar (marcado, por exemplo, pelo início da guerra colonial, pelo assalto ao Paquete Santa Maria, pela Abrilada ou pelo Golpe de Beja), o enredo da obra de Redol desenrola-se em torno do latifundiário Diogo Relvas, que, entre o final do século XIX e a primeira metade da centúria seguinte, assiste ao crepúsculo do velho mundo em que tinha sido educado: a crise da Monarquia Constitucional, a propagação do republicanismo, a lenta industrialização do país, a ditadura de João Franco, o regicídio e, entre outros, a árdua luta pelos emergentes direitos sociais da classe trabalhadora.
Perante o iminente desmoronar desse velho mundo, o leitor acompanha a luta do poderoso terratenente Diogo Relvas, em pleno Ribatejo, para conservar o seu prestígio e poder, perpetuando-os nas próximas gerações. E para evitar a anarquia que as indústrias, o progresso, a instrução, a imprensa e os sindicatos agrícolas iriam supostamente trazer, o latifundiário não hesita em defender soluções mais musculadas (leia-se, absolutistas e ditatoriais), como sejam o facto de ter ordenado a morte de um dos seus criados porque este envolvera-se sexualmente com a sua filha Maria do Pilar. Eis as ordens que dá a esse respeito ao mercenário de serviço: “— Fá-lo sentir bem a morte. Não tenhas pressa. E corta-lhe as partes à navalha. Corta-lhas e mete-as no estrume. […] Ou mete-lhas na boca… Sim, na boca, se lha conseguires abrir”.
Além de ser um homem poderoso, trata-se, contudo, de um lavrador que é também conhecido entre os populares pela sua bondade e sensibilidade, características bem evidentes quando — comovido com os pedidos da mulher do lavrador Tóino Valador — recua na decisão de expulsar esta numerosa e pobre família da sua casa em Aldebarã e se predispõe mesmo ajudá-los.
Assim, à semelhança da sua conturbada época, Diogo Relvas, “o Rei dos Lavradores” (único título pelo qual gostava de ser conhecido), é também uma personagem sólida e profundamente complexa, a fazer lembrar o inesquecível príncipe de Salina, Dom Fabrízio, do romance de Tomasi di Lampedusa: O Leopardo (1958). Afinal, ambos compreendem que vivem numa época de charneira, com o iminente desmoronar de um mundo velho. Todavia, apenas o aristocrata italiano Dom Fabrízio tem a capacidade de adaptar-se aos novos tempos.
Quanto ao conservador português Diogo Relvas, depois de mandar assassinar o criado que se envolvera com a filha, condena-a à reclusão, em Cuba (Alentejo), e posteriormente recusa mesmo participar no seu funeral. Mas será um humilde caiador, de nome Norberto, a conseguir fazer cair o latifundiário do seu pedestal, quando se recusa cumprir a ordem que o poderoso terratenente repetidamente lhe dava: entrar na taberna e pedir que lhe trouxessem os jornais. Eis a desafiadora resposta do trabalhador ao poderoso: “— Ouvi, sim, ouvi. Mas estou cá a pensar… Sim, estou a pensar porque diabo não hás-de tu apear-te da pileca e ires tratar duma coisa que é a tua…”
Assim se desmoronava o mundo de Diogo Relvas, humilhado em público por um humilde caiador que ousou pensar pela própria cabeça. Nesta sequência, o latifundiário acabou por isolar-se na “Torre dos quatro ventos”, refúgio familiar onde ia, sobretudo nos momentos mais difíceis, consultar os seus antepassados já falecidos. Lá acabará por morrer, enquanto o sobrinho Rui Diogo encontra uma hábil estratégia para perpetuar durante vários anos a vida do falecido e, consequentemente, o seu próprio poder. E talvez seja esta permanente luta pelo poder que possa ser considerada o motor da História, como escreveu Marx, mas também desta notável obra literária publicada em pleno Estado Novo salazarista.
Hoje, numa época de forçada reclusão e de ensino a distância, seria fundamental que os portugueses regressassem aos grandes clássicos da literatura, entre os quais figura por direito próprio este romance de Alves Redol. De resto, tenho para mim que o país ganharia muito mais se os professores portugueses tivessem a possibilidade de aproveitar o que resta do presente ano lectivo para incentivar os seus alunos (logo a partir do 2.º ciclo) a lerem esta e outras obras, em detrimento de insistirem na tremenda parafernália de fichas de trabalho e mais instrumentos de avaliação prenhes de intricadas funções gramaticais e outras quejandas parvoíces que apenas têm o condão de matar ainda mais o gosto pela escola e pelo conhecimento, além, evidentemente, de contribuírem para agravar as assimetrias sociais e culturais entre os que nasceram num “berço de ouro” e os que tiveram a infelicidade de pertencer ao grupo dos que continuam a não ter voz para fazer escutar os seus problemas.
Alves Redol e os escritores neo-realistas fazem-nos falta. As suas palavras sabem a realidade, ajudam-nos a tomar consciência do que sucede diariamente à nossa volta e, além disso, alimentam a alma com um dos mais preciosos bens da vida, a beleza. Também por isso, deixo um convite ao leitor. Assista em família à representação da peça “Uma sementinha cheia de histórias” (encenação de José Teles a partir da obra infantil A Vida Mágica da Sementinha, dada à estampa por Redol em 1956). O Museu do neo-realismo, em Vila Franca de Xira, disponibiliza-a on-line (http://www.museudoneorealismo.pt/pages/1367?event_id=11297). E, claro, quando as circunstâncias o permitirem, caso tenha oportunidade, não deixe de visitar este fantástico Museu na cidade natal de Alves Redol, onde poderá recordar, entre outras, essa batalha pelo “conteúdo” que os neo-realistas portugueses empreenderam a partir da década de 30 do século passado. Uma batalha que ainda continua actual, para evitar a epígrafe de São Mateus que Redol simbolicamente colocou no pórtico do seu romance Barranco de Cegos: “Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco”. Afinal, como escreveu o padre António Vieira: “Não pode haver maior cegueira, nem mais cega, que ser um homem cego e cuidar que o não é”.
Os livros de Redol, Soeiro Pereira Gomes, Aquilino, Torga, Namora e muitos outros poderão abrir os olhos a muita gente. Resta é perceber se isso continua a interessar a quem nos governa ou pretende vir a governar…  
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com) 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Soeiro Pereira Gomes: um escritor esquecido?


Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô (concelho de Baião, Porto), no dia 14 de Abril de 1909, e faleceu no dia 5 de Dezembro de 1949, com apenas 40 anos. Se fosse vivo, completaria 111 anos. O seu exemplo de luta cívica e a sua obra bem mereciam outro destaque, daí este breve artigo.
Quando morreu, Soeiro vivia na clandestinidade há cerca de 5 anos, pois, enquanto membro do Partido Comunista, fora um dos dirigentes locais, em Alhandra (Vila Franca de Xira), da greve de 8 de Maio de 1944. Sublinhe-se que Soeiro era, desde 1932, empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo, em Alhandra.
Ao longo da sua curta vida, colaborou com o jornal O Diabo, publicou, entre outros, Esteiros (1941) e, já a título póstumo, Refúgio Perdido (1950) e o romance inacabado Engrenagem (1951). Além disso, profundamente comprometido com a transformação da realidade social, desempenhou também um papel importante ao nível da comunidade local, ajudando a construir uma piscina para que as crianças e os jovens aprendessem a nadar sem enfrentarem os perigos dos esteiros do Tejo, desenvolvendo actividades de cariz cultural ou dando lições de ginástica aos filhos dos operários.
Quem hoje fala em Soeiro Pereira Gomes recorda-se, sobretudo, da obra Esteiros, dada à estampa durante a II Guerra Mundial, quando o autor tinha 32 anos. O livro — um dos marcos do Neo-Realismo português — contou com uma capa e ilustrações de Álvaro Cunhal e foi dedicado aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”.
O enredo do romance gira em torno de 5 crianças (Maquineta, Gaitinhas, Guedelhas, Gineto e Sagui), que são obrigadas pelas duras circunstâncias da vida a tornarem-se adultos antes do tempo, ingressando no árduo mundo do trabalho e da exploração capitalista, para conseguirem, graças ao parco rendimento auferido, ajudar as famílias a pagar a sobrevivência. Por exemplo, no forno, onde se fazia o tijolo, “Gaitinhas deu o ombro à carga, mas deixou-a cair, derreado, pela violência do calor que lhe trespassou a camisa e queimou os ombros e orelhas. Um empurrão do mestre fez-lhe brotar lágrimas de raiva”.
Este é também, como escreveu Isabel Pires de Lima, em jeito de introdução à 5.ª edição do livro (1979), um “grito de denúncia”, que alerta para as profundas clivagens entre os explorados e os exploradores, a miséria social, a fome. Eis-nos perante um conjunto de crianças que, impedidas de frequentar a escola, acabam por ter de mendigar e roubar, por vezes até mesmo outros miseráveis como elas.
Muitas pessoas, sobretudo aquelas que nasceram no Estado Novo salazarista, recordar-se-ão das circunstâncias descritas por Soeiro Pereira Gomes no romance Esteiros. Lembrar-se-ão dos seus próprios percursos ao relerem os relatos pungentes daquelas crianças e das suas famílias exploradas pelos patrões capitalistas; reconhecer-
-se-ão no sofrimento que ainda os atravessa por terem sido incapazes de ultrapassar a dureza das suas circunstâncias. O espelho intemporal criado pelo talento literário de Soeiro ajudará muitos a compreenderem ainda melhor aquilo que a vida lhes roubou — quantos não desejariam ter estudado, concluído um curso superior e não o fizeram porque foram forçados a abandonar a escola para ir trabalhar? Deixo somente um exemplo, entre muitos outros igualmente significativos. Gaitinhas (cujo verdadeiro nome era João) vivia com a mãe, Madalena, que estava muito doente com tuberculose (acabaria, de resto, por falecer). Madalena, devido às dificuldades financeiras, teve de convencer Gaitinhas a sair da escola e, por isso, foi pedir ajuda ao sr. Castro para empregar o filho na Fábrica Grande. Durante a conversa, porém, Madalena deixou escapar a mágoa de ver o seu menino abandonar os estudos (o Mestre-Escola previra que ele tinha muitas capacidades e podia ir longe. Já o pai de Gaitinhas, que andava algures pelo mundo, queria mesmo que ele fosse um médico que ajudasse os mais pobres…). Eis a resposta do ricaço à malograda mãe: “Que mal tem isso? […] Evidentemente que vossemecê não queria fazer dele um doutor”. Afinal, isso estava reservado para o seu filho Arturinho e para os restantes filhos dos capitalistas, pois os pobres estavam — na lógica da sua época — condenados a perpetuar a herança da miséria e do analfabetismo.
A luta destas crianças e das suas famílias pela sobrevivência representa o trágico percurso de tantas gerações portuguesas, às quais a realidade roubou os sonhos: como no caso de Maquineta, que tanto desejara ir trabalhar para as máquinas na Fábrica Grande e acabou por ter de carregar carvão no cais. Ou das trágicas consequências das cheias no rio Tejo, durante o Inverno: “O caudal barrento do rio arrastava fardos de palha, animais e lágrimas. E o homem daqueles sítios, alheio às conversas, nada mais via do que luto à sua frente”.
Mas as páginas de Esteiros também reflectem a gradual tomada de consciência cívica e política das suas personagens: “Madalena cerrou os lábios. Bem sabia ela que o destino era a vontade dos homens”. Ou ainda: “Maquineta bateu com força na nuca, e asseverou, como se discutisse com o próprio mestre: — Aqui é que ninguém põe a canga, nem que me matem”.
Claro que este perigo não poderia passar despercebido à censura do Estado Novo, que, em 1966, ou seja, 25 anos após a edição do livro, afirmava num dos seus relatórios:
“É um romance regionalista de análise crítica da vida miserável das populações ribeirinhas do rio Tejo, nas zonas das Lezírias, fazendo realçar a injustiça, a exploração da miséria, resultado das desigualdades sociais, no que o livro não é justo, mas antes especula.
[…] Julgo por isso que este livro deveria ter sido proibido quando apareceu, mas agora dever ser ignorado”.
O leitor Francisco C. Salgado (censor especializado na análise das obras literárias) pesava, portanto, os efeitos contraproducentes de uma eventual proibição da obra (fruto proibido é o mais apetecido), mas encerrava, considerando que deveriam ser impedidas as referências ao livro nos meios de comunicação social, condenando-o assim, na prática, à não-existência.
O final dos Esteiros representa uma inequívoca mensagem de esperança, ou não tivesse este livro sido publicado em 1941, quando decorria a II Guerra Mundial e nascia, gradualmente, entre as oposições portuguesas, a esperança de que a vitória dos Aliados traria consigo o fim do regime salazarista. Este esforço de procurar colocar o texto no seu contexto, segundo penso, revela-se fundamental para compreender esta obra e em particular o seu desenlace.
Eis o final do romance, com sabor a futuro de mudança: Gineto, preso na cela (depois de ter sido apanhado a roubar carvão), pensou ouvir Gaitinhas, que todavia já partira com Sagui para percorrer o mundo, em busca do pai. O pano encerra com o sonho de Gineto: quando os amigos regressarem, virão libertá-lo e “mandar para a escola aquela malta dos telhais — moços que parecem homens e nunca foram meninos”. A escola — sublinhe-se — surge aqui como um instrumento de libertação individual e social. E o sonho fica em aberto. Até hoje...
Soeiro Pereira Gomes passou à clandestinidade em 1944. Nessa sequência, a sua esposa, Manuela Câncio Reis, foi presa pela PIDE, mas nem isso levou o escritor a entregar-se. Em 1947, na sequência de uma queda de bicicleta (pensaria que estava a ser perseguido pela PIDE), foi-lhe diagnosticado um cancro nos pulmões, que acabaria mesmo por matá-lo dois anos depois. Hoje, as suas obras não fazem parte do Plano Nacional de Leitura e dificilmente se consegue adquiri-las numa livraria. A RTP, porém, dedicou-lhe, numa das suas emissões pedagógicas, um breve programa particularmente interessante, que recomendo vivamente a todos os leitores (https://ensina.rtp.pt/artigo/esteiros-de-soeiro-pereira-gomes/).
Numa época em que todos vivemos um drama mundial, com impactos imprevisíveis, é altura de aproveitar o nosso isolamento para regressar aos grandes clássicos da literatura. Soeiro Pereira Gomes figura, por direito próprio, no patamar dos grandes escritores e merece, por conseguinte, que as escolas o estudem e os portugueses o leiam.
Esteiros, esses braços (canais) do rio Tejo, “como dedos de mão espalmada”, ajudam-nos também a não esquecer que o destino dos Homens é construído diariamente por cada um de nós. E que é, sobretudo, pelos mais desfavorecidos que vale a pena lutar. Uma mensagem cada vez mais útil e que importa repetir à exaustão. Também por isso, a reedição das obras de Soeiro Pereira Gomes é, segundo penso, uma necessidade premente...
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com) 

domingo, 5 de janeiro de 2020

Quando as luzes nos cegam


Há quem diga que um Homem começa a ser gerado pelo menos um século antes de nascer, pelo que quem o quiser compreender deverá estudar a época dos seus avós. Ora, há um século atrás, vivia-se no Ocidente a euforia dos “Loucos anos 20”, também conhecidos como “Roaring Twenties”. O pós I Guerra Mundial, conflito no qual se inaugurou a indústria da morte, trouxe consigo um período marcado pela ânsia de recuperar o tempo perdido. A cultura de massas na qual hoje vivemos submersos nasceu nesse período, atravessado pelos incríveis desenvolvimentos técnicos do cinema, da rádio, da televisão, pelo incremento da arte, da música e do desporto, bem como por um conjunto de transformações sociais e políticas, entre as quais importa destacar os movimentos feministas e sufragistas.
No dealbar da década de 20, quem imaginaria, porém, que o crash da Bolsa de Wall Street, em Nova Iorque (1929), mergulharia quase todo o mundo numa profunda crise? A “Longa Depressão”, como escreveu Eric Hobsbawm, é de resto fundamental para compreender a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha em Janeiro de 2020, relembre-se, completam-se 87 anos após a nomeação do fűhrer como chanceler.
Apesar de a História não se repetir, é assustador constatar as dramáticas semelhanças do nosso tempo com as circunstâncias que existiam há 100 anos. Ontem como hoje, os extremismos proliferam a uma velocidade vertiginosa. Donald Trump, o “Brexit” e Jair Bolsonaro representam apenas alguns exemplos desta perigosa tendência moderna marcada pela vitória do espectáculo sobre o conteúdo, pelo triunfo da ignorância/loucura em detrimento do rigor, do trabalho sistemático e do conhecimento científico (sim, ao contrário do que as redes sociais parecem levar-nos a acreditar, os intelectuais fazem-nos muita falta).
Mais do que identificar detalhadamente essas similitudes entre o passado e o presente, penso, porém, que é importante reconhecer que nós somos filhos dos “Loucos anos 20”. A cultura do espectáculo permanente na qual vivemos embrenhados nasceu provavelmente ali e, portanto, quem quiser compreender o mundo actual terá de regressar às três décadas iniciais do século passado. Às décadas, sublinhe-se, onde nasceu o Fascismo e o Nazismo, cujas origens e exponencial crescimento também radicam na já mencionada civilização do espectáculo.
A atracção das massas pela evasão proporcionada pelos mass media, que despertou no mundo ocidental a partir dos anos 20, parece ter atingido na hodierna o seu clímax, com famílias inteiras viciadas nas redes sociais e os mais jovens, em especial, a mergulharem durante horas a fio em jogos virtuais, evidenciando depois uma terrível incapacidade para interagirem com os seus semelhantes. No meio disto tudo, a Inteligência Artificial desenvolve-
-se a um ritmo alucinante. O mundo transforma-se a uma velocidade tal que é impossível captar as suas complexas transformações e, tal como Yuval Noah Harari já teve oportunidade de concluir, o Homem começa a perder a ilusão da liberdade: “The sacred Word ‘freedom’ turns out to be, just like ‘soul’, a hollow term empty of any discernible meaning” (Homo Deus. A Brief History of Tomorrow, 2016, p. 329).
Nós podemos, efectivamente, não saber como serão as profissões daqui a 15 ou 20 anos, mas é fundamental que nos interroguemos a respeito do mundo que pretendemos ter daqui a duas ou três décadas, pois só isso nos poderá ajudar a definir melhor os conteúdos que os nossos alunos deverão estudar nas escolas. Sem uma resposta concreta a esta pergunta o futuro poderá revelar-se dramaticamente perigoso. E os holocaustos poderão estar novamente ao virar da esquina.
Na década de 1980, o historiador francês Marc Ferro deu à estampa a obra A manipulação da História no ensino e nos meios de comunicação, na qual, logo a abrir, declarou: “Não nos enganemos: a imagem que fazemos de outros povos, e de nós mesmos, está associada à História que nos ensinaram quando éramos crianças” (1983, prefácio, p. 11). Há cerca de duas décadas que, enquanto professor de Educação Especial, tenho o privilégio de ir circulando por muitas salas de aula, nas mais diversas disciplinas. E quanto mais o tempo passa, mais reforço a convicção segundo a qual a História pode desempenhar um papel crucial no futuro que pretendemos edificar. O estudo do passado ajuda-nos a criar pontes, entre nós e os outros. Ajuda-nos a reconhecer o profundo elo que nos aproxima dos primeiros seres humanos, há cerca de 3 milhões de anos, mas também de todos os seres com os quais partilhamos este planeta. A humildade de aprender a duvidar (de tudo o que sabemos ou pensamos saber) para depois perseguir outros trilhos é, porventura, uma das mais eficazes vias para construir um mundo mais democrático e inclusivo, uma lição que, afinal, também a História nos pode ajudar a reforçar. Fora disto, todas as palavras se tornam infrutíferas. E este é um dos meus maiores receios: nós, que tanto invocamos a inclusão e a democracia, estamos, muito provavelmente, a construir um país, uma Europa e um mundo, afinal, cada vez mais totalitário e que exclui, de modo irreversível, os mal-afortunados do berço e da genética.
Não é possível compreender o nosso tempo sem recuar aos “Loucos anos 20”: nós somos os filhos e os netos dessa era das massas. E, talvez como todos os descendentes, exponenciámos os defeitos e as virtudes desse passado. Resta-nos agora aprender a lidar de um modo mais equilibrado com esse património, numa era em que um novo e catastrófico conflito mundial parece iminente e as alterações climáticas se revelam cada vez mais mortíferas, como, de resto, os fogos infernais da Austrália têm vindo a demonstrar, nos últimos meses.
Aprender a ignorar os ruídos, viver apenas com aquilo que necessitamos, nomeadamente do ponto de vista tecnológico, é talvez um dos mais prementes desafios que temos hoje entre mãos. Por isso é que, segundo penso, a História, a Literatura e a Filosofia poderiam revelar-se cruciais para definir qual é, afinal, o futuro que pretendemos deixar aos vindouros. Mas isso exigiria outro tipo de sabedoria e consciência ética por parte de quem governa e por parte de quem é governado. Algo que depende ― cada vez mais ― de cada um de nós e da nossa capacidade para aprender a ignorar os vendedores da “banha da cobra” que por aí proliferam, travestidos dos nomes e títulos mais flamejantes e inclusivos que possamos imaginar…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)