sexta-feira, 20 de março de 2026

O dia do pai

 Ponderei em escrever este pequeno texto mas cá vai.

Ontem de manhã o Duarte abraçou-me e disse-me feliz dia do pai. Um abraço que me deu energia. Precisava mesmo dela e soube-me tão bem. Tenho um filho magnifico que me conhece melhor do que eu penso. Depois de um final de quarta feira (18 de Março) atribulado onde eu e a mãe tivemos até tarde a ajudar o Duarte a fazer os trabalhos da escola. O Duarte deitou-se tarde na noite que antecedeu o dia do pai. Um dia difícil para esta criança maravilhosa, pois tinha teste de matemática um dia repleto na escola.

O dia passou e ao fim do dia recebo com imensa energia positiva a minha prenda do dia do pai. Com tanta energia que até se perderam uns bigodes e gravatas alusivas ao jogo do galo que era uma das prendas do dia do pai. O que vinha no envelope além do jogo do galo era um postal. Um postal maravilhoso que quando aberto tinha um desenho com dois jogadores de ténis com uma t shirt do Clube de ténis de Oliveira do Hospital (CTOH). As duas pessoas eram Eu e o meu filho Duarte. a jogar ténis. Quando fui abrir o postal li as palavras que me caracterizam. O Duarte caracterizou-me como sendo otimista, forte, corajoso, carinhoso. Isso fez-me pensar. Aquelas palavras escritas pelo meu filho fizeram-me ver o que eu não vejo em mim.

Quanto ao teste de Matemática, quando eu o questionei sobre como tinha corrido o Duarte respondeu-me como sempre, Bem.

Filho desejo que continues sempre assim, Muito Feeliz.



domingo, 22 de fevereiro de 2026

Um vídeo que me comoveu

 Este pequeno vídeo mostra que quando nós queremos ajudar, podemos fazê-lo. A Maria é sem dúvida um grande exemplo de amor perante um colega da turma. É fantástico o que ela fez para integrar aquele menino, em cadeira de rodas, que não conseguia falar ou sequer mexer os braços e as pernas. A Maria fez com que aquele menino se tornasse acarinhado e aceite como amigo. A Maria através de pequenos gestos como ler-lhe uma história ou fazer teatros onde o menino de cadeira de rodas era personagem principal fez com que a deficiência deixasse de existir e passasse a ser mais uma criança a brincar no recreio. As ações realizadas pela Maria para brincar com o menino de cadeira de rodas, foram tão enternecedoras que em vários momentos o menino que não tinha expressão facial, conseguiu tê-la, esboçando um sorriso como reconhecimento pelo amor que ela estava demonstrar por ele. O amor transparecido por Maria, em cada brincadeira tinha um objetivo claro, conseguir que o menino da cadeira de rodas fizesse progressos e pudesse um dia falar, andar e poder interagir com ela. No final do vídeo quando Maria soube do falecimento do menino da cadeira de rodas ficou desfeita. Aquele pedaço de corda que ficou em cima da cadeira de rodas, que a Maria, vinte anos depois já professora fez questão de usar como pulseira simboliza o amor pela diferença e pelo outro 



sábado, 14 de fevereiro de 2026

Um beijinho à minha avó Prazeres que hoje nos deixou

 Hoje a minha avó partiu,

Um dia triste, um fim que aguardávamos, dado o agravamento do seu estado de saúde. Lembro-me quando ela estava internada no hospital da fundação, numa das muitas visitas que lhe fiz ela insistiu para que eu ficasse mais um pouco enquanto, ela olhava insistentemente para mim enquanto conversámos. A minha avó sabia sempre quando eu não estava bem. Tinha um sentido maternal que me enternecia. A vida é incerta, a da minha avó foi longa, vivida durante 91 anos. Foi autónoma até aos 80 e tal, não me recordo ao certo do dia da maldita queda que a pôs dependente do andarilho ou de uma bengala. Nunca mais os abandonou depois daquele dia fatídico em que caiu na cozinha e apenas se levantou com a ajuda dos bombeiros após o padeiro ter dado conta do sucedido. 

A minha avó era uma mulher de fibra começou a trabalhar muito cedo, ainda com idade para brincar. A infância foi preenchida a servir numa casa onde tinha de tomar conta  dos filhos do patrão, crianças da idade dela ou pouco mais novos.

A avó prazeres não sabia ler, segundo ela a culpada pelo seu analfabetismo foi a sua irmã mais velha. A minha tia Graça queimou os livros e os pais da minha avó, o Alfredo e Deolinda não deixaram ir a minha avó à escola. Ela sempre teve essa vontade. Chegou a dizer-me que o seu maior erro foi não ter aprendido a ler com a minha mãe, e sua filha quando esta deu aulas pela primeira vez, em meados da década de 70 do século passado. 

Recordo-me daqueles almoços quando andava na escola. Ia sempre almoçar a casa da minha avó. Ela gostava de fazer comer para tanta gente. Lembro-me do meu ano de estágio onde também não faltava ao almoço em casa da minha avó. Um estágio que fiz com o meu eterno amigo Fenias que também ia a casa da minha avó. A ternura que ela tinha por todos naqueles momentos em volta da mesa, também o teve com o Fenias que dizia com carinho é um"preto" bonito e simpático. Nos últimos anos em que permaneceu na sua casa continuava a dar almoço ao filho Vasco e ao neto Diogo. 

Após a fatídica queda nunca mais se reergueu, teve em casa da minha mãe. Nestes últimos anos de vida onde a sua saúde já impedia que nós pudéssemos dar-lhe a auxílio que ela necessitava foi para o lar de Aldeia das Dez. Neste momento sinto pena de não ir lá mais vezes, de não ter conseguido estimula-la mais. Recordo-me das conversas onde lhe lia o borda de água, falávamos de agricultura e do seu passado que ela insistia em manter sempre presente na sua memória. Quando olho para trás revejo os jogos que fiz com ela aproveitando os brinquedos do Duarte.

Até sempre avó. 

Beijinho grande do teu neto Tiago


   

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O centro é a região mais pobre do país (João Sardo)

 A Dr.ª Clara Ferreira Alves, a propósito da tragédia que assola os Distritos de Leiria e Coimbra, referiu que o Centro é a região mais pobre de Portugal. Para não deixar a coisa a meio, acrescentou “que toda a gente sabe que o Centro é historicamente a região mais pobre do país”. Lá estava aquele levantar de sobrancelha implícito de quem fala do país sem ter de o percorrer, como se o conhecimento fosse uma herança urbana que dispensa deslocações incómodas.

Não é ignorância crua, por ser evidentemente falso. É um saber de superfície, polido, seguro de si, que se permite generalizações porque nunca lhes sente o peso.
O problema não é o erro factual. O problema é a facilidade. A frase desliza porque vem montada num certo conforto “capital”: o de quem acha que conhece o país.
Lisboa conhece a região saloia porque lhe coze o pão. Conhece Sintra porque lhe refresca o espírito; conhece o Alentejo porque lá se come bem e o Algarve porque nele vai a banhos. O país como um conjunto de funções úteis; cada região no seu lugar simbólico. O Centro reduzido a esse lugar estranho entre o que interessa e o que não merece nome próprio.
O resto é “província”, essa entidade abstracta, indistinta, que começa algures depois de Loures e termina antes da Galiza. Hão-de reparar que a palavra (província) nunca é dita com maldade declarada mas sempre com uma ligeira condescendência embutida, como quem diz “não é bem isto que me interessa agora”.
A pobreza, assim enunciada, é uma simplificação com pedigree. Diz-se “o Centro é pobre” como se dissesse “o Inverno é frio”, com a vantagem adicional de não ser preciso lá ir. É uma pobreza teórica, elegante, pronunciada com a distância certa para não cheirar a realidade. E talvez seja por isso que a afirmação soa tão blasé. Não blasé no sentido francês, cansado do mundo mas blasé no sentido português contemporâneo: ligeiramente entediado. Muito seguro de si; profundamente desinteressado em confirmar.
Há uns anos valentes, no Intercidades, sentou-se um casal atrás de mim. Comentavam que já não visitavam os primos do “Norte” há "imenssse" (imaginar sotsaque) tempo. Havia na frase uma nostalgia quase enternecedora. Pouco depois, levantaram-se e saíram em Pombal. Tinham entrado em Santa Apolónia.
A geografia portuguesa, para muita gente, funciona assim: emocional, vaga, reconfortante. O Norte começa onde acaba a paciência para distinguir.
O Centro, então, é um intervalo sem rosto, uma espécie de corredor entre destinos.
Mas o Centro não é pobre. É desigual, é contraditório, é produtivo, é discreto. Tem indústria sem pose, universidades sem ruído, gente que não se apresenta. Trabalha. O Centro não se anuncia. Não cabe bem na narrativa fácil do atraso nem na do exotismo.
É um território sem histeria, sem épica fácil, sem folclore exportável.
Quando alguém diz “toda a gente sabe”, convém perguntar: toda a gente quem? Os que lá vivem? Os que lá investem? Os que lá enterram os pais e educam os filhos?
No fundo, a verdadeira pobreza não está no território. Está neste hábito de falar em prime time sobre o país como quem comenta uma paisagem pela janela do comboio, sem nunca descer nas estações
por João Sardo

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A FANTÁSTICA AVENTURA DE UM AMIGO

       "AINDA HÁ QUEM GOSTE DE LIVROS"

          O Amigo que me inspirou a escrever esta crónica nasceu no seio de uma família de modestos recursos no interior de Portugal. O seu interesse pela leitura e pelo conhecimento fê-lo sonhar, desde muito jovem, com estudos universitários, ao arrepio da vontade do seu pai, carpinteiro de profissão, que queria vê-lo seguir a mesma arte. Venceu o seu desejo e perseguiu o amor que tinha pela História. Desde sempre, para além da sua profissão de professor, é leitor compulsivo e dedica-se à escrita, em prosa e sobretudo poesia.

Recentemente, quando regressava a casa, cheio de dores devido aos trabalhos agrícolas que vai exercendo na sua horta nos tempos livres, viu uma mulher a despejar livros no contentor do lixo da sua rua. Atónito, esperou que a anónima se afastasse e logo se aproximou do cemitério dos livros condenados. Espantado, constatou que se tratava de várias obras dos nossos melhores escritores, não hesitando em salvá-las do contentor dos indiferenciados. Não tardou que a mulher voltasse de novo com mais um saco de livros para lhe dar o mesmo destino. Ele interpelou-a com um diálogo que transcrevo tal e qual ele mo contou e que consta de uma crónica de um jornal digital para onde habitualmente escreve:

“─ Minha senhora, estes livros eram seus?

─ A minha mãe foi por estes dias a enterrar e não quero isto lá em casa.

─ A sua mãe era professora, não era?

─ Você parece que é bruxo! Mas, diga lá a verdade, você gosta mesmo disto?

─ Sim, gosto. Nem pode calcular a minha alegria. Esta foi talvez a minha melhor prenda deste Natal. Mas já reparou que também tem aqui papéis que fazem parte da sua história, da sua família?

─ Olhe…, se fossem umas notas das gordas, isso é que era!”

Depois desta primeira aproximação à mulher-verduga dos livros, inteirou-se de que ela ainda tinha mais livros para deitar ao lixo, ao que ele propôs, para a livrar de posteriores trabalhos, ir ele próprio buscá-los a casa dela. Não tardou a ir lá, visto ela habitar nas cercanias da sua casa. E de lá não trouxe apenas livros, mas também, por exemplo, diversos manuscritos. Aproveitou para saber que a mulher que conhecera, tal como a sua falecida mãe, também desempenhava funções na área da cultura, o que lhe aumentou os arrepios na alma. E também ficou a saber que o pai daquela senhora, já falecido há muito, também tinha sido poeta, o que lhe aguçou ainda mais a curiosidade. No regresso a casa, ele, por um lado, ia feliz, pois salvara muitos livros da destruição, mas, por outro, ia triste porque encontrara uma filha que não quisera preservar a memória dos seus pais...

Alguns dias passaram, até que este meu Amigo me enviasse uma fotografia estranha. Tratava-se de uma foto de uma campa do cemitério local, acompanhada da seguinte pergunta:

- O que vê nesta foto?”

Respondi-lhe que via um monumento funerário com uma grande cruz de pedra, um livro aberto em mármore sobre a campa e um gato preto, aninhado sobre a estela funerária, de onde a cruz se ergue e onde está também uma fotografia do falecido, em ferro esmaltado. De facto, a campa funerária, não sendo, como muitos, um monumento imponente, como alguns jazigos que parecem catedrais, era modesta, mas possuidora de muita dignidade. Acrescentei que suspeitava ser nessa campa que repousava o nosso desconhecido poeta, antigo dono de grande parte dos livros recuperados (a outra parte pertencera à esposa dele). Acertara em cheio!

Um par de dias passaram, até que, numa conversa telefónica, o meu Amigo me confessou que estava deliciado a ler o livro de poemas do nosso poeta, cujo nome prefiro conservar no anonimato. E desabafou que estava especialmente sensibilizado com um soneto escrito pelo autor em memória do seu gato, no dia em que o bichano falecera. Chamava-se Miki e era preto.

Fiquei momentaneamente sem palavras. Depois de terminar a conversa com o meu Amigo, fiquei a pensar na extraordinária coincidência do soneto sobre o gato preto, Miky e do aparecimento do gato preto na foto do cemitério, que me havia sido enviada dias antes. Creiam, caros leitores, que eu nunca fui crente na imortalidade, apesar de que muitos tolos sempre a perseguiram. E no que respeita à crença na eternidade, como muitos de nós, também sempre tive muitas dúvidas. Porém, o avanço da idade transforma a nossa espiritualidade e molda, progressivamente, o nosso pensamento e o desejo de que haja vida para além da morte. E acontecimentos como este que vos relato são um contributo para nos aproximarmos dessa crença. Neste sentido, coloco a seguinte questão: os passos dados pelo meu Amigo, a salvação dos livros, o conhecimento do nome dos seus falecidos proprietários, a curiosidade de conhecer o que eles foram, ao ponto de ir mesmo visitar o lugar onde repousam os seus restos mortais, faziam apenas parte do processo científico de investigação por parte de um historiador? E foi o aparecimento de um gato preto que aparece na fotografia tirada pelo meu Amigo, dias antes de ele encontrar no livro de poesias deixado pelo poeta, que continha o soneto em homenagem ao seu gato preto, uma notável coincidência? Cabe a todos interpretar estes episódios e guardar para si as suas interpretações.

Eu, que vivi de perto estes acontecimentos que até me fizeram sonhar, quero acreditar que estas circunstâncias não foram obra do acaso ou de uma coincidência inexplicável. Eis a minha hipótese: o poeta e a sua mulher, ao saberem que o seu espólio literário, ameaçado de destruição, ia ser salvo por um jovem, trataram de segui-lo e influenciar os seus passos. A visita que o meu Amigo fez ao cemitério para homenagear o poeta foi por este instigada, que fez questão de o receber dignamente para “pessoalmente” lhe agradecer. E até fez questão de chamar o seu gato preto, colocando-o em lugar bem visível sobre a estela da sua campa funerária. Só mais tarde, ao ler o soneto do poeta falecido, o meu Amigo se lembrou do tal gatinho preto!

Caros leitores, misteriosamente fechou-se este episódio, mas não definitivamente. Creio que à medida que o meu Amigo vá avançando na leitura dos livros que salvou da imundície, todos os seus autores, como forma de gratidão, o irão empurrar para outras aventuras, algumas carregadas de misticismo e outras nem tanto, mas todas enriquecedoras!

Agora, digam lá, a vida é (ou não) um profundo mistério?!

 Antenor Santos 

                                                             Vila Verde, 19-01-2026