O Duarte enternece o meu coração sempre que fala do pai. Hoje fez um texto sobre mim que eu adorei.
quinta-feira, 27 de agosto de 2026
terça-feira, 28 de julho de 2026
O Duarte na casa da obra e na Figueira da Foz
O Duarte este ano foi para a casa da obra na primeira quinzena de julho. Duas semanas em que esteve entretido na realização das tarefas.
No primeiro dia em que foi para a Figueira para passar férias com os avós o Duarte exclamou depois dos primeiro mergulhos no mar:
-Já tinha saudades da água salgada
-Isto é melhor do que a casa da obra
Este ano pela primeira vez o Duarte já consegue desenrascar-se no mar, já flutua em áreas onde não tem pé, tendo ele afirmado:
-Já consigo fazer tudo do mar
quarta-feira, 22 de julho de 2026
O desenvolvimento do país e a educação
Modernizar,
desenvolver ou civilizar Portugal é indissociável da escola pública. Enquanto
adultos, a tendência quase instintiva é afirmar que na nossa remota época de
estudantes tudo era mais difícil, porque hoje tudo é facilitado, na escola e na
vida. Por norma, já os nossos pais assim pensaram, tal como os nossos avós, os
nossos bisavós… Na República, Platão (séculos V a IV a.C.) colocou
Sócrates a afirmar perante Gláucon: “acaso não levam os jovens uma vida de abandono
aos prazeres e à inactividade quer física quer intelectual, e não são demasiado
moles para resistir ao prazer e à dor, e ainda por cima preguiçosos?”
Porém, quem lida diariamente com
crianças e jovens percebe facilmente ― caso esteja disposto a ouvi-los ― que um
número muito significativo não gosta de frequentar a escola, não reconhece
utilidade naquilo que é obrigado a estudar e que, com alguma frequência, se
sente frustrado ou deprimido. Não raramente, os actos de violência e vandalismo
contaminam o ambiente escolar. Daí é só um passo para perceber que a saúde
mental dos mais pequenos, tal como a dos adultos, não conhece dias animadores
(as taxas de suicídio, em particular na Região Autónoma dos Açores, aí estão
para o demonstrar).
Comparar
os manuais escolares de Português ou de Matemática dos anos 90, do 1.º ciclo,
com os manuais destas disciplinas na actualidade é um exercício que considero
particularmente importante para compreender alguns dos fracassos do sistema
educativo nacional, que decretou a escolaridade obrigatória até aos 18 anos,
sem, todavia, criar verdadeiras vias alternativas para aqueles que não se
encaixam no ensino mais teórico. Eis uma das conclusões imediatas: tivemos a
pretensão de colocar a universidade no 1.º ciclo, às vezes até na educação pré-escolar
(apenas alguns exemplos: o estudo das isometrias no 1.º ciclo, conteúdos
gramaticais muitas vezes ininteligíveis e obscuros e a leitura de textos,
frequentemente, herméticos, de qualidade literária duvidosa e com reduzido
significado pedagógico). Talvez seja por isso que já existam festas dos
finalistas com cartolas, bengalas e tudo mais no final do 4.º ano de
escolaridade.
É curioso que todas estas
transformações tenham ocorrido numa época em que as ciências da educação
estejam tanto na moda. Porém, a impressão com a qual se fica é que, na verdade,
já poucos lêem Piaget.
Com programas escolares desfasados
em relação à faixa etária e à maturidade cognitiva e emocional dos alunos, com
professores transformados em tecnocratas resignados, cujo principal objectivo é
garantir o sucesso estatístico a todo o custo, vai desaparecendo desde cedo o
gosto pelo conhecimento, bem como a curiosidade e o prazer pela leitura, pela
escrita e pelo pensamento. Na via rápida das lições escolares, não há tempo
para parar ― no 7.º ano, por exemplo, existem 14 disciplinas!
Os interesses financeiros das
empresas tecnológicas minaram o sistema educativo, levando os responsáveis
políticos a acreditar que as máquinas nos poderiam salvar. A chegada massiva
dos quadros interactivos e dos computadores às escolas fez praticamente
desaparecer os manuais em suporte físico. Em várias escolas, as bibliotecas
permanecem, por vezes, fechadas ou são subaproveitadas.
Ora, pelo menos até ao 12.º ano, os
alunos necessitam de ter um livro em suporte físico estruturado, que possam
sublinhar, tocar, sentir, cheirar; que possam abrir de imediato, quando o docente
assim o exige, sem que estejam dependentes da existência de rede ou de outros
bloqueios tecnológicos.
A Inteligência Artificial foi (está
a ser) a machadada final neste processo de degradação das aprendizagens, no
meio do qual os alunos, os professores e demais agentes educativos são quase
sempre simples peões; aqueles que mais sentem na pele os resultados de opções
políticas e economicistas erradas e anti-
-pedagógicas (o actual caos em torno dos exames aí está para o demonstrar ― um
assunto que, de resto, bem merece uma reflexão mais elaborada).
Na minha bancada de trabalho, tenho
à frente aquela que considero uma obra-prima incontornável para aqueles que se
interessam pelo processo de civilizar (ou modernizar) Portugal: Antero de
Quental, Causas da decadência dos povos peninsulares nos três últimos
séculos.
Em 1871, o “líder espiritual da
geração de 70” (como lhe chamou Eça de Queirós), no decurso da sua célebre
conferência, procurou identificar as causas estruturais do nosso atavismo. Como
era inevitável, tocou por exemplo na questão da educação, em particular no que
dizia respeito aos métodos dos Jesuítas, que considerava profundamente errados.
Hoje, volvidos 155 anos (1871-2026),
pese embora as grandes conquistas verificadas, nomeadamente após a Revolução de
Abril de 1974, temos ainda um longo caminho a percorrer. Ao contrário daquilo
que possamos pensar, ser jovem não é assim tão fácil, até porque os perigos que
hoje existem não se comparam com aqueles que marcaram a minha infância e
adolescência, nas décadas de 80 e 90. Na actualidade, a omnipresença das drogas
(v.g., sintéticas e novas tecnologias) cria problemas difíceis de
resolver ou antecipar, mesmo para famílias altamente estruturadas e formadas,
quanto mais para as restantes. De resto, os conhecimentos desenvolvidos nas
escolas são hoje tão complexos, logo a partir de tenra idade, que muitas
famílias não se sentem preparadas para ajudar os filhos a estudar. Daí que enveredem,
quase sempre que o podem fazer, pelos centros de explicações.
Frequentemente, o absentismo escolar
é um dos problemas centrais para o insucesso escolar. Talvez a criação de uma
plataforma que potenciasse a comunicação entre as escolas, os tribunais, a Comissão
de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), os hospitais, os centros de saúde,
entre outros organismos, pudesse constituir um facilitador para resolver este
problema. Além disso, os currículos escolares deveriam ser revistos, numa perspectiva
holística.
Numa época em que proliferam as
redes de comunicação, persiste, de um modo quase paradoxal, uma evidente
dificuldade em conseguir que as actualizações científicas cheguem aos
currículos escolares. E isso decorre em grande parte do modo como, erradamente,
se processa a formação contínua dos docentes. Além disso, o paradigma educativo
continua fortemente burocrático: em detrimento de privilegiar uma intervenção
imediata, logo após serem detectadas as primeiras dificuldades de aprendizagem
(exemplo: o direito de poder ficar retido no 1.º ano de escolaridade deveria
estar consagrado na Constituição).
Ao contrário do que é comum
dizer-se, não temos excesso de licenciados em Portugal. Quem me dera que todas
as pessoas tivessem a oportunidade de frequentar o ensino superior, pois só a
elevada formação científica dos vários elos da cadeia do trabalho nos pode
ajudar a combater a falta de produtividade. A educação e a formação de adultos,
sejam eles operários ou gestores, deveriam merecer outro género de atenção por
parte de quem nos governa.
Modernizar ou civilizar o país exige
alterar as mentalidades, nomeadamente a velha máxima segundo a qual se estuda
para se obter “um lugar ao sol”. Pelo contrário, estuda-se para estar mais
preparado para a vida em sociedade, cada vez mais exigente e competitiva. Por
isso, a educação deveria conciliar a teoria e a prática de um modo mais
regular.
Quando um aluno abandona a escola, sem
sucesso, existe uma maior probabilidade de ele acabar nas ruas e de engrossar
as fileiras dos extremismos que minam os alicerces do Estado democrático. Quando
estaremos verdadeiramente dispostos a combater este flagelo?
Renato
Nunes
terça-feira, 7 de julho de 2026
Educação Inclusiva: quais as alterações já anunciadas?
Até ao
próximo dia 17 de Julho de 2026, encontra-se em consulta pública o projecto de
diploma que se propõe alterar, em Portugal Continental, o regime jurídico da Educação
Inclusiva, publicado em 2018 e, entretanto, alvo de duas actualizações (https://www.consultalex.gov.pt/).
A leitura das 44 páginas que compõem
a proposta em causa deixou-me algumas dúvidas e perplexidades que a posterior
publicação do Manual de Apoio à Prática Inclusiva poderá (ou não) ajudar
a dissipar.
Mantendo a divisão das medidas
educativas em três níveis: medidas universais, selectivas e adicionais, o
legislador decidiu, porém, agora registar que a definição das medidas selectivas
e adicionais será feita: “pelos conselhos de ano, de docentes ou de turma”,
envolvendo as famílias e os técnicos que trabalham com os estudantes (ponto 4,
do artigo 6.º, p. 13). As medidas universais continuarão ─ e bem ─ sob a
autonomia científica e pedagógica de cada professor. As adaptações ao processo
de avaliação interna (leitura dos enunciados, tempo suplementar…) permanecerão
também sob a alçada das escolas.
A primeira estranheza: a aplicação
de adaptações curriculares significativas a um aluno, no âmbito das medidas
adicionais, não deveria radicar apenas na decisão dos conselhos de ano, de docentes
ou de turma, envolvendo as famílias e os técnicos. Uma vez que estas medidas
restritivas comprometem o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade
Obrigatória, o que se reflecte, por conseguinte, no processo de
certificação final, apenas deveriam ser operacionalizadas após uma análise exaustiva
e criteriosa de todo o percurso escolar do aluno e, por conseguinte, nesse complexo
processo de decisão pluridisciplinar deveriam, por exemplo, ser envolvidos os
elementos permanentes e variáveis da Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação
Inclusiva (EMAEI). Tomando em consideração o ponto 4 do artigo 6.º
anteriormente citado, tal não parece ser o caso, pese embora o facto de o
paradigma legislativo continuar a privilegiar a análise das “evidências”.
No espírito “reformador” do
legislador está subjacente a necessidade de responsabilizar (ainda mais) os
docentes, em particular no que concerne ao director de turma (nas suas várias
designações, em função do nível de ensino), colocando, de um modo geral, a EMAEI
enquanto estrutura de suporte e monitorização, ao nível dos procedimentos burocráticos.
Segunda estranheza: continua a
prever-se a sinalização de um aluno para o coordenador da EMAEI, quando a
criança/jovem apresenta dificuldades. Mas, então, as medidas selectivas e
adicionais não passavam a estar sob a alçada directa dos conselhos de docentes?
Por agora, no âmbito desta breve reflexão, perante todas as dúvidas existentes,
limito-me a exprimir a minha grande dificuldade em conseguir operacionalizar na
prática estas intenções do legislador, que me parecem ambíguas e até mesmo
contraditórias.
Para acompanhar o processo de
implementação da inclusão, serão criadas novas estruturas a nível nacional e
regional. O Sistema Nacional de Apoio à Inclusão, que aguarda, entretanto, a
publicação de um diploma específico, será constituído por: um coordenador
nacional, uma comissão de coordenação nacional, subcomissões de coordenação
regional, os núcleos de supervisão técnica e as equipas locais de apoio à
inclusão.
Neste ponto, a consciência exige-me
que seja mais assertivo. Afinal, numa época em que escasseiam os recursos
humanos nas escolas para trabalhar com os alunos, fico perplexo com a criação
de mais estruturas de acompanhamento. Por vezes, até parece que é necessário
encaixar algumas pessoas e estes lugares ao sol vêm mesmo a calhar.
Terceira estranheza: em relação à Educação
Pré-Escolar, em todo o documento constam apenas ideias suficientemente vagas
para não dizer nada de concreto. É lamentável que um dos pilares do sistema
educativo nacional continue a ser tratado como uma nota de rodapé.
Quarta estranheza: quando se afloram
os papéis do docente de Educação Especial (ponto 5, do artigo 10.º e ponto 4,
do artigo 11.º), em momento algum se identifica aquela que deveria ser a sua
função prioritária: desenvolver nos alunos as competências específicas, desde
logo aquelas que são consideradas lacunares, preferencialmente, em contexto
individualizado ou em pequeno grupo (e não, fundamentalmente, em contexto da
sala de aula). É preocupante que tal continue a ocorrer, mas também é
sintomático de um paradigma (dito inclusivo) que não privilegia a intervenção pedagógica
com base nas mais recentes actualizações científicas. Ao persistir
na ilusória tentação de colocar a Educação Especial ao serviço de todas as
crianças e jovens, de preferência de um modo indirecto (consultoria) e durante
um curto período de tempo, a legislação continuará a desprezar os alunos com
efectivas “Necessidades Educativas Específicas”.
Ao longo dos últimos dois anos, em
particular, existiu uma inequívoca pressão social, desde logo por parte de
vários grupos de encarregados de educação, para que o regime jurídico da Educação
Inclusiva fosse objecto de revisão. Após a leitura da proposta, que agora se
encontra em consulta pública, a sensação que me assalta é que o legislador,
seguindo a velha máxima de Lampedusa, procurou concretizar várias alterações
para que tudo ficasse exactamente na mesma (ou ainda pior…). Alguns exemplos evidentes:
os Centros de Recursos para a Inclusão passarão a designar-se Centros de Competências
para a Acessibilidade e a Inclusão; o Relatório Técnico-
-Pedagógico, o Programa Educativo Individual e o Plano Individual de Transição
passarão a estar fundidos no Plano de Desenvolvimento Integral (algo que não se
afigura exequível, porquanto se trata de documentos com características
bastante distintas). Além disso, o responsável, ao nível da escola, pelo
acompanhamento da implementação do processo de inclusão de cada aluno continuará
a ser, grosso modo, o massacrado director de turma (nas suas várias
designações, em função do nível de ensino), mas agora com o nome pomposo de “gestor
de apoio à inclusão”.
Haverá novos recursos (humanos e
materiais) para as escolas? E mais formação científica e pedagógica para os
professores, ao nível da inclusão? A proposta que agora se analisa é omissa em
relação a estas e outras matérias cruciais.
No preâmbulo da proposta agora
analisada, o legislador parte do pressuposto que as lacunas da inclusão não decorrem
da legislação (decreto-
-lei 54/2018 nas suas sucessivas actualizações), mas das “fragilidades ao nível
da sua operacionalização”. E dá até um exemplo: as escolas criaram, de um modo
errado, Centros de Apoio à Aprendizagem, enquanto espaços físicos, não
compreendendo o alcance do legislador… (subentenda-se: o Ministério apontou
para a lua e os pobres professores limitaram-se a contemplar-lhe o dedo).
O que seria interessante era
perscrutar os motivos que levaram as escolas a criar, de um modo generalizado,
essa estrutura “física” (na verdade, as antigas “Unidades”, através das quais
foi frequentemente possível dar resposta para muitos alunos que necessitavam de
outra via para além da permanência em tempo integral na sala de aula). Todavia,
isso não interessa àqueles que, a partir dos longínquos gabinetes ministeriais,
continuam a conduzir ― de um modo trágico ― os destinos educativos deste país. A intervenção em tempo
útil e cientificamente alicerçada é uma das chaves para a transformação do
sistema educativo e é aí que continuamos a falhar ― uma realidade que o
legislador parece ignorar.
Estamos no mês de Julho e em breve
chegará o mês das ansiadas férias. Com os docentes e o país globalmente
anestesiados, desde logo com o mundial de futebol, o inferno dos incêndios e, entretanto, com o caos lamentável dos exames
nacionais, quem se preocupará ainda verdadeiramente com estas questões?
Renato
Nunes
quarta-feira, 1 de julho de 2026
O Duarte e a cultura
Neste início do Verão temos o grande desafio de mudar de casa. As despesas aumentam e consequentemente as férias terão de ser mais comedidas. O Duarte perguntou à mãe:
Duarte Nestas férias não podemos gastar muito dinheiro
Mãe Nestas férias não podemos ir à Islândia como fomos no ano passado mas teremos férias
Duarte respondeu de forma expressiva Mãe eu quero cultura, conhecimento
sexta-feira, 20 de março de 2026
O dia do pai
Ponderei em escrever este pequeno texto mas cá vai.
Ontem de manhã o Duarte abraçou-me e disse-me feliz dia do pai. Um abraço que me deu energia. Precisava mesmo dela e soube-me tão bem. Tenho um filho magnifico que me conhece melhor do que eu penso. Depois de um final de quarta feira (18 de Março) atribulado onde eu e a mãe tivemos até tarde a ajudar o Duarte a fazer os trabalhos da escola. O Duarte deitou-se tarde na noite que antecedeu o dia do pai. Um dia difícil para esta criança maravilhosa, pois tinha teste de matemática um dia repleto na escola.
O dia passou e ao fim do dia recebo com imensa energia positiva a minha prenda do dia do pai. Com tanta energia que até se perderam uns bigodes e gravatas alusivas ao jogo do galo que era uma das prendas do dia do pai. O que vinha no envelope além do jogo do galo era um postal. Um postal maravilhoso que quando aberto tinha um desenho com dois jogadores de ténis com uma t shirt do Clube de ténis de Oliveira do Hospital (CTOH). As duas pessoas eram Eu e o meu filho Duarte. a jogar ténis. Quando fui abrir o postal li as palavras que me caracterizam. O Duarte caracterizou-me como sendo otimista, forte, corajoso, carinhoso. Isso fez-me pensar. Aquelas palavras escritas pelo meu filho fizeram-me ver o que eu não vejo em mim.
Quanto ao teste de Matemática, quando eu o questionei sobre como tinha corrido o Duarte respondeu-me como sempre, Bem.
Filho desejo que continues sempre assim, Muito Feeliz.
domingo, 22 de fevereiro de 2026
Um vídeo que me comoveu
Este pequeno vídeo mostra que quando nós queremos ajudar, podemos fazê-lo. A Maria é sem dúvida um grande exemplo de amor perante um colega da turma. É fantástico o que ela fez para integrar aquele menino, em cadeira de rodas, que não conseguia falar ou sequer mexer os braços e as pernas. A Maria fez com que aquele menino se tornasse acarinhado e aceite como amigo. A Maria através de pequenos gestos como ler-lhe uma história ou fazer teatros onde o menino de cadeira de rodas era personagem principal fez com que a deficiência deixasse de existir e passasse a ser mais uma criança a brincar no recreio. As ações realizadas pela Maria para brincar com o menino de cadeira de rodas, foram tão enternecedoras que em vários momentos o menino que não tinha expressão facial, conseguiu tê-la, esboçando um sorriso como reconhecimento pelo amor que ela estava demonstrar por ele. O amor transparecido por Maria, em cada brincadeira tinha um objetivo claro, conseguir que o menino da cadeira de rodas fizesse progressos e pudesse um dia falar, andar e poder interagir com ela. No final do vídeo quando Maria soube do falecimento do menino da cadeira de rodas ficou desfeita. Aquele pedaço de corda que ficou em cima da cadeira de rodas, que a Maria, vinte anos depois já professora fez questão de usar como pulseira simboliza o amor pela diferença e pelo outro
sábado, 14 de fevereiro de 2026
Um beijinho à minha avó Prazeres que hoje nos deixou
Hoje a minha avó partiu,
Um dia triste, um fim que aguardávamos, dado o agravamento do seu estado de saúde. Lembro-me quando ela estava internada no hospital da fundação, numa das muitas visitas que lhe fiz ela insistiu para que eu ficasse mais um pouco enquanto, ela olhava insistentemente para mim enquanto conversámos. A minha avó sabia sempre quando eu não estava bem. Tinha um sentido maternal que me enternecia. A vida é incerta, a da minha avó foi longa, vivida durante 91 anos. Foi autónoma até aos 80 e tal, não me recordo ao certo do dia da maldita queda que a pôs dependente do andarilho ou de uma bengala. Nunca mais os abandonou depois daquele dia fatídico em que caiu na cozinha e apenas se levantou com a ajuda dos bombeiros após o padeiro ter dado conta do sucedido.
A minha avó era uma mulher de fibra começou a trabalhar muito cedo, ainda com idade para brincar. A infância foi preenchida a servir numa casa onde tinha de tomar conta dos filhos do patrão, crianças da idade dela ou pouco mais novos.
A avó prazeres não sabia ler, segundo ela a culpada pelo seu analfabetismo foi a sua irmã mais velha. A minha tia Graça queimou os livros e os pais da minha avó, o Alfredo e Deolinda não deixaram ir a minha avó à escola. Ela sempre teve essa vontade. Chegou a dizer-me que o seu maior erro foi não ter aprendido a ler com a minha mãe, e sua filha quando esta deu aulas pela primeira vez, em meados da década de 70 do século passado.
Recordo-me daqueles almoços quando andava na escola. Ia sempre almoçar a casa da minha avó. Ela gostava de fazer comer para tanta gente. Lembro-me do meu ano de estágio onde também não faltava ao almoço em casa da minha avó. Um estágio que fiz com o meu eterno amigo Fenias que também ia a casa da minha avó. A ternura que ela tinha por todos naqueles momentos em volta da mesa, também o teve com o Fenias que dizia com carinho é um"preto" bonito e simpático. Nos últimos anos em que permaneceu na sua casa continuava a dar almoço ao filho Vasco e ao neto Diogo.
Após a fatídica queda nunca mais se reergueu, teve em casa da minha mãe. Nestes últimos anos de vida onde a sua saúde já impedia que nós pudéssemos dar-lhe a auxílio que ela necessitava foi para o lar de Aldeia das Dez. Neste momento sinto pena de não ir lá mais vezes, de não ter conseguido estimula-la mais. Recordo-me das conversas onde lhe lia o borda de água, falávamos de agricultura e do seu passado que ela insistia em manter sempre presente na sua memória. Quando olho para trás revejo os jogos que fiz com ela aproveitando os brinquedos do Duarte.
Até sempre avó.
Beijinho grande do teu neto Tiago
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
O centro é a região mais pobre do país (João Sardo)
A Dr.ª Clara Ferreira Alves, a propósito da tragédia que assola os Distritos de Leiria e Coimbra, referiu que o Centro é a região mais pobre de Portugal. Para não deixar a coisa a meio, acrescentou “que toda a gente sabe que o Centro é historicamente a região mais pobre do país”. Lá estava aquele levantar de sobrancelha implícito de quem fala do país sem ter de o percorrer, como se o conhecimento fosse uma herança urbana que dispensa deslocações incómodas.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
A FANTÁSTICA AVENTURA DE UM AMIGO
"AINDA HÁ QUEM GOSTE DE LIVROS"
O Amigo que me inspirou a escrever esta crónica nasceu no seio de uma família de modestos recursos no interior de Portugal. O seu interesse pela leitura e pelo conhecimento fê-lo sonhar, desde muito jovem, com estudos universitários, ao arrepio da vontade do seu pai, carpinteiro de profissão, que queria vê-lo seguir a mesma arte. Venceu o seu desejo e perseguiu o amor que tinha pela História. Desde sempre, para além da sua profissão de professor, é leitor compulsivo e dedica-se à escrita, em prosa e sobretudo poesia.
Recentemente,
quando regressava a casa, cheio de dores devido aos trabalhos agrícolas que vai
exercendo na sua horta nos tempos livres, viu uma mulher a despejar livros no
contentor do lixo da sua rua. Atónito, esperou que a anónima se afastasse e
logo se aproximou do cemitério dos livros condenados. Espantado, constatou que
se tratava de várias obras dos nossos melhores escritores, não hesitando em salvá-las
do contentor dos indiferenciados. Não tardou que a mulher voltasse de novo com
mais um saco de livros para lhe dar o mesmo destino. Ele interpelou-a com um
diálogo que transcrevo tal e qual ele mo contou e que consta de uma crónica de um
jornal digital para onde habitualmente escreve:
“─ Minha
senhora, estes livros eram seus?
─ A minha mãe
foi por estes dias a enterrar e não quero isto lá em casa.
─ A sua mãe era
professora, não era?
─ Você parece
que é bruxo! Mas, diga lá a verdade, você gosta mesmo disto?
─ Sim, gosto.
Nem pode calcular a minha alegria. Esta foi talvez a minha melhor prenda deste
Natal. Mas já reparou que também tem aqui papéis que fazem parte da sua
história, da sua família?
─ Olhe…, se
fossem umas notas das gordas, isso é que era!”
Depois desta
primeira aproximação à mulher-verduga dos livros, inteirou-se de que ela ainda
tinha mais livros para deitar ao lixo, ao que ele propôs, para a livrar de
posteriores trabalhos, ir ele próprio buscá-los a casa dela. Não tardou a ir
lá, visto ela habitar nas cercanias da sua casa. E de lá não trouxe apenas
livros, mas também, por exemplo, diversos manuscritos. Aproveitou para saber
que a mulher que conhecera, tal como a sua falecida mãe, também desempenhava
funções na área da cultura, o que lhe aumentou os arrepios na alma. E também
ficou a saber que o pai daquela senhora, já falecido há muito, também tinha
sido poeta, o que lhe aguçou ainda mais a curiosidade. No regresso a casa, ele,
por um lado, ia feliz, pois salvara muitos livros da destruição, mas, por
outro, ia triste porque encontrara uma filha que não quisera preservar a
memória dos seus pais...
Alguns dias
passaram, até que este meu Amigo me enviasse uma fotografia estranha.
Tratava-se de uma foto de uma campa do cemitério local, acompanhada da seguinte
pergunta:
“- O
que vê nesta foto?”
Respondi-lhe
que via um monumento funerário com uma grande cruz de pedra, um livro aberto em
mármore sobre a campa e um gato preto, aninhado sobre a estela funerária, de
onde a cruz se ergue e onde está também uma fotografia do falecido, em ferro
esmaltado. De facto, a campa funerária, não sendo, como muitos, um monumento
imponente, como alguns jazigos que parecem catedrais, era modesta, mas
possuidora de muita dignidade. Acrescentei que suspeitava ser nessa campa que
repousava o nosso desconhecido poeta, antigo dono de grande parte dos livros
recuperados (a outra parte pertencera à esposa dele). Acertara em cheio!
Um par de dias
passaram, até que, numa conversa telefónica, o meu Amigo me confessou que
estava deliciado a ler o livro de poemas do nosso poeta, cujo nome prefiro
conservar no anonimato. E desabafou que estava especialmente sensibilizado com
um soneto escrito pelo autor em memória do seu gato, no dia em que o bichano
falecera. Chamava-se Miki e era preto.
Fiquei momentaneamente sem
palavras. Depois de terminar a conversa com o meu Amigo, fiquei a pensar na
extraordinária coincidência do soneto sobre o gato preto, Miky e do
aparecimento do gato preto na foto do cemitério, que me havia sido enviada dias
antes. Creiam, caros leitores, que eu nunca fui crente na imortalidade, apesar
de que muitos tolos sempre a perseguiram. E no que respeita à crença na
eternidade, como muitos de nós, também sempre tive muitas dúvidas. Porém, o
avanço da idade transforma a nossa espiritualidade e molda, progressivamente, o
nosso pensamento e o desejo de que haja vida para além da morte. E
acontecimentos como este que vos relato são um contributo para nos aproximarmos
dessa crença. Neste sentido, coloco a seguinte questão: os passos dados pelo
meu Amigo, a salvação dos livros, o conhecimento do nome dos seus falecidos
proprietários, a curiosidade de conhecer o que eles foram, ao ponto de ir mesmo
visitar o lugar onde repousam os seus restos mortais, faziam apenas parte do
processo científico de investigação por parte de um historiador? E foi o
aparecimento de um gato preto que aparece na fotografia tirada pelo meu Amigo,
dias antes de ele encontrar no livro de poesias deixado pelo poeta, que
continha o soneto em homenagem ao seu gato preto, uma notável coincidência?
Cabe a todos interpretar estes episódios e guardar para si as suas
interpretações.
Eu, que vivi de perto estes
acontecimentos que até me fizeram sonhar, quero acreditar que estas
circunstâncias não foram obra do acaso ou de uma coincidência inexplicável. Eis
a minha hipótese: o poeta e a sua mulher, ao saberem que o seu espólio
literário, ameaçado de destruição, ia ser salvo por um jovem, trataram de segui-lo
e influenciar os seus passos. A visita que o meu Amigo fez ao cemitério para homenagear
o poeta foi por este instigada, que fez questão de o receber dignamente para
“pessoalmente” lhe agradecer. E até fez questão de chamar o seu gato preto,
colocando-o em lugar bem visível sobre a estela da sua campa funerária. Só mais
tarde, ao ler o soneto do poeta falecido, o meu Amigo se lembrou do tal gatinho
preto!
Caros leitores, misteriosamente
fechou-se este episódio, mas não definitivamente. Creio que à medida que o meu
Amigo vá avançando na leitura dos livros que salvou da imundície, todos os seus
autores, como forma de gratidão, o irão empurrar para outras aventuras, algumas
carregadas de misticismo e outras nem tanto, mas todas enriquecedoras!
Agora, digam lá, a vida é
(ou não) um profundo mistério?!
Vila Verde, 19-01-2026


