A Dr.ª Clara Ferreira Alves, a propósito da tragédia que assola os Distritos de Leiria e Coimbra, referiu que o Centro é a região mais pobre de Portugal. Para não deixar a coisa a meio, acrescentou “que toda a gente sabe que o Centro é historicamente a região mais pobre do país”. Lá estava aquele levantar de sobrancelha implícito de quem fala do país sem ter de o percorrer, como se o conhecimento fosse uma herança urbana que dispensa deslocações incómodas.
Não é ignorância crua, por ser evidentemente falso. É um saber de superfície, polido, seguro de si, que se permite generalizações porque nunca lhes sente o peso.
O problema não é o erro factual. O problema é a facilidade. A frase desliza porque vem montada num certo conforto “capital”: o de quem acha que conhece o país.
Lisboa conhece a região saloia porque lhe coze o pão. Conhece Sintra porque lhe refresca o espírito; conhece o Alentejo porque lá se come bem e o Algarve porque nele vai a banhos. O país como um conjunto de funções úteis; cada região no seu lugar simbólico. O Centro reduzido a esse lugar estranho entre o que interessa e o que não merece nome próprio.
O resto é “província”, essa entidade abstracta, indistinta, que começa algures depois de Loures e termina antes da Galiza. Hão-de reparar que a palavra (província) nunca é dita com maldade declarada mas sempre com uma ligeira condescendência embutida, como quem diz “não é bem isto que me interessa agora”.
A pobreza, assim enunciada, é uma simplificação com pedigree. Diz-se “o Centro é pobre” como se dissesse “o Inverno é frio”, com a vantagem adicional de não ser preciso lá ir. É uma pobreza teórica, elegante, pronunciada com a distância certa para não cheirar a realidade. E talvez seja por isso que a afirmação soa tão blasé. Não blasé no sentido francês, cansado do mundo mas blasé no sentido português contemporâneo: ligeiramente entediado. Muito seguro de si; profundamente desinteressado em confirmar.
Há uns anos valentes, no Intercidades, sentou-se um casal atrás de mim. Comentavam que já não visitavam os primos do “Norte” há "imenssse" (imaginar sotsaque) tempo. Havia na frase uma nostalgia quase enternecedora. Pouco depois, levantaram-se e saíram em Pombal. Tinham entrado em Santa Apolónia.
A geografia portuguesa, para muita gente, funciona assim: emocional, vaga, reconfortante. O Norte começa onde acaba a paciência para distinguir.
O Centro, então, é um intervalo sem rosto, uma espécie de corredor entre destinos.
Mas o Centro não é pobre. É desigual, é contraditório, é produtivo, é discreto. Tem indústria sem pose, universidades sem ruído, gente que não se apresenta. Trabalha. O Centro não se anuncia. Não cabe bem na narrativa fácil do atraso nem na do exotismo.
É um território sem histeria, sem épica fácil, sem folclore exportável.
Quando alguém diz “toda a gente sabe”, convém perguntar: toda a gente quem? Os que lá vivem? Os que lá investem? Os que lá enterram os pais e educam os filhos?
No fundo, a verdadeira pobreza não está no território. Está neste hábito de falar em prime time sobre o país como quem comenta uma paisagem pela janela do comboio, sem nunca descer nas estações
por João Sardo
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