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sábado, 8 de dezembro de 2018

Pampilhosa da Serra uma perspectiva de desenvolvimento


Ser professor é uma profissão muito singular, pois funciona como intermediária entre ao pais e os alunos na educação e caminho da criança. A irreverência é algo intrínseco à juventude e apesar de me preocupar os seus excessos, preocupa-me muito mais o seu isolamento.

No fim de semana passado fui a uma festa de família à Sobreda (Almada)  e tive uma passagem fugaz pela capital em hora de jogo do Benfica. Naqueles momentos pude perceber as dificuldades sentidas por quem faz aquele trajeto diariamente. Quando cheguei à Sobreda questione-me se é melhor viver no interior onde as acessibilidade não são as melhores e onde se demora mais de 1 hora para percorrer 40 km ou nos concelhos à volta da capital onde se demora igual tempo para percorrer igual distância. Para mim definitivamente a primeira hipótese, qualidade de vida não é andar continuamente em filas de trânsito, para chegar ao seu destino.

Sobre a realidade que trabalho, a Pampilhosa da Serra, gostava de vos dar a conhecer um pouco da minha curta experiência.

Pampilhosa da Serra está localizada na extremidade sudeste do distrito de Coimbra. O seu isolamento e a necessidade de atrair população conduziu a que o município direccionasse os seus investimentos com o intuito de fixar e atrair população.

A oferta dos manuais escolares, uma medida que foi tomada agora a nível nacional, é algo que já existe na Pampilhosa da Serra há mais de uma década. A gratuitidade no acesso a todos os eventos ou serviços públicos com piscinas, ginásios ou a feira anual é algo que nem merece discussão ou comentários na localidade.

Relativamente a uma outra questão senti mesmo a vontade de perguntar aos alunos a sua opinião. Se a população escolar está a diminuir, porque é que estão a construir uma escola nova para o 1ºciclo.


A minha opinião, é clara, a construção de uma escola para o 1º ciclo é um caminho bem definido, no entanto não basta construir é preciso atrair pessoas para que a escola possa crescer. Neste caso específico a oferta formativa consegue manter os alunos até ao 9º ano só que depois não lhe dá opções alternativas ao ensino regular no ensino secundário e os alunos vêem-se na obrigação de sair do concelho, perdendo-se assim, grande parte do investimento que foi feito.  A construção da escola é muito bem vinda, no entanto espero que associado, venham projetos a longo prazo que dêem mais opções, fixem os alunos que têm e atraiam outros.

Os alunos infelizmente vêem a  construção da nova escola como um elefante branco que não deveria ser construído pois o que existe é suficiente. Observo que apesar de todas as mais valias que têm os alunos não valorizam o facto de viverem na Pampilhosa da Serra  tendo uma visão redutora sobre a sua permanência. Alguns disseram iriam escolher outros concelhos para a realização do ensino secundário, outros mesmo que permanecessem dificilmente lá iriam permanecer na idade adulta, pois não há ofertas de emprego.

Antes de fazer a questão já tinha uma ideia predefinida sobre aquilo que os alunos me iriam dizer. O caminho mais fácil é a gratuitidade, isso dá votos a curto prazo, no entanto a longo o prazo não se vê o desenvolvimento de uma região. Os acessos continuam deficientes demora-se muito tempo para chegar às capitais de distrito mais próximas, as empresas acabam por não se sentir atraídas, porque na minha opinião o município da Pampilhosa da Serra  direcionam os seus esforços para horizontes muito curtos não pensando a longo prazo.

domingo, 26 de novembro de 2017

Incêndios: Cadastro é essencial, mas reforma florestal exige mais medidas, diz investigador

O cadastro florestal é essencial para a reforma da floresta, mas tem de ser acompanhado de outras medidas como o emparcelamento, afirma o diretor do Núcleo de Investigação de Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, Luciano Lourenço.

O Governo decidiu, no Conselho de Ministros de sábado, avançar com a realização do cadastro simplificado florestal nos concelhos mais atingidos pelos incêndios deste ano, medida que Luciano Lourenço subscreve “inteiramente”, embora ela “peque por ter pelo menos 30 anos de atraso”.
Sem se saber “o que existe ou quantos proprietários existem”, não é possível “organizar o território”, sustenta, em declarações à agência Lusa, o especialista da Universidade de Coimbra (UC).
O cadastro de pouco ou nada valerá, sublinha, se não for acompanhada de outras ações, como o emparcelamento de propriedades, medida que “vai muito para além” desse registo, mas indispensável para que seja possível tirar “rendimento da floresta”, mesmo quando dividida por múltiplas parcelas, muito pequenas e dispersas.
Luciano Lourenço não sabe “exatamente” o que significa na prática “cadastro simplificado” (falta ainda a respetiva regulamentação), preconizado pelo Governo, mas se ele agregar os que já existem aos registos a identificar, assume grande importância.
Há propriedades em relação às quais não se sabe quem são os proprietários, reconhece o investigador, mas mais serão aquelas cujos limites são difíceis de identificar, mas isso não pode ser motivo para adiar a realização do cadastro.
É igualmente necessário promover o emparcelamento, adverte Luciano Lourenço, salientando que um proprietário de pequenas parcelas, mesmo que muitas, e, frequentemente, dispersas por um território relativamente extenso, jamais consegue gerir e tornar rentáveis essas parcelas.
O emparcelamento, através da união de proprietários e agregação de terras, da cedência da exploração de terras, do arrendamento ou da venda, são a forma de tornar a floresta rentável, gerível e menos exposta a risco de incêndio (“a floresta é sempre rentável, mas desde que, antes de mais, não arda”).
Luciano Lourenço considera, entretanto, que este património deve ser gerido por privados, ainda que o Estado também o possa fazer, mas, antes tem de “dar o exemplo”, isto é, tem de demonstrar que sabe e é capaz de gerir bem a floresta que é sua e isso “não tem acontecido”.
Há no nosso país “muito bons técnicos” nos organismos do Estado, mas são poucos para todas as tarefas que têm de desempenhar, alerta.
Outras medidas são também indispensáveis para proteger e tornar gerível a floresta, acrescenta o investigador da UC, insistindo na ideia de que com fogos não pode haver floresta rentável ou nem sequer floresta.
É necessário, por isso, sensibilizar as pessoas para esta causa e não apenas nas escolas, mas também, de um modo geral, junto de toda a população e, em particular, de quem trabalha com fogo na floresta.
Os pastores precisam de fazer queimadas, reconhece, mas para além de as proibir em determinadas épocas e condições, é preciso sensibiliza-los para a importância de procederem de acordo com determinadas regras e apoios, exemplifica.
“Quero acreditar que desta vez” a reforma da floresta vai ser feita, mas depois de tudo o que tem acontecido “ao longo dos últimos anos, desde 2003/2004, ainda tenho as minhas dúvidas”, conclui Luciano Lourenço.
Luciano Lourenço
 26 de Novembro de 2017

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Uma reflexão sobre os incêndios florestais de 2017

O problema dos incêndios florestais está longe de ser um problema de espécies florestais ou de mera gestão de espaços. No nosso país é, antes de mais, um problema de pessoas. Infelizmente estas estão colocadas, ostensivamente, fora do sistema.

Portugal sofreu no ano de 2017 a maior devastação de que existe registo no âmbito dos incêndios florestais em um só ano. Embora o desempenho do país não tenha sido muito positivo ao longo das décadas passadas, no confronto com outros países e com situações comparáveis, os incêndios que percorreram o Centro e Norte de Portugal neste ano constituíram um absoluto choque e uma chamada de atenção para toda a sociedade. A perda de mais de 115 vidas, a devastação de cerca de 500 mil ha, a destruição de centenas de casas, instalações industriais e empresariais, com o leque de efeitos sociais, ambientais e económicos que trouxe, parece que finalmente despertou a sociedade para a relevância do problema dos incêndios florestais.
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Todos sentimos que o propósito de “nunca mais”, formulado em várias ocasiões anteriores, tem de ser levado mesmo a sério, agora mais do que nunca. O país já teve outras chamadas de atenção, nos anos de 2003, 2005 e 2013, mas, como se pode verificar, apenas se ficou a meio caminho, na tomada de consciência, na mudança de comportamentos e de atitudes e na adoção de medidas eficazes. Perdeu-se muito tempo, pactuando com o desleixo e com a negligência, que conduziu o nosso país a esta situação calamitosa. O país está indignado e certamente não deixará de prestar uma atenção continuada a este assunto nos tempos futuros, e de retirar dele consequências políticas também. Conforme foi dito, já se perdeu muito tempo e não podemos senão adotar as medidas certas, sem perder mais tempo com experimentações ou medidas irrealistas.   
Ao comentar esta tragédia, em mais do que uma ocasião, disse que “falhámos todos”. Nesta expressão começo por me incluir pessoalmente, pois sinto que falhei no meu propósito de chamar a atenção de quem de direito para a importância do problema e no desenvolvimento de soluções que permitissem, ao menos, minimizar as tragédias pessoais que sofremos. Mas incluo também, de uma forma geral, todos os cidadãos, porque se trata de uma questão que envolve toda a sociedade. Ninguém se pode colocar fora do problema e, menos ainda, julgar os outros, porque terá certamente deixado algo por fazer. Se não, não teríamos sofrido esta tragédia.
O país está chocado e indignado, mas já não bastam os sentimentos. Temos de passar à ação. Como cientista que há mais de 30 anos procura ter uma intervenção na temática dos incêndios, o modo mais adequado que encontro para manifestar a minha indignação é o de contribuir com o meu trabalho e o do meu centro de investigação, para o seu estudo e compreensão.
Para além da investigação científica, como cidadão, procuro ter também uma intervenção cívica, que me tem levado a colaborar, com espírito aberto, com uma crítica construtiva e leal, com todos os Governos que tenho conhecido, independentemente da sua cor política, e com todas as instituições envolvidas na gestão do problema dos incêndios florestais.
Por esse motivo aceitei, com a minha equipa, o encargo do Governo para produzir um Relatório sobre o Incêndio de Pedrógão Grande, que se encontra publicado parcialmente (https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/comunicacao/documento#o-complexo-de-incendios-de-pedrogao-grande-e-concelhos-limitrofes-iniciado-a-17-de-junho-de-2017). Neste relatório apresentamos os factos tal como se nos depararam e procurámos retirar lições, para que não se repitam as perdas que aquele incêndio teve. Infelizmente, a divulgação de algumas destas lições não foi feita a tempo de evitar, ao menos em parte, a tragédia que sofremos em 15 de outubro. 
O relatório que a minha equipa produziu baseia-se num extenso trabalho de campo, desenvolvido por uma equipa de 14 especialistas, muitos deles com longos anos de experiência de investigação nesta área e de realização de estudos semelhantes. Contém uma análise detalhada das condições meteorológicas, da origem e do comportamento do fogo, das perdas humanas e do impacto do incêndio nas comunidades. Infelizmente, não foi ainda tornado público o capítulo 6, que trata das perdas humanas, que é por sinal um dos mais extensos do relatório, no qual se relatam, de modo anónimo, cada um dos acidentes que causaram as 65 vítimas mortais e algumas das cerca de duas centenas de feridos. Neste relatório é apontada como causa provável dos incêndios principais a falta de manutenção da faixa de proteção de uma linha elétrica existente nos locais de origem dos mesmos.
Indicámos que, para além de todos os fatores circunstanciais que se encontram associados ao incêndio e que potenciaram a sua gravidade, está a deficiente governação do país, que ao longo de dezenas de anos tem vindo a negligenciar o problema do mundo rural e em particular da sua proteção em relação aos incêndios. Ao longo dos anos, temos vindo a chamar a atenção das autoridades para a necessidade de modificar este estado de coisas, a denunciar a inoperância de algumas entidades, a ineficácia de muita legislação e propondo medidas para correção do rumo.
Quem me tiver ouvido, em especial nos últimos anos, poderá lembrar-se de que sempre defendi que o sistema de defesa da floresta contra os incêndios (SNDCIF), assente nos três pilares estatais da ANPC, do ICNF e da GNR, é desadequado. Em minha opinião, falta um quarto pilar, que designo por “População”, que deveria envolver toda a sociedade, para além das entidades estatais. Envolveria antes de mais a população, que tem sido marginalizada do problema e das tentativas de solução. Engloba igualmente as autarquias, as empresas, a comunidade científica e tantas outras instituições que, como agora se vê claramente, querem dar o seu contributo, mas não sabem como, porque têm sido deixadas à margem do sistema e se encontram desorganizadas.
Sempre disse que se o Estado persistir em tentar vencer esta “guerra”, apenas com a força das suas instituições, não o conseguirá. Um dos seus pilares, a ANPC, que prestou serviços muito meritórios ao país, encontra-se nesta altura fragilizado, injustamente, mas também por demérito próprio. Outro pilar, o ICNF, tem-se mostrado frouxo desde há vários anos, com uma desfocagem e afastamento crescentes, relativamente o problema dos incêndios florestais. A GNR, que está há pouco mais de dez anos no sistema, mercê de uma excelente liderança e organização de que dispõe, tem-se mostrado ser o pilar mais consistente e com um leque de funções mais diversificado no dispositivo.
Quanto ao “quarto pilar”, está quase tudo por fazer. É o mais difícil, mas é também o mais importante. O problema dos incêndios florestais está longe de ser um problema de espécies florestais ou de mera gestão de espaços. No nosso país é, antes de mais, um problema de pessoas. Infelizmente estas estão colocadas, ostensivamente, fora do sistema.
No passado dia 21 de outubro, realizou-se um Conselho de Ministros dedicado a analisar o problema dos incêndios florestais e a aprovar um conjunto de medidas legais, para dar um sinal ao país de que havia a intenção de passar das palavras aos atos. Por muita preparação que pudesse ter havido, para fazer estas propostas, era para mim óbvio que faltou tempo para se refletir o suficiente, para se reunir consensos e juntar as forças para que pudesse sair uma reforma profunda e consequente. Como é compreensível, uma boa parte das medidas poderiam ter sido postas em prática há muito tempo, sem ter de se alterar o sistema vigente. Apenas se pergunta porque não se puseram em prática antes.
O conjunto das medidas visa essencialmente os três pilares do Estado e o reforço de verbas. Não se vislumbra uma única medida de fundo destinada a envolver a população, a apoiar as pessoas, a contribuir para melhorar a sua situação, as suas condições de vida e a sua segurança e para as preparar melhor para enfrentar estas situações.
Passarei a comentar algumas das medidas anunciadas, utilizando para tal extratos do discurso do primeiro-ministro efetuado no final do Conselho de Ministros, reservando para uma situação mais oportuna um comentário mais aprofundado sobre algumas das medidas.
1. Neste discurso refere-se que se pretende “aproximar a prevenção e o combate aos incêndios rurais, nomeadamente dando mais centralidade à área de Governo da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, no processo”.
A prevenção e o combate são apenas duas das faces do problema mais vasto que é o da gestão dos incêndios florestais, que envolve, entre outros aspetos, a preparação das comunidades, a prevenção estrutural, a preparação imediata, o combate e a reabilitação. De que aproximação se está a falar? O que quer dizer “dar mais centralidade aos ministérios da Agricultura ou do Ambiente? Quem foi que afastou estes ministérios do processo? Que foi que os impediu de estar mais centrados e de contribuírem para a solução? O que fizeram ao longo dos anos passados? Em minha opinião, estes e outros ministérios, e várias outras entidades públicas e privadas, têm de se centrar mais na realidade de que existem incêndios florestais em Portugal, coisa que parece não terem tido presente nos passados 20 anos, pelo menos, agindo como se nada se passasse.
2. Diz-se que “é preciso reforçar o profissionalismo em todo o sistema, com um papel alargado do apoio militar de emergência, no patrulhamento, no apoio logístico, no rescaldo e nas capacidades de apoio à decisão da engenharia militar”.
Concordo com o aumento do profissionalismo, mas tem de se avaliar bem o custo dessa medida. Até que ponto pode o nosso país ir? Concordo igualmente com um papel mais interventivo das Forças Armadas, mas com a devida preparação e igualmente com uma ponderação da relação custo/benefício dessa intervenção. Mas pergunto: onde está o apoio à sociedade civil? O que se vai fazer para apoiar, por exemplo, as comunidades e as forças locais de proteção civil?
3. É dito que “será confiada à Força Aérea a gestão e operação dos meios aéreos, quer do Estado quer contratados”.
Concordo com a aquisição de meios próprios, incluindo meios pesados, que se encontra implícita nesta medida. Parece-me bem haver uma maior intervenção da Força Aérea, desde que não haja incompatibilidade entre a finalidade e missão das Forças Armadas e a disponibilidade de recursos humanos e materiais, que se requer para os incêndios florestais, e os custos sejam comportáveis para o país. Oxalá se assegurem, desde o início, mecanismos de transparência e de avaliação nos processos de utilização destes recursos, tendo em conta os elevados custos que comportam.
4. Diz-se que “vai ser retomada a expansão das companhias dos GIPS da GNR”.
Acho muito bem esta medida, mas pergunto: o que se vai fazer com a Força Especial de Bombeiros e com os bombeiros em geral? Não se vai apoiar a sua expansão e qualificação? Como se irão articular as FEB e os GIPS no território do país?
5. Defende-se que “vai ser reforçada a capacitação e profissionalismo entre os bombeiros voluntários, criando em cada associação de bombeiros, nas zonas de maior risco, equipas profissionais formadas na Escola Nacional de Bombeiros, que será integrada no sistema formal de ensino como uma escola profissional”.
Concordo com uma maior profissionalização dos bombeiros, não apenas nas zonas de maior risco, mas em todo o país, pois os bombeiros podem ser chamados a intervir em qualquer ponto do território.
Deve, ainda assim, continuar a apoiar-se e a fomentar o voluntariado, que constitui um valor inestimável do nosso sistema de socorro.
A ENB deveria ser reformulada de modo profundo, mas não é este o lugar próprio para abordar este assunto.
6. Recomenda-se que “esta profissionalização passe por que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e a ANPC vejam reforçados os seus meios e a ANPC seja institucionalizada com um quadro próprio de profissionais, com dirigentes designados por concurso”.
Custa a crer que seja precisa nova legislação para se colocar estas medidas em prática. Concordo com o reconhecimento implícito de que estas duas instituições não dispõem de recursos humanos qualificados e em número suficiente para fazer face ao problema dos incêndios florestais. Mas onde se irão buscar esses recursos e onde se irão qualificar? Em minha opinião, os agentes de Proteção Civil e os bombeiros em particular deveriam ter uma Academia de Proteção Civil, equiparada a um instituto universitário, tal como sucede nas Forças Armadas e na Polícia.
7. Propõe-se que “a capacitação destas instituições passe por maior incorporação de conhecimento, com a criação de uma linha de apoio à investigação e reforço da componente de formação nos institutos politécnicos”.
Não posso deixar de aplaudir o reconhecimento da necessidade de se incorporar mais conhecimento e formação em todo o problema da gestão dos incêndios florestais. Pergunto no entanto de que conhecimento se trata e de fazer notar que a instituição a que pertenço tem vindo a produzir conhecimento em diversas áreas relevantes e a fazer a transferência desses conhecimentos para o sector operacional desde há vários anos.
Aplaudo igualmente a criação de uma linha de apoio à investigação científica, de uma forma regular e continuada. Tendo já sido publicado um diploma sobre este assunto, tenciono debruçar-me sobre ele, com mais detalhe, noutro lugar.
É surpreendente a medida de “reforço da componente formativa nos institutos politécnicos”. Por que razão não se incluem, de forma explicita, também as universidades no processo?
8. Refere-se que “a especialização progressiva, sem prejuízo da unidade de comando, entre o combate aos incêndios rurais e a proteção de pessoas e bens e das povoações, desenvolvendo capacidades próprias das brigadas de prevenção do ICNF, dos GIPS e dos Canarinhos, para se concentrarem na missão de combater os incêndios rurais”.
A proposta contida nesta medida constitui, em minha opinião, um erro estratégico, que já constava da proposta de plano que resultou do trabalho de um Grupo criado pela APIF (Agência para a Prevenção dos Incêndios Florestais), em 2004, com a finalidade de reformar o sistema. Em boa hora esta medida não foi acolhida e surpreende-me que volte a surgir, sem que tenha sido feito qualquer esforço para mostrar a sua validade desde então, quando noutros países se está a abandonar esta filosofia de separar o combate aos incêndios rurais do da defesa das habitações e das pessoas.
Atualmente o país dispõe de Corpos de Bombeiros que estão formados, treinados e equipados e possuem experiência e provas dadas no combate, tanto em incêndios urbanos como em florestais e para prestar socorro diferenciado às pessoas. Vai-se dispensar esta capacidade, para criar uma outra entidade, com capacidades semelhantes ou com metade delas? Os bombeiros apenas não combatem o fogo na floresta e dão prioridade às casas quando já não existem condições para combater o fogo na floresta. Será nessas condições que os “bombeiros florestais” vão entrar em ação?
Quais são as “brigadas de prevenção do ICNF”, que são mencionadas na medida? Serão porventura as equipas de sapadores florestais? Se assim for, por que razão durante todos estes anos o ICNF não aproveitou essa força, a organizou, equipou, treinou, estruturou e utilizou? É agora que o vai fazer? Ou será que as centenas de novas equipas que estão anunciadas irão ser mais do mesmo?
9. Por fim recomenda-se que “as equipas de intervenção permanente dos bombeiros voluntários serão vocacionadas, cada vez mais, para a mais nobre missão de proteger a vida das pessoas, as povoações e os bens, permitindo otimizar o conhecimento de cada um para todos podermos ter melhor segurança”.
Esta medida é um corolário do erro contido na anterior.
Como se pode qualificar de “a mais nobre missão” como sendo a de proteger a vida das pessoas, as povoações e os bens? Então a missão dos outros combatentes “especializados” não é tão nobre? Parece que não se compreende que são aspetos distintos do mesmo combate, mas que não carece de forças distintas? Uma vez mais pergunto, onde está o conhecimento nesta área, no sector do ICNF, que contribua para a melhor segurança de todos?

Professor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra. O autor segue o Acordo Ortográfico




Professor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra. O autor segue o Acordo Ortográfico

DOMINGOS XAVIER VIEGAS- Jornal Público 19 de Novembro de 2017

sábado, 27 de maio de 2017

Casas abandonadas

A partir do momento em que a minha avó materna faleceu, já lá vão 22 anos, a sua casa de granito na Beira Alta passou a ficar desabitada. Ao longo destas décadas, sempre que lá entrei, contorcendo-me entre as teias de aranha, senti que fazia uma viagem ao passado.
            Nada do que hoje reencontro naquela casa abandonada continua a pertencer a este tempo, pois o contexto que lhe conferia sentido há muito que se apagou irremediavelmente. Desapareceu a dona das pedras de granito, a janela de carvalho perdeu a cor e até o menino que lá entrava, a tactear as paredes em plena escuridão, deixou em grande parte de existir.
            Ainda assim, as fotografias a preto e branco, as cartas religiosamente depositadas na gaveta, as velhas arcas brasileiras a testemunharem a aventura transatlântica que tantos portugueses empreenderam, os tachos e a trempe enferrujada… tudo o que hoje ainda reconheço naquele santuário me ajuda a marcar um encontro comigo mesmo, com uma parte da minha identidade. Deste modo, ao interrogar cada fragmento, vou reconstruindo e desfazendo imagens, onde a luz e a escuridão se materializam em memórias fugazes e intermináveis esquecimentos, que mais tarde, na busca do rigor, vou cruzando com as narrações de outras vozes que ainda recordam o passado partilhado.
            Eis aqui a imagem que melhor me ocorre quando penso no ofício de estudar História: regressar ciclicamente às casas abandonadas (moradias, mais ou menos familiares, que nunca param de aumentar dentro de nós), para interrogar incessantemente o que somos, à luz das nossas preocupações actuais. História: uma narrativa científica feita de luzes, sombras, silêncios, memórias e esquecimentos, à qual, nos últimos anos, deixei de dever o pão que me alimenta, mas que, ainda assim, jamais poderei apagar do meu posicionamento cívico perante o mundo.
            Ora, no âmbito das comemorações dos 43 anos da Revolução de 1974, a RTP2 (balão de oxigénio da televisão pública nacional) transmitiu um interessante programa a respeito das conquistas de Abril (“Sociedade Civil”, XIII, 26/4, episódio 68). Já na parte final das conversas, o jornalista confrontou o historiador António José Telo com a seguinte questão:
              – Estamos a ensinar aos mais novos verdadeiramente o que foi o 25 de Abril? Estamos a passar-lhes os valores de Abril, estamos a ensinar-lhes as diferenças que existiam com a ditadura e aquilo que é a vida deles agora com a democracia?
            A resposta do académico – autor de uma prolífica, séria e multifacetada obra, decisiva para compreender o último século da nossa existência colectiva – fez-me saltar do sofá:
            – Todas essas preocupações são preocupações mais a ver com a política do que com a História. Esta preocupa-se em explicar o que aconteceu (https://www.rtp.pt/play/p3150/e285778/sociedade-civil).
            Devo dizer que discordo em absoluto desta posição. Afinal, como escreveu Marc Ferro, as primeiras etapas do ensino desempenham um papel fundamental na “imagem que fazemos de outros povos e de nós mesmos” (A manipulação da História no ensino e nos meios de comunicação, Brasil, IBRASA, 1983, p. 11), daí – acrescento eu – o carácter absolutamente determinante do educador de infância e do professor do 1.º ciclo na formação do indivíduo. Um tema que, de resto, bem justificaria outro artigo…      
.           Segundo creio, vários dos nossos problemas radicam no modo como continuamos a tratar as ciências estruturantes do pensamento, caso da História, mas também da Literatura e da Filosofia, que ainda há pouco tempo vi ser apelidada, por uma professora britânica, como o domínio do “nonsense”, perante a gargalhada geral da plateia.
            As sociedades contemporâneas necessitam de ética e pensamento próprio como pão para a boca, a começar pelos líderes que governam o que ainda sobra da União Europeia. Pese embora as profundas transformações a que continuamos a assistir, a Escola continuará a desempenhar um papel decisivo na construção dos nossos alicerces civilizacionais. É a partir dela que poderemos continuar a combater de modo sustentado Trump, Le Pen e demais extremismos, que nos poderão conduzir, num ápice, a mergulhar no inferno auto-destrutivo da guerra total. Estar atento é, portanto, uma necessidade, para todos os cidadãos.
            Mais do que nunca faltam-nos pontes de sabedoria, nesta era dos muros de aço. E os (denominados) intelectuais deveriam ser os primeiros a compreendê-lo, descer das torres de marfim em que tantas vezes vivem enclausurados, erguer a voz e intervir. Por conseguinte, os historiadores que desprezam problematizar o modo como a sua ciência é trabalhada nos vários níveis de ensino estão a demitir-se da sua função cívica.
            Todos nós temos as nossas casas abandonadas, esqueletos aos quais somos tentados a regressar. A História exerce um fascínio tremendo sobre o indivíduo, a começar pela maioria das crianças e jovens das nossas escolas. Falta-nos garantir que os programas curriculares da disciplina sejam ajustados à faixa etária dos alunos, que sejam pensados como um todo (numa perspectiva global, estruturada e articulada entre os vários ciclos), que a disciplina passe a contar com uma maior carga horária, que as turmas sejam efectivamente reduzidas (não me refiro às recentes produções de cosmética que continuam a vir a lume) e, por exemplo, que os professores passem a ter tempo para estudar e aprender. O que equivale a dizer que é urgente expurgar o sistema das inúteis burocracias e da kafkiana máquina de fazer dinheiro em que se transformaram as inúteis formações que para aí proliferam.
            Nestes estranhos tempos em que quase tudo nos faz adormecer e obedecer, a Escola ainda pode continuar a fazer toda a diferença. Para isso, terá de constituir-se enquanto um jardineiro do pensamento e do espírito democrático. Ora, um dos primeiros passos concretos poderia ser o regresso da eleição da figura do diretor por todos os seus pares pedagógicos.
            Caso a Escola não consiga adaptar-se, a mensagem dos Pink Floyd continuará a ser cada vez mais actual: “We don’t need no education”. E todos os extremismos terão cada vez mais escravos à sua disposição…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)  

domingo, 26 de abril de 2015

Rotinas

Não há nada pior que a rotina a pressão dos nossos superiores que nos limitam e bloqueiam quando não paramos e observamos que há um caminho que é preciso é sermos nós a discerni-lo e não deixarmos que sejam os outros a fazê-o. Nos últimos tempos tenho perdido um pouco a razão e deixei de desfrutar dos belos momentos que a vida nos oferece. Hoje, já não o fazia há meses, tirei fotografias enquanto trabalhava num levantamento GPS. Parei uns minutos e observei o percurso de uma bela borboleta de flor para flor.Não foi tarefa fácil conseguir foca-la pois ela mal eu me aproximava fugia. Na primeira ela esta numa flor enquanto a segunda está a fugir pois apercebeu-se da minha presença. Ambas as fotos para mim têm um singelo significado, pois por momentos saboreei um prazer da vida e o conforto da natureza.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma conversa

O maior prazer quando vou fazer levantamentos GPS para o cadastro predial de Oliveira do Hospital, é perceber que qualquer situação que ocorra ela  é única. Um ponto nunca é tirado no mesmo sitio, as conversas os sorrisos e os rancores das pessoas nunca são o mesmo. É com um sentido de descoberta que eu parto para mais uma tarefa do meu trabalho que gosto muito de fazer.

No dia 20 de Outubro quando o proprietário disse que estava na hora de almoço e o ser humano era como os carros quando carece tem que se voltar a atestar com combustível. De facto estava mais do que na hora pois já passava largamente das 14:00,quando deixei o senhor e dei por terminado o meu dia. Percorri o caminho entre o Campo e Lourosa quando me deparei com uma figura estranha a acenar-me. Parei o carro e instintivamente abri o vidro, quando a tal figura estranha com uma fala enrolada  e com os dentes em muito estragados, me pediu boleia para ir de Lourosa à Venda da Esperança , pouco mais de 1km de distância a subir.
Não resisti e e deixei-o entrar, tendo uma reação imediata e instintiva de guardar  tudo o que tinha no banco do pendura sobre as minha s pernas. Um medo instintivo que se assolou de mim que foi parando à medida que a conversa decorreu. Mal entrou no carro disse que tinha apanhado um esgotamento há cerca de 8 anos quando era camionista. O flagelo foi tremendo principalmente para a família que de repente perderam uma pessoa normal  ficando na opinião dele incapacitado de exercer qualquer profissão, desempenhando apenas funções de jardinagem em casa. Surpreendeu-me a maneira natural e espontânea como ele falava convicto que iria ficar bom, segundo ele com a ajuda de um primo cientista que terá a cura para os seus males. A Venda Esperança já estava perto quando decidi perguntar-lhe como é que ele apanhou um esgotamento como camionista e ele com a sua espontaneidade natural disse que não comia só fazia quilómetros. Passado poucos segundos chegávamos à Venda da Esperança e deixo-o para o seu cafezinho.

Após uns momento conclui Pensei eu que será que vale a pena sobrecarregarmo-nos com trabalho fazer noitadas  quando de um momento para o outo o nosso corpo nos dá um sinal que temos que parar que pode ser irreversível. Esta curta conversa fez –me pensar e mudar os meus planos para o dia pois tencionava ir almoçar a casa mas uma vez que já eram quase 15:00 e estava sem comer desde as 9:00 decidi ceder aos pedidos dos estômago parar no parque de merendas do Senhor das Almas e antecipar o almoço pois tinha trazido a merenda de casa.