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segunda-feira, 11 de maio de 2020

Alves Redol: ensinar o Povo ao Povo



Em Maio de 1944, Alves Redol foi preso pela polícia política do Estado Novo e encaminhado para a prisão de Caxias. Em 1963, voltou a ser detido pela PIDE e levado para o Aljube, em Lisboa. Do seu currículo fazem também parte várias obras apreendidas e a obrigatoriedade de, pelo menos a partir de 1943/1944, enviar todos os seus livros à censura prévia. Destacado membro do PCP, integrou o Movimento de Unidade Democrática, logo em 1945, e foi um dos grandes escritores do século XX, cujas obras conheceram tiragens invulgares para a sua época, caso d’A Barca dos Sete Lemes, em 1958, com 5000 exemplares ou O Cavalo Espantado, em 1960, com 6000 exemplares. Eis, por conseguinte, alguns ingredientes que me levaram a aceitar o repto de um leitor para redigir este breve artigo.
Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira, em 29 de Dezembro de 1911, e faleceu, com 57 anos, em 29 de Novembro de 1969, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na sequência de um cancro recentemente diagnosticado. O contacto, durante a infância, com familiares ferreiros e camponeses, bem como a sua passagem por Angola (1928-1931), onde contraiu malária, irão marcá-lo profundamente. Além de uma intensa actividade literária, ao longo da sua vida desempenhou várias funções ligadas ao comércio, à publicidade e à intervenção cívica e cultural, organizando, por exemplo, bibliotecas populares ou passeios culturais e proferindo palestras.
Apontado como o autor da obra que marcou o início do neo-realismo em Portugal (Gaibéus: 1939), Alves Redol embrenhava-se na realidade, estudando-a minuciosamente antes de procurar escrever o que quer que fosse. Daí que as suas palavras sejam atravessadas pela dureza que marcava a vida dos trabalhadores durante o Estado Novo, mas também pela condenação das injustiças sociais e políticas que tanto atormentavam o escritor.
Em 15 de Fevereiro de 1940, um relatório da censura pronunciava-se do seguinte modo em relação a Gaibéus: “Este romance que revela um autor de forte poder de análise, descreve a vida do trabalhador humilde do norte que vem trabalhar para as ceifas do arroz no Ribatejo. A sua vida de sacrifício, os aspectos dolorosos do seu desconforto, o cansaço e o desalento do trabalho ao sol forte da canícula, são bem retratados nesta obra que se impõe pelo seu recorte literário. […] Há, porém, páginas neste livro que chocam pelo realismo, que nalgumas se transforma em pornografia e prejudicam o seu incontestável valor” (https://ephemerajpp.com). Pese embora o deslumbramento do censor pelas páginas analisadas, a obra foi proibida em 26 de Abril de 1940 (nesta época, Redol ainda não enviava os livros à censura prévia) e a 2.ª edição apenas foi autorizada em 1 de Junho de 1949.
Permita-se-nos também destacar aqui aquela que, de acordo com o consagrado historiador da Literatura Óscar Lopes, pode ser considerada a obra-prima de Redol: Barranco de Cegos (1961). Dado à estampa nesse ano horribilis de Salazar (marcado, por exemplo, pelo início da guerra colonial, pelo assalto ao Paquete Santa Maria, pela Abrilada ou pelo Golpe de Beja), o enredo da obra de Redol desenrola-se em torno do latifundiário Diogo Relvas, que, entre o final do século XIX e a primeira metade da centúria seguinte, assiste ao crepúsculo do velho mundo em que tinha sido educado: a crise da Monarquia Constitucional, a propagação do republicanismo, a lenta industrialização do país, a ditadura de João Franco, o regicídio e, entre outros, a árdua luta pelos emergentes direitos sociais da classe trabalhadora.
Perante o iminente desmoronar desse velho mundo, o leitor acompanha a luta do poderoso terratenente Diogo Relvas, em pleno Ribatejo, para conservar o seu prestígio e poder, perpetuando-os nas próximas gerações. E para evitar a anarquia que as indústrias, o progresso, a instrução, a imprensa e os sindicatos agrícolas iriam supostamente trazer, o latifundiário não hesita em defender soluções mais musculadas (leia-se, absolutistas e ditatoriais), como sejam o facto de ter ordenado a morte de um dos seus criados porque este envolvera-se sexualmente com a sua filha Maria do Pilar. Eis as ordens que dá a esse respeito ao mercenário de serviço: “— Fá-lo sentir bem a morte. Não tenhas pressa. E corta-lhe as partes à navalha. Corta-lhas e mete-as no estrume. […] Ou mete-lhas na boca… Sim, na boca, se lha conseguires abrir”.
Além de ser um homem poderoso, trata-se, contudo, de um lavrador que é também conhecido entre os populares pela sua bondade e sensibilidade, características bem evidentes quando — comovido com os pedidos da mulher do lavrador Tóino Valador — recua na decisão de expulsar esta numerosa e pobre família da sua casa em Aldebarã e se predispõe mesmo ajudá-los.
Assim, à semelhança da sua conturbada época, Diogo Relvas, “o Rei dos Lavradores” (único título pelo qual gostava de ser conhecido), é também uma personagem sólida e profundamente complexa, a fazer lembrar o inesquecível príncipe de Salina, Dom Fabrízio, do romance de Tomasi di Lampedusa: O Leopardo (1958). Afinal, ambos compreendem que vivem numa época de charneira, com o iminente desmoronar de um mundo velho. Todavia, apenas o aristocrata italiano Dom Fabrízio tem a capacidade de adaptar-se aos novos tempos.
Quanto ao conservador português Diogo Relvas, depois de mandar assassinar o criado que se envolvera com a filha, condena-a à reclusão, em Cuba (Alentejo), e posteriormente recusa mesmo participar no seu funeral. Mas será um humilde caiador, de nome Norberto, a conseguir fazer cair o latifundiário do seu pedestal, quando se recusa cumprir a ordem que o poderoso terratenente repetidamente lhe dava: entrar na taberna e pedir que lhe trouxessem os jornais. Eis a desafiadora resposta do trabalhador ao poderoso: “— Ouvi, sim, ouvi. Mas estou cá a pensar… Sim, estou a pensar porque diabo não hás-de tu apear-te da pileca e ires tratar duma coisa que é a tua…”
Assim se desmoronava o mundo de Diogo Relvas, humilhado em público por um humilde caiador que ousou pensar pela própria cabeça. Nesta sequência, o latifundiário acabou por isolar-se na “Torre dos quatro ventos”, refúgio familiar onde ia, sobretudo nos momentos mais difíceis, consultar os seus antepassados já falecidos. Lá acabará por morrer, enquanto o sobrinho Rui Diogo encontra uma hábil estratégia para perpetuar durante vários anos a vida do falecido e, consequentemente, o seu próprio poder. E talvez seja esta permanente luta pelo poder que possa ser considerada o motor da História, como escreveu Marx, mas também desta notável obra literária publicada em pleno Estado Novo salazarista.
Hoje, numa época de forçada reclusão e de ensino a distância, seria fundamental que os portugueses regressassem aos grandes clássicos da literatura, entre os quais figura por direito próprio este romance de Alves Redol. De resto, tenho para mim que o país ganharia muito mais se os professores portugueses tivessem a possibilidade de aproveitar o que resta do presente ano lectivo para incentivar os seus alunos (logo a partir do 2.º ciclo) a lerem esta e outras obras, em detrimento de insistirem na tremenda parafernália de fichas de trabalho e mais instrumentos de avaliação prenhes de intricadas funções gramaticais e outras quejandas parvoíces que apenas têm o condão de matar ainda mais o gosto pela escola e pelo conhecimento, além, evidentemente, de contribuírem para agravar as assimetrias sociais e culturais entre os que nasceram num “berço de ouro” e os que tiveram a infelicidade de pertencer ao grupo dos que continuam a não ter voz para fazer escutar os seus problemas.
Alves Redol e os escritores neo-realistas fazem-nos falta. As suas palavras sabem a realidade, ajudam-nos a tomar consciência do que sucede diariamente à nossa volta e, além disso, alimentam a alma com um dos mais preciosos bens da vida, a beleza. Também por isso, deixo um convite ao leitor. Assista em família à representação da peça “Uma sementinha cheia de histórias” (encenação de José Teles a partir da obra infantil A Vida Mágica da Sementinha, dada à estampa por Redol em 1956). O Museu do neo-realismo, em Vila Franca de Xira, disponibiliza-a on-line (http://www.museudoneorealismo.pt/pages/1367?event_id=11297). E, claro, quando as circunstâncias o permitirem, caso tenha oportunidade, não deixe de visitar este fantástico Museu na cidade natal de Alves Redol, onde poderá recordar, entre outras, essa batalha pelo “conteúdo” que os neo-realistas portugueses empreenderam a partir da década de 30 do século passado. Uma batalha que ainda continua actual, para evitar a epígrafe de São Mateus que Redol simbolicamente colocou no pórtico do seu romance Barranco de Cegos: “Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco”. Afinal, como escreveu o padre António Vieira: “Não pode haver maior cegueira, nem mais cega, que ser um homem cego e cuidar que o não é”.
Os livros de Redol, Soeiro Pereira Gomes, Aquilino, Torga, Namora e muitos outros poderão abrir os olhos a muita gente. Resta é perceber se isso continua a interessar a quem nos governa ou pretende vir a governar…  
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com) 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Soeiro Pereira Gomes: um escritor esquecido?


Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô (concelho de Baião, Porto), no dia 14 de Abril de 1909, e faleceu no dia 5 de Dezembro de 1949, com apenas 40 anos. Se fosse vivo, completaria 111 anos. O seu exemplo de luta cívica e a sua obra bem mereciam outro destaque, daí este breve artigo.
Quando morreu, Soeiro vivia na clandestinidade há cerca de 5 anos, pois, enquanto membro do Partido Comunista, fora um dos dirigentes locais, em Alhandra (Vila Franca de Xira), da greve de 8 de Maio de 1944. Sublinhe-se que Soeiro era, desde 1932, empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo, em Alhandra.
Ao longo da sua curta vida, colaborou com o jornal O Diabo, publicou, entre outros, Esteiros (1941) e, já a título póstumo, Refúgio Perdido (1950) e o romance inacabado Engrenagem (1951). Além disso, profundamente comprometido com a transformação da realidade social, desempenhou também um papel importante ao nível da comunidade local, ajudando a construir uma piscina para que as crianças e os jovens aprendessem a nadar sem enfrentarem os perigos dos esteiros do Tejo, desenvolvendo actividades de cariz cultural ou dando lições de ginástica aos filhos dos operários.
Quem hoje fala em Soeiro Pereira Gomes recorda-se, sobretudo, da obra Esteiros, dada à estampa durante a II Guerra Mundial, quando o autor tinha 32 anos. O livro — um dos marcos do Neo-Realismo português — contou com uma capa e ilustrações de Álvaro Cunhal e foi dedicado aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”.
O enredo do romance gira em torno de 5 crianças (Maquineta, Gaitinhas, Guedelhas, Gineto e Sagui), que são obrigadas pelas duras circunstâncias da vida a tornarem-se adultos antes do tempo, ingressando no árduo mundo do trabalho e da exploração capitalista, para conseguirem, graças ao parco rendimento auferido, ajudar as famílias a pagar a sobrevivência. Por exemplo, no forno, onde se fazia o tijolo, “Gaitinhas deu o ombro à carga, mas deixou-a cair, derreado, pela violência do calor que lhe trespassou a camisa e queimou os ombros e orelhas. Um empurrão do mestre fez-lhe brotar lágrimas de raiva”.
Este é também, como escreveu Isabel Pires de Lima, em jeito de introdução à 5.ª edição do livro (1979), um “grito de denúncia”, que alerta para as profundas clivagens entre os explorados e os exploradores, a miséria social, a fome. Eis-nos perante um conjunto de crianças que, impedidas de frequentar a escola, acabam por ter de mendigar e roubar, por vezes até mesmo outros miseráveis como elas.
Muitas pessoas, sobretudo aquelas que nasceram no Estado Novo salazarista, recordar-se-ão das circunstâncias descritas por Soeiro Pereira Gomes no romance Esteiros. Lembrar-se-ão dos seus próprios percursos ao relerem os relatos pungentes daquelas crianças e das suas famílias exploradas pelos patrões capitalistas; reconhecer-
-se-ão no sofrimento que ainda os atravessa por terem sido incapazes de ultrapassar a dureza das suas circunstâncias. O espelho intemporal criado pelo talento literário de Soeiro ajudará muitos a compreenderem ainda melhor aquilo que a vida lhes roubou — quantos não desejariam ter estudado, concluído um curso superior e não o fizeram porque foram forçados a abandonar a escola para ir trabalhar? Deixo somente um exemplo, entre muitos outros igualmente significativos. Gaitinhas (cujo verdadeiro nome era João) vivia com a mãe, Madalena, que estava muito doente com tuberculose (acabaria, de resto, por falecer). Madalena, devido às dificuldades financeiras, teve de convencer Gaitinhas a sair da escola e, por isso, foi pedir ajuda ao sr. Castro para empregar o filho na Fábrica Grande. Durante a conversa, porém, Madalena deixou escapar a mágoa de ver o seu menino abandonar os estudos (o Mestre-Escola previra que ele tinha muitas capacidades e podia ir longe. Já o pai de Gaitinhas, que andava algures pelo mundo, queria mesmo que ele fosse um médico que ajudasse os mais pobres…). Eis a resposta do ricaço à malograda mãe: “Que mal tem isso? […] Evidentemente que vossemecê não queria fazer dele um doutor”. Afinal, isso estava reservado para o seu filho Arturinho e para os restantes filhos dos capitalistas, pois os pobres estavam — na lógica da sua época — condenados a perpetuar a herança da miséria e do analfabetismo.
A luta destas crianças e das suas famílias pela sobrevivência representa o trágico percurso de tantas gerações portuguesas, às quais a realidade roubou os sonhos: como no caso de Maquineta, que tanto desejara ir trabalhar para as máquinas na Fábrica Grande e acabou por ter de carregar carvão no cais. Ou das trágicas consequências das cheias no rio Tejo, durante o Inverno: “O caudal barrento do rio arrastava fardos de palha, animais e lágrimas. E o homem daqueles sítios, alheio às conversas, nada mais via do que luto à sua frente”.
Mas as páginas de Esteiros também reflectem a gradual tomada de consciência cívica e política das suas personagens: “Madalena cerrou os lábios. Bem sabia ela que o destino era a vontade dos homens”. Ou ainda: “Maquineta bateu com força na nuca, e asseverou, como se discutisse com o próprio mestre: — Aqui é que ninguém põe a canga, nem que me matem”.
Claro que este perigo não poderia passar despercebido à censura do Estado Novo, que, em 1966, ou seja, 25 anos após a edição do livro, afirmava num dos seus relatórios:
“É um romance regionalista de análise crítica da vida miserável das populações ribeirinhas do rio Tejo, nas zonas das Lezírias, fazendo realçar a injustiça, a exploração da miséria, resultado das desigualdades sociais, no que o livro não é justo, mas antes especula.
[…] Julgo por isso que este livro deveria ter sido proibido quando apareceu, mas agora dever ser ignorado”.
O leitor Francisco C. Salgado (censor especializado na análise das obras literárias) pesava, portanto, os efeitos contraproducentes de uma eventual proibição da obra (fruto proibido é o mais apetecido), mas encerrava, considerando que deveriam ser impedidas as referências ao livro nos meios de comunicação social, condenando-o assim, na prática, à não-existência.
O final dos Esteiros representa uma inequívoca mensagem de esperança, ou não tivesse este livro sido publicado em 1941, quando decorria a II Guerra Mundial e nascia, gradualmente, entre as oposições portuguesas, a esperança de que a vitória dos Aliados traria consigo o fim do regime salazarista. Este esforço de procurar colocar o texto no seu contexto, segundo penso, revela-se fundamental para compreender esta obra e em particular o seu desenlace.
Eis o final do romance, com sabor a futuro de mudança: Gineto, preso na cela (depois de ter sido apanhado a roubar carvão), pensou ouvir Gaitinhas, que todavia já partira com Sagui para percorrer o mundo, em busca do pai. O pano encerra com o sonho de Gineto: quando os amigos regressarem, virão libertá-lo e “mandar para a escola aquela malta dos telhais — moços que parecem homens e nunca foram meninos”. A escola — sublinhe-se — surge aqui como um instrumento de libertação individual e social. E o sonho fica em aberto. Até hoje...
Soeiro Pereira Gomes passou à clandestinidade em 1944. Nessa sequência, a sua esposa, Manuela Câncio Reis, foi presa pela PIDE, mas nem isso levou o escritor a entregar-se. Em 1947, na sequência de uma queda de bicicleta (pensaria que estava a ser perseguido pela PIDE), foi-lhe diagnosticado um cancro nos pulmões, que acabaria mesmo por matá-lo dois anos depois. Hoje, as suas obras não fazem parte do Plano Nacional de Leitura e dificilmente se consegue adquiri-las numa livraria. A RTP, porém, dedicou-lhe, numa das suas emissões pedagógicas, um breve programa particularmente interessante, que recomendo vivamente a todos os leitores (https://ensina.rtp.pt/artigo/esteiros-de-soeiro-pereira-gomes/).
Numa época em que todos vivemos um drama mundial, com impactos imprevisíveis, é altura de aproveitar o nosso isolamento para regressar aos grandes clássicos da literatura. Soeiro Pereira Gomes figura, por direito próprio, no patamar dos grandes escritores e merece, por conseguinte, que as escolas o estudem e os portugueses o leiam.
Esteiros, esses braços (canais) do rio Tejo, “como dedos de mão espalmada”, ajudam-nos também a não esquecer que o destino dos Homens é construído diariamente por cada um de nós. E que é, sobretudo, pelos mais desfavorecidos que vale a pena lutar. Uma mensagem cada vez mais útil e que importa repetir à exaustão. Também por isso, a reedição das obras de Soeiro Pereira Gomes é, segundo penso, uma necessidade premente...
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com) 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Pedra após Pedra - A Palavra Diário I (2012-13)- Fernando Alva (III- Humildade e Sensibilidade)


Nas conversas que temos na troca de boleia para a escola falamos de diversas coisas. Em certo dia, referi ao meu colega que caso surgisse repentinamente uma Guerra não estaria preparado para mudar e seria facilmente morto pelas mudanças que estariam a acontecer na sociedade. Eu sinto-me indefeso perante atrocidades que possam surgir num futuro próximo. O meu colega retorquiu dizendo que o ser humano é muito resistente e caso isso acontecesse se adaptaria e tudo faria para enfrentar com dignidade as dificuldades da vida. O assunto ficou por ali, pois nem eu nem ele voltámos a tocar no assunto.

O que vai na cabeça do outro é de facto um grande mistério. Em textos anteriores sobre o livro Pedra Após Pedra- A palavra- Diário I (2012-13) já dei a entender a importância de sermos humildes e sensíveis perante quem está ao nosso lado. Nesta apresentação pretendo expor a importância de nos conhecermos a nós próprios de acordo com o autor Fernando Alva.


Cito p. 33
“Essências
Humildade:
O bornal da viagem;
A simplicidade
De quem sabe
Que não cabe
Dentro das margens,
Muito menos
O estreito pensamento
Que os humanos
Usam como sustento. 

Resta-nos tentar
Restituir cada letra
À forma mais simples
E ficar à espera
De outros toques
Dessa luz
Que nos conduz
Pela escuridão,
Até ao chão." 

É tão importante conhecermos os nossos limites e as nossas fronteiras e a sociedade que habitamos. Nós somos todos tão diferentes. Fernando Alva cita uma passagem muito interessante sobre a diversidade humana na página 41 " Cada Homem é um mundo inteiro e sempre que se encontram dois Homens são também dois mundos diferente que se tocam. Tão diferentes que poucos se compreendem ao ponto de conseguirem reconhecer-se ao espelho.

Apenas uma grande sensibilidade nos poderá, ainda, ajudar a perceber que cada vida transporta em si mesmo o gérmen da sua própria verdade. Nem melhor nem pior .Apenas diferente, de gente para gente. A face visível da nossa potencial eternidade.

Crueldade, bondade humildade tudo nos pertence. Tudo nos articula e anula. Tudo isto, afinal, nos ajuda a compreender o pouco ou nada que podemos, de facto valer.

Humano, demasiado humano- diria Nietzsche..."

Na nossa (minha e do Fernando Alva) profissão de professor lidamos frequentemente com pessoas tão diferentes e por vezes é tão difícil tomarmos as melhores decisões. Eu penso que devemos seguir as nossas convicções mesmo correndo o risco de errar. Fernando Alva refere na página 60 do seu diário a seguinte afirmação muito interessante sobre o reconhecimento e a tomadas de decisões na profissão docente. Cito p.60 "Na escola todos os dias salvamos ou condenamos alguém. Só muito tarde é que infelizmente, o compreendemos. Quase sempre tarde demasiado tarde, para ele e para nós"

Cito p. 61
"Naturezas Construídas
Cada ser humano
É um mundo de vulcões 
Com fugazes explosões 
De profundo desengano." 


Nas escolas do século XXI sentimos que a diferença de modos de vida é cada vez mais latente. A escola tem um papel menos reconhecido, mas cada vez mais importante na sociedade. A escola é  a salvação de largas centenas de crianças que não têm um lar que lhes dê carinho, que naufragam por pela ausência de um ser paternalista que lhes ajude a seguir o melhor caminho. Ninguém pede para nascer.

Cito p. 61
"Anjo da Guarda
Meninos e meninas
Sem defesas do lar
São tenras presas
Condenadas a naufragar.
Mas há sempre alguém
Enviado de mais além
Pronto a fazer sorrir
O que o desconhecimento
Do estudo pelo apontamento
Não pode sentir."

Cada vez que lidamos com o outro devemos ter muito cuidado na forma como o interpelamos sobre certos assuntos que lhe podem ser sensíveis, no entanto tal como Fernando Alva gostava de salientar a importância da troca de experiências no nosso crescimento como seres humanos.

Cito p. 68
Vozes
"Cada língua que falamos
É uma porta aberta
Para outros mundos
Rumo a parte incerta.
No final somos outros,
Apenas mais completos."

A Educação é essência da nossa personalidade e fundamental para nos tornarmos seres humanos mais equilibrados mesmo que por vezes não tenhamos tido a sorte de ter nascido numa família que nos acolhesse  como todos mereciam.


sábado, 8 de fevereiro de 2020

Pedra após Pedra - A Palavra Diário I (2012-13)- Fernando Alva (II-A Família)

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Não é fácil  viver neste mundo, onde temos que lidar com pessoas tão diferentes. Quantas vezes já  ficamos perplexos com aquilo que vimos e ouvimos de alguém. Fernando Alva relata uma história por si vivida no aeroporto da ilha Terceira  nos Açores que retrata a leviandade com que certas pessoas lidam com a vida e com assuntos tão perigosos como o mundo do crime. Cito (p.17) “Abeirou-se de mim, pediu-me informação a respeito da porta de embarque e ,sem mais nem menos confessou-me que era recluso num sistema prisional do continente. Aproveitando a precária, veio passar a semana anterior ao natal junto da família: a mulher e uma menina de três anos.
Logo de rajada como se percebesse o espanto que escorria da minha face, segredou-me que durante anos fora correio de droga. Há dois anos porém, as coisas correram mal e quase matara dois homens. -foi apenas uma questão de sorte as balas não terem acertado nos alvos. -assegurou-me. E eu lá fui balbuciando o que pude. Aliás perante aquela confissão, o que poderia eu dizer que fosse significativo”

No seguimento desta história relatada no primeiro parágrafo vou contar uma história que se passou comigo numa das muitas escolas por onde eu já passei. Eu estava na sala do castigo onde iam os alunos que eram expulsos da sala. Certo dia entra-me na sala  um aluno de forma esbaforida e vociferou algo que eu já não me recordo ao certo o que foi. Mandei-o sentar e acalmar-se e ele disse-me com uma naturalidade que se fosse preciso metia os carros sobre quatro tijolos e nem pensem em meter-se comigo que eu o desfaço-o sem piedade. Fiquei perplexo com a facilidade com que aquela criança de 15 anos falava com aquela revolta sobre a vida e desrespeito com o outro. A forma que eu encontrei para dar a volta à situação foi tocar-lhe na ferida e falar-lhe na família e o que esta achava de ele pensar daquela maneira. O aluno respondeu-me que não queria saber do pai e que apenas tinha algum respeito à mãe  Perguntei-lhe  se ele queria continuar a seguir o caminho da violência em detrimento de poder ter uma profissão e uma vida digna. Aos poucos falei-lhe dos irmãos mais novos que o deveriam ter como referência positiva e não negativa e aos poucos foi retirando a máscara e senti as lágrimas caírem-lhe do rosto. Ser professor de uma criança desta não é fácil, felizmente só tive que conviver com ele na sala do castigo.

Voltando ao livro e a Fernando Alva. Várias vezes no seu livro ele faz referência à importância da família, para si no seu crescimento enquanto ser humano e a sua importância para superar os diversos obstáculos que a vida lhe coloca. Ir a casa no período de férias é uma terapia que Fernando Alva não dispensava.. Após um período de férias Natalícias escreve um excerto um muito interessante. Cito (p 18) “De regresso à ilha Terceira, com os pés ainda presos às raízes nativas. O que trago de mais significativo? Os diálogos com os meus pais, à  volta da mesa, junto à magia da salamandra, num dos recantos da sala onde esteve um dia amortalhada a minha avó materna. (…) O diálogo com uma senhora de 85 anos, na Bobadela em Oliveira do Hospital. Mas…. acima de tudo, o regresso da família, o sorriso escondido dos meus pais e a tranquilidade da minha terra de sempre que trago camuflada nas profundezas da minha alma (…).
Num excerto mais à frente o autor aborda a chegada à ilha após as férias da Páscoa, onde este se refere mais a importância do período da pausa escolar.
Cito (p. 38) “ Primeiro dia de aulas do terceiro período. Regresso à selva, depois de quase duas semanas na segurança que só a casa materna me pode dar. Existem determinados ambientes onde nos tornamos imunes a quase tudo, até mesmo à vontade de trabalhar! Que santuário….”
Cito (p. 37)
Pirâmide invertida
O chão em que nascemos
Dita onde chegamos.
Poucos são
Os que escapam
À terrível condição
Onde se enraízam.
Afinal, quase tudo se resume
A laços”

Conhecermo-nos a nós próprios é fundamental para crescemos de forma segura. A família deve ser o elo de ligação ao passado e a nossa segurança para nos desenvolvermos enquanto cidadãos no futuro.

Cito (p.39)
“Cicatrizes
As memórias que herdamos,
Onde também nos agarramos
(Quem disse que o mar não tem cabelos?).
Que o os pais deixam os filhos.
Memórias, imagens que vagueiam
Na fossa mais profunda
E iluminam,
Em cada esquina da vida.

Mal sabemos
O que escondemos
Para lá da gestação
De multidão
Onde nos escondemos
E procuramos.
Ah, tanto devemos
E mal-agradecemos…
Quanto perdemos as estrelas
Todas as luzes se apagam.
Depois, apenas permanecem memórias
Cada vez mais fragmentárias."

Cito p. 66
"Apagadores
Sempre que tentamos silenciar
O passado
Acabamos por silenciar
O futuro do nosso lado"

Ter uma família e um passado seguro é algo que infelizmente muitas crianças e adultos não têm, daí há uma pequena explicação para muitos dos seus atos.
Como já indiquei na primeira parte do meu texto informativo sobre esta obra, Fernando Alva é professor de Educação Especial e fala disso de uma forma positiva salientando a importância para a sua formação enquanto pessoa.Cito p. 44" Saltitar de disciplina em disciplina, de matéria em matéria em matéria, a procurar apoiar alunos com graves dificuldades de aprendizagem nos mais variados domínios tem-me ajudado bastante a identificar as principais causas que motivam as elevadas taxas de insucesso académico das nossas crianças e jovens. Todos os candidatos a políticos deveriam ter a humildade de passar pelas salas de aula, antes de abrirem a boca para dizer o que quer que fosse a respeito da educação.Aí sim compreenderiam melhor o extraordinário e ingrato trabalho desenvolvido pela maioria dos professores portugueses."

A família é de facto algo essencial para uma criança crescer saudável quer física e mentalmente. Vou redigir um poema escrito por Fernando Alva onde ele refere um menino que infelizmente não teve a sorte de ter um seio familiar.

Cito p. 26
"Aparências
Menino de  unhas sujas
Sem ninho
De carinho onde possas adormecer
Depois de ler
O brilho de imaginar
O sabor do lar.
Olha-me por dentro
Neste último encontro
E liberta o sorriso
Gostoso
Que um dia nasceu
Quando o meu vazio
De silêncio
Te conheceu.
O resto já não interessa,
Mas ele permanecerá.
Até sempre, meu menino"

Para concluir esta exposição sobre a família vou narrar uma história descrita pelo autor onde este expressa o contacto e o diálogo que manteve com crianças na ilha Terceira.
Cito p. 78 e 79 "Um dos meninos que o destino parece amaldiçoado segredou-me que gostava de ir à Igreja , depois da escola. Perguntei-lhe se rezava. Respondeu-me que não, que nem sequer pensava. E eu voltei à carga:
- Então...e depois?
- Depois sinto uma mão na cabeça.
Vim para casa a pensar que um menino de 11 anos nunca deveria conhecer o sabor do abandono .

Outro jovem, com cerca de 13 anos, ouviu-me declamar, com inenarrável  entusiasmo, O menino de sua mãe, de Fernando Pessoa. Depois fomos explorando estrofe a estrofe, num crescendo dramático de dúvidas e inquietação. Quase no fim perguntou-me:
- A mãe queria que o menino voltasse?
- Pois queria.
Avançamos na leitura e na última estrofe:
- Mas o menino já era grande?
- Para as mães, os filhos são sempre pequeninos- silêncio
- Mas o menino nunca voltou, pois não?
- Pois não.
E eu vi, vi uma lágrima cair-lhe lentamente do rosto. Os relatórios dizem tratar-se de um menino com Perturbação do Expectro do Autismo. E sinceramente, neste momento, isto pouco ou nada interessa.

Poesia, que poderosa chave para abrir corações. Até mesmo daqueles de quem tantas vezes estupidamente se diz que não têm emoções e são frios como pedras."

E com esta história termino o tema família ou a falta dela, tão bem narrado neste livro.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Pedra após Pedra - A Palavra Diário I (2012-13)- Fernando Alva (I- Educação Especial)


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No final de Fevereiro ou inicio de Março irei fazer a apresentação do 2º livro do diário Pedra após pedra do  meu grande amigo Renato Nunes ou Fernando Alva como ele se intitulou neste diário transcrito nos Açores.

Fernando Alva, apesar de nascido em França, foi muito novo para Vila Franca da Beira (Oliveira do Hospital), considerando a Beira alta a suas raízes.  O heterónimo é a sua homenagem ao rio alva, um rio que vai desaguar num dos principais rios genuinamente portugueses, o rio mondego e a diversos Fernandos que o marcaram o autor ao longo da sua ainda curta vida. Fernando Valle ,um histórico fundador do partido socialista, Fernando Pessoa, o poeta português que ficará para a eternidade e o jovem Fernando Eugénio abruptamente ceifado pela morte aos 13 anos.

Fernando Alva é professor de História que enveredou pelo Educação Especial como forma de ingressar numa carreira e profissão muito exigente mas que o preenche, alimenta e ajuda-o e enriquecer a sua memória. O primeiro volume do diário que já está disponível intitula-se  de “Pedra após pedra”, recua aos anos 2012 e 13, onde o autor esteve  a lecionar nos Açores, mais concretamente na ilha Terceira.
Fernando Alva intitula-se poeta da solidão e do silêncio. No isolamento e insularidade do arquipélago o professor encontrou nas palavras e nas letras, um refugio, um sinal de sobrevivência numa sociedade e num meio muito peculiar.

O próprio nome do livro leva-nos a pensar nas inúmeras pedras que passam pelo nosso caminho e que temos que as ultrapassar, tantas vezes com imensas dificuldades.  Parafraseando o autor (p.7)“ Pedras afiadas que magoam por vezes, fazem mesmo sangrar. Mas que ninguém se iluda pois é sobre as pedras afiadas que se aprende a ver um pouco melhor, nessa longa caminhada trágica e irónica que é a vida”.

Quando lia o livro lembra-me das conversas que tivemos os dois, onde aprendemos  imenso um com o outro.  Na profissão de professor devido ao contacto que mantemos com pessoas tão diferentes crescemos e aprendemos tanto com os alunos, colegas, pais ou simples moradores da localidade onde estamos. Aquando da leitura do livro foi impossível desligar-me da minha experiência pessoal onde partilho a mesma profissão. Nos dias de hoje com a quantidade de tarefas a que estamos sujeitos  temos obrigatoriamente de seguir o nosso caminho e a acreditar mesmo naquilo que pensamos, caso contrário somos “engolidos” de forma voraz pela sociedade. Fernando Alva salienta a importância de pensarmos pela nossa cabeça. Cito (p.8) “Que o leitor se indigne, conteste ou condescenda. Mas que ouse sempre pensar pela sua própria cabeça e se liberte das mais potentes amarras que podem existir, os medos que nós próprios alimentamos com as vísceras da ignorância e da cobardia. Tudo o mais diz respeito ao autor destas palavras seja ele quem for”.

Não sendo professor de Educação Especial não consigo perceber na totalidade as dificuldades que estes alunos sentem. Nas últimas décadas houve um maior reconhecimento sobre a importância de reconhecer e integrar estas crianças na sociedade. Sobre isto gostava de passar uma conversa  tida numa reunião, onde uma professora de educação especial quando confrontada com as inação de colegas perante um aluno com  muitas dificuldades de aprendizagem, esta disse mais ou menos assim” Se ele fosse vosso filho gostavam que ele fosse tratado assim, ele é um ser humano que teve a infelicidade de nascer diferente”.  Esta frase fez-me pensar. Nos dias de hoje gerir uma turma com alunos sem dificuldades de aprendizagem por si só já não é uma tarefa fácil e quando é integrado um aluno diferente que mal sabe ler, questiono o papel que nós podemos ter para o integrar e o fazê-lo crescer como ser humano.  Sem dúvida por vezes sentimos que não temos formação para fazer face à crescente complexidade da profissão.

Voltando ao “Pedra sobre pedra” de Fernando Alva queria realçar o trabalho que tem sido feito nas escolas perante as crianças com dificuldades de aprendizagem, no entanto ainda há um longo caminho a percorrer. Numa das suas idas à biblioteca local de Fernando Alva dá entender as dificuldades que a sociedade tem para integrar estes seres humanos. Cito (p.15) “Na Biblioteca local (Praia da Vitória), pode ler-se na estante : 376. Ensino Especial , Analfabetos e deficientes. Rastos ideológicos de um passado que pensamos distante, mas que, na realidade continua bem dentro de nós.”  

Aprendemos tanto com as crianças mesmo diferentes ou com menos capacidades. O ensino tem que mudar em duas vertentes: perceber melhor as motivações das crianças e as crianças perceberem melhor a importância da escola. Cito uma passagem do livro onde o autor se refere a uma menina dita problemática pela sociedade (p. 22)  “Uma menina de 11 anos dessas consideradas pelo sistema como terríveis -, a frequentar o 7º ano vem à frente da sala apresentar o mais conhecido livro de Antoine Saint – Exupéry e deixa-me a bocas aberta com apenas duas frases : Às vezes nós vivemos num monte de palavras e neste eu senti um principio, um meio e um fim, uma história e isso é tão raro”; Nós precisamos de várias mensagens para viver. Eis aqui condensado o sentido da literatura trazido por uma das piores alunas da turma  (assim diz o sistema)
E sinto vergonha de mim”.

Dado a complexidade e a quantidade de temas que podemos aprender e trabalhar neste livro. Eu  deixo-vos aqui a minha primeira abordagem que espero que tenham a curiosidade de ler. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

As Areias do Imperado uma trilogia Moçambicana Mulheres das Cinzas (Volume I)


O primeiro volume de Areias do Imperador, intitulado por Mia Couto "Mulheres das Cinzas".
Optei por me afastar da inúmera informação que existe na internet sobre o primeiro volume desta trilogia, para dar na íntegra o meu cunho pessoal ao livro que acabei agora de ler.
Mulheres das cinnza é um livro que retrata a conquista de Gaza (região localizada a Sul de Moçambique)  por Mouzinho de Alburque no final do século  XIX, região governada pelo Imperador Ngungunhane que liderava a força Vátua que se opunha à presença portuguesa em Moçambique.







O início da trilogia gira em torno de uma aldeia com o nome fictício assim como as suas personagens

A coroa Portuguesa com uma economia frágil não conseguia fazer face à defesa de um país tão extenso com é Moçambique e a região de Gaza constituída por inúmeros povoados foi conquistada pelo imperador de Gaza (Ngungunhane) que se aproveitou das fraqueza da coroa portuguesa.

As personagens da aldeia de Nkokolani são o avô Tsangatelo, o pai Katami, a mãe Chilkazi e os filhos Iami, Dubula e Mwantu são uma família abastada quando comparamos com os restantes habitantes da aldeia.

Tsangatelo e Katami eram pessoas muito respeitadas na aldeia com uma clara ligação à coroa portuguesa. Os membros mais novos da família, apresentavam características muito diferentes, pois enquanto  Dubula  era rebelde e lutava a favor do imperador, Mwantu por ter uma personalidade mais frágil optou por defender a coroa portuguesa. Iami a mais jovem da família apresentava uma estreita ligação à família e aos hábitos e costumes da aldeia.
Tsangatelo era conhecido por ser o mensageiro e comandante de um conjunto de homens no transporte de correspondência, marfim pratas e outros viveres que lhes eram solicitados. Acontece que numa dessas viagens Tsangatelo demorou um pouco mais do que o previsto e sua mulher não conseguiu pagar à coroa portuguesa os impostos devidos. Como consequência do incumprimento  o Governo Português levou a esposa de Tsangatelo para pagar a dívida e apesar do seu regresso e do pagamento da dívida esta nunca mais foi vista.

De uma forma intempestiva Tsangatelo partiu para a África do Sul em direção às minas de diamantes, contrariando a opinião da família que considerava o trabalho muito duro para um homem de 70 anos. Tsangatelo nunca mais foi visto na aldeia após a sua partida para a África do Sul sendo dado como morto.

Katami trabalhava na agricultura e era perito na realização de tarimbas um instrumento africano. Certo dia a coroa portuguesa solicitou a Katami que este transportasse armas para os portugueses que se encontravam em Lourenço Marques, tarefa essa que nunca foi bem aceite por sua mulher Chilkazi que considerava que essas armas iriam destruir a sua aldeia.

Portugal para o domínio das suas colónias enviava governadores que eram pessoas instruídas que eram contra as ideologias vigente e como punição, eram condenados a ir para as colónias fazer a ligação com as comunidades locais e dar-lhes a entender as mais valias da presença do Governo Português em Moçambique. Neste caso foram Sardinha, Fragata e Germano de Melo. Sardinha teve um final trágico dada a afinidade que ganhou com as comunidades locais perdeu as ligações a Portugal e a sua permanência em Moçambique já estava a ser prejudicial a Portugal. Sardinha percebeu do descontentamento do governo e devido ao isolamento e pela situação frágil em que se encontrava suicidou-se com a espingarda que trazia consigo.

A personagem mais retratada na História através de inúmeras cartas foi  Germano de Melo que comunica ao General Português que comanda as tropas em Lourenço Marques a situação de fragilidade que vivia e a importância da escrita para ajudar a passar o tempo a que estava condenado. Germano de Melo manteve uma ligação com os habitantes da aldeia de  Nkokolani sendo Mwantu o seu guarda costa e Iami pelo seu português fluente, sua cúmplice, enfermeira e a mulher que lhes satisfez os seus desejos. Germano de Melo dada a cumplicidade que ganhou com  Iami chegou a prometer-lhe algo que se veio a revelar fatal, pois disse-lhe que a Coroa Portuguesa defendia a aldeia perante o Imperador o que não veio a acontecer. Os vátuas e outras forças rebeldes invadiram a aldeia queimaram as casas,colheitas agrícolas, violaram e mataram mulheres e homens sem que a coroa portuguesa não fizesse qualquer oposição.
Iami ficou muito desalentada e revoltada com Germano de Melo e com os portugueses por este não terem agido perante o ataque dos vátuas. Desorientada deslocou-se perante um amontoado de mortos à procura do seu irmão Dubula que veio posteriormente a confirmar a sua morte.
A mãe de Dubula em consequência do ocorrido ao filho e à sua aldeia decide suicidar-se enforcando-se numa árvore.
O 1º volume desta trilogia termina com a vingança dos locais perante o português Germano de Melo.
Germano de Melo numa situação de fragilidade e perante a revolta dos locais tenta suicidar-se. Iami percebendo o ato irrefletido do governador e sem querer disparou uma bala que ocasionalmente lhe acertou na mão ferindo-o gravemente.. Em consequência da falta de médicos Iami e Bianca uma viajante Italiana que estava a fazer companhia ao Governador e que veio a Moçambique à procura de Mouzinho de Albuquerque, foram de barco à procura do único médico que existia na aldeia que podia salvar Germano Melo.
As últimas páginas do primeiro volume retratam a chegada de Mouzinho de Albuquerque a Moçambique, e mais tarde veio a ter um papel importante no fim do Império de Gaza, factos que suponho vão ser narrados nos próximos dois livros


segunda-feira, 15 de julho de 2019

Livro de Poesia "Pedra após pedra"- Fernando Alva



Livro escrito por Renato Nunes que adquiriu como heterónimo Fernando Alva.
Comprem o livro e se puderem vão à sua apresentação no próximo dia 20 de Julho em Santa Iria da Azoia.
Fica o convite!!!

sábado, 30 de março de 2019

A romancista da ALDEIA DOS VENTOS


Ermelinda da Silva (1922-2019) foi uma escritora autodidacta de Vila Franca da Beira, que subiu a pulso a “íngreme cordilheira das letras”. No total, deu à estampa quatro obras: Da Realidade à Fantasia (1988); Sofia – A mãe solteira (1992); A Toutinegra do Moinho (1999) e A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora (2006).
            Filha de um agricultor e de uma mulher que se dedicava aos afazeres domésticos, foi profundamente influenciada por um avô, que lhe passou precocemente para as mãos um dicionário ilustrado que a jovem passou a ler de fio a pavio, como se de um autêntico romance se tratasse. Poupada às lides agrícolas, acostumou-se, como fazia questão de recordar, a ouvir o povo tratá-la por fidalga.
            Na década de 30, já depois de concluir a 3.ª classe, preparou-se, sob a orientação da professora Clarisse, para o temido exame da 4.ª classe, acabando reprovada “devido aos problemas aritméticos”. Casou-se em 1946, cerca de um ano após o fim da II Guerra Mundial, com Manuel Abrantes, mais conhecido como “Vidal” (1920-2012). Nesse mesmo ano, o casal teve o primeiro e único filho, que ainda hoje lá na aldeia todos conhecem simplesmente como Vidal.
            Segundo a própria narrou, em entrevista gravada em 2017, teria começado a escrever devido a um episódio dramático, mas relativamente comum na primeira metade do século XX: a inesperada gravidez de uma rapariga solteira. Este acontecimento, que implicava um estigma profundo para todas as mulheres que o vivenciavam, sobretudo nos meios rurais, deixou também marcas profundas em Ermelinda da Silva. Obcecada pelo sofrimento da jovem e pela “desonra” da família, Ermelinda passou a ter insónias frequentes e apenas começou a descansar um pouco quando decidiu verter para o papel uma versão romanceada daquele trágico episódio. A fazer fé no testemunho da romancista, esta teria marcado a sua primeira incursão literária, infelizmente destruída pela própria após o traumático falecimento do marido, já em 2012. É, porém, provável que o facto em causa tenha de algum modo sido recuperado quando redigiu Sofia – A mãe solteira, romance dado à estampa em 1992.
            Em 1948, o casal foi viver para o Porto, onde passaram a dirigir um restaurante. Ermelinda da Silva ocupava-se, fundamentalmente, da cozinha e aproveitaria todos os raros intervalos (até mesmo quando estava a fazer fritos!) para ir lendo: caso do extinto periódico O primeiro de Janeiro, mas também do romancista histórico António Campos Júnior (1850-1917), com A ala dos namorados e A rainha madrasta. Depois chegou mesmo a alugar livros, que ia religiosamente lendo todos os dias, como se de uma obrigação se tratasse. Em 2017, com 95 anos, a minha conterrânea Vila-Franquense continuava a recordar-se destas leituras, quase como se as tivesse concretizado na semana anterior.
            À semelhança do que já tive oportunidade de escrever (prefácio à reedição da obra Da Realidade à Fantasia, em 2016, pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital), todos temos pais espirituais, além dos biológicos. Para mim, Ermelinda da Silva foi a minha “mãe” espiritual. A partir daqui, tudo o que eu possa dizer será necessariamente escasso para reafirmar a admiração que tenho pela extraordinária autodidacta, com a qual descobri uma das maiores lições da vida, quiçá mesmo uma das mais árduas de concretizar: a importância de aprender a ouvir os outros, antes de tentar dizer ou escrever o que quer que seja.
            Ermelinda da Silva predispôs-se, sobretudo, a ouvir o povo, ao qual foi colher uma grande parte da matéria-prima para escrever as suas obras. Algumas delas, segundo penso, mereciam mesmo uma projecção nacional, caso do romance A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora, que abre de um modo magistral: “Seguramente o pensamento de Zé Luís era um caminheiro sem destino, ou seria como pêndulo de relógio no seu toque, toque”. De resto, prosseguindo o esforço cultural que a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital tem vindo a desenvolver nos últimos anos, acredito que seria de todo pertinente proceder a uma reedição, pelo menos, da referida obra, garantindo, no entanto, que a mesma fosse previamente expurgada de gralhas e outros lapsos que, lamentavelmente, integraram a 1.ª edição.
Trata-se – não será despiciendo afirmá-lo – de uma autora progressista, sempre preocupada com os leitores, nomeadamente os mais jovens, aos quais, de resto, sempre procurou infundir uma mensagem de esperança e de valorização do estudo e do trabalho. As personagens dos seus livros aparecem insufladas de um tal humanismo, que não podem deixar de parecer-nos familiares. Personagens tão reais que, por vezes, temos a impressão de poder tocá-las nas nossas deambulações quotidianas. A título ilustrativo, atente-se nesta fala da personagem Adriana a Zé Luís, inserta na obra A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora: “– Solta-te pá, vamos curtir. Não me digas que ainda és virgem? Se assim for, não sabes o que é um beijo profundo, sensual, caraças, nunca tiveste uma experiência amorosa?”. São, pois, feitas de carne e osso todas as personagens ressuscitadas por Ermelinda da Silva, mas sempre caldeadas pelo denso nevoeiro em que habita a imaginação; véu sem o qual, aliás, toda a vida se tornaria insuportável.
Ermelinda da Silva era uma mulher divertida, emotiva e muito atenta aos detalhes. Uma mulher que manteve uma lucidez e uma tremenda vontade de aprender praticamente até aos últimos instantes da vida e que, também por isso, procurou estabelecer laços sociais, sobretudo, com pessoas que a ajudassem a adquirir novos conhecimentos. Sempre pronta para uma boa conversa, em redor de um chá com bolinhos, mostrava-se uma interlocutora acutilante e incisiva nas suas críticas ao Homem e à sociedade. Privou de perto com nomes como Tarquínio Hall (1915-2002) e Manuel Cid Teles (1911-2009), que chegaram a buscar a companhia da sua família, em Vila Franca da Beira.
Tive o raro privilégio de frequentar a sua casa e assistir quase em directo ao acto da criação literária no seu escritório franciscano. Quando decidi entrevistá-la, em 2017, para além das notas que fui escrevinhando no caderno de capas pretas que sempre me acompanha, optei por colocar em cima da mesa o gravador. E em boa hora o fiz, pois recordar a sua voz continuará a ser pela vida fora uma maneira de ir matando saudades da melhor romancista que algum dia tive oportunidade de conhecer. Uma Amiga, com a qual aprendi muito; uma mulher que apenas concluiu a 3.ª classe e, sacrificando o próprio património familiar, perseguiu o sonho de tornar-se escritora, numa terra (num país) onde poucos são aqueles que lêem ou revelam verdadeiras preocupações culturais. Uma mãe e esposa muito dedicada aos seus, acompanhada ao longo de quase sete décadas por um homem (Manuel Abrantes “Vidal”) que, numa sociedade ainda profundamente machista, soube compreender desde muito cedo as aspirações culturais da esposa e tudo fez para ajudar a concretizá-las.
            Deixo-vos apenas com algumas das lições que fui colhendo de Ermelinda da Silva. Haveria outras, muitas, mas estas são apenas algumas daquelas que fui escrevendo e registando. A sua mensagem é mais vasta e continua viva nas obras que editou. Vale a pena marcar um encontro com as palavras que nos legou.

            I – “O povo é poeta, transpira poesia, e nem se dá conta disso”;
            II – “Não somos todos iguais”;
            III – “Estudar também é trabalhar, faz suar”;
            IV – “O amor é perdão”;
            V – “Rasguei tanto, tanto! Andei à deriva como um barco, mas teimei e avancei”;
            VI – “É forçoso ler e escrever. Também é uma forma de fugir às futilidades”;
            VII – “Os dias mais felizes da minha vida: o casamento (a minha mãe abraçou-
-se a mim a chorar de alegria, assim que saí da capela); o dia em que nasceu o meu filho e quando editei o meu primeiro livro”;
            VIII – “O povo está deslumbrado”;
            IX – “Quem quer escrever tem de ler. Ler muito e ouvir o povo. É preciso auscultar o povo”.

Analisada à luz das suas circunstâncias, Ermelinda da Silva é, sem margem para dúvida, uma lição de vida. Por isso, bem merecia outro texto de maior fôlego. Esta foi apenas a homenagem possível a uma autora que me marcou profundamente. Uma Amiga, à qual sempre ficarei grato.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A recompensa

Todos os domingos, depois da missa matinal, os garotos lá da aldeia juntavam-se no clube para jogar matraquilhos e roubar um beijo às gaiatas. Ricardo, porém, raramente brincava com os seus colegas e, cerca de uma hora antes de amanhecer, partia com o pai na icónica 4L castanha, em direcção ao rio Mondego.
Naquele tempo, já lá vão mais de 30 anos, o pimpão vermelho inundava as águas ainda límpidas e os pescadores ansiavam por chegar a casa com o balde cheio de barbatanas-vermelhas para reclamar junto das patroas o suculento molho de escabeche. Esse manjar dos deuses, que os beirões de outros tempos conheciam como ninguém.
Ricardo fez-se poeta junto às margens do Mondego, para onde fora arrastado, tantas vezes quase a dormir, durante anos a fio. Aqueles que já assistiram ao nascer do sol, sentados ao lado das águas serpenteantes, dificilmente poderão esquecer esses momentos sagrados. À medida que o negro da madrugada se dissipa, o rio assume a forma de uma envergonhada noiva que, lentamente, vai despindo o véu, até desnudar a cara. O frio gela-nos o sangue, mas o silêncio é tão profundo que a eternidade parece revelar-se mesmo ali à nossa frente. Então, encobertos por uma espécie de cápsula do tempo, tornamo-nos imunes a quase todas as tragédias.
O pescador – diz a gíria popular – é, habitualmente, um efabulador (repare-se que não digo mentiroso):
“– Ontem, apanhei um achigã com 20 kg!” – e os companheiros, sabedores das manhas da faina, lá relativizam os números, enquanto os mais desprevenidos ficam de queixo caído, pensando num tal enigmático monstro das águas subterrâneas Porém, o pescador é também, vulgarmente, um dos mais introspectivos seres que poderemos encontrar à face da Terra. Verdadeiro filósofo, atrever-me-ia mesmo a concluir.
Para compreender Ricardo era forçoso tomar em consideração as intermináveis horas que este passara junto ao rio, a ouvir o seu silêncio corrente. Verdade seja dita que ele nunca foi um grande pescador. Distraído como era, raramente pressentia a bóia a afundar-se nas águas profundas e, por isso, quando, finalmente, despertava para a realidade já o peixe comera as iscas colocadas no anzol: bichos das mais variadas espécies, trigo, milho, massa ou até, imagine-se, pão, cuidadosamente repartido em pequenas bolinhas. É certo que o pai bem tentava dar-lhe uns carolos, para ver se o acordava para a realidade, mas o raio do rapaz raramente conseguia concentrar-se na pescaria. Poucos minutos depois de ter a cana na mão, já a sua cabeça viajava para outros continentes e planetas longínquos, sendo quase impossível trazê-lo de volta.
Era, precisamente, no momento do regresso a casa que Ricardo mais sentia o abismo que o separava dos seus pares. Os outros transportavam os baldes repletos de peixe, enquanto Ricardo raramente se estreava. Nesses instantes em que todos comparavam os troféus, o pai castigava-o severamente, humilhando-o em frente aos colegas. E nada lhe doía mais do que aquelas terríveis palavras, para sempre inscritas na alma:
“– Não vales nada. Todos tiram peixes, menos tu. Olha para esse balde… vazio como a tua cabeça”.
Fruto das suas circunstâncias, Ricardo passou então a tornar-se um menino cada vez mais triste e solitário. Tão triste e solitário que, por vezes, apenas o rio lhe servia de consolo. E foi muitas vezes ao rio que ele confiou a sua história e o terrível drama em ser tão distraído e diferente.
O menino não sabia (como poderia imaginá-lo?), mas era um poeta e um aprendiz de filósofo. Interessado em tudo o que o rodeava, imaginava-se a cavalgar em cima das nuvens, convocava todos os seres das profundezas do rio e quando menos se precatava já estava a léguas e léguas de distância, confiando ao infinito as mais surpreendentes perguntas.
Um dia, já lá vão mais de 30 anos, Ricardo chegou ao Mondego ainda mais triste do que o habitual. A sua mãe acabara de falecer e um vazio profundo apoderara-se-lhe do espírito. Por isso, naquela madrugada, ao contrário do que sucedia nos outros dias, Ricardo abandonou a cana junto às margens, em cima de um salgueiro, e sentou-se a contemplar silenciosamente o vazio das águas. As lágrimas escorriam-lhe pela face, caindo nas mãos e alagando-as torrencialmente. Sozinho, afastado dos demais, o menino confundia-se de tal modo com a paisagem, que até os guarda-rios se aproximavam dele e as distraídas rãs vinham aninhar-se a seu lado, a coaxar demoradamente.
Naquele dia, foi apenas a poucos instantes do regresso que Ricardo decidiu colocar uma minhoca no anzol e atirar a linha para a água. Contudo, assim que o fez, a bóia deu um violento tropeção, afundando-se imediatamente nas profundezas. De imediato, Ricardo imprimiu um pequeno esticão na cana e começou a recuperar lentamente a linha. Depois, quando o peixe estava mesmo a chegar à beira, o menino levantou o braço. Sem compreender muito bem como, viu então um enorme barbo, de longos bigodes e boca profundamente escancarada, a saltitar no chão. De cá para lá, de lá para cá… enquanto o tempo parecia ter parado.
Ricardo olhou demoradamente o majestoso peixe e sorriu. Do outro lado, chegavam, entretanto, os primeiros vultos espantados com o tamanho de tal gigante a estrebuchar em terra. Foi a primeira vez que o menino conheceu o orgulho de ter alcançado algo admirável.

Há muitos anos, alguém me disse que o rio ouve sempre o que lhe segredamos. Por vezes, sempre em silêncio, sacrifica mesmo alguns dos seus filhos para recompensar com um sorriso os que mais sofrem, apesar de nunca termos aprendido a respeitá-lo.
Vale sempre a pena regressar às margens do rio da nossa infância para escutar a voz que nos habita nas mais recônditas profundezas da alma… Afinal, são esses locais sagrados – autênticos santuários – que ainda nos podem salvar, não só enquanto indivíduos, mas enquanto Humanidade.

Mondego
Águas da meninice
Vinde agora ouvir-me,
Afinal, tudo o que já disse
Foi este rio a contar-me…
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)           

domingo, 30 de setembro de 2018

Cid Teles, a cigarra do Triste Fado (Notas conclusivas)


Notas conclusivas
            Quando Cid Teles faleceu, em 2009, tinha já completado a provecta idade de 98 anos. Apesar de ter nascido em Tábua, em 1911 (ano em que também nasceu o neo-realista Alves Redol), e de durante vários anos ter acompanhado os pais nas suas deambulações profissionais por várias regiões do país (Grândola, Santiago do Cacém, Montijo, Viseu, Lamego, Porto e Matosinhos), foi em Oliveira do Hospital que acabou por radicar-se, por volta dos anos 40 ou 50 do século passado. Nesta (actual) cidade passou cerca de seis décadas, fazendo parte do seu percurso diário, além da casa, junto ao Largo Ribeiro do Amaral (na rua que dá acesso à Caixa Geral de Depósitos), os cafés “Jardim” e “Portugal”, bem como a extinta pastelaria “Olipão”, onde gostava de reunir-se com os amigos para as recorrentes tertúlias.
            Cid Teles foi, sem qualquer dúvida, uma das figuras mais icónicas, pelo menos, da sede do concelho de Oliveira do Hospital. Os seus longos e precoces cabelos brancos, com um sereno porte de matusalém, dificilmente passariam despercebidos aos transeuntes. Ao longo da vida, teria desempenhado, sobretudo, funções relacionadas com as suas vocações artísticas: compôs letras musicais, peças de teatro, contracenou com vultos nacionais dos palcos (v.g., Manuel Lereno, 1909-1976), dinamizou vários programas radiofónicos, nomeadamente na Rádio Boa Nova e na Emissora Nacional.
            Estreou-se aos 21 anos, com a obra As minhas quadras, contando com o apadrinhamento literário de Fausto Guedes de Teixeira, poeta de Lamego que enviou a Cid Teles um soneto da sua autoria, para figurar na obra de estreia. Um soneto, cuja versão manuscrita, ainda hoje pode ser consultado na Fundação Maria Emília Vasconcelos, em Oliveira do Hospital (um local de paragem obrigatória para todos aqueles que se interessam pela cultura da região).
            Pianista, pintor autodidacta, ensaiador de grupos de teatro e de ranchos folclóricos de várias regiões do concelho oliveirense (caso do Rancho Folclórico Infantil da Casa do Povo de Midões, do Rancho Folclórico de Alvôco das Várzeas e do Rancho Folclórico de Santo António do Alva), Cid Teles, apesar de ter cultivado uma vida algo solitária, nem por isso deixou de consagrar a vida aos outros e, em particular, à cultura do concelho.
Várias das suas quadras e sonetos foram editados, pela primeira vez, em jornais locais, caso da Comarca de Arganil. Aprendeu a tocar piano com a mãe (Alzira de Matos Cid Teles), depois ele próprio ensinou, durante algum tempo, música no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas e deu lições de canto coral. A fazer fé nas suas próprias palavras, costumava dizer aos alunos que quando “as coisas não são feitas com carinho e amor, não valem nada”.
            Vista no seu conjunto, a obra de Cid Teles é multifacetada, pese embora o facto de as áreas temáticas serem relativamente reduzidas e até mesmo atravessadas pela repetição de algumas ideias nucleares. Por detrás de uma aparente simplicidade (o difícil na vida é ser simples), esconde-se uma filosofia de vida ancorada num percurso solitário, instrospectivo e com certo pendor existencialista. Um conjunto de lições que bem reclamam um reencontro dos leitores, sobretudo dos jovens estudantes do concelho, com a obra telesiana.
            Como teve oportunidade de concluir o professor, maçon e oposicionista ao Estado Novo Manuel Monteiro, num artigo dado à estampa na Comarca de Arganil, em 9 de Maio de 1959, “o poeta do «Sou como Sou», com uma aparência física sólida, bem conformada, tranquilidade nos modos, nos gestos e nas feições, no espiritual dá estes binómios engraçados: inquietação-conformismo, angústia-
-serenidade, revolta-pacificação”.
            Enfim, um mundo de contradições, que reflectem o carácter inconstante, inconformado e rebelde do indivíduo e que também nos ajudam a compreender a aura de mistério que sempre pairou sobre a sua personalidade. Um homem que todos conheciam, mas com o qual poucos tiveram o privilégio de privar na intimidade. Atentem-se nestas palavras, que fazem parte da obra Chuva de estrelas:

Eu vivo comigo mesmo
Em louca contradição:
Se digo não… penso sim,
Se digo sim… penso não!

            Cid Teles preferiu desde muito cedo o contacto com os mais idosos. Durante a infância e grande parte da adolescência, as dificuldades em criar relacionamentos interpessoais com os seus pares, em virtude das constantes deambulações profissionais do pai, tê-lo-iam levado a passar muitas horas sozinho e, nessa sequência, a adquirir uma maturidade invulgar para a sua idade, bem como o gosto pela poesia. A sua facilidade em versejar era tal que o pai, autor do Livro do coração (ao qual António Nobre, o autor do “livro mais triste que há em Portugal”, teria dedicado a “Carta a Manuel”) teria mesmo afirmado: “Tu fazes versos com uma pá velha”. Uma curiosa expressão beirã, que apenas me lembro de ler nas obras do notável romancista e novelista beirão Aquilino Ribeiro. O contacto com a poetisa alentejana Florbela Espanca, em Matosinhos, bem como a leitura da sua obra, marcou-o profundamente.
            Acompanhou a doença e a velhice dos pais, do tio José Madeira Teles e da irmã Inácia, ela própria uma poetisa e professora no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas. A perda da família biológica (os progenitores morreram em 1945, com um breve intervalo de tempo) marcou-o de modo profundo, reflectindo-se essa tristeza, pessimismo e inquietação na sua obra poética e nas suas pinturas (sobretudo nas paisagens pintadas a aguarela), que chegou a expor na Casa da Cultura César Oliveira, em Oliveira do Hospital. Isto para já não falar na terrível experiência do envelhecimento, da solidão e da proximidade da morte, a respeito das quais demonstrava, sobretudo na fase final da vida, uma profunda consciência e sentido pragmático.
            Na obra Farrapos da minha vida, confessou ter vivido em função dos outros:

            No fim da vida em que estou
                Só agora compreendi
                Que vivi mais para os outros
                Do que para mim vivi.

            Mas Cid Teles, além do poeta do “Triste Fado”, também foi a cigarra, que levou alegria a tantos habitantes do concelho de Oliveira, durante anos a fio. Qual palhaço que sobe à cena e, nesses instantes, se esquece dos dramas da existência individual, Cid Teles foi um homem da cultura, do palco e do público. Quase todos o conheciam, mas uma auréola de mistério sempre pairou sobre a sua cabeça.
            Cid Teles, o poeta conselheiro, atravessado por uma amarga filosofia de vida que, por vezes, me recorda António Aleixo (1899-1949). Eis esta quadra do poeta oliveirense, eternizado nas suas Quadras Soltas:

Por uma estranha razão
Difícil de compreender,
São sempre os que mais sofrem
Que mais desejam viver.

            Palavras breves, que tantas vezes resumem décadas e décadas de amarga aprendizagem, como esta que inicialmente foi dada à estampa nos Farrapos da minha vida:

Numa quadra pequenina,
             Por magia feiticeira,
             Pode caber a razão
             Duma vida toda inteira.

            Cid Teles também foi, por vezes, o incisivo crítico social, como bem demonstra esta quadra inserta nos Farrapos da minha vida:

Há pessoas, sim, eu sei
Que há pessoas por aí
Que julgam saber dos outros
Mais do que sabem de si!

            Apesar de sempre ter afirmado que não gostava do que escrevia e de ter resumido a própria vida como o poeta do “Triste Fado”, importa, porém, reconhecer que Cid Teles viu, desde cedo, reconhecido o seu talento, pelo menos, no âmbito do concelho onde residiu a maior parte da vida, algo que nem sempre sucede(u) com grandes nomes da literatura nacional.
            Manuel Cid Teles teria perseguido uma certa independência política, evidenciando mesmo um certo alheamento em relação à mesma, pese embora o facto de ter vivido várias décadas sob o regime censório e repressivo do Estado Novo (1933-1974). Apesar de não ter assumido ao longo da vida uma intervenção política, desempenhou um inequívoco papel no domínio cultural do concelho de Oliveira do Hospital.
Cid Teles, um homem com uma inequívoca preocupação em relação à sua obra e à eternidade da sua mensagem. Através da sua correspondência pessoal, é possível comprovar que procurou oferecer os seus livros a personalidades consagradas da vida nacional, talvez também enquanto um meio de divulgar a sua mensagem e obter algum reconhecimento literário.
Aqui deixo, pois, algumas notas a respeito de um homem que conheci na fase final da vida. Não são mais do que alguns traços impressionistas a respeito dos percursos de um homem do palco, mas também de um indefectível solitário, que nunca casou e nunca teve filhos. Uma cigarra, que apesar de ter um “Triste Fado”, sempre procurou levar a cultura às gentes do concelho de Oliveira do Hospital.
Eis, por conseguinte, a homenagem possível a um poeta, que me marcou profundamente. Uma homenagem ao homem, com as suas virtudes e defeitos, as suas sombras e luzes, próprias, de resto, de todos os Homens. Esta é, por conseguinte, a minha homenagem a uma cigarra que, ao contrário do que é socialmente expectável e devido às circunstâncias favoráveis de que beneficiou do ponto de vista financeiro, não dedicou a vida, de um modo sistemático, a uma profissão propriamente dita (o seu feitio seria, de resto, pouco atreito a horários rígidos e a rotinas). Ainda assim, viveu em função de uma vocação artístico-
-literária e, malgré tout, conheceu a consagração local. Uma lição, com sabor a sátira, inserta na obra Canta cigarra, canta!:
Canta cigarra, canta, canta mais
E deixa lá falar essas formigas,
Que quando estás, te tratam como amigas,
Mas te censuram logo que te vais!...

A sua família, como tantas vezes me confessou, eram as suas gentes de Oliveira do Hospital, mas talvez a abertura da enigmática caixa confiada à guarda da Fundação Maria Emília Vasconcelos Cabral, que deverá conter elementos relativos à irmã de Manuel Cid Teles (Inácia), possa ajudar-nos a iluminar um pouco melhor esta matéria.




Capa da obra escrita por Inácia, irmã de Cid Teles

No momento em que escrevo, com a Serra da Estrela em pano de fundo e as obras do poeta em cima da secretária, o sentimento que me invade é de saudade e profunda admiração, perante uma cigarra que conseguiu cantar praticamente até aos momentos finais da vida (como se comprova pela grande qualidade da obra São restos, já editada a título póstumo, em grande parte graças ao trabalho notável de Maria Rosa Lobo Gonçalves). Despeço-me, invocando aquele que talvez represente um dos sonetos mais icónicos de toda a sua vida, dos percursos de um cidadão incontornável na História cultural do concelho onde passei a minha infância, grande parte da adolescência e ao qual regresso sempre que posso:

SOU COMO SOU
Sou como sou, e não me importo nada
Que este ou aquele não goste do que eu sou.
Sei o que quero, e aonde quero vou,
A passo firme e fronte levantada!


Amo essa mão estranha, ignorada,
Que do destino as linhas me traçou,
E dos outros diverso me tornou,
Dando-me esta alma inquieta de nortada!

Louco! Poeta! E que me importa a mim?
Tantos falando porque eu sou assim,
Tantos dizendo o que eu devia ser…


Sou como sou! E sinto até vaidade,
Quando posso gritar esta verdade:
Sou como sou, e assim hei-de morrer!

            Muitos outros aspectos ficaram ainda por iluminar a respeito de Cid Teles e, naturalmente, o estudo mais aprofundado da sua vida ajudará a encontrar as inevitáveis falhas de que enfermam os vários artigos que partilhei com o leitor ao longo das últimas semanas. Por isso, resta-me apenas pedir desculpa por essas falhas, agradecer a todas as pessoas que me facultaram informações e renovar os votos para que todos os leitores utilizem as incríveis potencialidades das Novas Tecnologias e partilhem também as suas memórias a respeito de Manuel Cid Teles. Afinal, todos os dados, depois de devidamente cruzados, poderão revelar-se importantes para figurar nesse roteiro histórico-literário concelhio que tanta falta nos faz e que talvez um dia possa ainda ser publicado. Manuel Cid Teles terá, por mérito próprio, de constar dele.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)