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sábado, 5 de junho de 2021

O Nosso Henrique - Autora do texto Lucinda Maria

Após ver a foto do Henrique na sua página do facebook da professora Lucinda Maria, imediatamente me cativou ler o texto. O Henrique era conhecido por todos em Oliveira do Hospital, mas infelizmente não teve a sorte de nascer numa família que o fizesse crescer  como merecia.  Ler o o texto trouxe-me súbitas saudades do Henrique.

Passo a citar:

" Era assim o Henrique, eterno menino de fala cantante… franzino…olhar vivo. Nascido no seio de uma família humilde e marcada pelo álcool, que ia sobrevivendo com algumas dificuldades financeiras. Lembro bem a casa rasteirinha onde viviam, lá para os lados da fonte do Rebolo. Vários rapazes e uma irmã, a mais nova. 

O Henrique não foi à escola… Tinha algumas dificuldades cognitivas, assim como outro dos irmãos, precisamente o que viveu com ele até ao fim. Penso que os outros ainda são todos vivos… casaram e têm a sua vida normal.



Ele calcorreava as ruas da nossa terra… e ajudava uns e outros… fazia vários trabalhos. Sempre prestativo… sempre simpático… sempre humilde. Uma altura, ajudou numa peixaria. Com uma caixa de peixe à cabeça, apregoava:

- Peixe fêco! Peixe fêco!

E a sua voz fazia-se ouvir como uma canção infantil…ingénua e genuína, como ele próprio. Havia quem pretendesse “gozar” à custa dele. Penso que esses intentos não eram bem sucedidos. A sua perspicácia segredava-lhe sempre uma resposta pronta que desarmava os “espertinhos”. Podia contar muitos episódios que atestam bem esta sua característica. Vou contar apenas um.

Recordo-me do Henrique. Lembro-me de na década de 90 o ver a vender cautelas nas ruas de Oliveira do Hospital. Via-o como uma pessoa pobre com uma deficiência mas humilde e sempre pronto a ajudar.

Vou citar um texto que Lucinda Maria, professora aposentada do 1ºciclo, mora no concelho de Oliveira do Hospital. A professora Lucinda dignou.se a escrever um texto sobre o Henrique que me ajudou a conhece-lo e provocou em mim subitas saudades do Henrique.  

Passo a citar o texto de Lucinda Maria

"Certa manhã, saía o Henrique da casa comercial Júlio dos Santos, todo contente e sempre de ar afável. À porta, cruzou-se com um senhor engenheiro cá da cidade, pessoa bem conceituada, que entrava no mesmo estabelecimento. Ao vê-lo, o nosso amigo estendeu a mão para cumprimentá-lo. Ele correspondeu, mas resolveu dizer:

- Estou cheio de sorte! 

Meio admirado, o Henrique perguntou:

- Então poquê, senhole engenheilo?

- Porque ainda é cedo e é a primeira mão de porco que aperto hoje!

Prontamente, sem pensar duas vezes, ajeitando o seu boné de pala quase a tapar-lhe os olhitos vivos, o nosso Henrique respondeu:

- Então, eu ainda estou com mais sote, poque já é a segunda!

Perante isto, o que dizer? O que pensar? Como terá ficado o senhor engenheiro? Desconcertado, certamente. 

Era assim o eterno menino. A mim, chamava-me “senhola pofessola” e, muitas vezes, tentou vender-me cautelas, com aquela sua lógica de que “Há horas felizes!”. É verdade, mas, infelizmente, não gosto de jogo. Penso que nunca lhe comprei nenhuma, mas também nunca fui sarcástica com ele… sempre o estimei… como merecia, de resto.

Um dia, partiu… sem que déssemos por isso… sem ele próprio dar por isso. A sua voz cantante deixou de ecoar nas ruas da nossa terra. Ou será que não? No fundo, ele ainda está aqui. 

Lucinda Maria"

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O Natal do tio Chedas


            À medida que os anos se acumulam nos ossos, maior parece ser a necessidade que os Homens sentem em recordar a própria infância. Num mundo em que tudo muda tão depressa, parece ser fundamental acreditar que, pelo menos uma vez por ano, ainda subsiste uma noite em que quase tudo continua a ser igual, sem, no entanto, nunca se tornar banal. É a noite em que o Menino volta a nascer dentro de cada um de nós...
            Talvez por isso, agora que o Natal se aproxima uma vez mais, dou por mim a recordar aquela época da meninice em que a minha avó São me puxava para junto da lareira e me contava as histórias mais belas que algum dia pude ouvir.
– O tio Chedas ― explicava-me a minha saudosa avó ― vivia numa gruta do Algar, bem lá no meio da floresta…
            ― Numa gruta, avó?!
            ― Sim, numa gruta, imagina! Não digas a ninguém, mas contava-se cá em Vila Franca que ele tinha ajudado a matar o rei Dom Carlos e, por isso, decidiu esconder-se por aqui. Quem me contou isto foi a tua bisavó Ana, pois eu ainda era muito pequenina quando tudo aconteceu …
            ― A avó também já foi pequenina?!
            ― Sim, meu tontinho, já fui. Há muitos, muitos anos…
            ― Ó avó, os polícias nunca prenderam o tio Chedas?
            ― Parece-me que não. A minha mãe contava-me que ele viveu cá até morrer e foi sepultado no nosso cemitério.
            ― Mas ele estava sempre escondido na gruta?
            ― Sim, sempre na gruta. Apenas existia uma altura do ano em que ele se arriscava a sair do covil…
            ― Era a noite dos lobisomens, não era avó?! ― interrompia eu, de tão ávido que estava com a chegada do sempre surpreendente desenlace, que a minha avó dramatizava ainda mais com o enigmático olhar das videntes.
            ― Não! Era a noite de Natal. Os lobisomens ficarão para outra história, uuuuuu
            ― A noite de Natal? ― perguntava eu, enquanto me continuava a desfilar pela imaginação aquele som do uuuuuu… Até hoje, nunca conheci ninguém que imitasse o vazio do medo tão bem como a minha avó.
            O tio Chedas ― como a avó São lhe chamava ― usava uma longa barba branca e coxeava ligeiramente. Embora eu nunca tivesse realmente acreditado que ele ajudou a matar o rei em 1908, certo é que ainda hoje, lá na minha aldeia nativa, existem pessoas que me asseguram que ele viveu na gruta do Algar, sempre escondido, tendo apenas como companhia os coelhos que ia criando e que depois se compadecia de matar para comer.
            Recordava-me a minha avó que todas as madrugadas do dia 25 de Dezembro o tio Chedas abandonava as galerias subterrâneas e vinha sentar-se junto à fogueira que ainda agora se acende no adro da capela. Depois de aquecer os pés e as mãos, caminhava solitariamente pelas gélidas ruas da povoação, revisitando cada casa adormecida na memória.
            Lá na aldeia, as pessoas passaram a conhecer-lhe esse ritual e habituaram-se a aguardar silenciosamente a sua passagem, espreitando-o por entre as frinchas das pedras. Nessa época de tanta fome, não havia iluminação, quer nas casas, quer nas ruas, e, por isso, apenas lhe pressentiam a sombra, cada vez mais contorcida e derreada pela caudalosa passagem dos invernos.
            Alguns conterrâneos, talvez porque a consciência lhes pesasse mais naquela altura do ano, começaram a deixar-lhe, pendurado nas portas, um saco com o pouco que lhes sobrara da ceia de Natal. A minha bisavó, que era forneira de profissão, guardava-lhe sempre uma côdea de pão de milho para que depois, algures pela madrugada dentro, ele pudesse fazer a consoada ao lado dos coelhos que criava, a única família que ainda lhe restava.
            Ao longo da meninice, ano após ano, fui ouvindo cada vez com maior espanto a fabulosa narrativa do tio Chedas e da sua enigmática gruta (ou mina, como tantas vezes ouvi dizer) no Algar. Ainda hoje, decorridas que são mais de três décadas, me arrepia só de pensar na imagem deste homem solitário a caminhar pelas ruas escuras da minha aldeia nativa, em busca do calor do Natal, para depois se refugiar nas intermináveis profundezas. E logo nessa noite tão transcendente, ao longo da qual todas as feridas se avivam e se revisitam intensamente alguns dos esqueletos que trazemos escondidos na alma…

            Este conto é dedicado a todos os anónimos da História que continuam a ajudar os seus semelhantes a encontrar a estrela de Natal, mesmo nas circunstâncias mais dramáticas desse profundo mistério cósmico ao qual damos o nome de vida.
O brilho de Natal também faz parte dessas ilusões sem as quais a vida se tornaria insuportável. E escrever este conto é talvez a forma mais sentida que eu ainda possuo para desejar a todos os leitores um Santo e Feliz Natal.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)      

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A recompensa

Todos os domingos, depois da missa matinal, os garotos lá da aldeia juntavam-se no clube para jogar matraquilhos e roubar um beijo às gaiatas. Ricardo, porém, raramente brincava com os seus colegas e, cerca de uma hora antes de amanhecer, partia com o pai na icónica 4L castanha, em direcção ao rio Mondego.
Naquele tempo, já lá vão mais de 30 anos, o pimpão vermelho inundava as águas ainda límpidas e os pescadores ansiavam por chegar a casa com o balde cheio de barbatanas-vermelhas para reclamar junto das patroas o suculento molho de escabeche. Esse manjar dos deuses, que os beirões de outros tempos conheciam como ninguém.
Ricardo fez-se poeta junto às margens do Mondego, para onde fora arrastado, tantas vezes quase a dormir, durante anos a fio. Aqueles que já assistiram ao nascer do sol, sentados ao lado das águas serpenteantes, dificilmente poderão esquecer esses momentos sagrados. À medida que o negro da madrugada se dissipa, o rio assume a forma de uma envergonhada noiva que, lentamente, vai despindo o véu, até desnudar a cara. O frio gela-nos o sangue, mas o silêncio é tão profundo que a eternidade parece revelar-se mesmo ali à nossa frente. Então, encobertos por uma espécie de cápsula do tempo, tornamo-nos imunes a quase todas as tragédias.
O pescador – diz a gíria popular – é, habitualmente, um efabulador (repare-se que não digo mentiroso):
“– Ontem, apanhei um achigã com 20 kg!” – e os companheiros, sabedores das manhas da faina, lá relativizam os números, enquanto os mais desprevenidos ficam de queixo caído, pensando num tal enigmático monstro das águas subterrâneas Porém, o pescador é também, vulgarmente, um dos mais introspectivos seres que poderemos encontrar à face da Terra. Verdadeiro filósofo, atrever-me-ia mesmo a concluir.
Para compreender Ricardo era forçoso tomar em consideração as intermináveis horas que este passara junto ao rio, a ouvir o seu silêncio corrente. Verdade seja dita que ele nunca foi um grande pescador. Distraído como era, raramente pressentia a bóia a afundar-se nas águas profundas e, por isso, quando, finalmente, despertava para a realidade já o peixe comera as iscas colocadas no anzol: bichos das mais variadas espécies, trigo, milho, massa ou até, imagine-se, pão, cuidadosamente repartido em pequenas bolinhas. É certo que o pai bem tentava dar-lhe uns carolos, para ver se o acordava para a realidade, mas o raio do rapaz raramente conseguia concentrar-se na pescaria. Poucos minutos depois de ter a cana na mão, já a sua cabeça viajava para outros continentes e planetas longínquos, sendo quase impossível trazê-lo de volta.
Era, precisamente, no momento do regresso a casa que Ricardo mais sentia o abismo que o separava dos seus pares. Os outros transportavam os baldes repletos de peixe, enquanto Ricardo raramente se estreava. Nesses instantes em que todos comparavam os troféus, o pai castigava-o severamente, humilhando-o em frente aos colegas. E nada lhe doía mais do que aquelas terríveis palavras, para sempre inscritas na alma:
“– Não vales nada. Todos tiram peixes, menos tu. Olha para esse balde… vazio como a tua cabeça”.
Fruto das suas circunstâncias, Ricardo passou então a tornar-se um menino cada vez mais triste e solitário. Tão triste e solitário que, por vezes, apenas o rio lhe servia de consolo. E foi muitas vezes ao rio que ele confiou a sua história e o terrível drama em ser tão distraído e diferente.
O menino não sabia (como poderia imaginá-lo?), mas era um poeta e um aprendiz de filósofo. Interessado em tudo o que o rodeava, imaginava-se a cavalgar em cima das nuvens, convocava todos os seres das profundezas do rio e quando menos se precatava já estava a léguas e léguas de distância, confiando ao infinito as mais surpreendentes perguntas.
Um dia, já lá vão mais de 30 anos, Ricardo chegou ao Mondego ainda mais triste do que o habitual. A sua mãe acabara de falecer e um vazio profundo apoderara-se-lhe do espírito. Por isso, naquela madrugada, ao contrário do que sucedia nos outros dias, Ricardo abandonou a cana junto às margens, em cima de um salgueiro, e sentou-se a contemplar silenciosamente o vazio das águas. As lágrimas escorriam-lhe pela face, caindo nas mãos e alagando-as torrencialmente. Sozinho, afastado dos demais, o menino confundia-se de tal modo com a paisagem, que até os guarda-rios se aproximavam dele e as distraídas rãs vinham aninhar-se a seu lado, a coaxar demoradamente.
Naquele dia, foi apenas a poucos instantes do regresso que Ricardo decidiu colocar uma minhoca no anzol e atirar a linha para a água. Contudo, assim que o fez, a bóia deu um violento tropeção, afundando-se imediatamente nas profundezas. De imediato, Ricardo imprimiu um pequeno esticão na cana e começou a recuperar lentamente a linha. Depois, quando o peixe estava mesmo a chegar à beira, o menino levantou o braço. Sem compreender muito bem como, viu então um enorme barbo, de longos bigodes e boca profundamente escancarada, a saltitar no chão. De cá para lá, de lá para cá… enquanto o tempo parecia ter parado.
Ricardo olhou demoradamente o majestoso peixe e sorriu. Do outro lado, chegavam, entretanto, os primeiros vultos espantados com o tamanho de tal gigante a estrebuchar em terra. Foi a primeira vez que o menino conheceu o orgulho de ter alcançado algo admirável.

Há muitos anos, alguém me disse que o rio ouve sempre o que lhe segredamos. Por vezes, sempre em silêncio, sacrifica mesmo alguns dos seus filhos para recompensar com um sorriso os que mais sofrem, apesar de nunca termos aprendido a respeitá-lo.
Vale sempre a pena regressar às margens do rio da nossa infância para escutar a voz que nos habita nas mais recônditas profundezas da alma… Afinal, são esses locais sagrados – autênticos santuários – que ainda nos podem salvar, não só enquanto indivíduos, mas enquanto Humanidade.

Mondego
Águas da meninice
Vinde agora ouvir-me,
Afinal, tudo o que já disse
Foi este rio a contar-me…
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)           

quinta-feira, 5 de julho de 2018

A História dá lições?

Há alguns meses, sem aviso prévio, entrou-me pela casa um senhor na casa dos 90 anos. A residir há mais de quatro décadas em Espanha, vinha agora a Portugal com o grande objectivo de revisitar o típico edifício beirão de granito onde tinha nascido e que, por mera coincidência, hoje se encontra na posse da minha família. O brilho no seu olhar, enquanto ouvia desfiar um conjunto de memórias a respeito dos falecidos pais, levou-me a reviver o meu próprio interesse pela História.

À medida que envelhecemos, há uma tendência geral para regressar com maior regularidade às memórias de infância. Essa interminável saudade por um tempo onde tudo parecia possível e eterno anda de braço dado com a necessidade, cada vez mais premente, de compreender um pouco melhor o que somos (e talvez até mesmo o que nunca pudemos ser).

Na recta final da vida, aquele homem regressava ao ponto de partida, como quem busca no álbum de fotografias familiares a imagem mais remota da sua própria existência, insistindo, por conseguinte, em recordar o que o tempo teima em apagar. Trata-se, afinal, de uma tentativa para reconstruir uma narrativa que confira algum sentido à vida ou ao que resta dela. Uma ilusão sem a qual tudo se tornaria insuportável.

Ora, quando se estuda História sentimo-nos menos sós, não só porque compreendemos que representamos apenas mais um grão de areia num imenso deserto, mas também porque aprendemos que a vida de cada indivíduo apenas adquire sentido em função do que fazemos pelos outros.

Porém, existe hoje uma tendência para esvaziar a História do seu pendor narrativo, transformando-a num discurso teórico e hermético, de tal modo abstracto que o indivíduo é frequentemente subalternizado. Mas mais do que isso, vigora uma tendência para sustentar que a História não dá lições. 

É contra esta concepção de uma disciplina supostamente expurgada de valores e ensinamentos que eu, frequentemente, me insurjo. Afinal, se existe alguma área do conhecimento que pode ajudar os indivíduos a pensar pela própria cabeça, essa disciplina é precisamente a História. Não só porque nos demonstra, com recurso a exemplos concretos, que as circunstâncias de cada indivíduo são importantes, mas também porque nos ensina que cada Homem pode ultrapassar os seus próprios constrangimentos geográficos, familiares, financeiros... Entre outras, eis as ferramentas que a História permite desenvolver:
– estruturar o pensamento e construir uma narrativa organizada e sequencial, o que, neste era do caos da informação que inunda as redes sociais, constitui uma ferramenta fundamental para aprender a separar o essencial do acessório, a verdade da mentira;
– fomentar a empatia, uma condição essencial para compreender melhor o outro;
– criar um espírito de humildade, o que também equivale a dizer aprender a estar calado, aprender a ouvir, antes de avançar com a defesa de qualquer ideia;
– consolidar a noção de interdependência ética com todos os seres, num permanente, complexo e demorado processo evolutivo;
– ter consciência da finitude de todos os processos, incluindo, claro está, da própria vida pessoal;
– aprender a interrogar o meio envolvente e as circunstâncias da sua própria época (afinal, o historiador começa a construir-se dentro da sua casa e junto da comunidade local). A História ajuda-nos a edificar uma perspectiva mais ampla da “atmosfera do nosso agir” (Antero de Quental), levando-nos a procurar ir para além da espuma dos acontecimentos;
– reconhecer que os cogumelos não nascem ao acaso, estes necessitam sempre de determinadas circunstâncias favoráveis para proliferarem;
– compreender melhor as opções político-ideológicas em que nos situamos e as alternativas, de facto, existentes, o que também equivale a dizer aprender a vigiar o que fazemos, dizemos ou pensamos. E que as reacções inconscientes podem ser indícios tão ou mais importantes do que todas as opções pacientemente reflectidas. E aqui não posso deixar de recuperar as sensatas palavras de Umberto Eco: “O Ur-Fascismo ainda paira à nossa volta, às vezes em trajos civis. Seria tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: «Quero reabrir Auschwitz, quero que as camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!» Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-Fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes” (Como reconhecer o Fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, Lisboa, Relógio D’Água, 2017, p. 29).
Quem diz que a História não dá lições pretenderá, talvez, dizer que as suas ferramentas dificilmente nos poderão ajudar a ganhar muito dinheiro ou assumir outro tipo de preponderância social. E sobre isso não tenho qualquer dúvida. Em sentido inverso, penso que poucas ciências como a História poderão ajudar-nos a construir um mundo efectivamente mais justo e sustentável, pelo que o seu estudo constitui, em si mesmo, uma forma privilegiada para construir uma consciência cívica e um pensamento crítico original, ferramentas que tanta falta fazem nos estranhos tempos digitais em que vivemos.
Sim, a História pode dar lições. A quem saiba ouvi-las e interrogá-las… 

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Conto de Natal – A porta secreta

“– Meu filho! Já viste bem todas as prendas que o Menino Jesus te deixou este ano? Olha, por exemplo, esta aqui…” – indicou António ao pequeno Diogo.
            “– Parece uma caixa. E há coisas a abanar lá dentro!”
            “– Vamos abrir” – e abriram.
            Dentro do embrulho, um tabuleiro de xadrez. Diogo, com uma mão a segurar o inseparável smartphone e a outra a agarrar o novo brinquedo, deixou escapar um breve suspiro de desalento. Nesse momento, o pai decidiu voltar à carga:
            “– Sabes, quando eu tinha mais ou menos a tua idade, descobri que nesta casa havia uma passagem secreta. Uma porta escondida…” – e Diogo nem o deixou concluir a frase. Agarrou-se-lhe à perna e reclamou:
            “– Onde é? Para onde vai? Leve-me lá!” – sorrindo, António segurou-o pela mão e fez-lhe sinal para se sentar. A “lição de Sissa” iria começar...
            “– Olha, isso vais ter de ser tu a descobrir. E a resposta encontra-se dentro deste tabuleiro de xadrez”.
            Depois, enquanto retiravam os últimos papéis que escondiam a caixa, o pai foi explicando:
            “– Hoje, vamos fazer um duelo. Peças brancas contra as peças negras. Como se fosse uma guerra…”
            “– Mas, pai… os homens brancos e os homens negros são inimigos?”
            “– Não, meu filho! Hoje, já não são. A cor da nossa pele não interessa para nada. Todavia, há alguns séculos atrás, os homens brancos fizeram escravos muitos homens negros”.
            “– Olhe, pai, se eu pudesse mandava pintar as peças. Seriam azuis contra vermelhos!”
            “– E deixa-me adivinhar… tu ficavas sempre com os vermelhos, certo?” – riram em uníssono.
            Na verdade, António ficou com as peças negras e Diogo com as brancas (depois de saber quem começava a jogar, o menino nem hesitou na escolha!). Entrementes, o pai disse:
            “– De todas as tuas peças, existe uma que tem de ser sempre muito bem protegida: é o rei”. Ao ouvir isto, o menino sentenciou:
            “– Então, eu sou o rei! Sou o mais importante”.
            Nessa altura, o pai desabafou:
            “– Sabes, quando tu nasceste passaste a ser o rei desta casa. Eu e a tua mãe começámos a viver em função de ti” – e Diogo ria-se de orelha a orelha.
            Logo a seguir, António esclareceu o valor de cada peça e o modo como se movimentavam:
            “– A rainha vale 9 peões. Pode avançar em todas as direcções. A torre vale 5, anda sempre a direito – na horizontal e na vertical. O cavalo vale 3 peões, movimenta-se em “L”. O bispo também vale 3 peões, mas anda e captura na diagonal…” – e por aí fora, sempre com as peças a saltarem no tabuleiro de um lado para o outro, sob o olhar atónito do menino.
            Às duas por três, quando já estavam no meio da primeira partida, muito lentamente, o pai foi capturando uma a uma todas as peças do menino. Quando apenas lhe restava em cima da mesa o amedrontado rei, o pai desafiou-o:
            “– Vá! Podes jogar”. Diogo, quase a soluçar, atirou:
            “– Mas… assim não é justo! Estou sozinho e ninguém me pode defender”.
            Sorrindo, o pai devolveu-lhe os peões, perguntando:
            “– Estás mais satisfeito?”
            “– Sim, mas ainda não tenho as minhas torres, os bispos, os cavalos…”
            “– Então, meu filho, qual é a tua peça mais importante?”
            “– Todas são importantes, pai!”
            “ Olha, há quem diga que foi esta a lição que um indiano chamado Sissa quis ensinar a um rei muito mau. Não sei se é verdade ou mentira, mas há até quem acredite que foi ele que inventou o xadrez. Certo, certo é que esta é uma lição valiosa para todos nós…”
            Nessa altura, a mãe chegou à sala. Vinha chamá-los para o jantar. Ao olhá-la, o pai não resistiu e exclamou:
            “– Olha, filho, e ainda te faltava a rainha!” – Dona Maria não compreendeu, mas sorriu delicadamente, ao perceber que falavam dela.
            Logo depois, já à mesa, o menino voltou à carga. Queria mesmo saber onde se encontrava a tal porta misteriosa. Como se já não bastasse a ansiedade do miúdo, a mãe ainda ajudou à festa:
            “– António! Lá andas tu a ensinar coisas perigosas ao nosso filho! Eu já te disse que essa porta é só para os adultos”. Os olhos de Diogo pareciam prontos a saltar para fora das órbitas.
            Quando se levantaram os últimos pratos da mesa, foram todos até ao presépio. Debruçados sobre o berço, António perguntou:
            “– Diogo, quem é a personagem mais importante do nosso presépio?”
            O menino ainda hesitou, mas lembrou-se da lição do xadrez e respondeu:
            “– O menino é o nosso rei. Mas sem os pais, os animais, as estrelas, os reis magos… o que seria dele?” – os pais entreolharam-se. A noite de Natal estava quase a findar, mas o mais importante ainda vinha a caminho...
            Então, o pai ajoelhou-se junto à manjedoura do Menino e começou a contar-lhe o segredo da porta desconhecida.
            “– A tua bisavó Maria era, como sabes, a minha avó. Um dia, quando eu tinha mais ou menos a tua idade, ela disse-me que nesta casa havia uma porta secreta que dava acesso a um mundo maravilhoso. Ora, quando eu ouvi essa história, fiquei de tal modo curioso que passei a noite em claro, sem dormir. Vasculhei cada recanto desta casa, examinei com todo o cuidado todos os lugares, mas a verdade é que não consegui encontrar o mais pequeno sinal da tal porta mágica. Desanimado, deitei-me em cima da cama e chorei como nunca tinha chorado.
Logo pela manhã, a tua bisavó, uma das pessoas mais inteligentes que conheci em toda a vida, reparou nas minhas olheiras, serviu-me o pequeno-almoço e abraçou-me (nunca esquecerei aqueles abraços). Deitado no seu regaço pude então ouvir esta maravilhosa história:
            “– Seu tontinho… a porta sobre a qual te falei é a porta da sensibilidade. É uma espécie de ferida aberta que apenas algumas pessoas se podem orgulhar de possuir. É um dom”.
            “– E para que serve essa ferida, avó?”
            “– Essa ferida boa ajuda-te a ver melhor o mundo: a chorar com aqueles que choram, a sofrer com aqueles que sofrem; a ver o que os outros tantas vezes não vêem. Sim, faz doer, mas apenas para te ajudar a compreender…”
            Intrigado, voltei à carga:
            “– E isso é importante, avó?”
            “– Muito, meu netinho! Ajuda-nos a criar um mundo melhor!”
            Ao proferir aquelas derradeiras palavras, o pai voltou-se novamente para o filho, fixando-o ternamente, olhos nos olhos:
            “– Sabes, meu rei, quando tu nasceste, essa porta de que falava a tua bisavó voltou a abrir-se dentro desta casa. E foi a primeira vez, desde que a tua bisavó morreu – já lá vão mais de 20 anos –, que voltámos a fazer o presépio. Que voltámos a sentir o Natal” – e as lágrimas iluminavam-lhe a face.
            Quanto ao menino, bem pequenino como todos os meninos, olhava ternamente os pais, talvez sem compreender muito bem o sentido exacto de todas aquelas palavras – os poemas que, ao longo da vida, nos escapam pelas mãos!
            Talvez um dia, bem lá no futuro, aquele menino recordasse aquelas palavras e decidisse até recontá-las ao seu próprio filho. E talvez dissesse que foi naquela longínqua noite que a porta secreta se abriu, pela primeira vez, mesmo à sua frente. A tal porta secreta que o Natal nos ajuda a recordar e a nunca deixar fechar. Por muito que as pedras afiadas inundem as calçadas por onde vagueamos.
            Afinal, apesar de todas as cinzas que acumulamos nas mãos, quando Dezembro ecoa nas ruas e as luzes cintilam dentro de nós, tudo volta a ser possível. É através dessa ferida aberta, da qual brotam as lágrimas que nos lavam por dentro, que chega até nós o sentido do Natal...

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)