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sábado, 13 de fevereiro de 2021

"Pai como é que metem a água na garrafa?"

Hoje eu e o Duarte fomos passear de manhã a Travanca de Lagos.

No final do passeio sentámo-nos no muro da escola primária e o Duarte perguntou enquanto bebia água de uma pequena garrafa de plástico "pai como é que metem a água na garrafa".

A minha imaginação percorreu um conjunto de caminhos para encontrar uma explicação simples que uma criança de 4 anos acabados de fazer percebesse. 

Refleti um pouco e apercebi-me que só há pouco mais de uma década entendi porque é que a água brotava das nascentes dos rios. Na minha mente permaneceu durante muito tempo a ideia da minha avó Prazeres, muito religiosa, que dizia que a água brotava debaixo da terra devido a um milagre divino.

Bem continuando a minha exposição à pergunta do Duarte:

"Duarte a água vem das nuvens e quando chove a água cai no solo e vai para debaixo da terra"

"A água permanece debaixo da terra criando rios"

O Duarte não percebeu muito bem essa parte (rios de baixo da terra) e tive que lhe dizer explicar melhor: "imagina um copo gigante que está debaixo na terra que apanha a água que cai da chuva". "Lembra-te naquela água que está naquele copo gigante debaixo da terra, nunca há sol e a água fica lá muito tempo".

"Porque é que o sol não entra pai" perguntou o Duarte ao que eu respondi "Não entra porque como te disse a água do copo gigante está debaixo da terra e o sol não consegue lá chegar" Para não estar a introduzir a palavra infiltrar que dava azo a outro diálogo e mais perguntas avancei com a explicação.

 "Há duas maneiras que o Homem tem de tirar a água do copo gigante que está debaixo da terra" 

"Quais são as duas maneiras" perguntou o Duarte 

"Sabes Duarte a primeira maneira é furar a terra com uma broca gigante para chegar à água que está no copo gigante"

"Pai como é que conseguimos tirar a água do copo gigante?"

"Bem quem tira a água é um motor" "pai como é que o motor tira a água" Bem inverti a exposição e falei-lhe do aspirador. "Sabes Duarte imagina que o motor é um aspirador que aspira o lixo qua anda no chão da nossa  casa" "O motor aspira a água que está no copo e vai para as torneiras e daí para a garrafa de água".

Queres saber qual a segunda maneira. Ele estava confuso mas aceitou que eu continuasse a explicação. A segunda maneira foi mais difícil de explicar. Foi a minha dúvida que permaneceu na minha cabeça durante mais de duas décadas.




"A  segunda maneira acontece quando o copo gigante fica cheio e a água entorna e forma rios de baixo da terra. Os rios percorrem distâncias muito grandes debaixo da terra até que encontram um local mais fraco e conseguem aparecer à superfície dando origem às nascentes dos rios e ribeiros" 

Esta segunda ideia definitivamente o Duarte não percebeu bem ou talvez eu não tenha conseguido ter a capacidade de a explicar de um modo mais simples. Ficou a tentativa.

domingo, 23 de junho de 2019

Lítio, a perigosa promessa do “ouro branco”


O escritor beirão Aquilino Ribeiro (1885-1963) publicou, durante a II Guerra Mundial, um notável romance intitulado Volfrâmio, inspirado na exploração do subsolo português pela Alemanha e pelos Ingleses, em busca do volfrâmio, importante matéria-
-prima utilizada, por exemplo, para fortalecer as cápsulas das granadas e para conferir ao “aço uma maior resistência ao calor”: indispensável, portanto, “em máquinas como em armas” (António Louçã – Hitler e Salazar. Comércio em tempos de guerra, 1940-
-1944
, ps. 8 e 43).  
No livro em causa ficam bem evidentes as consequências dramáticas da ávida busca pelo “ouro negro”: abandono e destruição dos campos agrícolas; desenvolvimento do contrabando e da especulação; perseguição do lucro (pequenas “fortunas”), sem olhar a meios, que logo depois se dissipava para dar a aparência de novo-rico. Cobiça a sobrepor-se a todos os valores humanistas. Numa palavra: morte. Consequências que, de resto, se estendem até aos dias de hoje, como bem sabem os habitantes das zonas circundantes das minas, agora tantas vezes confiadas ao abandono ou até mesmo convertidas em espaços museológicos. Isto para já não falar, por exemplo, na proveniência do ouro utilizado pelos alemães para pagar o volfrâmio português. Ouro esse tantas vezes espoliado aos judeus que acabariam por ser mortos nos campos de concentração nazis…   
Em 1958, o aludido romancista beirão editou outro notável romance intitulado Quando os lobos uivam, a respeito da apropriação dos baldios pelo Estado Novo, tendo em vista a sua florestação coerciva. Esta questão gerou vários confrontos entre as populações locais e os Serviços Florestais, incumbidos de aplicar as medidas previstas pelo governo.
Ora, os dois livros anteriormente referidos têm uma actualidade surpreendente, na medida em que o Governo português tem vindo a permitir que diversas multinacionais iniciem um conjunto de prospecções em território nacional, tendo em vista a possível exploração do lítio (v.g. Aviso n.º 6518/2019, publicado em Diário da República, datado de 9/4). A área abrangida pelas prospecções – ainda que neste momento mal conhecida – é extremamente significativa, integrando, por exemplo, as Terras do Barroso (a norte), mas também uma vasta região do centro do país.
Entre outros aspectos, parece evidente que o recente desenvolvimento dos carros eléctricos tem vindo a gerar uma maior necessidade de matéria-prima para a produção de baterias. Daí esta desenfreada corrida ao lítio, apresentada por alguns magnatas como uma oportunidade para o interior profundo de Portugal se desenvolver e enriquecer.
Não é esta, porém, a minha opinião e digo isto com toda a carga ideológica que implica este género de tomada de posições. Os potenciais riscos associados à exploração do subsolo em busca do lítio são demasiado elevados para justificar alguns dividendos que meia dúzia de poderosos e outros tantos mangas-de-alpaca poderão obter. A extracção de rochas provocará irreversíveis impactos paisagísticos: crateras enormes, contaminação dos recursos hídricos, ruído, poluição do ar (partículas em suspensão) e, consequentemente, doenças graves, desde logo, do foro respiratório. Isto significará comprometer o futuro das novas gerações e o desenvolvimento sustentável de áreas significativas do país.
É, por conseguinte, fundamental quebrar este silêncio político que estrategicamente tem vindo a enredar esta matéria. É fundamental perguntar onde estão os estudos de impacto ambiental que deveriam ter, obrigatoriamente, antecedido estas prospecções. É fundamental perguntar se as populações locais estão a ser ouvidas e, em caso afirmativo, se foram (e são) devidamente informadas a respeito do que verdadeiramente está em causa.
Os dramáticos incêndios que afectaram o país, em 2017, trouxeram um conjunto de novas promessas políticas, vindas dos mais diferentes quadrantes. A verdade dos factos, porém, é que, apesar da demagogia reinante, as populações do interior foram e continuam a ser votadas a um tremendo abandono por parte do poder central. O silêncio que envolve esta negociata (é isto que realmente está em causa) demonstra-o com todas as letras.
Escreveu Miguel Torga, em 1942, no volume II do seu Diário: “Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo” (1943, p. 140). A avidez das multinacionais em busca do novo “ouro branco” pode transformar o que ainda sobra do santuário em que vivemos num autêntico inferno. A apropriação dos baldios e a expropriação de territórios, em nome do suposto interesse nacional, será apenas o início desse dramático processo silenciosamente consumado.
É escusado, pouco ou nada aprendemos com a História. Ou os cidadãos se mobilizam ou estaremos condenados a destruir e deixar destruir quase tudo o que temos de melhor. Aos nossos filhos e netos deixaremos as cinzas de tudo o que permitimos destruir, que mais não seja com a cobardia do nosso silêncio.     
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Uma reflexão sobre os incêndios florestais de 2017

O problema dos incêndios florestais está longe de ser um problema de espécies florestais ou de mera gestão de espaços. No nosso país é, antes de mais, um problema de pessoas. Infelizmente estas estão colocadas, ostensivamente, fora do sistema.

Portugal sofreu no ano de 2017 a maior devastação de que existe registo no âmbito dos incêndios florestais em um só ano. Embora o desempenho do país não tenha sido muito positivo ao longo das décadas passadas, no confronto com outros países e com situações comparáveis, os incêndios que percorreram o Centro e Norte de Portugal neste ano constituíram um absoluto choque e uma chamada de atenção para toda a sociedade. A perda de mais de 115 vidas, a devastação de cerca de 500 mil ha, a destruição de centenas de casas, instalações industriais e empresariais, com o leque de efeitos sociais, ambientais e económicos que trouxe, parece que finalmente despertou a sociedade para a relevância do problema dos incêndios florestais.
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Todos sentimos que o propósito de “nunca mais”, formulado em várias ocasiões anteriores, tem de ser levado mesmo a sério, agora mais do que nunca. O país já teve outras chamadas de atenção, nos anos de 2003, 2005 e 2013, mas, como se pode verificar, apenas se ficou a meio caminho, na tomada de consciência, na mudança de comportamentos e de atitudes e na adoção de medidas eficazes. Perdeu-se muito tempo, pactuando com o desleixo e com a negligência, que conduziu o nosso país a esta situação calamitosa. O país está indignado e certamente não deixará de prestar uma atenção continuada a este assunto nos tempos futuros, e de retirar dele consequências políticas também. Conforme foi dito, já se perdeu muito tempo e não podemos senão adotar as medidas certas, sem perder mais tempo com experimentações ou medidas irrealistas.   
Ao comentar esta tragédia, em mais do que uma ocasião, disse que “falhámos todos”. Nesta expressão começo por me incluir pessoalmente, pois sinto que falhei no meu propósito de chamar a atenção de quem de direito para a importância do problema e no desenvolvimento de soluções que permitissem, ao menos, minimizar as tragédias pessoais que sofremos. Mas incluo também, de uma forma geral, todos os cidadãos, porque se trata de uma questão que envolve toda a sociedade. Ninguém se pode colocar fora do problema e, menos ainda, julgar os outros, porque terá certamente deixado algo por fazer. Se não, não teríamos sofrido esta tragédia.
O país está chocado e indignado, mas já não bastam os sentimentos. Temos de passar à ação. Como cientista que há mais de 30 anos procura ter uma intervenção na temática dos incêndios, o modo mais adequado que encontro para manifestar a minha indignação é o de contribuir com o meu trabalho e o do meu centro de investigação, para o seu estudo e compreensão.
Para além da investigação científica, como cidadão, procuro ter também uma intervenção cívica, que me tem levado a colaborar, com espírito aberto, com uma crítica construtiva e leal, com todos os Governos que tenho conhecido, independentemente da sua cor política, e com todas as instituições envolvidas na gestão do problema dos incêndios florestais.
Por esse motivo aceitei, com a minha equipa, o encargo do Governo para produzir um Relatório sobre o Incêndio de Pedrógão Grande, que se encontra publicado parcialmente (https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/comunicacao/documento#o-complexo-de-incendios-de-pedrogao-grande-e-concelhos-limitrofes-iniciado-a-17-de-junho-de-2017). Neste relatório apresentamos os factos tal como se nos depararam e procurámos retirar lições, para que não se repitam as perdas que aquele incêndio teve. Infelizmente, a divulgação de algumas destas lições não foi feita a tempo de evitar, ao menos em parte, a tragédia que sofremos em 15 de outubro. 
O relatório que a minha equipa produziu baseia-se num extenso trabalho de campo, desenvolvido por uma equipa de 14 especialistas, muitos deles com longos anos de experiência de investigação nesta área e de realização de estudos semelhantes. Contém uma análise detalhada das condições meteorológicas, da origem e do comportamento do fogo, das perdas humanas e do impacto do incêndio nas comunidades. Infelizmente, não foi ainda tornado público o capítulo 6, que trata das perdas humanas, que é por sinal um dos mais extensos do relatório, no qual se relatam, de modo anónimo, cada um dos acidentes que causaram as 65 vítimas mortais e algumas das cerca de duas centenas de feridos. Neste relatório é apontada como causa provável dos incêndios principais a falta de manutenção da faixa de proteção de uma linha elétrica existente nos locais de origem dos mesmos.
Indicámos que, para além de todos os fatores circunstanciais que se encontram associados ao incêndio e que potenciaram a sua gravidade, está a deficiente governação do país, que ao longo de dezenas de anos tem vindo a negligenciar o problema do mundo rural e em particular da sua proteção em relação aos incêndios. Ao longo dos anos, temos vindo a chamar a atenção das autoridades para a necessidade de modificar este estado de coisas, a denunciar a inoperância de algumas entidades, a ineficácia de muita legislação e propondo medidas para correção do rumo.
Quem me tiver ouvido, em especial nos últimos anos, poderá lembrar-se de que sempre defendi que o sistema de defesa da floresta contra os incêndios (SNDCIF), assente nos três pilares estatais da ANPC, do ICNF e da GNR, é desadequado. Em minha opinião, falta um quarto pilar, que designo por “População”, que deveria envolver toda a sociedade, para além das entidades estatais. Envolveria antes de mais a população, que tem sido marginalizada do problema e das tentativas de solução. Engloba igualmente as autarquias, as empresas, a comunidade científica e tantas outras instituições que, como agora se vê claramente, querem dar o seu contributo, mas não sabem como, porque têm sido deixadas à margem do sistema e se encontram desorganizadas.
Sempre disse que se o Estado persistir em tentar vencer esta “guerra”, apenas com a força das suas instituições, não o conseguirá. Um dos seus pilares, a ANPC, que prestou serviços muito meritórios ao país, encontra-se nesta altura fragilizado, injustamente, mas também por demérito próprio. Outro pilar, o ICNF, tem-se mostrado frouxo desde há vários anos, com uma desfocagem e afastamento crescentes, relativamente o problema dos incêndios florestais. A GNR, que está há pouco mais de dez anos no sistema, mercê de uma excelente liderança e organização de que dispõe, tem-se mostrado ser o pilar mais consistente e com um leque de funções mais diversificado no dispositivo.
Quanto ao “quarto pilar”, está quase tudo por fazer. É o mais difícil, mas é também o mais importante. O problema dos incêndios florestais está longe de ser um problema de espécies florestais ou de mera gestão de espaços. No nosso país é, antes de mais, um problema de pessoas. Infelizmente estas estão colocadas, ostensivamente, fora do sistema.
No passado dia 21 de outubro, realizou-se um Conselho de Ministros dedicado a analisar o problema dos incêndios florestais e a aprovar um conjunto de medidas legais, para dar um sinal ao país de que havia a intenção de passar das palavras aos atos. Por muita preparação que pudesse ter havido, para fazer estas propostas, era para mim óbvio que faltou tempo para se refletir o suficiente, para se reunir consensos e juntar as forças para que pudesse sair uma reforma profunda e consequente. Como é compreensível, uma boa parte das medidas poderiam ter sido postas em prática há muito tempo, sem ter de se alterar o sistema vigente. Apenas se pergunta porque não se puseram em prática antes.
O conjunto das medidas visa essencialmente os três pilares do Estado e o reforço de verbas. Não se vislumbra uma única medida de fundo destinada a envolver a população, a apoiar as pessoas, a contribuir para melhorar a sua situação, as suas condições de vida e a sua segurança e para as preparar melhor para enfrentar estas situações.
Passarei a comentar algumas das medidas anunciadas, utilizando para tal extratos do discurso do primeiro-ministro efetuado no final do Conselho de Ministros, reservando para uma situação mais oportuna um comentário mais aprofundado sobre algumas das medidas.
1. Neste discurso refere-se que se pretende “aproximar a prevenção e o combate aos incêndios rurais, nomeadamente dando mais centralidade à área de Governo da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, no processo”.
A prevenção e o combate são apenas duas das faces do problema mais vasto que é o da gestão dos incêndios florestais, que envolve, entre outros aspetos, a preparação das comunidades, a prevenção estrutural, a preparação imediata, o combate e a reabilitação. De que aproximação se está a falar? O que quer dizer “dar mais centralidade aos ministérios da Agricultura ou do Ambiente? Quem foi que afastou estes ministérios do processo? Que foi que os impediu de estar mais centrados e de contribuírem para a solução? O que fizeram ao longo dos anos passados? Em minha opinião, estes e outros ministérios, e várias outras entidades públicas e privadas, têm de se centrar mais na realidade de que existem incêndios florestais em Portugal, coisa que parece não terem tido presente nos passados 20 anos, pelo menos, agindo como se nada se passasse.
2. Diz-se que “é preciso reforçar o profissionalismo em todo o sistema, com um papel alargado do apoio militar de emergência, no patrulhamento, no apoio logístico, no rescaldo e nas capacidades de apoio à decisão da engenharia militar”.
Concordo com o aumento do profissionalismo, mas tem de se avaliar bem o custo dessa medida. Até que ponto pode o nosso país ir? Concordo igualmente com um papel mais interventivo das Forças Armadas, mas com a devida preparação e igualmente com uma ponderação da relação custo/benefício dessa intervenção. Mas pergunto: onde está o apoio à sociedade civil? O que se vai fazer para apoiar, por exemplo, as comunidades e as forças locais de proteção civil?
3. É dito que “será confiada à Força Aérea a gestão e operação dos meios aéreos, quer do Estado quer contratados”.
Concordo com a aquisição de meios próprios, incluindo meios pesados, que se encontra implícita nesta medida. Parece-me bem haver uma maior intervenção da Força Aérea, desde que não haja incompatibilidade entre a finalidade e missão das Forças Armadas e a disponibilidade de recursos humanos e materiais, que se requer para os incêndios florestais, e os custos sejam comportáveis para o país. Oxalá se assegurem, desde o início, mecanismos de transparência e de avaliação nos processos de utilização destes recursos, tendo em conta os elevados custos que comportam.
4. Diz-se que “vai ser retomada a expansão das companhias dos GIPS da GNR”.
Acho muito bem esta medida, mas pergunto: o que se vai fazer com a Força Especial de Bombeiros e com os bombeiros em geral? Não se vai apoiar a sua expansão e qualificação? Como se irão articular as FEB e os GIPS no território do país?
5. Defende-se que “vai ser reforçada a capacitação e profissionalismo entre os bombeiros voluntários, criando em cada associação de bombeiros, nas zonas de maior risco, equipas profissionais formadas na Escola Nacional de Bombeiros, que será integrada no sistema formal de ensino como uma escola profissional”.
Concordo com uma maior profissionalização dos bombeiros, não apenas nas zonas de maior risco, mas em todo o país, pois os bombeiros podem ser chamados a intervir em qualquer ponto do território.
Deve, ainda assim, continuar a apoiar-se e a fomentar o voluntariado, que constitui um valor inestimável do nosso sistema de socorro.
A ENB deveria ser reformulada de modo profundo, mas não é este o lugar próprio para abordar este assunto.
6. Recomenda-se que “esta profissionalização passe por que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e a ANPC vejam reforçados os seus meios e a ANPC seja institucionalizada com um quadro próprio de profissionais, com dirigentes designados por concurso”.
Custa a crer que seja precisa nova legislação para se colocar estas medidas em prática. Concordo com o reconhecimento implícito de que estas duas instituições não dispõem de recursos humanos qualificados e em número suficiente para fazer face ao problema dos incêndios florestais. Mas onde se irão buscar esses recursos e onde se irão qualificar? Em minha opinião, os agentes de Proteção Civil e os bombeiros em particular deveriam ter uma Academia de Proteção Civil, equiparada a um instituto universitário, tal como sucede nas Forças Armadas e na Polícia.
7. Propõe-se que “a capacitação destas instituições passe por maior incorporação de conhecimento, com a criação de uma linha de apoio à investigação e reforço da componente de formação nos institutos politécnicos”.
Não posso deixar de aplaudir o reconhecimento da necessidade de se incorporar mais conhecimento e formação em todo o problema da gestão dos incêndios florestais. Pergunto no entanto de que conhecimento se trata e de fazer notar que a instituição a que pertenço tem vindo a produzir conhecimento em diversas áreas relevantes e a fazer a transferência desses conhecimentos para o sector operacional desde há vários anos.
Aplaudo igualmente a criação de uma linha de apoio à investigação científica, de uma forma regular e continuada. Tendo já sido publicado um diploma sobre este assunto, tenciono debruçar-me sobre ele, com mais detalhe, noutro lugar.
É surpreendente a medida de “reforço da componente formativa nos institutos politécnicos”. Por que razão não se incluem, de forma explicita, também as universidades no processo?
8. Refere-se que “a especialização progressiva, sem prejuízo da unidade de comando, entre o combate aos incêndios rurais e a proteção de pessoas e bens e das povoações, desenvolvendo capacidades próprias das brigadas de prevenção do ICNF, dos GIPS e dos Canarinhos, para se concentrarem na missão de combater os incêndios rurais”.
A proposta contida nesta medida constitui, em minha opinião, um erro estratégico, que já constava da proposta de plano que resultou do trabalho de um Grupo criado pela APIF (Agência para a Prevenção dos Incêndios Florestais), em 2004, com a finalidade de reformar o sistema. Em boa hora esta medida não foi acolhida e surpreende-me que volte a surgir, sem que tenha sido feito qualquer esforço para mostrar a sua validade desde então, quando noutros países se está a abandonar esta filosofia de separar o combate aos incêndios rurais do da defesa das habitações e das pessoas.
Atualmente o país dispõe de Corpos de Bombeiros que estão formados, treinados e equipados e possuem experiência e provas dadas no combate, tanto em incêndios urbanos como em florestais e para prestar socorro diferenciado às pessoas. Vai-se dispensar esta capacidade, para criar uma outra entidade, com capacidades semelhantes ou com metade delas? Os bombeiros apenas não combatem o fogo na floresta e dão prioridade às casas quando já não existem condições para combater o fogo na floresta. Será nessas condições que os “bombeiros florestais” vão entrar em ação?
Quais são as “brigadas de prevenção do ICNF”, que são mencionadas na medida? Serão porventura as equipas de sapadores florestais? Se assim for, por que razão durante todos estes anos o ICNF não aproveitou essa força, a organizou, equipou, treinou, estruturou e utilizou? É agora que o vai fazer? Ou será que as centenas de novas equipas que estão anunciadas irão ser mais do mesmo?
9. Por fim recomenda-se que “as equipas de intervenção permanente dos bombeiros voluntários serão vocacionadas, cada vez mais, para a mais nobre missão de proteger a vida das pessoas, as povoações e os bens, permitindo otimizar o conhecimento de cada um para todos podermos ter melhor segurança”.
Esta medida é um corolário do erro contido na anterior.
Como se pode qualificar de “a mais nobre missão” como sendo a de proteger a vida das pessoas, as povoações e os bens? Então a missão dos outros combatentes “especializados” não é tão nobre? Parece que não se compreende que são aspetos distintos do mesmo combate, mas que não carece de forças distintas? Uma vez mais pergunto, onde está o conhecimento nesta área, no sector do ICNF, que contribua para a melhor segurança de todos?

Professor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra. O autor segue o Acordo Ortográfico




Professor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra. O autor segue o Acordo Ortográfico

DOMINGOS XAVIER VIEGAS- Jornal Público 19 de Novembro de 2017

domingo, 27 de janeiro de 2008

Morfogénese e Morfocronologia

O título amedronta…talvez, admito que não são termos muito familiares, tive a estudá-los para um exame da pós graduação e apeteceu-me partilhar o que aprendi com quem tenha (muita) curiosidade em conhecer o significado destes conceitos geográficos e físicos

Estes conceitos têm em comum o prefixo morfo, que segundo o dicionário, quer dizer aspecto exterior…indiciando desde modo a observação e descrição de algo através da sua aparência externa. Neste caso e como estamos a falar de conceitos geográficos físicos pretende-se observar, descrever e explicar a aparência exterior dos modelados que constituem as formas de relevo.

Morfogénese e Morfocronologia correspondem ao “como” e ao “quando”(Fernando Rebelo). O estudo das formas de relevo implica um conhecimento da sua evolução espacial e temporal, sendo por isso essencial uma boa percepção da litologia, da tectónica e clima em que estão inseridas. A Morfogénese está intimamente relacionado com a explicação da génese das formas, enquanto que Morfocronologia se preocupa em subdividir temporalmente os factores implícitos na origem dos fenómenos….daí a relação da palavra “como” com a morfogénese pois explica o modo como se formaram, enquanto que a morfocronologia, explica “quando”, em que época, fase se processaram as suas alterações.

Segundo Brum Ferreira predomina uma “estreita relação entre os climas regionais da Terra e a Morfogénese…é preciso não esquecer que o passado é a chave para a explicação do futuro”. Com esta afirmação de Brum Ferreira observa-se de uma forma clara a necessidade de perceber o passado para compreender o presente e supor o futuro.
Para podermos compreender a morfógenese temos de compreender a evolução temporal dos factores, isto é a morfocronologia….é por todas estas razões e muitas mais que eu achei estes dois complexos conceitos tão interessantes.

Muito mais haveria por dizer…aliás em ciência não há conceitos definidos, a sua beleza está na troca de opiniões…só assim se formulam e desenvolve
m conceitos