quarta-feira, 30 de junho de 2021

Manuel da Fonseca: a voz do Alentejo- Autor Renato Nunes




Em 1943, o escritor neo-realista Manuel da Fonseca (1911-1993) apresentou o seu romance Cerromaior à censura prévia. A análise da obra ficou a cargo do capitão Silva Dias.

Cerromaior é um livro que colheu as suas raízes na realidade alentejana, das décadas de 30 e 40 do século XX. Como escreveu Mário Dionísio: “Manuel da Fonseca nasceu para revelar o Alentejo” (Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito, direcção — Dicionário de História do Estado Novo, p. 366). Importa, de resto, não esquecer que Manuel da Fonseca tem as suas origens em Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal. 

Com um total de aproximadamente 250 páginas, Cerromaior narra o percurso de Adriano, que, apesar das suas origens burguesas, foi gradualmente tomando consciência da injusta divisão do mundo entre os que obedecem e os que mandam e acabou mesmo por decidir colocar-se ao lado dos mais pobres e oprimidos. Pobres e explorados camponeses, aos quais ouvira relatar pungentes histórias de vida: “Olhe… nós éramos seis irmãos e a minha mãe passava fome por mor da gente. E o meu pai, quando chegava do trabalho, começava a ralhar e acabava a bater-lhe. Encolhidos a um canto, a gente chorava. Mais tarde, o meu pai deu em beber e abandonou o trabalho. Um dia, desapareceu; nunca mais voltou. E a minha mãe, que era doente, passou a ir à monda, à ceifa e a tudo o que aparecia. Depois, a minha mãe morreu…” (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 184).

A descrição da situação vivida pelos ceifeiros aquando dos intensos trabalhos nos campos alentejanos, na canícula de Verão, é igualmente dramática: “Autómatos, os homens lançavam a foice. Cabeças tombadas, bocas abertas, barbas crescidas, pingando suor. Suor amargo na boca e nos olhos, escorrendo entre a pele e a roupa, empapando tudo. Um formigueiro a borbulhar da testa e a foice ia e vinha. / O manajeiro olhava ainda o relógio” (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 166). Ao longo do enredo, destaca-se também a história de Doninha, antigo carteiro local, que acabou por enlouquecer e que depois foi preso, tal como um criminoso. Um episódio que levou um homem do Povo a protestar: “Não está certo. Digo e repito: leve-se para o hospital, para o manicómio; para a cadeia, não. Bolas! Não matou, nem roubou (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 195). Ora, esta contundente crítica, sintomaticamente colocada pelo narrador na boca de um dos anónimos do Povo, denunciava um dos dramas da saúde psiquiátrica, durante o Portugal salazarista: a falta de respostas clínicas levava ao encaminhamento destas complexas situações para a polícia e frequentemente para a mendicidade nas ruas (Susana Pereira Bastos — O Estado Novo e os seus vadios, ps. 263 e 266). E a descrição do narrador acompanha-nos, sempre que pensamos na imagem da noite cerrada, na vila de Cerromaior, a ser invadida pelo grito de desespero do encarcerado: “Era a espantosa imagem do Doninha, todo nu por detrás das grades da cadeia, uivando para a vila” (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 206).  

Cerromaior denuncia também a situação vivida pelas mulheres, vítimas dos permanentes abusos por parte de uma sociedade profundamente machista, como bem o demonstra o exemplo da criada Antoninha, alvo de uma tentativa de estupro e imediatamente despedida... Uma sociedade na qual os homens derretiam na taberna quase todo o dinheiro que, dolorosamente, ganhavam, para depois, frequentemente, espancarem as esposas já em casa, onde reencontravam a nua realidade dos filhos com fome. Uma sociedade marcada pela palmatória na escola, pelos abusos dos poderosos patrões perante a fragilidade dos dependentes empregados sazonais, como bem evidencia o abate (a tiro) da cadela de João Codesso, após este se ter recusado a vender ou dar o pobre animal ao terratenente Carlos Runa, ou ainda os despedimentos de Maltês e de Toino Revel, motivados pelos meros rumores de que eles teriam publicamente denegrido a imagem do patrão. Uma sociedade, afinal, onde os mais pobres não podiam ter opiniões: “São como um rebanho: pedrada nos cornos, e boca calada” (Manuel da Fonseca — Cerromaior, p. 213). 

Ora, estas e outras matérias politicamente perigosas — o romance neo-realista encerrava mesmo com um acto de revolta de alguns camponeses — não poderiam ter passado despercebidas ao censor literário incumbido de analisar a obra. Eis as principais conclusões apresentadas pelo censor Silva Dias ao longo do seu relatório: “Este romance, tal como está concebido, não o julgo com possibilidade de ser autorizado”. E seguia-se a justificação: a obra em causa “apresenta ao leitor factos concretos que revelam profundas deficiências da estrutura social, entre nós. / A vida dura e miserável do trabalhador rural alentejano, a carência ao mesmo de assistência social, a indiferença do abastado pelo humilde que trabalha em seu proveito, cenas pornográficas e imorais efectuadas por pessoas de melhor condição, são neste romance postas em evidência, podendo concluir-se que o seu autor não mediu os perigos para a sociedade, de narrativas sobre pretensos preconceitos demolidores que levam os fracos ou os menos preparados a meditações condenáveis. / A descrição da desgraça a que chegou um antigo carteiro, que fora sempre zeloso e que enlouqueceu e foi levado para uma cadeia onde morreu, sem qualquer protecção das autoridades, dá-nos logo de começo uma má impressão do livro. / Depois espraia-se sobre a vida angustiosa do camponês, realçando-se as inúmeras agruras dos que vivem da terra, mais parecendo mendigos. As faltas de trabalho, a diferença, doentias, entre o patrão e o trabalhador e também exposições de atitudes indecorosas referentes aos amores clandestinos dum patrão, leva-nos à conclusão que inicialmente escrevi: o livro não deve ser autorizado, tal como é apresentado”. E, após mencionar que já tinha assinalado no original as passagens inconvenientes, acrescentou: “Um arranjo com o que fica, julgo tornar-se difícil, pelo sabor anti-social que pode ainda deixar transparecer” (EPHEMERA). No entanto, através de um posterior despacho superior (22/11/1943), o livro acabaria por ser autorizado, embora com cortes. Seria, de resto, interessante cotejar a versão inicialmente prevista por Manuel da Fonseca com os cortes solicitados pela censura, mas não se revelou, por enquanto, possível aceder a essas fontes (uma situação, de resto, muito comum quando se exploram os caóticos e dispersos arquivos da censura literária, durante o Estado Novo).

Seara do Vento foi outro dos romances escritos por Manuel da Fonseca que também foi analisado pela censura prévia. Em 1959, o censor literário coronel Fernando Salgado decidiu aprovar a sua publicação, mediante as seguintes conclusões: “ Retrata um meio rural, rude e de miséria, onde se sente formar o sentimento amargo e de revolta dos que se sentem escravos da terra e do patrão. […] / Parece-me, creio, que tudo isto tende a formar no juízo do leitor o sentimento de revolta contra a organização actual da sociedade. […] / É de deixar publicar, pois é do mesmo género explorado, há uns anos, pelos Fernandos [sic] Namora, Aquilino, etc., etc.” (EPHEMERA). Certo é que a reedição da mesma obra seria proibida em 1966, tendo como base, entre outros aspectos, os “novos elementos agora controlados sobre a tendência política do escritor e das suas possíveis ligações com o partido comunista” (Cândido de Azevedo — A censura de Salazar e Marcello Caetano, p. 608). A eventual ligação de Manuel da Fonseca ao Partido Comunista foi, por conseguinte, um dos motivos para justificar a interdição de um livro já anteriormente permitido, sublinhe-se, pelo mesmo censor (Cândido de Azevedo — Mutiladas e proibidas, p. 83)…

Manuel da Fonseca foi um dos mais destacados autores do neo-realismo português. Os dramas do mundo contemporâneo reclamam uma atitude mais interventiva, ainda que em novos moldes, de todos os cidadãos, nomeadamente dos intelectuais. Nesse sentido, o neo-realismo é uma lição que bem merece ser estudada, pelo que o reencontro com os seus autores revela-se uma necessidade premente…


Referências bibliográficas: Cândido de Azevedo — A censura de Salazar e Marcello Caetano. Imprensa, teatro, cinema, televisão, radiodifusão, livro, Lisboa, Caminho, 1999; Cândido de Azevedo — Mutiladas e proibidas. Para a história da censura literária em Portugal nos tempos do Estado Novo, Lisboa, Caminho, 1997; “Censura – despachos da direcção dos serviços da censura relativos a livros de Manuel da Fonseca”, EPHEMERA (26/6/2021); Fernando Rosas e J. M. Brandão de Brito (direcção) – Dicionário de História do Estado Novo, volumes I, 1.ª edição, Venda Nova, Bertrand Editora, 1996; Manuel da Fonseca — Cerromaior, 4.ª edição, Lisboa, Forja, 1976; Susana Pereira Bastos — O Estado Novo e os seus vadios. Contribuição para o estudo das identidades marginais e da sua repressão, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)  


quarta-feira, 9 de junho de 2021

“Uma revolução há 46 anos”- Autor Luís Filipe Torgal

 No espaço de Opinião na Rádio Boa Nova, Luís Filipe Torgal apresenta um texto da sua autoria, alusivo ao 25 de abril. Luís Filipe Torgal é professor de História do Agrupamento de Escolas de Oliveira do Hospital, investigador e colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20) e autor de vários livros e artigos científicos ou de intervenção cívica e conferencista.

“25 de abril de 1974 — «O dia inicial, inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo» (Sophia de Mello Breyner). De madrugada, um grupo arrojado de capitães afetos ao Movimento das Forças Armadas (MFA) desencadeou uma ação militar que derrubou 48 anos de autoritarismos (Ditadura Militar, 1926-33, e Estado Novo, 1933-1974). Os revoltosos tomaram os locais estratégicos, em Lisboa (Terreiro do Paço, Quartel do Carmo, Casa da Moeda, Assembleia Nacional, ponte Salazar, Rádio Clube Português, Emissora Nacional, aeroporto da Portela, Quartel-General da PIDE/DGS…) e noutras capitais de distrito. O povo aplaudiu-os e, 6 dias depois, no «Dia do Trabalhador», um mar de gente saiu à rua para festejar e legitimar a revolução — só no cortejo de 1 de maio de 1974, em Lisboa, terão participado cerca de 1 milhão de pessoas que gritaram, em uníssono, «O povo unido jamais será vencido!».  

No dia 25 de abril, os militares sublevados quase não dispararam tiros (houve «apenas» 5 vítimas: 4 civis, assassinados por agentes da PIDE/DGS, e 1 agente desta polícia política morto por um militar quando fugia de uma multidão enfurecida). Preferiram exibir cravos vermelhos nos canos das suas armas.

O golpe militar do MFA convergiu numa revolução que depôs e exilou o presidente da República, Américo Tomás, e o presidente do Conselho, Marcello Caetano. Dissolveu a Assembleia Nacional. Destituiu os governadores civis do continente, os governadores dos distritos autónomos da Madeira e dos Açores e os governadores-gerais das províncias ultramarinas. Nomeou uma Junta de Salvação Nacional (JSN). Libertou e amnistiou os presos políticos e permitiu o regresso dos exilados. Originou a implosão dos organismos políticos do Estado Novo: PIDE/DGS, Legião Portuguesa, Mocidade Portuguesa, Ação Nacional Popular, censura/exame prévio e tribunais plenários.

A JSN — constituída por três generais, um brigadeiro, um coronel, um capitão-de-mar-e-guerra e um capitão-de-fragata —, presidida pelo general António de Spínola, assegurou a transição do poder até à nomeação de um governo provisório, que viria a ocorrer no dia 16 de maio desse ano.

À 1h30 do dia 26 de abril, o general Spínola leu ao país, na RTP, o comunicado da JSN, onde assumiu os seguintes compromissos: garantir a sobrevivência da nação no seu todo pluricontinental (decisão que questionava a essência do programa do MFA, o qual reconhecia que a solução para as guerras do ultramar era política e não militar); permitir a criação de associações políticas e a liberdade de expressão do pensamento; preparar o caminho para a eleição, por sufrágio direto, de uma Assembleia Nacional Constituinte e de um presidente da República.

Os dois anos que se seguiram até à elaboração e aprovação da Constituição de 1976 e à sua entrada em vigor foram agitados. Iniciou-se um processo difícil de democratização, descolonização e desenvolvimento cívico, cultural e educativo. Eclodiram confrontos acesos entre partidos e fações político-ideológicas, os militares do MFA e o general Spínola. Registaram-se rebeliões a 28 de setembro de 1974, 11 de março e 25 de novembro de 1975. Cometeram-se erros, pois o rumo de uma revolução é sempre doloroso e imprevisível. Portugal esteve prestes a soçobrar numa guerra civil. Mas os portugueses conseguiram reerguer-se, conciliar-se e fundar a III República — um regime democrático pluripartidário e semipresidencialista, assente na liberdade de expressão e na divisão dos poderes, que aderiu à União Europeia, em janeiro de 1986.   

Entretanto, afastámo-nos do «dia inicial, inteiro e limpo» idealizado por Sophia de Mello Breyner. A democracia esmoreceu. Por isso, medrou no país uma «direita radical» (inspirada em Marine Le Pen, Salvini, Trump e Bolsonaro) que renega o regime democrático fundado pela Constituição de 1976 e ambiciona fundar um novo regime. O alegado federador desse movimento acusa, indiscriminadamente, os partidos políticos, os seus líderes e militantes de corrupção, clientelismo e nepotismo. Como se tudo isto não existisse em doses colossais e insuportáveis nos regimes autoritários ou nas atuais «democracias iliberais» (dirigidas por Trump, Bolsonaro ou outros chefes populistas nada recomendáveis). Como se muito mais do que isto não tivesse persistido durante o Estado Novo de Salazar e Caetano: o escândalo sexual do Ballet Rose (esquema de pedofilia, prostituição e abuso de menores que envolvia altas figuras do Estado Novo e que foi encoberto pelo regime, mas denunciado na imprensa britânica, em 1967); o assassinato do general Humberto Delgado (1965) e de outros oposicionistas por esbirros de Salazar; o tráfico de influências para obter cargos e benefícios no setor público; a promiscuidade entre o Estado e os grupos económicos; a ação aterrorizadora da PIDE; as arbitrariedades dos tribunais plenários, com os seus juízes corruptos e manipuláveis; a chantagem, as prisões e as exonerações por motivos políticos; as eleições fraudulentas; as mulheres submissas e amordaçadas; o desprezo pela democratização da educação e o desinvestimento na melhoria das condições de vida das populações; a eternização da guerra colonial, que destruiu as vidas de muitos jovens, isolou Portugal da Europa e do mundo e inviabilizou o seu crescimento, numa época em que as economias dos países da Europa ocidental cresciam a todo o gás (os «Trinta Gloriosos» anos); a imposição do pensamento único e da censura, que mistificava a realidade e inculcava nos portugueses a ilusão de viverem num oásis de paz e prosperidade.   

Quem quer viver de novo na «noite» e no «silêncio»? O regresso a uma versão reciclada do populismo nacionalista e antieuropeísta significará sempre o retorno a um país autoritário, amordaçado, isolado, retrógrado e ainda mais corrupto e desigual. Creio que a Constituição de 1976 (que já foi revista sete vezes) reúne os instrumentos necessários aos ajustamentos do sistema político e à regeneração da democracia. Têm a palavra todos os portugueses e não apenas «os portugueses de bem» (seja lá o que isso signifique no discurso populista incendiário), os arrivistas e aqueles que prosperam exclusivamente à sombra dos partidos políticos que gravitam nas esferas do poder”.   


Luís Filipe Torgal  

“A revolução de 28 de maio de 1926 e o fim da Primeira República”- Autor Luís Filipe Torgal

No espaço de Opinião na Rádio Boa Nova, Luís Filipe Torgal apresenta um texto alusivo à revolução de 28 de maio de 1926. Luís Filipe Torgal é professor de História do Agrupamento de Escolas de Oliveira do Hospital, investigador e colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20) e autor de vários livros e artigos científicos ou de intervenção cívica e conferencista.

"A Primeira República foi implantada a 5 de outubro de 1910, através de uma rebelião militar gerada pelo Partido Republicano Português, a Maçonaria e a Carbonária. Os seus protagonistas inspiraram-se nos ideais da Revolução Francesa de 1789, nas ideologias socialistas e nas conceções racionalistas e positivistas difundidas no século XIX.

Uma Assembleia Nacional Constituinte retintamente republicana aprovou a Constituição de 1911, que arquitetou um sistema parlamentarista, onde os poderes do Presidente da República e do Governo estavam cerceados pelo Congresso formado pela Câmara dos Deputados e o Senado.

Os republicanos encontravam-se empenhados em construir um regime demoliberal enquadrado por genuínas preocupações sociais. Daí a Constituição republicana suprimir os privilégios de nascimento e os foros de nobreza. Daí o governo provisório e os governos constitucionais, saídos da revolução, decretarem a lei da greve, leis da família e leis laborais progressistas, que tencionavam mitigar as desigualdades. Daí a obsessão dos republicanos combaterem o analfabetismo, através da escolaridade obrigatória e gratuita para todas as crianças dos 7 aos 14 anos, da abertura de mais escolas, da adoção de novos currículos e de pedagogias mais humanistas, do investimento na formação de professores e no aumento dos seus salários. Daí a publicação de arrojadas leis anticlericais que tinham o desiderato de criar cidadãos livres e emancipados dos dogmas e dos preconceitos impostos pela Igreja Católica. Uma Igreja Católica que, na perspetiva dos republicanos, estava dependente de um Papa que interferia de modo despótico na vida interna das nações e era constituída por um clero conivente com as velhas elites monárquicas.

Mas a Primeira República nunca conseguiu democratizar-se e socializar-se. E acabou sequestrada pelo hegemónico Partido Republicano Português(vulgo Partido Democrático)entrincheirado em torno do seu líder, Afonso Costa, até à revolução sidonista de dezembro de 1917. Depois do assassinato do ditador populista Sidónio Pais (14 de dezembro de 1918), do colapso do sidonismo e da derrota da Monarquia do Norte (janeiro de 1919), o partido atrás citado resistiu e manteve a sua preponderância, mas acabaria dividido e dirigido por personalidades bem menos prestigiosas.    

A obstinação do Partido Democrático e do seu líder carismático Afonso Costa por não suavizar a «intangível» Lei da Separação (do Estado das Igrejas) — que penalizava excessivamente a Igreja Católica e dificultava a liberdade religiosa — originou uma condenação do regime pelo Papa e uma consequente resistência da maioria do clero e dos crentes à República. Mais, a decisão de Afonso Costa de conduzir Portugal a uma intervenção total na Primeira Guerra Mundial, ao lado da Inglaterra e da França, na frente ocidental europeia e nas frentes africanas, garantiu a preservação das colónias portuguesas. Todavia, agravou as cisões entre os republicanos, acirrou as oposições monárquicas e católicas, mergulhou de novo o país na ameaça da bancarrota, inviabilizou a concretização do programa demoliberal e social republicano, originou uma intrusão dos políticos nas instituições militares e descredibilizou o regime perante as classes médias, o proletariado e os militares.

O contexto económico e social caótico onde naufragaram as nações no rescaldo da guerra impediu os republicanos de redimir e consolidar a Primeira República. Na Itália, nasceu, em 1921, o Partido Nacional Fascista, de Mussolini, que tomou o poder, no ano seguinte. Na Alemanha, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores (Partido Nazi) formou-se, em 1920, e tentou conquistar o poder através de um golpe de estado ocorrido em novembro de 1923. Hitler e o nazismo teriam de esperar pela nova derrocada económica e social europeia ditada pelo Crash da Bolsa de Nova Iorque (1929) e a Grande Depressão, para capturarem o Estado Alemão, em 1933. Noutros países da Europa vivia-se um combate não menos implacável entre fações socialistas internacionalistas e fações ultranacionalistas e autoritárias de teor «fascista».

Em Portugal, os governos republicanos continuaram a tomar posse e a desabar a uma velocidade estonteante, sem disporem de qualquer margem política e social para concretizarem projetos reformistas coerentes de salvação nacional. Verdadeiramente, ninguém respeitava a Constituição de 1911. O Partido Democrático, cada vez mais debilitado, continuava a manipular e a ganhar as eleições, e os restantes partidos conspiravam para o derrubar pela força. Por estas razões, a Primeira República foi agonizando num pântano de instabilidade crónica, até ser definitivamente derrubada por um pronunciamento militar ocorrido a 28 de maio de 1926.

O pronunciamento teve três chefes militares: o general Sinel de Cordes, simpatizante monárquico integralista, líder oculto do golpe e próximo do discreto mas hábil general republicano conservador Óscar Carmona; o general Gomes da Costa, veterano das campanhas de «pacificação» de África e da Primeira Guerra Mundial, crítico recalcitrante dos políticos e conhecido por um temperamento imprevisível; e o almirante Mendes Cabeçadas, herói do 5 de outubro e republicano moderado.

Os revoltosos dividiam-se em duas fações antagónicas: uma revolucionária de direita, que desejava instaurar um governo militar oposto aos partidos; a outra reformista, que acreditava ser possível reabilitar a República, extirpar as suas enfermidades e retornar à pureza inicial dos seus ideais. Ambas pretendiam acabar com a supremacia política do Partido Democrático.

A primeira fação, chefiada por Gomes da Costa, anunciou duas proclamações que declaravam a necessidade de o Exército implantar um «governo forte», com a «missão [de] salvar a Pátria» de uma «minoria devassa e tirânica» de políticos «irresponsáveis». A segunda fação, liderada por Mendes Cabeçadas, anunciou um programa que defendia um regime republicano regenerado, que reduzisse as despesas e regularizasse as contas públicas, organizasse uma justiça independente e célere e reorganizasse e modernizasse as forças militares.

Mendes Cabeçadas presidiu a um primeiro Governo, que incluía Salazar como ministro das finanças, Gomes da Costa na pasta da Guerra e Óscar Carmona na pasta dos Negócios Estrangeiros. Porém, Gomes da Costa discordou da atribuição de algumas pastas ministeriais, rejeitou as alegadas fidelidades republicanas e maçónicas mantidas por Cabeçadas, exonerou-o e assumiu ele próprio o cargo de presidente de um novo ministério, bem como as regalias de chefe de Estado interino. Esses dois governos duraram poucos dias. As decisões erráticas e extemporâneas de Gomes da Costa de exonerar os seus ministros António Claro, Óscar Carmona e Gama Ochoa, de acumular funções ministeriais e personalizar o poder deixaram-no isolado. Representantes das Forças Armadas encabeçadas por Sinel de Cordes ordenaram a sua demissão, prisão e exílio nos Açores. A 9 de julho de 1926, Óscar Carmona assumiu os cargos de presidente de um novo ministério e de ministro da Guerra. Em novembro do mesmo ano, assumiu também a presidência de República, caucionou e consolidou a nova solução ditatorial e viria a tornar-se o principal sustentáculo de Salazar.

Entretanto, perante a adesão alegadamente maciça e nacional à insurreição militar de 28 de maio, que eclodira em Braga e se estendera a outras cidades do país, o último governo do Partido Democrático, presidido por António Maria da Silva, demitiu‑se, as Câmaras foram dissolvidas, o Parlamento fechou e o presidente da República, Bernardino Machado, resignou. O historiador, António José Telo, escreveu que «nem o famoso bom povo republicano, nem as milícias, nem os comités de sargentos, nem os sindicatos, nem os partidos, nem sequer os responsáveis políticos lutaram por ela [República]» (Primeira República II. Como Cai Um Regime, 2011). Assim, a Primeira República morria, aparentemente, esgotada e enjeitada por todos.

Depois de um momento de indefinição sobre o destino da revolução, começou um novo ciclo na vida política do país. Primeiro moldado pela Ditadura Militar (1926-1933), onde foram instauradas as bases embrionárias da censura e repressão e o défice das contas públicas atingiu cifras inauditas. Perante a incompetência administrativa demonstrada pelas governanças militares, Salazar foi nomeado ministro das finanças, em 1928, com o poder de disciplinar os gastos de todos os ministérios e a missão de alcançar rapidamente a estabilidade financeira. Assim, iniciava-se o processo de transição para o Estado Novo (1933-1974), o qual, como afirmou Salazar — entretanto promovido a «salvador da pátria» —, numa entrevista concedida, em 1933, ao seu mestre da propaganda, António Ferro, era uma «ditadura que se aproximou, evidentemente, da ditadura fascista, no reforço da autoridade, na guerra declarada a certos princípios da democracia, no seu caráter acentuadamente nacionalista, nas suas preocupações de ordem social». Importa referir que os dois regimes autoritários que sucederam à Primeira República acabaram ainda por sofrer, entre 1927 e 1938, uma resistência vigorosa das oposições republicanas democráticas, socialistas, comunistas e anarquistas – resistência que, contudo, acabaram por esmagar.


O primevo regime republicano português caiu sem cumprir as suas promessas idealistas e voluntaristas de modernizar, democratizar e socializar o país e desse modo refundar e redimir a pátria. Não obstante, pelo que atrás ficou dito, impõe-se esclarecer que a Primeira República esteve muito longe das representações redutoras divulgadas por ideólogos da propaganda do Estado Novo, como João Ameal, que a caricaturaram como uma «balbúrdia sanguinolenta», ou propagadas por historiadores recentes, que viram nela uma aberração ideológica impulsionada por alguns intelectuais maçónicos, urbanos, ambiciosos e irresponsáveis. A função da História não é construir representações maniqueístas (e panfletárias) do passado, nem julgar de modo anacrónico os seus protagonistas, mas tentar compreendê-lo e representá-lo de forma objetiva, sustentada e problematizadora”.   


Luís Filipe Torgal

sábado, 5 de junho de 2021

O Nosso Henrique - Autora do texto Lucinda Maria

Após ver a foto do Henrique na sua página do facebook da professora Lucinda Maria, imediatamente me cativou ler o texto. O Henrique era conhecido por todos em Oliveira do Hospital, mas infelizmente não teve a sorte de nascer numa família que o fizesse crescer  como merecia.  Ler o o texto trouxe-me súbitas saudades do Henrique.

Passo a citar:

" Era assim o Henrique, eterno menino de fala cantante… franzino…olhar vivo. Nascido no seio de uma família humilde e marcada pelo álcool, que ia sobrevivendo com algumas dificuldades financeiras. Lembro bem a casa rasteirinha onde viviam, lá para os lados da fonte do Rebolo. Vários rapazes e uma irmã, a mais nova. 

O Henrique não foi à escola… Tinha algumas dificuldades cognitivas, assim como outro dos irmãos, precisamente o que viveu com ele até ao fim. Penso que os outros ainda são todos vivos… casaram e têm a sua vida normal.



Ele calcorreava as ruas da nossa terra… e ajudava uns e outros… fazia vários trabalhos. Sempre prestativo… sempre simpático… sempre humilde. Uma altura, ajudou numa peixaria. Com uma caixa de peixe à cabeça, apregoava:

- Peixe fêco! Peixe fêco!

E a sua voz fazia-se ouvir como uma canção infantil…ingénua e genuína, como ele próprio. Havia quem pretendesse “gozar” à custa dele. Penso que esses intentos não eram bem sucedidos. A sua perspicácia segredava-lhe sempre uma resposta pronta que desarmava os “espertinhos”. Podia contar muitos episódios que atestam bem esta sua característica. Vou contar apenas um.

Recordo-me do Henrique. Lembro-me de na década de 90 o ver a vender cautelas nas ruas de Oliveira do Hospital. Via-o como uma pessoa pobre com uma deficiência mas humilde e sempre pronto a ajudar.

Vou citar um texto que Lucinda Maria, professora aposentada do 1ºciclo, mora no concelho de Oliveira do Hospital. A professora Lucinda dignou.se a escrever um texto sobre o Henrique que me ajudou a conhece-lo e provocou em mim subitas saudades do Henrique.  

Passo a citar o texto de Lucinda Maria

"Certa manhã, saía o Henrique da casa comercial Júlio dos Santos, todo contente e sempre de ar afável. À porta, cruzou-se com um senhor engenheiro cá da cidade, pessoa bem conceituada, que entrava no mesmo estabelecimento. Ao vê-lo, o nosso amigo estendeu a mão para cumprimentá-lo. Ele correspondeu, mas resolveu dizer:

- Estou cheio de sorte! 

Meio admirado, o Henrique perguntou:

- Então poquê, senhole engenheilo?

- Porque ainda é cedo e é a primeira mão de porco que aperto hoje!

Prontamente, sem pensar duas vezes, ajeitando o seu boné de pala quase a tapar-lhe os olhitos vivos, o nosso Henrique respondeu:

- Então, eu ainda estou com mais sote, poque já é a segunda!

Perante isto, o que dizer? O que pensar? Como terá ficado o senhor engenheiro? Desconcertado, certamente. 

Era assim o eterno menino. A mim, chamava-me “senhola pofessola” e, muitas vezes, tentou vender-me cautelas, com aquela sua lógica de que “Há horas felizes!”. É verdade, mas, infelizmente, não gosto de jogo. Penso que nunca lhe comprei nenhuma, mas também nunca fui sarcástica com ele… sempre o estimei… como merecia, de resto.

Um dia, partiu… sem que déssemos por isso… sem ele próprio dar por isso. A sua voz cantante deixou de ecoar nas ruas da nossa terra. Ou será que não? No fundo, ele ainda está aqui. 

Lucinda Maria"

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Família (música escola do Duarte)


O conforto do fim de semana em família. Foi delicioso ouvir o meu filho cantar esta música. 

Letra completa:

Sei que sou pequenino

Nem sempre me porto bem 

Mas o pai gosta de mim

E a mãe também


Quando estou longe de casa 

Penso que se tivesse uma asa

Voava, voava, voava....

Para os braços dos meus pais


Família

É o melhor do mundo

Não há tesouro 

Lá no fundo do mar

Que valha mais 

Que o abraço dos meus pais...




Uma magnífica homenagem à família e aos pais. Amei a música.
Obrigado Márcio (Professor de Música do Jardim de Infância de Travanca de Lagos), professores e auxiliares que tornam os momentos na escolas momentos de enorme felicidade.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

História do Corinde e do Torcaz

Noite após noite e sempre que estou com o Duarte vou reinventando as múltiplas histórias que leio nos livros infantis.

A primeira vez que consegui adormecer o Duarte através narração de uma história, aconteceu apenas em agosto do ano passado quando estávamos no Luso. Nesse dia uns instantes após o almoço o Duarte abriu o estojo da mãe e encontrou lá um objeto que desconhecia um X ATO aberto. O Duarte de forma instintiva pegou na parte cortante e fechou a mão. Ele não se assustou, talvez por não se aperceber o que tinha acontecido. Quando chegou à cozinha,  abriu a mão e nós ficámos muito assutados pois ele não conseguiu explicar a origem do sangue. Já não me recordo se o Duarte chorou mas penso que não, neste caso a aflição foi apenas nossa. Felizmente ele não fez muita força quando apertou a mão e o golpe foi pequeno, ficou o alerta para nós.

Após realizarmos os curativos dissemos para ele segurar um  pouco de algodão e fechar a mão. Ele estava com sono e decidimos deitá-lo um pouco no sofá. Nessa altura adormecê-lo durante a tarde já era uma tarefa hercúlea. Eu decidi fazer uma coisa que adoro fazer sempre que vou ao Luso, ler as histórias da avozinha escritas há mais de quarenta anos, uma coleção de 7 ou 8 livros que o meu sogro tem.

Naquela tarde decidi abrir um dos livros que compõem a coleção e contei-lhe a história do Corinde e do Torcaz. Foi a primeira vez que li aquela história e dado a extensão e complexidade do texto limitei-me a ver as imagens e a narrar a minha história através das imagens  

Passado alguns meses já li a história varias vezes, mas devido às múltiplas alterações que já lhe fiz não consigo contar a história original,  no entanto conto a minha história com base no contexto expresso no livro.

O Corinde e o Torcaz 

"Há muito séculos atrás uma aldeia estava em festa e decidiu convidar os habitantes mais abastados das aldeias vizinhas para comer, beber e divertirem-se. Para a parte da diversão decidiram convidar dois cavaleiros para lutarem a cavalo, O Corinde e o Torcaz. 

O Corinde tinha um  bom coração e apesar de ser um valente cavaleiro não gostava muito de intrigas e conflitos, enquanto que o Torcaz era mais conflituoso estava sempre em lutas e brigas.  Ambos aceitaram o convite para a batalha que estava marcada para a tarde de um dia de primavera. há muito séculos atrás.

Ambos subiram ao cavalo com um pau enorme, era assim que se começavam as lutas nessa época. O Torcaz mais agressivo na fase inicial conseguiu deitar o Corinde ao chão através de uma forte pancada no peito. Nesse tempo usavam grande fatos de ferro que vestiam por cima da sua roupa e muitas vezes o peso da vestimenta era muito elevado, no entanto nesta altura os homens tinham muito mais força que hoje. Outros tempos.

Após o Torcaz ter deitado ao chão o Corinde a luta passou a ser realizada no chão através das espadas que tinham à cintura. No chão, com a espada o Corinde teve uma destreza maior   e apesar da maior agressividade do Torcaz este acabou por sair derrotado.

Após a luta ambos guerreiros tinham direito a um jantar, no entanto o Torcaz acabou por não aceitar e foi para casa cabisbaixo e enraivecido.

Passado umas semanas o Corinde foi dar um passeio a cavalo com os seus cães nas montanhas que envolviam a sua aldeia. Quando chegou ao cimo da encosta observou que no sopé da montanha  a aldeia dos mouros estava a ser atacada e observava já algumas casas em chamas.  O Corinde ficou apreensivo e decidiu soprar num objeto comprido que trazia sempre consigo que expelia um som alto e forte do conhecimento dos habitantes da sua aldeia. que chegaram poucos instantes depois.  

O Corinde e os amigos desceram a encosta em direção à aleia dos mouros que estava a ser atacada. Quando se aproximaram viram que as tropas do Torcaz estavam a tentar conquistar a aldeia dos mouros de forma a alargar o seu território No entanto a batalha não estava as correr nada bem ao Torcaz. O Corinde e os amigos decidiram salvar o Torcaz e dar entender aos mouros da rendição das suas tropas,

Acabaram por levar o Torcaz e alguns dos seus homens para a sua aldeia e trataram deles antes de estes regressarem a casa.

O Torcaz quando já encontrava restabelecido veio ter com o Corinde e agradecer-lhe o gesto que ele teve para com ele e disse-lhe que tinha aprendido a lição e que daí em diante nunca mais se  iria meter em conflitos."

Naquela tarde de agosto de 2020 não precisei de contar a história toda ao Duarte, pois ele passado alguns minutos adormeceu agarrado ao algodão que a mãe lhe tinha dado.

Ontem chegou a  encomenda de mais dois livros infantis da Boutique da Cultura: A flor mais alta do mundo" de José Saramago  e  "A girafa que comia estrelas" de José Eduardo Agualusa.

Aquando da receção da encomenda observei que me tinham enviado um bilhete personalizado desejando-me boas leituras. Um gesto simples que eu dei um grande valor por não ser um gesto vulgar. Para mim foi como se fosse um autografo.


No dia 2 de Abril de 2020 escrevi a minha primeira e única história Infantil. " A História do Moliço"
Quem não leu diga-me o que achou.

Termino o texto com uma mensagem de José Saramago no livro " A maior flor do mundo":
"E se as histórias para crianças passassem a ser obrigatórias para adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar"  

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Pela primeira vez senti-me bem em Mirandela

Hoje passado mais de uma década após a Cecília ter estado na escola profissional de desenvolvimento rural de Mirandela, percebo a expressão dela aquando da observação do fogo de artificio numa festa local, "pela primeira vez senti-me bem em Mirandela".

Hoje eu na escola profissional de desenvolvimento rural de Grândola, ainda não posso dizer que houve um momento que me sentisse feliz. Talvez esteja a exagerar mas seguramente não foram muitos e sem dúvida não houve qualquer momento que sentisse o coração cheio.

A vida de professor não é fácil. Ao longo dos anos aprendi a gostar da profissão e como qualquer pessoa gosta de ver o seu trabalho reconhecido.

Desde o reingresso na profissão há quatro anos tenho sentido um distanciamento maior entre professor e o aluno. Os alunos vêm cada vez mais o professor como alguém distante e quando nos despedimos no final do ano letivo a despedida é fria, trespassando a ideia que fomos apenas mais um professor. 

Hoje aquando da ida bar da escola para comer uma sandes, falei uns minutos com a funcionária e enquanto conversávamos  veio um senhor que pediu um café. Observei que ele estava a tirar moedas e por isso deduzi que não tinha o cartão da escola. Ofereci-me de forma espontânea para lhe pagar o café ao que ele assentiu e agradeceu. Acabámos por trocar dois dedos de conversa que passo a citar:

Senhor: Você é professor cá na escola 

Eu: Sim fui colocado no início do ano letivo 

Senhor: Sabe eu trabalho na escola mas na parte agrícola, venho cá poucas vezes a acima. Eu tenho duas filhas a estudar nesta escola.

Eu acabei por ficar um pouco receoso dada a pouca empatia que os alunos têm por mim. 

Senhor: Que disciplinas leciona?

Eu referi que lecionava Área de Integração (AI), Geografia e Ambiente e Desenvolvimento Rural (ADR)

O senhor  disse o nome de ambas as filhas e indicou que  uma estudava  no décimo e a outra no décimo primeiro do curso de Turismo e Ambiente e Rural.

Suspirei um pouco de alívio pois as alunas são adoráveis e eu tenho um enorme respeito e empatia por elas. Ao contrário da grande maioria são alunas muito aplicadas. Acabei por elogiá-las, pois não tinha qualquer razão para dizer o contrário.

Após os meus elogios o senhor disse:

Eu: A mais velha fala muito e gosta muito de si.

Eu não sou daquelas pessoas que gosta muito de estar sempre a ser elogiado mas pontualmente quando acontece, sabe bem. Pela forma como ele se expressou penso que foi sincero. No entanto mesmo que não tenha sido eu acreditei que sim.

Após aquele momento, pude pensar que o dia estava ganho.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

"Liberdade" Poema de Maria Teresa Horta

 

Há pouco li no Newsletter do Fumaça um poema maravilhoso de Maria Teresa Horta que passo a partilhar convosco:

Ainda há pouco acontecia Maria Teresa Horta acordar sobressaltada com a ideia de que a PIDE lhe estava à porta. Tinha que se voltar a surpreender com a recordação do 25 de Abril. “Continua a ser o dia mais feliz da minha vida.” A propósito do aniversário da Revolução, pedimos-lhe um poema. Chamou-lhe Liberdade.

Liberdade

É dia de liberdade

ano após ano

de punho erguido

   e preciso


Memória acrisolada

cravos

no cimo do riso


Com a sua côr

encarnada

e o olhar resgatado


Dando conta

dos indícios

sonho a crescer do nada


Sendo o nada

o seu princípio

e em seguida infinito


Liberdade libertada

de liberdade hasteada

sendo o sonhar

   seu grito


Maria Teresa Horta

Lisboa, Abril de 2021

                                                             

domingo, 11 de abril de 2021

Balanço do ano letivo

No dia 19 de Abril retomo a atividade presencial em Grândola. Passado largos meses não consigo dizer que tenho saudades de retomar o ritmo de trabalho presencial. Sinto que este ano letivo foi um ano de aprendizagem e apesar de não haver certezas absolutas sobre o que será o próximo ano letivo, pressuponho ter sido apenas o início de um percurso profissional a sul do rio Tejo.

Apercebo-me cada dia que passa, sinto que desempenho de forma mais competente esta profissão, embora ainda muito longe daquilo que idealizo.


Este ano letivo começou muito mal, devido à inadaptação aos métodos de avaliação e às estratégias escolhidas para às aulas,  ao que se associou um cansaço subjacentes às viagens para Oliveira do Hospital de que não abdiquei em nenhum fim de semana. 

O primeiro período foi muito difícil devido à distância e a impossibilidade de estar com a Cecília quando ela mais precisava. Ela dá aulas numa escoa secundária da  Guarda e no estabelecimento prisional da mesma cidade. Para ela a impossibilidade de ter um dia livre contribui para que o cansaço se acumulasse e não houvesse tempo para recuperar. Apesar de todos os cuidados que ela  teve aconteceu, em meados de novembro do ano passado descobriu que tinha sido infetada com  Covid 19. Nessa sexta feira recordo-me que cheguei de Grândola e sentia-a cansada, estava deitada no sofá, acabei por não ligar de imediato,  pois a sexta feira por norma é um  dia de descompressão em que por vezes aproveitava para descansar um pouco ao fim da tarde. No sábado ligámos à nossa médica de família e já tínhamos quase a certeza da infeção, pois os sintomas eram evidentes.

Para mim foram quinze dias muito complicada, pois tive de fazer tudo um pouco em casa. O dia mais complicado em que eu a Cecília chorámos juntos foi o dia em que o Duarte teve de ir para casa dos meus pais por tempo indeterminado, pois não era saudável ele permanecer num apartamento, naquele ambiente, A tenacidade para mim teve de ser a palavra de ordem e acabei por ter de delinear estratégias de ocupação do tempo de forma a manter o discernimento  e tratar da melhor forma a Cecília.  Apesar de a Cecília ter conseguido curar-se em casa, temi vários vezes o internamento, pois os sintomas agravaram-se principalmente durante a primeira semana.

Curiosamente para mim o isolamento em consequência do apoio à Cecília e o atual confinamento vieram em momentos chave que me ajudou a ultrapassar melhor este ano letivo.

Quando terminei o primeiro período devido às dificuldades de adaptação ao currículo dos cursos profissionais,   decidi que tinha de estudar e repensar o segundo período de uma outra forma até  porque devido aos 15 dias de isolamento teria necessariamente em janeiro o horário muito preenchido. 

Recordo-me que a melhor coisa que fiz no início do segundo período foi levar uma mesa redonda velha de casa da minha mãe e colocar um aquecedor a óleo no meu quarto em Grândola. O mês de janeiro foi excecionalmente frio em Grândola, como em todo o país,  atingindo todas as noites temperaturas negativas. 

Senti que levei o início do segundo período de uma forma mais calma e as viagens diárias para a escola  foram feitas quase todas a pé, pois moro a cerca de 700 metros da escola. Aos poucos senti que me estava a adaptar ao ensino profissional e aos meus afazeres diários.

No dia 21 de janeiro o Governo indicou que iria começar no dia seguinte um novo confinamento na educação. Na  minha opinião neste segundo confinamento, a paragem letiva de duas semana entre 22 de janeiro e 7 de fevereiro foi exagerada, uma semana seria suficiente. Senti a necessidade de mais tempo para descansar na interrupção letiva da Páscoa, essencialmente devido à dureza e à pressão sentida na parte final do segundo período.

O segundo confinamento para mim que dou aulas a 340km da minha área de residência foi a melhor coisa que me aconteceu, pois deixei de ter o desgaste das viagens o que me forneceu mais tempo para organizar as aulas e as avaliações dos 9 módulos que conclui no final do segundo período. 

Termino o texto com o Duarte, realçando a importância que este confinamento teve para a minha reaproximação ao meu filho. Ele nunca percebeu bem a razão da minha ausência durante tantos dias da semana e aos poucos senti que ele se estava a distanciar um pouco de mim aproximando-se mais da mãe. O que mais me custou neste comportamento do Duarte foi que deixei de conseguir adormecê-lo pois ele deitava-se e passado uns breves minutos ia chamar a mãe. Esse comportamento do Duarte deixou-me muito triste, no entanto foi a forma que ele encontrou de mostrar o seu descontentamento perante a minha ausência. 

Neste período em que o covid 19 nos obrigou a estar em casa aproveitei para conversar e brincar muito com o Duarte e aos poucos senti uma progressiva aproximação . Foi uma sensação fantástica, e que me fez tão bem,

Hoje posso dizer  que voltámos a ser grandes amigos.  Darmos grandes e infindáveis  passeios e apercebi-me que o tempo que passo com  Duarte passou a ser vivido com mais qualidade e sem pressa. Hoje já o consigo adormecê-lo, dar-lhe banho e acima conseguir que ele me escolhesse de forma espontânea  para brincar. Desta forma consegui libertar algum peso sobre os ombros da mãe conseguindo que ela tivesse mais tempo para realizar as suas múltiplas tarefas 

Dia 19 de Abril recomeço a minha atividade de forma presencial mais feliz.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Cansaço

Amanhã para mim já começa o último período, ainda com o ensino à distância.

Sinto-me cansado.

Os dias de descanso entre o segundo e terceiro período, foram insuficientes para desligar completamente de um final do segundo período diabólico onde a pressão e o desgaste foram tremendos. 

sábado, 3 de abril de 2021

As origens do fascismo. Notas sobre o livro de Antonio Scurati, Mussolini, o filho do século: Autor Luís Filipe Torgal

No espaço de Opinião na Rádio Boa Nova, Luís Filipe Torgal apresenta “As origens do fascismo.Notas sobre o livro de Antonio Scurati, Mussolini, o filho do século”. Luís Filipe Torgal é professor de História do Agrupamento de Escolas de Oliveira do Hospital, investigador e colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20) e autor de vários livros e artigos científicos ou de intervenção cívica e conferencista.

“A literatura tem múltiplas utilidades. Uma delas será o seu contributo para a construção de cidadãos melhor esclarecidos e de sociedades mais fraternas. Creio que o livro, aqui evocado, de Antonio Scurati, Mussolini, o filho do século, constitui um bom exemplo do poder cívico da literatura. Embrenhemo-nos, pois, nos meandros da intriga histórica narrada por Scurati, ao longo de 850 páginas.

A I Guerra Mundial terminou com a Itália a combater ao lado dos vencedores. Porém, como proclamou o poeta guerreiro futurista Gabriele D`Annunzio, Roma obteve uma «vitória mutilada». O país abandonou, humilhado, a Conferência de Paz de Paris (1919-20), porque os seus aliados americanos, ingleses e franceses quebraram o prometido: não reconheceram à Itália o direito de ocupar a Dalmácia e Fume, nem tão-pouco lhe concederam as indemnizações que reivindicava.

Como outros países europeus dilacerados pelas sequelas da guerra (onde devemos incluir Portugal), a Itália mergulhou no caos político, económico e social. Resvalou para um ambiente de guerra civil. De um lado, os «vermelhos»: movimentos socialistas que — impulsionados pelo êxito da Revolução Soviética de outubro de 1917 — lançaram no país uma vaga de greves, manifestações, ocupações de fábricas e terras, enquanto urdiam a revolução proletária. Do outro lado, os «negros»: movimento dos Fasci di Combattimento, fundado na Piazza de San Sepolcro, em Milão, a 23 de março de 1919, constituído por veteranos e heróis da guerra entretanto desmobilizados e enjeitados pelo Estado (os sinistros Arditis), mas também por futuristas, anarcossindicalistas e outros vagabundos, delinquentes, recalcitrantes e arrivistas ultranacionalistas de ocasião. Os esquadrões dos Fasci, bem armados e treinados nas táticas da guerra das trincheiras, direcionaram todo o seu ressentimento, ódio e violência contra as fações socialistas. No meio, um Estado demoliberal decadente, corrupto, falhado, despojado de sensibilidade social, incapaz de impor a ordem pública, impotente para granjear consensos na sociedade civil e reconstruir um país arruinado pela guerra e esquartejado pelos combates político-ideológicos internos.  

Mussolini (1883-1945) iniciou a sua carreira política na ala revolucionária do Partido Socialista Italiano. Dirigiu o jornal socialista Avanti! desde 1912. Todavia, quando o conflito mundial rebentou, passou de apóstolo sincero e apaixonado da neutralidade absoluta, subscrita pela maioria das fileiras socialistas, a apóstolo sincero e apaixonado da intervenção na guerra. Por isso, logo em 1914, confrontou a direção do Partido Socialista, abandonou o Avanti! e criou o jornal Il Popolo d´Itália, que haveria de tornar-se o órgão oficial do futuro Partido Nacional Fascista (PNF). Desse periódico declarou guerra aos seus camaradas de outrora, os quais acabaram por acusá-lo de indignidade política e moral e deliberaram a sua expulsão do partido. Fundou os Fasci di Combattimento, corpo político-militar ultranacionalista e antissistema atrás mencionado que, todavia, apresentou um programa político que quase reproduzia o manifesto dos socialistas revolucionários: política externa não subserviente; lei eleitoral mais inclusiva; abolição do senado; reformas laborais generosas; distribuição pelos camponeses de terras não cultivadas; escola pública laica; impostos extraordinários progressivos sobre o capital; expropriações parciais de todas as riquezas; confiscação dos bens das congregações religiosas.

Em 1919, este movimento obteve cifras eleitorais insignificantes. Todavia, as clivagens insanáveis no seio dos «vermelhos», entre socialistas reformistas e comunistas bolcheviques, desgastaram irremediavelmente estes adversários viscerais dos «negros». Pelo contrário, os fascistas, apesar das recorrentes altercações internas entre os seus irredutíveis próceres, reergueram-se e revelaram mais pragmatismo. Uniram-se no PNF, fundado no congresso de Roma, em novembro de 1921, e rasgaram o programa dos Fasci. Tornaram-se «antidoutrinários». Converteram-se numa síntese de todas as afirmações e todas as negações republicanas, monárquicas, socialistas, democratas, conservadoras, nacionalistas e quantas mais. A elasticidade ideológica do movimento e a astúcia amoral e maquiavélica do seu Duce, Mussolini, tornou-os «revolucionários ou reacionários», consoante as circunstâncias. O fascismo ressurgiu e propagou-se como uma epidemia, adaptando o seu discurso demagógico e práticas agressivas às circunstâncias do momento. Compreendeu que para conquistar o poder teria de recorrer aos expedientes mais perversos, de modo a persuadir as elites sociais e as massas proletarizadas, desqualificadas ou aterrorizadas: a mentira, o crime organizado, os espancamentos, a banalização da violência, a fraude eleitoral e até a união fugaz e oportunista com os partidos burgueses conservadores moderados do Bloco Nacional. União que, aliás, lhes foi oferecida por estes nacionalistas, atemorizados com a «peste» bolchevique, e que haveria de legitimar os fascistas e proporcionar a eleição para o Parlamento dos seus primeiros deputados, em maio de 1921. Os «negros» ganharam um novo protagonismo dentro do órgão primordial da democracia. Mas, evidentemente, não ficaram saciados. Em outubro de 1922, os Camisas Negras marcharam sobre Roma e através deste golpe de mão (no qual o Duce assumiu uma posição ambígua e de retaguarda) tomaram o poder, a convite do atemorizado rei Vítor Emanuel III, que nomeou o acrobata político Mussolini presidente do Governo. O agregador dos fascistas entretanto promovido a líder providencial dos italianos tomou posse perante um parlamento apinhado e entusiástico, que esqueceu depressa o terror provocado pelas hordas fascistas e sonhava assistir à alvorada de uma nova era de glória e prosperidade. O discurso de Mussolini foi insolente e premonitório para com o hemiciclo e os seus deputados: — «Senhores! Aquilo que hoje pratico, neste auditório, é um ato de deferência formal para convosco e pelo qual não vos peço nenhum atestado de reconhecimento concreto. […] Podia fazer deste hemiciclo surdo e cinzento um acampamento de fantoches. […] Podia ter fechado a porta do Parlamento e constituir um governo de fascistas. Podia, mas, pelo menos por agora, não quis.»

Não quis naquele momento, mas fê-lo nos anos seguintes. Conquistada a máquina do Estado, os fascistas continuaram a recorrer a brutais ações de violência e, depois, a descaradas fraudes eleitorais para dizimarem os seus adversários externos e internos e vencerem com maioria absoluta as eleições legislativas de 1924. A trama macabra do assassinato do intrépido líder socialista Giacomo Matteotti por sicários da «Tcheka Fascista», a mando do Duce, e que quase fez cair o seu governo, são narrados com singular subtileza na parte final do livro.

O que atrás ficou dito e muito mais pode ler-se no primeiro volume deste longo, minucioso e empolgante romance de Scurati (circunscrito entre 1919 e 1925). Os dois volumes seguintes desta trilogia ainda estão na forja. Como podemos classificar este livro? Uma narrativa romanesca onde desfilam personagens tragicómicas concretas — desordeiros, arrivistas, politiqueiros, facínoras, alienados, demagogos, fanáticos, idealistas e incautos. Sucedem-se episódios rocambolescos, impressivos — contados com uma sedutora linguagem literária —, mas verosímeis, assustadoramente reais, bem sustentados por trechos de documentos da época, que compõem um fresco lancinante da Itália do pós-guerra. O autor adverte, numa nota preambular do livro: «não há um só acontecimento, personagem, diálogo ou discurso aqui narrados que não esteja documentado e/ou testemunhado autorizadamente por mais de uma fonte». Em suma: um «romance documental», que busca uma representação literária verídica (ainda que não historiográfica) do fascismo original.  

O livro termina com o famoso discurso proferido pelo primeiro-ministro, Mussolini, no Parlamento, a 3 de janeiro de 1925, que marca o enterro da democracia, perante o silêncio fúnebre (cúmplice e covarde) de todos os deputados. Conhecemos o fim da história que ainda fica por contar na obra aqui evocada: com a complacência do povo e de quase todos os políticos moderados, os fascistas dirigidos pelo seu «bom tirano» suprimiram as oposições remanescentes, implantaram o Estado totalitário e iniciaram uma política de conquistas militares que os levaria à aliança com Hitler e o nazismo alemão. Depois, o terrorismo nazi-fascista projetou o mundo para a apocalíptica II Guerra Mundial (1939-45) e o Holocausto, que terminariam com a execução de Mussolini, o colapso da Itália e do seu povo.

Importa concluir que a obra de Scurati, editada pela ASA, é uma empolgante lição de História. Habilita-nos a conhecer o passado e o presente da Itália, mas também da Europa e do mundo. Leva-nos a intuir que a História não tem um movimento retilíneo, pois replica dolorosamente os erros do passado. Em última análise, ajuda-nos a compreender a génese e o destino dos chamados movimentos «populistas» atuais e as ambições, fobias e idiossincrasias dos seus chefes, acólitos e adeptos.

Por isso, caro leitor, se deseja mesmo captar a atmosfera das sociedades de hoje e desvendar como emergem e triunfam os manipuladores de massas do século XXI, recomendo-lhe a leitura desta extraordinária narrativa sobre a ascensão do primeiro movimento fascista e do seu criador”.

Luís Filipe Torgal


quarta-feira, 3 de março de 2021

O sonho do Duarte

Bem nem sei por onde começar. Arrepiei-me com a descrição tão exaustiva da imaginação do Duarte. Desta  vez fui eu que fiz as perguntas. A minha ambição é transparecer um bocadinho da emoção que o Duarte descreveu o seu sonho.

Tudo começou há breves minutos, sentei-me e comecei a conversar com o Duarte na esperança que ele acalmasse depois de um período após o jantar onde ele correu, saltou do sofá, caiu  e calcorreou todos os recantos da casa como é o normal no final do dia.

Comecei a fazer uns riscos numa folha branca de rascunho e a contar a minha história. Lembrei-me de há uns dias o Duarte ter falado de um sonho que tinha tido, onde dizia que estava no Luso a brincar com os seus brinquedos. O grande hiato temporal sem ir à casa dos avós maternos deixou mossa naquele cérebro pequenino, mas com uma tremenda imaginação.

Contei o meu sonho inventado começando por dizer que ele estava no Luso com a mãe. A mãe Cecília inesperadamente teve uma reunião que demorou muito tempo e quando se apercebeu já era muito tarde para regressarem. Decidiram jantar e passar a noite no Luso.  Senti que a partir daqui já tinha cativado a atenção do Duarte. Parei uns segundos a narração e o Duarte disse "e depois pai". Estava a conseguir acalmá-lo e  a fixar a atenção dele naquilo que eu dizia. Prossegui a narração do sonho inventado. Ao outro dia de manhã bem cedo a mãe acordou e começou a trabalhar horas a fio. A avó "Lai", diminutivo de Cidália, teve que ir acordar o Duarte, vesti-lo, dar-lhe o pequeno almoço e brincar toda a manhã com o neto. A Cecília em consequência das inúmeras tarefas que teve de fazer mais uma vez nem se apercebeu das horas e quando finalmente terminou a última reunião, já era hora de almoço. Cecília disse "não pode ser, como é possível a manhã ter passado tão rápido". A avó Cidália pôs as mãos na cabeça e disse  "como é possível ter-me esquecido de dar de comer às galinhas e aos coelhos". Saiu a correr muito e foi perguntar ao avô "Xandre",diminutivo de Alexandre, se podia dar de comer às galinhas e aos coelhos para ela poder ir tratar do almoço. Após o almoço a Cecília disse à mãe Cidália que tinha de ir para Oliveira do Hospital pois tinha que fazer análises e o pai Tiago estava sozinho,  não sabia fazer comer e estava a passar fome. Bem o meu sonho estapafúrdio terminou quando o Duarte e a mãe iam a caminho de Oliveira do Hospital.

Bem Duarte agora é a tua vez de contar o teu sonho.

Duarte- "Pai eu esta noite ouvi os cães a ladrar muito e um homem a acompanhá-los. Ladravam muito alto, gritavam."

Eu- "Gritavam como?"

Duarte- "Au, Au muito alto". Foi tudo tão assustador pai.

O Duarte pôs as mãos na cabeça e disse "Ai meu deus foi tudo tão horrível"

Eu "Mas o que é que se passou no teu sonho filho, conta-me por favor"

Eu suspirava tentando demonstrar um sinal de medo e de envolvência na história.

Duarte" Pai começou tudo a tremer"

Eu com um ar muito espantado argumentei "Como assim Duarte diz-me o que é se passou"

Duarte "Os prédios começaram a levantar-se do chão"

Por momentos pensei que estava a entrar num livro, mas estava apenas a entrar na cabeça do Duarte.

Eu "Mas quem é que levantou os prédios, Duarte diz-me"

Duarte " Foram bruxas pai. Elas com as mãos conseguiram levantar o prédio e move-lo para longe, destruíram tudo à  sua volta, foi horrível pai"

O Duarte com as mãos na cabeça andava de um lado para o outro, mexia nas coisas do escritório e voltava a colocá-las no lugar.

Duarte "Pai foi tudo tão horrível"

Duarte " As escavadoras começaram a levantar as pás a fazer mal aos prédios e às pessoas"

Duarte "Os carros de bombeiros começaram a levantara a escadas descontroladamente"

Duarte "Foi tudo destruído à volta do prédio"

Eu nesta altura já suspirava. Pedia-lhe para respirar fundo.

Eu " A história acabou bem ou mal, o que aconteceu aos cães que começaram o sonho"

Duarte " Os cães ladraram a pedir ajuda"

Eu " E acabou a história ou ainda tens mais a contar"

Duarte" Depois apareceram os polícias para tentar prender as bruxas, lançaram a rede mas não conseguiram e as bruxas venceram"

O Duarte enumerou um conjunto de personagens penso da história da branca de neve e dos sete que não tive capacidade de reter.

E assim acabou a narração diabólica que o Duarte fez do seu sonho.

Os dois sonhos que eu acabei de descrever retratam as realidade que vivemos. Muito trabalho que nós enquanto professores temos, por vezes não conseguimos dar à atenção que o Duarte merecia e socorremo-nos dos avós para darmos conta dos muito recados que temos que fazer. O Duarte por sua vês infelizmente vicia-se cada vez mais em histórias de super-heróis de bruxas e vive aquilo com uma intensidade tal que por vezes não distingue a realidade da ficção.

Apesar de ter tentado puxar por ele preocupou-me a forma entusiasmada e assustadora como ele descreveu tudo aquilo.

Fica o alerta para nós pais e educadores.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Há pedras que não se levantam- Artigo de Mia Couto (escritor Moçambicano)


Um texto maravilhoso de um grande escritor escritor moçambicano que nos dá a conhecer os motivos que levaram à ascensão do Estado Islâmico em Moçambique. Redigido em exclusivo no Newletter do  Fumaça. Um fantástico grupo de jovens jornalistas. Consultem o site. 

Deixo-vos o texto de Mia Couto:

 Olá. 

Os escritores alimentam uma relação equivocada com os outros. Talvez eles sejam escritores por essa mesma razão: a consciência de que estão equivocados quando representam o mundo. Os escritores, em geral, não resistem à tentação de ficarem calados quando lhes dirigem todo o tipo de perguntas. Vão a todas. Têm opinião sobre tudo: sobre a situação no Iraque, sobre as ameaças climáticas, sobre o destino do Trump, sobre os caminhos atribulados da COVID-19. Perguntas que não se fazem a um exímio dentista ou a um engenheiro espacial são dirigidas aos escritores como se eles fossem dotados de uma sabedoria particular. No meu caso, quando me fazem essas perguntas, a resposta mais honesta seria confessar: eu escrevo exatamente porque não sei. Sou um especialista em ignorâncias. E imagino que essa seja a mesma condição de todos os poetas e escritores: o gosto de reconhecer a sua mais profunda falta de erudição sobre o mundo. A única habilidade do escritor é enfrentar sem disfarce este desamparo. 

Toda esta palavrosa introdução vem a propósito do desafio que a Fumaça me lançou: escrever umas tantas linhas sobre a situação de guerra em Cabo Delgado. Quando me pedem explicação sobre o conflito no Norte de Moçambique, a primeira coisa que me ocorre é a admissão da minha incapacidade. Sei que esta declaração de não entendimento não resulta. O mais fácil e o mais lucrativo para um jornal seria apresentar certezas com a energia com que um jogador de cartas joga um trunfo sobre a mesa. 

Esta minha contribuição tem a pretensão de sugerir como a abordagem jornalística da situação em Cabo Delgado tem alertado para a existência de um drama de dimensão global. Mas nem sempre a abordagem redutora de um certo tipo de jornalismo nos ajuda ao entendimento das causas daquela violência. 

Quando surgiram os primeiros ataques na província nortenha de Cabo Delgado alguns sociólogos ligados a ONGs anunciaram que tinham uma explicação sobre o que estava a acontecer. A elucidação não variava: os revoltosos insurgiam-se contra a exclusão social, manifestam-se contra práticas injustas de representantes do Estado. Tratava-se, pois, de uma violência esperada e legitimada contra a violência do Estado moderno. Essa explicação tinha um “senão”: ela explicava muito pouco. Em todas as províncias de Maputo acontece a mesma exclusão e a injustiça. Porquê só ali, na costa de Cabo Delgado, ocorria esse fenómeno? Não existe Estado que não imponha a sua presença por vias que não tomam em conta as especificidades das práticas rurais e locais de governação que uns chamam de “tradicional”. 

Por um acaso, posso dizer que conheço aquela região. Desde 2004 que, no meu trabalho de biólogo, visito os distritos de Palma e Mocímboa da Praia, os mesmos distritos onde hoje sucedem os ataques terroristas. Perdi a conta às vezes em que, de tenda às costas, fiz estudos de ecologia naquelas zonas costeiras. Essas permanências duravam, por vezes, várias semanas. Nas primeiras visitas, eu vi aquilo que corresponde ao estereótipo que a Europa construiu da “África profunda”. Cruzávamos na estrada com elefantes, a aldeia onde eu acampava foi objeto de ataques de leões que, num espaço de três meses, devoraram 25 mulheres camponesas. A presença do Estado era uma coisa vaga, quase inexistente. Foi ali – e não podia ser em mais nenhum lugar de Moçambique – que escrevi o romance “A Confissão da Leoa”. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que entre os camponeses, pescadores e caçadores daqueles lugares era muito nebuloso o sentimento de pertença nacional. Quando queria saber do mundo, aquela gente olha para o oceano. É ali que mora o grande caminho, é por esse grande mar que se encontra o grande cordão que os mantém ligados a uma identidade antiga e coletiva. Até ao início do século XX, aquela região, apesar de estar dentro do mapa de Moçambique, funcionava como parte orgânica de um velho império Swahili que, durante séculos, respondeu perante o sultão de Zanzibar. 

Era raro ver por ali uma autoridade que representasse o Estado, essa criatura abstrata e distante cuja cabeça está a três mil quilómetros, lá no Sul, onde se fala outra língua, se pratica outra religião e se constrói uma outra narrativa do que será o futuro. As pessoas raramente falavam português, não escutavam nem as rádios e muito menos as televisões de Moçambique. Sintonizavam as estações tanzanianas. Aos poucos, porém, aquela paisagem humana foi mudando. E o que eu não via era bem mais do que era visível. Negócios obscuros de drogas, de negócios de trânsito de imigrantes vindos dos Grandes Lagos, de venda de rubis fizeram enriquecer camponeses pobres que beneficiavam da ausência total do Estado. Não se pode ser ilegal quando a lei do Estado não prevalece. Não havia outra lei senão os mandamentos locais. Não era preciso ser informal. Porque faltava o formal. Camponeses viraram garimpeiros, pescadores viraram transportadores de mercadorias, caçadores viraram motoristas que transportavam cargas humanas. Enfim, uma terra completamente periférica passou a sentir que era o centro e que vivia bem sem a presença de outros. Mas a riqueza criada por esses pequenos e clandestinos negócios deixava de lado a grande maioria da população local. 

De repente chegou o Estado. E quis impor ordem. Quis controlar, quis ficar dono como é da sua própria natureza. Chegaram também as empresas estrangeiras. Que obrigou a que se pagasse impostos e exigiu dos camponeses ricos e pobres que passassem a ser cidadãos de um Estado moderno. Esse foi o grande primeiro embate. Essa modernidade que assim se estabelecia roubava espaço aos mecanismos locais legítimos (e sobretudo os ilegítimos) que se haviam estabelecido. 

Mas houve mais, houve uma invasão progressiva de profetas radicais que, em nome da religião, preparavam a violência que hoje se manifesta. Jovens que tinham sido enviados para “estudar” na Arábia Saudita e no Sudão regressavam como mensageiros de uma nova verdade. E que consideravam que o islamismo há séculos estabelecido na região era uma deturpação de uma leitura mais pura do Alcorão. Testemunhei encontros de violência verbal e física entre os muçulmanos já instalados em Cabo Delgado e os que chegavam vindo de outras madrassas, de outras geografias. Em 2004, fui obrigado a fugir do pátio de uma mesquita para onde eu tinha sido convidado para falar com a comunidade religiosa. Inesperadamente, a mesquita foi assaltada violentamente por jovens muçulmanos que defendiam “outro” Islão.

Vou deixar de lado outras dimensões daquelas sociedades da costa de Cabo Delgado (é importante entender que a violência atinge sobretudo os distritos litorais). Seria importante conhecer tensões étnicas que possuem raízes antigas, sobretudo naquela zona costeira. Recordo-me de que, enquanto preparava para escrever um outro livro, viajei por aquelas zonas em busca de memórias da escravatura. Ninguém se oferecia para depor, ninguém queria partilhar histórias antigas. Escravatura?, perguntavam, fingindo-se perplexos. Nunca aqui houve nada disso, respondiam. Até que um dia um velho deu-me o seguinte conselho: há pedras que não se levantam, debaixo delas moram fantasmas que nunca foram enterrados. 

Não quis neste breve artigo dar respostas. A intenção foi apenas sugerir que, como disse o velho pescador, há fantasmas antigos por debaixo de pedras. A violência em Cabo Delgado tem dimensões históricas, sociais, religiosas que escapam a uma resposta fácil e total. 


Mia Couto

Escritor e biólogo moçambicano

sábado, 13 de fevereiro de 2021

"Pai como é que metem a água na garrafa?"

Hoje eu e o Duarte fomos passear de manhã a Travanca de Lagos.

No final do passeio sentámo-nos no muro da escola primária e o Duarte perguntou enquanto bebia água de uma pequena garrafa de plástico "pai como é que metem a água na garrafa".

A minha imaginação percorreu um conjunto de caminhos para encontrar uma explicação simples que uma criança de 4 anos acabados de fazer percebesse. 

Refleti um pouco e apercebi-me que só há pouco mais de uma década entendi porque é que a água brotava das nascentes dos rios. Na minha mente permaneceu durante muito tempo a ideia da minha avó Prazeres, muito religiosa, que dizia que a água brotava debaixo da terra devido a um milagre divino.

Bem continuando a minha exposição à pergunta do Duarte:

"Duarte a água vem das nuvens e quando chove a água cai no solo e vai para debaixo da terra"

"A água permanece debaixo da terra criando rios"

O Duarte não percebeu muito bem essa parte (rios de baixo da terra) e tive que lhe dizer explicar melhor: "imagina um copo gigante que está debaixo na terra que apanha a água que cai da chuva". "Lembra-te naquela água que está naquele copo gigante debaixo da terra, nunca há sol e a água fica lá muito tempo".

"Porque é que o sol não entra pai" perguntou o Duarte ao que eu respondi "Não entra porque como te disse a água do copo gigante está debaixo da terra e o sol não consegue lá chegar" Para não estar a introduzir a palavra infiltrar que dava azo a outro diálogo e mais perguntas avancei com a explicação.

 "Há duas maneiras que o Homem tem de tirar a água do copo gigante que está debaixo da terra" 

"Quais são as duas maneiras" perguntou o Duarte 

"Sabes Duarte a primeira maneira é furar a terra com uma broca gigante para chegar à água que está no copo gigante"

"Pai como é que conseguimos tirar a água do copo gigante?"

"Bem quem tira a água é um motor" "pai como é que o motor tira a água" Bem inverti a exposição e falei-lhe do aspirador. "Sabes Duarte imagina que o motor é um aspirador que aspira o lixo qua anda no chão da nossa  casa" "O motor aspira a água que está no copo e vai para as torneiras e daí para a garrafa de água".

Queres saber qual a segunda maneira. Ele estava confuso mas aceitou que eu continuasse a explicação. A segunda maneira foi mais difícil de explicar. Foi a minha dúvida que permaneceu na minha cabeça durante mais de duas décadas.




"A  segunda maneira acontece quando o copo gigante fica cheio e a água entorna e forma rios de baixo da terra. Os rios percorrem distâncias muito grandes debaixo da terra até que encontram um local mais fraco e conseguem aparecer à superfície dando origem às nascentes dos rios e ribeiros" 

Esta segunda ideia definitivamente o Duarte não percebeu bem ou talvez eu não tenha conseguido ter a capacidade de a explicar de um modo mais simples. Ficou a tentativa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A minha família

Saudade é uma palavra não tem sinónimo em mais nenhuma língua.No ano 2020 essa palavra fez-se sentir de forma muito cruel. Não poder abraçar quem mais amamos por medo de lhe passar o maldito vírus, é duro.

Não tem sido fácil para mim perceber qual a decisão certa a tomar num determinado momento. Sem dúvida é o coração a falar de uma maneira diferente da razão.

Desde o tão polémico natal de 2020 que não estou à mesa com ninguém da minha família. Antes do Natal evitava ao máximo estar em casa dos meus pais por momentos que seja sem máscara. É uma mistura de sentimentos que me tornou aqueles momentos em famílias diferentes e sem a descontração habitual. 

A última vez que consegui estar descontraído em família foi nas férias de verão naquela semana na praia da Tocha, onde nos reunimos em pequenos grupos naquela casa da praia com um terraço onde ainda hoje sinto o palato daquele peixe grelhado e o sol quente daquela semana de agosto. 

A derradeira vez que chorei de alegria foi na primeira semana de agosto  após ter recebido a  notícia que ia ser tio, estávamos então na Figueira da Foz com os meus pais, avó, irmã, cunhado, Cecília e com o meu filho.

Tenho saudades das conversas com a minha irmã e o meu cunhado sem máscara, de discutir política com o meu tio ao domingo ou História com o meu pai.

Os meus pais têm sido incansáveis e admito que por vezes tenho  agido de forma demasiado apreensiva quando lhes faço uma visita, daí evitar lá ir. As deslocações para Grândola contribuíram para aliviar esses contactos e obrigado a focar-me apenas no trabalho.

Os meus pais desde o nascimento do Duarte, nunca nos negaram  o auxílio e foram essenciais na definição da nossa vida profissional. A minha mãe várias vezes acordou às 6h para estar às 6h30 em nossa casa, esperar que o Duarte acordasse para o levar à creche com mais horas de sono. Por várias noites o Duarte ficou a dormir em casa dos meus pais com pouco mais de um ano de vida.

 A minha mãe foi bafejada com uma reforma longa mas merecida em consequência de um  trabalho que começou aos 18 anos como professora em Chãs de Égua. Que história bonita que ela me contou sobre  a sua primeira escola em Chãs de Égua. Quando fui carteiro passava junto da antiga escola primária de Chãs de Égua, atualmente um centro de interpretação da arte rupestre e lembrava-me do ano longínquo de 1973 quando quando a minha mãe se foi apresentar como professora naquela localidade, localizada numa encosta da Serra do Açor no concelho de Arganil.

Em 1973 a minha mãe, ainda há muito pouco tempo tinha feito 18 anos, quando foi com o tio Renato que eu nunca tive a sorte de conhecer, com a sua esposa a minha tia Graça (irmã da minha avó), com o meu tio Vasco (irmão da minha mãe) então com 7 anos e a minha avó na época uma jovem com 38 anos . Os 5  foram no carro do meu tio Renato em direção a Chãs de Égua com o intuito de a minha mãe se apresentar na escola onde iria começar a exercer a profissão de professora do primeiro ciclo. 

 A estrada era de terra batida e as constantes dúvidas na direção a tomar levaram à necessidade de parar várias vezes para perguntar qual o melhor caminho a seguir. Em 1973 as aldeias serranas do concelho de Arganil eram habitadas por muita gente e não foi difícil encontrar quem os ajudasse. Após longos quilómetros a viagem terminou finalmente após uma descida muito íngreme num caminho de  terra batida. Após aquela viagem atribulada a minha avó comentou "filha vamos embora, não te quero a trabalhar neste lugar".

Aquando da chegada daqueles 5 estranhos, os locais perceberam que era a professora que por tanto ansiavam e foram de imediato tocar o sino para avisar da boa nova. Perguntaram se a professora seria a tia Graça  dada a juventude da minha mãe.

A minha avó, a minha mãe e o meu tio instalaram-se na "casa do professor" e preparam-se para uma fase muito difícil, ainda em ditadura sem água, nem luz e longe de casa. Foi em Chãs de Égua que o meu tio Vasco e irmão da minha mãe aprendeu a ler.

Ao domingo a minha avó acordava muito cedo (ainda de noite) e levava um tronco quente da lareira e usava-o para lhe alumiar o caminho que fazia todas as semanas para assistir à missa no Piódão, a localidade mais próxima.

Avançando pouco mais de uma década, recordo-me através das fotografias da minha primeira casa em Andorinha, local onde os meus pais estavam a lecionar na altura. Revejo a casa através das fotos, ficava perto da escola primária.  Andorinha pertence à freguesia de Travanca de Lagos (Oliveira do Hospital). Travanca de Lagos foi o local onde eu em meados da década de oitenta  e o meu filho Duarte em 2017 se batizaram na igreja matriz que jaz naquela localidade. Revejo as memórias do batizado do Duarte com saudade. O Duarte nessa altura tinha pouco mais de sete meses e começava a descobrir o mundo e o seu olhar de explorador já latejava naquele tempo. Observou a igreja e toda aquela ambiência preparada minuciosamente por Isilda, pertencente ao grupo de jovens, que afinou as vozes e os acordes das guitarras numa linda cerimónia plena de harmonia. Para mim foi bonito pela primeira vez ver a minha família e a da Cecília juntas, foi pena a minha madrinha não ter vindo mas foi maravilhoso rever os meus primos e tios da Costa da Caparica que vejo tão ténues vezes.

Em meados da década de oitenta a minha mãe já tinha alguns anos de experiência mas o meu pai mais novo três anos e com um ingresso na carreira mais tardio ainda estava a dar os primeiros passos na profissão docente. Desses tempos recordo-me da vivacidade dos meus pais que dinamizavam inúmeras atividades num terreiro que ficava na parte de trás da escola primária de Andorinha. Recordo-me que na altura eles organizaram uma feira medieval com um grande impacto na comunidade escolar. Posso estar enganado mas senti que nesse tempo havia mais tempo para conhecer o espaço e as gentes, valorizavam mais o professor e os   encontros entre colegas tinham uma alegria muito diferente de hoje. 

Os meus pais são uns lutadores e pilares essenciais no meu crescimento e agora do Duarte. A minha mãe apresenta sempre  um sorriso no seu semblante não expressando por vezes a dor em consequência do trabalho que a minha avós lhe tem dado nos últimos anos. Admiro-a muito por isso. A minha avó, hoje com 86 anos, perdeu a sua autonomia e ganhou medos após uma queda que a obrigou a ser operada à bacia. A partir desse dia nunca mais foi a mesma, pois além da confiança perdeu a vivacidade e a vontade de habitar a sua casa, dar  o almoço todos os dias úteis da semana ao meu tio Vasco (meu  primo) e ao seu filho Diogo.

O  meu pai com o seu enorme jeito para brincar e ensinar crianças sempre deu ao neto um carinho imenso que através das inúmeras e sempre muito cúmplices brincadeiras que os tornaram inseparáveis. As saudades que o Duarte tem dos avós Pedro e Paulita evidenciam o enorme amor que eles têm por ele. O  imenso jeito que o meu pai tem para contar histórias  "hipnotizaram-no" desde muito cedo o Duarte que as ouve atentamente e transmitiram-lhe um imenso gosto pela leitura que eu tento dar continuidade. A minha mãe  com imenso jeito para a pintura que aprimorou durante a reforma transportou para o Duarte outros ensinamentos como a capacidade de concentração. Sem dúvida são duas pessoas que tornaram o Duarte uma pessoa cheia de sorte.

Espero sinceramente que muito em breve tudo volte à normalidade e possamos novamente conviver  abraçar e beijar sem medo. Muita saúde para todos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Recordações em confinamento. Autor: Antenor Santos

Nós, os homens, temos formas curiosas de dizer às pessoas que amamos. (Renato Nunes)

              A Catarina, a minha filha mais nova, agora com 46 anos, foi uma criança adorável. Sempre muito curiosa e esperta, nas brincadeiras infantis sabia lidar com acontecimentos menos favoráveis e sair airosamente de situações complicadas.

 Já passaram várias décadas desde as inúmeras viagens de férias que fazíamos juntos, por essa Europa fora. O nosso Mercedes amarelo tinha a dimensão ideal para cabermos todos, a Catarina, os seus três irmãos, a minha mulher e eu. O porta-bagagens, que tinha grande capacidade, era pequeno para caberem todos os pertences de seis viajantes: equipamento de cozinha, uma pequena tenda de montagem rápida e as malas, que, por ser verão, carregavam poucas roupas e muitos sonhos.

Depois de atravessarmos as grandes planícies de Espanha e as belas paisagens pirenaicas, penetrávamos em território francês, pernoitando em pequenos e funcionais parques de campismo municipais, quase desertos e sem qualquer pessoa a vigiá-los, onde, até com água quente, podíamos limpar os corpos e, no meio de tanta liberdade, purificar as almas.

Visitar Paris era o objetivo principal, que atingíamos com relativa facilidade. Subir à Torre Eiffel era para todos um grande desejo e uma tarefa bem simples, exceto para o Fabrício! Quando chegou a nossa vez de entrarmos no elevador de acesso ao monumento, o miúdo fez finca-pé e não queria entrar. Tinha medo, que vergonha, o único rapaz dos quatro irmãos, que foi obrigado a entrar, puxado pelo ascensorista e empurrado pelo resto do grupo, com a Suzana, a Mariana e a Catarina à cabeça!

Um pouco mais tarde, depois da visita ao Museu do Louvre, passeávamos nas ruas ao lado daquele monumento histórico, dedicado à arte, onde, para se circular, era necessário romper, já naqueles tempos, entre mares de gente. As instruções que tínhamos dado era que os miúdos se mantivessem unidos e a Catarina de mãos dadas connosco. Porém, depois de alguns minutos, demos conta que ela não estava connosco. Pensávamos que se tivesse juntado aos irmãos que vinham alguns passos atrás, mas ela não estava com eles. Que sufoco, a Catarina tinha-se perdido. Rompendo a multidão, voltámos para trás e fomos encontrá-la, parada, estática, exatamente no lugar onde, disse-nos ela depois, se tinha perdido do grupo. Com apenas seis ou sete anos, a nossa querida filha tinha acabado de nos dar uma lição, de como proceder em casos parecidos; não arredou pé, esperou, como é lógico, que nós voltássemos atrás para a procurar. Se ela se tivesse deslocado dali, para tentar encontrar-nos, teria sido muito difícil sairmos daquela situação a rir, no meio de muitos beijinhos e abraços de felicidade.

Sem percalços de maior, a viagem continuou para sudeste, cujo objetivo era agora ir para Itália. No percurso tivemos ainda a oportunidade de visitar a costa mediterrânica do sudeste francês e o Principado do Mónaco, com o seu famoso casino, onde não nos atrevemos a entrar, tanto pela feliz inaptidão ao jogo, como pelo aspeto andrajoso das nossas roupas de viagem, naquele fim de tarde de verão.

Mais tarde, depois de Florença e Pisa, já em Roma, não podíamos evitar a visita ao Vaticano. Tinha prometido aos meus filhos que iríamos ser recebidos pelo Papa! E eles tinham duvidado disso. Pensavam que era brincadeira, mas aguardava-os uma bela surpresa. À saída da Capela Sistina estendemo-nos pela esplendorosa Praça de São Pedro. Os miúdos, que viam terminar a visita, chamavam-me já “mentirosito”, por afinal irmos embora sem ver o Papa. Levei-os então para um canto da praça onde estava um expositor de postais turísticos, onde se destacava a figura de João Paulo II. Ali, reunidos em silêncio e simulando o ar mais sério possível declarei:

- Quem disse que eu sou mentiroso, quem se atreve? Ora aí está o Papa, eu não vos garanti que o íamos ver?! Numa explosão de insultos carinhosos lá partimos para o sul, onde nos aguardavam visitas a Nápoles, Capri e a Pompeios (que as pessoas insistem erradamente em denominar “Pompeia”.

O desejado regresso a casa, cansados de tão longa viagem, iniciou-se com um lanche. O açucareiro de esmalte, herança da minha avó, já mais antigo que somadas todas as nossas idades, ainda tinha açúcar deixado um mês antes. Dentro, para nosso espanto, estavam algumas minúsculas formigas já mortas. Enquanto eu retirava os restos dos gulosos insetos, de dentro do açucareiro, a Catarina, mostrando a sua habitual perspicácia, afirmou autoritariamente que as formigas tinham morrido porque eram diabéticas!  

A Catarina, atualmente é profissional de saúde e acaba de ser diagnosticada com covid 19. Esta situação é, para toda a nossa família, uma situação angustiante, mas todos acreditamos que ela consiga, tal como sempre o fez na vida, escapar airosamente das garras desta ameaça tão constrangedora.

Antenor Santos