sábado, 30 de janeiro de 2021

O passaporte da minha avó Autor: Renato Nunes

Tenho à minha frente o passaporte da minha avó materna, nascida em 1911, ano em que foi publicada a lei da separação das Igrejas do Estado. O referido passaporte, emitido na década de 30 do século passado, invoca as viagens marítimas realizadas entre Portugal e o Brasil (Santos), contendo os necessários carimbos da polícia política do Estado Novo (à época designada Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). O regresso definitivo ao território nacional ocorreu entre os derradeiros dias de Agosto e o início de Setembro de 1939. Eis, por conseguinte, a minha avó no meio do Atlântico, provavelmente temerosa com a passagem do Equador, enquanto deflagrava a II Guerra Mundial (1 de Setembro).

Chegava, assim, ao fim uma aventura iniciada uns anos antes, em circunstâncias pouco ou nada favoráveis, pois o crash da bolsa de Nova Iorque, em 1929, desencadeara uma das maiores crises financeiras, políticas e sociais, com ramificações a nível mundial. O repatriamento para Portugal, enquanto “indigente” (como figura no passaporte), comprova o que acabei de dizer. Alguns meses depois nasceria a minha mãe, filha de mãe solteira e de pai incógnito, numa remota aldeia do interior beirão. E penso que não serão necessárias mais palavras para o leitor imaginar o profundo estigma que à época recaiu sobre essa mulher recém-chegada do Brasil, de olhos castanhos, com 1,51m de altura e, como era comum na época, sem nunca ter desfrutado do privilégio de frequentar a escola para aprender a ler e a escrever…

Enquanto jovem, mal tive a oportunidade de conhecer a minha avó materna, mas hoje, já na casa dos 40, penso muitas vezes nesta destemida mulher e no drama da sua vida, passada a tratar das pesadas lides domésticas e agrícolas, próprias ou alheias, para à noite regressar a um casebre de granito, sem água, sem luz ou gás, onde o vento e a chuva faziam sentir a sua presença. Mas sempre com os velhos baús de madeira, vindos do Brasil, presentes no espaço nobre da sala improvisada... 

À medida que os anos transcorrem, o estudo do indivíduo e das suas circunstâncias insiste em fascinar-me cada vez mais. O exercício biográfico proporciona-nos, desde logo, um “encontro” com o ser humano, nas suas várias facetas e realidades quotidianas, quer enquanto personalidade pública ou simples cidadão anónimo. Quando se estuda um Homem, o local e o global entrelaçam-se de um modo tão inextricável, que é impossível compreender um sem mobilizar o outro. O exemplo concreto da minha avó e das circunstâncias dramáticas nas quais o mundo estava mergulhado quando ela procurou viver a aventura do Brasil poderão ajudar o leitor a compreender melhor o que pretendo afirmar. Outro exemplo concreto poderia passar pela participação dos portugueses na I Guerra Mundial: imaginar um dos meus conterrâneos beirões, “serranos”, nas trincheiras da Flandres, entre 1917 e 1918, é um pouco como se me fosse permitido contemplar o momento em que a história do indivíduo e a história do mundo deram as mãos (a obra de Isabel Pestana Marques — Das Trincheiras com saudade — é a este respeito uma sugestão de leitura incontornável).

É nesta mesma linha que gostaria de partilhar o entusiasmo que vivi recentemente, enquanto lia sofregamente um livro intitulado História Global de Portugal, dirigido por Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva. Trata-se de um conjunto de 93 textos produzidos por cerca de 80 autores, integrados em cinco partes aglutinadoras: Pré e Proto-História, Antiguidade, Idade Média, Época Moderna e Época Contemporânea.

Um dos aspectos surpreendentes da obra, com um total de 660 páginas, reside, desde logo, na sua estrutura coerente e rara limpidez textual. Os textos individuais, com cerca de seis páginas, podem ser lidos nos momentos mais banais do quotidiano, trazendo-nos um conjunto de sínteses, que colocam em causa vários mitos que continuam erradamente a ser repetidos até à exaustão. Apenas alguns exemplos: a associação simplista dos Montes Hermínios à Serra da Estrela, bem como da Lusitânia ao actual território português ou até mesmo a pouco sustentada associação de Fernão Magalhães a um suposto projecto de circum-navegação do Mundo, quando, de acordo com as fontes disponíveis, o seu objectivo passou isso sim por atingir as Molucas (ou ilhas de “Maluco”), na Indonésia. Poderia também destacar teses particularmente interessantes, como sejam as sucessivas movimentações humanas, já desde a Pré-História, a emissão de gás metano antes da Revolução Industrial (século XVIII), o entrelaçamento entre o mundo atlântico e o mundo mediterrânico, pelo menos desde a Idade do Bronze (III milénio a.C.), bem como alguns apontamentos interessantes a respeito da presença dos Viquingues no território que actualmente integra Portugal ou ainda um actual exercício de síntese a respeito da peste negra, no século XIV, que teria provocado a morte de aproximadamente 50 milhões de pessoas, das cerca de 80 milhões que à época viveriam na “Europa” (p. 272), bem como uma interessante entrada sobre o estudo da cultura do arroz em Portugal (pp. 347-351).

Este esforço, ainda pouco comum mesmo na comunidade científica nacional, de congregar um número elevado de investigadores à volta de um projecto comum, procurando entrelaçar o local e o global afigura-se-me meritório, sendo que a obra em causa passa a constituir uma ferramenta de trabalho quase obrigatória, quer na mesa de outros investigadores, professores ou simples curiosos pela compreensão do mundo em que vivem.

A reflexão que agora procuro desenvolver ajuda-me também a recordar um antigo professor universitário chamado Saul António Gomes, um historiador especializado na Época Medieval, ao qual, se bem me lembro, ouvi repetidamente — durante as aulas de Paleografia e Diplomática — sustentar que era forçoso ultrapassar a velha dicotomia entre o local e o nacional/mundial, pois os designados “estudos locais” ainda eram frequentemente percepcionados de um modo particularmente pejorativo. Não posso assegurar que eram exactamente aquelas as palavras utilizadas pelo aludido docente, mas aquela ideia continua, cerca de duas décadas depois, bem presente no meu espírito e esta também é, por conseguinte, uma das melhores homenagens, que, segundo creio, posso continuar a prestar-lhe.

Entre os aspectos mais discutíveis da obra, talvez seja importante destacar os seguintes: associação, frequentemente forçada, do tema em estudo a um suposto e quase obsessivo carácter global, o que, como teve oportunidade de assinalar Diogo Rama Curto numa crítica particularmente incisiva (p. 401), se traduziu, por vezes, em exercícios que roçam o anacronismo; uma perspectiva, porventura, demasiado decalcada da interpretação eclesiástica do fenómeno das “Aparições” de Fátima (1917), apresentada pelo historiador do Departamento de Estudos do Santuário de Fátima, Marco Daniel Duarte (pp. 573-578), parecendo ignorar, por exemplo, a transformação da própria mensagem apresentada pela Igreja Católica (os designados “segredos”) ao longo do século XX (ver, a este respeito, os estudos do historiador Luís Filipe Torgal ou numa perspectiva mais teológica as obras do proscrito padre Mário de Oliveira, bem como os “inflamados” textos de Tomás da Fonseca). Destaque-se, ainda, a quase omissão dos Açores (abordados superficialmente), que, à semelhança do que sucedeu com a Madeira, bem mereciam um texto individualizado; a integração do Estado Novo, num período situado logo a partir de 1928 (p. 359), o que, em certo sentido, escamoteia as especificidades da Ditadura Militar/Nacional (1926-1932); a ausência de notas de rodapé, o que se por um lado permite uma leitura mais fluida dos textos, por outro lado impede a confirmação dos elementos mencionados e, neste sentido, dificulta o trabalho de outros investigadores que pretendam debruçar-se sobre o tema.

Estes e outros aspectos da obra, que mereciam ser discutidos e aprofundados, não obscurecem, no entanto, o seu inestimável valor e pertinência, justificando-se plenamente a sua leitura. Afinal, os tempos que vivemos revelam-se cada vez mais incertos e com perigosas e assustadoras similitudes com as décadas de 20 e 30 do século passado, no decurso das quais milhões de pessoas ansiaram por um salvador, que destruísse o sistema e voltasse a construir, do vazio, um mundo perfeito. O resultado monstruoso desse passado já muitos de nós o conhecem, mas qual será o resultado deste presente que agora vivemos? Qual será o desfecho desta tendência assustadora que leva a que, em várias freguesias portuguesas, a extrema-direita se torne numa das forças políticas mais votadas?

Os argumentos, os não-argumentos, a hipocrisia e a loucura dos novos potenciais ditadores que por aí pululam, alimentados pelos dramas que estamos a viver, apenas poderão ser combatidos com mais conhecimento científico e políticas inclusivas. Eu não conheço outra ferramenta que possa ajudar-nos tanto nesse combate como a História. É também por isso que, apesar de as contingências da vida me terem forçado a procurar a sobrevivência para além das suas fronteiras profissionais, continuo frequentemente a agradecer o privilégio de poder estudá-la. A agradecer a todos aqueles que me ajudaram a amá-la, em especial aos professores com os quais tive a sorte de cruzar-me. É também graças a essa ciência-narrativa que pude e posso diariamente compreender melhor aqueles que me rodeiam e rodearam, como a minha querida e saudosa avó materna, que um dia rumou para o sonho do Brasil, em busca de uma vida melhor, mas poucos anos depois foi forçada, também pelo terrível poder da crise global, a regressar ao país natal, no navio “Highland Princess” e a enfrentar uma sociedade ultraconservadora e machista, onde a mãe solteira era frequentemente alvo da chacota e da exclusão social…

Mais do que através de leis e mais papéis, a inclusão constrói-se com conhecimento e sabedoria, algo que dificilmente se poderá separar da História. Ignorar isto é continuar a alimentar os extremismos. E quem alimenta monstros, acaba por ser devorado por eles — é apenas uma questão de tempo…       

Referências bibliográficas: Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva (direcção) — História Global de Portugal, 1.ª edição, Lisboa, Temas e Debates, 2020.

 

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Memórias da década de noventa

A infância e adolescência, são fases da minha vida que evito falar.

Quando algum colega ou amigo falava das aventuras e desventuras desta fase da sua vida eu imiscuía-me de dizer o que quer que fosse. Lembro-me que fui sempre muito reservado e metido comigo mesmo. Nas saídas sociais recordo-me que tinha receio de falar e emitir a minha opinião, pois achava que não tinha relevância. O nervosismo o desconforto quando estava em grupo eram latentes.

As minha memórias são muito ténues e refletem momentos bons e menos bons que passo a narrar de forma salteada:

No primeiro ciclo do ensino básico recordo-me do meu primeiro dia de aulas, ainda na antiga escola primária, atual escola Profissional de Oliveira do Hospital (Eptoliva) no final da década de 80. Como entrei um pouco mais tarde lembro-me que fui recebido de forma calorosa pelos meus colegas de turma.

As minhas professoras do 1º ciclo ainda faziam parte da velha guarda de professores, onde o castigo por errar tinha consequências diferentes das atuais. Cito duas situações que me recordo: a primeira prendia-se com a penalização aquando dos erros nos ditados, no qual erámos castigados com uma reguada de madeira por cada erro que dessemos, lembro-me que quando tentava tirar era pior pois batia-me no osso e eram dores horríveis; a segunda história aconteceu no final do quarto ano, que em consequência de uma ação que eu fiz (sinceramente não me recordo) a professora castigou-me colocando-me de joelhos em frente ao quadro. Tudo castigos que já não se usam há mais de duas décadas. A minha professora do 1º ano reformou-se no final desse ano letivo e a professora que a seguiu até ao final do meu primeiro ciclo reformou-se uns anos depois da conclusão do meu quarto ano de escolaridade.

No primeiro ciclo estive em duas escolas diferentes: nos dois primeiros anos estive na escola antiga  e nos dois anos seguintes fiz a transição para a nova escola e atual escola primária de Oliveira do Hospital.  No início da década de 90 o momentos mais marcantes foi o encerramento da escola por causa da neve. Foi a primeira e única vez que isso aconteceu. Na altura a ainda vila de Oliveira do Hospital ficou coberta de neve. O meu desalento veio quando cheguei a casa e soube que tinha de ir para Coimbra com os meus pais e não podia brincar com a neve ao outro dia salvo erro uma sexta feira do mês de fevereiro do inicio da década de 90.

As mudanças de ciclo foram para mim sempre uma grande tormenta, principalmente do 1º para o 2º ciclo e do 3º ciclo para o secundário.

Em consequência de naquele tempo o primeiro ciclo ser composto apenas por um professor a adaptação às mudanças para uma escola maior onde passei a ter quase 10 professores e várias salas de aula foi dura e difícil durante as primeiras semanas.

Nos tempos de escola, tal como agora nunca fui um grande jogador de futebol ao contrário do meu pai.  Lembro-me de dois torneios inter-turmas onde sobressaí, daí estar a falar disso, pois por norma era uma peça acessória e não saía do banco: o primeiro momento que quero destacar estava no segundo ou terceiro ciclo e recordo-me que na altura me colocaram a jogar e marquei um golo a alguns metros da baliza e na altura todos vieram a correr na minha direção, abraçaram-me deixando-me no meio de um conjunto de braços e pernas. Sentimentos estranhos para mim na altura e se calhar ainda hoje. O segundo torneio fora do normal, não me recordo ao certo se foi no terceiro ciclo ou secundário coincidiu com a ausência dos melhores jogadores e eu acabei por ter uma preponderância fora do normal, ganhámos e eu marquei dois golos o que para mim era um feito.. Acabámos por ganhar esses torneio e ainda tenho a medalha em casa dos meus pais. 

Outra mudança que eu me ressenti  muito foi a passagem do ensino básico para o secundário. A mudança de escola assim como a tipologia de ensino teve consequências nas notas que foram mais baixas no primeiro período. 

O meu ensino secundário coincidiu com a introdução dos telemóveis e da Informática na educação em Portugal. Lembro-me que nas aulas de Introdução às tecnologias de informação (ITI) se trabalhava com o Windows 95 onde ainda se dava umas pinceladas de MS DOS. Recordo-me de um colega que partilhava comigo o computador que já tinha telemóvel e sempre que recebia uma chamada ou uma mensagem sentiam-se as vibrações no ecrã do computador.

Nunca fui de grandes saídas à noite, restringia-me muito ao seio familiar que era onde me sentia mais confortável. Recordo-me de brincadeiras que tive com dois amigos que na altura eram os meus dois melhores amigos, o Pedro e o Ricardo. Hoje devido a  termos percorrido caminhos diferentes falamos de vez em quando por telefone. As brincadeiras de crianças hoje são reconhecidas como infantis ou adequados à época que vivíamos.

Uma das brincadeiras menos felizes foi lembrarmo-nos de combinarmos um encontro em minha casa à noite para darmos uma volta de bicicleta. Eles chegaram lá cada um com o seu foco e prontos para a aventura. A casa dos meus pais fica a cerca de 3 quilómetros de Oliveira do Hospital e na altura não havia tanta iluminação como há hoje e recordo-me muito bem que pouco víamos à frente da bicicleta mas lá fomos. Fomos até Oliveira do Hospital, na altura ainda não tínhamos o hábito dos bares, calcorreamos algumas ruas e estradas, levámos uma buzinadelas de carros que nos ultrapassavam e depois cada um foi para sua casa. Nesta fase da minha vida foi a coisa mais estapafúrdia que me recordo de ter feito, felizmente ninguém se aleijou.

Naquela altura não havia os mails nem telemóveis e o contacto com as raparigas era feito através de cartas que lhe chegavam através de amigos ou familiares. Eles faziam-no muito, enquanto eu não tinha tanto esse hábito. Lembro-me que fiz um bilhete para uma rapariga e não tive grande sucesso. 

Nas férias reuníamo-nos em minha casa para jogar à bola num terreno por trás da garagem onde o meu pai tinha apenas mato. Nós limpámos aquele espaço e improvisámos um campo de futebol com pedras e acho que aproveitámos as árvores que lá gereciam para servir de postes.  Passávamos ali tardes os três quando não convidámos mais 1 ou 2 para fazerem parte das nossas conversas e das correrias atrás de uma bola.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Memórias da minha vida profissional

Ser professor com gosto é algo fantástico!  Eu dedico-me imenso àquilo que faço quando sinto que sou útil e contribuiu para o meu crescimento profissional. Sabe bem passado vários anos os alunos não terem vergonha de virem ter connosco e cumprimentarem-nos com respeito e admiração.

Lembro-me quando estive em Sabóia- Odemira (2009/10) a minha colega de História com uma simpatia e simplicidade singulares me disse "ser professor é duro mas quando as coisas correm bem é tão bom".  Apesar de já não me lembrar  do nome dela ainda recordo-me das suas feições e da paixão que ela tinha em ser professora. Tinha imenso respeito por ela e adorei trabalhar com ela.

A minha fase inicial de carreira foi muito difícil, definitivamente não estava preparado para desempenhar tais funções. 

Lembro-me de dois episódios positivos que aconteceram no início da minha carreira docente:

O primeiro aconteceu em Rio Maior (2010/11) após 2 anos a dar aulas a alunos do 3º ciclo e secundário que não ligavam nenhuma à minhas aulas. Nesse ano em Rio maior dei aulas à noite a turmas de adultos e  recordo-me que numa aula que me correu particularmente bem ter dito  aos formandos no final. "obrigado". Sabe bem quando estão atentamente a olhar para nós a ouvir-nos com gosto. Não estava habituado a isso e como nunca tinha tido essa sensação a expressão veio do coração e foi espontânea.

O segundo episódio aconteceu no início da segunda década do século XXI onde estive alguns meses desempregado e as aulas como professor de ténis mantiveram a minha cabeça ocupada. Foi uma experiência muito boa pois dessa forma senti que estava mais preparado para entrar no mercado de trabalho. Na altura Portugal vivia uma situação de crise económica e havia muito desemprego docente. Concorri a um colégio sem esperança de lá ficar pois nessa altura entrar num colégio só mesmo com contactos terceiros. Após a entrevista no regresso a casa lembro-me perfeitamente que parei em Coimbra para comer qualquer coisa quando me ligaram a dizer que tinha sido selecionado. Lembro-me que fiquei muito contente e recordo-me perfeitamente, quando após me terem dado a notícia inesperada eu ter dito prolongadamente obrigaaaadoooo.

Aquele mês que passei no Colégio Rainha Dona Leonor nas Caldas da Rainha no ano letivo 2011/12 foi muito duro, trabalhei muito e  ainda hoje me recordo do dia da apresentação e o principalmente do dia da despedida  onde a diretora, uma engenheira com formação na área da gestão me disse " já vai embora", "nota-se que gosta de ensinar". São expressões que nos enchem o ego e vamos buscar quando estamos menos bem.

A partir daí consegui contactos com colégio privados onde andei até final de 2012, e devido à má experiência acabei por deixar de vez o ensino durante um longo período de tempo.

Entre 2013 e 2017 estive sempre fora do ensino. 

Neste período distante das salas de aula tive várias profissões. Aprendi e conheci gente muito interessante em todas elas, no entanto houve uma que me marcou particularmente, técnico de campo no projeto piloto do cadastro predial de Oliveira do Hospital. Cresci imenso profissionalmente nesse período  entre 2014 e 2015.

Nesta altura os empregos que exercia eram precários:  estagiário na Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, carteiro, comercial da Vodafone, ou guia turístico na freguesia da Bobadela.  Penso que não me esqueci de nenhuma função realizada. De todas as profissões descrita neste parágrafo a que mais gostei foi a de guia turístico, não me revendo a trabalhar em qualquer uma das outras.

O nascimento do meu filho em Janeiro de 2017 teve um peso fundamental no meu reerguer profissional e regresso de uma forma mais segura à vertente educativa.

Curiosamente no dia em que ele fez uma ano, a 29 de janeiro de 2018, fui-me apresentar na escola secundária do Fundão. O regresso ao ativo não foi fácil no entanto soube muito bem  no final aperceber-me que tinha conseguido ultrapassar o primeiro obstáculo onde foi muito importante a ajuda da Cecília 

Daí para a frente os obstáculos prosseguiram e nos dois ano letivos seguintes lecionei em duas escolas em simultâneo. Em 2018/19 (Manteigas e Pampilhosa da Serra) e 2019/20 (Pampilhosa da Serra e Tabuaço). A vontade de ir a casa  e poder ver o meu filho diariamente suplantou a dureza que as centenas de quilómetros ofereciam. No ano letivo 2019/20, especialmente duro. guardo a simpatia das escolas por onde passei e nunca me irei esquecer daquele mail que a escola de Tabuaço me enviou quando fui colocado em Grândola, agradecendo o meu trabalho e desejando-me sorte para o desafio que iria ter no ano letivo 2020/21. São gestos simples que eu dou um enorme valor.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Vírus made in USA- Autor Antenor Santos

 A invasão do Capitólio nos Estados Unidos da América não ameaça apenas a democracia americana. Tal como a Covid 19, também os acontecimentos da semana passada, na casa de uma das supostas mais consolidadas democracias do mundo, pode trazer consequências a nível global, com contágios difíceis de conter em algumas repúblicas inspiradas na Constituição Americana de 1787. Em muitos países, que conviveram com a falta de liberdade e que a recuperaram à custa de tantos sacrifícios, repressões e mortes provocadas por guerras impiedosas, já poucos se lembram do passado bem recente. 

Com acenos de promessas vãs, já por demais conhecidas, mais “Trumps” espreitam novas oportunidades. Os seus seguidores, que, impunemente, vêm já mostrando há algumas décadas os seus ódios mais ou menos contidos, têm agora mais motivos para mostrar as suas garras. A tentativa torpe de anulação da decisão legítima da maioria do povo americano foi um mau exemplo, que poderá contagiar muitos cidadãos ingénuos espalhados por todo o mundo. E dentro do próprio país é também muito fácil de acontecer. 

A civilização americana tem dado bons exemplos no cumprimento dos princípios consagrados na sua constituição. Porém, nas relações internacionais, frequentemente parece comportar-se com demasiada sobranceria e até mesmo arrogância, querendo impor a sua vontade à custa da ostentação do seu poder económico e, em alguns casos, apoiado na força das suas armas. O seu povo é globalmente generoso, mas a ignorância tem alastrado a um ritmo vertiginoso. 

Se os protagonistas desse acontecimento surreal, passado há dias na casa da democracia americana, não forem exemplarmente vacinados (leia-se punidos), o vírus, agora made in USA, poderá causar muitos estragos intramuros e nas frágeis repúblicas onde muitos lobos estão travestidos de inocentes cordeirinhos. 

Para evitar a propagação dessa peçonha, cabe aos norte-americanos contê-la e erradicá-la dentro das suas fronteiras, sob pena de se deixarem desacreditar ainda mais, no que respeita à tentativa de impor a nível global a paz que não conseguiram fazer triunfar no seu próprio país. 

Não quero ser pessimista e muito menos fazer futurologia, mas temo que, se os cidadãos dos Estados Unidos da América, país que admiro bastante, não conseguirem reconciliar-se rapidamente, e curarem as suas feridas sem as deixar infetar e as deixarem propagar, este império que já dominou o mundo, possa ter os dias contados.

Quem conhece o passado histórico sabe muito bem que não há impérios eternos

                                                                                                                                Antenor Santos

sábado, 9 de janeiro de 2021

Confinamento- a minha opinião

Vivemos dias muito difíceis. 

Pela primeira vez desde o início da pandemia apercebo-me de dezenas de pessoas infetadas e algumas  internadas no seio da minha família e amigos mais próximos. Estamos todos assustados com a evolução desta doença onde muitos hospitais já atingiram o seu limite. Os profissionais de saúde são uns verdadeiros heróis que devem recompensados financeiramente por tudo o que têm feito. O meu Obrigado a todos!

Para mim o que mais me tranquiliza é saber que tenho um Governo e um Presidente da República que assegura o funcionamento de uma democracia estável. Quando vejo pessoas a reclamar os seus direitos, para mim é algo positivo pois é sinal que as pessoas têm esperança e sabem que o governo apesar de não lhe poder dar resposta as ouve e tenta dentro das suas possibilidades arranjar-lhes uma solução.

Nas redes sociais sucedem-se comentários que afirmam a necessidade de voltar ao ensino à distância. Eu próprio já assenti com um "gosto" ao fecho dos estabelecimentos de ensino e ao retorno ao ensino à distância.

Bem, tendo a experiência do que sucedeu no confinamento de março apercebo-me que o fecho total das escolas é a solução mais fácil mas não é a melhor solução. 

Na minha opinião o ensino universitário e secundário devia encerrar totalmente ou grande parte da semana. Os professores  deverão ir apenas um a dois dias à escola  para tirar dúvidas. Neste tipo de ensino os alunos já são autónomos e os pais já terão liberdade para trabalhar quer presencialmente quer em teletrabalho..

Nos restantes níveis de ensino é menos produtivo o ensino à distância. Neste caso faria mais sentido um ensino presencial com uma redução da carga horária dos alunos, a redução  dos programas e optar-se por métodos de ensino onde o teste não seja  o centro da avaliação. Esta fase pode ser aproveitada para valorizar o tempo em sala de aula onde  o professor deixe de ter tanta pressão no cumprimento dos programas. Em tempos de pandemia o primeiro, segundo e terceiro ciclos poderiam ter aulas apenas  de manhã ou de tarde, ficando com o restante tempo livre. Caso os pais não os possam ir buscar poder-se-ia optar por ATL's.

O professor com menos tempo letivo aproveitaria com certeza o tempo livre de modo a prepara aulas com mais qualidade, rentabilizando melhor o tempo. O trabalho do professor em sala de aula é apenas uma pequena percentagem do total. 

 Na minha opinião os exames nacionais deveriam existir apenas no ensino secundário e extintos nos restantes níveis de ensino.

Na terça feira (12 de janeiro) após a reunião com o Infarmed o governo decidirá sobre o modo como será feito o confinamento. Desejo que sejam tomadas decisões conscientes para a conclusão do segundo e terceiros períodos e assim  como toda a gente desejo que a partir do próximo ano letivo já consigamos trabalhar de uma forma mais próxima do normal.

Opinar num blogue é muito fácil, pois as minhas responsabilidade são apenas como professor e pai. Admiro a coragem de quem tem de tomar decisões numa altura tão difícil.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Bom ano aos leitores do blogue

Tencionava parar de escrever durante um tempo. No entanto há algo mais forte que eu que me pede para desenlaçar umas breves frases neste início de 2021.

Amanhã vou começar mais um trimestre neste ano letivo atípico para escolas, professores, alunos e pais. Ninguém estava preparado para isto, no entanto e apesar dos contratempos cada profissional da educação tem feito um trabalho exemplar e merece ser reconhecido por todos. 

Portugal tem excelentes profissionais que se adaptam com facilidade às situações particularmente difíceis.

Como já escrevi anteriormente a mim enquanto professor custa-me imenso não poder ver a face das pessoas com quem trabalho, perceber as suas expressões. Passados mais de três meses sinto que não conheço os meus alunos nem os meus colegas. A Cecília foi infetada com Covid 19 em Novembro e ainda hoje diz que apenas recuperou ligeiramente o olfato e o paladar. É muito desconfortável estar a comer e não cheirar e sentir o paladar da comida.  Na escola sinto-me um bocadinho assim faltam-me os alicerces para construir com solidez a minha casa que abana quando há uma simples tempestade.

Não sei se até ao final do ano letivo vou sentir a escola e sentir mais estabilidade no meu edifício. Tudo irei fazer para que isso aconteça embora saiba as inúmeras dificuldades que me esperam. As horas que me faltam para acabar a formação são 502 e sinto a pressão do tempo escassear.  A diversidade de módulos e de conteúdos novos onde apesar de eu ter acesso a materiais passados por colegas, sinto que não tenho tempo para os trabalhar e adaptar à minha maneira de ensinar. Tudo isso a associar à distância de casa, à insegurança resultante da pandemia dificulta que eu consiga sentir-me bem em Grândola.

Tenho pena de não ter mais tempo para desfrutar da vila, de fazer uma visita à serra de Grândola ou simplesmente passear à beira mar nas belas praias da costa vicentina, pois apesar da distância faço questão de ir todos os fins de semana a Oliveira do Hospital abraçar o meu filho e dar uma ajuda à Cecília. 

Termino com os desejos de um Bom ano a todos os leitores do blogue.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Uma breve reflexão no final do primeiro período.

Chega ao fim mais um dia e quase mais uma semana de trabalho.

Observo que a interrupção letiva do natal se aproxima rapidamente. Sinto-me muito cansado e com muita vontade de abraçar o meu filho e a minha esposa e sentir o aconchego da minha família mais de perto. 

Na passada segunda feira, antes de me fazer à estrada para mais 3h e meia de caminho ficou-me no ouvido as breves palavras do meu filho Duarte:

"Pai não vás, está muita chuva, gosto muito de brincar contigo". Palavras que inevitavelmente nos tocam o coração.

A semana passou e inevitavelmente já não é possível transpor na integra o diálogo naquele final de tarde de segunda feira tive com o meu filho. As viagens são extremamente cansativas, no entanto não consigo abdicar delas. Elas são fundamentais para suavizar um pouco a dureza da  minha semana de trabalho.

Já passaram alguns meses e apesar da passagem do tempo, não consigo sentir o calor e a alegria de estar no meu local de trabalho. A impossibilidade de ver a cara das pessoas e de nos aproximar tornou ainda mais difícil difícil à adaptação e a uma escola profissional fria.

Hoje numa conversa com uma colega na sala de professores disse-lhe que sentia falta exigência e rigor no ensino nesta escola profissional. Aos alunos basta marcarem presença nas aulas ou mesmo que faltem há sempre uma justificação que cola e lhes permite continuar a faltar sempre que quiserem.

Nós professores somos sem dúvida quem trabalha mais na escola.

O que acho mais confrangedor é andarmos atrás dos alunos para eles fazerem as fichas para conseguirem concluir o módulo, quando eles nas aulas não quiseram saber e posso dizer mesmo andaram a gozar connosco. Sem dúvida isto é um ciclo vicioso que os alunos conhecem muito bem.

É interessante perceber que que a minha colega pensa exatamente o que escrevi no dia 14 de Novembro. Nós desaprendemos de ser professores

É gritante a falta de autonomia dos alunos e vontade de ter acesso ao conhecimento.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Yazidis: O genocídio esquecido

No rebuliço dos nossos dias não nos apercebemos ou ignoramos por vezes, o que se passa em determinados países, onde inocentes sofrem as consequências da guerra no seu país. Infelizmente morrem crianças que desde muito cedo deixam as brincadeiras e lutam pela sobrevivência.

É arrepiante ouvir a reportagem de uma jovem equipa de jornalistas que fez um trabalho excelente sobre o Genocídio cometido pelo Daesh sobre a comunidade Yazidis no norte do Iraque. 

Esta comunidade que habitava na localidade de Sinjar  no norte do Iraque. Esta cidade foi completamente destruída e ainda hoje mesmo após a derrota do Daesh continua desabitada. A comunidade  Yazidis não teve a proteção de ninguém  sendo evadidas de surpresa quase sem tempo para fugir. 

Os milhares que conseguiram fugir foram para as montanhas, onde não tinham mantimentos nem água. Morreram bébes e crianças de sede e de fome nas montanhas de Sinjar.

A comunidade Yazidi no Iraque tinha cerca de 1 milhão de habitantes sofreu um rude golpe do Daesh sendo os Homens mortos e enterrados em valas comuns, as mulheres mais jovens separadas das mais velhas torturadas, escravizadas vendidas no mercado do tráfego de pessoas. 

As razões do Daesh são estritamente fundamentalistas e sem qualquer respeito pela diferença. 

Estas pessoas são seres humanos como nós. Têm família e sonhos, no entanto ao contrário de nós têm ambições mais simples como ter uma casa, liberdade e sorrirem, olharem em frente e esquecerem a dor e sofrimento porque passaram.

A Humanidade tem de envergonhar com o que se passou. Devemos evitar que episódios semelhantes se voltem a repetir.

Não me canso de publicitar o excelente trabalho jornalístico. A Comunidade Fumaça deu -nos a conhecer de uma forma dura uma realidade que de outra forma nos passava ao lado.

Obrigado Equipa do Fumaça.

Ouçam esta reportagem de dois episódios.

Episódio 1

Episódio 2


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O pedido do Duarte ao Pai Natal

 O pedido do pai natal este ano do Duarte foi um carro com guincho. Ficou registado em desenho.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Um passeio matinal natalício.

O isolamento profilático chegou ao fim. Para a Cecília está a ser mas difícil do que ela desejava o regresso às rotinas e futuramente ao trabalho.
O regresso do Duarte à casa dos pais depois de ter cumprido quase duas semanas de isolamento em casa dos avós foi misturado com a alegria do Natal e o retorno às brincadeira. O Duarte consegue distinguir perfeitamente os brinquedos da casa dos avós e da casa dele. Durante o isolamento dei aos meus pais alguns brinquedos cá de casa e o  Duarte disse aos avós que não queria, pois esses brinquedos eram para brincar na casa dele.

Este fim de semana depois de um progressivo regresso ao trabalho que aconteceu apenas na quinta e sexta feira tive um tempo para sair com o Duarte e saborear novamente o prazer das brincadeiras e conversas ao ar livre nas ruas de Oliveira do Hospital.

Este sábado de manhã esteve um sol radiante depois da tormenta que foi a sexta feira onde choveu muito na região centro e até nevou cerca de 1 hora em Oliveira do Hospital. Nota-se que a chuva e o  Inverno finalmente chegaram. Gosto do Inverno, de saborear os momento à lareira na companhia da família.

Neste sábado acordámos cedo, ainda antes das 9h. O passeio deste sábado com o Duarte foi um passeio natalício. A mãe antes de sairmos por volta das 10h30 disse-nos para irmos ver os presépios e passear junto ao Largo Ribeiro do Amaral.

Após ter parado para comprar pellets, o combustíveis para alimentar e tornar mais quentes as noites frias de Dezembro o Duarte insistia que queria ir ao parque do Mandanelho. Eu disse-lhe que hoje iriamos fazer uma volta diferente mas devido à insistência da criança estacionei o carro junto do parque do Mandanelho e fomos a pé até ao Largo Ribeiro do Amaral.

Nós evitamos ir para esta zona devido à presença dos baloiços que o Duarte adora e agora infelizmente não os pode frequentar. 

Quando chegámos ao Largo Ribeiro do Amaral olhei para biblioteca municipal e lembrei-me dos tempos em que o Duarte com apenas 2 e 3 anos acabados de fazer ia à biblioteca comigo. Eu deixava-o  circular e desfrutar do espaço lúdico para crianças. O jogo que ele mais gostava era o  Gombby onde ele numa espécie de puzzle em círculo com cores observava as várias fazes do dia através de uma  personagem que ele adorava. De vez em quando pegava em livros, folheava e contava histórias à sua  maneira com base aquilo que via nas imagens. Foi dos primeiros contactos que ele teve contacto com tantos livros ao mesmo tempo e adorou. Outras das brincadeiras que nós fazíamos era com almofadas em forma de cilindro, colocávamos uns em cima dos outros e contruíamos castelos, ou então usávamos as almofadas como se fossem rodas e empurrávamo-los para onde queríamos. Por vezes quando os avós  paternos lá iam ter, aproveitávamos uma grande almofada em a forma de um crocodilo  usada para nos sentarmos no chão, sentávamos lá o Duarte e eu ou meu pai puxávamos. Ele adorava ser transportado sentado em cima da almofada, principalmente quando algum de nós puxava com mais velocidade.

Hoje decidi ir de novo à biblioteca para lhe mostrar os enfeites de Natal e reviver velhos tempos.
Quando entrámos ele dirigiu-se imediatamente para a árvore de Natal e teve um breve diálogo com a senhora da receção que passo a descrever:
Duarte: "A árvore de Natal tem presentes de verdade"
A senhora com um ar de desilusão após ver o ar expressivo da criança e disse-lhe: "não são apenas caixas sem nada lá dentro"
Senhora: "Como te chamas?"
Duarte: "Duarte Sousa"
Senhora: "Que idade tens"
Duarte" Vou fazer quatro anos em Janeiro"
Senhora" Porque viste à biblioteca"
Duarte "Venho cá ver histórias de natal"
Senhora " Toma estes livros de natal, podes ver aqui se quiseres"
O Duarte agradeceu os livros pegou neles e levou-os para a ludoteca 

Quando chegámos à ludoteca eu ainda lhe tentei ler umas histórias mas definitivamente não era altura para isso. O Duarte observou um cenário de madeira contruído para o  natal e foi-se imediatamente sentar no trono do pai natal. Após uns breves instantes contornou o cenário natalício e dirigiu-se para os bastidores, o local onde se preparam as festas de natal. Antes de irmos embora sentou-se num trenó e tocou num bonecos de natal e umas bengalas que estavam junto a um vidro. Nesta idades a curiosidade fá-los ter necessidade de tocar  e mexer nas coisas. O pai por vezes tem que chamar a atenção.

Antes de sairmos da Biblioteca perguntámos se o presépio do Largo Ribeiro do Amaral já estava pronto ao que a senhora disse que sim. Descemos uns metros e quando estávamos a chegar junto do presépio vimos que a porta lateral da igreja matriz estava aberta. O Duarte perguntou-me "podemos entrar pai". Eu respondi-lhe que teria que perguntar primeiro. 

Dirigimo-nos para a Igreja Matriz e após nos darem autorização entrámos.

Foi muito curiosa aquela visita à Igreja, pois entrámos no preciso momento em que estavam a fazer o presépio de natal.
A curiosidade do Duarte é imensa e o à vontade que ele tem para questionar e meter conversa com quem não conhece é surpreendente.

Quando chegámos junto ao presépio  que se encontrava na parte central da igreja no chão por baixo da mesa onde o padre celebra as missa. Eu relembrei-lhe as imagens do presépio que estavam ali representadas José, Maria e os  reis magos. O diálogo que se seguiu entre o nós e as pessoas que lá estavam a trabalhavam foi o seguinte:

Duarte: "Este presépio não tem tantas figuras como o do meu avós"
Eu: "Neste presépio as figuras são maiores que as dos avós e por isso estas são menos. O presépio dos avós tem músicos, lavadeiras, animais...."
Senhora" Mas olha que este presépio também tem animais, procura-os"
O Duarte e eu olhámos lá por trás de José e Maria e de facto lá estavam escondidos o burro e a vaca.
Após uns breves momentos apareceu o padre António que lhe fez mais perguntas 
Padre António " Sabes porque é que o menino jesus ainda não está nas palhinhas deitado"
O Duarte não respondeu
Padre António: " A Maria está grávida e o menino jesus só irá nascer no dia 25 de Dezembro"
Duarte: " Quem o vai ajudar a nascer"
O Senhor Padre com um sorriso no rosto pela pergunta inesperada da criança disse-lhe a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
Padre António "o José dará uma ajuda quando o menino jesus nascer"
O Padre António perguntou-lhe onde estava o Burro e a Vaca, o José e a Maria ao que o Duarte apontou para as figuras de uma forma certeira,
Passado uns minutos o Duarte disse "Pai olha uma borboleta" 
Eu não  discerni de imediato onde ele tinha visto uma borboleta.
Duarte: Ele apontou "pai ali" por cima do presépio.
Após breves minutos eu conclui que ele se estava a referir a um anjo que estava na mesa do padre por cima do presépio. 
Eu respondi-lhe que aquilo não era uma borboleta, mas sim um anjo. Achei deliciosa esta observação.
Felizmente não me perguntou o que era um anjo pois teria novamente de puxar pela imaginação para lhe dar uma resposta.



Após este breve diálogo despedimo-nos das senhoras e dos senhor padre e  fomos ver o presépio do Largo Ribeiro do Amaral que tinha quase todas as figuras do presépio da igreja à exceção  do menino jesus que naquele presépio já tinha nascido. 

Neste passeio matinal ainda fomos ao parque do mandanelho e depois fomos para casa.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

O resultado do teste

 O Duarte dorme.

O resultados dos testes finalmente chegaram e os nossos receios infelizmente confirmaram-se. Na Cecília o vírus foi detetável e no meu caso não foi detetável. 

O Duarte foi fazer o teste esta manhã às 11h. Acordou perto das 10horas e quando o acordámos e suavizamos ao máximo o momento. Dissemos-lhe que ia fazer o teste para confirmar que ele já era crescido e perceber a sua enorme valentia. Ele foi todo contente e na curta viagem fez inúmeras perguntas que eu tentei dentro do possível responder. A sua curiosidade é imensa.

Quando chegámos ao laboratório observámos uma fila com cerca de 7 pessoas, perguntámos quem era o último da fila e um dos presentes questiono-nos como se chamava a criança que ia fazer teste, eu respondi e o senhor respondeu simpaticamente que podia passar à frente pois já o tinham chamado. Nós avançámos na fila e esperámos pela nossa vez. Esperámos uns breves minutos e nesses minutos o Duarte observou o Laboratório e disse bom dia à senhora que o estava a atender com um sorriso no rosto escondido pela máscara. O Duarte usa a máscara com uma  naturalidade invulgar. 

O Duarte foi desde o início incentivado para a necessidade de usar máscara pelo pais e aceitou com grande naturalidade. No passado dia 14 de Novembro tive de fazer umas compras rápidas e levei-o comigo. Ele ficou radiante pois vê muita gente e muita variedade de produtos. A primeira coisa que ele pede é para o colocar dentro do carro. Eu como estava com pressa e eram poucas compras tentei agilizar ao máximo as compras e ir direto ao essencial. As perguntas eram imensas e admito que não conseguia dar resposta a todas. Lembro-me que fiquei uns minutos no pão e o Duarte perguntou-me se era bom dia ou boa tarde, eu disse que era bom dia e ele disse bom dia a um senhor que estava a comprar pão e este sorriu ao perceber à alegria da criança e retorquiu a saudação.

Nesta fase o uso de máscara mesmo para uma criança de 3 anos é algo para nós obrigatório em recintos públicos fechados. No laboratório quando entrámos na sala a senhora pediu-me para se sentar com ele na marquesa e eu disse-lhe para ele abraçar o Juba o seu ursinho inseparável. A senhora perguntou-lhe quantos anos tinha e ele disse que ia fazer 4, curioso não disse que tinha 3.

Sobre o teste posso dizer que o teste  inicial na boca fê-lo sem dificuldade, o mais difícil foi o teste realizado nas narinas onde ele fez uma cara muito feia e as lágrimas insistiram em sair pontualmente da sua cara, mas ele resistiu e rapidamente as breves lágrimas se transformar num olhar de vitória por ter conseguido ultrapassar o teste. Afinal a sua mãe tinha-lhe dito que tinha uma surpresa quando chegasse a casa.

Ele quando chegou a casa falou da experiência à mãe e esta deu-lhe mais umas compras em miniatura que uma colega da sua escola lhe tinha dado. Ele ficou muito contente e radiante com mais aquele presente.

A Cecília continua no quarto com febre, vómitos, dores de cabeça, com falta de apetite e força.

Há poucos minutos tivemos uma sensação assustadora. Não encontro outro adjetivo para descrever o que sentimos quando vimos o senhor agente da GNR tocar à campainha para nos dar as declarações do isolamento profilático e observar os vizinhos com um ara assustado.

O importante é que a Cecília recupere. Irei dar o meu melhor.    

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Momentos de expectativa

Não está  fácil olhar os dias e conseguir vencer as dúvidas que surgem. Os sintomas da malditas pandemia apareceram este fim de semana e puseram-nos todos em sobressalto.

Admito que as dúvidas e os medos me fizeram espalhar logo a notícia pelo o núcleo central da familiar mesmo antes de saber o resultado. Aliás neste momento em que escrevo ainda não sabemos o resultado do teste à covid 19 realizado por mim e pela Cecília.  Estamos os três na expectativa e em isolamento profilático. 

A Cecília foi quem suscitou as dúvidas iniciais. 

Na sexta feira quando cheguei a casa a Cecília já  se encontrava deitada no sofá. A febre foi o primeiro sinal de alerta logo na sexta feira. Ela decidiu tomar um beneruon e foi descansar na esperança de no sábado de manhã estar melhor. 

Acontece que no sábado de manhã apesar de a febre ter baixado, o cansaço e as dores no corpo avolumaram-se assim como a capacidade de  conseguir fazer tarefas em casa.

Decidimos no sábado logo após o almoço ligar para a Doutora Marta Garcia, que sempre muito prestável retribuiu a chamada e disse que dados os sintomas teria de ligar imediatamente para a linha da saúde 24.

A linha saúde 24 disse-lhe para marcar a data do teste que seria apenas na segunda feira.

O Domingo decorreu com a tranquilidade possível.

As principais preocupações da Cecília foram com o Duarte que apenas com os seus três aninhos já tem tantas vivências.

Não será fácil para uma criança voltar a estar circunscrito às quatro paredes do nosso apartamento. Agora ao contrário do que aconteceu na primeira vez a Cecília não pode ajudar. Os dois Homens da casa é que têm que ajudar à recuperação da mãe.

As brincadeiras de hoje:

Com as compras em miniatura do Lidl fizemos compras e vendas. Eu perguntei o que haveria para comprar o Duarte descrevia os produtos que tinha e eu pedia à medida que me lembrava do que precisava para o nosso almoço.

Lembro-me quando lhe pedi as pernas de frango me disse "pai tem cuidado os ossos não são para comer, os osso são para o cão" ou quando me tentou vender a melancia teve o cuidado de me dizer para tirar a casca verde.

No final da brincadeira das compras eu disse-lhe "filho eu não tenho dinheiro" ao que o Duarte respondeu " pai não há problema  não é preciso pagar".

Já passado uns minutos e terminadas as compras tivemos a ver as cartas dos animais do Pingo doce e as cartas sobre o ambiente do Lidl. Nas cartas dos animais ele apontou para um montinho e disse "pai estes animais são muito maus" Abriu a boca e num gesto feroz com a carta do crocodilo na mão rosnou dando a entender a sua malvadez. Após os crocodilos falou na sua paixão pelos dinossauros onde disse os nomes terminados em "rex" com uma clareza de quem já tinha tido aquelas brincadeiras com a mãe possivelmente. Após os dinossauros passámos às cartas do ambiente que ao Duarte lhe libertam menos a sua curiosidade. A primeira carta do Lidl que ele pegou foi a referente ao excesso de  plásticos no planeta. Infelizmente já não consigo exprimir a expressão que ele usou sobre o perigo para o planeta da ingestão de plásticos mas foi muito gira.

E assim se passam os dias em momentos de expectativa de  saber o que nos espera.

sábado, 14 de novembro de 2020

Vivências da minha manhã de sábado

 As minhas manhãs de sábado com o Duarte são maravilhosas.

Após uma semana muito dura sentir à sexta feira o Duarte a vir a correr para mim e dar-me um abraço tão sincero de felicidade apaga tudo o que de mau me possa ter acontecido.

A família é sem dúvida o que eu mais sinto falta durante a semana.

Recordo-me que no final do mês de Outubro o Duarte cantou a música do dia das bruxas que aprendeu na escola e a minha comoção foi notória. Lembro-me que as lágrimas me caíram de forma imediata quando no preciso momento em que  estava a colocar o auricular ele disse "não tenhas medo". O medo é algo que nós aprendemos a vencer. Reconheço que os obstáculos têm sido imensos e por vezes sinto a falta de apoio para os poder ultrapassar.

O Duarte é sem dúvida muito importante para eu enfrentar a segunda feira com mais força.

Ao Sábado de manhã, vamos sempre dar um passeio que semana após semana começa a ser muito repetitivo mas sabe tão bem.

Este fim de semana fomos fazer a parte rotineira do Sábado de manhã que foi atestar ambos os automóveis de modo a estarem preparados na segunda feira para mais uma semana de muita estrada.

Após ter atestado o carro da mãe Cecília, fomos atestar o carro do pai. Ele quando entrou no carro do paI viu lá uma lancheira com o mickey que a mãe lhe tinha comprado numa loja chinesa. Posso considerar que foi amor à primeira vista, ele adorou a lancheira e não mais a largou. 

Quando nos dirigimos para as bombas de combustível o Duarte estava tão feliz com a sua lancheira nova. Eu fui pôr gasóleo no carro e acabei por colocar também adblue um substância que se põe no motor para evitar que seja tão poluente. Bem, acontece que me demorei mais do que o normal e quando cheguei ao carro ele estava a chorar desalmadamente, eu não me tinha apercebido disso quando estava no exterior e perguntei o que se passava quando entrei no carro. Ele disse-me que e a lancheira tinha caído ao chão, como não conseguia ir buscá-la e uma vez que eu não o tinha  ouvido sentiu-se sozinho e chorou. Aqueles cinco minutos que eu demorei foram uma eternidade para o Duarte.


Passada essa tormenta lá fomos ao parque do Mandanelho para darmos uma volta na bicicleta sem pedais dada pelo padrinho Diogo. O que ele gosta da bicicleta! Mal eu a coloquei o chão e lhe dei liberdade para andar a felicidade ficou imediatamente estampada no seu rosto. Descemos para a parte mais a norte do parque.


Fazendo um parênteses na história de sábado não posso deixar de referir a sua  intuição de olhar para um mapa e perguntar onde é que nós moramos. Admito que em parte foi induzido pelos pais ao gosto pela interpretação dos mapas, no entanto devido à sua grande curiosidade tem sempre vontade de conhecer um pouco mais.

Continuando a história do dia. Chegámos à parte mais verde do parque e fomos diretos a uma zona que ele intitulou de quartel. Inventamos lá uma história onde subimos uma espécie de escada e descemos varão para dar a entender que ele está subir e descer para uma missão dos bombeiros. Após descer o varão ele pergunta "pai onde é o fogo", eu indico-lhe um local ele vai fingir que apaga e volta para as escada e varão para repetir a façanha. 

A fase seguinte do passeio é ir ao lago dos patos onde ele os observa a tomar banho, ou a descansar nas margens do lago. Por vezes os patos estão na margem do lago e vociferaram sons e eu digo-lhe que eles lhes estão a dizer "bem vindo à nossa casa" e o Duarte acaba por trocar umas breve palavras com eles.

Quando já vínhamos para casa deparámo-nos com um pássaro de grande porte que circulava livremente no parque . Eu tive uma conversa com o Duarte que passo a citar:

 Disse ao Duarte baixinho 

"Olha não podemos falar muito alto que ele tem medo de nós, deve ter fome e anda à procura de comida"

 Eu o Duarte seguimo-lo para ver onde é que ele ia e o Duarte perguntou-me como se chama este pássaro tão grande" e eu disse-lhe que não tinha a certeza mas pensava ser um pavão". 

Após mais uns passos para ver para onde ia o pavão, o Duarte pegou numa bolota e eu perguntei-lhe " vais dar a bolota ao pavão" e ele respondeu" não pai quem come bolotas é o esquilo o pavão não gosta". 

Passada esta conversa entre pai e filho lá decidimos ir para casa pois já passava do meio dia e a manhã de sábado estava passada.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Lágrimas

Escrever é uma forma de ganhar forças para conseguir resistir. Sinto que à medida que o tempo passa apercebo-me que sou cada vez menos professor e a minha presença é inútil.

Custa-me tanto terminar um dia.

Sinto a falta de uma conversa descontraída na sala de professores, de ir almoçar fora com um grupo de colegas e desligar-me da escola. Faz-me falta o aconchego da família.

sábado, 7 de novembro de 2020

Desabafos de fim de semana.

O fim de semana é um período de relaxamento. Quando estou na escola estou constantemente a  reinventar metodologias de ensino procurando tornar o ensino mais prático possível dentro das limitações que a pandemia nos exige.
Trabalhar numa escola exclusivamente profissional tem sido para mim uma aprendizagem diária. O que mais me entristeceu é que neste processo de ensino aprendizagem o professor tem cada vez menos peso sobre o comportamento dos alunos. Sinto-me impotente para fazer face a vicios que já estão esmiuçados dentro dos currículos profissionais,  onde aprender, escrever e discutir abertamente os temas da matéria passou a ser em muitos casos difícil.

Observo que nestas gerações o conhecimento deixou de ocupar um lugar que tinha no passado..

As estratégias que nós possamos implementar para conseguir reconhecer a nossa função de professor  esbarram na ideia bem vincada que existe nestas escolas onde estão os alunos mais preguiçosos e com mais vontades de completar o 12º sem esforço. Sem dúvida estão no sítio certo.

De um modo individual, os professores podem fazer muito pouco para fazer face a tudo isto.  Como se diz se não os queres vencer junta-te a eles, no entanto eu ainda não consigo fazer isso.

Nesta fase de pandemia e estando numa escola de alunos com uma tipologia própria, que sobrevive à custa dos alunos para se manter aberta, não percebo como é possível uma escola publica ter tão más condições de trabalho

 Por vezes é inevitável que  repense sobre a minha vontade de prosseguir nesta profissão. 

Quando cheguei a Grândola chamou-me a atenção o estado de degradação visível do exterior da Escola Secundária de Grândola paredes meias com a minha escola, a EPDRG. Cada vez mais sinto que os alunos não sabem estimar a escola, porque não lhe reconhecem o seu merecido valor para o seu crescimento enquanto Homens e futuros membros integrantes da população ativa.
Já por várias vezes perguntei aos alunos quais são as suas revindicações ao que estes na maior parte não me respondem, pois estão cismados de cabeça baixa a olhar para o telemóvel ou então quando tenho de algum me responder, as respostas são vagas.

Principalmente na disciplina de Área de integração os debates sobre imigração e cumprimento dos direitos humanos fazem parte dos conteúdos programáticos. Aquando da abordagem do tema não pude deixar de ficar surpreendido por a quase totalidade dos alunos ser contra a imigração e serem completamente insensíveis ao incumprimento dos direitos humanos que existem em Portugal, só por serem populações de cor. Assusta-me profundamente ver uma juventude que pensa cada vez menos no outro. Já devia estar preparado para isso mas infelizmente não estava. 


sábado, 24 de outubro de 2020

A lagarta das couves

Certo dia de Outubro o Duarte foi à horta com a avó Paula e o avô Pedro e tiveram um diálogo muito giro desenhado de forma magnifica pela a avó. Passo a citar:





Após dois dias de chuva tudo cresceu na horta. Então, fomos os três até lá.
-Avó, nem vais acreditar? Olha como cresceram os nabos!
Chegámos perto das couves. As lagartas tinham comido as couves , só deixaram os talos. A minha intenção foi matá-las, mas o meu neto ao vê-las disse:
- Avó , as lagartas são tão fofinhas, tão lindas, tao queridas! Não vais matá-las.
Chegou ,então o avô para salvar a situação:
Vamos apanhá-las e pô-las ali no mato , que têm muita erva fresquinha.
-Está bem avô!

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Quantas sardinhas cabem numa lata? (asas para poetas analfabetos)- Jornal Expresso

A poesia está antes de aprender a Juntar as letras. É a maior lição do "o Poeta Faz-se, iniciativa que, em Matosinhos, foi descobrir os poetas por trás de quem é adulto, a aprender a ler e a escrever


Três! Júlia tem a certeza. A pergunta da formadora parece que foi feita para si, que ainda ontem abriu uma lata de sardinhas. Vinham lá três, só, e picantes, em molho de tomate, junto com “um jindungo deste tamanho”. Com as mãos, estabelece um comprimento exagerado enquanto a entoação lhe foge para mostrar que o achou isso mesmo, exagerado, para uma lata só com três sardinhas. A professora escreve:

“Três sardinhas numa lata

Com um jindungo deste tamanho”

“Isto ainda não rima, mas depois nós damos a volta”, antecipa Maria David. As regras para rimar poemas, que havia ensinado nas duas aulas passadas, não estavam a ser, para já, ali aplicadas, pensava alto, alheia a Júlia, que continuava numa descrição empolgada da lata para mostrar indignação com a falta de peixe nela. “Conclusão: o piripiri era mais do que as sardinhas”.

Alguém bate à porta da sala de aula. É Albina. Já que o tema para a poesia é sardinhas enlatadas, foi buscar uns quantos exemplares, ela que trabalhou uma série de anos na Conserveira Portuguesa, ali em Matosinhos. Albina é a pessoa certa para responder à pergunta-mote da última sessão do curso de poesia. Quantas sardinhas cabem numa lata? Mas antes de se aperceber da problemática, pousa irrequieta pratos de plástico azuis sobre uma mesa desocupada, com a expressão de uma quase ceia de Natal. Quando se apercebe, pergunta: “Quem é que disse que eram três?”. “Eu”, afirma Júlia. “Mas eu digo que são quatro”, discorda Albina. “As latas de conserva, tanto de óleo, como de azeite, como de tomate ou malagueta, têm todas de quatro para cima”, reforça. “Mas aquela tinha três”, insiste Júlia. Os dois primeiros versos do poema estavam transformados num diálogo entre Júlia e Albina.

Com o resto da turma calada e a quadra a precisar de ser terminada, Maria David procura apanhar, entre as conversas cruzadas, alguma lógica para os próximos versos, e escreve no quadro “Mas eu digo…”. Albina interrompe-lhe o pensamento. “Você diz o quê? Eu aqui é que sou a peixeira!”, e vai buscar uma lata das que trouxe, abre-a sem que o óleo lhe suje demasiado aos mãos, e prossegue. “Quantas sardinhas tem?”. “Cinco”, diz a professora, para espanto da aluna. “Cinco? Eu aqui é que sou a analfabeta!”.

Naquela e noutras sete turmas do projeto +Literacia, promovido pela Biblioteca Municipal de de Matosinhos, todos estão a aprender a ler e a escrever, embora já tenham ultrapassado a idade escolar a passos largos. Às aulas de todo o ano, foi agora acrescentada uma variável: a do curso de poesia, em três sessões, na primeira metade do mês de outubro, para mostrar que “O Poeta Faz-se”.

“Toda a gente sabe ler”, diz Júlia, após presentear a última sessão com a leitura esforçada de um poema de Eugénio de Andrade. “Isso não é verdade”, contesta Albina, que ainda se esforça por dar significado às letras. “Mas toda a gente pode fazer poesia, mesmo que não saiba ler”, diz a formadora Maria David, como que a afincar o mote do projeto e a última lição da lição do dia.

Quando a cooperativa cultural Bairro dos Livros, junto com a autarquia da mesma cidade, lhe propuseram dar seis sessões de poesia a analfabetos, pensou como é que um mestrado em literatura moderna, focado na poesia narrativa de Al Berto, e duas décadas de experiência no mundo editorial poderiam aproximar a poesia de quem viveu sempre tão longe dela. “Tendemos a associar a literatura a questões romantizadas e sentimentalizadas. Eu, pessoalmente, evito um bocadinho essa abordagem. Tenho um certo gosto em pensar nestas coisas e agrada-me a ideia de as desconstruir ao ponto de serem acessíveis para qualquer pessoa”. Por isso, tratou de conhecer as duas turmas em que pegou, e trazer o dia a dia delas para a sala de aula. Com sardinhas, quis mostrar “como a potencialidade poética da linguagem está sempre presente, até na linguagem de todos os dias”.

ENLATADOS
Quantas sardinhas cabem numa lata? Os últimos números oficiais, que remontam aos Censos de 2011, dão conta de um analfabetismo que atinge cerca de 5% da população. A maioria, idosos a viverem em zonas do interior. O número baixou 20 pontos percentuais em 50 anos. Nos anos 70, 25% da população era analfabeta. Mas desenganemo-nos. Portugal continua no topo da tabela dos países europeus com maior taxa de analfabetismo. Há 30 mil pessoas em idade ativa (entre os 18 e os 65 anos) que não sabem ler nem escrever. E quase nunca sobre o investimento sobra para as desenlatar.

O +Literacia surgiu há quatro anos, “após um diagnóstico social no concelho de Matosinhos de que não havia uma resposta para as pessoas que não sabiam ler nem escrever ou que tinham baixos níveis de literacia”, explica a professora Ana Sofia Lopes que, com 25 anos e um curso de 1º e 2º ciclos do Ensino Básico, se viu a ensinar a adultos o que aprendeu a ensinar a crianças. O método é o mesmo, mas há um choque constante de realidade. “Ver as montras e conseguir ler, ver as placas na estrada e saber para onde se vai, assinar, quando muitos o fazem com impressão digital. Às vezes não paramos para pensar em que é que isto limita a vida destas pessoas - e limita muito”.

Pedro começou a aprender a ler esta semana. Reformado aos 42 anos, por invalidez, só sabe assinar o nome. Vai à caixa multibanco e faz “tudo sem saber ler”. No computador, usa um programa que transforma as palavras ditadas em palavras escritas. Quando recebe mensagens ou notificações no telemóvel, usa outro programa para lhe dar sentido às letras. “É muito bonito termos um telemóvel, mas dá-lo a um amigo ou a um irmão para nos escreverem uma mensagem faz com que não guardemos segredo para nós”, conta ao Expresso.

É o aluno mais recente do projeto que quer retirar da vulnerabilidade social os que, por uma razão ou por outra, não puderam completar o ensino básico regular antes de entrarem para o mercado de trabalho. Uma amiga que tem há 19 anos disse-lhe: “Vais tirar a carta!”. Só que, para isso, precisa primeiro de aprender a ler. Ela pegou nele por uma mão e levou-o ao Centro Qualifica, da associação Adeima. E a coincidência do calendário fê-lo confrontar-se logo no começo das aulas com três sessões de poesia, ao leme da outra formadora do curso, Raquel Patriarca. Poesia, essa coisa longínqua que pensava ser “uma coisa de poetas, só”

SAIR DA LATA
“Os livros não são para mim. A poesia é coisa de pessoas inteligentes”, resume Raquel, pondo em palavras o que vai na cabeça dos alunos com que se viu à frente nas seis sessões que conduziu. Nesta ideia de relação direta entre a inteligência e a escolaridade, “que não é tão líquida quanto isso - aliás, não tem nada de líquido, é bastante gasoso, até” - está assente uma crença enraizada de fracasso com que a formadora se viu a debater pela primeira vez.

Após uma carreira como professora e autora de livros para crianças, diz que a vantagem de levar a poesia a adultos é, precisamente, retirá-los dessa crença. “A poesia é algo que não se ensina a ninguém”, começou por explicar. Tal como nas crianças, ela vem “antes de aprender a ler e a escrever”. Por isso abraçou este projeto da Adeima, e diz que, “tal como os projetos primos e irmãos, ele tem uma importância incrível porque apoia uma faixa da população que está a cair nas frinchas da sociedade. O mundo democrácio não pode dar-se ao luxo de ter pessoas sem acesso à literacia”.

Pedro quer fazer a quarta classe, e, talvez um dia saber decifrar a informática. “Eu sei muita coisa, mas o que me custa é juntar as letras”. Com ajudas, escreveu o primeiro esboço da sua incursão no mundo poético.

“O coração fica nervoso

quando sentimos algo

por uma pessoa

Eu fico ansioso”

Escolheu o amor como tema. “Se o coração fica nervoso e o poeta fica ansioso, o que é que se está a passar aqui?”, pergunta a formadora da turma de Custóias. “O coração palpita como uma batata frita”, ouve-se ao fundo. É Rosário a fazer brilhar os olhos de Raquel com uma comparação, uma metáfora e uma rima, tudo junto num verso só. Na sua vez de ler o que escreveu, agarra logo na folha, colocando-a melhor no campo de visão, e lê:

“O sol, quando brilha

Todos ficamos contentes

Onde vais, minha filha?

Vou buscar os meus presentes”

Com 58 anos, Rosário entrou para o projeto +Literacia em fevereiro, “antes disto da pandemia”, e juntou-se aos cerca de 100 outros alunos, distribuídos pelas quatro uniões de freguesia do concelho. Está no fundo de desemprego, tem estado em casa. Tem a quarta classe, “mas mal”, e todos os trabalhos que se lhe apresentam pedem pelo menos o 6º ano. “Hoje em dia, se a gente não souber ler e escrever em condições, não é nada.”

Raquel apaixonou-se desde logo pelo projeto. Na primeira aula, trouxe às suas turmas um poema em forma de chave. Visualmente, é uma chave, cujo único texto que tem é o abecedário. “Alguns deles disseram logo que não conseguiam ler”. Um conjunto de letras que nem fazia sentido. Depois, trouxe-lhes uma página do manuscrito inicial do "Guardador de Rebanhos", de Fernando Pessoa, impossível de ler. “Aquilo tem anotações na margem, tem palavras riscadas, tem palavras substituídas, mudadas de sítio. A leitura que eu queria que eles fizessem era a do curso. Nenhum poeta, nem os mais geniais, fazem tudo à primeira”.

Na última das sessões que se comprometeu a dar, despediu-se com um pedido. “Agora que já abriram a porta, venham saber todos os caminhos que essa chave pode abrir.” As letras são chaves, abre-latas, asas, ou outros lugares comuns quaisquer, a partir do momento em que soubermos casá-las bem.

“Ele está aí

Vamos todos agasalhar-nos

Vai ter vento, chuva

E, se calhar, vai até

Nevar”

Maria das Graças

“As folhas caíram da árvore

O vento assobia no monte

A chuva bate no telhado”

José Maria

“Eu sinto borboletas dentro de mim

Não se apaga do coração

O sentimento assim”

Fernando

“Como gostaria de mergulhar

No fundo de mim

Para dizer-te o quanto sinto

Como gostaria de ter as

Palavras certas

Para te dizer o quanto te sinto”

Maria João

(O projeto “O Poeta Faz-se” culminará numa instalação artística exposta em espaço público, em Matosinhos, no mês de novembro)

Texto Escrito por Joana Ascensão e Rui Duarte Silva
20 de Outubro de 2020

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Faltam cada vez mais professores- Jornal Expresso


Número de horários de docentes ainda por preencher mais do que duplicou em relação a 2019


Na Secundária João de Barros, no Seixal, não se espera só pelo fim das obras, iniciadas pela Parque Escolar há mais de dez anos.

 

Desespera-se por professores.

 

Após um mês do início das aulas — período que devia servir para recuperar o que não se aprendeu no passado ano letivo, com o ensino à distância —, há turmas onde faltam seis docentes, o que significa que os alunos estão sem aulas em metade das disciplinas.

 

“No agrupamento, temos três horários de Português sem professor, dois de História e um de Informática. Francês e Geografia são dificuldades que já tínhamos no ano passado e que se mantêm”, explica Hugo Pereira, assessor da direção.

 

Desde o início do ano, já houve necessidade de ir às listas nacionais onde constam os professores disponíveis para encontrar 19 substitutos de docentes que estão de baixa, saíram ou aposentaram-se.

 

“No 3º ciclo há mais de dez turmas com horários muito esburacados.

 

Se as aulas em falta forem nas horas intermédias, outros professores asseguram esse tempo, para manter os alunos na sala. Nos extremos do dia, não fazemos substituição”, acrescenta Hugo Pereira.

 

O problema estende-se a muitos agrupamentos. Não do país, mas de duas regiões em particular: Lisboa e Algarve.

 

Ainda há alguns milhares de professores por colocar que constam das listas conhecidas como reservas de recrutamento.

 

Mas nem todos têm formação para dar as disciplinas em que há mais lacunas ou não estão interessados em ir para os locais onde são necessários — o que recebem não compensa ou pode mesmo não chegar para a renda e deslocações.

 

No Agrupamento da Portela, em Loures, procuram-se professores do 1º ciclo, de Português, Economia, Francês e História/Estudos Sociais. Esta semana chegaram dois de Matemática, reduzindo o número de horários por preencher.

 

Subsistem cinco lugares, que afetam mais de 20 turmas desde o início do ano letivo, explica o diretor, Nuno Reis.

 

Num agrupamento onde a média de idades ronda os 57 anos, o desgaste, a saúde e agora a pandemia fazem mossa.

 

“Neste momento, temos mais de 20 professores de baixa num total de 220. Noutros anos temos tido menos. Mas com os casos de covid-19 a aumentar muito no concelho, as pessoas ficam receosas. Temos vários atestados do foro psicológico.”

O diagnóstico está feito, mas faltam soluções. E os números comprovam que as dificuldades agravam-se de ano para ano. Só na primeira quinzena de outubro, as escolas viram-se obrigadas a pedir 1870 horários através do mecanismo de contratação de escola. Isso significa que já não há professores disponíveis nas tais reservas de recrutamento ou os que existem recusaram o lugar.

 

O processo começa sempre pelas reservas de recrutamento.

 

Se ao fim de duas semanas os horários continuarem vazios, passa-se para a fase de contratação de escola. Só na semana passada foram solicitados por esta via 637 professores, mais do dobro do registado no ano passado no mesmo período (255). Os distritos de Lisboa, Setúbal e Faro são as zonas para onde é mais difícil encontrar professores. Informática, Geografia, Inglês, Português e Educação Moral e Religiosa são as disciplinas mais carenciadas.

 

As contas são feitas para o Expresso por Davide Martins, professor de Matemática no Agrupamento de Matosinhos e colaborador do blogue de Educação ArLindo. “Em 2019, desde o início do ano letivo até 31 de outubro, saíram 1322 horários em contratação de escola, o que já é um número considerável.

 

Este ano esse valor já foi ultrapassado no dia 10, evidenciando que a falta de professores tem aumentado e se faz sentir cada vez mais cedo”, explica.

 

Há mais dados a comprovar o problema. Todas as semanas, as escolas comunicam os professores que têm em falta nesse momento. Como em qualquer profissão, há baixas médicas, licenças de maternidade ou reformas, que fazem com que a dada altura falte um professor. Desde o início de setembro, já foram pedidos neste contexto mais de 21 mil docentes para substituição.

 

No ano passado, no mesmo período de tempo, foram menos cinco mil. “O envelhecimento e o burn out [esgotamento] são a causa de muitas baixas. A que acrescem as aposentações, que têm vindo a subir”, analisa o professor.

 

O medo do vírus O Ministério da Educação (ME) garante que as faltas já estão a ser supridas e que os problemas no início deste ano têm várias explicações: além dos mais de 500 docentes que pediram substituição por serem de risco, houve um “número anormalmente alto de não aceitações de horários, atendendo à situação de pandemia que leva os professores a não quererem deslocar- -se da sua área de residência”. E houve ainda este ano mais 1100 pedidos de mobilidade por doença (do próprio ou de um familiar dependente), possibilidade que permite a colocação numa escola diferente, libertando assim novos lugares. Há mais de 8 mil professores com esta autorização, sendo que a maior parte saiu da Grande Lisboa para a região Norte. Houve ainda autorização para contratar mais 3300 para o plano de recuperação das aprendizagens.

 

“As listas do ME estão a esgotar-se, já não há mais pessoas para recrutar. Sabemos que este problema vai crescer e vamos ficar com muita carência. Deixaram de formar pessoas, outros reformaram-se, e é uma carreira muito pouco aliciante”, aponta, por seu turno, Maria Caldeira, diretora do Agrupamento do Alto do Lumiar, em Lisboa, onde faltam agora oito professores, incluindo de Matemática.

 

De acordo com os cálculos de Davide Martins, já há grupos de recrutamento com muito poucos ou mesmo sem candidatos disponíveis para escolas da região do Algarve e da Grande Lisboa. Apenas um exemplo: na lista de possíveis candidatos a dar aulas de História do 3º ciclo e secundário em escolas desta última região, encontram-se neste momento apenas três nomes; a nível nacional há 180, num total inicial de 1315. A Geo grafia já não há nomes para Lisboa, tal como a Informática.

 

Significa que esses lugares vão ficar vazios? Não. Esgotando-se os candidatos nestas listas nacionais, passa-se então à contratação de escola, em que estas publicitam a oferta, recebem novas candidaturas e escolhem.

 

O problema é quando nem nesta etapa surgem interessados, levando a que os alunos fiquem sem aulas durante várias semanas ou mesmo um período inteiro, como aconteceu no ano passado.

 

O ME também garante que há um “trabalho de incentivo à fixação de professores que já foi iniciado e que será incrementado”, mas não explica o que está ser feito.

ileiria@expresso.impresa.pt

 

Desde o início de setembro, já foram pedidos pelas escolas mais de 21 mil docentes para substituição.


Texto Escrito por: Isabel Leiria e Raquel Albuquerque. (Jornal Expresso)