domingo, 11 de abril de 2021

Balanço do ano letivo

No dia 19 de Abril retomo a atividade presencial em Grândola. Passado largos meses não consigo dizer que tenho saudades de retomar o ritmo de trabalho presencial. Sinto que este ano letivo foi um ano de aprendizagem e apesar de não haver certezas absolutas sobre o que será o próximo ano letivo, pressuponho ter sido apenas o início de um percurso profissional a sul do rio Tejo.

Apercebo-me cada dia que passa, sinto que desempenho de forma mais competente esta profissão, embora ainda muito longe daquilo que idealizo.


Este ano letivo começou muito mal, devido à inadaptação aos métodos de avaliação e às estratégias escolhidas para às aulas,  ao que se associou um cansaço subjacentes às viagens para Oliveira do Hospital de que não abdiquei em nenhum fim de semana. 

O primeiro período foi muito difícil devido à distância e a impossibilidade de estar com a Cecília quando ela mais precisava. Ela dá aulas numa escoa secundária da  Guarda e no estabelecimento prisional da mesma cidade. Para ela a impossibilidade de ter um dia livre contribui para que o cansaço se acumulasse e não houvesse tempo para recuperar. Apesar de todos os cuidados que ela  teve aconteceu, em meados de novembro do ano passado descobriu que tinha sido infetada com  Covid 19. Nessa sexta feira recordo-me que cheguei de Grândola e sentia-a cansada, estava deitada no sofá, acabei por não ligar de imediato,  pois a sexta feira por norma é um  dia de descompressão em que por vezes aproveitava para descansar um pouco ao fim da tarde. No sábado ligámos à nossa médica de família e já tínhamos quase a certeza da infeção, pois os sintomas eram evidentes.

Para mim foram quinze dias muito complicada, pois tive de fazer tudo um pouco em casa. O dia mais complicado em que eu a Cecília chorámos juntos foi o dia em que o Duarte teve de ir para casa dos meus pais por tempo indeterminado, pois não era saudável ele permanecer num apartamento, naquele ambiente, A tenacidade para mim teve de ser a palavra de ordem e acabei por ter de delinear estratégias de ocupação do tempo de forma a manter o discernimento  e tratar da melhor forma a Cecília.  Apesar de a Cecília ter conseguido curar-se em casa, temi vários vezes o internamento, pois os sintomas agravaram-se principalmente durante a primeira semana.

Curiosamente para mim o isolamento em consequência do apoio à Cecília e o atual confinamento vieram em momentos chave que me ajudou a ultrapassar melhor este ano letivo.

Quando terminei o primeiro período devido às dificuldades de adaptação ao currículo dos cursos profissionais,   decidi que tinha de estudar e repensar o segundo período de uma outra forma até  porque devido aos 15 dias de isolamento teria necessariamente em janeiro o horário muito preenchido. 

Recordo-me que a melhor coisa que fiz no início do segundo período foi levar uma mesa redonda velha de casa da minha mãe e colocar um aquecedor a óleo no meu quarto em Grândola. O mês de janeiro foi excecionalmente frio em Grândola, como em todo o país,  atingindo todas as noites temperaturas negativas. 

Senti que levei o início do segundo período de uma forma mais calma e as viagens diárias para a escola  foram feitas quase todas a pé, pois moro a cerca de 700 metros da escola. Aos poucos senti que me estava a adaptar ao ensino profissional e aos meus afazeres diários.

No dia 21 de janeiro o Governo indicou que iria começar no dia seguinte um novo confinamento na educação. Na  minha opinião neste segundo confinamento, a paragem letiva de duas semana entre 22 de janeiro e 7 de fevereiro foi exagerada, uma semana seria suficiente. Senti a necessidade de mais tempo para descansar na interrupção letiva da Páscoa, essencialmente devido à dureza e à pressão sentida na parte final do segundo período.

O segundo confinamento para mim que dou aulas a 340km da minha área de residência foi a melhor coisa que me aconteceu, pois deixei de ter o desgaste das viagens o que me forneceu mais tempo para organizar as aulas e as avaliações dos 9 módulos que conclui no final do segundo período. 

Termino o texto com o Duarte, realçando a importância que este confinamento teve para a minha reaproximação ao meu filho. Ele nunca percebeu bem a razão da minha ausência durante tantos dias da semana e aos poucos senti que ele se estava a distanciar um pouco de mim aproximando-se mais da mãe. O que mais me custou neste comportamento do Duarte foi que deixei de conseguir adormecê-lo pois ele deitava-se e passado uns breves minutos ia chamar a mãe. Esse comportamento do Duarte deixou-me muito triste, no entanto foi a forma que ele encontrou de mostrar o seu descontentamento perante a minha ausência. 

Neste período em que o covid 19 nos obrigou a estar em casa aproveitei para conversar e brincar muito com o Duarte e aos poucos senti uma progressiva aproximação . Foi uma sensação fantástica, e que me fez tão bem,

Hoje posso dizer  que voltámos a ser grandes amigos.  Darmos grandes e infindáveis  passeios e apercebi-me que o tempo que passo com  Duarte passou a ser vivido com mais qualidade e sem pressa. Hoje já o consigo adormecê-lo, dar-lhe banho e acima conseguir que ele me escolhesse de forma espontânea  para brincar. Desta forma consegui libertar algum peso sobre os ombros da mãe conseguindo que ela tivesse mais tempo para realizar as suas múltiplas tarefas 

Dia 19 de Abril recomeço a minha atividade de forma presencial mais feliz.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Cansaço

Amanhã para mim já começa o último período, ainda com o ensino à distância.

Sinto-me cansado.

Os dias de descanso entre o segundo e terceiro período, foram insuficientes para desligar completamente de um final do segundo período diabólico onde a pressão e o desgaste foram tremendos. 

sábado, 3 de abril de 2021

As origens do fascismo. Notas sobre o livro de Antonio Scurati, Mussolini, o filho do século: Autor Luís Filipe Torgal

No espaço de Opinião na Rádio Boa Nova, Luís Filipe Torgal apresenta “As origens do fascismo.Notas sobre o livro de Antonio Scurati, Mussolini, o filho do século”. Luís Filipe Torgal é professor de História do Agrupamento de Escolas de Oliveira do Hospital, investigador e colaborador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (CEIS20) e autor de vários livros e artigos científicos ou de intervenção cívica e conferencista.

“A literatura tem múltiplas utilidades. Uma delas será o seu contributo para a construção de cidadãos melhor esclarecidos e de sociedades mais fraternas. Creio que o livro, aqui evocado, de Antonio Scurati, Mussolini, o filho do século, constitui um bom exemplo do poder cívico da literatura. Embrenhemo-nos, pois, nos meandros da intriga histórica narrada por Scurati, ao longo de 850 páginas.

A I Guerra Mundial terminou com a Itália a combater ao lado dos vencedores. Porém, como proclamou o poeta guerreiro futurista Gabriele D`Annunzio, Roma obteve uma «vitória mutilada». O país abandonou, humilhado, a Conferência de Paz de Paris (1919-20), porque os seus aliados americanos, ingleses e franceses quebraram o prometido: não reconheceram à Itália o direito de ocupar a Dalmácia e Fume, nem tão-pouco lhe concederam as indemnizações que reivindicava.

Como outros países europeus dilacerados pelas sequelas da guerra (onde devemos incluir Portugal), a Itália mergulhou no caos político, económico e social. Resvalou para um ambiente de guerra civil. De um lado, os «vermelhos»: movimentos socialistas que — impulsionados pelo êxito da Revolução Soviética de outubro de 1917 — lançaram no país uma vaga de greves, manifestações, ocupações de fábricas e terras, enquanto urdiam a revolução proletária. Do outro lado, os «negros»: movimento dos Fasci di Combattimento, fundado na Piazza de San Sepolcro, em Milão, a 23 de março de 1919, constituído por veteranos e heróis da guerra entretanto desmobilizados e enjeitados pelo Estado (os sinistros Arditis), mas também por futuristas, anarcossindicalistas e outros vagabundos, delinquentes, recalcitrantes e arrivistas ultranacionalistas de ocasião. Os esquadrões dos Fasci, bem armados e treinados nas táticas da guerra das trincheiras, direcionaram todo o seu ressentimento, ódio e violência contra as fações socialistas. No meio, um Estado demoliberal decadente, corrupto, falhado, despojado de sensibilidade social, incapaz de impor a ordem pública, impotente para granjear consensos na sociedade civil e reconstruir um país arruinado pela guerra e esquartejado pelos combates político-ideológicos internos.  

Mussolini (1883-1945) iniciou a sua carreira política na ala revolucionária do Partido Socialista Italiano. Dirigiu o jornal socialista Avanti! desde 1912. Todavia, quando o conflito mundial rebentou, passou de apóstolo sincero e apaixonado da neutralidade absoluta, subscrita pela maioria das fileiras socialistas, a apóstolo sincero e apaixonado da intervenção na guerra. Por isso, logo em 1914, confrontou a direção do Partido Socialista, abandonou o Avanti! e criou o jornal Il Popolo d´Itália, que haveria de tornar-se o órgão oficial do futuro Partido Nacional Fascista (PNF). Desse periódico declarou guerra aos seus camaradas de outrora, os quais acabaram por acusá-lo de indignidade política e moral e deliberaram a sua expulsão do partido. Fundou os Fasci di Combattimento, corpo político-militar ultranacionalista e antissistema atrás mencionado que, todavia, apresentou um programa político que quase reproduzia o manifesto dos socialistas revolucionários: política externa não subserviente; lei eleitoral mais inclusiva; abolição do senado; reformas laborais generosas; distribuição pelos camponeses de terras não cultivadas; escola pública laica; impostos extraordinários progressivos sobre o capital; expropriações parciais de todas as riquezas; confiscação dos bens das congregações religiosas.

Em 1919, este movimento obteve cifras eleitorais insignificantes. Todavia, as clivagens insanáveis no seio dos «vermelhos», entre socialistas reformistas e comunistas bolcheviques, desgastaram irremediavelmente estes adversários viscerais dos «negros». Pelo contrário, os fascistas, apesar das recorrentes altercações internas entre os seus irredutíveis próceres, reergueram-se e revelaram mais pragmatismo. Uniram-se no PNF, fundado no congresso de Roma, em novembro de 1921, e rasgaram o programa dos Fasci. Tornaram-se «antidoutrinários». Converteram-se numa síntese de todas as afirmações e todas as negações republicanas, monárquicas, socialistas, democratas, conservadoras, nacionalistas e quantas mais. A elasticidade ideológica do movimento e a astúcia amoral e maquiavélica do seu Duce, Mussolini, tornou-os «revolucionários ou reacionários», consoante as circunstâncias. O fascismo ressurgiu e propagou-se como uma epidemia, adaptando o seu discurso demagógico e práticas agressivas às circunstâncias do momento. Compreendeu que para conquistar o poder teria de recorrer aos expedientes mais perversos, de modo a persuadir as elites sociais e as massas proletarizadas, desqualificadas ou aterrorizadas: a mentira, o crime organizado, os espancamentos, a banalização da violência, a fraude eleitoral e até a união fugaz e oportunista com os partidos burgueses conservadores moderados do Bloco Nacional. União que, aliás, lhes foi oferecida por estes nacionalistas, atemorizados com a «peste» bolchevique, e que haveria de legitimar os fascistas e proporcionar a eleição para o Parlamento dos seus primeiros deputados, em maio de 1921. Os «negros» ganharam um novo protagonismo dentro do órgão primordial da democracia. Mas, evidentemente, não ficaram saciados. Em outubro de 1922, os Camisas Negras marcharam sobre Roma e através deste golpe de mão (no qual o Duce assumiu uma posição ambígua e de retaguarda) tomaram o poder, a convite do atemorizado rei Vítor Emanuel III, que nomeou o acrobata político Mussolini presidente do Governo. O agregador dos fascistas entretanto promovido a líder providencial dos italianos tomou posse perante um parlamento apinhado e entusiástico, que esqueceu depressa o terror provocado pelas hordas fascistas e sonhava assistir à alvorada de uma nova era de glória e prosperidade. O discurso de Mussolini foi insolente e premonitório para com o hemiciclo e os seus deputados: — «Senhores! Aquilo que hoje pratico, neste auditório, é um ato de deferência formal para convosco e pelo qual não vos peço nenhum atestado de reconhecimento concreto. […] Podia fazer deste hemiciclo surdo e cinzento um acampamento de fantoches. […] Podia ter fechado a porta do Parlamento e constituir um governo de fascistas. Podia, mas, pelo menos por agora, não quis.»

Não quis naquele momento, mas fê-lo nos anos seguintes. Conquistada a máquina do Estado, os fascistas continuaram a recorrer a brutais ações de violência e, depois, a descaradas fraudes eleitorais para dizimarem os seus adversários externos e internos e vencerem com maioria absoluta as eleições legislativas de 1924. A trama macabra do assassinato do intrépido líder socialista Giacomo Matteotti por sicários da «Tcheka Fascista», a mando do Duce, e que quase fez cair o seu governo, são narrados com singular subtileza na parte final do livro.

O que atrás ficou dito e muito mais pode ler-se no primeiro volume deste longo, minucioso e empolgante romance de Scurati (circunscrito entre 1919 e 1925). Os dois volumes seguintes desta trilogia ainda estão na forja. Como podemos classificar este livro? Uma narrativa romanesca onde desfilam personagens tragicómicas concretas — desordeiros, arrivistas, politiqueiros, facínoras, alienados, demagogos, fanáticos, idealistas e incautos. Sucedem-se episódios rocambolescos, impressivos — contados com uma sedutora linguagem literária —, mas verosímeis, assustadoramente reais, bem sustentados por trechos de documentos da época, que compõem um fresco lancinante da Itália do pós-guerra. O autor adverte, numa nota preambular do livro: «não há um só acontecimento, personagem, diálogo ou discurso aqui narrados que não esteja documentado e/ou testemunhado autorizadamente por mais de uma fonte». Em suma: um «romance documental», que busca uma representação literária verídica (ainda que não historiográfica) do fascismo original.  

O livro termina com o famoso discurso proferido pelo primeiro-ministro, Mussolini, no Parlamento, a 3 de janeiro de 1925, que marca o enterro da democracia, perante o silêncio fúnebre (cúmplice e covarde) de todos os deputados. Conhecemos o fim da história que ainda fica por contar na obra aqui evocada: com a complacência do povo e de quase todos os políticos moderados, os fascistas dirigidos pelo seu «bom tirano» suprimiram as oposições remanescentes, implantaram o Estado totalitário e iniciaram uma política de conquistas militares que os levaria à aliança com Hitler e o nazismo alemão. Depois, o terrorismo nazi-fascista projetou o mundo para a apocalíptica II Guerra Mundial (1939-45) e o Holocausto, que terminariam com a execução de Mussolini, o colapso da Itália e do seu povo.

Importa concluir que a obra de Scurati, editada pela ASA, é uma empolgante lição de História. Habilita-nos a conhecer o passado e o presente da Itália, mas também da Europa e do mundo. Leva-nos a intuir que a História não tem um movimento retilíneo, pois replica dolorosamente os erros do passado. Em última análise, ajuda-nos a compreender a génese e o destino dos chamados movimentos «populistas» atuais e as ambições, fobias e idiossincrasias dos seus chefes, acólitos e adeptos.

Por isso, caro leitor, se deseja mesmo captar a atmosfera das sociedades de hoje e desvendar como emergem e triunfam os manipuladores de massas do século XXI, recomendo-lhe a leitura desta extraordinária narrativa sobre a ascensão do primeiro movimento fascista e do seu criador”.

Luís Filipe Torgal


quarta-feira, 3 de março de 2021

O sonho do Duarte

Bem nem sei por onde começar. Arrepiei-me com a descrição tão exaustiva da imaginação do Duarte. Desta  vez fui eu que fiz as perguntas. A minha ambição é transparecer um bocadinho da emoção que o Duarte descreveu o seu sonho.

Tudo começou há breves minutos, sentei-me e comecei a conversar com o Duarte na esperança que ele acalmasse depois de um período após o jantar onde ele correu, saltou do sofá, caiu  e calcorreou todos os recantos da casa como é o normal no final do dia.

Comecei a fazer uns riscos numa folha branca de rascunho e a contar a minha história. Lembrei-me de há uns dias o Duarte ter falado de um sonho que tinha tido, onde dizia que estava no Luso a brincar com os seus brinquedos. O grande hiato temporal sem ir à casa dos avós maternos deixou mossa naquele cérebro pequenino, mas com uma tremenda imaginação.

Contei o meu sonho inventado começando por dizer que ele estava no Luso com a mãe. A mãe Cecília inesperadamente teve uma reunião que demorou muito tempo e quando se apercebeu já era muito tarde para regressarem. Decidiram jantar e passar a noite no Luso.  Senti que a partir daqui já tinha cativado a atenção do Duarte. Parei uns segundos a narração e o Duarte disse "e depois pai". Estava a conseguir acalmá-lo e  a fixar a atenção dele naquilo que eu dizia. Prossegui a narração do sonho inventado. Ao outro dia de manhã bem cedo a mãe acordou e começou a trabalhar horas a fio. A avó "Lai", diminutivo de Cidália, teve que ir acordar o Duarte, vesti-lo, dar-lhe o pequeno almoço e brincar toda a manhã com o neto. A Cecília em consequência das inúmeras tarefas que teve de fazer mais uma vez nem se apercebeu das horas e quando finalmente terminou a última reunião, já era hora de almoço. Cecília disse "não pode ser, como é possível a manhã ter passado tão rápido". A avó Cidália pôs as mãos na cabeça e disse  "como é possível ter-me esquecido de dar de comer às galinhas e aos coelhos". Saiu a correr muito e foi perguntar ao avô "Xandre",diminutivo de Alexandre, se podia dar de comer às galinhas e aos coelhos para ela poder ir tratar do almoço. Após o almoço a Cecília disse à mãe Cidália que tinha de ir para Oliveira do Hospital pois tinha que fazer análises e o pai Tiago estava sozinho,  não sabia fazer comer e estava a passar fome. Bem o meu sonho estapafúrdio terminou quando o Duarte e a mãe iam a caminho de Oliveira do Hospital.

Bem Duarte agora é a tua vez de contar o teu sonho.

Duarte- "Pai eu esta noite ouvi os cães a ladrar muito e um homem a acompanhá-los. Ladravam muito alto, gritavam."

Eu- "Gritavam como?"

Duarte- "Au, Au muito alto". Foi tudo tão assustador pai.

O Duarte pôs as mãos na cabeça e disse "Ai meu deus foi tudo tão horrível"

Eu "Mas o que é que se passou no teu sonho filho, conta-me por favor"

Eu suspirava tentando demonstrar um sinal de medo e de envolvência na história.

Duarte" Pai começou tudo a tremer"

Eu com um ar muito espantado argumentei "Como assim Duarte diz-me o que é se passou"

Duarte "Os prédios começaram a levantar-se do chão"

Por momentos pensei que estava a entrar num livro, mas estava apenas a entrar na cabeça do Duarte.

Eu "Mas quem é que levantou os prédios, Duarte diz-me"

Duarte " Foram bruxas pai. Elas com as mãos conseguiram levantar o prédio e move-lo para longe, destruíram tudo à  sua volta, foi horrível pai"

O Duarte com as mãos na cabeça andava de um lado para o outro, mexia nas coisas do escritório e voltava a colocá-las no lugar.

Duarte "Pai foi tudo tão horrível"

Duarte " As escavadoras começaram a levantar as pás a fazer mal aos prédios e às pessoas"

Duarte "Os carros de bombeiros começaram a levantara a escadas descontroladamente"

Duarte "Foi tudo destruído à volta do prédio"

Eu nesta altura já suspirava. Pedia-lhe para respirar fundo.

Eu " A história acabou bem ou mal, o que aconteceu aos cães que começaram o sonho"

Duarte " Os cães ladraram a pedir ajuda"

Eu " E acabou a história ou ainda tens mais a contar"

Duarte" Depois apareceram os polícias para tentar prender as bruxas, lançaram a rede mas não conseguiram e as bruxas venceram"

O Duarte enumerou um conjunto de personagens penso da história da branca de neve e dos sete que não tive capacidade de reter.

E assim acabou a narração diabólica que o Duarte fez do seu sonho.

Os dois sonhos que eu acabei de descrever retratam as realidade que vivemos. Muito trabalho que nós enquanto professores temos, por vezes não conseguimos dar à atenção que o Duarte merecia e socorremo-nos dos avós para darmos conta dos muito recados que temos que fazer. O Duarte por sua vês infelizmente vicia-se cada vez mais em histórias de super-heróis de bruxas e vive aquilo com uma intensidade tal que por vezes não distingue a realidade da ficção.

Apesar de ter tentado puxar por ele preocupou-me a forma entusiasmada e assustadora como ele descreveu tudo aquilo.

Fica o alerta para nós pais e educadores.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Há pedras que não se levantam- Artigo de Mia Couto (escritor Moçambicano)


Um texto maravilhoso de um grande escritor escritor moçambicano que nos dá a conhecer os motivos que levaram à ascensão do Estado Islâmico em Moçambique. Redigido em exclusivo no Newletter do  Fumaça. Um fantástico grupo de jovens jornalistas. Consultem o site. 

Deixo-vos o texto de Mia Couto:

 Olá. 

Os escritores alimentam uma relação equivocada com os outros. Talvez eles sejam escritores por essa mesma razão: a consciência de que estão equivocados quando representam o mundo. Os escritores, em geral, não resistem à tentação de ficarem calados quando lhes dirigem todo o tipo de perguntas. Vão a todas. Têm opinião sobre tudo: sobre a situação no Iraque, sobre as ameaças climáticas, sobre o destino do Trump, sobre os caminhos atribulados da COVID-19. Perguntas que não se fazem a um exímio dentista ou a um engenheiro espacial são dirigidas aos escritores como se eles fossem dotados de uma sabedoria particular. No meu caso, quando me fazem essas perguntas, a resposta mais honesta seria confessar: eu escrevo exatamente porque não sei. Sou um especialista em ignorâncias. E imagino que essa seja a mesma condição de todos os poetas e escritores: o gosto de reconhecer a sua mais profunda falta de erudição sobre o mundo. A única habilidade do escritor é enfrentar sem disfarce este desamparo. 

Toda esta palavrosa introdução vem a propósito do desafio que a Fumaça me lançou: escrever umas tantas linhas sobre a situação de guerra em Cabo Delgado. Quando me pedem explicação sobre o conflito no Norte de Moçambique, a primeira coisa que me ocorre é a admissão da minha incapacidade. Sei que esta declaração de não entendimento não resulta. O mais fácil e o mais lucrativo para um jornal seria apresentar certezas com a energia com que um jogador de cartas joga um trunfo sobre a mesa. 

Esta minha contribuição tem a pretensão de sugerir como a abordagem jornalística da situação em Cabo Delgado tem alertado para a existência de um drama de dimensão global. Mas nem sempre a abordagem redutora de um certo tipo de jornalismo nos ajuda ao entendimento das causas daquela violência. 

Quando surgiram os primeiros ataques na província nortenha de Cabo Delgado alguns sociólogos ligados a ONGs anunciaram que tinham uma explicação sobre o que estava a acontecer. A elucidação não variava: os revoltosos insurgiam-se contra a exclusão social, manifestam-se contra práticas injustas de representantes do Estado. Tratava-se, pois, de uma violência esperada e legitimada contra a violência do Estado moderno. Essa explicação tinha um “senão”: ela explicava muito pouco. Em todas as províncias de Maputo acontece a mesma exclusão e a injustiça. Porquê só ali, na costa de Cabo Delgado, ocorria esse fenómeno? Não existe Estado que não imponha a sua presença por vias que não tomam em conta as especificidades das práticas rurais e locais de governação que uns chamam de “tradicional”. 

Por um acaso, posso dizer que conheço aquela região. Desde 2004 que, no meu trabalho de biólogo, visito os distritos de Palma e Mocímboa da Praia, os mesmos distritos onde hoje sucedem os ataques terroristas. Perdi a conta às vezes em que, de tenda às costas, fiz estudos de ecologia naquelas zonas costeiras. Essas permanências duravam, por vezes, várias semanas. Nas primeiras visitas, eu vi aquilo que corresponde ao estereótipo que a Europa construiu da “África profunda”. Cruzávamos na estrada com elefantes, a aldeia onde eu acampava foi objeto de ataques de leões que, num espaço de três meses, devoraram 25 mulheres camponesas. A presença do Estado era uma coisa vaga, quase inexistente. Foi ali – e não podia ser em mais nenhum lugar de Moçambique – que escrevi o romance “A Confissão da Leoa”. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que entre os camponeses, pescadores e caçadores daqueles lugares era muito nebuloso o sentimento de pertença nacional. Quando queria saber do mundo, aquela gente olha para o oceano. É ali que mora o grande caminho, é por esse grande mar que se encontra o grande cordão que os mantém ligados a uma identidade antiga e coletiva. Até ao início do século XX, aquela região, apesar de estar dentro do mapa de Moçambique, funcionava como parte orgânica de um velho império Swahili que, durante séculos, respondeu perante o sultão de Zanzibar. 

Era raro ver por ali uma autoridade que representasse o Estado, essa criatura abstrata e distante cuja cabeça está a três mil quilómetros, lá no Sul, onde se fala outra língua, se pratica outra religião e se constrói uma outra narrativa do que será o futuro. As pessoas raramente falavam português, não escutavam nem as rádios e muito menos as televisões de Moçambique. Sintonizavam as estações tanzanianas. Aos poucos, porém, aquela paisagem humana foi mudando. E o que eu não via era bem mais do que era visível. Negócios obscuros de drogas, de negócios de trânsito de imigrantes vindos dos Grandes Lagos, de venda de rubis fizeram enriquecer camponeses pobres que beneficiavam da ausência total do Estado. Não se pode ser ilegal quando a lei do Estado não prevalece. Não havia outra lei senão os mandamentos locais. Não era preciso ser informal. Porque faltava o formal. Camponeses viraram garimpeiros, pescadores viraram transportadores de mercadorias, caçadores viraram motoristas que transportavam cargas humanas. Enfim, uma terra completamente periférica passou a sentir que era o centro e que vivia bem sem a presença de outros. Mas a riqueza criada por esses pequenos e clandestinos negócios deixava de lado a grande maioria da população local. 

De repente chegou o Estado. E quis impor ordem. Quis controlar, quis ficar dono como é da sua própria natureza. Chegaram também as empresas estrangeiras. Que obrigou a que se pagasse impostos e exigiu dos camponeses ricos e pobres que passassem a ser cidadãos de um Estado moderno. Esse foi o grande primeiro embate. Essa modernidade que assim se estabelecia roubava espaço aos mecanismos locais legítimos (e sobretudo os ilegítimos) que se haviam estabelecido. 

Mas houve mais, houve uma invasão progressiva de profetas radicais que, em nome da religião, preparavam a violência que hoje se manifesta. Jovens que tinham sido enviados para “estudar” na Arábia Saudita e no Sudão regressavam como mensageiros de uma nova verdade. E que consideravam que o islamismo há séculos estabelecido na região era uma deturpação de uma leitura mais pura do Alcorão. Testemunhei encontros de violência verbal e física entre os muçulmanos já instalados em Cabo Delgado e os que chegavam vindo de outras madrassas, de outras geografias. Em 2004, fui obrigado a fugir do pátio de uma mesquita para onde eu tinha sido convidado para falar com a comunidade religiosa. Inesperadamente, a mesquita foi assaltada violentamente por jovens muçulmanos que defendiam “outro” Islão.

Vou deixar de lado outras dimensões daquelas sociedades da costa de Cabo Delgado (é importante entender que a violência atinge sobretudo os distritos litorais). Seria importante conhecer tensões étnicas que possuem raízes antigas, sobretudo naquela zona costeira. Recordo-me de que, enquanto preparava para escrever um outro livro, viajei por aquelas zonas em busca de memórias da escravatura. Ninguém se oferecia para depor, ninguém queria partilhar histórias antigas. Escravatura?, perguntavam, fingindo-se perplexos. Nunca aqui houve nada disso, respondiam. Até que um dia um velho deu-me o seguinte conselho: há pedras que não se levantam, debaixo delas moram fantasmas que nunca foram enterrados. 

Não quis neste breve artigo dar respostas. A intenção foi apenas sugerir que, como disse o velho pescador, há fantasmas antigos por debaixo de pedras. A violência em Cabo Delgado tem dimensões históricas, sociais, religiosas que escapam a uma resposta fácil e total. 


Mia Couto

Escritor e biólogo moçambicano

sábado, 13 de fevereiro de 2021

"Pai como é que metem a água na garrafa?"

Hoje eu e o Duarte fomos passear de manhã a Travanca de Lagos.

No final do passeio sentámo-nos no muro da escola primária e o Duarte perguntou enquanto bebia água de uma pequena garrafa de plástico "pai como é que metem a água na garrafa".

A minha imaginação percorreu um conjunto de caminhos para encontrar uma explicação simples que uma criança de 4 anos acabados de fazer percebesse. 

Refleti um pouco e apercebi-me que só há pouco mais de uma década entendi porque é que a água brotava das nascentes dos rios. Na minha mente permaneceu durante muito tempo a ideia da minha avó Prazeres, muito religiosa, que dizia que a água brotava debaixo da terra devido a um milagre divino.

Bem continuando a minha exposição à pergunta do Duarte:

"Duarte a água vem das nuvens e quando chove a água cai no solo e vai para debaixo da terra"

"A água permanece debaixo da terra criando rios"

O Duarte não percebeu muito bem essa parte (rios de baixo da terra) e tive que lhe dizer explicar melhor: "imagina um copo gigante que está debaixo na terra que apanha a água que cai da chuva". "Lembra-te naquela água que está naquele copo gigante debaixo da terra, nunca há sol e a água fica lá muito tempo".

"Porque é que o sol não entra pai" perguntou o Duarte ao que eu respondi "Não entra porque como te disse a água do copo gigante está debaixo da terra e o sol não consegue lá chegar" Para não estar a introduzir a palavra infiltrar que dava azo a outro diálogo e mais perguntas avancei com a explicação.

 "Há duas maneiras que o Homem tem de tirar a água do copo gigante que está debaixo da terra" 

"Quais são as duas maneiras" perguntou o Duarte 

"Sabes Duarte a primeira maneira é furar a terra com uma broca gigante para chegar à água que está no copo gigante"

"Pai como é que conseguimos tirar a água do copo gigante?"

"Bem quem tira a água é um motor" "pai como é que o motor tira a água" Bem inverti a exposição e falei-lhe do aspirador. "Sabes Duarte imagina que o motor é um aspirador que aspira o lixo qua anda no chão da nossa  casa" "O motor aspira a água que está no copo e vai para as torneiras e daí para a garrafa de água".

Queres saber qual a segunda maneira. Ele estava confuso mas aceitou que eu continuasse a explicação. A segunda maneira foi mais difícil de explicar. Foi a minha dúvida que permaneceu na minha cabeça durante mais de duas décadas.




"A  segunda maneira acontece quando o copo gigante fica cheio e a água entorna e forma rios de baixo da terra. Os rios percorrem distâncias muito grandes debaixo da terra até que encontram um local mais fraco e conseguem aparecer à superfície dando origem às nascentes dos rios e ribeiros" 

Esta segunda ideia definitivamente o Duarte não percebeu bem ou talvez eu não tenha conseguido ter a capacidade de a explicar de um modo mais simples. Ficou a tentativa.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A minha família

Saudade é uma palavra não tem sinónimo em mais nenhuma língua.No ano 2020 essa palavra fez-se sentir de forma muito cruel. Não poder abraçar quem mais amamos por medo de lhe passar o maldito vírus, é duro.

Não tem sido fácil para mim perceber qual a decisão certa a tomar num determinado momento. Sem dúvida é o coração a falar de uma maneira diferente da razão.

Desde o tão polémico natal de 2020 que não estou à mesa com ninguém da minha família. Antes do Natal evitava ao máximo estar em casa dos meus pais por momentos que seja sem máscara. É uma mistura de sentimentos que me tornou aqueles momentos em famílias diferentes e sem a descontração habitual. 

A última vez que consegui estar descontraído em família foi nas férias de verão naquela semana na praia da Tocha, onde nos reunimos em pequenos grupos naquela casa da praia com um terraço onde ainda hoje sinto o palato daquele peixe grelhado e o sol quente daquela semana de agosto. 

A derradeira vez que chorei de alegria foi na primeira semana de agosto  após ter recebido a  notícia que ia ser tio, estávamos então na Figueira da Foz com os meus pais, avó, irmã, cunhado, Cecília e com o meu filho.

Tenho saudades das conversas com a minha irmã e o meu cunhado sem máscara, de discutir política com o meu tio ao domingo ou História com o meu pai.

Os meus pais têm sido incansáveis e admito que por vezes tenho  agido de forma demasiado apreensiva quando lhes faço uma visita, daí evitar lá ir. As deslocações para Grândola contribuíram para aliviar esses contactos e obrigado a focar-me apenas no trabalho.

Os meus pais desde o nascimento do Duarte, nunca nos negaram  o auxílio e foram essenciais na definição da nossa vida profissional. A minha mãe várias vezes acordou às 6h para estar às 6h30 em nossa casa, esperar que o Duarte acordasse para o levar à creche com mais horas de sono. Por várias noites o Duarte ficou a dormir em casa dos meus pais com pouco mais de um ano de vida.

 A minha mãe foi bafejada com uma reforma longa mas merecida em consequência de um  trabalho que começou aos 18 anos como professora em Chãs de Égua. Que história bonita que ela me contou sobre  a sua primeira escola em Chãs de Égua. Quando fui carteiro passava junto da antiga escola primária de Chãs de Égua, atualmente um centro de interpretação da arte rupestre e lembrava-me do ano longínquo de 1973 quando quando a minha mãe se foi apresentar como professora naquela localidade, localizada numa encosta da Serra do Açor no concelho de Arganil.

Em 1973 a minha mãe, ainda há muito pouco tempo tinha feito 18 anos, quando foi com o tio Renato que eu nunca tive a sorte de conhecer, com a sua esposa a minha tia Graça (irmã da minha avó), com o meu tio Vasco (irmão da minha mãe) então com 7 anos e a minha avó na época uma jovem com 38 anos . Os 5  foram no carro do meu tio Renato em direção a Chãs de Égua com o intuito de a minha mãe se apresentar na escola onde iria começar a exercer a profissão de professora do primeiro ciclo. 

 A estrada era de terra batida e as constantes dúvidas na direção a tomar levaram à necessidade de parar várias vezes para perguntar qual o melhor caminho a seguir. Em 1973 as aldeias serranas do concelho de Arganil eram habitadas por muita gente e não foi difícil encontrar quem os ajudasse. Após longos quilómetros a viagem terminou finalmente após uma descida muito íngreme num caminho de  terra batida. Após aquela viagem atribulada a minha avó comentou "filha vamos embora, não te quero a trabalhar neste lugar".

Aquando da chegada daqueles 5 estranhos, os locais perceberam que era a professora que por tanto ansiavam e foram de imediato tocar o sino para avisar da boa nova. Perguntaram se a professora seria a tia Graça  dada a juventude da minha mãe.

A minha avó, a minha mãe e o meu tio instalaram-se na "casa do professor" e preparam-se para uma fase muito difícil, ainda em ditadura sem água, nem luz e longe de casa. Foi em Chãs de Égua que o meu tio Vasco e irmão da minha mãe aprendeu a ler.

Ao domingo a minha avó acordava muito cedo (ainda de noite) e levava um tronco quente da lareira e usava-o para lhe alumiar o caminho que fazia todas as semanas para assistir à missa no Piódão, a localidade mais próxima.

Avançando pouco mais de uma década, recordo-me através das fotografias da minha primeira casa em Andorinha, local onde os meus pais estavam a lecionar na altura. Revejo a casa através das fotos, ficava perto da escola primária.  Andorinha pertence à freguesia de Travanca de Lagos (Oliveira do Hospital). Travanca de Lagos foi o local onde eu em meados da década de oitenta  e o meu filho Duarte em 2017 se batizaram na igreja matriz que jaz naquela localidade. Revejo as memórias do batizado do Duarte com saudade. O Duarte nessa altura tinha pouco mais de sete meses e começava a descobrir o mundo e o seu olhar de explorador já latejava naquele tempo. Observou a igreja e toda aquela ambiência preparada minuciosamente por Isilda, pertencente ao grupo de jovens, que afinou as vozes e os acordes das guitarras numa linda cerimónia plena de harmonia. Para mim foi bonito pela primeira vez ver a minha família e a da Cecília juntas, foi pena a minha madrinha não ter vindo mas foi maravilhoso rever os meus primos e tios da Costa da Caparica que vejo tão ténues vezes.

Em meados da década de oitenta a minha mãe já tinha alguns anos de experiência mas o meu pai mais novo três anos e com um ingresso na carreira mais tardio ainda estava a dar os primeiros passos na profissão docente. Desses tempos recordo-me da vivacidade dos meus pais que dinamizavam inúmeras atividades num terreiro que ficava na parte de trás da escola primária de Andorinha. Recordo-me que na altura eles organizaram uma feira medieval com um grande impacto na comunidade escolar. Posso estar enganado mas senti que nesse tempo havia mais tempo para conhecer o espaço e as gentes, valorizavam mais o professor e os   encontros entre colegas tinham uma alegria muito diferente de hoje. 

Os meus pais são uns lutadores e pilares essenciais no meu crescimento e agora do Duarte. A minha mãe apresenta sempre  um sorriso no seu semblante não expressando por vezes a dor em consequência do trabalho que a minha avós lhe tem dado nos últimos anos. Admiro-a muito por isso. A minha avó, hoje com 86 anos, perdeu a sua autonomia e ganhou medos após uma queda que a obrigou a ser operada à bacia. A partir desse dia nunca mais foi a mesma, pois além da confiança perdeu a vivacidade e a vontade de habitar a sua casa, dar  o almoço todos os dias úteis da semana ao meu tio Vasco (meu  primo) e ao seu filho Diogo.

O  meu pai com o seu enorme jeito para brincar e ensinar crianças sempre deu ao neto um carinho imenso que através das inúmeras e sempre muito cúmplices brincadeiras que os tornaram inseparáveis. As saudades que o Duarte tem dos avós Pedro e Paulita evidenciam o enorme amor que eles têm por ele. O  imenso jeito que o meu pai tem para contar histórias  "hipnotizaram-no" desde muito cedo o Duarte que as ouve atentamente e transmitiram-lhe um imenso gosto pela leitura que eu tento dar continuidade. A minha mãe  com imenso jeito para a pintura que aprimorou durante a reforma transportou para o Duarte outros ensinamentos como a capacidade de concentração. Sem dúvida são duas pessoas que tornaram o Duarte uma pessoa cheia de sorte.

Espero sinceramente que muito em breve tudo volte à normalidade e possamos novamente conviver  abraçar e beijar sem medo. Muita saúde para todos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Recordações em confinamento. Autor: Antenor Santos

Nós, os homens, temos formas curiosas de dizer às pessoas que amamos. (Renato Nunes)

              A Catarina, a minha filha mais nova, agora com 46 anos, foi uma criança adorável. Sempre muito curiosa e esperta, nas brincadeiras infantis sabia lidar com acontecimentos menos favoráveis e sair airosamente de situações complicadas.

 Já passaram várias décadas desde as inúmeras viagens de férias que fazíamos juntos, por essa Europa fora. O nosso Mercedes amarelo tinha a dimensão ideal para cabermos todos, a Catarina, os seus três irmãos, a minha mulher e eu. O porta-bagagens, que tinha grande capacidade, era pequeno para caberem todos os pertences de seis viajantes: equipamento de cozinha, uma pequena tenda de montagem rápida e as malas, que, por ser verão, carregavam poucas roupas e muitos sonhos.

Depois de atravessarmos as grandes planícies de Espanha e as belas paisagens pirenaicas, penetrávamos em território francês, pernoitando em pequenos e funcionais parques de campismo municipais, quase desertos e sem qualquer pessoa a vigiá-los, onde, até com água quente, podíamos limpar os corpos e, no meio de tanta liberdade, purificar as almas.

Visitar Paris era o objetivo principal, que atingíamos com relativa facilidade. Subir à Torre Eiffel era para todos um grande desejo e uma tarefa bem simples, exceto para o Fabrício! Quando chegou a nossa vez de entrarmos no elevador de acesso ao monumento, o miúdo fez finca-pé e não queria entrar. Tinha medo, que vergonha, o único rapaz dos quatro irmãos, que foi obrigado a entrar, puxado pelo ascensorista e empurrado pelo resto do grupo, com a Suzana, a Mariana e a Catarina à cabeça!

Um pouco mais tarde, depois da visita ao Museu do Louvre, passeávamos nas ruas ao lado daquele monumento histórico, dedicado à arte, onde, para se circular, era necessário romper, já naqueles tempos, entre mares de gente. As instruções que tínhamos dado era que os miúdos se mantivessem unidos e a Catarina de mãos dadas connosco. Porém, depois de alguns minutos, demos conta que ela não estava connosco. Pensávamos que se tivesse juntado aos irmãos que vinham alguns passos atrás, mas ela não estava com eles. Que sufoco, a Catarina tinha-se perdido. Rompendo a multidão, voltámos para trás e fomos encontrá-la, parada, estática, exatamente no lugar onde, disse-nos ela depois, se tinha perdido do grupo. Com apenas seis ou sete anos, a nossa querida filha tinha acabado de nos dar uma lição, de como proceder em casos parecidos; não arredou pé, esperou, como é lógico, que nós voltássemos atrás para a procurar. Se ela se tivesse deslocado dali, para tentar encontrar-nos, teria sido muito difícil sairmos daquela situação a rir, no meio de muitos beijinhos e abraços de felicidade.

Sem percalços de maior, a viagem continuou para sudeste, cujo objetivo era agora ir para Itália. No percurso tivemos ainda a oportunidade de visitar a costa mediterrânica do sudeste francês e o Principado do Mónaco, com o seu famoso casino, onde não nos atrevemos a entrar, tanto pela feliz inaptidão ao jogo, como pelo aspeto andrajoso das nossas roupas de viagem, naquele fim de tarde de verão.

Mais tarde, depois de Florença e Pisa, já em Roma, não podíamos evitar a visita ao Vaticano. Tinha prometido aos meus filhos que iríamos ser recebidos pelo Papa! E eles tinham duvidado disso. Pensavam que era brincadeira, mas aguardava-os uma bela surpresa. À saída da Capela Sistina estendemo-nos pela esplendorosa Praça de São Pedro. Os miúdos, que viam terminar a visita, chamavam-me já “mentirosito”, por afinal irmos embora sem ver o Papa. Levei-os então para um canto da praça onde estava um expositor de postais turísticos, onde se destacava a figura de João Paulo II. Ali, reunidos em silêncio e simulando o ar mais sério possível declarei:

- Quem disse que eu sou mentiroso, quem se atreve? Ora aí está o Papa, eu não vos garanti que o íamos ver?! Numa explosão de insultos carinhosos lá partimos para o sul, onde nos aguardavam visitas a Nápoles, Capri e a Pompeios (que as pessoas insistem erradamente em denominar “Pompeia”.

O desejado regresso a casa, cansados de tão longa viagem, iniciou-se com um lanche. O açucareiro de esmalte, herança da minha avó, já mais antigo que somadas todas as nossas idades, ainda tinha açúcar deixado um mês antes. Dentro, para nosso espanto, estavam algumas minúsculas formigas já mortas. Enquanto eu retirava os restos dos gulosos insetos, de dentro do açucareiro, a Catarina, mostrando a sua habitual perspicácia, afirmou autoritariamente que as formigas tinham morrido porque eram diabéticas!  

A Catarina, atualmente é profissional de saúde e acaba de ser diagnosticada com covid 19. Esta situação é, para toda a nossa família, uma situação angustiante, mas todos acreditamos que ela consiga, tal como sempre o fez na vida, escapar airosamente das garras desta ameaça tão constrangedora.

Antenor Santos


sábado, 30 de janeiro de 2021

O passaporte da minha avó Autor: Renato Nunes

Tenho à minha frente o passaporte da minha avó materna, nascida em 1911, ano em que foi publicada a lei da separação das Igrejas do Estado. O referido passaporte, emitido na década de 30 do século passado, invoca as viagens marítimas realizadas entre Portugal e o Brasil (Santos), contendo os necessários carimbos da polícia política do Estado Novo (à época designada Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). O regresso definitivo ao território nacional ocorreu entre os derradeiros dias de Agosto e o início de Setembro de 1939. Eis, por conseguinte, a minha avó no meio do Atlântico, provavelmente temerosa com a passagem do Equador, enquanto deflagrava a II Guerra Mundial (1 de Setembro).

Chegava, assim, ao fim uma aventura iniciada uns anos antes, em circunstâncias pouco ou nada favoráveis, pois o crash da bolsa de Nova Iorque, em 1929, desencadeara uma das maiores crises financeiras, políticas e sociais, com ramificações a nível mundial. O repatriamento para Portugal, enquanto “indigente” (como figura no passaporte), comprova o que acabei de dizer. Alguns meses depois nasceria a minha mãe, filha de mãe solteira e de pai incógnito, numa remota aldeia do interior beirão. E penso que não serão necessárias mais palavras para o leitor imaginar o profundo estigma que à época recaiu sobre essa mulher recém-chegada do Brasil, de olhos castanhos, com 1,51m de altura e, como era comum na época, sem nunca ter desfrutado do privilégio de frequentar a escola para aprender a ler e a escrever…

Enquanto jovem, mal tive a oportunidade de conhecer a minha avó materna, mas hoje, já na casa dos 40, penso muitas vezes nesta destemida mulher e no drama da sua vida, passada a tratar das pesadas lides domésticas e agrícolas, próprias ou alheias, para à noite regressar a um casebre de granito, sem água, sem luz ou gás, onde o vento e a chuva faziam sentir a sua presença. Mas sempre com os velhos baús de madeira, vindos do Brasil, presentes no espaço nobre da sala improvisada... 

À medida que os anos transcorrem, o estudo do indivíduo e das suas circunstâncias insiste em fascinar-me cada vez mais. O exercício biográfico proporciona-nos, desde logo, um “encontro” com o ser humano, nas suas várias facetas e realidades quotidianas, quer enquanto personalidade pública ou simples cidadão anónimo. Quando se estuda um Homem, o local e o global entrelaçam-se de um modo tão inextricável, que é impossível compreender um sem mobilizar o outro. O exemplo concreto da minha avó e das circunstâncias dramáticas nas quais o mundo estava mergulhado quando ela procurou viver a aventura do Brasil poderão ajudar o leitor a compreender melhor o que pretendo afirmar. Outro exemplo concreto poderia passar pela participação dos portugueses na I Guerra Mundial: imaginar um dos meus conterrâneos beirões, “serranos”, nas trincheiras da Flandres, entre 1917 e 1918, é um pouco como se me fosse permitido contemplar o momento em que a história do indivíduo e a história do mundo deram as mãos (a obra de Isabel Pestana Marques — Das Trincheiras com saudade — é a este respeito uma sugestão de leitura incontornável).

É nesta mesma linha que gostaria de partilhar o entusiasmo que vivi recentemente, enquanto lia sofregamente um livro intitulado História Global de Portugal, dirigido por Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva. Trata-se de um conjunto de 93 textos produzidos por cerca de 80 autores, integrados em cinco partes aglutinadoras: Pré e Proto-História, Antiguidade, Idade Média, Época Moderna e Época Contemporânea.

Um dos aspectos surpreendentes da obra, com um total de 660 páginas, reside, desde logo, na sua estrutura coerente e rara limpidez textual. Os textos individuais, com cerca de seis páginas, podem ser lidos nos momentos mais banais do quotidiano, trazendo-nos um conjunto de sínteses, que colocam em causa vários mitos que continuam erradamente a ser repetidos até à exaustão. Apenas alguns exemplos: a associação simplista dos Montes Hermínios à Serra da Estrela, bem como da Lusitânia ao actual território português ou até mesmo a pouco sustentada associação de Fernão Magalhães a um suposto projecto de circum-navegação do Mundo, quando, de acordo com as fontes disponíveis, o seu objectivo passou isso sim por atingir as Molucas (ou ilhas de “Maluco”), na Indonésia. Poderia também destacar teses particularmente interessantes, como sejam as sucessivas movimentações humanas, já desde a Pré-História, a emissão de gás metano antes da Revolução Industrial (século XVIII), o entrelaçamento entre o mundo atlântico e o mundo mediterrânico, pelo menos desde a Idade do Bronze (III milénio a.C.), bem como alguns apontamentos interessantes a respeito da presença dos Viquingues no território que actualmente integra Portugal ou ainda um actual exercício de síntese a respeito da peste negra, no século XIV, que teria provocado a morte de aproximadamente 50 milhões de pessoas, das cerca de 80 milhões que à época viveriam na “Europa” (p. 272), bem como uma interessante entrada sobre o estudo da cultura do arroz em Portugal (pp. 347-351).

Este esforço, ainda pouco comum mesmo na comunidade científica nacional, de congregar um número elevado de investigadores à volta de um projecto comum, procurando entrelaçar o local e o global afigura-se-me meritório, sendo que a obra em causa passa a constituir uma ferramenta de trabalho quase obrigatória, quer na mesa de outros investigadores, professores ou simples curiosos pela compreensão do mundo em que vivem.

A reflexão que agora procuro desenvolver ajuda-me também a recordar um antigo professor universitário chamado Saul António Gomes, um historiador especializado na Época Medieval, ao qual, se bem me lembro, ouvi repetidamente — durante as aulas de Paleografia e Diplomática — sustentar que era forçoso ultrapassar a velha dicotomia entre o local e o nacional/mundial, pois os designados “estudos locais” ainda eram frequentemente percepcionados de um modo particularmente pejorativo. Não posso assegurar que eram exactamente aquelas as palavras utilizadas pelo aludido docente, mas aquela ideia continua, cerca de duas décadas depois, bem presente no meu espírito e esta também é, por conseguinte, uma das melhores homenagens, que, segundo creio, posso continuar a prestar-lhe.

Entre os aspectos mais discutíveis da obra, talvez seja importante destacar os seguintes: associação, frequentemente forçada, do tema em estudo a um suposto e quase obsessivo carácter global, o que, como teve oportunidade de assinalar Diogo Rama Curto numa crítica particularmente incisiva (p. 401), se traduziu, por vezes, em exercícios que roçam o anacronismo; uma perspectiva, porventura, demasiado decalcada da interpretação eclesiástica do fenómeno das “Aparições” de Fátima (1917), apresentada pelo historiador do Departamento de Estudos do Santuário de Fátima, Marco Daniel Duarte (pp. 573-578), parecendo ignorar, por exemplo, a transformação da própria mensagem apresentada pela Igreja Católica (os designados “segredos”) ao longo do século XX (ver, a este respeito, os estudos do historiador Luís Filipe Torgal ou numa perspectiva mais teológica as obras do proscrito padre Mário de Oliveira, bem como os “inflamados” textos de Tomás da Fonseca). Destaque-se, ainda, a quase omissão dos Açores (abordados superficialmente), que, à semelhança do que sucedeu com a Madeira, bem mereciam um texto individualizado; a integração do Estado Novo, num período situado logo a partir de 1928 (p. 359), o que, em certo sentido, escamoteia as especificidades da Ditadura Militar/Nacional (1926-1932); a ausência de notas de rodapé, o que se por um lado permite uma leitura mais fluida dos textos, por outro lado impede a confirmação dos elementos mencionados e, neste sentido, dificulta o trabalho de outros investigadores que pretendam debruçar-se sobre o tema.

Estes e outros aspectos da obra, que mereciam ser discutidos e aprofundados, não obscurecem, no entanto, o seu inestimável valor e pertinência, justificando-se plenamente a sua leitura. Afinal, os tempos que vivemos revelam-se cada vez mais incertos e com perigosas e assustadoras similitudes com as décadas de 20 e 30 do século passado, no decurso das quais milhões de pessoas ansiaram por um salvador, que destruísse o sistema e voltasse a construir, do vazio, um mundo perfeito. O resultado monstruoso desse passado já muitos de nós o conhecem, mas qual será o resultado deste presente que agora vivemos? Qual será o desfecho desta tendência assustadora que leva a que, em várias freguesias portuguesas, a extrema-direita se torne numa das forças políticas mais votadas?

Os argumentos, os não-argumentos, a hipocrisia e a loucura dos novos potenciais ditadores que por aí pululam, alimentados pelos dramas que estamos a viver, apenas poderão ser combatidos com mais conhecimento científico e políticas inclusivas. Eu não conheço outra ferramenta que possa ajudar-nos tanto nesse combate como a História. É também por isso que, apesar de as contingências da vida me terem forçado a procurar a sobrevivência para além das suas fronteiras profissionais, continuo frequentemente a agradecer o privilégio de poder estudá-la. A agradecer a todos aqueles que me ajudaram a amá-la, em especial aos professores com os quais tive a sorte de cruzar-me. É também graças a essa ciência-narrativa que pude e posso diariamente compreender melhor aqueles que me rodeiam e rodearam, como a minha querida e saudosa avó materna, que um dia rumou para o sonho do Brasil, em busca de uma vida melhor, mas poucos anos depois foi forçada, também pelo terrível poder da crise global, a regressar ao país natal, no navio “Highland Princess” e a enfrentar uma sociedade ultraconservadora e machista, onde a mãe solteira era frequentemente alvo da chacota e da exclusão social…

Mais do que através de leis e mais papéis, a inclusão constrói-se com conhecimento e sabedoria, algo que dificilmente se poderá separar da História. Ignorar isto é continuar a alimentar os extremismos. E quem alimenta monstros, acaba por ser devorado por eles — é apenas uma questão de tempo…       

Referências bibliográficas: Carlos Fiolhais, José Eduardo Franco e José Pedro Paiva (direcção) — História Global de Portugal, 1.ª edição, Lisboa, Temas e Debates, 2020.

 

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Memórias da década de noventa

A infância e adolescência, são fases da minha vida que evito falar.

Quando algum colega ou amigo falava das aventuras e desventuras desta fase da sua vida eu imiscuía-me de dizer o que quer que fosse. Lembro-me que fui sempre muito reservado e metido comigo mesmo. Nas saídas sociais recordo-me que tinha receio de falar e emitir a minha opinião, pois achava que não tinha relevância. O nervosismo o desconforto quando estava em grupo eram latentes.

As minha memórias são muito ténues e refletem momentos bons e menos bons que passo a narrar de forma salteada:

No primeiro ciclo do ensino básico recordo-me do meu primeiro dia de aulas, ainda na antiga escola primária, atual escola Profissional de Oliveira do Hospital (Eptoliva) no final da década de 80. Como entrei um pouco mais tarde lembro-me que fui recebido de forma calorosa pelos meus colegas de turma.

As minhas professoras do 1º ciclo ainda faziam parte da velha guarda de professores, onde o castigo por errar tinha consequências diferentes das atuais. Cito duas situações que me recordo: a primeira prendia-se com a penalização aquando dos erros nos ditados, no qual erámos castigados com uma reguada de madeira por cada erro que dessemos, lembro-me que quando tentava tirar era pior pois batia-me no osso e eram dores horríveis; a segunda história aconteceu no final do quarto ano, que em consequência de uma ação que eu fiz (sinceramente não me recordo) a professora castigou-me colocando-me de joelhos em frente ao quadro. Tudo castigos que já não se usam há mais de duas décadas. A minha professora do 1º ano reformou-se no final desse ano letivo e a professora que a seguiu até ao final do meu primeiro ciclo reformou-se uns anos depois da conclusão do meu quarto ano de escolaridade.

No primeiro ciclo estive em duas escolas diferentes: nos dois primeiros anos estive na escola antiga  e nos dois anos seguintes fiz a transição para a nova escola e atual escola primária de Oliveira do Hospital.  No início da década de 90 o momentos mais marcantes foi o encerramento da escola por causa da neve. Foi a primeira e única vez que isso aconteceu. Na altura a ainda vila de Oliveira do Hospital ficou coberta de neve. O meu desalento veio quando cheguei a casa e soube que tinha de ir para Coimbra com os meus pais e não podia brincar com a neve ao outro dia salvo erro uma sexta feira do mês de fevereiro do inicio da década de 90.

As mudanças de ciclo foram para mim sempre uma grande tormenta, principalmente do 1º para o 2º ciclo e do 3º ciclo para o secundário.

Em consequência de naquele tempo o primeiro ciclo ser composto apenas por um professor a adaptação às mudanças para uma escola maior onde passei a ter quase 10 professores e várias salas de aula foi dura e difícil durante as primeiras semanas.

Nos tempos de escola, tal como agora nunca fui um grande jogador de futebol ao contrário do meu pai.  Lembro-me de dois torneios inter-turmas onde sobressaí, daí estar a falar disso, pois por norma era uma peça acessória e não saía do banco: o primeiro momento que quero destacar estava no segundo ou terceiro ciclo e recordo-me que na altura me colocaram a jogar e marquei um golo a alguns metros da baliza e na altura todos vieram a correr na minha direção, abraçaram-me deixando-me no meio de um conjunto de braços e pernas. Sentimentos estranhos para mim na altura e se calhar ainda hoje. O segundo torneio fora do normal, não me recordo ao certo se foi no terceiro ciclo ou secundário coincidiu com a ausência dos melhores jogadores e eu acabei por ter uma preponderância fora do normal, ganhámos e eu marquei dois golos o que para mim era um feito.. Acabámos por ganhar esses torneio e ainda tenho a medalha em casa dos meus pais. 

Outra mudança que eu me ressenti  muito foi a passagem do ensino básico para o secundário. A mudança de escola assim como a tipologia de ensino teve consequências nas notas que foram mais baixas no primeiro período. 

O meu ensino secundário coincidiu com a introdução dos telemóveis e da Informática na educação em Portugal. Lembro-me que nas aulas de Introdução às tecnologias de informação (ITI) se trabalhava com o Windows 95 onde ainda se dava umas pinceladas de MS DOS. Recordo-me de um colega que partilhava comigo o computador que já tinha telemóvel e sempre que recebia uma chamada ou uma mensagem sentiam-se as vibrações no ecrã do computador.

Nunca fui de grandes saídas à noite, restringia-me muito ao seio familiar que era onde me sentia mais confortável. Recordo-me de brincadeiras que tive com dois amigos que na altura eram os meus dois melhores amigos, o Pedro e o Ricardo. Hoje devido a  termos percorrido caminhos diferentes falamos de vez em quando por telefone. As brincadeiras de crianças hoje são reconhecidas como infantis ou adequados à época que vivíamos.

Uma das brincadeiras menos felizes foi lembrarmo-nos de combinarmos um encontro em minha casa à noite para darmos uma volta de bicicleta. Eles chegaram lá cada um com o seu foco e prontos para a aventura. A casa dos meus pais fica a cerca de 3 quilómetros de Oliveira do Hospital e na altura não havia tanta iluminação como há hoje e recordo-me muito bem que pouco víamos à frente da bicicleta mas lá fomos. Fomos até Oliveira do Hospital, na altura ainda não tínhamos o hábito dos bares, calcorreamos algumas ruas e estradas, levámos uma buzinadelas de carros que nos ultrapassavam e depois cada um foi para sua casa. Nesta fase da minha vida foi a coisa mais estapafúrdia que me recordo de ter feito, felizmente ninguém se aleijou.

Naquela altura não havia os mails nem telemóveis e o contacto com as raparigas era feito através de cartas que lhe chegavam através de amigos ou familiares. Eles faziam-no muito, enquanto eu não tinha tanto esse hábito. Lembro-me que fiz um bilhete para uma rapariga e não tive grande sucesso. 

Nas férias reuníamo-nos em minha casa para jogar à bola num terreno por trás da garagem onde o meu pai tinha apenas mato. Nós limpámos aquele espaço e improvisámos um campo de futebol com pedras e acho que aproveitámos as árvores que lá gereciam para servir de postes.  Passávamos ali tardes os três quando não convidámos mais 1 ou 2 para fazerem parte das nossas conversas e das correrias atrás de uma bola.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Memórias da minha vida profissional

Ser professor com gosto é algo fantástico!  Eu dedico-me imenso àquilo que faço quando sinto que sou útil e contribuiu para o meu crescimento profissional. Sabe bem passado vários anos os alunos não terem vergonha de virem ter connosco e cumprimentarem-nos com respeito e admiração.

Lembro-me quando estive em Sabóia- Odemira (2009/10) a minha colega de História com uma simpatia e simplicidade singulares me disse "ser professor é duro mas quando as coisas correm bem é tão bom".  Apesar de já não me lembrar  do nome dela ainda recordo-me das suas feições e da paixão que ela tinha em ser professora. Tinha imenso respeito por ela e adorei trabalhar com ela.

A minha fase inicial de carreira foi muito difícil, definitivamente não estava preparado para desempenhar tais funções. 

Lembro-me de dois episódios positivos que aconteceram no início da minha carreira docente:

O primeiro aconteceu em Rio Maior (2010/11) após 2 anos a dar aulas a alunos do 3º ciclo e secundário que não ligavam nenhuma à minhas aulas. Nesse ano em Rio maior dei aulas à noite a turmas de adultos e  recordo-me que numa aula que me correu particularmente bem ter dito  aos formandos no final. "obrigado". Sabe bem quando estão atentamente a olhar para nós a ouvir-nos com gosto. Não estava habituado a isso e como nunca tinha tido essa sensação a expressão veio do coração e foi espontânea.

O segundo episódio aconteceu no início da segunda década do século XXI onde estive alguns meses desempregado e as aulas como professor de ténis mantiveram a minha cabeça ocupada. Foi uma experiência muito boa pois dessa forma senti que estava mais preparado para entrar no mercado de trabalho. Na altura Portugal vivia uma situação de crise económica e havia muito desemprego docente. Concorri a um colégio sem esperança de lá ficar pois nessa altura entrar num colégio só mesmo com contactos terceiros. Após a entrevista no regresso a casa lembro-me perfeitamente que parei em Coimbra para comer qualquer coisa quando me ligaram a dizer que tinha sido selecionado. Lembro-me que fiquei muito contente e recordo-me perfeitamente, quando após me terem dado a notícia inesperada eu ter dito prolongadamente obrigaaaadoooo.

Aquele mês que passei no Colégio Rainha Dona Leonor nas Caldas da Rainha no ano letivo 2011/12 foi muito duro, trabalhei muito e  ainda hoje me recordo do dia da apresentação e o principalmente do dia da despedida  onde a diretora, uma engenheira com formação na área da gestão me disse " já vai embora", "nota-se que gosta de ensinar". São expressões que nos enchem o ego e vamos buscar quando estamos menos bem.

A partir daí consegui contactos com colégio privados onde andei até final de 2012, e devido à má experiência acabei por deixar de vez o ensino durante um longo período de tempo.

Entre 2013 e 2017 estive sempre fora do ensino. 

Neste período distante das salas de aula tive várias profissões. Aprendi e conheci gente muito interessante em todas elas, no entanto houve uma que me marcou particularmente, técnico de campo no projeto piloto do cadastro predial de Oliveira do Hospital. Cresci imenso profissionalmente nesse período  entre 2014 e 2015.

Nesta altura os empregos que exercia eram precários:  estagiário na Câmara Municipal de Oliveira do Hospital, carteiro, comercial da Vodafone, ou guia turístico na freguesia da Bobadela.  Penso que não me esqueci de nenhuma função realizada. De todas as profissões descrita neste parágrafo a que mais gostei foi a de guia turístico, não me revendo a trabalhar em qualquer uma das outras.

O nascimento do meu filho em Janeiro de 2017 teve um peso fundamental no meu reerguer profissional e regresso de uma forma mais segura à vertente educativa.

Curiosamente no dia em que ele fez uma ano, a 29 de janeiro de 2018, fui-me apresentar na escola secundária do Fundão. O regresso ao ativo não foi fácil no entanto soube muito bem  no final aperceber-me que tinha conseguido ultrapassar o primeiro obstáculo onde foi muito importante a ajuda da Cecília 

Daí para a frente os obstáculos prosseguiram e nos dois ano letivos seguintes lecionei em duas escolas em simultâneo. Em 2018/19 (Manteigas e Pampilhosa da Serra) e 2019/20 (Pampilhosa da Serra e Tabuaço). A vontade de ir a casa  e poder ver o meu filho diariamente suplantou a dureza que as centenas de quilómetros ofereciam. No ano letivo 2019/20, especialmente duro. guardo a simpatia das escolas por onde passei e nunca me irei esquecer daquele mail que a escola de Tabuaço me enviou quando fui colocado em Grândola, agradecendo o meu trabalho e desejando-me sorte para o desafio que iria ter no ano letivo 2020/21. São gestos simples que eu dou um enorme valor.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Vírus made in USA- Autor Antenor Santos

 A invasão do Capitólio nos Estados Unidos da América não ameaça apenas a democracia americana. Tal como a Covid 19, também os acontecimentos da semana passada, na casa de uma das supostas mais consolidadas democracias do mundo, pode trazer consequências a nível global, com contágios difíceis de conter em algumas repúblicas inspiradas na Constituição Americana de 1787. Em muitos países, que conviveram com a falta de liberdade e que a recuperaram à custa de tantos sacrifícios, repressões e mortes provocadas por guerras impiedosas, já poucos se lembram do passado bem recente. 

Com acenos de promessas vãs, já por demais conhecidas, mais “Trumps” espreitam novas oportunidades. Os seus seguidores, que, impunemente, vêm já mostrando há algumas décadas os seus ódios mais ou menos contidos, têm agora mais motivos para mostrar as suas garras. A tentativa torpe de anulação da decisão legítima da maioria do povo americano foi um mau exemplo, que poderá contagiar muitos cidadãos ingénuos espalhados por todo o mundo. E dentro do próprio país é também muito fácil de acontecer. 

A civilização americana tem dado bons exemplos no cumprimento dos princípios consagrados na sua constituição. Porém, nas relações internacionais, frequentemente parece comportar-se com demasiada sobranceria e até mesmo arrogância, querendo impor a sua vontade à custa da ostentação do seu poder económico e, em alguns casos, apoiado na força das suas armas. O seu povo é globalmente generoso, mas a ignorância tem alastrado a um ritmo vertiginoso. 

Se os protagonistas desse acontecimento surreal, passado há dias na casa da democracia americana, não forem exemplarmente vacinados (leia-se punidos), o vírus, agora made in USA, poderá causar muitos estragos intramuros e nas frágeis repúblicas onde muitos lobos estão travestidos de inocentes cordeirinhos. 

Para evitar a propagação dessa peçonha, cabe aos norte-americanos contê-la e erradicá-la dentro das suas fronteiras, sob pena de se deixarem desacreditar ainda mais, no que respeita à tentativa de impor a nível global a paz que não conseguiram fazer triunfar no seu próprio país. 

Não quero ser pessimista e muito menos fazer futurologia, mas temo que, se os cidadãos dos Estados Unidos da América, país que admiro bastante, não conseguirem reconciliar-se rapidamente, e curarem as suas feridas sem as deixar infetar e as deixarem propagar, este império que já dominou o mundo, possa ter os dias contados.

Quem conhece o passado histórico sabe muito bem que não há impérios eternos

                                                                                                                                Antenor Santos

sábado, 9 de janeiro de 2021

Confinamento- a minha opinião

Vivemos dias muito difíceis. 

Pela primeira vez desde o início da pandemia apercebo-me de dezenas de pessoas infetadas e algumas  internadas no seio da minha família e amigos mais próximos. Estamos todos assustados com a evolução desta doença onde muitos hospitais já atingiram o seu limite. Os profissionais de saúde são uns verdadeiros heróis que devem recompensados financeiramente por tudo o que têm feito. O meu Obrigado a todos!

Para mim o que mais me tranquiliza é saber que tenho um Governo e um Presidente da República que assegura o funcionamento de uma democracia estável. Quando vejo pessoas a reclamar os seus direitos, para mim é algo positivo pois é sinal que as pessoas têm esperança e sabem que o governo apesar de não lhe poder dar resposta as ouve e tenta dentro das suas possibilidades arranjar-lhes uma solução.

Nas redes sociais sucedem-se comentários que afirmam a necessidade de voltar ao ensino à distância. Eu próprio já assenti com um "gosto" ao fecho dos estabelecimentos de ensino e ao retorno ao ensino à distância.

Bem, tendo a experiência do que sucedeu no confinamento de março apercebo-me que o fecho total das escolas é a solução mais fácil mas não é a melhor solução. 

Na minha opinião o ensino universitário e secundário devia encerrar totalmente ou grande parte da semana. Os professores  deverão ir apenas um a dois dias à escola  para tirar dúvidas. Neste tipo de ensino os alunos já são autónomos e os pais já terão liberdade para trabalhar quer presencialmente quer em teletrabalho..

Nos restantes níveis de ensino é menos produtivo o ensino à distância. Neste caso faria mais sentido um ensino presencial com uma redução da carga horária dos alunos, a redução  dos programas e optar-se por métodos de ensino onde o teste não seja  o centro da avaliação. Esta fase pode ser aproveitada para valorizar o tempo em sala de aula onde  o professor deixe de ter tanta pressão no cumprimento dos programas. Em tempos de pandemia o primeiro, segundo e terceiro ciclos poderiam ter aulas apenas  de manhã ou de tarde, ficando com o restante tempo livre. Caso os pais não os possam ir buscar poder-se-ia optar por ATL's.

O professor com menos tempo letivo aproveitaria com certeza o tempo livre de modo a prepara aulas com mais qualidade, rentabilizando melhor o tempo. O trabalho do professor em sala de aula é apenas uma pequena percentagem do total. 

 Na minha opinião os exames nacionais deveriam existir apenas no ensino secundário e extintos nos restantes níveis de ensino.

Na terça feira (12 de janeiro) após a reunião com o Infarmed o governo decidirá sobre o modo como será feito o confinamento. Desejo que sejam tomadas decisões conscientes para a conclusão do segundo e terceiros períodos e assim  como toda a gente desejo que a partir do próximo ano letivo já consigamos trabalhar de uma forma mais próxima do normal.

Opinar num blogue é muito fácil, pois as minhas responsabilidade são apenas como professor e pai. Admiro a coragem de quem tem de tomar decisões numa altura tão difícil.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Bom ano aos leitores do blogue

Tencionava parar de escrever durante um tempo. No entanto há algo mais forte que eu que me pede para desenlaçar umas breves frases neste início de 2021.

Amanhã vou começar mais um trimestre neste ano letivo atípico para escolas, professores, alunos e pais. Ninguém estava preparado para isto, no entanto e apesar dos contratempos cada profissional da educação tem feito um trabalho exemplar e merece ser reconhecido por todos. 

Portugal tem excelentes profissionais que se adaptam com facilidade às situações particularmente difíceis.

Como já escrevi anteriormente a mim enquanto professor custa-me imenso não poder ver a face das pessoas com quem trabalho, perceber as suas expressões. Passados mais de três meses sinto que não conheço os meus alunos nem os meus colegas. A Cecília foi infetada com Covid 19 em Novembro e ainda hoje diz que apenas recuperou ligeiramente o olfato e o paladar. É muito desconfortável estar a comer e não cheirar e sentir o paladar da comida.  Na escola sinto-me um bocadinho assim faltam-me os alicerces para construir com solidez a minha casa que abana quando há uma simples tempestade.

Não sei se até ao final do ano letivo vou sentir a escola e sentir mais estabilidade no meu edifício. Tudo irei fazer para que isso aconteça embora saiba as inúmeras dificuldades que me esperam. As horas que me faltam para acabar a formação são 502 e sinto a pressão do tempo escassear.  A diversidade de módulos e de conteúdos novos onde apesar de eu ter acesso a materiais passados por colegas, sinto que não tenho tempo para os trabalhar e adaptar à minha maneira de ensinar. Tudo isso a associar à distância de casa, à insegurança resultante da pandemia dificulta que eu consiga sentir-me bem em Grândola.

Tenho pena de não ter mais tempo para desfrutar da vila, de fazer uma visita à serra de Grândola ou simplesmente passear à beira mar nas belas praias da costa vicentina, pois apesar da distância faço questão de ir todos os fins de semana a Oliveira do Hospital abraçar o meu filho e dar uma ajuda à Cecília. 

Termino com os desejos de um Bom ano a todos os leitores do blogue.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Uma breve reflexão no final do primeiro período.

Chega ao fim mais um dia e quase mais uma semana de trabalho.

Observo que a interrupção letiva do natal se aproxima rapidamente. Sinto-me muito cansado e com muita vontade de abraçar o meu filho e a minha esposa e sentir o aconchego da minha família mais de perto. 

Na passada segunda feira, antes de me fazer à estrada para mais 3h e meia de caminho ficou-me no ouvido as breves palavras do meu filho Duarte:

"Pai não vás, está muita chuva, gosto muito de brincar contigo". Palavras que inevitavelmente nos tocam o coração.

A semana passou e inevitavelmente já não é possível transpor na integra o diálogo naquele final de tarde de segunda feira tive com o meu filho. As viagens são extremamente cansativas, no entanto não consigo abdicar delas. Elas são fundamentais para suavizar um pouco a dureza da  minha semana de trabalho.

Já passaram alguns meses e apesar da passagem do tempo, não consigo sentir o calor e a alegria de estar no meu local de trabalho. A impossibilidade de ver a cara das pessoas e de nos aproximar tornou ainda mais difícil difícil à adaptação e a uma escola profissional fria.

Hoje numa conversa com uma colega na sala de professores disse-lhe que sentia falta exigência e rigor no ensino nesta escola profissional. Aos alunos basta marcarem presença nas aulas ou mesmo que faltem há sempre uma justificação que cola e lhes permite continuar a faltar sempre que quiserem.

Nós professores somos sem dúvida quem trabalha mais na escola.

O que acho mais confrangedor é andarmos atrás dos alunos para eles fazerem as fichas para conseguirem concluir o módulo, quando eles nas aulas não quiseram saber e posso dizer mesmo andaram a gozar connosco. Sem dúvida isto é um ciclo vicioso que os alunos conhecem muito bem.

É interessante perceber que que a minha colega pensa exatamente o que escrevi no dia 14 de Novembro. Nós desaprendemos de ser professores

É gritante a falta de autonomia dos alunos e vontade de ter acesso ao conhecimento.

sábado, 12 de dezembro de 2020

Yazidis: O genocídio esquecido

No rebuliço dos nossos dias não nos apercebemos ou ignoramos por vezes, o que se passa em determinados países, onde inocentes sofrem as consequências da guerra no seu país. Infelizmente morrem crianças que desde muito cedo deixam as brincadeiras e lutam pela sobrevivência.

É arrepiante ouvir a reportagem de uma jovem equipa de jornalistas que fez um trabalho excelente sobre o Genocídio cometido pelo Daesh sobre a comunidade Yazidis no norte do Iraque. 

Esta comunidade que habitava na localidade de Sinjar  no norte do Iraque. Esta cidade foi completamente destruída e ainda hoje mesmo após a derrota do Daesh continua desabitada. A comunidade  Yazidis não teve a proteção de ninguém  sendo evadidas de surpresa quase sem tempo para fugir. 

Os milhares que conseguiram fugir foram para as montanhas, onde não tinham mantimentos nem água. Morreram bébes e crianças de sede e de fome nas montanhas de Sinjar.

A comunidade Yazidi no Iraque tinha cerca de 1 milhão de habitantes sofreu um rude golpe do Daesh sendo os Homens mortos e enterrados em valas comuns, as mulheres mais jovens separadas das mais velhas torturadas, escravizadas vendidas no mercado do tráfego de pessoas. 

As razões do Daesh são estritamente fundamentalistas e sem qualquer respeito pela diferença. 

Estas pessoas são seres humanos como nós. Têm família e sonhos, no entanto ao contrário de nós têm ambições mais simples como ter uma casa, liberdade e sorrirem, olharem em frente e esquecerem a dor e sofrimento porque passaram.

A Humanidade tem de envergonhar com o que se passou. Devemos evitar que episódios semelhantes se voltem a repetir.

Não me canso de publicitar o excelente trabalho jornalístico. A Comunidade Fumaça deu -nos a conhecer de uma forma dura uma realidade que de outra forma nos passava ao lado.

Obrigado Equipa do Fumaça.

Ouçam esta reportagem de dois episódios.

Episódio 1

Episódio 2


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

O pedido do Duarte ao Pai Natal

 O pedido do pai natal este ano do Duarte foi um carro com guincho. Ficou registado em desenho.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Um passeio matinal natalício.

O isolamento profilático chegou ao fim. Para a Cecília está a ser mas difícil do que ela desejava o regresso às rotinas e futuramente ao trabalho.
O regresso do Duarte à casa dos pais depois de ter cumprido quase duas semanas de isolamento em casa dos avós foi misturado com a alegria do Natal e o retorno às brincadeira. O Duarte consegue distinguir perfeitamente os brinquedos da casa dos avós e da casa dele. Durante o isolamento dei aos meus pais alguns brinquedos cá de casa e o  Duarte disse aos avós que não queria, pois esses brinquedos eram para brincar na casa dele.

Este fim de semana depois de um progressivo regresso ao trabalho que aconteceu apenas na quinta e sexta feira tive um tempo para sair com o Duarte e saborear novamente o prazer das brincadeiras e conversas ao ar livre nas ruas de Oliveira do Hospital.

Este sábado de manhã esteve um sol radiante depois da tormenta que foi a sexta feira onde choveu muito na região centro e até nevou cerca de 1 hora em Oliveira do Hospital. Nota-se que a chuva e o  Inverno finalmente chegaram. Gosto do Inverno, de saborear os momento à lareira na companhia da família.

Neste sábado acordámos cedo, ainda antes das 9h. O passeio deste sábado com o Duarte foi um passeio natalício. A mãe antes de sairmos por volta das 10h30 disse-nos para irmos ver os presépios e passear junto ao Largo Ribeiro do Amaral.

Após ter parado para comprar pellets, o combustíveis para alimentar e tornar mais quentes as noites frias de Dezembro o Duarte insistia que queria ir ao parque do Mandanelho. Eu disse-lhe que hoje iriamos fazer uma volta diferente mas devido à insistência da criança estacionei o carro junto do parque do Mandanelho e fomos a pé até ao Largo Ribeiro do Amaral.

Nós evitamos ir para esta zona devido à presença dos baloiços que o Duarte adora e agora infelizmente não os pode frequentar. 

Quando chegámos ao Largo Ribeiro do Amaral olhei para biblioteca municipal e lembrei-me dos tempos em que o Duarte com apenas 2 e 3 anos acabados de fazer ia à biblioteca comigo. Eu deixava-o  circular e desfrutar do espaço lúdico para crianças. O jogo que ele mais gostava era o  Gombby onde ele numa espécie de puzzle em círculo com cores observava as várias fazes do dia através de uma  personagem que ele adorava. De vez em quando pegava em livros, folheava e contava histórias à sua  maneira com base aquilo que via nas imagens. Foi dos primeiros contactos que ele teve contacto com tantos livros ao mesmo tempo e adorou. Outras das brincadeiras que nós fazíamos era com almofadas em forma de cilindro, colocávamos uns em cima dos outros e contruíamos castelos, ou então usávamos as almofadas como se fossem rodas e empurrávamo-los para onde queríamos. Por vezes quando os avós  paternos lá iam ter, aproveitávamos uma grande almofada em a forma de um crocodilo  usada para nos sentarmos no chão, sentávamos lá o Duarte e eu ou meu pai puxávamos. Ele adorava ser transportado sentado em cima da almofada, principalmente quando algum de nós puxava com mais velocidade.

Hoje decidi ir de novo à biblioteca para lhe mostrar os enfeites de Natal e reviver velhos tempos.
Quando entrámos ele dirigiu-se imediatamente para a árvore de Natal e teve um breve diálogo com a senhora da receção que passo a descrever:
Duarte: "A árvore de Natal tem presentes de verdade"
A senhora com um ar de desilusão após ver o ar expressivo da criança e disse-lhe: "não são apenas caixas sem nada lá dentro"
Senhora: "Como te chamas?"
Duarte: "Duarte Sousa"
Senhora: "Que idade tens"
Duarte" Vou fazer quatro anos em Janeiro"
Senhora" Porque viste à biblioteca"
Duarte "Venho cá ver histórias de natal"
Senhora " Toma estes livros de natal, podes ver aqui se quiseres"
O Duarte agradeceu os livros pegou neles e levou-os para a ludoteca 

Quando chegámos à ludoteca eu ainda lhe tentei ler umas histórias mas definitivamente não era altura para isso. O Duarte observou um cenário de madeira contruído para o  natal e foi-se imediatamente sentar no trono do pai natal. Após uns breves instantes contornou o cenário natalício e dirigiu-se para os bastidores, o local onde se preparam as festas de natal. Antes de irmos embora sentou-se num trenó e tocou num bonecos de natal e umas bengalas que estavam junto a um vidro. Nesta idades a curiosidade fá-los ter necessidade de tocar  e mexer nas coisas. O pai por vezes tem que chamar a atenção.

Antes de sairmos da Biblioteca perguntámos se o presépio do Largo Ribeiro do Amaral já estava pronto ao que a senhora disse que sim. Descemos uns metros e quando estávamos a chegar junto do presépio vimos que a porta lateral da igreja matriz estava aberta. O Duarte perguntou-me "podemos entrar pai". Eu respondi-lhe que teria que perguntar primeiro. 

Dirigimo-nos para a Igreja Matriz e após nos darem autorização entrámos.

Foi muito curiosa aquela visita à Igreja, pois entrámos no preciso momento em que estavam a fazer o presépio de natal.
A curiosidade do Duarte é imensa e o à vontade que ele tem para questionar e meter conversa com quem não conhece é surpreendente.

Quando chegámos junto ao presépio  que se encontrava na parte central da igreja no chão por baixo da mesa onde o padre celebra as missa. Eu relembrei-lhe as imagens do presépio que estavam ali representadas José, Maria e os  reis magos. O diálogo que se seguiu entre o nós e as pessoas que lá estavam a trabalhavam foi o seguinte:

Duarte: "Este presépio não tem tantas figuras como o do meu avós"
Eu: "Neste presépio as figuras são maiores que as dos avós e por isso estas são menos. O presépio dos avós tem músicos, lavadeiras, animais...."
Senhora" Mas olha que este presépio também tem animais, procura-os"
O Duarte e eu olhámos lá por trás de José e Maria e de facto lá estavam escondidos o burro e a vaca.
Após uns breves momentos apareceu o padre António que lhe fez mais perguntas 
Padre António " Sabes porque é que o menino jesus ainda não está nas palhinhas deitado"
O Duarte não respondeu
Padre António: " A Maria está grávida e o menino jesus só irá nascer no dia 25 de Dezembro"
Duarte: " Quem o vai ajudar a nascer"
O Senhor Padre com um sorriso no rosto pela pergunta inesperada da criança disse-lhe a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
Padre António "o José dará uma ajuda quando o menino jesus nascer"
O Padre António perguntou-lhe onde estava o Burro e a Vaca, o José e a Maria ao que o Duarte apontou para as figuras de uma forma certeira,
Passado uns minutos o Duarte disse "Pai olha uma borboleta" 
Eu não  discerni de imediato onde ele tinha visto uma borboleta.
Duarte: Ele apontou "pai ali" por cima do presépio.
Após breves minutos eu conclui que ele se estava a referir a um anjo que estava na mesa do padre por cima do presépio. 
Eu respondi-lhe que aquilo não era uma borboleta, mas sim um anjo. Achei deliciosa esta observação.
Felizmente não me perguntou o que era um anjo pois teria novamente de puxar pela imaginação para lhe dar uma resposta.



Após este breve diálogo despedimo-nos das senhoras e dos senhor padre e  fomos ver o presépio do Largo Ribeiro do Amaral que tinha quase todas as figuras do presépio da igreja à exceção  do menino jesus que naquele presépio já tinha nascido. 

Neste passeio matinal ainda fomos ao parque do mandanelho e depois fomos para casa.