sábado, 28 de março de 2020

Merkel conseguiu evitar o pior. Resta saber por quanto tempo (Artigo de Opinião de Teresa Sousa- Jornal Público)


1. Esperava-se que corresse mal. Correu pior. A única réstia de esperança é que poderia ter corrido ainda pior. Mas continua a ser legítimo dizer que não parece haver número de infectados ou de mortos, cenários catastróficos para a economia, números do desemprego a dispararem a uma velocidade raramente vista, cidades-fantasmas, angústia generalizada quanto ao futuro, que consiga levar os líderes dos 27 países da União Europeia a agirem como europeus. Foi triste a imagem que o terceiro Conselho Europeu por teleconferência deu de si próprio. E não foi por culpa de todos.
Também é legítima uma discussão sobre dívida conjunta ou sobre o montante de crédito que o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) deve conceder aos Estados-membros. Ela foi, certamente, intensa na última reunião do Eurogrupo que precedeu a cimeira e que, perante a constatação de divisões insanáveis, preferiu passar aos líderes a responsabilidade da decisão. Não é essa a questão essencial. O que é mais perigoso na situação que a Europa vive neste momento e na sua incapacidade de reagir em conjunto é que alguns dos seus líderes (ainda) não mudaram a sua forma de pensar. Pensam hoje o que pensavam antes da pandemia.
2. O primeiro-ministro português referiu quatro países que se opuseram à emissão de dívida conjunta para enfrentar a reconstrução económica e social da Europa. Depois corrigiu: três irredutíveis e um quarto que aceita o debate. Não revelou quais foram. Não lhe compete. Mas a forma como decorreu o Conselho, num clima tão tempestuoso que ia levando à ruptura, permite algumas conclusões.
Que os Países Baixos se opõem furiosamente aos eurobonds, seja qual for a forma que revistam, já sabíamos, e não houve qualquer esforço de Mark Rutte em desmenti-lo. Foram, aliás, as declarações do seu ministro das Finanças que levaram António Costa a dizer o que disse durante a conferência de imprensa final do Conselho Europeu, classificando-as de “repugnantes”. As suas palavras tornaram-se virais, provavelmente porque exprimem um sentimento partilhado em muitos países europeus. Na sexta-feira, o primeiro-ministro holandês não as quis comentar, mas sentiu-se obrigado a esclarecer que as palavras do seu ministro terão sido mal interpretadas – qualquer coisa entre “não escolheu bem as palavras” e “não o interpretaram bem”. Rutte também disse que eram “muitos” os países que pensavam como ele sobre a emissão de dívida. Hoje, sabemos que “muitos” quer dizer quatro, mesmo que haja ainda alguns líderes europeus que tenham preferido um relativo silêncio. Mesmo assim, nas últimas horas, mais três países juntaram a sua assinatura aos nove chefes de Estado e de Governo que, na véspera da cimeira, enviaram uma carta conjunta a Charles Michel, defendendo que a Europa precisa de recorrer a todos os instrumentos à sua disposição para enfrentar esta crise, incluindo a emissão de dívida. Entre eles, estão países ricos do Norte, como a Bélgica ou o Luxemburgo, mas também a França, a Itália e a Espanha, respectivamente a segunda, terceira e quarta economias do euro, ou Portugal, Irlanda e Grécia e, a partir de sexta-feira, Malta, Chipre e Lituânia.
3. O choque frontal que quase levou o Conselho Europeu à ruptura foi, como seria de prever, entre Mark Rutte e os primeiros-ministros dos dois países onde o sofrimento atingiu já as proporções de uma tragédia humana: Giuseppe Conte e Pedro Sánchez. Nem um nem outro estavam disponíveis para assinar uma Declaração conjunta cheia de palavras vazias, espelhando apenas o “menor denominador comum”, ou seja, o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) em determinadas condições e a exclusão de “coronabonds”. A ruptura acabou por ser evitada in extremis pela chanceler alemã através de uma intervenção considerada em Lisboa como “construtiva e moderada”, ainda muito longe de ceder no que diz respeito à emissão de dívida conjunta, mas capaz de evitar o pior. O argumento de Angela Merkel em relação aos “coronabonds” não é igual ao “nunca, jamais” de Rutte ou do chanceler austríaco Sebastian Kurz. O seu argumento é que não se deve prometer o que não se tem a certeza de poder cumprir. Mesmo assim, a sua intervenção permitiu aliviar a tensão e encontrar um acordo em torno do ponto 14.º da Declaração, onde nenhuma solução é mencionada para a reconstrução económica pós-pandemia, nem nenhuma é rejeitada. O Eurogrupo volta a ser mandatado para apresentar propostas concretas em duas semanas. “As propostas devem ter em conta a natureza sem precedentes do choque da covid-19, que afecta os nossos países todos”. “A nossa resposta decorrerá passo a passo, à medida que for necessária, com novas acções e de uma forma inclusiva, à luz dos desenvolvimentos e de forma a dar uma resposta abrangente.”
A Alemanha, como Merkel voltou a dizer no final da reunião, prefere o recurso ao MEE. Mas uma das razões pelas quais a Itália, entre outros países, se opõe a este mecanismo de resgate europeu (240 mil milhões dos 410 de que dispõe, que correspondem ao limite máximo de 2 por cento do PIB de cada país), está nas condicionalidades que impõe para a concessão de empréstimos – vistas como uma espécie de “programas de ajustamento” aplicados pela troika durante a crise das dívidas soberanas, com a mesma natureza estigmatizante. Nenhum país, de Portugal a Itália, quer voltar ao tempo da resposta à crise financeira de 2008, com as suas hesitações, as suas decisões no último minuto, as suas “estratégias de punição”, a sua execução em tempo recorde, impedindo as economias de respirar e saldando-se em custos sociais elevados. Sexta-feira, António Costa voltou a insistir nesta comparação.

Também esta sexta-feira, o Financial Times resumia bem a discussão que envolveu os lideres europeus. “Praticamente todos os países sairão desta crise com as suas dívidas inflacionadas e um défice mais pesado. Perante um pano de fundo desta natureza, discutir quem sairá com finanças ligeiramente mais saudáveis seria como vangloriar-se de ter a cara mais limpa depois de um combate na lama.”

4. O Presidente francês e o primeiro-ministro português insistiram no risco de vida que a Europa corre. Não estarão a exagerar. Se esta é a maior crise que os europeus enfrentam depois da II Guerra – como diz Merkel -, se esta é uma “guerra” contra um inimigo comum que não escolha quem ataca, como voltou a dizer esta sexta-feira António Costa, então a resposta só pode ter uma dimensão equivalente. Também esta sexta-feira, o Presidente do Parlamento Europeu, o italiano David Sassoli, manifestando a sua desilusão perante os fracos resultados do Conselho Europeu, lembrou que “ninguém conseguirá escapar a esta emergência sozinho”. “A Europa que vai emergir desta crise não será a mesma. Mas há quem ainda não tenha compreendido isso.”

Artigo de opinião escrito por Teresa Sousa 
Jornal Público 28 de Março

quarta-feira, 25 de março de 2020

Memórias e desabafos em tempo de quarentena

Lembro-me perfeitamente de Janeiro de 2018, o meu reingresso no ensino. O recomeço foi muito duro e a vontade de desistir por diversas vezes assolou a minha cabeça. O nervosismo era imenso e a vontade de falhar maior ainda. Foi com alegria que no final do ano letivo 2017/18 me despedi da Escola Secundária do Fundão com a sensação de dever cumprido e ter ultrapassado este primeiro obstáculo sem distinção mas com dignidade e muito trabalho.

No ano letivo 2018/19 estive nas escolas de Manteigas e Pampilhosa da Serra.  Retomei o ensino do terceiro ciclo e a necessidade de me adaptar a realidades muito distintas. Ambas as escolas têm muito poucos alunos e foi o meu primeiro contacto com uma escola TEIP, Pampilhosa da Serra. Senti que este foi um ano der transição de preparação, no fundo de acreditar que era possível e capaz de abraçar esta profissão. Foi o ano que comecei a organizar na minha cabeça como tornar as coisas mais fáceis e aprender com os erros e consegui aos poucos construir a minha metodologia de trabalho.

Este ano letivo está a ser sem dúvida o maior desafio da minha vida profissional. Aceitei-o com algum medo mas com uma grande determinação que ia conseguir, fui colocado em Tabuaço e Pampilhosa da Serra com horário completo anual. Foi uma loucura para tanta gente mas um desafio de constante auto-superação para mim. Uma vez que entro sempre às 9 horas há segunda feira fico em Tabuaço, dia esse que aproveito para descansar mais um pouco e recuperar baterias para os restantes dias da semana, pois em todos os outros vou e venho para Oliveira do Hospital.  Considero o dia que fico em Tabuaço o meu dia livre. Neste ano letivo muito difícil estou a lecionar  3º ciclo, 12º ano e Economia a um Curso Profissional de Restauração e Bar. Tenho conseguido ultrapassar tudo com muito trabalho em casa, apoio da minha esposa, pais e sogros. Neste período aprendi a simplificar processos a improvisar.Foram tantas as vezes que sem a aula devidamente planeada tive que contornar a situação em contexto sala de aula e mesmo saindo da escola tantas vezes triste comigo, ter a noção que amanhã tudo irá ser melhor. O pensamento positivo e o olhar em frente acreditando nas minhas potencialidades foi sem dúvida a minha maior conquista.

O segundo período estava quase a acabar quando surgiu esta triste notícia do corona virus que nos obrigou a estar em casa e a ter de lidar com rotinas tão diferentes. Sinto saudades de dar aulas presenciais e da adrenalina de ter de ultrapassar os obstáculo diariamente. Já tinha tudo muito bem definido na minha cabeça e as coisas estavam a correr bem.
A adaptação a estas novas rotinas têm sido muito difícil para mim. Sinto vontade de sair de enfrentar a vida lá fora mas não posso, sinto que perdi liberdade e é tão duro. Readaptar-me a outros método de ensino tem sido tão difícil, ainda mais quando olho e leio mails e vejo que outros o fazem com tamanha facilidade. Sinto que é o começar do zero e o nervosismo do Fundão está a voltar, a necessidade de me adaptar a uma situação nova,  com novas  metodologias e com novas formas de lidar com o tempo.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Soeiro Pereira Gomes: um escritor esquecido?


Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô (concelho de Baião, Porto), no dia 14 de Abril de 1909, e faleceu no dia 5 de Dezembro de 1949, com apenas 40 anos. Se fosse vivo, completaria 111 anos. O seu exemplo de luta cívica e a sua obra bem mereciam outro destaque, daí este breve artigo.
Quando morreu, Soeiro vivia na clandestinidade há cerca de 5 anos, pois, enquanto membro do Partido Comunista, fora um dos dirigentes locais, em Alhandra (Vila Franca de Xira), da greve de 8 de Maio de 1944. Sublinhe-se que Soeiro era, desde 1932, empregado de escritório na Fábrica de Cimentos Tejo, em Alhandra.
Ao longo da sua curta vida, colaborou com o jornal O Diabo, publicou, entre outros, Esteiros (1941) e, já a título póstumo, Refúgio Perdido (1950) e o romance inacabado Engrenagem (1951). Além disso, profundamente comprometido com a transformação da realidade social, desempenhou também um papel importante ao nível da comunidade local, ajudando a construir uma piscina para que as crianças e os jovens aprendessem a nadar sem enfrentarem os perigos dos esteiros do Tejo, desenvolvendo actividades de cariz cultural ou dando lições de ginástica aos filhos dos operários.
Quem hoje fala em Soeiro Pereira Gomes recorda-se, sobretudo, da obra Esteiros, dada à estampa durante a II Guerra Mundial, quando o autor tinha 32 anos. O livro — um dos marcos do Neo-Realismo português — contou com uma capa e ilustrações de Álvaro Cunhal e foi dedicado aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”.
O enredo do romance gira em torno de 5 crianças (Maquineta, Gaitinhas, Guedelhas, Gineto e Sagui), que são obrigadas pelas duras circunstâncias da vida a tornarem-se adultos antes do tempo, ingressando no árduo mundo do trabalho e da exploração capitalista, para conseguirem, graças ao parco rendimento auferido, ajudar as famílias a pagar a sobrevivência. Por exemplo, no forno, onde se fazia o tijolo, “Gaitinhas deu o ombro à carga, mas deixou-a cair, derreado, pela violência do calor que lhe trespassou a camisa e queimou os ombros e orelhas. Um empurrão do mestre fez-lhe brotar lágrimas de raiva”.
Este é também, como escreveu Isabel Pires de Lima, em jeito de introdução à 5.ª edição do livro (1979), um “grito de denúncia”, que alerta para as profundas clivagens entre os explorados e os exploradores, a miséria social, a fome. Eis-nos perante um conjunto de crianças que, impedidas de frequentar a escola, acabam por ter de mendigar e roubar, por vezes até mesmo outros miseráveis como elas.
Muitas pessoas, sobretudo aquelas que nasceram no Estado Novo salazarista, recordar-se-ão das circunstâncias descritas por Soeiro Pereira Gomes no romance Esteiros. Lembrar-se-ão dos seus próprios percursos ao relerem os relatos pungentes daquelas crianças e das suas famílias exploradas pelos patrões capitalistas; reconhecer-
-se-ão no sofrimento que ainda os atravessa por terem sido incapazes de ultrapassar a dureza das suas circunstâncias. O espelho intemporal criado pelo talento literário de Soeiro ajudará muitos a compreenderem ainda melhor aquilo que a vida lhes roubou — quantos não desejariam ter estudado, concluído um curso superior e não o fizeram porque foram forçados a abandonar a escola para ir trabalhar? Deixo somente um exemplo, entre muitos outros igualmente significativos. Gaitinhas (cujo verdadeiro nome era João) vivia com a mãe, Madalena, que estava muito doente com tuberculose (acabaria, de resto, por falecer). Madalena, devido às dificuldades financeiras, teve de convencer Gaitinhas a sair da escola e, por isso, foi pedir ajuda ao sr. Castro para empregar o filho na Fábrica Grande. Durante a conversa, porém, Madalena deixou escapar a mágoa de ver o seu menino abandonar os estudos (o Mestre-Escola previra que ele tinha muitas capacidades e podia ir longe. Já o pai de Gaitinhas, que andava algures pelo mundo, queria mesmo que ele fosse um médico que ajudasse os mais pobres…). Eis a resposta do ricaço à malograda mãe: “Que mal tem isso? […] Evidentemente que vossemecê não queria fazer dele um doutor”. Afinal, isso estava reservado para o seu filho Arturinho e para os restantes filhos dos capitalistas, pois os pobres estavam — na lógica da sua época — condenados a perpetuar a herança da miséria e do analfabetismo.
A luta destas crianças e das suas famílias pela sobrevivência representa o trágico percurso de tantas gerações portuguesas, às quais a realidade roubou os sonhos: como no caso de Maquineta, que tanto desejara ir trabalhar para as máquinas na Fábrica Grande e acabou por ter de carregar carvão no cais. Ou das trágicas consequências das cheias no rio Tejo, durante o Inverno: “O caudal barrento do rio arrastava fardos de palha, animais e lágrimas. E o homem daqueles sítios, alheio às conversas, nada mais via do que luto à sua frente”.
Mas as páginas de Esteiros também reflectem a gradual tomada de consciência cívica e política das suas personagens: “Madalena cerrou os lábios. Bem sabia ela que o destino era a vontade dos homens”. Ou ainda: “Maquineta bateu com força na nuca, e asseverou, como se discutisse com o próprio mestre: — Aqui é que ninguém põe a canga, nem que me matem”.
Claro que este perigo não poderia passar despercebido à censura do Estado Novo, que, em 1966, ou seja, 25 anos após a edição do livro, afirmava num dos seus relatórios:
“É um romance regionalista de análise crítica da vida miserável das populações ribeirinhas do rio Tejo, nas zonas das Lezírias, fazendo realçar a injustiça, a exploração da miséria, resultado das desigualdades sociais, no que o livro não é justo, mas antes especula.
[…] Julgo por isso que este livro deveria ter sido proibido quando apareceu, mas agora dever ser ignorado”.
O leitor Francisco C. Salgado (censor especializado na análise das obras literárias) pesava, portanto, os efeitos contraproducentes de uma eventual proibição da obra (fruto proibido é o mais apetecido), mas encerrava, considerando que deveriam ser impedidas as referências ao livro nos meios de comunicação social, condenando-o assim, na prática, à não-existência.
O final dos Esteiros representa uma inequívoca mensagem de esperança, ou não tivesse este livro sido publicado em 1941, quando decorria a II Guerra Mundial e nascia, gradualmente, entre as oposições portuguesas, a esperança de que a vitória dos Aliados traria consigo o fim do regime salazarista. Este esforço de procurar colocar o texto no seu contexto, segundo penso, revela-se fundamental para compreender esta obra e em particular o seu desenlace.
Eis o final do romance, com sabor a futuro de mudança: Gineto, preso na cela (depois de ter sido apanhado a roubar carvão), pensou ouvir Gaitinhas, que todavia já partira com Sagui para percorrer o mundo, em busca do pai. O pano encerra com o sonho de Gineto: quando os amigos regressarem, virão libertá-lo e “mandar para a escola aquela malta dos telhais — moços que parecem homens e nunca foram meninos”. A escola — sublinhe-se — surge aqui como um instrumento de libertação individual e social. E o sonho fica em aberto. Até hoje...
Soeiro Pereira Gomes passou à clandestinidade em 1944. Nessa sequência, a sua esposa, Manuela Câncio Reis, foi presa pela PIDE, mas nem isso levou o escritor a entregar-se. Em 1947, na sequência de uma queda de bicicleta (pensaria que estava a ser perseguido pela PIDE), foi-lhe diagnosticado um cancro nos pulmões, que acabaria mesmo por matá-lo dois anos depois. Hoje, as suas obras não fazem parte do Plano Nacional de Leitura e dificilmente se consegue adquiri-las numa livraria. A RTP, porém, dedicou-lhe, numa das suas emissões pedagógicas, um breve programa particularmente interessante, que recomendo vivamente a todos os leitores (https://ensina.rtp.pt/artigo/esteiros-de-soeiro-pereira-gomes/).
Numa época em que todos vivemos um drama mundial, com impactos imprevisíveis, é altura de aproveitar o nosso isolamento para regressar aos grandes clássicos da literatura. Soeiro Pereira Gomes figura, por direito próprio, no patamar dos grandes escritores e merece, por conseguinte, que as escolas o estudem e os portugueses o leiam.
Esteiros, esses braços (canais) do rio Tejo, “como dedos de mão espalmada”, ajudam-nos também a não esquecer que o destino dos Homens é construído diariamente por cada um de nós. E que é, sobretudo, pelos mais desfavorecidos que vale a pena lutar. Uma mensagem cada vez mais útil e que importa repetir à exaustão. Também por isso, a reedição das obras de Soeiro Pereira Gomes é, segundo penso, uma necessidade premente...
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com) 

segunda-feira, 16 de março de 2020

Uma semana que me irá ficar para sempre na memória.


O planeta está doente e pela primeira vez na minha vida sinto pânico generalizado.

Nas escolas na passada semana vivi uma situação de crescente alarmismo à medida que os casos foram aumentando e as conversas entre professores, nos corredores, na sala de professores ou no restaurante onde por norma vamos simplesmente para desligar do trabalho. Manter a sanidade mental, focar-mo-nos no essencial, transmitir tranquilidade aos alunos foi essa a tarefa que nos moveu.

Ensinar conteúdos da nossa disciplina foi uma tarefa que passou para mim para plano secundário. No meu caso acabei para fazer exercícios para consolidação dos conteúdos até porque esta semana coincidiu com uma semana de testes ou de revisões para os mesmos.

Nesta semana não foi fácil passar aos alunos a mensagem da verdadeira gravidade da situação, uma vez que para eles a suspensão das aulas é um sinal positivo não levando a peito todas as indicações de professores, auxiliares. Eu leciono essencialmente ao 3ºciclo a realidades sociais e económicas muito difíceis, onde os pais na maior parte dos casos não têm capacidade para os conter em casa e para lhe explicar o estado de emergência que vivemos. Tudo isso me assusta imenso e me deixa muito preocupado.

Recordo-me de um episódio que vivi na passada sexta feira  e me ficará para sempre na memória. Na última aula do dia quando a funcionária foi à sala e me deu um comunicado para ler, senti a minha voz tremula e insegura, e admito que foi a mensagem que mais me custou ler  aos meus alunos. Após a leitura da mensagem de encerramento antecipado das aulas senti um burburinho generalizado e eu ainda com a máscara de professor lembro -me que pousei de uma forma mais brusca o relógio sobre a minha secretária e gerou um silêncio geral na sala e reafirmei novamente o estado de emergência que todos vivemos e que o papel deles será muito importante, para a contenção do vírus. Terminei a aula com a auto-avaliação dizendo que as aulas presenciais poderiam neste ano lectivo  ter terminado naquele dia ao que me apercebi que alguns alunos expressaram um "Ooooh" em sinal de admiração. O futuro será incerto e para o bem da humanidade tenho de acreditar na ciência e como professor e cidadão tudo farei o que estiver ao meu alcance para ajudar. Após o final da aula senti um vazio. A partir de agora vão-me faltar as rotinas que eu me habituei a gostar.

Passado o fim de semana e começou o período de quarentena. Ao longo da vida aprendi a ser otimista e a enfrentar os problemas que sobre mim se debruçam. Nesta fase tento ver tudo o que de positivo está à minha volta para sorrir, ter esperança e dá-la à minha família mais próxima. Observar que Macau já não há casos há largos dias ou que na China a tendência é de recuperação. O povo português é um povo solidário que não vira a cara à luta mas agora mais do que nunca temos de o ser verdadeiramente e contribuir para que juntos possamos ultrapassar esta pandemia que nos encontramos.
Para mim a escrita vai ser uma rotina que me fará ultrapassar os dias em casa. Como professor estarei disponível para dar aos meus alunos as ferramentas e conteúdos para trabalharem e nãos se esquecerem da importância da escola.


sábado, 7 de março de 2020

Memórias de 2020 que me fizeram recordar 2016


Para se conseguir aguentar as agruras da vida sempre com um sorriso tem de se ter amor por aquilo que se faz, de outra forma trabalhar passa a ser um sacrifício e não um prazer o que é muito doloroso. Já passei pelos dois estados e é muito interessante perceber que mesmo com as opções menos felizes que tomamos aprendemos tanto.

Eu em 2016 tinha muitas dúvidas sobre o caminho a seguir, conhecer aquilo que de facto me faz feliz e realizado. Apercebi-me que esse ano foi o ano de viragem da minha vida sem dúvida. No Verão de 2016 estava desempregado e ligou-me uma amiga a perguntar-me se eu estava disponível para ser carteiro no giro da Vide(Seia), posso dizer hoje que é o mais difícil que havia naquele concelho. Assenti  ao convite no desespero de conseguir uma ocupação. Tive até ao mês de Julho à experiência e a partir de agosto entrei num empresa externa que trabalhava para os correios, pois aos CTT não compensava fazer aquele giro. Com a regressão do número de pessoas e de correspondência o número de carteiros decresceu naquela zona de 4 para 1. Para mim que estava a dar os primeiros passos foi uma entrada demolidora.



Lembro-me perfeitamente do clima frio que existia naquele Centro de Distribuição Postal (CDP) e da forma sobranceira que o chefe olhava para os seus empregados.
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Vou dar dois exemplos para explicar a forma fria com que trabalhava no CDP de Seia em 2016
O primeiro exemplo foi no dia 10 de Julho, dia em que Portugal conquistou o Euro 2016. Nesse dia tal como todos os outros apresentei-me ao trabalho às 7:30 fiz o cumprimento normal e não ouvi naqueles 45 minutos que passei a organizar as coisas para ir para a rua um único comentário à grande e inédita vitória de Portugal. Observei rostos fechados e um enorme peso na realização daquele trabalho.
O segundo exemplo,  foi um acidente que tive em trabalho quando me deslocava com o carro para fazer o meu serviço e embati frontalmente com o outro carro. Foi a primeira vez e espero que a única que tive um acidente deste género. Neste segundo exemplo, o embate foi duro apesar de ter tido a sorte de não ter ficado com sequelas físicas. Lembro-me que fui ao hospital e tive alta cerca de um par de horas depois e o meu chefe veio ter comigo e disse-me para ir trabalhar de tarde no meu carro e eu assenti. Durante a realização do giro alguns populares perguntaram-me se estava bem mas foi muito triste saber que havia um conhecimento geral sobre o que tinha acontecido e na Vide, os CTT que eu tinha que ir todos os dias, não haver uma palavra de conforto naquele dia particularmente difícil para mim.

Naqueles meses que estive a trabalhar para os CTT ultrapassei todas as adversidades com afinco, apesar de sentir que o meu trabalho não era minimamente reconhecido. Senti que a satisfação e gosto por aquilo que se fazia não contava para aquela gente que liderava os CTT de Seia, o que lhes interessava era que o trabalho aparecesse feito. A cada dia que passava senti um avolumar de queixas dos CTT e dos populares sobre o meu trabalho.

Eu apesar de todos os problemas que me deparei senti a enorme importância do carteiro para aquelas pessoas que vivem no extremo isolamento. Lembro-me que além de pagar reformas fazia inúmeros outros serviços como pagar água, luz, gás, Tv cabo, levantava receitas de farmácia etc.
Lembro-me que passei um verão tórrido e  sozinho calcorreava quilómetros de estrada em mau estado, muitas vezes terra batida. Não me cansei de dizer tudo o que me ia na alma e lembro-me perfeitamente de um dos representantes da junta da Vide me dizer que iria levar a discussão toda aquela problemática que o carteiro passava diariamente. Era de facto preciso fazer alguma coisa. Sinceramente penso que nada foi feito e que continua tudo na mesma com cada vez menos gente e cada vez mais abandonada. Deixei a profissão de carteiro no final de novembro após ter sido demitido.

Passados todos este anos, hoje decidi enveredar pelo profissão de professor e estou a leccionar na Pampilhosa da Serra, onde  muitas vezes passo junto das placas que nos indicam a direção a  seguir para  localidades onde trabalhei em 2016 e esboço um sorriso não sei se de satisfação se de desanimo por quem tem o azar de não poder sair daqueles lugares.

Esta semana um colega meu que faz o mesmo percurso para ir trabalhar como professor na escola da Pampilhosa da Serra despistou-se. Felizmente correu tudo bem e penso eu que não teve sequelas físicas preocupantes . Atualmente está uns dias em casa  a recuperar do choque que foi aquele acontecimento. No final desta semana quando falava com ele ao telefone lembrei-me imediatamente do tempo em que trabalhava nos CTT e que fui trabalhar no próprio dia em que  tive o acidente. Nós mais que ninguém temos que pensar em nós e se fosse hoje rejeitava ir trabalhar naquele dia e provavelmente nos restantes. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Pedra após Pedra - A Palavra Diário I (2012-13)- Fernando Alva (III- Humildade e Sensibilidade)


Nas conversas que temos na troca de boleia para a escola falamos de diversas coisas. Em certo dia, referi ao meu colega que caso surgisse repentinamente uma Guerra não estaria preparado para mudar e seria facilmente morto pelas mudanças que estariam a acontecer na sociedade. Eu sinto-me indefeso perante atrocidades que possam surgir num futuro próximo. O meu colega retorquiu dizendo que o ser humano é muito resistente e caso isso acontecesse se adaptaria e tudo faria para enfrentar com dignidade as dificuldades da vida. O assunto ficou por ali, pois nem eu nem ele voltámos a tocar no assunto.

O que vai na cabeça do outro é de facto um grande mistério. Em textos anteriores sobre o livro Pedra Após Pedra- A palavra- Diário I (2012-13) já dei a entender a importância de sermos humildes e sensíveis perante quem está ao nosso lado. Nesta apresentação pretendo expor a importância de nos conhecermos a nós próprios de acordo com o autor Fernando Alva.


Cito p. 33
“Essências
Humildade:
O bornal da viagem;
A simplicidade
De quem sabe
Que não cabe
Dentro das margens,
Muito menos
O estreito pensamento
Que os humanos
Usam como sustento. 

Resta-nos tentar
Restituir cada letra
À forma mais simples
E ficar à espera
De outros toques
Dessa luz
Que nos conduz
Pela escuridão,
Até ao chão." 

É tão importante conhecermos os nossos limites e as nossas fronteiras e a sociedade que habitamos. Nós somos todos tão diferentes. Fernando Alva cita uma passagem muito interessante sobre a diversidade humana na página 41 " Cada Homem é um mundo inteiro e sempre que se encontram dois Homens são também dois mundos diferente que se tocam. Tão diferentes que poucos se compreendem ao ponto de conseguirem reconhecer-se ao espelho.

Apenas uma grande sensibilidade nos poderá, ainda, ajudar a perceber que cada vida transporta em si mesmo o gérmen da sua própria verdade. Nem melhor nem pior .Apenas diferente, de gente para gente. A face visível da nossa potencial eternidade.

Crueldade, bondade humildade tudo nos pertence. Tudo nos articula e anula. Tudo isto, afinal, nos ajuda a compreender o pouco ou nada que podemos, de facto valer.

Humano, demasiado humano- diria Nietzsche..."

Na nossa (minha e do Fernando Alva) profissão de professor lidamos frequentemente com pessoas tão diferentes e por vezes é tão difícil tomarmos as melhores decisões. Eu penso que devemos seguir as nossas convicções mesmo correndo o risco de errar. Fernando Alva refere na página 60 do seu diário a seguinte afirmação muito interessante sobre o reconhecimento e a tomadas de decisões na profissão docente. Cito p.60 "Na escola todos os dias salvamos ou condenamos alguém. Só muito tarde é que infelizmente, o compreendemos. Quase sempre tarde demasiado tarde, para ele e para nós"

Cito p. 61
"Naturezas Construídas
Cada ser humano
É um mundo de vulcões 
Com fugazes explosões 
De profundo desengano." 


Nas escolas do século XXI sentimos que a diferença de modos de vida é cada vez mais latente. A escola tem um papel menos reconhecido, mas cada vez mais importante na sociedade. A escola é  a salvação de largas centenas de crianças que não têm um lar que lhes dê carinho, que naufragam por pela ausência de um ser paternalista que lhes ajude a seguir o melhor caminho. Ninguém pede para nascer.

Cito p. 61
"Anjo da Guarda
Meninos e meninas
Sem defesas do lar
São tenras presas
Condenadas a naufragar.
Mas há sempre alguém
Enviado de mais além
Pronto a fazer sorrir
O que o desconhecimento
Do estudo pelo apontamento
Não pode sentir."

Cada vez que lidamos com o outro devemos ter muito cuidado na forma como o interpelamos sobre certos assuntos que lhe podem ser sensíveis, no entanto tal como Fernando Alva gostava de salientar a importância da troca de experiências no nosso crescimento como seres humanos.

Cito p. 68
Vozes
"Cada língua que falamos
É uma porta aberta
Para outros mundos
Rumo a parte incerta.
No final somos outros,
Apenas mais completos."

A Educação é essência da nossa personalidade e fundamental para nos tornarmos seres humanos mais equilibrados mesmo que por vezes não tenhamos tido a sorte de ter nascido numa família que nos acolhesse  como todos mereciam.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

O prazer de Ensinar


É inevitável deixar de pensar no quão resistente é o ser humano. Por vezes até eu próprio me admiro com a minha capacidade de resistir a tamanhas adversidades. Nestas duas últimas semanas onde as idas ao médico foram constantes e o Duarte insistiu em tornar as nossas noites ainda mais curtas e difíceis, o que deu azo  à necessidade de improvisar estratégias num curto período de tempo, de modo a conseguir aguentar as aulas, quilómetros e muitas reuniões.

A experiência deu-me sem dúvida a capacidade de tornar o difícil mais fácil e conseguir mesmo cansado e doente conseguir cumprir os meus objetivos.

Uma das coisas que mais me doeu ouvir numa reunião intercalar foi um encarregado de educação dizer que os alunos não gostam de Geografia. A minha resposta a esta mãe foi a seguinte: “quem não tenta e se esforça nunca vai saber se realmente gosta de alguma coisa, porque não tentou.”.

Em Geografia no nono ano estou a lecionar uma matéria que até gosto particularmente, os contrastes de desenvolvimento, no entanto está a ser tremendamente difícil arranjar estratégias para cativar os alunos.  Quando estava a preparar aula desta quarta feira sobre Soluções para atenuar os contrastes ao desenvolvimento lembrei-me que quando mostrei a série “Príncipes do Nada na RTP 1” consegui que os alunos estivessem atentos e concentrados a ouvir a Catarina Furtado. Partindo da experiência positiva dessa aula fui à Escola virtual e estudei   um vídeo  sobre a ONU. A minha estratégia consistiu em passar o vídeo, para-lo consecutivamente e fazer questões sobre os principais objetivos da ONU e os países onde esta intervém, transcrevendo tudo no quadro à medida que o vídeo passava.  Foi extremamente desgastante, pois tinha de os colocar sempre a participar a e a intervir na aula mas consegui que os meus objetivos fossem concretizados e que foi  tão bom. Na segunda parte da aula falei dos Objetivos do Milénio e optei por  adotar a mesma estratégia  com outro vídeo da Escola Virtual. Para terminar a aula salientei que os objetivos do Milénio já não estavam em vigor desde 2015 e a ONU tem  atuamente nova metas que são os Objetivos de desenvolvimento sustentável que terminam em 2030.

Ser professor é uma tarefa cada vez mais difícil e exigente, mas o gosto por aquilo que faço faz-me todos os os dias tentar melhorar e aprender mais e melhor com colega, funcionários, alunos, pais etc.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Pedra após Pedra - A Palavra Diário I (2012-13)- Fernando Alva (II-A Família)

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Não é fácil  viver neste mundo, onde temos que lidar com pessoas tão diferentes. Quantas vezes já  ficamos perplexos com aquilo que vimos e ouvimos de alguém. Fernando Alva relata uma história por si vivida no aeroporto da ilha Terceira  nos Açores que retrata a leviandade com que certas pessoas lidam com a vida e com assuntos tão perigosos como o mundo do crime. Cito (p.17) “Abeirou-se de mim, pediu-me informação a respeito da porta de embarque e ,sem mais nem menos confessou-me que era recluso num sistema prisional do continente. Aproveitando a precária, veio passar a semana anterior ao natal junto da família: a mulher e uma menina de três anos.
Logo de rajada como se percebesse o espanto que escorria da minha face, segredou-me que durante anos fora correio de droga. Há dois anos porém, as coisas correram mal e quase matara dois homens. -foi apenas uma questão de sorte as balas não terem acertado nos alvos. -assegurou-me. E eu lá fui balbuciando o que pude. Aliás perante aquela confissão, o que poderia eu dizer que fosse significativo”

No seguimento desta história relatada no primeiro parágrafo vou contar uma história que se passou comigo numa das muitas escolas por onde eu já passei. Eu estava na sala do castigo onde iam os alunos que eram expulsos da sala. Certo dia entra-me na sala  um aluno de forma esbaforida e vociferou algo que eu já não me recordo ao certo o que foi. Mandei-o sentar e acalmar-se e ele disse-me com uma naturalidade que se fosse preciso metia os carros sobre quatro tijolos e nem pensem em meter-se comigo que eu o desfaço-o sem piedade. Fiquei perplexo com a facilidade com que aquela criança de 15 anos falava com aquela revolta sobre a vida e desrespeito com o outro. A forma que eu encontrei para dar a volta à situação foi tocar-lhe na ferida e falar-lhe na família e o que esta achava de ele pensar daquela maneira. O aluno respondeu-me que não queria saber do pai e que apenas tinha algum respeito à mãe  Perguntei-lhe  se ele queria continuar a seguir o caminho da violência em detrimento de poder ter uma profissão e uma vida digna. Aos poucos falei-lhe dos irmãos mais novos que o deveriam ter como referência positiva e não negativa e aos poucos foi retirando a máscara e senti as lágrimas caírem-lhe do rosto. Ser professor de uma criança desta não é fácil, felizmente só tive que conviver com ele na sala do castigo.

Voltando ao livro e a Fernando Alva. Várias vezes no seu livro ele faz referência à importância da família, para si no seu crescimento enquanto ser humano e a sua importância para superar os diversos obstáculos que a vida lhe coloca. Ir a casa no período de férias é uma terapia que Fernando Alva não dispensava.. Após um período de férias Natalícias escreve um excerto um muito interessante. Cito (p 18) “De regresso à ilha Terceira, com os pés ainda presos às raízes nativas. O que trago de mais significativo? Os diálogos com os meus pais, à  volta da mesa, junto à magia da salamandra, num dos recantos da sala onde esteve um dia amortalhada a minha avó materna. (…) O diálogo com uma senhora de 85 anos, na Bobadela em Oliveira do Hospital. Mas…. acima de tudo, o regresso da família, o sorriso escondido dos meus pais e a tranquilidade da minha terra de sempre que trago camuflada nas profundezas da minha alma (…).
Num excerto mais à frente o autor aborda a chegada à ilha após as férias da Páscoa, onde este se refere mais a importância do período da pausa escolar.
Cito (p. 38) “ Primeiro dia de aulas do terceiro período. Regresso à selva, depois de quase duas semanas na segurança que só a casa materna me pode dar. Existem determinados ambientes onde nos tornamos imunes a quase tudo, até mesmo à vontade de trabalhar! Que santuário….”
Cito (p. 37)
Pirâmide invertida
O chão em que nascemos
Dita onde chegamos.
Poucos são
Os que escapam
À terrível condição
Onde se enraízam.
Afinal, quase tudo se resume
A laços”

Conhecermo-nos a nós próprios é fundamental para crescemos de forma segura. A família deve ser o elo de ligação ao passado e a nossa segurança para nos desenvolvermos enquanto cidadãos no futuro.

Cito (p.39)
“Cicatrizes
As memórias que herdamos,
Onde também nos agarramos
(Quem disse que o mar não tem cabelos?).
Que o os pais deixam os filhos.
Memórias, imagens que vagueiam
Na fossa mais profunda
E iluminam,
Em cada esquina da vida.

Mal sabemos
O que escondemos
Para lá da gestação
De multidão
Onde nos escondemos
E procuramos.
Ah, tanto devemos
E mal-agradecemos…
Quanto perdemos as estrelas
Todas as luzes se apagam.
Depois, apenas permanecem memórias
Cada vez mais fragmentárias."

Cito p. 66
"Apagadores
Sempre que tentamos silenciar
O passado
Acabamos por silenciar
O futuro do nosso lado"

Ter uma família e um passado seguro é algo que infelizmente muitas crianças e adultos não têm, daí há uma pequena explicação para muitos dos seus atos.
Como já indiquei na primeira parte do meu texto informativo sobre esta obra, Fernando Alva é professor de Educação Especial e fala disso de uma forma positiva salientando a importância para a sua formação enquanto pessoa.Cito p. 44" Saltitar de disciplina em disciplina, de matéria em matéria em matéria, a procurar apoiar alunos com graves dificuldades de aprendizagem nos mais variados domínios tem-me ajudado bastante a identificar as principais causas que motivam as elevadas taxas de insucesso académico das nossas crianças e jovens. Todos os candidatos a políticos deveriam ter a humildade de passar pelas salas de aula, antes de abrirem a boca para dizer o que quer que fosse a respeito da educação.Aí sim compreenderiam melhor o extraordinário e ingrato trabalho desenvolvido pela maioria dos professores portugueses."

A família é de facto algo essencial para uma criança crescer saudável quer física e mentalmente. Vou redigir um poema escrito por Fernando Alva onde ele refere um menino que infelizmente não teve a sorte de ter um seio familiar.

Cito p. 26
"Aparências
Menino de  unhas sujas
Sem ninho
De carinho onde possas adormecer
Depois de ler
O brilho de imaginar
O sabor do lar.
Olha-me por dentro
Neste último encontro
E liberta o sorriso
Gostoso
Que um dia nasceu
Quando o meu vazio
De silêncio
Te conheceu.
O resto já não interessa,
Mas ele permanecerá.
Até sempre, meu menino"

Para concluir esta exposição sobre a família vou narrar uma história descrita pelo autor onde este expressa o contacto e o diálogo que manteve com crianças na ilha Terceira.
Cito p. 78 e 79 "Um dos meninos que o destino parece amaldiçoado segredou-me que gostava de ir à Igreja , depois da escola. Perguntei-lhe se rezava. Respondeu-me que não, que nem sequer pensava. E eu voltei à carga:
- Então...e depois?
- Depois sinto uma mão na cabeça.
Vim para casa a pensar que um menino de 11 anos nunca deveria conhecer o sabor do abandono .

Outro jovem, com cerca de 13 anos, ouviu-me declamar, com inenarrável  entusiasmo, O menino de sua mãe, de Fernando Pessoa. Depois fomos explorando estrofe a estrofe, num crescendo dramático de dúvidas e inquietação. Quase no fim perguntou-me:
- A mãe queria que o menino voltasse?
- Pois queria.
Avançamos na leitura e na última estrofe:
- Mas o menino já era grande?
- Para as mães, os filhos são sempre pequeninos- silêncio
- Mas o menino nunca voltou, pois não?
- Pois não.
E eu vi, vi uma lágrima cair-lhe lentamente do rosto. Os relatórios dizem tratar-se de um menino com Perturbação do Expectro do Autismo. E sinceramente, neste momento, isto pouco ou nada interessa.

Poesia, que poderosa chave para abrir corações. Até mesmo daqueles de quem tantas vezes estupidamente se diz que não têm emoções e são frios como pedras."

E com esta história termino o tema família ou a falta dela, tão bem narrado neste livro.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Pedra após Pedra - A Palavra Diário I (2012-13)- Fernando Alva (I- Educação Especial)


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No final de Fevereiro ou inicio de Março irei fazer a apresentação do 2º livro do diário Pedra após pedra do  meu grande amigo Renato Nunes ou Fernando Alva como ele se intitulou neste diário transcrito nos Açores.

Fernando Alva, apesar de nascido em França, foi muito novo para Vila Franca da Beira (Oliveira do Hospital), considerando a Beira alta a suas raízes.  O heterónimo é a sua homenagem ao rio alva, um rio que vai desaguar num dos principais rios genuinamente portugueses, o rio mondego e a diversos Fernandos que o marcaram o autor ao longo da sua ainda curta vida. Fernando Valle ,um histórico fundador do partido socialista, Fernando Pessoa, o poeta português que ficará para a eternidade e o jovem Fernando Eugénio abruptamente ceifado pela morte aos 13 anos.

Fernando Alva é professor de História que enveredou pelo Educação Especial como forma de ingressar numa carreira e profissão muito exigente mas que o preenche, alimenta e ajuda-o e enriquecer a sua memória. O primeiro volume do diário que já está disponível intitula-se  de “Pedra após pedra”, recua aos anos 2012 e 13, onde o autor esteve  a lecionar nos Açores, mais concretamente na ilha Terceira.
Fernando Alva intitula-se poeta da solidão e do silêncio. No isolamento e insularidade do arquipélago o professor encontrou nas palavras e nas letras, um refugio, um sinal de sobrevivência numa sociedade e num meio muito peculiar.

O próprio nome do livro leva-nos a pensar nas inúmeras pedras que passam pelo nosso caminho e que temos que as ultrapassar, tantas vezes com imensas dificuldades.  Parafraseando o autor (p.7)“ Pedras afiadas que magoam por vezes, fazem mesmo sangrar. Mas que ninguém se iluda pois é sobre as pedras afiadas que se aprende a ver um pouco melhor, nessa longa caminhada trágica e irónica que é a vida”.

Quando lia o livro lembra-me das conversas que tivemos os dois, onde aprendemos  imenso um com o outro.  Na profissão de professor devido ao contacto que mantemos com pessoas tão diferentes crescemos e aprendemos tanto com os alunos, colegas, pais ou simples moradores da localidade onde estamos. Aquando da leitura do livro foi impossível desligar-me da minha experiência pessoal onde partilho a mesma profissão. Nos dias de hoje com a quantidade de tarefas a que estamos sujeitos  temos obrigatoriamente de seguir o nosso caminho e a acreditar mesmo naquilo que pensamos, caso contrário somos “engolidos” de forma voraz pela sociedade. Fernando Alva salienta a importância de pensarmos pela nossa cabeça. Cito (p.8) “Que o leitor se indigne, conteste ou condescenda. Mas que ouse sempre pensar pela sua própria cabeça e se liberte das mais potentes amarras que podem existir, os medos que nós próprios alimentamos com as vísceras da ignorância e da cobardia. Tudo o mais diz respeito ao autor destas palavras seja ele quem for”.

Não sendo professor de Educação Especial não consigo perceber na totalidade as dificuldades que estes alunos sentem. Nas últimas décadas houve um maior reconhecimento sobre a importância de reconhecer e integrar estas crianças na sociedade. Sobre isto gostava de passar uma conversa  tida numa reunião, onde uma professora de educação especial quando confrontada com as inação de colegas perante um aluno com  muitas dificuldades de aprendizagem, esta disse mais ou menos assim” Se ele fosse vosso filho gostavam que ele fosse tratado assim, ele é um ser humano que teve a infelicidade de nascer diferente”.  Esta frase fez-me pensar. Nos dias de hoje gerir uma turma com alunos sem dificuldades de aprendizagem por si só já não é uma tarefa fácil e quando é integrado um aluno diferente que mal sabe ler, questiono o papel que nós podemos ter para o integrar e o fazê-lo crescer como ser humano.  Sem dúvida por vezes sentimos que não temos formação para fazer face à crescente complexidade da profissão.

Voltando ao “Pedra sobre pedra” de Fernando Alva queria realçar o trabalho que tem sido feito nas escolas perante as crianças com dificuldades de aprendizagem, no entanto ainda há um longo caminho a percorrer. Numa das suas idas à biblioteca local de Fernando Alva dá entender as dificuldades que a sociedade tem para integrar estes seres humanos. Cito (p.15) “Na Biblioteca local (Praia da Vitória), pode ler-se na estante : 376. Ensino Especial , Analfabetos e deficientes. Rastos ideológicos de um passado que pensamos distante, mas que, na realidade continua bem dentro de nós.”  

Aprendemos tanto com as crianças mesmo diferentes ou com menos capacidades. O ensino tem que mudar em duas vertentes: perceber melhor as motivações das crianças e as crianças perceberem melhor a importância da escola. Cito uma passagem do livro onde o autor se refere a uma menina dita problemática pela sociedade (p. 22)  “Uma menina de 11 anos dessas consideradas pelo sistema como terríveis -, a frequentar o 7º ano vem à frente da sala apresentar o mais conhecido livro de Antoine Saint – Exupéry e deixa-me a bocas aberta com apenas duas frases : Às vezes nós vivemos num monte de palavras e neste eu senti um principio, um meio e um fim, uma história e isso é tão raro”; Nós precisamos de várias mensagens para viver. Eis aqui condensado o sentido da literatura trazido por uma das piores alunas da turma  (assim diz o sistema)
E sinto vergonha de mim”.

Dado a complexidade e a quantidade de temas que podemos aprender e trabalhar neste livro. Eu  deixo-vos aqui a minha primeira abordagem que espero que tenham a curiosidade de ler. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

É maravilhoso ser pai


O Duarte tem três anos. O tempo passa tão rápido que nós nem nos apercebemos.A sociedade atual é louca, pois temos tantos estímulos, uma enormidade de ecrãs e de coisas para fazer que por vezes começamos várias tarefas e não acabamos nenhuma. Nos últimos tempos quantas vezes comecei um livro, uma notícia e não as acabei, ficando apenas pelo título ou pela introdução. Por vezes assusta-me a loucura e o ritmo que vivemos que não nos deixa saborear aquilo que fazemos, a nossa profissão e a nossa família.

Com o tempo e a experiência aprendi a lidar melhor com a passagem do tempo e aprendi a aproveitar ao máximo o tempo com o meu filho. Tenho pena de me esquecer de muitas das coisas que ele disse no momento e que nos fizeram sorrir pela imprevisibilidade, Enfim não dá para tudo.
Hoje adormeci-o. Devido às minhas constantes ausências ele afeiçou-se muito à mãe e é um castigo adormece-lo pois ele mal a mãe se vai embora começa a chorar compulsivamente. Hoje mesmo correndo o risco de adormecer primeiro que ele, pois estava exausto disse à Cecília para ela se ir embora que eu adormeci-o afinal ele tem que se habituar ao pai. Consegui acalmá-lo com o ecrã do telemóvel e com a 1ª série da Heide que passou em Portugal salvo erro na década de 80. Após acabar o programa deitei-o junto a mim afaguei-o sobre o meu corpo e contei-lhe histórias sobre o Douro e da minha escola em Tabuaço. O Duarte sempre muito curioso questionava tudo e queria saber mais. Aos poucos fui diminuindo o meu tom de voz e consegui finalmente vencê-lo pelo cansaço.


Eu resistir ao cansaço e apesar de ainda ter uma noite de trabalho pela frente senti a maravilhosa sensação de ser pai.

Obrigado Duarte


Mais uma semana mais uma viagem


Hoje foi mais um fim de tarde de terça feira. Um início de semana doloroso como sempre, não pela quantidade de horas que passo em frente ao computador e a dar aulas, isso já aprendi a gostar e a saborear melhor à medida que tenho mais experiência nesta profissão. O me custa mesmo são as cerca 12 horas e os mais de 900 kms por semana que passo na estrada grande parte deles sozinho. Isso sim é muito duro.
Hoje enquanto chovia em mais uma viagem entre Tabuaço e Oliveira do Hospital já esgotado de ouvir as músicas do spotify, a enormidade de anúncios que passam na rádio ou os programas da antena 1 ouvidos dias a fio. Cansei-me e por momentos desliguei o rádio e ouvi o silêncio e os meus pensamentos, sentia-me exausto e a viagem nunca mais acabava.

Passados uns instantes decidi ligar a Rádio Comercial na esperança de ouvir alguma música que me fizesse relaxar e a viagem passasse mais rápido. Quando qual não é o meu espanto quando começo a ouvir uma magnífica entrevista a atriz Rita Loureiro. A entrevista prendeu-me do início ao fim e fez-me refletir sobre tanta coisa. O poder da palavra é de facto magnífico, estava com saudades de ouvir um programa de rádio assim, foi tão bom.

Trabalho todos os dias para conseguir cativar os meus alunos com os meus conhecimentos e as minhas palavras. O meu objetivo é conseguir nem que seja por breves momentos que os meus alunos consigam sentir prazer em ouvir-me, aprender Geografia e crescerem enquanto seres humanos.

Obrigado Rádio Comercial e Rita Loureiro pela excelente conversa que me proporcionaram.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Quando as luzes nos cegam


Há quem diga que um Homem começa a ser gerado pelo menos um século antes de nascer, pelo que quem o quiser compreender deverá estudar a época dos seus avós. Ora, há um século atrás, vivia-se no Ocidente a euforia dos “Loucos anos 20”, também conhecidos como “Roaring Twenties”. O pós I Guerra Mundial, conflito no qual se inaugurou a indústria da morte, trouxe consigo um período marcado pela ânsia de recuperar o tempo perdido. A cultura de massas na qual hoje vivemos submersos nasceu nesse período, atravessado pelos incríveis desenvolvimentos técnicos do cinema, da rádio, da televisão, pelo incremento da arte, da música e do desporto, bem como por um conjunto de transformações sociais e políticas, entre as quais importa destacar os movimentos feministas e sufragistas.
No dealbar da década de 20, quem imaginaria, porém, que o crash da Bolsa de Wall Street, em Nova Iorque (1929), mergulharia quase todo o mundo numa profunda crise? A “Longa Depressão”, como escreveu Eric Hobsbawm, é de resto fundamental para compreender a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha em Janeiro de 2020, relembre-se, completam-se 87 anos após a nomeação do fűhrer como chanceler.
Apesar de a História não se repetir, é assustador constatar as dramáticas semelhanças do nosso tempo com as circunstâncias que existiam há 100 anos. Ontem como hoje, os extremismos proliferam a uma velocidade vertiginosa. Donald Trump, o “Brexit” e Jair Bolsonaro representam apenas alguns exemplos desta perigosa tendência moderna marcada pela vitória do espectáculo sobre o conteúdo, pelo triunfo da ignorância/loucura em detrimento do rigor, do trabalho sistemático e do conhecimento científico (sim, ao contrário do que as redes sociais parecem levar-nos a acreditar, os intelectuais fazem-nos muita falta).
Mais do que identificar detalhadamente essas similitudes entre o passado e o presente, penso, porém, que é importante reconhecer que nós somos filhos dos “Loucos anos 20”. A cultura do espectáculo permanente na qual vivemos embrenhados nasceu provavelmente ali e, portanto, quem quiser compreender o mundo actual terá de regressar às três décadas iniciais do século passado. Às décadas, sublinhe-se, onde nasceu o Fascismo e o Nazismo, cujas origens e exponencial crescimento também radicam na já mencionada civilização do espectáculo.
A atracção das massas pela evasão proporcionada pelos mass media, que despertou no mundo ocidental a partir dos anos 20, parece ter atingido na hodierna o seu clímax, com famílias inteiras viciadas nas redes sociais e os mais jovens, em especial, a mergulharem durante horas a fio em jogos virtuais, evidenciando depois uma terrível incapacidade para interagirem com os seus semelhantes. No meio disto tudo, a Inteligência Artificial desenvolve-
-se a um ritmo alucinante. O mundo transforma-se a uma velocidade tal que é impossível captar as suas complexas transformações e, tal como Yuval Noah Harari já teve oportunidade de concluir, o Homem começa a perder a ilusão da liberdade: “The sacred Word ‘freedom’ turns out to be, just like ‘soul’, a hollow term empty of any discernible meaning” (Homo Deus. A Brief History of Tomorrow, 2016, p. 329).
Nós podemos, efectivamente, não saber como serão as profissões daqui a 15 ou 20 anos, mas é fundamental que nos interroguemos a respeito do mundo que pretendemos ter daqui a duas ou três décadas, pois só isso nos poderá ajudar a definir melhor os conteúdos que os nossos alunos deverão estudar nas escolas. Sem uma resposta concreta a esta pergunta o futuro poderá revelar-se dramaticamente perigoso. E os holocaustos poderão estar novamente ao virar da esquina.
Na década de 1980, o historiador francês Marc Ferro deu à estampa a obra A manipulação da História no ensino e nos meios de comunicação, na qual, logo a abrir, declarou: “Não nos enganemos: a imagem que fazemos de outros povos, e de nós mesmos, está associada à História que nos ensinaram quando éramos crianças” (1983, prefácio, p. 11). Há cerca de duas décadas que, enquanto professor de Educação Especial, tenho o privilégio de ir circulando por muitas salas de aula, nas mais diversas disciplinas. E quanto mais o tempo passa, mais reforço a convicção segundo a qual a História pode desempenhar um papel crucial no futuro que pretendemos edificar. O estudo do passado ajuda-nos a criar pontes, entre nós e os outros. Ajuda-nos a reconhecer o profundo elo que nos aproxima dos primeiros seres humanos, há cerca de 3 milhões de anos, mas também de todos os seres com os quais partilhamos este planeta. A humildade de aprender a duvidar (de tudo o que sabemos ou pensamos saber) para depois perseguir outros trilhos é, porventura, uma das mais eficazes vias para construir um mundo mais democrático e inclusivo, uma lição que, afinal, também a História nos pode ajudar a reforçar. Fora disto, todas as palavras se tornam infrutíferas. E este é um dos meus maiores receios: nós, que tanto invocamos a inclusão e a democracia, estamos, muito provavelmente, a construir um país, uma Europa e um mundo, afinal, cada vez mais totalitário e que exclui, de modo irreversível, os mal-afortunados do berço e da genética.
Não é possível compreender o nosso tempo sem recuar aos “Loucos anos 20”: nós somos os filhos e os netos dessa era das massas. E, talvez como todos os descendentes, exponenciámos os defeitos e as virtudes desse passado. Resta-nos agora aprender a lidar de um modo mais equilibrado com esse património, numa era em que um novo e catastrófico conflito mundial parece iminente e as alterações climáticas se revelam cada vez mais mortíferas, como, de resto, os fogos infernais da Austrália têm vindo a demonstrar, nos últimos meses.
Aprender a ignorar os ruídos, viver apenas com aquilo que necessitamos, nomeadamente do ponto de vista tecnológico, é talvez um dos mais prementes desafios que temos hoje entre mãos. Por isso é que, segundo penso, a História, a Literatura e a Filosofia poderiam revelar-se cruciais para definir qual é, afinal, o futuro que pretendemos deixar aos vindouros. Mas isso exigiria outro tipo de sabedoria e consciência ética por parte de quem governa e por parte de quem é governado. Algo que depende ― cada vez mais ― de cada um de nós e da nossa capacidade para aprender a ignorar os vendedores da “banha da cobra” que por aí proliferam, travestidos dos nomes e títulos mais flamejantes e inclusivos que possamos imaginar…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O Natal do tio Chedas


            À medida que os anos se acumulam nos ossos, maior parece ser a necessidade que os Homens sentem em recordar a própria infância. Num mundo em que tudo muda tão depressa, parece ser fundamental acreditar que, pelo menos uma vez por ano, ainda subsiste uma noite em que quase tudo continua a ser igual, sem, no entanto, nunca se tornar banal. É a noite em que o Menino volta a nascer dentro de cada um de nós...
            Talvez por isso, agora que o Natal se aproxima uma vez mais, dou por mim a recordar aquela época da meninice em que a minha avó São me puxava para junto da lareira e me contava as histórias mais belas que algum dia pude ouvir.
– O tio Chedas ― explicava-me a minha saudosa avó ― vivia numa gruta do Algar, bem lá no meio da floresta…
            ― Numa gruta, avó?!
            ― Sim, numa gruta, imagina! Não digas a ninguém, mas contava-se cá em Vila Franca que ele tinha ajudado a matar o rei Dom Carlos e, por isso, decidiu esconder-se por aqui. Quem me contou isto foi a tua bisavó Ana, pois eu ainda era muito pequenina quando tudo aconteceu …
            ― A avó também já foi pequenina?!
            ― Sim, meu tontinho, já fui. Há muitos, muitos anos…
            ― Ó avó, os polícias nunca prenderam o tio Chedas?
            ― Parece-me que não. A minha mãe contava-me que ele viveu cá até morrer e foi sepultado no nosso cemitério.
            ― Mas ele estava sempre escondido na gruta?
            ― Sim, sempre na gruta. Apenas existia uma altura do ano em que ele se arriscava a sair do covil…
            ― Era a noite dos lobisomens, não era avó?! ― interrompia eu, de tão ávido que estava com a chegada do sempre surpreendente desenlace, que a minha avó dramatizava ainda mais com o enigmático olhar das videntes.
            ― Não! Era a noite de Natal. Os lobisomens ficarão para outra história, uuuuuu
            ― A noite de Natal? ― perguntava eu, enquanto me continuava a desfilar pela imaginação aquele som do uuuuuu… Até hoje, nunca conheci ninguém que imitasse o vazio do medo tão bem como a minha avó.
            O tio Chedas ― como a avó São lhe chamava ― usava uma longa barba branca e coxeava ligeiramente. Embora eu nunca tivesse realmente acreditado que ele ajudou a matar o rei em 1908, certo é que ainda hoje, lá na minha aldeia nativa, existem pessoas que me asseguram que ele viveu na gruta do Algar, sempre escondido, tendo apenas como companhia os coelhos que ia criando e que depois se compadecia de matar para comer.
            Recordava-me a minha avó que todas as madrugadas do dia 25 de Dezembro o tio Chedas abandonava as galerias subterrâneas e vinha sentar-se junto à fogueira que ainda agora se acende no adro da capela. Depois de aquecer os pés e as mãos, caminhava solitariamente pelas gélidas ruas da povoação, revisitando cada casa adormecida na memória.
            Lá na aldeia, as pessoas passaram a conhecer-lhe esse ritual e habituaram-se a aguardar silenciosamente a sua passagem, espreitando-o por entre as frinchas das pedras. Nessa época de tanta fome, não havia iluminação, quer nas casas, quer nas ruas, e, por isso, apenas lhe pressentiam a sombra, cada vez mais contorcida e derreada pela caudalosa passagem dos invernos.
            Alguns conterrâneos, talvez porque a consciência lhes pesasse mais naquela altura do ano, começaram a deixar-lhe, pendurado nas portas, um saco com o pouco que lhes sobrara da ceia de Natal. A minha bisavó, que era forneira de profissão, guardava-lhe sempre uma côdea de pão de milho para que depois, algures pela madrugada dentro, ele pudesse fazer a consoada ao lado dos coelhos que criava, a única família que ainda lhe restava.
            Ao longo da meninice, ano após ano, fui ouvindo cada vez com maior espanto a fabulosa narrativa do tio Chedas e da sua enigmática gruta (ou mina, como tantas vezes ouvi dizer) no Algar. Ainda hoje, decorridas que são mais de três décadas, me arrepia só de pensar na imagem deste homem solitário a caminhar pelas ruas escuras da minha aldeia nativa, em busca do calor do Natal, para depois se refugiar nas intermináveis profundezas. E logo nessa noite tão transcendente, ao longo da qual todas as feridas se avivam e se revisitam intensamente alguns dos esqueletos que trazemos escondidos na alma…

            Este conto é dedicado a todos os anónimos da História que continuam a ajudar os seus semelhantes a encontrar a estrela de Natal, mesmo nas circunstâncias mais dramáticas desse profundo mistério cósmico ao qual damos o nome de vida.
O brilho de Natal também faz parte dessas ilusões sem as quais a vida se tornaria insuportável. E escrever este conto é talvez a forma mais sentida que eu ainda possuo para desejar a todos os leitores um Santo e Feliz Natal.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)      

domingo, 1 de dezembro de 2019

Comentário artigo de opinião "Chuva precisa-se" Jornal Expresso

Todos estamos fartos de chuva no entanto ainda estamos muito longe de estar descansados. O Sul do país ainda se encontra em seca severa. O que mais me preocupa é que chove pontualmente com mais intensidade e a norte da Europa os quantitativos de precipitação estão a aumentar o que é reflexo do aumento da temperatura média anual nas latitude. mais elevadas, uma causa evidente das alterações climáticas.
Cada vez mais temos de ter em linha de conta a poupança de água

Chuva, precisa-se- Artigo de opinião Jornal Expresso

Eis o primeiro número: em apenas um ano, Valter Luz perdeu 80% da sua produção. O olival que detém no nordeste do Algarve está a morrer. A seca que tem atacado o sul do país não o surpreende, mas revolta-o. “Neste momento, os lençóis freáticos não têm água. Toda a gente sabia do problema, não foram tomadas medidas, e agora estamos nesta situação.” O seu olival é um exemplo de agricultura de regadio, cada vez mais prejudicada pela falta de precipitação. E mesmo quando esta existe, é insuficiente, diz Valter: “o que tem chovido agora não dá para encher um copo de água”. O presente ano hidrológico — quando as reservas de água estão no mínimo com as chuvas prestes a começar — iniciou-se a 1 de outubro, mas até agora ainda não deu de si. No Algarve quase não chove há mais de sete meses. “Nos últimos dias já choveu qualquer coisa, e até pode ser que na agricultura de sequeiro haja uma recuperação, mas continua a ser bastante abaixo dos valores médios para esta altura do ano”, explica ao Expresso José Tomás, da Direção Regional de Agricultura e Pescas do Algarve.
O Índice PDSI do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), referente a outubro, diz que “houve um desagravamento” da seca no norte e no centro do país, mas a sul do Tejo a situação é preocupante. No total, 93,2% do território português estão em seca — 33,5% em seca ligeira, 31,9% severa, 4,3% extrema. Os concelhos de Castro Marim e Alcoutim — onde está a empresa agrícola de Valter — foram os mais atingidos. “Esta crise é quase tão severa como a grande seca de 2005”, garante José Tomás. Um outro indicador do IPMA, o índice de água no solo, mostra vários pontos algarvios e alentejanos em ponto de emurchecimento permanente, ou seja, com menos de 1% de água no solo. Pedro Monteiro, presidente da Direção Regional, acrescenta que “além do baixo nível de armazenamento das barragens e dos aquíferos [recursos hídricos subterrâneos], observamos que em alguns casos o nível de água no solo já está abaixo do necessário para as próprias plantas e vegetação natural.” Ou seja: há zonas do Algarve onde nem as raízes das plantas conseguem captar a água de que precisam. Enquanto vê a sua subsistência extinguir-se, Valter desabafa: “Só vamos começar a preocupar-nos com a água quando abrirmos a torneira e ela faltar.” O problema não é só português, e a recente polémica envolvendo Espanha e os caudais do rio Tejo prova-o: devido à falta de chuva, o país vizinho pode invocar condições de exceção para não enviar para Portugal os valores mínimos de água acordados. Aliás, uma previsão recente diz que a Península Ibérica deverá ver a sua precipitação diminuir entre 20% a 40% até 2100.
No relatório “Vulnerabilidade de Portugal à Seca e Escassez de Água”, publicado em outubro pela Associação Natureza Portugal em parceria com a World Wide Fund for Nature, é apontado que “desde a década de 70 têm sido cada vez mais frequentes anos com precipitação inferior à média, e cada vez mais raros anos muito chuvosos.” No último ano, mostra o IPMA, em apenas dois meses os valores de precipitação em Portugal foram acima do valor médio: novembro 2018 e abril 2019. Porém, alargando a análise a todo a Europa, a Agência Europeia do Ambiente conclui a existência de duas realidades distintas: durante o verão, a precipitação média diminui bastante na última década na maior parte do sul da Europa (mais de 20 mm), mas aumentou mais de 18 mm no mesmo período em muitos locais do norte do continente. Dados do Sistema de Informação de Recursos Hídricos mostram que de janeiro a setembro último, Portugal continental teve níveis de precipitação de 17 mm, quando a média é de 41,8 mm. Há dez anos, esse valor era ainda mais seco (7,9 mm).
Cá, a falta de chuva representa, historicamente, um problema caro. Afonso do Ó, o autor do relatório da ANP, garante ao Expresso que os prejuízos económicos e ambientais da seca atual “deverão ser ainda mais elevados” do que os registados em 2004-06, quando só o sector agrícola perdeu €130 milhões, toda a produção privada sofreu um impacto de €519 milhões, e €234 milhões evaporaram-se no turismo, na economia, e a garantir abastecimento urbano. Já em 1999, ano também severo, a escassez de água nas várias bacias hidrográficas do país fez o país perder €1,432 milhões só no continente — 22% do produto agrícola bruto. Este ano, especifica o relatório, perderam-se rendimentos nas culturas de outono/inverno (como o trigo e a cevada), pastagens para alimentar o gado, e ocorreu “uma quebra de 10% da área prevista para cultivo de arroz”.
O MUNDO A SECAR
No início do relatório de Afonso do Ó estão presentes alguns dados importantes a nível global: por exemplo, a estimativa de que todos os anos morrem 20 mil pessoas devido ao impacto das secas, e 50 milhões sofrem as suas consequências diretas. Pode estar a cair mais chuva sobre o norte da Europa, mas os períodos de seca — que são “naturais”, aponta Afonso do Ó — estão a evoluir para um problema estrutural de escassez de água um pouco por todo o mundo. Em agosto último, o “The New York Times” alertou para a “ameaça do dia zero” — o dia em que, como avisava Valter, “a torneira deixará de deitar água”, e que estará próximo para um quarto da população mundial. São Paulo e a Cidade do Cabo são algumas das cidades que sofreram recentemente crises de falta de água; a Cidade do México está no fim das suas reservas subterrâneas, e Daca, no Bangladesh, já tem de ir buscar água a mais de 100 metros de profundidade. Países tão diferentes como as Honduras e o Paquistão partilham a mesma fonte de dois problemas distintos: enquanto que no primeiro os incentivos à agricultura existem mas esmorecem perante “o corredor da seca”, no segundo o sector precisa de ser domado para travar o uso desregulado de água.

O mesmo artigo do “The New York Times” sinaliza que já há 255 milhões de pessoas no mundo a viver em stresse hídrico extremamente elevado; até 2030, serão 470 milhões. O portal Aqueduct, pertencente ao World Resources Institute, ordenou os países de acordo com a sua utilização e gestão da água em várias frentes, e concluiu que Qatar, Israel e Líbano são os países que pior o fazem. O top 10 é dominado por países africanos; Portugal surge na posição 41, mas é logo o 7º entre países europeus.
DANÇAS DA CHUVA?
As únicas técnicas conhecidas para forçar a precipitação são a dança da chuva, rituais que algumas comunidades nativo americanas (e não só) praticam quando o desespero da seca mais aperta. Infelizmente, não há dados científicos que comprovam a sua eficácia, tornando-se necessário contornar o problema com outros métodos. Em Portugal, tanto Valter Luz como Pedro Monteiro concordam que, além da sensibilização pública para a importância de poupar água, é necessário mudar a agricultura, com “sistemas de rega mais eficientes e alterações no perímetro agrícola”, aponta Pedro Monteiro. Elenca ainda o tratamento de águas residuais, as recargas artificiais dos aquíferos e a transformação da água do mar em água potável através de centrais de dessalinização (Portugal tem uma em Porto Santo, na Madeira). No entanto, as soluções perfeitas parecem escassear tanto quanto a água. No Guatemala, já é possível recolher água de nevoeiro, mas a energia necessária para que este sistema funciona torna-o pouco viável. E a dessalinização, apesar de ser agora mais barata, tem um grande impacto ambiental, contribuindo para o aquecimento global e prejudicando a vida marinha.
E claro, existem as barragens. Valter Luz dá o exemplo da barragem da Foupana, exigida por agricultores e criadores de gado e a construir em Castro Marim, mas cujo projeto foi abortado pelo Governo. Para o agricultor, só alguém que não conhece o terreno é que pode dizer que há barragens a mais em Portugal. Mas a ciência diz o contrário. “Há de facto barragens a mais no mundo ocidental. Têm um impacto ecológico enorme, destroem praticamente os rios, não há hipótese de haver vida num rio que é como uma veia toda compartimentada”, garante Afonso do Ó. Embora reconheça que as barragens foram importantes para garantir os abastecimentos mínimos, diz que no futuro tem de haver articulação entre aquíferos e albufeiras, uso de águas residuais, e dessalinização “só em casos em que não há alternativa”. Adianta que se não chover este inverno, o Algarve terá de ser abastecido de emergência, mas não culpa a rega dos campos de golfe [consomem 7% da água na região] por isso: “cientificamente é uma falsa questão”.
Pelo contrário, lamenta a escassez de progressos políticos e medidas concretas desde a seca de 2005-06. “Na sequência de uma seca há sempre pequenos avanços, mas mal volta a chover as coisas ficam esquecidas. Não passou a haver uma gestão preventiva do risco de seca, não se diversificaram as origens da água, nem para abastecimento urbano nem para regadios. O Plano Nacional da Água [criado em 2002 e atualizado pela última vez em 2016] é demasiado genérico e teórico, não chega a esse nível de detalhe.” Apesar de tudo, Afonso do Ó sublinha que “não há uma tendência clara de redução da precipitação.” Mesmo com os efeitos das alterações climáticas, depois da seca podem vir dois ou três anos muitíssimo chuvosos. Por isso, “a responsabilidade é sempre nossa: temos de aprender a lidar com o consumo de água que fazemos.”
Artigo de opinião: Tiago Soares 
Jornal Expresso- 30 Novembro de2019

sábado, 16 de novembro de 2019

A minha visão da Educação em Portugal.


Na sociedade atual assusta-me a impessoalidade e a falta de respeito que se nutre por quem trabalha. No caso dos docentes há um enorme desrespeito pela profissão, começando no Ministério da Educação e acabando nos alunos.

Tudo começa na exigência do Ministério que nos obriga a cumprir programas muito extensos com poucas horas para os concretizar. Na minha opinião é excessiva a carga horário escolar dos alunos, que em muitos casos ainda têm de cumprir um sem número de horas de explicações em horário extra-curriculares em idades cada vez mais precoces.

O que está a fazer o Ministério da Educação é complicar o que já de si não é simples. A escola tem um papel muito importante para preparar um aluno para a vida, ensinando-lhe dando-lhe algumas ferramentas para que estes enfrentem uma sociedade cada vez mais complexa e menos inclusiva. Os alunos não gostam das aulas, nem lhe dão o devido valor. Eu nesta semana disse aos alunos que o papel da escola não é só ensinar mas também o socializar e conviver com os professor e colegas, pois apenas dessa forma podemos evoluir e crescer como seres humanos.

É com pena que observo que o caminho seguido pelo Ministério da Educação para solucionar a falta de professores nas escolas seja dar poder aos Municípios e permitir que sejam habilitados docentes através da realização de formações de muito curta duração. Caso isso seja verdade e se concretize, temo pela minha profissão e pelo meu emprego. Toda esta contingência  me deixa revoltado por todo o esforço e sacrifício que tenho feito em prol da educação em Portugal seja em vão.

O facilitismo é um problema na educação como na vida. Hoje ser um bom pai ou mãe não é tarefa fácil . Após um dia de trabalho é obrigatório os pais  terem  tempo para acompanhar o seu filho e perceber como correu o seu dia na escola, observar os seus cadernos diários e a caderneta. Esse trabalho inerente à função de pai é muitas vezes descurado, preferindo-se dar liberdade aos filhos acabando por perder o controlo sobre eles no futuro, pedindo em muitos casos ajuda à escola e aos professores. A educação dos filhos não tem qualquer relação com a capacidade financeira das famílias, pois na minha opinião os pais devem ter Amor pelos filhos, perceber  e respeitar a sua função enquanto pais.

O Ministério da Educação veio na pessoa do Ministro da Educação anunciar que até ao nono ano não deve haver retenções, e caso isso aconteça tem de haver  uma boa justificação para essa ocorrência. Não há pessoa que lhe custe mais chumbar um aluno que a um professor. A exigência e o rigor devem começar na escola, pois esta tem um papel muito importante, tanto na preparação dos alunos para o  mercado de trabalho como para a vida. Com estas novas medidas o futuro deve ser mais difícil para os professores e para os alunos que querem realmente aprender, pois os alunos que não querem aprender vão criar obstáculos cada vez com maior gravidade e as formas que os professores têm para se defender são cada vez menores. Costuma-se dizer que se não os consegues vencer junta-te a eles. Sinceramente temo pelos melhores alunos e pelos  professores que sem formas de inverte a situação  enveredem pelo caminho mais fácil, ou seja o que o Ministério da Educação pretende. Entristece-me perceber que há cada vez menos investimentos na Educação e a qualidade do ensino esteja a decrescer. Quem perde, todos os Portugueses.