sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Cid Teles, a cigarra do Triste Fado (As Origens)


As origens
            O poeta que inspira estas palavras nasceu em 8 de Março de 1911, em Tábua, concelho que já durante a I República se encontrava integrado no distrito de Coimbra. Faleceu em Oliveira do Hospital, em 25 de Abril de 2009, com 98 anos.
Cid Teles era filho do poeta Manuel Madeira Teles (1872?-1945), funcionário das finanças que teria privado com o poeta António Nobre (1867-1900), e da pianista Alzira de Matos Cid Teles (1872?-1945). As notas biográficas referem habitualmente a existência de uma irmã, Inácia, mas Maria Heloísa Santos, da Bobadela (em entrevista gravada), menciona quatro irmãos, que teriam falecido primeiro: Inácia, Heloísa, Maria Rita e Luís (trata-se, porém, de uma informação que não conseguimos comprovar). Sublinhe-se que Maria Heloísa Santos teria ido para a Quinta da Coitena, por volta dos três anos, aí permanecendo a trabalhar até aos 27. Foi nesta quinta que, após a morte dos pais, em 1945, Cid Teles teria passado a viver, em conjunto com um tio.
           Quinta da Coitena(Oliveira do Hospital)

Manuel Cid Teles teria sido um fruto extemporâneo, não sendo um nascimento previsto pelos pais. Ele próprio escreveu, na obra Farrapos da minha vida:


Por um engano fatal
Na verdade ao mundo vim.
Nem minha Mãe nem meu Pai
Esperavam já por mim.

            A respeito do seu mês de nascimento, escreveu, por exemplo, o soneto “Março”, que integrou na obra Canta cigarra, canta! A primeira quadra pode ajudar-nos a compreender um pouco melhor o modo como o próprio poeta se vislumbrava:

Eu gosto do meu mês, vário, inconstante,
Que ri agora e logo se entristece,
Que tanto nos enregela como aquece,
Que é desabrido e meigo num instante.

            Manuel Teles Cid (nome de baptismo) adoptou o pseudónimo de Manuel Cid Teles na obra As minhas quadras, editada em 1932, quando tinha 21 anos. Este facto pode ajudar-nos a compreender as palavras do poeta, quando redigiu os seguintes versos, datados de 31 de Maio de 2006, e integrados nos Farrapos da minha vida: “Nem a morte há-de vencer / Dois que apenas um só são. Pode morrer o Teles Cid, / O Cid Teles é que não!”
Quando Cid Teles nasceu (1911), a I República levava apenas cerca de cinco meses de existência. De acordo com o censo geral da população portuguesa realizado em 1 de Dezembro de 1911 e divulgado em 1913, no ano em que Manuel Cid Teles nasceu, o concelho de Tábua possuía um total de 17.533 pessoas, sendo 7.503 do sexo masculino e 10.030 do sexo feminino. Nesse mesmo ano, o concelho de Oliveira do Hospital possuía um total de 27.242 habitantes, sendo 12.258 homens e 14.984 mulheres. Nesse ano, o censo contou 5.960.056 “habitantes de facto” em Portugal, o que representava um aumento absoluto de 36.972 habitantes, em relação ao último censo (1864). A taxa de analfabetismo em todo o país rondaria os 75%.
            Tábua era à época uma região periférica do país, afastada dos grandes centros de decisão, um pouco à semelhança da restante região das Beiras, que parece ter marcado, de modo decisivo, a identidade de Cid Teles. O poeta escreverá mesmo um soneto, intitulado “Canta”, onde convida o leitor a visitar aquela região situada, grosso modo, entre o Douro e o Mondego. Estes excertos fazem parte da obra Farrapos da minha vida:

Não conheces a Beira? Pois então
Faz as malas e vem por aí fora,
Que tens ao teu dispor o casarão
Da velha quinta onde vivo agora.

                                      Não hesites e vem, que a ocasião
                                      Não pode ser melhor, mesmo que embora
                                      A Beira Alta tem, quem o ignora?
                                      Um novo encanto em cada estação.

                                      É Primavera: os prados e os pinhais
                                      Estão em flor, há urzes e tojais,
                                      Giestas, rosmaninhos e afinal
Seria um crime até, se não viesses,
                                      Tu que amas a beleza e desconheces
                                      A mais bela região de Portugal!

Apesar de ter nascido em Tábua, devido à situação profissional do pai (funcionário das Finanças), a família Teles foi obrigada a deambular por várias regiões do país: Grândola, Santiago do Cacém, Montijo, Viseu… Ora, este nomadismo irá marcar profundamente o poeta, na medida em que dificultará a criação de laços de amizade com outros jovens da sua idade e motivará o seu contacto precoce com os adultos. Circunstâncias que também nos permitem compreender a sua precoce maturidade e, em certo sentido, o seu prematuro interesse pela poesia.
Nas conversas que travei com Cid Teles, já nos últimos anos da sua vida, quando ele residia no lar da Fundação Aurélio Amaro Diniz, em Oliveira do Hospital, era evidente a importância que o poeta concedia à família biológica, em especial aos pais e à irmã Inácia Cid Teles, também ela uma poetisa. A título póstumo, foi publicada a obra de versos Nada torna a voltar, na portada da qual o poeta escreveu as seguintes palavras: “Eu sempre [fui] para Ela como um filho muito querido e a Morte ao levar-ma deixou em mim e na Vida que me resta para viver, um vazio que jamais nada nem ninguém poderá preencher!”
À época das nossas conversas (2007-2009), já tinham falecido todos os familiares directos de Cid Teles, mas este convocava-os amiúde para o meio de nós, um pouco à semelhança da saudade que parecia alimentar em relação à infância. Ou pelo menos a uma certa infância, à qual regressava ciclicamente, num permanente exercício de recordação e reconstrução da suposta “idade do ouro”.
No soneto “Sonata ao luar”, dedicado à sua prima Heloísa Cid e integrado na obra Canta cigarra, canta!, Manuel Cid Teles recordou a sua mãe:

                             Da “Sonata ao Luar” o piano exala
                                      Doce lamento, e logo na lembrança
                                      Eu retorno aos meus tempos de criança,
                                      E em nossa casa corro até à sala.

                                      Ao piano, a minha Mãe. Poder pintá-la!
                                      Jovem e bela, artista por herança,
                                      Com sentimento, arte e segurança
                                      Ao piano dá o choro, o riso e a fala.
                                      No meu quartito estreito e já deitado,
                                      Eu escutava esse murmúrio alado
                                      E nunca o esqueci p’la vida além…

                                      Que da “Sonata ao Luar” a suavidade
                                      Sempre lembrar me faz – com que saudade!
                                      A nossa sala, o piano e a minha Mãe…

            E ainda sobre os pais, dirá, na obra Farrapos da minha vida:

Tendo embora um triste fado,
Nascer p’ra mim foi um bem,
Por ter tido o Pai que tive
E por mãe a minha Mãe.

            De acordo com as informações que me foram transmitidas por Maria Heloísa Santos, da Bobadela, após a morte dos progenitores, em 1945, Cid Teles teria enfrentado várias dificuldades, chegando mesmo a passar fome. Depois, teria ido viver para junto do seu tio, na Quinta da Coitena, na Bobadela, freguesia de Oliveira do Hospital. Tratava-se do terratenente José Madeira Teles (1873-1956), um fervoroso adepto da Monarquia e um posterior defensor do salazarismo.
A Quinta da Coitena parece ter exercido um papel nevrálgico na Bobadela, sendo que, na notável obra Enquadramento Histórico e Toponímia. Concelho de Oliveira do Hospital, Francisco Correia das Neves associa este topónimo “Coitena” a um “local privilegiado ou defesa ou coutada”. Maria Heloísa Santos confirma esta asserção, dizendo que na memória popular sempre circulara o rumor segundo o qual, na época da Monarquia Constitucional, quem pretendesse ficar “livre” do serviço militar deveria pedir protecção ao senhor da Coitena.
Importante terratenente, José Madeira Teles era irmão do pai de Cid Teles, Manuel Madeira Teles. Apesar de nunca ter contraído matrimónio, José Madeira Teles viria a ter um filho, ao qual acabaria por deixar os bens. À morte do tio, Cid Teles ficou, porém, com o usufruto da casa e de duas fazendas, com a obrigação de zelar pela sua manutenção. No entanto, segundo alguns testemunhos, as relações entre Cid Teles e o tio nem sempre terão sido pacíficas.
Outra das personalidades marcantes da vida de Cid Teles foi a sua irmã, Inácia, constituindo a sua morte um dos acontecimentos dramáticos da vida do poeta, que lhe dedicou o soneto “Alguém”, inicialmente integrado na obra Sou como sou:

De faces brancas como as açucenas,
   Olhos azuis do fluido azul dos céus,
   As mãos esguias, leves como véus,
   Se afagam chagas, aliviam penas.

   De cílios magoados quais verbenas,
   De barbas loiras como os Galileus,
   Dirão os crentes: tu descreves Deus!
   E num sorriso lhes respondo apenas:

   Se o homem foi à Sua imagem feito,
   O que na semelhança é mais perfeito
   Dentre os outros perfeito sobressai.

   E assim um Deus num outro Deus confundo,
   Vejo um no Céu e o outro neste mundo,
Na figura sublime de meu Pai!

Já no seu livro Canta cigarra, canta!, Cid Teles consagrou outro soneto à memória da irmã. Tem o sugestivo e dramático título “Ela partiu”:

          Ela partiu para não mais voltar,
             No mais frio e cinzento amanhecer,
             E já sem voz p’ra me poder dizer
             A mágoa que sentia em me deixar.

             Ela partiu deixando-me a penar
             A mágoa sem remédio de a perder,
             E já sem forças para procurar
             Outra qualquer razão para viver.

             Ela partiu para o distante Além
             Onde Deus encontrou, e onde também
             De novo se juntou aos nossos Pais.

             Gotas d’água deste beiral da vida,
             Uma cai, outra cai, e outra em seguida
A cair não demora muito mais!

            Como um dia escreveu Ortega Y Gasset, o Homem é o Homem e as suas circunstâncias. Dentre estas, destaca-se a terra em que se nasce/cresce, a época histórica em que se vive, a família (educação e genética), a formação cultural (escola, leituras, relações interpessoais…), para já não falar na sorte ou no azar, que também fazem parte da vida. Das influências que o poeta recebeu procurarei ocupar-me no próximo artigo. Até lá, amigo leitor, se ainda não o fez – permita-se-me a ousadia de um conselho –, vá até à Biblioteca Municipal de Oliveira do Hospital e requisite uma das obras do nosso poeta. Será, porventura, uma das formas de dar outro significado aos (cada vez mais raros) períodos de descanso…
  
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)



terça-feira, 4 de setembro de 2018

Cid Teles, a cigarra do Triste Fado (Introdução)


Introdução


Manuel Cid Teles nasceu em 8 de Março de 1911, em Tábua, e faleceu em Oliveira do Hospital, em 25 de Abril de 2009, com 98 anos. Tive apenas oportunidade de conhecê-lo na fase final da vida, quando se encontrava no lar da Fundação Aurélio Amaro Diniz. Certo é que os nossos encontros, apesar de esparsos no tempo, me marcaram profundamente.
            Ia, habitualmente, visitá-lo quando regressava dos Açores, onde estava a trabalhar desde Setembro de 2007. O modo como sempre me recebeu no seu quarto emprestado continua ainda hoje a comover-me profundamente. Quase sempre de pé, ao lado da cama, sem recorrer a qualquer registo escrito, declamou-me um sem número de poemas, uns da sua pena, outros de Florbela Espanca (1894-1930). Abrindo as gavetas, confiou-me os intermináveis (e mais estranhos) papéis, nos quais ia incessantemente rabiscando os mais recentes versos, tocou no piano improvisado, declamou efusivamente e voltou a declamar poemas, que a poesia e a música corriam-lhe no sangue quase tão naturalmente como o oxigénio que respirava. Tudo isto e muito mais, como se me conhecesse há longos anos e nos unisse uma profunda amizade. Estranhamente ou talvez não, sempre que entrei naquele refúgio senti que fazia parte da sua extensa e anónima família, pese embora o facto de ele nunca me ter perguntado quem era, onde vivia, o que fazia ou a que vinha. Certo é que o brilho do seu olhar – com o desconto que devem merecer-nos todos estes géneros de comparações feitas à distância de uma década – ainda hoje me faz lembrar a limpidez de Fernando Valle (1900-2004), um dos históricos fundadores do PS, que tive o privilégio de conhecer num fugaz encontro agendado pelo engenheiro António Campos, também ele uma das incontornáveis figuras históricas do PS.
            Servem estas palavras introdutórias para anunciar que, ao longo dos próximos artigos, irei procurar ajudar a iluminar um pouco melhor a longa vida de Manuel Cid Teles, um homem que viveu quase um século, longo período no decurso do qual Portugal viveu sob a I República, a Ditadura Militar, o Estado Novo e o pós-25 de Abril. Trata-se apenas de alguns contributos, divididos em seis artigos, para o estudo histórico, psicológico, biográfico e literário de um homem que imagino sempre com os seus cabelos brancos, num porte de matusalém atravessado por uma imperturbável serenidade, mas, simultaneamente, caracterizado por um certo mistério próprio das águas profundas da sensibilidade artística. Afinal, Cid Teles foi também o poeta dos paradoxos: um homem sociável, mas, outrossim, um indefectível solitário; um trovador, mas também um saudosista; uma cigarra, mas também um poeta da mágoa, da tristeza e das sombras.   

Manuel Cid Teles
 Fernand Braudel, o consagrado historiador da Escola dos Annales, acreditou ser fundamental iluminar o rei Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) à luz da sua religiosidade interior. Eu penso que será muito importante tentar compreender Cid Teles à luz do seu percurso solitário, qual peregrino que Morris West eternizou na obra Uma Visão Sublime. Ao longo dos próximos artigos, veremos até que ponto esta tese poderá ou não ser confirmada.
O objectivo de estudar a personalidade e a psicologia do homem, à luz das suas circunstâncias espácio-temporais, levou-me a dividir os vários artigos em quatro núcleos aglutinadores, aos quais se seguirá a síntese possível. Assim, no segundo artigo, que dará continuidade à presente Introdução, ocupar-me-ei das origens de Cid Teles, com destaque para a família, o meio e a época. No terceiro texto, procurarei surpreender as principais influências recebidas pelo poeta, enquanto no quarto artigo será meu intento sintetizar os temas privilegiados por Cid Teles nas suas obras, arrumando-os numa espécie de breve dicionário literário telesiano. O quinto texto terá como objectivo chave acompanhar algumas das representações (as imagens) veiculadas, ao longo do tempo, pela imprensa a respeito de Cid Teles, sendo que no último texto procurarei apresentar as principais conclusões. Devo, desde já, confessar que um dos grandes problemas com que me deparei residiu em conseguir sintetizar em poucas páginas a grande quantidade de material que fui recolhendo ao longo dos últimos anos, pois, quando tomei consciência, já tinha armazenado umas boas centenas de páginas de elementos dispersos. Diga-se ainda que optei por eliminar as referências bibliográficas e todo o tipo de anotações habituais em trabalhos académicos, pois pretendi simplificar ao máximo a tarefa do leitor.
Dizia Miguel Torga que o universal é o local sem paredes. Lev Tolstói escreveu mesmo: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Ao longo dos últimos anos, sobretudo nos momentos de descanso, quer das actividades lectivas, quer de um longo e ciumento namoro que travo obsessivamente com o escritor Aquilino Ribeiro (1885-1963) há 11 anos, fui perscrutando Cid Teles e regressando regularmente à sua obra, como um filho que mata saudades da casa paterna, olhando para a imagem de uma velha e esmaecida fotografia.
Perscrutar Cid Teles, ousar colocar o poeta, o músico, o pintor autodidacta e o homem no xadrez da sua época, ajudou-me a compreender melhor a História do meu próprio concelho, Oliveira do Hospital. E ao estudar a História local foi também mais fácil enquadrar alguns aspectos da História nacional.
A História de um indivíduo cruza-se com a História do seu país e, por vezes, até mesmo com a História do próprio mundo (estou a lembrar-me, por exemplo, da I Guerra Mundial, na qual participaram tantos homens do concelho de Oliveira do Hospital). Tudo o que fazemos também é o produto das nossas circunstâncias. Ao interrogá-las é que compreendemos melhor o que somos e também o que nunca pudemos ser. Um esforço, afinal, fulcral para entender qualquer Homem e aprender a perdoar. O que não me impede, porém, de subscrever as palavras de Cid Teles, quando este afirma, nas suas Quadras Soltas, que a melhor biografia de qualquer autor se encontra nas suas próprias obras:

Se alguém desejar saber
O que foi a minha vida,
Leia meus versos, que neles
Eu lha deixo resumida.

O principal escopo destes artigos, cuja edição agora se inicia, é trazer de novo a debate a incontornável figura de Cid Teles, alertando para a importância do seu estudo, muito especialmente nas escolas do Ensino Básico e Secundário, bem como entre os próprios investigadores.
Vale sempre a pena regressar às obras do poeta. Vale mesmo a pena requisitar os seus livros na Biblioteca Municipal de Oliveira do Hospital (no Largo Ribeiro do Amaral) e rentabilizar os momentos de descanso, para revisitar o autor do notável e libertário soneto “Sou como sou”:

Sou como sou, e não me importo nada
Que este ou aquele não goste do que eu sou.
Sei o que quero, e aonde quero vou,
A passo firme e fronte levantada!


Amo essa mão estranha, ignorada,
Que do destino as linhas me traçou,
E dos outros diverso me tornou,
Dando-me esta alma inquieta de nortada!

Louco! Poeta! E que me importa a mim?
Tantos falando porque eu sou assim,
Tantos dizendo o que eu devia ser…

Sou como sou! E sinto até vaidade,
Quando posso gritar esta verdade:
Sou como sou, e assim hei-de morrer!

Vale a pena passar pelo memorial consagrado ao poeta, na Praceta Manuel Cid Teles, em Oliveira do Hospital, e determo-nos nas suas palavras. Afinal, sempre que regressamos aos locais por onde vagueou um poeta, os versos adquirem outro significado. O verbo faz-se sangue.
O património histórico de uma terra também se estende aos trilhos literários dos seus cidadãos e o vasto concelho de Oliveira do Hospital possui, neste âmbito, um prolífico e surpreendente conjunto de exemplos que bem merecem continuar a ser estudados e divulgados. Cid Teles é apenas um dos possíveis exemplos, para figurar nesse roteiro histórico-literário concelhio que tanta falta nos faz e para a elaboração do qual tão prementes seriam os comentários, as sugestões e as correcções de todos os leitores, rentabilizando, assim, as fantásticas oportunidades que as novas tecnologias podem abrir-nos. Por isso, caro leitor, não hesite e deixe também o seu testemunho pessoal a respeito de Manuel Cid Teles…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Os pais da exclusão: o choque de civilizações


O (escasso) debate entre David Rodrigues e Luís de Miranda Correia, no passado mês de Abril de 2018, a respeito das alterações previstas para a Educação Especial, entretanto já consumadas, não representou apenas o diálogo entre dois académicos consagrados, mas sim um choque de civilizações entre dois mundos antagónicos.
O decreto-lei n.º 54/2008, de 6 de Julho, eliminou a pedra angular da escola inclusiva em Portugal. De uma forma simplificada, vou procurar demonstrá-lo em vários pontos.
I – O novo decreto-lei é profundamente ambíguo. É de resto inaceitável que a recente publicação do “Manual de Apoio à Prática” não tenha esclarecido todas as dúvidas existentes, servindo apenas para demonstrar, se ainda subsistissem dúvidas, que estamos perante um amontoado de divagações teóricas e metodológicas, atravessadas pela estulta pretensão de criar um admirável mundo novo.
II – Pretendendo acabar com todas as categorizações, a legislação acaba, de uma penachada, com o conceito de alunos com “Necessidades Educativas Especiais”, prevendo a sua reavaliação, de modo a que sejam depois adoptadas novas medidas (universais, selectivas ou adicionais). No caso das medidas mais restritivas (selectivas e adicionais), a legislação prevê até que isso seja concretizado antes do início do próximo ano lectivo. O que se revelou de todo impossível.
III – Os Centros de Recursos para a Inclusão que até agora, através de vários protocolos, apoiavam os alunos com Necessidades Educativas Especiais, nas mais variadas valências (Terapia da Fala, Psicologia, Psicomotricidade, Fisioterapia…) poderão passar a actuar apenas nos casos mais graves (alunos que beneficiarão de medidas adicionais). A confirmar-se, isto representará uma poderosa machadada no direito de todas as crianças e jovens, sobretudo daqueles que provêm de famílias incapazes de suportar as despesas inerentes aos imprescindíveis apoios, que terão de passar a ser prestados em contexto exterior à escola.
IV – As incongruências que atravessam o novo diploma são evidentes, fruto da ignorância completa de quem o arquitectou em relação à realidade escolar. Dou um exemplo: a nova legislação prevê que os Centros de Apoio à Aprendizagem promovam e apoiem “o acesso ao ensino superior”. Mas se estes Centros estão reservados a crianças e jovens com dificuldades significativas na aprendizagem, que exigem a mobilização de medidas que comprometem as aprendizagens essenciais (antigos Currículos Específicos Individuais), como é que se pode prever uma tal situação? Isto não é apenas uma utopia, é alimentar falsas expectativas, sobretudo junto de famílias que tantas batalhas travam no quotidiano. Falsas expectativas que poderão ajudar a criar crianças e jovens mais infelizes e desajustados do ponto de vista emocional, porque repetidamente obrigados a tentar ser doutores, quando, na realidade, necessitam, sobretudo, de desenvolver competências específicas que os ajudem a ser autónomos e desenvolver o seu próprio potencial.  
V – A nova legislação e os seus arautos arvoram-se nos verdadeiros defensores da inclusão, mas não verdade são os seus coveiros. São os pais da exclusão. As suas teorias eivadas de uma linguagem hermética, gongórica, parecem incluir tudo, mas na verdade não dizem nada de substantivo. Acabaram-se as categorizações – proclama David Rodrigues e Tiago Brandão, que preside ao Ministério Fantasma, apressa-se a assinar por baixo. Doravante, deixarão de existir alunos com Necessidades Educativas Especiais! Todavia, muito brevemente, os alunos voltarão a ser avaliados por uma “Equipa Multidisciplinar” e em função dos vários elementos serão definidas as medidas, mais ou menos restritivas, entendidas como pertinentes. Isto também não é categorizar? Eis um diploma repleto de tantas palavras novas para recuperar teorias velhas, redigido de uma forma suficientemente ambígua para permitir quase tudo e o seu contrário. O que pode revelar-se extremamente pernicioso, nestes estranhos tempos em que vivemos, em que quase nada é o que realmente parece. Caso não prevaleça o bom senso…
VI – Jamais poderá existir um efectivo trabalho de inclusão enquanto as salas de aulas estiverem sobrelotadas com 25 ou 30 alunos. Trabalho “multinível”, de outro modo, é um eufemismo, por muito que os teóricos do pós-modernismo (e da “pós-
-verdade” socrática!) defendam o contrário. Essa é uma das prioridades para a efectiva inclusão, para a qual não é necessário desperdiçar dinheiro em equipas de teóricos a preparar mais e mais legislação.
VII – No seu artigo “Aprofundar a inclusão com o que se sabe”, dado à estampa no Público, em 18 de Abril de 2018, David Rodrigues lançou a seguinte farpa a Luís de Miranda Correia: “Há, enfim, pessoas que perderam o comboio, mas, mesmo assim, acham que estão a viajar em primeira classe”. O professor David Rodrigues faz, portanto, parte dessa elite do futuro, desse mundo de progresso, desse admirável mundo novo da inclusão, enquanto os outros, como Luís de Miranda Correia, representam apenas uma sombra do passado. O problema, caro David Rodrigues, é que sempre que o Homem procurou eliminar tudo o que o precedia e insistiu em construir esse tal mundo novo nasceram monstruosidades. Infelizmente, caro David Rodrigues, tenho fortes argumentos para acreditar que a sua inclusão e dos quejandos teóricos que o acompanham, pacientemente forjados nesse labiríntico trilho das ciências da educação em que estamos embrenhados, faz parte dessas monstruosidades. Aquando da consulta pública do projecto da actual legislação atrevi-me a sugerir: “a proposta apresentada deveria ser pura e simplesmente ignorada, abrindo um período para ouvir os docentes que trabalham na área, de modo a introduzir alterações cirúrgicas num dos mais importantes pilares da escola inclusiva em Portugal”. Hoje, apesar de reconhecer pontuais aspectos positivos que a nova legislação possa trazer (caso de uma maior uniformidade ao nível do processo de certificação de competências de todos os alunos aquando da saída do sistema educativo), hoje, repito, voltaria a subscrever aquelas palavras, mas ainda, se possível, com maior convicção.
            VIII – Dificilmente – atrevo-me a arriscar – a nova legislação agora divulgada será aplicada na Região Autónoma dos Açores (RAA). O “Grupo de Trabalho” criado pelo despacho n.º 7617/2016 para gerar o novo diploma teria evitado muitas canseiras, despesas e asneiras se tivesse começado, por exemplo, por estudar afincadamente a legislação promulgada a nível da RAA a respeito da Educação Especial. Talvez assim os seus membros tivessem percebido que o anterior decreto-lei n.º 3/2008 precisava apenas, reforço, de alguns retoques e não de ser eliminado.
            XI – Os professores estão (continuam) em luta. Tal como os polícias, os profissionais da saúde… tal como o país inteiro deveria estar em luta. Um combate justo, num momento em que se destrói o que de melhor existe no sistema público nacional e, simultaneamente, se continuam a desperdiçar milhões e milhões. É fundamental que os motivos que desencadeiam essas lutas cheguem à população, para além das simples (embora justas) reivindicações salariais e de contagem integral do tempo de serviço prestado. No caso do Ensino, é fundamental que as pessoas compreendam que os professores necessitam de ter tempo para continuarem a aprender, para depois ajudarem os alunos a pensar. É fundamental que a Escola passe a ser um local democrático (os órgão directivos não podem continuar a ser nomeados), que os programas curriculares sejam ajustados e adequados à faixa etária dos alunos, que haja tempo para aprender a reflectir, ler, escrever, calcular. É fundamental que todos os profissionais sejam reconhecidos e respeitados. É fundamental que o país compreenda que, por muitos IP3’s que se modifiquem, injectando milhões e milhões para engordar determinados indivíduos, continuarão a morrer pessoas nas estradas enquanto os cidadãos não desenvolverem outra consciência cívica. E que para isso, mais do que uma política de melhoramentos materiais, é fundamental investir numa política educativa séria e rigorosa.    
            “– Diz-me o berço em que nasceste, dir-te-ei onde chegarás”: será esta a máxima que queremos deixar aos historiadores do futuro que estudarem a nossa época, plena de palavras democráticas e inclusivas, mas esvaziadas de qualquer significado?
Os admiráveis mundos novos acabam quase sempre por recuperar o lado mais negro da História. Uma das grandes dificuldades em identificá-los é que na actualidade aparecem quase sempre travestidos com palavras de civilização, caso da inclusão…
Quanto menos nos preocuparmos agora, maior será a factura que pagaremos nas próximas décadas.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

quinta-feira, 5 de julho de 2018

A História dá lições?

Há alguns meses, sem aviso prévio, entrou-me pela casa um senhor na casa dos 90 anos. A residir há mais de quatro décadas em Espanha, vinha agora a Portugal com o grande objectivo de revisitar o típico edifício beirão de granito onde tinha nascido e que, por mera coincidência, hoje se encontra na posse da minha família. O brilho no seu olhar, enquanto ouvia desfiar um conjunto de memórias a respeito dos falecidos pais, levou-me a reviver o meu próprio interesse pela História.

À medida que envelhecemos, há uma tendência geral para regressar com maior regularidade às memórias de infância. Essa interminável saudade por um tempo onde tudo parecia possível e eterno anda de braço dado com a necessidade, cada vez mais premente, de compreender um pouco melhor o que somos (e talvez até mesmo o que nunca pudemos ser).

Na recta final da vida, aquele homem regressava ao ponto de partida, como quem busca no álbum de fotografias familiares a imagem mais remota da sua própria existência, insistindo, por conseguinte, em recordar o que o tempo teima em apagar. Trata-se, afinal, de uma tentativa para reconstruir uma narrativa que confira algum sentido à vida ou ao que resta dela. Uma ilusão sem a qual tudo se tornaria insuportável.

Ora, quando se estuda História sentimo-nos menos sós, não só porque compreendemos que representamos apenas mais um grão de areia num imenso deserto, mas também porque aprendemos que a vida de cada indivíduo apenas adquire sentido em função do que fazemos pelos outros.

Porém, existe hoje uma tendência para esvaziar a História do seu pendor narrativo, transformando-a num discurso teórico e hermético, de tal modo abstracto que o indivíduo é frequentemente subalternizado. Mas mais do que isso, vigora uma tendência para sustentar que a História não dá lições. 

É contra esta concepção de uma disciplina supostamente expurgada de valores e ensinamentos que eu, frequentemente, me insurjo. Afinal, se existe alguma área do conhecimento que pode ajudar os indivíduos a pensar pela própria cabeça, essa disciplina é precisamente a História. Não só porque nos demonstra, com recurso a exemplos concretos, que as circunstâncias de cada indivíduo são importantes, mas também porque nos ensina que cada Homem pode ultrapassar os seus próprios constrangimentos geográficos, familiares, financeiros... Entre outras, eis as ferramentas que a História permite desenvolver:
– estruturar o pensamento e construir uma narrativa organizada e sequencial, o que, neste era do caos da informação que inunda as redes sociais, constitui uma ferramenta fundamental para aprender a separar o essencial do acessório, a verdade da mentira;
– fomentar a empatia, uma condição essencial para compreender melhor o outro;
– criar um espírito de humildade, o que também equivale a dizer aprender a estar calado, aprender a ouvir, antes de avançar com a defesa de qualquer ideia;
– consolidar a noção de interdependência ética com todos os seres, num permanente, complexo e demorado processo evolutivo;
– ter consciência da finitude de todos os processos, incluindo, claro está, da própria vida pessoal;
– aprender a interrogar o meio envolvente e as circunstâncias da sua própria época (afinal, o historiador começa a construir-se dentro da sua casa e junto da comunidade local). A História ajuda-nos a edificar uma perspectiva mais ampla da “atmosfera do nosso agir” (Antero de Quental), levando-nos a procurar ir para além da espuma dos acontecimentos;
– reconhecer que os cogumelos não nascem ao acaso, estes necessitam sempre de determinadas circunstâncias favoráveis para proliferarem;
– compreender melhor as opções político-ideológicas em que nos situamos e as alternativas, de facto, existentes, o que também equivale a dizer aprender a vigiar o que fazemos, dizemos ou pensamos. E que as reacções inconscientes podem ser indícios tão ou mais importantes do que todas as opções pacientemente reflectidas. E aqui não posso deixar de recuperar as sensatas palavras de Umberto Eco: “O Ur-Fascismo ainda paira à nossa volta, às vezes em trajos civis. Seria tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: «Quero reabrir Auschwitz, quero que as camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!» Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-Fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes” (Como reconhecer o Fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, Lisboa, Relógio D’Água, 2017, p. 29).
Quem diz que a História não dá lições pretenderá, talvez, dizer que as suas ferramentas dificilmente nos poderão ajudar a ganhar muito dinheiro ou assumir outro tipo de preponderância social. E sobre isso não tenho qualquer dúvida. Em sentido inverso, penso que poucas ciências como a História poderão ajudar-nos a construir um mundo efectivamente mais justo e sustentável, pelo que o seu estudo constitui, em si mesmo, uma forma privilegiada para construir uma consciência cívica e um pensamento crítico original, ferramentas que tanta falta fazem nos estranhos tempos digitais em que vivemos.
Sim, a História pode dar lições. A quem saiba ouvi-las e interrogá-las… 

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A síndrome de Javert e o espírito de Abril

Javert, o icónico inspector do romance Os Miseráveis, escrito por Victor Hugo no século XIX, era um racionalista obcecado em fazer cumprir a lei. Daí a encarniçada perseguição movida a Jean Valjean, um ex-condenado das galés por ter cometido o crime de roubar um pão para matar a fome dos familiares.
Javert é, porém, também ele o produto das suas circunstâncias. Filho de uma prostituta, nasceu numa prisão, acabou por entrar para a polícia e ascender ao posto de inspector. Temido por todos os prevaricadores, era impiedoso. Afinal, o binóculo pelo qual fora formatado para ver o mundo tinha apenas duas cores: o branco e o preto, os bons e os maus.
As sociedades capitalistas pós-industriais especializaram-se em criar homens e mulheres à imagem de Javert. E a burocracia tornou-se uma via privilegiada para produzir escravos em série. Afinal, de tão atarefados com resmas e resmas de papéis, estatísticas, relatórios e mais relatórios, os funcionários públicos, em especial, são progressiva, mas, irreversivelmente, anulados pelo cansaço. Depois, os pequenos ditadores que para aí proliferam nos mais variados sectores da sociedade encarregam-se de limar as arestas, com os “safanões a tempo” servidos nos gabinetes:
“Olhe o seu emprego… Tem filhos, não tem?! Pois seria uma pena ter de enfrentar um processo…”
É evidente que, no caso de Portugal, o antes e o pós-25 de Abril é incomparável. Para melhor, esclareça-se. Por muitas lacunas que se apontem ao actual sistema tendencialmente democrático é inquestionável que se registaram progressos incomensuráveis. A simples edição deste texto é apenas uma das provas.
Todavia, importa não deixar de ter presente que a sociedade portuguesa coetânea é atravessada por um conjunto de reinos políticos, financeiros, administrativos, educativos e culturais, nos quais proliferam um conjunto de pequenos ditadores. Travestidos de um linguajar pseudo-democrático, servem-se, no entanto, de um conjunto de mecanismos subliminarmente censórios e repressivos para impor as suas decisões, quase sempre catastróficas para o bem do país, mas excelentes para o seu alucinante trajecto pessoal até ao topo da pirâmide. Sócrates foi apenas um exemplo.
A burocracia, que ajuda a justificar tantos lugares inúteis para os amigos da situação, transformou-se também numa poderosa via para criar carneiros. Narciso olhava-se ao espelho, os novos funcionários do Estado olham-se cada vez mais envaidecidos em frente aos arquivos pomposamente organizados, para, talvez, um dia os senhores inspectores analisarem. O resto, como quem diz cuidar dos doentes ou cultivar os alunos, são apenas detalhes de somenos importância, a respeito dos quais não se pode perder muito tempo.
A personagem de Javert dos Miseráveis sempre me fascinou. Cada vez mais revejo nela o percurso contemporâneo de tantos Homens, progressivamente transformados em escravos da lei pelo sistema em que vivemos. Incapazes de compreender as malhas em que estão enredados vislumbram como hereges ou incompetentes todos aqueles que não cumprem essas rotinas divinas.
Recordar Abril uma vez por ano já não chega. É fundamental ousar viver diariamente dentro do seu espírito. Perseguindo a liberdade e construindo a democracia. O que também implica aprender a relativizar a importância das tarefas burocráticas e ousar erguer a voz perante as injustiças, tal como inúmeros oposicionistas o fizeram ao longo do Estado Novo.
A prática de uma ética inspirada em Miguel Torga faz-nos falta, mais do que uma simples obsessão pelo cumprimento da lei, tantas vezes formulada por ignorantes ou estrategas da conveniência. A escolha entre Javert e Jean Valjean é uma necessidade. Caso contrário, quando um dia, já na recta final da vida, olharmos para trás, iremos, muito provavelmente, sentir, tal como o inspector Javert, as pernas a tremer perante o sentido da vida. E será tarde de mais.
As palavras de Pablo Neruda ajudam-nos também a recuperar parte do significado de Abril:
“Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece”.
Abril faz-nos falta porque os ditadores continuarão sempre a precisar de evangelizar mais escravos. E não há algemas ou muros que resistam à liberdade de pensamento…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sábado, 24 de março de 2018

Ser Pai

Ser pai é um sentimento maravilhoso. É a continuação de um amor sem limites que esbarra num sorriso daquele ser que se tornou na coisa mais importante das nossa vidas. Ouvir a palavra papá e reconhecer no seu olhar a vontade de estarmos juntos. Gosto tanto de Ti meu filhote

A morte do silêncio


Confessou-me recentemente um octogenário, com o qual tenho vindo a aprender outro significado de ser jovem:
            “– Grande parte do que sou fica a dever-se ao romance de Máximo Gorki, A Mãe. Foi com ele que abri os olhos para começar a compreender o mundo”.
            Como se pode calcular, depois de chegar a casa, não resisti e mandei vir o revolucionário livro do escritor russo. Cerca de uma semana depois, ultrapassada a última página, senti que conseguira compreender um pouco melhor o percurso cívico daquele homem de longos cabelos brancos, nascido na década de 30, atraído pela ideologia comunista na luta contra o Estado Novo. Um autodidacta, a quem a vida roubou a possibilidade de estudar de modo formal, mas, ainda assim, sempre marcado por uma vontade imensa em compreender e transformar a sociedade em que vivia. Por isso, nunca se cansou de criar bibliotecas públicas, de dirigir e colaborar nas mais variadas instituições culturais da comunidade local, de praticar desporto, escrever, ler, conviver...
            Ora, dificilmente se poderá hoje compreender um indivíduo sem conhecer de antemão os livros que mais o marcaram, bem como as grandes referências universais da sua vida ou, por exemplo, as relações interpessoais que travou. Serve isto para tentar dizer que, nesta era do digital, um dos grandes desafios que se coloca à Escola é conseguir voltar a colocar os livros nas mãos dos seus alunos. E a partir da leitura promover depois momentos de partilha oral e escrita (neste último caso, os jornais escolares constituem uma ferramenta fulcral). O que pressupõe tempo para amadurecer as ideias e aprender a não ter medo de errar e ousar pensar. Sem erro não pode haver pensamento.
            Os jovens portugueses não têm hoje menos capacidades do que os seus homónimos do passado. Antes pelo contrário. O problema é que as crianças e os jovens de hoje são o fruto de uma época em que o sistema educativo, logo no primeiro ciclo (antiga “Escola Primária”), foi transformado na antecâmara da universidade. Eles são o fruto de uma época alucinante, atravessada pela pandemia das dependências digitais, que recorrentemente matam o tempo e o silêncio, pré-requisitos fundamentais ao pensamento, à criatividade e à criação de efectivos laços interpessoais.
            Enquanto aluno e professor, as experiências que mais me marcaram resultaram quase sempre de estratégias aparentemente simples, mas muito bem planeadas. Uma delas, que nunca mais vi replicada, consistia em consagrar no calendário um dia da semana à leitura. Assim, no âmbito da disciplina de Português, os alunos saíam da sala em pequenos grupos, dirigiam-se à biblioteca e depois de requisitarem um livro, à sua escolha, regressavam à sala, onde permaneciam o resto do tempo, simplesmente, em silêncio, a ler. Cerca de dez minutos antes de soar a campainha, iam devolver as obras e na aula seguinte apareciam com um breve texto ou um desenho inspirados na leitura realizada. A dinâmica foi ensaiada pelo professor logo nas aulas iniciais, com a imposição de regras muito claras, e a verdade é que ao longo de todo o ano lectivo nunca se registou qualquer incidente. Excepções, dirão os mais pessimistas…
            Dou por mim muitas vezes a pensar que o historiador do futuro, que um dia se debruce sobre a nossa época e o sistema educativo em particular, ficará, por certo, admirado com a nossa ambição em criar professores universitários logo no primeiro ciclo. A quantidade e a densidade de conteúdos são de tal modo avassaladoras que as explicações extra-curriculares são cada vez mais uma necessidade, logo a partir do 1.º ano. Não, não exagero! Infelizmente, o sistema educativo é cada vez mais um meio de perpetuar o poder das classes privilegiadas (Pierre Bourdieu) e transformar a pobreza numa herança quase irreversível.
            Esta é, porém, apenas a ponta de um icebergue, ou seja, um elo de uma tendência muito mais vasta, da qual não se pode dissociar a aberração do Novo Acordo Ortográfico, cujos malabaristas socráticos deixaram há muito, curiosamente (ou talvez não), de abençoar publicamente o “admirável mundo novo” que ajudaram a criar (leia-
-se, o caos do “aspeto”, da “ata”, das “endorreativas”, do “perentório”, do “infantojuvenil” e quejandas preciosidades que para aí circulam).
O monstro, é certo, não reside apenas em Portugal, ele estende os seus tentáculos, pelo menos, à chamada cultura ocidental. E se há alguma palavra que pode definir esse movimento ela terá de ser a indiferença.
            Deste crescente isolamento cívico, numa época obcecada em matar o silêncio e o vazio, decorre uma progressiva campanha de morte ao pensamento. E se as pessoas reflectem cada vez menos, há também uma crescente dificuldade em separar o essencial do acessório, a verdade da mentira. Esvaziado das ferramentas que poderiam ajudar cada indivíduo a construir, em função do outro, a sua própria narrativa para conferir sentido à existência, o indivíduo entra num círculo vicioso de esquecimento.
            Esquecer torna-se o resultado quase inevitável de um processo vertiginoso. E quando, pelas mais variadas circunstâncias da vida (v.g., morte de um ente querido), o sujeito entra em confronto com esse vazio, tende rapidamente a preenchê-lo, entretendo-
-se, ou seja, distraindo-se de si mesmo. Por isso é que muitos jovens já não conseguem viver afastados do smartphone. A vertigem provocada pelo vazio do abismo à frente dos pés tornar-se-ia insuportável.
            Vários autores, como Habermas, invocaram o conceito de “presentismo” para sustentar, em traços gerais, que o Homem contemporâneo, desligado do passado e do futuro, vive apenas no seu instante imediato. Segundo creio, a tendência mais geral é para que o indivíduo assuma uma experiência ainda mais radical com o tempo: ausentando-se, numa espécie de alienação permanente.
            Vivemos na era da indiferença, o produto de uma época progressivamente esvaziada de referências, horrorizada pelo silêncio e temerosa do pensamento próprio (os comentadores que para aí proliferam são pagos para pensar pelos outros).
            Regressar aos livros e, em especial, aos grandes clássicos é uma das opções para colocar alguma ordem nessa estrada da morte, onde ainda circulamos quase todos de olhos vendados. E numa época com tanta transformação científica e tecnológica, marcada pela aceleração do tempo, urge aprender a abrandar, “ouvir” e interrogar o silêncio, sem o qual a vida, sublinhe-se, perderia grande parte do significado…
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Da I República ao Estado Novo: um estudo de referência

Luís Bigotte Chorão deu à estampa, em 2009, A crise da República e a Ditadura Militar, estudo que lhe permitiu obter o Doutoramento em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Com um total de 960 páginas, o livro encontra-se estruturado em duas partes: na primeira, o historiador reflecte sobre os motivos que estiveram na origem da crise da I República (1910-1926), enquanto na segunda parte procura compreender o modo como a Ditadura Militar (1926-1933) colocou ao seu serviço os instrumentos jurídicos, destacando-se a este respeito a acção do Ministro da Justiça e dos Cultos Manuel Rodrigues Júnior. Trata-se, afinal, de um conjunto de aspectos fundamentais para compreender as circunstâncias que conduziram ao Estado Novo (1933-1974).
            Sem ter a estulta pretensão de querer resumir aqui quase 1000 páginas de um estudo monumental, sério e minucioso, partilha-se de imediato algumas ideias, mais com o objectivo de incentivar a leitura do trabalho em causa.
            I – A obra tem subjacente um esforço meritório, quer no que diz respeito ao levantamento das fontes primárias, quer ao nível dos estudos já realizados. Abrange o espaço nacional (continental e insular), não integrando as colónias. Constitui, por conseguinte, um trabalho de referência para todos aqueles que se proponham estudar, em especial, o período nacional balizado entre 1910 e 1933.
            II – Do ponto de vista editorial, teria sido importante condensar as ideias, de modo a dar à estampa uma obra mais acessível ao grande público, com um tempo médio disponível para a leitura (infelizmente) cada vez mais reduzido. Não se justifica de todo a existência de notas de rodapé e citações com a extensão das que são apresentadas. Mesmo pensando num nicho de especialistas, teria sido preferível proceder a um trabalho de síntese e disponibilizar depois, em jeito de apêndice documental, uma amostra de elementos considerados pertinentes. Esse exercício permitiria libertar o texto principal de dados acessórios, que em nada contribuem para uma leitura fluente e para uma compreensão cabal das ideias do autor. E aqui referimo-nos, sobretudo, às teses que Bigotte Chorão pretendeu demonstrar, e que nem sempre são claras. Por vezes, o leitor sente-se de tal modo embrenhado nos inúmeros acontecimentos descritos que se revela muito difícil não perder a visão de conjunto.
            III – Segundo Bigotte Chorão, a I República criou, logo na sua fase inicial, as condições propícias para a sua posterior “decadência”. Aos factores habitualmente invocados nos manuais de História (v.g., ataques dos monárquicos à I República; perseguições aos católicos levadas a cabo pelos republicanos, sobretudo na fase inicial; inexistência do sufrágio universal; contexto de atracção pelos modelos autoritários/totalitários europeus; consequências da participação de Portugal na I Guerra Mundial), Bigotte Chorão associa ainda a “inutilização” do Presidente da República. Ou seja, segundo este historiador (jurista, de formação base), o facto de o Presidente não possuir o poder moderador (que lhe permitiria dissolver as câmaras) teria contribuído para que fosse incapaz de resolver a instabilidade política, que depois conduziria à sucessiva queda dos governos. Todavia, importa dizer que esta tese, embora tentadora, não nos parece de todo bem fundamentada, até porque existiram outras circunstâncias que também contribuíram para a crise da I República e que não são invocadas pelo aludido historiador. Desde logo, a falta de uma alargada base social de apoio do novo regime implantado em 1910 (João Medina recupera a este respeito o sintomático fenómeno da “adesivagem”, que lhe permite sustentar uma “República frustrada ao nascer”).
            IV – Bigotte Chorão esforça-se por destacar a ideia segundo a qual a Ditadura Militar não começou com Salazar, sendo que este apenas influenciou, verdadeiramente, os acontecimentos a partir de 1928, enquanto Ministro das Finanças, e sobretudo após 1932, na qualidade de Presidente do Conselho. Não se trata de todo de uma tese original, embora nos pareça de facto muito pertinente alertar para a importância de separar os conceitos de Ditadura Militar, Ditadura Nacional e Estado Novo. Algo que nem sempre sucede, pois até Irene Flunser Pimentel – uma das historiadoras contemporâneas nacionais mais consagradas – pretendeu abranger todo o período de 1926 a 1974 sob o título História da Oposição à Ditadura. Outrossim, a chamada de atenção a respeito da acção nevrálgica desempenhada por Óscar Carmona também merece realce.
            V – Na segunda parte do seu estudo, Bigotte Chorão, enquanto jurista de formação base, detém-se na acção de Manuel Rodrigues Júnior, na qualidade de Ministro da Justiça e dos Cultos (1926-1928) e como Ministro da Justiça, já durante o Estado Novo salazarista. Esta tentativa de fazer dialogar a História e o Direito afigura-
-se-nos muito pertinente, embora a especificidade de determinadas matérias abordadas torne, por vezes, o discurso demasiado hermético. Num estudo desta extensão, ter-se-ia justificado, como já escrevemos, um esforço de síntese, bem como a introdução de momentos de paragem, nos quais se fossem apresentando as principais conclusões e apontando as ideias a testar nos capítulos seguintes. A introdução de algumas notas biográficas a respeito de Manuel Rodrigues Júnior, logo a abrir a parte II, teria sido bastante útil para o leitor.
            VI – Em jeito de síntese, a obra resulta de um esforço hercúleo, divulga aspectos inovadores, é apresentada numa edição muito cuidada (quase expurgada de gralhas) e contribui para renovar a perspectiva vigente sobre o complexo período abordado. E aqui não poderemos deixar de recuperar a tese segundo a qual teriam sido as próprias desinteligências entre os vários grupos que fizeram o 28 de Maio de 1926 a justificar depois a sobrevivência do regime ditatorial (uma ideia claramente alicerçada na própria Biologia, que há muito vem demonstrando a importância da diversidade). Enfim, para o bem e para o mal, o estudo aqui recenseado faz já parte de um tempo pretérito, no qual as investigações conducentes à obtenção de um grau académico implicavam a reunião de centenas ou mesmo milhares de páginas, nas quais, no entanto, nem sempre era evidente a tentativa do autor em manter-se focado nas teses essenciais a demonstrar. Esta é, segundo cremos, a principal desvantagem desta obra de referência para todos aqueles que se interessam por este período. 

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Volta a um Portugal sem livro de instruções-Álvaro Domingues

Como o irmão mais novo que pega nos velhos guias de Portugal lá de casa e rasga as páginas de fotografias bonitas, estragando os planos para as férias, o geógrafo de A Rua da Estrada e de Vida no Campo oferece-nos agora uma Volta a Portugal, sem bicicleta nem manual de instruções. Como já escreveu Miguel Esteves Cardoso nas páginas deste jornal, um "livro fulminante, que é urgente ter à mão"

Link do Público: 
https://www.publico.pt/2017/12/31/sociedade/entrevista/roteiro-por-um-pais-em-dissonancia-com-a-imagem-que-temos-dele-1797476

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Conto de Natal – A porta secreta

“– Meu filho! Já viste bem todas as prendas que o Menino Jesus te deixou este ano? Olha, por exemplo, esta aqui…” – indicou António ao pequeno Diogo.
            “– Parece uma caixa. E há coisas a abanar lá dentro!”
            “– Vamos abrir” – e abriram.
            Dentro do embrulho, um tabuleiro de xadrez. Diogo, com uma mão a segurar o inseparável smartphone e a outra a agarrar o novo brinquedo, deixou escapar um breve suspiro de desalento. Nesse momento, o pai decidiu voltar à carga:
            “– Sabes, quando eu tinha mais ou menos a tua idade, descobri que nesta casa havia uma passagem secreta. Uma porta escondida…” – e Diogo nem o deixou concluir a frase. Agarrou-se-lhe à perna e reclamou:
            “– Onde é? Para onde vai? Leve-me lá!” – sorrindo, António segurou-o pela mão e fez-lhe sinal para se sentar. A “lição de Sissa” iria começar...
            “– Olha, isso vais ter de ser tu a descobrir. E a resposta encontra-se dentro deste tabuleiro de xadrez”.
            Depois, enquanto retiravam os últimos papéis que escondiam a caixa, o pai foi explicando:
            “– Hoje, vamos fazer um duelo. Peças brancas contra as peças negras. Como se fosse uma guerra…”
            “– Mas, pai… os homens brancos e os homens negros são inimigos?”
            “– Não, meu filho! Hoje, já não são. A cor da nossa pele não interessa para nada. Todavia, há alguns séculos atrás, os homens brancos fizeram escravos muitos homens negros”.
            “– Olhe, pai, se eu pudesse mandava pintar as peças. Seriam azuis contra vermelhos!”
            “– E deixa-me adivinhar… tu ficavas sempre com os vermelhos, certo?” – riram em uníssono.
            Na verdade, António ficou com as peças negras e Diogo com as brancas (depois de saber quem começava a jogar, o menino nem hesitou na escolha!). Entrementes, o pai disse:
            “– De todas as tuas peças, existe uma que tem de ser sempre muito bem protegida: é o rei”. Ao ouvir isto, o menino sentenciou:
            “– Então, eu sou o rei! Sou o mais importante”.
            Nessa altura, o pai desabafou:
            “– Sabes, quando tu nasceste passaste a ser o rei desta casa. Eu e a tua mãe começámos a viver em função de ti” – e Diogo ria-se de orelha a orelha.
            Logo a seguir, António esclareceu o valor de cada peça e o modo como se movimentavam:
            “– A rainha vale 9 peões. Pode avançar em todas as direcções. A torre vale 5, anda sempre a direito – na horizontal e na vertical. O cavalo vale 3 peões, movimenta-se em “L”. O bispo também vale 3 peões, mas anda e captura na diagonal…” – e por aí fora, sempre com as peças a saltarem no tabuleiro de um lado para o outro, sob o olhar atónito do menino.
            Às duas por três, quando já estavam no meio da primeira partida, muito lentamente, o pai foi capturando uma a uma todas as peças do menino. Quando apenas lhe restava em cima da mesa o amedrontado rei, o pai desafiou-o:
            “– Vá! Podes jogar”. Diogo, quase a soluçar, atirou:
            “– Mas… assim não é justo! Estou sozinho e ninguém me pode defender”.
            Sorrindo, o pai devolveu-lhe os peões, perguntando:
            “– Estás mais satisfeito?”
            “– Sim, mas ainda não tenho as minhas torres, os bispos, os cavalos…”
            “– Então, meu filho, qual é a tua peça mais importante?”
            “– Todas são importantes, pai!”
            “ Olha, há quem diga que foi esta a lição que um indiano chamado Sissa quis ensinar a um rei muito mau. Não sei se é verdade ou mentira, mas há até quem acredite que foi ele que inventou o xadrez. Certo, certo é que esta é uma lição valiosa para todos nós…”
            Nessa altura, a mãe chegou à sala. Vinha chamá-los para o jantar. Ao olhá-la, o pai não resistiu e exclamou:
            “– Olha, filho, e ainda te faltava a rainha!” – Dona Maria não compreendeu, mas sorriu delicadamente, ao perceber que falavam dela.
            Logo depois, já à mesa, o menino voltou à carga. Queria mesmo saber onde se encontrava a tal porta misteriosa. Como se já não bastasse a ansiedade do miúdo, a mãe ainda ajudou à festa:
            “– António! Lá andas tu a ensinar coisas perigosas ao nosso filho! Eu já te disse que essa porta é só para os adultos”. Os olhos de Diogo pareciam prontos a saltar para fora das órbitas.
            Quando se levantaram os últimos pratos da mesa, foram todos até ao presépio. Debruçados sobre o berço, António perguntou:
            “– Diogo, quem é a personagem mais importante do nosso presépio?”
            O menino ainda hesitou, mas lembrou-se da lição do xadrez e respondeu:
            “– O menino é o nosso rei. Mas sem os pais, os animais, as estrelas, os reis magos… o que seria dele?” – os pais entreolharam-se. A noite de Natal estava quase a findar, mas o mais importante ainda vinha a caminho...
            Então, o pai ajoelhou-se junto à manjedoura do Menino e começou a contar-lhe o segredo da porta desconhecida.
            “– A tua bisavó Maria era, como sabes, a minha avó. Um dia, quando eu tinha mais ou menos a tua idade, ela disse-me que nesta casa havia uma porta secreta que dava acesso a um mundo maravilhoso. Ora, quando eu ouvi essa história, fiquei de tal modo curioso que passei a noite em claro, sem dormir. Vasculhei cada recanto desta casa, examinei com todo o cuidado todos os lugares, mas a verdade é que não consegui encontrar o mais pequeno sinal da tal porta mágica. Desanimado, deitei-me em cima da cama e chorei como nunca tinha chorado.
Logo pela manhã, a tua bisavó, uma das pessoas mais inteligentes que conheci em toda a vida, reparou nas minhas olheiras, serviu-me o pequeno-almoço e abraçou-me (nunca esquecerei aqueles abraços). Deitado no seu regaço pude então ouvir esta maravilhosa história:
            “– Seu tontinho… a porta sobre a qual te falei é a porta da sensibilidade. É uma espécie de ferida aberta que apenas algumas pessoas se podem orgulhar de possuir. É um dom”.
            “– E para que serve essa ferida, avó?”
            “– Essa ferida boa ajuda-te a ver melhor o mundo: a chorar com aqueles que choram, a sofrer com aqueles que sofrem; a ver o que os outros tantas vezes não vêem. Sim, faz doer, mas apenas para te ajudar a compreender…”
            Intrigado, voltei à carga:
            “– E isso é importante, avó?”
            “– Muito, meu netinho! Ajuda-nos a criar um mundo melhor!”
            Ao proferir aquelas derradeiras palavras, o pai voltou-se novamente para o filho, fixando-o ternamente, olhos nos olhos:
            “– Sabes, meu rei, quando tu nasceste, essa porta de que falava a tua bisavó voltou a abrir-se dentro desta casa. E foi a primeira vez, desde que a tua bisavó morreu – já lá vão mais de 20 anos –, que voltámos a fazer o presépio. Que voltámos a sentir o Natal” – e as lágrimas iluminavam-lhe a face.
            Quanto ao menino, bem pequenino como todos os meninos, olhava ternamente os pais, talvez sem compreender muito bem o sentido exacto de todas aquelas palavras – os poemas que, ao longo da vida, nos escapam pelas mãos!
            Talvez um dia, bem lá no futuro, aquele menino recordasse aquelas palavras e decidisse até recontá-las ao seu próprio filho. E talvez dissesse que foi naquela longínqua noite que a porta secreta se abriu, pela primeira vez, mesmo à sua frente. A tal porta secreta que o Natal nos ajuda a recordar e a nunca deixar fechar. Por muito que as pedras afiadas inundem as calçadas por onde vagueamos.
            Afinal, apesar de todas as cinzas que acumulamos nas mãos, quando Dezembro ecoa nas ruas e as luzes cintilam dentro de nós, tudo volta a ser possível. É através dessa ferida aberta, da qual brotam as lágrimas que nos lavam por dentro, que chega até nós o sentido do Natal...

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)