segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Os pais da exclusão: o choque de civilizações


O (escasso) debate entre David Rodrigues e Luís de Miranda Correia, no passado mês de Abril de 2018, a respeito das alterações previstas para a Educação Especial, entretanto já consumadas, não representou apenas o diálogo entre dois académicos consagrados, mas sim um choque de civilizações entre dois mundos antagónicos.
O decreto-lei n.º 54/2008, de 6 de Julho, eliminou a pedra angular da escola inclusiva em Portugal. De uma forma simplificada, vou procurar demonstrá-lo em vários pontos.
I – O novo decreto-lei é profundamente ambíguo. É de resto inaceitável que a recente publicação do “Manual de Apoio à Prática” não tenha esclarecido todas as dúvidas existentes, servindo apenas para demonstrar, se ainda subsistissem dúvidas, que estamos perante um amontoado de divagações teóricas e metodológicas, atravessadas pela estulta pretensão de criar um admirável mundo novo.
II – Pretendendo acabar com todas as categorizações, a legislação acaba, de uma penachada, com o conceito de alunos com “Necessidades Educativas Especiais”, prevendo a sua reavaliação, de modo a que sejam depois adoptadas novas medidas (universais, selectivas ou adicionais). No caso das medidas mais restritivas (selectivas e adicionais), a legislação prevê até que isso seja concretizado antes do início do próximo ano lectivo. O que se revelou de todo impossível.
III – Os Centros de Recursos para a Inclusão que até agora, através de vários protocolos, apoiavam os alunos com Necessidades Educativas Especiais, nas mais variadas valências (Terapia da Fala, Psicologia, Psicomotricidade, Fisioterapia…) poderão passar a actuar apenas nos casos mais graves (alunos que beneficiarão de medidas adicionais). A confirmar-se, isto representará uma poderosa machadada no direito de todas as crianças e jovens, sobretudo daqueles que provêm de famílias incapazes de suportar as despesas inerentes aos imprescindíveis apoios, que terão de passar a ser prestados em contexto exterior à escola.
IV – As incongruências que atravessam o novo diploma são evidentes, fruto da ignorância completa de quem o arquitectou em relação à realidade escolar. Dou um exemplo: a nova legislação prevê que os Centros de Apoio à Aprendizagem promovam e apoiem “o acesso ao ensino superior”. Mas se estes Centros estão reservados a crianças e jovens com dificuldades significativas na aprendizagem, que exigem a mobilização de medidas que comprometem as aprendizagens essenciais (antigos Currículos Específicos Individuais), como é que se pode prever uma tal situação? Isto não é apenas uma utopia, é alimentar falsas expectativas, sobretudo junto de famílias que tantas batalhas travam no quotidiano. Falsas expectativas que poderão ajudar a criar crianças e jovens mais infelizes e desajustados do ponto de vista emocional, porque repetidamente obrigados a tentar ser doutores, quando, na realidade, necessitam, sobretudo, de desenvolver competências específicas que os ajudem a ser autónomos e desenvolver o seu próprio potencial.  
V – A nova legislação e os seus arautos arvoram-se nos verdadeiros defensores da inclusão, mas não verdade são os seus coveiros. São os pais da exclusão. As suas teorias eivadas de uma linguagem hermética, gongórica, parecem incluir tudo, mas na verdade não dizem nada de substantivo. Acabaram-se as categorizações – proclama David Rodrigues e Tiago Brandão, que preside ao Ministério Fantasma, apressa-se a assinar por baixo. Doravante, deixarão de existir alunos com Necessidades Educativas Especiais! Todavia, muito brevemente, os alunos voltarão a ser avaliados por uma “Equipa Multidisciplinar” e em função dos vários elementos serão definidas as medidas, mais ou menos restritivas, entendidas como pertinentes. Isto também não é categorizar? Eis um diploma repleto de tantas palavras novas para recuperar teorias velhas, redigido de uma forma suficientemente ambígua para permitir quase tudo e o seu contrário. O que pode revelar-se extremamente pernicioso, nestes estranhos tempos em que vivemos, em que quase nada é o que realmente parece. Caso não prevaleça o bom senso…
VI – Jamais poderá existir um efectivo trabalho de inclusão enquanto as salas de aulas estiverem sobrelotadas com 25 ou 30 alunos. Trabalho “multinível”, de outro modo, é um eufemismo, por muito que os teóricos do pós-modernismo (e da “pós-
-verdade” socrática!) defendam o contrário. Essa é uma das prioridades para a efectiva inclusão, para a qual não é necessário desperdiçar dinheiro em equipas de teóricos a preparar mais e mais legislação.
VII – No seu artigo “Aprofundar a inclusão com o que se sabe”, dado à estampa no Público, em 18 de Abril de 2018, David Rodrigues lançou a seguinte farpa a Luís de Miranda Correia: “Há, enfim, pessoas que perderam o comboio, mas, mesmo assim, acham que estão a viajar em primeira classe”. O professor David Rodrigues faz, portanto, parte dessa elite do futuro, desse mundo de progresso, desse admirável mundo novo da inclusão, enquanto os outros, como Luís de Miranda Correia, representam apenas uma sombra do passado. O problema, caro David Rodrigues, é que sempre que o Homem procurou eliminar tudo o que o precedia e insistiu em construir esse tal mundo novo nasceram monstruosidades. Infelizmente, caro David Rodrigues, tenho fortes argumentos para acreditar que a sua inclusão e dos quejandos teóricos que o acompanham, pacientemente forjados nesse labiríntico trilho das ciências da educação em que estamos embrenhados, faz parte dessas monstruosidades. Aquando da consulta pública do projecto da actual legislação atrevi-me a sugerir: “a proposta apresentada deveria ser pura e simplesmente ignorada, abrindo um período para ouvir os docentes que trabalham na área, de modo a introduzir alterações cirúrgicas num dos mais importantes pilares da escola inclusiva em Portugal”. Hoje, apesar de reconhecer pontuais aspectos positivos que a nova legislação possa trazer (caso de uma maior uniformidade ao nível do processo de certificação de competências de todos os alunos aquando da saída do sistema educativo), hoje, repito, voltaria a subscrever aquelas palavras, mas ainda, se possível, com maior convicção.
            VIII – Dificilmente – atrevo-me a arriscar – a nova legislação agora divulgada será aplicada na Região Autónoma dos Açores (RAA). O “Grupo de Trabalho” criado pelo despacho n.º 7617/2016 para gerar o novo diploma teria evitado muitas canseiras, despesas e asneiras se tivesse começado, por exemplo, por estudar afincadamente a legislação promulgada a nível da RAA a respeito da Educação Especial. Talvez assim os seus membros tivessem percebido que o anterior decreto-lei n.º 3/2008 precisava apenas, reforço, de alguns retoques e não de ser eliminado.
            XI – Os professores estão (continuam) em luta. Tal como os polícias, os profissionais da saúde… tal como o país inteiro deveria estar em luta. Um combate justo, num momento em que se destrói o que de melhor existe no sistema público nacional e, simultaneamente, se continuam a desperdiçar milhões e milhões. É fundamental que os motivos que desencadeiam essas lutas cheguem à população, para além das simples (embora justas) reivindicações salariais e de contagem integral do tempo de serviço prestado. No caso do Ensino, é fundamental que as pessoas compreendam que os professores necessitam de ter tempo para continuarem a aprender, para depois ajudarem os alunos a pensar. É fundamental que a Escola passe a ser um local democrático (os órgão directivos não podem continuar a ser nomeados), que os programas curriculares sejam ajustados e adequados à faixa etária dos alunos, que haja tempo para aprender a reflectir, ler, escrever, calcular. É fundamental que todos os profissionais sejam reconhecidos e respeitados. É fundamental que o país compreenda que, por muitos IP3’s que se modifiquem, injectando milhões e milhões para engordar determinados indivíduos, continuarão a morrer pessoas nas estradas enquanto os cidadãos não desenvolverem outra consciência cívica. E que para isso, mais do que uma política de melhoramentos materiais, é fundamental investir numa política educativa séria e rigorosa.    
            “– Diz-me o berço em que nasceste, dir-te-ei onde chegarás”: será esta a máxima que queremos deixar aos historiadores do futuro que estudarem a nossa época, plena de palavras democráticas e inclusivas, mas esvaziadas de qualquer significado?
Os admiráveis mundos novos acabam quase sempre por recuperar o lado mais negro da História. Uma das grandes dificuldades em identificá-los é que na actualidade aparecem quase sempre travestidos com palavras de civilização, caso da inclusão…
Quanto menos nos preocuparmos agora, maior será a factura que pagaremos nas próximas décadas.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

quinta-feira, 5 de julho de 2018

A História dá lições?

Há alguns meses, sem aviso prévio, entrou-me pela casa um senhor na casa dos 90 anos. A residir há mais de quatro décadas em Espanha, vinha agora a Portugal com o grande objectivo de revisitar o típico edifício beirão de granito onde tinha nascido e que, por mera coincidência, hoje se encontra na posse da minha família. O brilho no seu olhar, enquanto ouvia desfiar um conjunto de memórias a respeito dos falecidos pais, levou-me a reviver o meu próprio interesse pela História.

À medida que envelhecemos, há uma tendência geral para regressar com maior regularidade às memórias de infância. Essa interminável saudade por um tempo onde tudo parecia possível e eterno anda de braço dado com a necessidade, cada vez mais premente, de compreender um pouco melhor o que somos (e talvez até mesmo o que nunca pudemos ser).

Na recta final da vida, aquele homem regressava ao ponto de partida, como quem busca no álbum de fotografias familiares a imagem mais remota da sua própria existência, insistindo, por conseguinte, em recordar o que o tempo teima em apagar. Trata-se, afinal, de uma tentativa para reconstruir uma narrativa que confira algum sentido à vida ou ao que resta dela. Uma ilusão sem a qual tudo se tornaria insuportável.

Ora, quando se estuda História sentimo-nos menos sós, não só porque compreendemos que representamos apenas mais um grão de areia num imenso deserto, mas também porque aprendemos que a vida de cada indivíduo apenas adquire sentido em função do que fazemos pelos outros.

Porém, existe hoje uma tendência para esvaziar a História do seu pendor narrativo, transformando-a num discurso teórico e hermético, de tal modo abstracto que o indivíduo é frequentemente subalternizado. Mas mais do que isso, vigora uma tendência para sustentar que a História não dá lições. 

É contra esta concepção de uma disciplina supostamente expurgada de valores e ensinamentos que eu, frequentemente, me insurjo. Afinal, se existe alguma área do conhecimento que pode ajudar os indivíduos a pensar pela própria cabeça, essa disciplina é precisamente a História. Não só porque nos demonstra, com recurso a exemplos concretos, que as circunstâncias de cada indivíduo são importantes, mas também porque nos ensina que cada Homem pode ultrapassar os seus próprios constrangimentos geográficos, familiares, financeiros... Entre outras, eis as ferramentas que a História permite desenvolver:
– estruturar o pensamento e construir uma narrativa organizada e sequencial, o que, neste era do caos da informação que inunda as redes sociais, constitui uma ferramenta fundamental para aprender a separar o essencial do acessório, a verdade da mentira;
– fomentar a empatia, uma condição essencial para compreender melhor o outro;
– criar um espírito de humildade, o que também equivale a dizer aprender a estar calado, aprender a ouvir, antes de avançar com a defesa de qualquer ideia;
– consolidar a noção de interdependência ética com todos os seres, num permanente, complexo e demorado processo evolutivo;
– ter consciência da finitude de todos os processos, incluindo, claro está, da própria vida pessoal;
– aprender a interrogar o meio envolvente e as circunstâncias da sua própria época (afinal, o historiador começa a construir-se dentro da sua casa e junto da comunidade local). A História ajuda-nos a edificar uma perspectiva mais ampla da “atmosfera do nosso agir” (Antero de Quental), levando-nos a procurar ir para além da espuma dos acontecimentos;
– reconhecer que os cogumelos não nascem ao acaso, estes necessitam sempre de determinadas circunstâncias favoráveis para proliferarem;
– compreender melhor as opções político-ideológicas em que nos situamos e as alternativas, de facto, existentes, o que também equivale a dizer aprender a vigiar o que fazemos, dizemos ou pensamos. E que as reacções inconscientes podem ser indícios tão ou mais importantes do que todas as opções pacientemente reflectidas. E aqui não posso deixar de recuperar as sensatas palavras de Umberto Eco: “O Ur-Fascismo ainda paira à nossa volta, às vezes em trajos civis. Seria tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: «Quero reabrir Auschwitz, quero que as camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!» Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-Fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes” (Como reconhecer o Fascismo. Da diferença entre migrações e emigrações, Lisboa, Relógio D’Água, 2017, p. 29).
Quem diz que a História não dá lições pretenderá, talvez, dizer que as suas ferramentas dificilmente nos poderão ajudar a ganhar muito dinheiro ou assumir outro tipo de preponderância social. E sobre isso não tenho qualquer dúvida. Em sentido inverso, penso que poucas ciências como a História poderão ajudar-nos a construir um mundo efectivamente mais justo e sustentável, pelo que o seu estudo constitui, em si mesmo, uma forma privilegiada para construir uma consciência cívica e um pensamento crítico original, ferramentas que tanta falta fazem nos estranhos tempos digitais em que vivemos.
Sim, a História pode dar lições. A quem saiba ouvi-las e interrogá-las… 

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A síndrome de Javert e o espírito de Abril

Javert, o icónico inspector do romance Os Miseráveis, escrito por Victor Hugo no século XIX, era um racionalista obcecado em fazer cumprir a lei. Daí a encarniçada perseguição movida a Jean Valjean, um ex-condenado das galés por ter cometido o crime de roubar um pão para matar a fome dos familiares.
Javert é, porém, também ele o produto das suas circunstâncias. Filho de uma prostituta, nasceu numa prisão, acabou por entrar para a polícia e ascender ao posto de inspector. Temido por todos os prevaricadores, era impiedoso. Afinal, o binóculo pelo qual fora formatado para ver o mundo tinha apenas duas cores: o branco e o preto, os bons e os maus.
As sociedades capitalistas pós-industriais especializaram-se em criar homens e mulheres à imagem de Javert. E a burocracia tornou-se uma via privilegiada para produzir escravos em série. Afinal, de tão atarefados com resmas e resmas de papéis, estatísticas, relatórios e mais relatórios, os funcionários públicos, em especial, são progressiva, mas, irreversivelmente, anulados pelo cansaço. Depois, os pequenos ditadores que para aí proliferam nos mais variados sectores da sociedade encarregam-se de limar as arestas, com os “safanões a tempo” servidos nos gabinetes:
“Olhe o seu emprego… Tem filhos, não tem?! Pois seria uma pena ter de enfrentar um processo…”
É evidente que, no caso de Portugal, o antes e o pós-25 de Abril é incomparável. Para melhor, esclareça-se. Por muitas lacunas que se apontem ao actual sistema tendencialmente democrático é inquestionável que se registaram progressos incomensuráveis. A simples edição deste texto é apenas uma das provas.
Todavia, importa não deixar de ter presente que a sociedade portuguesa coetânea é atravessada por um conjunto de reinos políticos, financeiros, administrativos, educativos e culturais, nos quais proliferam um conjunto de pequenos ditadores. Travestidos de um linguajar pseudo-democrático, servem-se, no entanto, de um conjunto de mecanismos subliminarmente censórios e repressivos para impor as suas decisões, quase sempre catastróficas para o bem do país, mas excelentes para o seu alucinante trajecto pessoal até ao topo da pirâmide. Sócrates foi apenas um exemplo.
A burocracia, que ajuda a justificar tantos lugares inúteis para os amigos da situação, transformou-se também numa poderosa via para criar carneiros. Narciso olhava-se ao espelho, os novos funcionários do Estado olham-se cada vez mais envaidecidos em frente aos arquivos pomposamente organizados, para, talvez, um dia os senhores inspectores analisarem. O resto, como quem diz cuidar dos doentes ou cultivar os alunos, são apenas detalhes de somenos importância, a respeito dos quais não se pode perder muito tempo.
A personagem de Javert dos Miseráveis sempre me fascinou. Cada vez mais revejo nela o percurso contemporâneo de tantos Homens, progressivamente transformados em escravos da lei pelo sistema em que vivemos. Incapazes de compreender as malhas em que estão enredados vislumbram como hereges ou incompetentes todos aqueles que não cumprem essas rotinas divinas.
Recordar Abril uma vez por ano já não chega. É fundamental ousar viver diariamente dentro do seu espírito. Perseguindo a liberdade e construindo a democracia. O que também implica aprender a relativizar a importância das tarefas burocráticas e ousar erguer a voz perante as injustiças, tal como inúmeros oposicionistas o fizeram ao longo do Estado Novo.
A prática de uma ética inspirada em Miguel Torga faz-nos falta, mais do que uma simples obsessão pelo cumprimento da lei, tantas vezes formulada por ignorantes ou estrategas da conveniência. A escolha entre Javert e Jean Valjean é uma necessidade. Caso contrário, quando um dia, já na recta final da vida, olharmos para trás, iremos, muito provavelmente, sentir, tal como o inspector Javert, as pernas a tremer perante o sentido da vida. E será tarde de mais.
As palavras de Pablo Neruda ajudam-nos também a recuperar parte do significado de Abril:
“Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece”.
Abril faz-nos falta porque os ditadores continuarão sempre a precisar de evangelizar mais escravos. E não há algemas ou muros que resistam à liberdade de pensamento…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sábado, 24 de março de 2018

Ser Pai

Ser pai é um sentimento maravilhoso. É a continuação de um amor sem limites que esbarra num sorriso daquele ser que se tornou na coisa mais importante das nossa vidas. Ouvir a palavra papá e reconhecer no seu olhar a vontade de estarmos juntos. Gosto tanto de Ti meu filhote

A morte do silêncio


Confessou-me recentemente um octogenário, com o qual tenho vindo a aprender outro significado de ser jovem:
            “– Grande parte do que sou fica a dever-se ao romance de Máximo Gorki, A Mãe. Foi com ele que abri os olhos para começar a compreender o mundo”.
            Como se pode calcular, depois de chegar a casa, não resisti e mandei vir o revolucionário livro do escritor russo. Cerca de uma semana depois, ultrapassada a última página, senti que conseguira compreender um pouco melhor o percurso cívico daquele homem de longos cabelos brancos, nascido na década de 30, atraído pela ideologia comunista na luta contra o Estado Novo. Um autodidacta, a quem a vida roubou a possibilidade de estudar de modo formal, mas, ainda assim, sempre marcado por uma vontade imensa em compreender e transformar a sociedade em que vivia. Por isso, nunca se cansou de criar bibliotecas públicas, de dirigir e colaborar nas mais variadas instituições culturais da comunidade local, de praticar desporto, escrever, ler, conviver...
            Ora, dificilmente se poderá hoje compreender um indivíduo sem conhecer de antemão os livros que mais o marcaram, bem como as grandes referências universais da sua vida ou, por exemplo, as relações interpessoais que travou. Serve isto para tentar dizer que, nesta era do digital, um dos grandes desafios que se coloca à Escola é conseguir voltar a colocar os livros nas mãos dos seus alunos. E a partir da leitura promover depois momentos de partilha oral e escrita (neste último caso, os jornais escolares constituem uma ferramenta fulcral). O que pressupõe tempo para amadurecer as ideias e aprender a não ter medo de errar e ousar pensar. Sem erro não pode haver pensamento.
            Os jovens portugueses não têm hoje menos capacidades do que os seus homónimos do passado. Antes pelo contrário. O problema é que as crianças e os jovens de hoje são o fruto de uma época em que o sistema educativo, logo no primeiro ciclo (antiga “Escola Primária”), foi transformado na antecâmara da universidade. Eles são o fruto de uma época alucinante, atravessada pela pandemia das dependências digitais, que recorrentemente matam o tempo e o silêncio, pré-requisitos fundamentais ao pensamento, à criatividade e à criação de efectivos laços interpessoais.
            Enquanto aluno e professor, as experiências que mais me marcaram resultaram quase sempre de estratégias aparentemente simples, mas muito bem planeadas. Uma delas, que nunca mais vi replicada, consistia em consagrar no calendário um dia da semana à leitura. Assim, no âmbito da disciplina de Português, os alunos saíam da sala em pequenos grupos, dirigiam-se à biblioteca e depois de requisitarem um livro, à sua escolha, regressavam à sala, onde permaneciam o resto do tempo, simplesmente, em silêncio, a ler. Cerca de dez minutos antes de soar a campainha, iam devolver as obras e na aula seguinte apareciam com um breve texto ou um desenho inspirados na leitura realizada. A dinâmica foi ensaiada pelo professor logo nas aulas iniciais, com a imposição de regras muito claras, e a verdade é que ao longo de todo o ano lectivo nunca se registou qualquer incidente. Excepções, dirão os mais pessimistas…
            Dou por mim muitas vezes a pensar que o historiador do futuro, que um dia se debruce sobre a nossa época e o sistema educativo em particular, ficará, por certo, admirado com a nossa ambição em criar professores universitários logo no primeiro ciclo. A quantidade e a densidade de conteúdos são de tal modo avassaladoras que as explicações extra-curriculares são cada vez mais uma necessidade, logo a partir do 1.º ano. Não, não exagero! Infelizmente, o sistema educativo é cada vez mais um meio de perpetuar o poder das classes privilegiadas (Pierre Bourdieu) e transformar a pobreza numa herança quase irreversível.
            Esta é, porém, apenas a ponta de um icebergue, ou seja, um elo de uma tendência muito mais vasta, da qual não se pode dissociar a aberração do Novo Acordo Ortográfico, cujos malabaristas socráticos deixaram há muito, curiosamente (ou talvez não), de abençoar publicamente o “admirável mundo novo” que ajudaram a criar (leia-
-se, o caos do “aspeto”, da “ata”, das “endorreativas”, do “perentório”, do “infantojuvenil” e quejandas preciosidades que para aí circulam).
O monstro, é certo, não reside apenas em Portugal, ele estende os seus tentáculos, pelo menos, à chamada cultura ocidental. E se há alguma palavra que pode definir esse movimento ela terá de ser a indiferença.
            Deste crescente isolamento cívico, numa época obcecada em matar o silêncio e o vazio, decorre uma progressiva campanha de morte ao pensamento. E se as pessoas reflectem cada vez menos, há também uma crescente dificuldade em separar o essencial do acessório, a verdade da mentira. Esvaziado das ferramentas que poderiam ajudar cada indivíduo a construir, em função do outro, a sua própria narrativa para conferir sentido à existência, o indivíduo entra num círculo vicioso de esquecimento.
            Esquecer torna-se o resultado quase inevitável de um processo vertiginoso. E quando, pelas mais variadas circunstâncias da vida (v.g., morte de um ente querido), o sujeito entra em confronto com esse vazio, tende rapidamente a preenchê-lo, entretendo-
-se, ou seja, distraindo-se de si mesmo. Por isso é que muitos jovens já não conseguem viver afastados do smartphone. A vertigem provocada pelo vazio do abismo à frente dos pés tornar-se-ia insuportável.
            Vários autores, como Habermas, invocaram o conceito de “presentismo” para sustentar, em traços gerais, que o Homem contemporâneo, desligado do passado e do futuro, vive apenas no seu instante imediato. Segundo creio, a tendência mais geral é para que o indivíduo assuma uma experiência ainda mais radical com o tempo: ausentando-se, numa espécie de alienação permanente.
            Vivemos na era da indiferença, o produto de uma época progressivamente esvaziada de referências, horrorizada pelo silêncio e temerosa do pensamento próprio (os comentadores que para aí proliferam são pagos para pensar pelos outros).
            Regressar aos livros e, em especial, aos grandes clássicos é uma das opções para colocar alguma ordem nessa estrada da morte, onde ainda circulamos quase todos de olhos vendados. E numa época com tanta transformação científica e tecnológica, marcada pela aceleração do tempo, urge aprender a abrandar, “ouvir” e interrogar o silêncio, sem o qual a vida, sublinhe-se, perderia grande parte do significado…
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Da I República ao Estado Novo: um estudo de referência

Luís Bigotte Chorão deu à estampa, em 2009, A crise da República e a Ditadura Militar, estudo que lhe permitiu obter o Doutoramento em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Com um total de 960 páginas, o livro encontra-se estruturado em duas partes: na primeira, o historiador reflecte sobre os motivos que estiveram na origem da crise da I República (1910-1926), enquanto na segunda parte procura compreender o modo como a Ditadura Militar (1926-1933) colocou ao seu serviço os instrumentos jurídicos, destacando-se a este respeito a acção do Ministro da Justiça e dos Cultos Manuel Rodrigues Júnior. Trata-se, afinal, de um conjunto de aspectos fundamentais para compreender as circunstâncias que conduziram ao Estado Novo (1933-1974).
            Sem ter a estulta pretensão de querer resumir aqui quase 1000 páginas de um estudo monumental, sério e minucioso, partilha-se de imediato algumas ideias, mais com o objectivo de incentivar a leitura do trabalho em causa.
            I – A obra tem subjacente um esforço meritório, quer no que diz respeito ao levantamento das fontes primárias, quer ao nível dos estudos já realizados. Abrange o espaço nacional (continental e insular), não integrando as colónias. Constitui, por conseguinte, um trabalho de referência para todos aqueles que se proponham estudar, em especial, o período nacional balizado entre 1910 e 1933.
            II – Do ponto de vista editorial, teria sido importante condensar as ideias, de modo a dar à estampa uma obra mais acessível ao grande público, com um tempo médio disponível para a leitura (infelizmente) cada vez mais reduzido. Não se justifica de todo a existência de notas de rodapé e citações com a extensão das que são apresentadas. Mesmo pensando num nicho de especialistas, teria sido preferível proceder a um trabalho de síntese e disponibilizar depois, em jeito de apêndice documental, uma amostra de elementos considerados pertinentes. Esse exercício permitiria libertar o texto principal de dados acessórios, que em nada contribuem para uma leitura fluente e para uma compreensão cabal das ideias do autor. E aqui referimo-nos, sobretudo, às teses que Bigotte Chorão pretendeu demonstrar, e que nem sempre são claras. Por vezes, o leitor sente-se de tal modo embrenhado nos inúmeros acontecimentos descritos que se revela muito difícil não perder a visão de conjunto.
            III – Segundo Bigotte Chorão, a I República criou, logo na sua fase inicial, as condições propícias para a sua posterior “decadência”. Aos factores habitualmente invocados nos manuais de História (v.g., ataques dos monárquicos à I República; perseguições aos católicos levadas a cabo pelos republicanos, sobretudo na fase inicial; inexistência do sufrágio universal; contexto de atracção pelos modelos autoritários/totalitários europeus; consequências da participação de Portugal na I Guerra Mundial), Bigotte Chorão associa ainda a “inutilização” do Presidente da República. Ou seja, segundo este historiador (jurista, de formação base), o facto de o Presidente não possuir o poder moderador (que lhe permitiria dissolver as câmaras) teria contribuído para que fosse incapaz de resolver a instabilidade política, que depois conduziria à sucessiva queda dos governos. Todavia, importa dizer que esta tese, embora tentadora, não nos parece de todo bem fundamentada, até porque existiram outras circunstâncias que também contribuíram para a crise da I República e que não são invocadas pelo aludido historiador. Desde logo, a falta de uma alargada base social de apoio do novo regime implantado em 1910 (João Medina recupera a este respeito o sintomático fenómeno da “adesivagem”, que lhe permite sustentar uma “República frustrada ao nascer”).
            IV – Bigotte Chorão esforça-se por destacar a ideia segundo a qual a Ditadura Militar não começou com Salazar, sendo que este apenas influenciou, verdadeiramente, os acontecimentos a partir de 1928, enquanto Ministro das Finanças, e sobretudo após 1932, na qualidade de Presidente do Conselho. Não se trata de todo de uma tese original, embora nos pareça de facto muito pertinente alertar para a importância de separar os conceitos de Ditadura Militar, Ditadura Nacional e Estado Novo. Algo que nem sempre sucede, pois até Irene Flunser Pimentel – uma das historiadoras contemporâneas nacionais mais consagradas – pretendeu abranger todo o período de 1926 a 1974 sob o título História da Oposição à Ditadura. Outrossim, a chamada de atenção a respeito da acção nevrálgica desempenhada por Óscar Carmona também merece realce.
            V – Na segunda parte do seu estudo, Bigotte Chorão, enquanto jurista de formação base, detém-se na acção de Manuel Rodrigues Júnior, na qualidade de Ministro da Justiça e dos Cultos (1926-1928) e como Ministro da Justiça, já durante o Estado Novo salazarista. Esta tentativa de fazer dialogar a História e o Direito afigura-
-se-nos muito pertinente, embora a especificidade de determinadas matérias abordadas torne, por vezes, o discurso demasiado hermético. Num estudo desta extensão, ter-se-ia justificado, como já escrevemos, um esforço de síntese, bem como a introdução de momentos de paragem, nos quais se fossem apresentando as principais conclusões e apontando as ideias a testar nos capítulos seguintes. A introdução de algumas notas biográficas a respeito de Manuel Rodrigues Júnior, logo a abrir a parte II, teria sido bastante útil para o leitor.
            VI – Em jeito de síntese, a obra resulta de um esforço hercúleo, divulga aspectos inovadores, é apresentada numa edição muito cuidada (quase expurgada de gralhas) e contribui para renovar a perspectiva vigente sobre o complexo período abordado. E aqui não poderemos deixar de recuperar a tese segundo a qual teriam sido as próprias desinteligências entre os vários grupos que fizeram o 28 de Maio de 1926 a justificar depois a sobrevivência do regime ditatorial (uma ideia claramente alicerçada na própria Biologia, que há muito vem demonstrando a importância da diversidade). Enfim, para o bem e para o mal, o estudo aqui recenseado faz já parte de um tempo pretérito, no qual as investigações conducentes à obtenção de um grau académico implicavam a reunião de centenas ou mesmo milhares de páginas, nas quais, no entanto, nem sempre era evidente a tentativa do autor em manter-se focado nas teses essenciais a demonstrar. Esta é, segundo cremos, a principal desvantagem desta obra de referência para todos aqueles que se interessam por este período. 

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Volta a um Portugal sem livro de instruções-Álvaro Domingues

Como o irmão mais novo que pega nos velhos guias de Portugal lá de casa e rasga as páginas de fotografias bonitas, estragando os planos para as férias, o geógrafo de A Rua da Estrada e de Vida no Campo oferece-nos agora uma Volta a Portugal, sem bicicleta nem manual de instruções. Como já escreveu Miguel Esteves Cardoso nas páginas deste jornal, um "livro fulminante, que é urgente ter à mão"

Link do Público: 
https://www.publico.pt/2017/12/31/sociedade/entrevista/roteiro-por-um-pais-em-dissonancia-com-a-imagem-que-temos-dele-1797476

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Conto de Natal – A porta secreta

“– Meu filho! Já viste bem todas as prendas que o Menino Jesus te deixou este ano? Olha, por exemplo, esta aqui…” – indicou António ao pequeno Diogo.
            “– Parece uma caixa. E há coisas a abanar lá dentro!”
            “– Vamos abrir” – e abriram.
            Dentro do embrulho, um tabuleiro de xadrez. Diogo, com uma mão a segurar o inseparável smartphone e a outra a agarrar o novo brinquedo, deixou escapar um breve suspiro de desalento. Nesse momento, o pai decidiu voltar à carga:
            “– Sabes, quando eu tinha mais ou menos a tua idade, descobri que nesta casa havia uma passagem secreta. Uma porta escondida…” – e Diogo nem o deixou concluir a frase. Agarrou-se-lhe à perna e reclamou:
            “– Onde é? Para onde vai? Leve-me lá!” – sorrindo, António segurou-o pela mão e fez-lhe sinal para se sentar. A “lição de Sissa” iria começar...
            “– Olha, isso vais ter de ser tu a descobrir. E a resposta encontra-se dentro deste tabuleiro de xadrez”.
            Depois, enquanto retiravam os últimos papéis que escondiam a caixa, o pai foi explicando:
            “– Hoje, vamos fazer um duelo. Peças brancas contra as peças negras. Como se fosse uma guerra…”
            “– Mas, pai… os homens brancos e os homens negros são inimigos?”
            “– Não, meu filho! Hoje, já não são. A cor da nossa pele não interessa para nada. Todavia, há alguns séculos atrás, os homens brancos fizeram escravos muitos homens negros”.
            “– Olhe, pai, se eu pudesse mandava pintar as peças. Seriam azuis contra vermelhos!”
            “– E deixa-me adivinhar… tu ficavas sempre com os vermelhos, certo?” – riram em uníssono.
            Na verdade, António ficou com as peças negras e Diogo com as brancas (depois de saber quem começava a jogar, o menino nem hesitou na escolha!). Entrementes, o pai disse:
            “– De todas as tuas peças, existe uma que tem de ser sempre muito bem protegida: é o rei”. Ao ouvir isto, o menino sentenciou:
            “– Então, eu sou o rei! Sou o mais importante”.
            Nessa altura, o pai desabafou:
            “– Sabes, quando tu nasceste passaste a ser o rei desta casa. Eu e a tua mãe começámos a viver em função de ti” – e Diogo ria-se de orelha a orelha.
            Logo a seguir, António esclareceu o valor de cada peça e o modo como se movimentavam:
            “– A rainha vale 9 peões. Pode avançar em todas as direcções. A torre vale 5, anda sempre a direito – na horizontal e na vertical. O cavalo vale 3 peões, movimenta-se em “L”. O bispo também vale 3 peões, mas anda e captura na diagonal…” – e por aí fora, sempre com as peças a saltarem no tabuleiro de um lado para o outro, sob o olhar atónito do menino.
            Às duas por três, quando já estavam no meio da primeira partida, muito lentamente, o pai foi capturando uma a uma todas as peças do menino. Quando apenas lhe restava em cima da mesa o amedrontado rei, o pai desafiou-o:
            “– Vá! Podes jogar”. Diogo, quase a soluçar, atirou:
            “– Mas… assim não é justo! Estou sozinho e ninguém me pode defender”.
            Sorrindo, o pai devolveu-lhe os peões, perguntando:
            “– Estás mais satisfeito?”
            “– Sim, mas ainda não tenho as minhas torres, os bispos, os cavalos…”
            “– Então, meu filho, qual é a tua peça mais importante?”
            “– Todas são importantes, pai!”
            “ Olha, há quem diga que foi esta a lição que um indiano chamado Sissa quis ensinar a um rei muito mau. Não sei se é verdade ou mentira, mas há até quem acredite que foi ele que inventou o xadrez. Certo, certo é que esta é uma lição valiosa para todos nós…”
            Nessa altura, a mãe chegou à sala. Vinha chamá-los para o jantar. Ao olhá-la, o pai não resistiu e exclamou:
            “– Olha, filho, e ainda te faltava a rainha!” – Dona Maria não compreendeu, mas sorriu delicadamente, ao perceber que falavam dela.
            Logo depois, já à mesa, o menino voltou à carga. Queria mesmo saber onde se encontrava a tal porta misteriosa. Como se já não bastasse a ansiedade do miúdo, a mãe ainda ajudou à festa:
            “– António! Lá andas tu a ensinar coisas perigosas ao nosso filho! Eu já te disse que essa porta é só para os adultos”. Os olhos de Diogo pareciam prontos a saltar para fora das órbitas.
            Quando se levantaram os últimos pratos da mesa, foram todos até ao presépio. Debruçados sobre o berço, António perguntou:
            “– Diogo, quem é a personagem mais importante do nosso presépio?”
            O menino ainda hesitou, mas lembrou-se da lição do xadrez e respondeu:
            “– O menino é o nosso rei. Mas sem os pais, os animais, as estrelas, os reis magos… o que seria dele?” – os pais entreolharam-se. A noite de Natal estava quase a findar, mas o mais importante ainda vinha a caminho...
            Então, o pai ajoelhou-se junto à manjedoura do Menino e começou a contar-lhe o segredo da porta desconhecida.
            “– A tua bisavó Maria era, como sabes, a minha avó. Um dia, quando eu tinha mais ou menos a tua idade, ela disse-me que nesta casa havia uma porta secreta que dava acesso a um mundo maravilhoso. Ora, quando eu ouvi essa história, fiquei de tal modo curioso que passei a noite em claro, sem dormir. Vasculhei cada recanto desta casa, examinei com todo o cuidado todos os lugares, mas a verdade é que não consegui encontrar o mais pequeno sinal da tal porta mágica. Desanimado, deitei-me em cima da cama e chorei como nunca tinha chorado.
Logo pela manhã, a tua bisavó, uma das pessoas mais inteligentes que conheci em toda a vida, reparou nas minhas olheiras, serviu-me o pequeno-almoço e abraçou-me (nunca esquecerei aqueles abraços). Deitado no seu regaço pude então ouvir esta maravilhosa história:
            “– Seu tontinho… a porta sobre a qual te falei é a porta da sensibilidade. É uma espécie de ferida aberta que apenas algumas pessoas se podem orgulhar de possuir. É um dom”.
            “– E para que serve essa ferida, avó?”
            “– Essa ferida boa ajuda-te a ver melhor o mundo: a chorar com aqueles que choram, a sofrer com aqueles que sofrem; a ver o que os outros tantas vezes não vêem. Sim, faz doer, mas apenas para te ajudar a compreender…”
            Intrigado, voltei à carga:
            “– E isso é importante, avó?”
            “– Muito, meu netinho! Ajuda-nos a criar um mundo melhor!”
            Ao proferir aquelas derradeiras palavras, o pai voltou-se novamente para o filho, fixando-o ternamente, olhos nos olhos:
            “– Sabes, meu rei, quando tu nasceste, essa porta de que falava a tua bisavó voltou a abrir-se dentro desta casa. E foi a primeira vez, desde que a tua bisavó morreu – já lá vão mais de 20 anos –, que voltámos a fazer o presépio. Que voltámos a sentir o Natal” – e as lágrimas iluminavam-lhe a face.
            Quanto ao menino, bem pequenino como todos os meninos, olhava ternamente os pais, talvez sem compreender muito bem o sentido exacto de todas aquelas palavras – os poemas que, ao longo da vida, nos escapam pelas mãos!
            Talvez um dia, bem lá no futuro, aquele menino recordasse aquelas palavras e decidisse até recontá-las ao seu próprio filho. E talvez dissesse que foi naquela longínqua noite que a porta secreta se abriu, pela primeira vez, mesmo à sua frente. A tal porta secreta que o Natal nos ajuda a recordar e a nunca deixar fechar. Por muito que as pedras afiadas inundem as calçadas por onde vagueamos.
            Afinal, apesar de todas as cinzas que acumulamos nas mãos, quando Dezembro ecoa nas ruas e as luzes cintilam dentro de nós, tudo volta a ser possível. É através dessa ferida aberta, da qual brotam as lágrimas que nos lavam por dentro, que chega até nós o sentido do Natal...

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sábado, 16 de dezembro de 2017

"Pai tu não vais morrer"

Na Quinta Feira pouco passava das 11h da manhã quando estava a ouvir a Antena 1 e deparei-me com o testemunho de um bombeiro, que esteve no combate no Teatro das operações do Grande Incêndio de Pedrogão em Junho de 2017. O relato deste bombeiro tocou-me pela expressividade das suas palavras. Durante o incêndio sentiu-se numa situação extremamente aflitiva, onde viu a morte muito próxima em consequência da estranha ferocidade das chamas que os encurralou num emaranhado de fumo e temperaturas muito elevadas.

Já numa maca do Hospital o bombeiro, num estado extremamente grave teve a presença do seu filho de 12 anos de idade, que o abraçou dizendo insistentemente, “pai tu não vais morrer”, ao que o pai respondeu apesar das imensas dores e do sofrimento que sentia “filho está descansado, pois isso não irá acontecer”. O filho afastou-se um pouco e de dedo em riste apontou para o pai e disse com uma convicção incomensurável “Pai tu não vais morrer”. O bombeiro após esse período não mais voltou a ver o filho, tendo várias complicações de saúde onde, com o acumular de várias intervenções cirúrgicas e 4 paragens cardíacas, culminou com a permanência em coma durante mais de 2 meses.

Esta história emocionou-me, pois fez-me pensar na importância que um filho tem nas nossas vidas e a força que ele nos dá para continuarmos a viver. Sinto um enorme Amor pelo meu filho e naquele momento senti uma enorme vontade de o agarrar, de lhe dizer o quanto Gosto dele e quanto ele é importante para a minha vida. Termos um filho muda a forma de vermos a vidaum Ser está sobre a nossa responsabilidade e desejamos de forma inexcedível que ele seja Feliz e que nós estejamos junto dele para o ver crescer. 

sábado, 9 de dezembro de 2017

O ódio à escola

            7h00. O despertador toca e Mauro enrola-se nos cobertores, assim que consegue silenciar o maldito aparelho. A situação acaba por repetir-se mais quatro vezes, até que a mãe irrompe pelo quarto, ameaçando-o de dedo em riste. O menino decide então arrastar-se até à casa de banho, enquanto amaldiçoa a sorte que lhe calhou na rifa da vida.
            7h30. Daqui a uma hora, o Mauro estará dentro do carro do pai a caminho da escola. Até lá, apenas corridas entre a casa de banho, o quarto, a cozinha… corridas vertiginosas entremeadas por gritos de urgência, interrompidos pelo veloz beijo de despedida da mãe, invariavelmente atrasada.
            8h40. Dez minutos de atraso e o pai atira a mochila de Mauro para o banco de trás do carro. Alguns instantes depois, seguem os dois a toda a velocidade pela estrada fora, enquanto na rádio se fala do trânsito infernal na capital e da chuva que tarda em chegar. Lei de Murphy: raio dos semáforos escolhem sempre o dia errado para ficarem vermelhos!
            9h00. Mauro está à porta da escola, o pai toca-o docemente na testa e permanece parado alguns instantes a vê-lo desaparecer para além do portão. Arranca depois a toda a velocidade rumo ao escritório. É forçoso recuperar os 5 minutos que leva de atraso.
            9h05. Mauro irrompe pela sala de aula. O professor exige a sua saída imediata e pede-lhe para bater à porta antes de voltar a entrar. Ainda estremunhado, lá obedece. Senta-se, começa a retirar os livros da mochila: Inglês, Português, Matemática, Expressões e Estudo do Meio. Depois, perfilam-se os cadernos das Fichas de Actividades e o volumoso dossier do caderno diário, acompanhado do estojo. A mesa é pequena e o colega do lado faz-lhe sentir o descontentamento com um subtil pontapé na tíbia. Mauro sabe que não convém tugir nem mugir, pois o intervalo chega depressa e as mãos do colega são conhecidas pelos pares de galhetas que vão, benevolentemente, distribuindo.
            9h15. A sala do 3.º ano pode enfim começar a produzir. Hoje, o dia amanhece com a disciplina de Inglês, o esperanto dos tempos modernos, que abre a porta do paraíso para todos os pecadores:
            Let’s study the family! Open your books on page eleven – e os meninos aprumam-se perante uma língua ainda tão estranha e distante.
            Cerca de meia hora depois chega a vez da Matemática. A entrada do professor titular torna o ambiente mais rigoroso:
            – Abram os livros na página 31. Vamos ler, interpretar e explorar gráficos de barras e tabelas. Moda, diagrama-de-caule e folhas, amplitude, dados quantitativos e qualitativos. O silêncio petrificava a sala.
            Faltava cerca de um mês para o fim das aulas e o derradeiro teste escrito anunciava-se. Todos suavam e os cadernos inundavam-se de nervosismo. Mauro tentava concentrar-se em tudo, mas o perfeccionismo traía-o, não o deixando fazer quase nada:
            – Onde está o teu diagrama-de-caule e folhas? – o grito lancinante do professor arrancou-o da indecisão. Alguns instantes depois, quando o intervalo chegou, mal conseguia sentir os dedos.
            11h00. Após 30 minutos de vadiagem pelo recreio, recomeçavam os trabalhos, agora com o Português socrático trazido pelo desacordo ortográfico:
            – Gramática. Vamos aprender a escrever. Como sabem, no ano anterior, a Prova de Aferição foi um desastre completo. Copiem para o caderno…
            Lição número 1 – Determinante artigo;
            Lição número 2 – Determinante possessivo;
            Lição número 3 – Determinante demonstrativo;
            Lição número 4 – Paráfrases…
            Os exercícios iam e vinham, interminavelmente. O quadro enchia-se e apagava-
-se a uma velocidade estonteante. Os cadernos dos meninos também, que mais não fosse de rabiscos e gatafunhos. Muito frequentemente, lá vinha um grito do Mestre e a cópia correcta reiniciava-se. Não havia tempo a perder, que a gramática era uma deusa perante a qual todos tinham de inclinar-se: ALELUIA! Começava, então, o maestro:
            – O que é “o”?
            – Determinante artigo definido – respondia o Mauro.
            – O que é “um”?
            – Determinante artigo indefinido – acertava a Matilde.
            – O que é “do”?
            – Contracção da preposição “de” mais o determinante artigo definido “o” – e o professor respirava finalmente, quando o Mauro e a Matilde acertavam em uníssono a última pergunta da Bíblia linguística. Os outros meninos podiam enfim respirar, quando o sucesso de alguns camuflava o insucesso de quase todos.
            Logo a seguir, era a vez da poesia. Cecília Meireles chegava do outro lado do Atlântico, trazendo consigo “A pescaria”:

“Cesto de peixes no chão.
Cheio de peixes, o mar.
Cheiro de peixe pelo ar.
E peixes no chão.
Chora a espuma pela areia,
na maré cheia.
As mãos do mar vêm e vão,
as mãos do mar pela areia
onde os peixes estão.
As mãos do mar vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
aos peixes do chão.
Por isso chora, na areia,
a espuma da maré cheia”.

 Após uma vertiginosa leitura, chegava a vez de esquartejar as estrofes, os versos, identificar as rimas, explorar figuras de estilo e sonoridades. No meio disto tudo, bem lá do fundo da sala, o Pedro, que ainda mal conseguia identificar metade das letras do alfabeto, lembrou-se de levantar a mão e interromper:
            – Professor! Posso fazer uma pergunta?
            – Fala, fala para aí… mas rápido, que é preciso avançar!
            – A poesia é um cesto de peixes?
            – Valia mais estares calado! – e todos se riram em uníssono. A contagem tinha, contudo, de ser rapidamente retomada. Os números eram depois confirmados um a um pelo Mestre, que, de resto, já limpava o suor da testa com tanto somatório. A poesia, aqui para nós, também nunca fora o seu forte, neste país em que quase todos são poetas, mas quase ninguém lê poesia. Isto para já não falar da História, da Literatura e outras quejandas artes dos pré-históricos capazes de viver um dia afastados dos smartphones.
            Quando o toque que anunciava o recreio chegou, a imagem do cesto de peixes, que ilustrava o poema esquartejado, permanecia projectada no quadro. E Pedro saiu para o intervalo a pensar que a poesia devia estar relacionada com as tarefas piscícolas… Quanto ao professor, com mais de 30 anos de serviço, sentia-se extenuado. Pensava em tudo o que ainda tinha de leccionar até ao final do ano e sentia-se a tremer. Os programas eram a Bíblia e tudo tinha de ser sumariado, custasse o que custasse, doesse a quem doesse. Como se isso já não bastasse, depois das aulas, aguardavam-no ainda os relatórios para preencher, as fichas para corrigir, as aulas para preparar, os pais para atender, as faltas e os sumários para registar. Havia ainda a acção de formação do Reiki que nunca mais acabava. E as metas do sucesso para alcançar mandavam às urtigas todas as energias positivas que bem tentava atrair... Burocracias e mais burocracias, problemas e mais problemas para solucionar que o levavam a desejar estar longe de tudo e de todos (síndrome de burnout, dirão alguns) . Certo é que quando finalmente se sentava no carro para regressar a casa dava sempre por si a pensar há quanto tempo não conseguia ler um livro ou simplesmente sorrir com um sorriso dos seus meninos.
            No período da tarde, chegava Estudo do Meio. E a corrida era retomada, hoje em torno da função excretora… Logo a seguir, que o tempo era escasso, chegavam as Expressões, com mais conceitos e conceitos que deveriam ser sumariados. Teorias que o pobre do professor, confinado às paredes daquela escola dos primeiros anos, mal poderia imaginar que voltariam depois, ano após ano, ciclo após ciclo, a ser novamente repetidas. No fim do dia, iludia-se em surdina: talvez houvesse ainda oportunidade para fazer um desenho e deixar os meninos sonhar. Mas a verdade é que raramente o tempo permitia outros voos e os sorrisos continuavam sempre a ser adiados.
            17h30. Fim das aulas e o Mestre regressa a casa. De seguida, há um intervalo e as actividades extra-curriculares podem enfim começar. O professor das AEC’s (Actividades Extra-Curriculares, para os mais distraídos) vem de outra escola e quase sempre chega atrasado, mas os alunos esperam-no sentados no recreio, já cansados. Depois da Educação Física, começa o hip-hop e o yoga. Por volta das 18h00, o pai do Mauro há-de vir buscá-lo, pois a maratona do Ironman ainda vai no adro.
            Às 18h30 iniciam-se as explicações. Três vezes por semana, a carrinha vem buscar quase todos os meninos à escola, logo a partir do 1.º ano, que é de pequenino que se torce o pepino... Lá no centro, a cerca de 15 minutos de viagem, fazem os trabalhos, organizam os cadernos, dissipam dúvidas, treinam mais exercícios, ensaiam novos exames, enquanto o Mauro estuda desalmadamente Inglês. Nos restantes dois dias da semana, o adulto em miniatura vai para o Taekwondo, a natação e a dança. Tudo para descomprimir e relaxar, que ao sábado de manhã há Inglês naquela escola conceituada onde também estudou o irmão, agora no internato em Medicina, enquanto o domingo é deixado para estudar e fazer os trabalhos em família, depois de ir à missa. E, claro, para o Mauro poder jogar no computador durante toda a tarde. Sim, que também é fundamental relaxar os sentidos e desfrutar das excelentes classificações arrancadas a ferro e fogo das mãos dos mestres…
            Às últimas horas do domingo, como quem cumpre uma rotina, o pai abeira-se do Mauro e, invariavelmente, pergunta-lhe:
            – Amanhã começa a escola! Estás feliz?
            – Não! – e o menino olha sofregamente para o ecrã da playstation, a sua mais recente prenda por ter conseguido ser o melhor da turma no teste de Português.
            O pai ainda exclama, profundamente desalentado:
            – Não entendo… no meu tempo eu gostava de ir à Escola. Hoje, não querem saber de nada. Que geração! Põe, pelo menos, os olhos no teu irmão…
            Mas Mauro já não ouve nada. Quando, finalmente, se levanta, arrasta-se penosamente até à cama e recorda-se da sexta-feira passada. Faz um esforço para recapitular o que aprendeu nas aulas, mas não lhe vem nada à cabeça. Apenas consegue lembrar-se do seu amigo Pedro, que não tem dinheiro para comprar o equipamento para jogar futebol e menos ainda para andar no Centro de Explicações. E enquanto tenta adormecer, Mauro, um menino de 9 anos, que as pautas ratificam como um excelente aluno, pensa no ódio que sente sempre que imagina a escola, e não compreende. Simplesmente não compreende. Adormece.
            No dia seguinte, a pista de fórmula 1 estará novamente à sua espera…

Aprender exige tempo para amadurecer e pensar. Quando nos lembraremos disso?
O actual sistema educativo continua agarrado ao velho adágio: “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Por isso, numa espécie de tentativa de acelerar o tempo, transformou-se o primeiro ciclo (a antiga Escola Primária) na antecâmara da universidade e passa-se o resto dos anos a repetir em dó maior o que já se tentou leccionar em dó menor. E os exames repetem-se uns atrás dos outros, com relatórios e mais relatórios, como se deles resultasse o milagroso remédio para todas as doenças.
É altura de transformar o sistema numa escadaria, com patamares ajustados e interligados. Rever os programas, garantir que os directores sejam eleitos pelos seus pares e reduzir, de modo realmente significativo, o número de alunos por turma seria o início de uma revolução, pelo sucesso de todos os alunos e pela saúde mental de todos os professores. O problema, perdoem-me a ousadia, é que as grandes causas continuam a não mover moinhos…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sábado, 2 de dezembro de 2017

Quem compra pássaros?

Todos os sábados, quando ainda mal amanhece, saio de casa em direcção ao mercado semanal. Para além da qualidade dos produtos hortícolas e dos preços apetecíveis, gosto de tomar o pulso ao povo da terra que me acolheu. Depois, pela manhã dentro, as intermináveis conversas com os vendedores locais ajudam-me a compreender melhor os dramas daqueles que ainda têm a coragem necessária para consagrar a vida à agricultura, sobretudo neste país.
            Esta manhã, porém, ao deambular por um dos corredores mais afastados da zona central do comércio local, uma voz inquietante desviou-me a atenção das nabiças:
            “– Quem compra pássaros?”
Não resisti e aproximei-me. À chegada, um cenário dantesco corroeu-me a alma: gaiolas e mais gaiolas com roseicollis, periquitos, papagaios, enquanto, bem à minha frente, uma catatua olhava longamente na minha direcção. Baixei-me e quase consegui tocá-la. Concentrei-me, então, na linha que a prendia ao pedaço de madeira, enquanto a via tentar destruir, bicada após bicada, as algemas que a separavam da felicidade: um fio de nylon com pouco mais de um dedo polegar. Quase petrificado, ali fiquei, de joelhos, enquanto a vendedora, pressentindo mais um potencial cliente, se aproximava com ar sorridente:
            “– É uma catatua domesticada. Pode tocar-lhe que ela não morde! E são apenas 70 euros…” – olhei à volta, sem conseguir esboçar qualquer resposta. Presa à minha indecisão, a pobre mulher lá voltou rapidamente à carga:
            “– Aquelas além também são catatuas, embora selvagens. Apenas 25 euros cada… aqueles roseicollis ou inseparáveis-de-faces-rosadas, como também lhes chamam, faço-lhe um desconto, pois estamos quase no fim da praça…” – agradeci com um leve e forçado sorriso. Tão forçado que quando dei por mim estava novamente só perante a inquietação da catatua.
            A plumagem colorida da exótica ave atraía os olhares dos que por ali passavam, embevecidos por ver um aperaltado pássaro, com crista de galo, empoleirado numa estaca de madeira. Lembrei-me, então, de Da Vinci, que compraria os pássaros nas feiras, apenas para poder voltar a libertá-los… e perante o exemplo do génio humanista senti vergonha de mim.
            Em frente da pobre catatua, o tempo parecia ter parado. De quando em vez, os nossos olhares encontravam-se. Talvez curiosa com a minha presença, interrompia as bicadas no fio, para logo depois voltar a retomar a tarefa. A razão parecia levá-la a compreender a missão de Sísifo que tinha pela frente, mas, ao mesmo tempo, o instinto parecia forçá-la a insistir uma e outra vez. Afinal, o instinto de liberdade é sempre mais forte do que todos os raciocínios urdidos.
            Quando, por volta do meio-dia, me vim embora, carregado de alfaces e cenouras, trazia estampada na alma aquela luta inglória. E é agora, aqui sentado à porta de casa, com vista para o Tejo, que recupero o sentido de mais um dia. Lá ao fundo, os maçaricos, os alfaiates e os flamingos esvoaçam em cima dos lodaçais. E lembro-me das gaiolas e da infeliz catatua, a bicar as algemas da escravatura moderna. As imagens vêm então em catadupa e assomam-me à memória as aves de rapina que um dia vi acorrentadas num desses museus de falcoaria, em que invocando o princípio das relações mutualistas se condena à escravatura um animal para gáudio de meia dúzia de homens. Lembro-me ainda de ter estudado que algures num passado não muito distante existia o hediondo hábito de furar os olhos dos melros para que eles cantassem de um modo mais profundo e dolente. E ao imaginar que esse canto terá animado serões e inspirado até poetas ou músicos, dou por mim a sentir vergonha de ser homem.
            Quando compreenderemos, finalmente, que os animais não se compram e vendem? Quando compreenderemos que os seres humanos não são tão especiais como julgam? Quando se tornará claro que a nossa suposta superioridade em relação a toda e qualquer forma de existência não passa de uma representação errada e profundamente perigosa?
            Talvez que para muitos dos leitores faça ainda sentido a caça, bem como o tenebroso ritual de espetar ferros afiados nos dorsos de touros, perante as gargalhadas da assistência, mas para mim tudo isso já não faz qualquer sentido. Vai mesmo contra tudo o que a passagem dos anos me tem ajudado a compreender.
Sem margem para dúvida, matar por prazer já não deveria fazer parte do mundo ao qual eu gostaria de pertencer, tal como comprar animais para depois aprisionar dentro de jaulas. Se cada cidadão tem hoje nas mãos o imenso poder do consumidor, a verdade é que nem tudo se pode comprar ou vender. A liberdade é, definitivamente, uma delas.
Na obra A genealogia da Moral, editada em 1887, escreveu Nietzsche: “Talvez deva admitir-se que o deleite da crueldade não desapareceu; apenas se subtilizou, se revestiu das cores da imaginação, se espiritualizou e se cobre com nomes hipócritas”. O futuro parece, cada vez mais, continuar a dar-lhe razão…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)