O Duarte fala imenso e às vezes conta histórias curiosas. No fim de semana o Duarte quando estava na casa de banho estava pensativo e a mãe perguntou-lhe "já tens namorada?" ao que o Duarte respondeu "Ainda não escolhi se calhar na próxima semana vou juntar todas as raparigas da minha turma" e a conversa continuou "Estava a falar com a Pilar e o Leo disse já tens uma namorada". O Duarte retorquiu "Só estou a falar com ela". Bem no fim desta conversa a mãe pontuou a conversa " Olha se as juntares as todas quando escolheres não digas a todas chama-a à parte"
segunda-feira, 18 de setembro de 2023
Conversas ao almoço
Hoje almocei no "marmitório" da escola. A manhã foi cansativa e soube-me bem aqueles minutos que no fim me apercebi que foi uma hora. Com a proximidade de casa apercebo-me que as minhas colegas conhecem as mesmas pessoas que eu. Durante o almoço falei mais uma vez do Luso, desta vez sobre "A sardinha fora da lata" e do requinte da sua comida. Na minha há imensos colegas de Coimbra e da zona de Aveiro que fazem muito mais quilómetros do que eu, é uma sensação estranha, foram muito anos de precariedade e este ano tenho este presente. É bom estar em casa meia hora depois de terminar as aulas.
domingo, 17 de setembro de 2023
O nosso Sábado
No sábado acordou mais tarde depois de dois dias onde acordou cedo e correspondeu positivamente aos anseios dos pais sobre as manhãs de escola. O Duarte cresce rápido.
Neste sábado chuvoso, ficou logo descartada a minha ideia matinal de ir jogar ténis. Recentemente tenho ido jogar ténis com o Duarte e tenho-me divertido a vê-lo crescer nesta modalidade. Ele vai a todas muitas vezes sem ser preciso o incentivo paterno.
Ainda antes do almoço o Duarte fez os trabalhos de casa com a supervisão dos pais. Apesar das distrações que fazem parte da idade, tentou contornar a realização da tarefa iniciada focando-se noutras coisas, levantou-se por várias vezes para realizar outras tarefas que gostava mais de fazer. O mais importante é que passado quase uma hora conclui com inteiro sucesso a tarefa pretendida.
O Duarte esteve teve um bónus, o Gaspar veio cá passar o fim de semana e ele teve a tarde todo com o "pimo". O Duarte gosta muito de estar com o "pimo", e o "pimo " com ele. Quando estão os dois há risadas brincadeiras e boa disposição. O Duarte tem muita paciência para brincar com o primo e adapta-se às brincadeiras com menos 4 anos de idade.
O Duarte tem o problema de dispersar com coisas que lhe são mais aprazíveis de fazer, correr atrás de um balão, brincar com uma bola, simular que é guarda redes atirando a bola contra a parede e defendo são tarefas que repetidas muitas vezes levam os pais ao desespero. Temos de aprender a saber lidar com ele e ele connosco.
As conversas durante as refeições são ricas. Ao jantar a conversa divergiu para a música. Falámos que este fim de semana vem cá a Maria João no entanto infelizmente devido à distância, ao mau tempo e também não ser o nosso género de música preferido não iremos. Congratulo o município por conseguir trazer cá uma artista de tamanho renome. Já na parte final da refeição acabei por falar da deslocação do novo projeto musical da Capicua "Mão verde II" O grupo irá à Covilhã no próximo dia 7 de Outubro.
Neste sábado dia 16 de Setembro foi à Covilhã o grupo "Birds are Indie". Um grupo português que canta em inglês música pop rock.
sábado, 16 de setembro de 2023
Os primeiros dias de Escola do Duarte
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
Conversas com o Duarte sobre a escola
Ontem tive uma conversa sobre a escola com o Duarte. Tentei explicar-lhe as mudanças que o esperavam no próximo ano letivo. Hoje digeri melhor o que lhe disse e apercebi-me que exagerei ou melhor temos exagerado um pouco na forma como estamos a alertar o Duarte. Referimos apenas as diferenças negativas do primeiro ano quando comparado com a pré escola: Tem de estar sentado numa sala, ouvir com atenção a professora e que irá passar a ter que fazer atividades em casa.
Ele perguntou-me no final da conversa com um ar tristonho, " mas as atividades não são todas feitas na escola"
Amanhã será o primeiro dia de escola do Duarte.
terça-feira, 12 de setembro de 2023
O autocarro do Duarte
Neste início do ano letivo andamos num reboliço a tentar adaptar-nos aos novos ritmos das novas escolas. O Duarte acaba por sofrer na pele este stresse que reina sobre nós pais professores.
Noto-o a crescer e a ser mais autónomo. Ontem eu tinha que estar na escola entre as nove e as nove e meia. Ele acordou às 8:15 vestiu-se e pouco depois das 8:30 estava quase pronto para sair. Já é um menino grande.
Depois do jantar eu sentei-me no sofá junto do Duarte e este disse-me, pegando num cabide, este é o volante e eu vou conduzir-te no meu autocarro. Eu lá acedi na minha sonolência e disse-lhe que pretendia ir para o Porto. Ele perguntou-me para onde ao que eu respondi para o café Porto.
Após me ter sentado um pouco no sofá e passado pelas brasas enquanto ia para o Porto fui sentar-me um pouco ao computador a adiantar tarefas da escola.
Enquanto estávamos ambos a trabalhar no escritório ele veio ter connosco e pediu por várias vezes para o ajudar a utilizar a fita cola, pois à medida que ele estava a fazer as colagens com fita cola, a ponta insistia em colar-se e ele não tinha dedos para a retirar.
Passado uns instantes vem ter connosco e chamou-nos, pais venham à sala rápido. Vejam o que é que eu fiz no sofá. Quando chegámos observámos com atenção o sofá e observámos que ele tinha colocado a matricula e os faróis dianteiros na parte dianteira(lateral) do sofá e a matricula e os faróis traseiros na outra parte do sofá.
Achei delicioso!
Conversas no Multibanco
Na passada sexta feira fui ao multibanco fazer o pagamento anual do Jornal do Fundão, no entanto o pagamento não estava a dar e estivemos ali uns minutos.
A seguir a mim estava um senhor para pagar a eletricidade que infelizmente também não conseguiu fazer o pagamento naquele multibanco.
Naqueles minutos houve uma breve conversa entre o Duarte e o senhor:
Senhor: Então vais para a escola
Duarte: Não me recordo o que o Duarte, penso que fugiu ao tema.
Senhor: Moras em que rua?
Duarte: Rua Alexandre Herculano
Senhor: Moro na rua Brás Garcia de Mascarenhas, mesmo pertinho de ti.
Duarte: Tu és carteiro
Senhor: Sim sou, tenho o fato, só estou de bermudas
Duarte: És Zé ou Miguel
Senhor: Sou Zé mas se me chamares Miguel eu não me importo
Achei muito interessante a espontaneidade do Duarte, quando interpelado por adultos. Neste caso conhece o senho há pouco tempo, o carteiro Zé (admito que eu não sabia o nome dele), tem uma relação mais próxima e duradoura com o carteiro Miguel daí a sua confusão.
Naquele dia falámos com o Antero que relembrou o meu pai que no dia 17 de Setembro de 2023 vem a Aldeia das Dez a Maria João. Um acontecimento inédito.
quarta-feira, 6 de setembro de 2023
Um breve regresso à escrita.
A tarefa de escrever tem sido cada vez mais difícil. Este ano não terei que alugar casa e consegui algo que não sonhava que o conseguisse tão cedo, entrar no quadro e ser colocado numa escola a 30 e poucos quilómetros de casa.
A gestão das minhas emoções não é nada fácil. Eu olho demasiadas vezes para trás, vejo um passado pesado. Este ano letivo não começou como eu desejava. No dia da apresentação faltaram-me as conversas descontraídas que tinha em Vendas Novas. A passagem por Vendas Novas, principalmente no segundo ano fez-me muito bem, arrisco-me a dizer que foi das poucas escolas onde trouxe amigos que irão ficar para a vida. Quando olho para trás sinto que tive um ano muito difícil mas apoiei-me nos sorrisos e na força dos colegas, evolui muito enquanto docente. Nas viagem de mais de três horas que fazia recordo que pensei que ainda não me fui embora mas já estou com saudades. A empatia conquista-se e eu sinto que consegui deixar o meu sorriso e humildade em muitos dos meus colegas. Naquele local eu gostei de ensinar, senti-me feliz, partilhei opiniões, fui ouvido e respeitado.
Agora avizinha-se mais um desafio difícil. Eu tenho de aprender que não posso ser quem não sou, gostar mais de mim e olhar em frente.
sábado, 22 de abril de 2023
Histórias narradas ao desafio em dois minutos
Esta tarde fiz ao Duarte o seguinte desafio:
Eu sugeri uma palavra e a partir daí começo uma história inventada em dois minutos.
Na primeira história, mais curtinha, dei eu o mote no entanto a partir da segunda história o Duarte quis ser ele a começar e correu ainda melhor,
Primeira palavra foi:
Elefante
Pai: O elefante comeu a erva...
Duarte: depois veio o leão e comeu o elefante e deu aos filhos e à mãe...
Pai: e ficaram com a barriga cheia.
A segunda palavra foi:
Segunda Palavra
Banana
Duarte: Abanana encontrou a maça e disse-lhe "maça queres brincar comigo?"
Pai O que é que sugeres banana?
Duarte: Vamos brincar no parque
Pai: Queres brincar a quê?
Duarte: Queres brincar nos baloiços
Pai: Sim
Duarte: A seguir ao baloiço vamos à concha.
Terceira palavra:
Pegeout
Duarte: O Pegeout encontrou o BMW e disse-lhe vamos fazer uma corrida
Pai: Quando queres começar?
Duarte: Agora
Pai: Queres ir para onde
Duarte: Sei lá para uma pista de carros
Pai: Em que pista
Duarte: Em Évora há uma pista de Kartings
Pai: Achas que nos deixam entrar
Duarte: Sim
Pai: Então vamos
Duarte: 3,2,1 Partida, a corrida começa.
Pai: Quem ganha
Duarte: Sei lá.
Quarta palavra:
Cenoura
Duarte: A cenoura foi dar uma caminhada e encontrou uma couve
Pai: Olá cenoura como estás
Duarte: Estou bem, queres fazer uma corrida a caminhar?
Pai: Onde é a meta:
Duarte: Sei lá, trouxeste um giz?
Pai: Só tenho um giz roxo
Duarte: Faz um risco no chão
Pai: Está feito
Duarte: 3,2,1 Partida
Pai: Quem é que ganhou?
Duarte: Sei lá, foi a couve
Desafio "Se eu fosse..."
quarta-feira, 25 de janeiro de 2023
Uma história de setembro de 2021
Por vezes penso que sou forte, que a dor da distância é facilmente ultrapassada com o foco no trabalho e na inevitabilidade de estar longe de quem mais gostamos. Tenho por hábito escrever um diário onde descrevo as minudências dos meus dias. Hoje fiz greve e comecei a ler papeis que tinha escrito no ano letivo passado e parei neste que fez chorar, senti alívio em chorar. Afinal não podemos estar sempre a esconder aquilo que sentimos para nos sentirmos forte.
Passo a citar o texto escrito no dia 25 de setembro de 2021 o meu filho Duarte tinha 4 anos.
"A passagem do tempo é algo que aos poucos começa a entrar no cérebro do pequenino do Duarte.
Este ano letivo parece estar a ser mais difícil para ele gerir a minha ausência. No ano letivo ainda não percebia porque eu me ia embora todas as semanas. Nós dissemos-lhe que eu saia de noite e chegava muito cedo e só num determinado dia da semana é que eu chegava a horas de poder estar com ele.
Eu no ano letivo passado senti um afastamento do Duarte em relação a mim. lembro-me perfeitamente que a minha ausência o afastou de mim e aproximou da mãe.
Este ano letivo está a ser diferente, sinto-o mais próximo e apercebo-me que a minha presença é fundamental. A alegria transparecida no olhar é evidente assim como a vontade de me vir abraçar.
O ano passado também acontecia, mas este ano é diferente.
Nós ganhámos ligações que nos tornaram inseparáveis. Conseguir ter tempo para o Duarte ao fim de semana passou a ser algo indispensável para mim e para ele.
Os jogos inventados com bolas que se colocam no cesto ou na baliza ou as conversas com o senhor Fogaça sobre possíveis missões que eu tinha de tomar são muitas das brincadeiras que temos durante o fim de semana.
No passado fim de semana lembro-me da futebolada que fizemos onde se fartou de correr marcar golos e divertir-se. Acabou exausto e deixou-se dormir no banco de jardim que está junto ao campo.
Passado uns instantes fomos ao pavilhão ver um torneio de hóquei que lá estava a decorrer e sinto-o cansado. Tivemos lá pouco mais de meia hora. Quando fomos para casa fizemos a paragem habitual junto ao reservatório da água que fica junto aos bombeiros e ele já estava quase a adormecer quando me disse "pai levas.me ao colo até casa". Acabei por leva-lo às cavalitas e mal chegou a casa deitei-o e adormeceu profundamente. Acordámo-lo um pouco antes das 19h para jantar.
A amizade e o amor é crescente apesar da distância e isso deixa-me feliz apesar de saber que lhe custa mais a minha ausência.
Esta semana a mãe disse-me que ele olhou para um cartão da escola de Grândola pegou nele abraçou-o e disse "tenho saudades do pai" e chorou."
Costuma-se dizer que vida é assim, todas estas adversidades nos fazem crescer e tornar mais forte mas custam, custam muito. Hoje a distância custa-me a mim mas também ao Duarte, sinto-o na despedida.
terça-feira, 5 de julho de 2022
Eu e o Duarte
Observo o Duarte! Tenho medo de falhar na educação que lhe transmito. Observo alguns traços meus e deixa-me assustado. Percebo no Duarte ainda muita insegurança, muito medo de falhar, desiste facilmente quando vê que não consegue. Eu sou assim. O Duarte dispersa o pensamento e deixa as tarefas a meio se não for incentivado a acaba-las. Acontece-me isso muitas vezes principalmente quando não estou focado a realizar uma tarefa e as adio ao máximo, pois não tenho um rumo, estou perdido e não sei por onde ir. Hoje o Duarte após tomar o pequeno almoço a mãe mandou-o lavar os dentes e ele passou uma enormidade de tempo na casa de banho, antecipou a tarefa que tinha de fazer, ou esqueceu-se mesmo que era para lavar os dentes. Será que ele também tem receio de ir para a escola de ser confrontado com colegas que o desafiam. O Duarte é mole como eu não reage quando lhe batem ou quando recebe de um colega uma expressão menos positiva.
Daquilo que me recordo dos relatos dos meus pais sobre a minha pré escola/ ensino primário foi eles dizerem aos professores que eu era muito tímido. Desde sempre gostei de estar no meu canto, na minha bolha. Aquilo que mais me aflige é minha obsessão por definir objetivos constantemente quando algo corre mal. Estar constantemente a partir pedra para tentar chegar a um objetivo que nunca consigo. Quero sempre ser melhor, defino as estratégias, mas quando as implemento e percebo que algo corre mal coloco tudo em causa e volto quase à estaca zero. Considero isso masoquismo! O convívio social e a integração foi sempre o meu calcanhar de Aquiles. Tenho medo de expressar a minha opinião, de tirar as minhas dúvidas pois penso que elas são despropositadas, ou simplesmente porque não me sinto à vontade para falar com aquela pessoa. Estes serão alguns dos meus defeitos. Percebo que estes defeitos me tornam mais incompetente pois não me pedi ajuda quando o devia ter feito e tomei uma decisão errada que foi alvo de chacota por colegas ou alunos. Colocar-me constantemente na cabeça do outro é tremendamente desgastante e tóxico. Eu percebo isso mas é a maneira que eu tenho de lidar com as situações principalmente as que correm menos bem. Digo isto tudo porque sei que quando tenho as coisas bem definidas, acredito nelas tudo corre melhor. Na escola quando consigo desbloquear as minhas dúvidas, os meus receios tudo corre melhor. Partilho uma história vivenciada aquando da realização do cadastro predial no concelho de Oliveira do Hospital, mais concretamente em Aldeia da dez. Estava a fazer um levantamento de um prédio rústico e estavam lá cerca de cinco pessoas a opinar e acabei por não perceber nada do que eles diziam, até que me impus e disse que não estava a perceber nada e apenas saia dali quando percebesse a configuração do prédio(terreno) que estava e medir a área. Acabei uns instantes depois por perceber as estremas do prédio. Nesse período acabaram por acontecer mais situações dessas, no entanto consegui resolver grande parte delas através da minha organização dos meus esquemas em papel. Ainda hoje, e já passaram 10 anos consigo ver através dos inúmeros dossiers que fui construindo a localização dos prédios. Tento idealizar constantemente um modelo de organização que me sinta confortável, no entanto esbarro constantemente na complexidade do ensino de hoje e descuro o mais importante que é dar aulas. Talvez seja essa a solução para muito dos meus problemas.
Observo o Duarte e vejo que felizmente ele é mais sociável, não tem receio de brincar com outras crianças nos baloiços. Não é preciso dizer-lhe vai. O Duarte é uma criança muito inocente, ainda não sabe de forma clara o que está certo e errado. Acontece comigo, na definição do risco, saber até onde posso ir. Fizeram-me falta o confronto com regras com limites, fez-me falta conversar mais com os meus pais sobre os meus problemas, as minhas dúvidas. Fez-me faltar falar sobre aquilo que fui alvo na infância/adolescência a professores, amigos mais próximos.
Tudo o que eu sou hoje é também reflexo do meu passado. Agradeço a quem tem a paciência de conviver comigo diariamente. Posso dizer que apesar de tudo tenho muita sorte.
domingo, 26 de junho de 2022
Diário Pedra após Pedra (3º volume)- Fernando Alva
Acabei hoje de ler o 3º volume do diário de Fernando Alva A densidade da escrita, das narrações em prosa e em verso fizeram-me conhecer melhor o meu amigo Renato Nunes. Uma vida dedicada à escrita à investigação e ao prazer da leitura de Torga e Aquilino as suas duas grandes referências literárias que recorre frequentemente como forma sorver as suas palavras e recuperar energia. O autor observa a escola como um santuário do conhecimento. Fernando Alva é um critico de muitas políticas introduzidas atualmente na Educação. Uma boa parte deste livro é escrita nos Açores, onde foi docente de Educação Especial durante 3 anos. Fernando Alva retrata como ninguém a dureza mas também o poder do silêncio e da aprendizagem constante das vivências numa ilha. A trilogia de diários do Fernando Alva termina aqui. Tenho que lhe dizer o meu obrigado pois senti vontade de descobrir a poesia, algo que eu nunca pensei que acontecesse. Vou começar com uma poetiza local (Oliveira do Hospital) Lucinda Maria e depois quem sabe irei para Torga e quem sabe Pessoa.
Bem haja amigo
domingo, 3 de abril de 2022
Reflexões no fim do segundo período.
As lágrimas por vezes caem-me sem avisar. A pressão e o medo de falhar por vezes bloqueiam-me e impedem-me de seguir pelo caminho mais fácil. Insisto em não acreditar em mim e sigo a medo, com hesitações. O trabalho inevitavelmente não corre bem. Insisto, procuro focar-me nas tarefas imediatas e esquecer o que correu menos bem. Aos poucos vou-me erguendo, procurando ganhar energia em momentos de sucesso por mais pequenos que sejam. Vou levantando a cabeça. Em consequência do meu passado adquiri um medo de olhar as pessoas nos olhos. Lembro-me da saudosa "France" que me associou a uma avestruz por estar sempre de cabeça baixa. Sempre que levanto a cabeça e encaro um problema cara a cara lembro-me dela e de muitos alunos que se queixaram dizendo "o professor não nos olha nos olhos". Aos poucos e ao longo do meu percurso profissional procurei ganhar confiança naquilo que fazia. Não é fácil resistir aos sucessivos fracassos. A palavra desistir foi a palavra que predominou no léxico do meu percurso de vida. Apercebo-me muitas vezes que não consigo cumprir os meus objetivos, atingir uma meta. Penso nos sucessivos obstáculos que tenho de ultrapassar e das minhas limitações enquanto ser humano. Não pensei chegasse onde cheguei num tão curto espaço de tempo. Ainda cometo tantos erros no desempenho da minha profissão, sou olhado de lado por colegas, ou será a minha cabeça a julgar o comportamento dos outros? São tudo incógnitas de uma personalidade que privilegia mais em agradar aos outros que agradar a mim mesmo. Caminho muitas vezes sozinho, centenas de quilómetros de estrada. Recordo-me quando fui carteiro que dizia apesar da dureza do trabalho " tu consegues, não desistas". Senti que nessa altura trabalhava 12 hora por dia por estrada de terra no aldeia e lugares mais recônditas do concelho Seia. Sei que nessa altura fui criticado por muita gente pela incompetência no desempenho da minha função. Dessa experiência prefiro recordar uma conversa que mantive com um dos representantes da junta da Vide onde expus a minha preocupação pela impossibilidade do desempenho da profissão de carteiro devido à grande extensão do percurso. Foi um trabalho muito mal pago, lembro-me que ganhava o ordenado mínimo. Sempre privilegiei o trabalho ao ar livre, o contacto na rua com pessoas. Adorei o trabalho que desempenhei aquando da participação do cadastro de Oliveira do Hospital. Fiz levantamentos GPS de prédios rústicos e urbanos. Uma vez que entrei com o comboio já em andamento a formação teve que ser feita no terreno. Desenvolvi competências sociais através do contacto com as pessoas, conquistei o respeito das pessoas e de quem trabalhou comigo. Trabalhei arduamente no desempenho de funções que adorei fazer. Ainda hoje e já passaram quase dez anos sou recordados pelos moradores. Orgulho-me disso! O ensino regressou em consequência de um período de largos meses sem conseguir qualquer trabalho. Ao longo destes quatros anos no ensino, observei a dureza da vida de professor. Cresci muto e aprendi a gostar daquilo que fazia. Ser professor hoje é muito mais difícil que há 10 anos atrás. Os alunos estão mais desmotivados e é necessário estratégias diferentes para os cativar. Hoje há uma maior diversidade de alunos dentro da sala de aulas. Numa turma observam-se alunos com muitas dificuldades até alunos de excelência, passando por uma grande diversidade de culturas. Este ano letivo trabalho com alunos indianos, uma aluna do leste europeu( não me recordo do país), brasileiros e a partir da passada sexta feira de alunos ucranianos oriundos de uma Guerra sem fim à vista. Apercebo-me que os professores têm de estar constantemente a formar-se e adaptar-se . Uma batalha para os professores sobreviverem num mundo global de hoje. Uma profissão nobre que presta um grande serviço ao país e ao mundo. Para ser professor é preciso ter estofo e gostar mesmo daquilo que fazemos. Sinto que ainda tenho um caminho a percorrer. Adaptar.me às novas exigência e não desistir!
terça-feira, 16 de novembro de 2021
Entre poesia, prosa e reflexões sobre o ensino
À medida que vou lendo o livro "Pedra após pedra. A palavra- Diário III" vou conhecendo melhor a experiência do Renato Nunes por terras açorianas, enquanto Professor e Ser Humano. O Renato deixou fluir a caneta no seu caderno de capa preta e escrevia poesia à noite ao sabor do silêncio e de um heterónimo que ele designou Fernando Alva.
Recordo-me quando o Renato me ofereceu o primeiro volume do seu diário por terras açorianas disse-me "Tiago lês isso no instante". O Português nunca foi a minha disciplina preferida na escola e a poesia nunca foi dos conteúdos que gostei mais.
Nunca vou esquecer as aulas do Secundário onde tive a sorte de ter a professora da Florbela Pires, que infelizmente nos deixou precocemente em consequência de um cancro fulminante. Da Florbela recordo o seu sorriso e alegria de viver. Lembro-me quando Florbela me entregou um teste de Português onde eu obtive a classificação de Bom. Era um teste de poesia, tenho pena de já não saber onde está esse teste, gostava voltar a ler o poema passado mais de 20 anos. Nunca me vou esquecer da frase que ela me disse quando fazia a correção "foste quem melhor percebeu o poema". As minhas memórias da minha adolescência são muito curtas, no entanto esta passagem nunca irei esquecer, provavelmente pela surpresa do comentário e da nota obtida.
Voltando ao Renato Nunes e ao primeiro volume do seu diário, não o li em poucas semanas mas tentei perceber o ele escreveu. Acabei por escrever 3 textos no blogue:
Pedra após pedra- A palavra Diário I (2012-13) Fernando Alva (I- Educação Especial;
Pedra após pedra- A palavra Diário I (2012-13) Fernando Alva (II- A Família);
Pedra após pedra- A palavra Diário I (2012-13) Fernando Alva (III- Sensibilidade e Humildade).
(...)
Parei um pouco e li num ápice o texto do Renato Nunes escrito escrito em Dezembro de 2017 Ódio à escola. Aquando da leitura recordei as minhas últimas aulas de Geografia numa turma do oitavo ano. Este ano letivo estou a lecionar pela primeira em regime de semestralidade e comecei a lecionar Geografia no segundo terço do programa do sétimo ano que não tinha sido acabado no ano letivo transato. A turma é muito barulhenta, heterogénea e com cerca de 27 alunos. Optei pela estratégia de os colocar a escrever, visto que eles não terem manual do 7º ano, e a realizar fichas em simultâneo. As estratégias acabaram por surtir efeito no entanto no entanto senti a pressão de ainda ter o livro do oitavo ano para lecionar e as aulas terminariam cerca 40 tempos depois. Os conteúdos do oitavo são imensos e não há tempo para os conseguir lecionar de forma calma. Atualmente vou com cerca de 12 tempos nos conteúdos do oitavo ano e apercebo-me das dificuldades que os alunos estão a ter para conseguir acompanhar o ritmo. Na aula do dia 11 de Novembro fiz uma questão que pensava que grande parte da turma sabia responder, e qual não é o meu espanto quando observo o silêncio total na sala e apenas alunos a dizer que não sabiam, caiu-me a ficha.
A pressa é inimiga da perfeição. Eu à semelhança do professor do 1º ciclo do texto Ódio à Escola estou a correr contra o tempo, tenho uma turma enorme à frente e sinto frustração por saber que a mensagem não está a passar aos meus alunos. Não há maior revolta e tristeza para um professor quando percebe que não consegui transmitir a mensagem.
sábado, 13 de novembro de 2021
Inquietações (Clube de discussão do Fumaça)
terça-feira, 26 de outubro de 2021
Palavras de um Professor
Há momentos em que as lágrimas nos caem involuntariamente quando sentimos a voz do nosso filho a largas centenas de quilómetros. É duro, muito duro ser professor nos dias que correm.
Dói demasiado quando as coisas correm mal em catadupa, falhamos em consequência do cansaço que aumenta o medo de falhar. Em frente de um público não podemos mostrar insegurança, mas por vezes é inevitável em consequência da pressão, da burocracia, de querer chegar a todo o lado ao mesmo tempo e não conseguir.
Os papéis acumulam-se ao lado da secretária assim como as tarefas para o dia seguinte. Recordo-me hoje de manhã enquanto fazia uma pausa para comer uma sandes no bar da escola, desabafei com uma colega de Geografia " por mais anos que tenha de experiência o cansaço nesta fase do ano letivo é inevitável " Ela disse-me "Tiago não desanimes ainda tens muitos anos pela frente". Depois de ela ter dito aquilo pensei "será que eu vou aguentar este ritmo durante muito mais anos, bem tendo em conta o panorama extra ensino talvez não tenha escolha"
Trabalho imenso para melhorar e conseguir ser melhor professor mas esbarro muitas vezes em pensamentos que limitam o desenvolvimento das minhas capacidades. Isso enerva-me tanto.
Ser professor é sentir muitas vezes a desilusão quando preparamos tudo para que as coisas nos corram bem e depois a turma não nos deixar explicar os conteúdos com a clareza desejamos. Fico triste por saber que não correu tão bem, com imensas dores de cabeça, no entanto procuro encontrar forças na esperança que o próximo dia será melhor.
Ser professor é ser resiliente é abdicar de ter tempo com os nossos filhos e familiares e dedicar o nosso tempo aos outros na esperança de ouvir um dia destes um Obrigado. Estou tão habituado a ouvir criticas ou chamadas de atenção dos alunos dos colegas que até me esqueço daquela vez em que os alunos do EFA em Rio Maior me disseram " Obrigado professor" ou no Fundão quando um aluno do secundário me disse na última aula do ano letivo após todos os restantes alunos terem saído da sala "O professor explica muito bem, podia ser é mais simpático". Fiquei surpreendido, se calhar devia perguntar mais a opinião dos alunos sobre mim.
Escrevo este texto depois de um início de semana menos bom na esperança que com trabalho dias melhores virão.
sexta-feira, 22 de outubro de 2021
A menina do 2º ciclo
Este ano letivo estou a lecionar no Plano Casa.
Comecei há cerca de duas semanas e a minha tarefa é dar apoio a uma instituição de acolhimento de raparigas que são retiradas ao seu lar familiar por diversos motivos.
Quando entrei lá no primeiro dia observei um meio calmo, estranhei um pouco confesso. A Educadora muito simpática, afável e sempre com um sorriso na cara. Para ser Educadora numa Instituição de acolhimento de crianças é preciso gostar mesmo daquilo que se faz e dedicar-se de corpo e alma a uma causa tão nobre, admiro-a muito por isso.
Sobre o meu primeiro dia, lembro-me de uma conversa que a Educadora partilhou comigo enquanto eu estava a dar apoio na sala de estudo. Ela indicou-me as peripécias que tinha tido durante a madrugada onde teve que ir buscar uma residente da casa a um hospital de Lisboa em consequência dos excessos cometidos, lembro-me perfeitamente da expressão dela sobre a sua menina "Ela está a fazer mal a ela própria".
O apoio que eu faço é muito generalizado e acabo muitas vezes por divagar por caminhos das vidas das educandas. Uma delas ainda no segundo ciclo quando eu lhe coloquei um mapa de Portugal, perguntei-lhe onde era Lisboa, ela não me conseguiu dizer onde era, indicando-me que gostava de ir ao Porto, pois tinha lá um irmão ou um primo. Acabei por dizer-lhe onde era Lisboa e ela conseguiu depois dizer onde era o Porto. Aquando da conversa disse-lhe que o Porto ficava muito distante do local onde ela se encontra, cerca de 5 horas de carro. A menina dizia muitas frases repetidamente "pois é muito longe" "gostava muito de lá ir".... Notei um discurso vago e vazio. Percebi imediatamente a falta de bases e alguém que lhe indicasse um rumo. Devido ao pouco acolhimento para a minha presença das restantes educandas voltei à menina do segundo ciclo no segundo dia e entre a realização dos exercícios de Português íamos divagando por histórias da sua vida que eu levanto aqui um pouco da ponta do véu. Eu percebi que ela de 15 em 15 dias já vai a casa de familiares e subentendi a sua da vontade de sair daquele espaço e voltar para a família. Não percebi se ela gostou de estar em casa dos familiares no fim de semana, pois enquanto falávamos deixou escapar a expressão "felizmente ou finalmente (não me recordo ao certo) voltei para a instituição". Sinto quando falo com ela no seu tom monocórdico e pouco expressivo que ela ainda não está preparada para estar ali e o lar familiar também não será o local ideal. Assustou-me ouvir repetidas vezes ela dizer "Eu quero seguir a minha vida, eu não quero ser como as outras meninas". Quando ouvi dizer a primeira vez fiquei contente, mas quando a ouvi dizer quatro vezes fiquei preocupado. Após as sucessivas repetições senti que não era ela a pensar mas uma cartilha que lhe foi comunicada e ela segue-a sem perceber bem o seu significado. Na instituição sinto-a isolada e perdida. No terceiro dia eu propositadamente não fui ter com ela. Quando faltava pouco mais de meia hora para me ir embora veio ter comigo olhou para o meu telemóvel observou o meu filho e a partir daí decorreu mais uma conversa espontânea.
Fico por aqui nesta minhas novas experiência como professor.
segunda-feira, 4 de outubro de 2021
Educação e Arte
Uma escola deve ser um espaço embelezado essencialmente pelos alunos. Este ano letivo no Agrupamento de escolas de Vendas Novas, recordo-me perfeitamente nos primeiros dias andar "a partir pedra" de modo a que me apresentassem os cantos à casa. Assim do nada e com muita sorte deparei-me com uma pessoa muito simpática que me mostrou o Agrupamento de Escolas nº 1 de Vendas Novas. Subi as escadas e deparei-me com dois ou três magníficos quadros na parede da escola que me fizeram por momentos parar, deixar de a ouvir e contemplar a beleza daquelas obras de arte feita por alunos. Pedi-lhe desculpa em consequência de por breves instantes deixar de ouvir mas foi mais forte do que eu.
Gosto muito da minha escola pela forma bonita como está embelezada por dentro. Na minha opinião a arte permite aumentar a criatividade dos alunos.
Trabalhar na escola de hoje é um desafio diário, pois a heterogeneidade dos alunos é cada vez maior e temos de saber lidar como imensos alunos com profundas dificuldades. Por vezes não é fácil mas improvisamos à nossa maneira.
Lembro-me que o Duarte pergunta por muitas vezes o significado da morte à maneira dele. Nós tentamos sempre suavizar e dizer-lhe que está a dormir.
Para fazer a ligação entre a arte, as dificuldades de aprendizagens e o Duarte vou citar um excerto do II diário escrito por Fernando Alva designado "Pedra após pedra". O Renato Nunes autor do livro que criou o pseudónimo Fernando Alva enquanto narrador das suas peripécias enquanto professor de Ensino Especial nos Açores.
Cito a pág. 120 " ...Vivo em função dos outros. Falta-me um equilíbrio suficiente para me esquecer de mim.
Hoje, fui à escola, talvez a minha segunda casa, pedi a um menino com Perturbação do Espectro do Autismo que folheasse uma obra sobre Rembrant, pintor do século XVII, da designada escola realista. Ao ver "A descida da cruz", os olhos do jovem condoeram-se com o cenário dantesco. Depois de chocar com a mãe de Jesus deitada no chão, quis saber se estava morta e respondi-lhe que por certo havia apenas desmaiado. Senti-o mais tranquilo, mas os seus olhos rapidamente regressaram ao corpo martirizado de Messias, magro, barbudo e cabeludo....Que turbilhão de emoções terão atravessado a poderosa armadura daquele menino habituado a desviar o olhar?
Um colega de trabalho (não digo a profissão ressalve-se), vendo esta minha teimosia em expor "estes jovens" (para mim são apenas jovens) às mais nobres revelações artísticas, riu-.se sobranceiramente e jurou-me que não valia a pena.
Não sei se, na verdade, o faço mais por eles do que por mim próprio. Mas tenho a certeza absoluta que vale a pena. Quase todas as armaduras para não dizer todas têm um calcanhar de Aquiles e arte pode destruir muitas barreiras.
Van Gogh, Da Vinci, Rembrandt ... decisivamente, eu irei continuar."
quinta-feira, 1 de julho de 2021
Intervenções Político Ideológicas - Autor Renato Nunes
Nuno Palma, professor de História Económica na Universidade de Manchester, participou recentemente na 3.ª Convenção do Movimento Europa e Liberdade (MEL) com uma comunicação intitulada “As causas míticas da divergência económica portuguesa”. Ao longo da sua prelecção, entre outros aspectos, Nuno Palma denunciou a suposta falsificação da nossa História por parte das entidades oficiais: “os partidos da Democracia e em especial os da esquerda construíram uma narrativa que associou o atraso económico e social do país ao Estado Novo”, mas “essa narrativa é falsa. O Estado Novo até correspondeu a um período de rápida convergência económica com a Europa ocidental”. O salazarismo “resolveu o problema do analfabetismo”: nos anos 50, entre as crianças, o analfabetismo “já era absolutamente residual”. Ademais, prosseguiu, os manuais escolares do 12.º ano de escolaridade não apresentam bibliografia científica em relação ao Nazismo/Fascismo e ao Estado Novo, sendo apenas “referido o comunista historiador Hobsbawm e Fernando Rosas…” — ora, bastará consultar alguns manuais de História para perceber que este último argumento é pouco rigoroso. De resto, numa entrevista que posteriormente concedeu ao Jornal Económico e que divulgou no seu blogue “Portugal no longo prazo”, Nuno Palma foi mesmo mais longe: “O que é essencial percebermos, é que o licenciado Pacheco Pereira é um académico falhado. A suposta «história» que ele ou indivíduos como Fernando Rosas fazem é apenas política disfarçada de história. É tudo normativo, por isso não são capazes de conceber que outros queiram olhar para a História de forma objetiva e sem constantes julgamentos de valor” (https://nunopgpalma.wordpress.com/). Ainda em relação às afirmações de Nuno Palma a respeito dos manuais escolares de História, importa sublinhar que o aludido académico não menciona, estrategicamente, o facto de os programas oficiais aludirem às transformações verificadas, apesar de tudo, em alguns sectores da sociedade portuguesa, sobretudo a partir da década de 60 (de resto, sem essas transformações não seria possível compreender, por exemplo, as greves académicas).
Concluída a apresentação do orador principal, o moderador deu a palavra aos outros membros do painel e, por exemplo, de modo muito sintomático, João Marques Almeida destacou aquela que na sua opinião seria a principal conclusão da palestra apresentada por Nuno Palma: “Quanto mais um país é socialista e mais à esquerda, mais pobre é”.
Importa, desde já, registar que, atendendo à polémica provocada pelas palavras de Nuno Palma na Convenção do MEL, ele foi posteriormente convidado pelo jornalista Camilo Lourenço para participar no programa “A cor do dinheiro”. As duas intervenções em causa encontram-se disponíveis online (ver referências bibliográficas no final deste artigo) e ajudam-nos a compreender o pensamento do professor de História Económica.
Assim, na conversa com Camilo Lourenço, Nuno Palma procurou clarificar a sua tese: embora seja indefensável a ditadura, que tinha a censura e a polícia política (num artigo dado à estampa no jornal Público, em 8/6/2021, Nuno Palma classificou mesmo o Estado Novo como “uma ditadura execrável”), o regime salazarista/marcelista representou “um regime de relativa baixa repressão”, onde “não havia pena de morte” e no decurso do qual “houve algumas execuções extra-judiciais, mas que eram até relativamente baixas”.
Comecemos pelos principais aspectos positivos (ainda que, diga-se, pouco inéditos) da intervenção de Nuno Palma: alertar para o peso enorme do endividamento externo de Portugal, para o enorme peso do Estado na sociedade portuguesa, para a deterioração da qualidade das instituições políticas nacionais, para a insustentabilidade da Segurança Social nos actuais moldes, para a delapidação dos fundos estruturais europeus, para as “portas giratórias” (clientelismo e caciquismo omnipresentes) e, por exemplo, em jeito de antevisão fundamentada, para os perigos que nos espreitam no futuro imediato, caso insistamos em perpetuar as políticas que têm vindo a ser implementadas.
Ora, pese embora o facto de Nuno Palma insistir em reafirmar a validade das suas afirmações com base em supostos estudos científicos, certo é que a sua comunicação representou, em traços gerais, o contrário do que significa fazer História. As suas descobertas apressadas constituem um amontoado de generalizações e acusações, com inequívoco pendor político-ideológico, que importará desconstruir.
I ― Disse Nuno Palma que o regime salazarista/marcelista representou “um regime de relativa baixa repressão”, onde “não havia pena de morte” e no decurso do qual “houve algumas execuções extra-judiciais, mas que eram até relativamente baixas”. Ora, existem factos históricos que desmentem categoricamente as conclusões de Nuno Palma, nomeadamente: o campo de concentração do Tarrafal, as prisões políticas dos comunistas, mas também de espíritos liberais, a censura, os assassinatos consumados pela “PIDE” (caso de Humberto Delgado, em 1965, entre outros), a farsa dos “julgamentos” concretizados pelos Tribunais Plenários, as constantes coerções sobre os funcionários públicos por questões políticas e, por exemplo, a Guerra Colonial, em Angola, Guiné e Moçambique, entre 1961 e 1974 (com os crimes de guerra cometidos de ambos os lados, os milhares de vítimas, a delapidação de dispendiosos recursos desviados para o esforço bélico e que seriam fundamentais para o desenvolvimento dos países envolvidos…). Ainda nesta sequência, registe-se que a Guerra Colonial foi responsável por milhares de mortos, feridos e mutilados, para já não falar nas terríveis consequências psicológicas (traumas) que os ex-combatentes continuam ainda hoje a enfrentar (quase sempre, reflicta-se, sob a indiferença dos órgãos estatais).
II ― Sustentou Nuno Palma que o salazarismo “resolveu o problema do analfabetismo”, que, nos anos 50, entre as crianças “já era absolutamente residual”. Como é evidente, para fazer História, Nuno Palma não pode limitar-se a mobilizar apenas os números que mais convêm à sua tese, neste caso falando tão-só do analfabetismo entre as crianças (e o analfabetismo global, que em 1970 rondava os 26%? — PORDATA — e como ignorar, apesar de tudo — como ele insiste em fazer — o papel pioneiro desempenhado ao nível da alfabetização pela I República, ainda que em circunstâncias muito complicadas, de resto, agravadas pela participação do país na I Guerra Mundial?). Poderíamos, de resto, estabelecer uma conclusão idêntica no que diz respeito à suposta convergência económica do país em relação à Europa Ocidental, durante o Estado Novo, mas já durante os “Trinta Anos Gloriosos” (fim da II Guerra Mundial — início da década de 70) — e com a existência de um império colonial… dois “pormenores” contextuais que o orador se esqueceu convenientemente de explorar...
Importa sublinhar que o Estado Novo foi um regime repressivo que insistiu, contra todos os ventos (ONU, EUA, grupo de novos países nascidos do processo descolonizador dos anos 50 e 60…), em perpetuar um estratégico Império colonial e que durante a II Guerra Mundial (1939-1945) estabeleceu rentáveis ligações comerciais, quer com a Alemanha Nazi, quer com a Inglaterra (nomeadamente em relação ao volfrâmio). Pese embora as transformações verificadas, a verdade é que a estrutura do país permaneceu idêntica durante o salazarismo/marcelismo: agricultura de subsistência, indústria incipiente e com fortes ligações das oligarquias ao poder central, forte condicionamento à iniciativa privada, manutenção dos monopólios e do caciquismo encobertos pela forte máquina repressiva e censória, concentração da riqueza em elites, enquanto a maioria da população passava fome e mantinha uma mentalidade profundamente conservadora (sobretudo nos meios rurais), mesmo após a liberalização (fracassada) da era marcelista (1968-1974)…
Mas debrucemo-nos ainda sobre a questão do analfabetismo. Como escreveu Adélia Carvalho Mineiro, ao Estado Novo interessava “que todos aprendessem a ler e escrever ― condição segura para se propagandear a ideologia ― mas que não se fosse muito além da escolaridade obrigatória” (Adélia Carvalho Mineiro ― Valores e Ensino no Estado Novo. Análise dos Livros Únicos, p. 293). Tratava-se, por conseguinte, de um sistema educativo autoritário e repressivo orientado para formatar os alunos para a obediência (se necessário, à custa da dolorosa “menina dos cinco olhos”, leia-se “palmatória”), para a memorização e simples repetição, para a perpetuação da hierarquia social (filho de camponês seria camponês) e para a permanente subjugação da mulher, no plano social, familiar, financeiro e profissional. Um ensino, portanto, que pretendia ensinar a ler e a escrever, fundamentalmente para garantir a sua perpetuação no poder e que, nessa sequência, divulgava uma narrativa nacionalista e hagiográfica da História de Portugal. Falamos, afinal, de um sistema educativo marcado pela falta de docentes, pela desvalorização e subalternização da classe profissional (veja-se o caso dos regentes escolares e a necessidade dos professores assinarem uma declaração de concordância com a Constituição de 1933 e de renegação do Comunismo), a política do livro único (oficialmente aprovado pelo regime), a integração dos jovens (7 a 14 anos, limite cronológico que poderia ser estendido) na Mocidade Portuguesa, que adoptou a saudação fascista, a intervenção do regime no casamento das professoras, que carecia de autorização do Estado Novo (Rómulo de Carvalho ― História do Ensino em Portugal. Desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano, p. 762). E muitos outros exemplos poderiam ser aqui invocados, a respeito de um sistema que apenas em 1960 consagrou a obrigatoriedade de as mulheres frequentarem a escola até à quarta classe. Em sentido inverso, importará, no entanto, não esquecer a construção de uma rede de escolas nacionais ou as políticas educativas reformistas de Veiga Simão, já na era marcelista (em 1973, seria aprovada uma lei que previa, por exemplo, a institucionalização da educação pré-escolar e a extensão da escolaridade obrigatória de seis para oito anos ― Rómulo de Carvalho ― ob. cit., p. 809).
III ― Nuno Palma alude ainda a outros supostos “indicadores de bem-estar” que caracterizaram a sociedade portuguesa durante o Estado Novo, essa mesma sociedade, na qual o alegado especialista económico parece desconhecer que muita gente andava descalça, incluindo centenas de crianças. Ora, sendo certo que a mortalidade infantil desceu ao longo do regime, é ou não verdade que em 1974 ela continuava a ser muito superior em relação a vários países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE)? É ou não verdade que a década de 60 foi marcada, em Portugal, por elevadas taxas de emigração? E qual a razão que levou milhares de portugueses analfabetos e miseráveis a sair, clandestinamente, da pátria, por exemplo, em direcção aos andrajosos bidonvilles de França? E, já agora, qual a diferença entre o nível de vida dos portugueses que, nas décadas de 60 e 70, viviam nas cidades e nos campos? E qual o peso para as estatísticas das remessas enviadas para Portugal pelos nossos emigrantes para essa suposta convergência nacional em relação aos países da Europa Ocidental? Afinal, como recentemente escreveu o historiador Fernando Rosas a respeito da realidade portuguesa: “Ao chegar a 1973, o salário médio nacional era 25% do alemão, 29% do francês e menos de metade do espanhol; as famílias mais ricas (4,9 % do total) concentravam um quarto do rendimento familiar global; um terço das famílias portuguesas não dispunha de rendimento anual mínimo para satisfazer as necessidades elementares; 36% dos alojamentos familiares não tinham luz elétrica e 41% não dispunham de saneamento básico” (Público, P2, 20/6/2021, p. 17).
Ainda a este respeito, no blogue de Nuno Palma é possível ler uma das suas mais recentes intervenções: o Estado Novo não foi fascista, mas sim “uma ditadura nacionalista de direita”, “como afirmam claramente os verdadeiros especialistas”. E para concluir, num golpe de génio: “Aliás os verdadeiros regimes fascistas tinham orgulho nisso, mas o Estado Novo nunca se definiu a si próprio como tal” (https://nunopgpalma.wordpress.com/)...
IV ― Segundo Nuno Palma, o Partido Comunista Português nunca lutou pela liberdade e pela democracia, sendo assim falsas as representações veiculadas na Fortaleza de Peniche, onde se diz que ali estiveram presos aqueles que lutaram pela democracia e pela liberdade. Pese embora ser forçoso reconhecer que os crimes cometidos pelos partidos comunistas durante o século XX, por exemplo na URSS, foram igualmente comparáveis e por isso igualmente condenáveis aos que foram cometidos pelo Nazismo e pelo Fascismo (ver Alain Besançon ― A dor do século. Sobre o comunismo, o nazismo e a unicidade da Shoah, p. 138), é fundamental destacar o extraordinário papel desempenhado pelos comunistas portugueses na luta contra o Estado Novo. Uma luta que implicou, frequentemente, colocar em causa a sua própria sobrevivência. De resto, não foram apenas os comunistas que estiveram presos em Peniche (e nas restantes prisões políticas e no campo de concentração do Tarrafal). Já agora, não foram apenas os comunistas que foram vigiados, perseguidos, torturados e até mesmo mortos pelo regime de Salazar/Marcello Caetano. Escrever um simples livro poderia implicar a prisão, como, por exemplo, sucedeu com Miguel Torga, em 1939-1940, e com muitos outros cidadãos portugueses, facto bem evidente quando se consultam os arquivos da “PIDE” na Torre do Tombo, em Lisboa (será que Nuno Palma algum dia se predispôs a desenvolver essas e outras árduas pesquisas nos arquivos?).
Escrever e reescrever a História é um pouco como estar dentro de uma sala completamente escura e ir procurando iluminar o mais possível o que nos rodeia, procedendo assim à sua interpretação e contextualização, do modo mais objectivo possível. Ora, Nuno Palma tem uma lanterna no bolso, mas só ilumina o que lhe dá mais jeito ou então insiste em não querer ver... Queixa-se de ser vítima de uma campanha de falsificação e manipulação, quando na verdade é ele que, embora invocando constantemente a ciência, insiste em apenas mobilizar os dados que mais lhe convêm.
Os novos ideólogos gritam frequentemente pela ciência e declaram-se imunes à ideologia. Deveriam assumir, porventura, uma atitude mais humilde: reconhecer que ninguém é completamente imune à ideologia e que, por isso, deveriam proceder a uma auto-crítica permanente. Daí o conselho de José Pacheco Pereira, que, afinal, serve para todas as pessoas verdadeiramente interessadas em perseguir o conhecimento e não apenas fazer parte de manifestações político-ideológicas: ESTUDEM!
Referências bibliográficas: Conversa de Camilo Lourenço com Nuno Palma, no programa “A cor do dinheiro”: https://fb.watch/64DFdES75S/; Movimento Europa e Liberdade (3.ª Convenção, 4/6/2021) — https://youtu.be/v4zr58fJq6s; Blogue de Nuno Palma ― “Portugal no longo prazo”: https://nunopgpalma.wordpress.com/; José Pacheco Pereira, “A indústria de falsificações do Estado Novo”, Público, 5/6/2021; Nuno Palma, “Cortinas de fumo: a indústria de falsificações e deturpações”, Público, 8/6/2021; Nuno Palma, “A profundidade histórica do atraso português”, Público, 27/6/2021; Fernando Rosas, “O milagre da economia sem política”, Público, P2, 20/6/2021; PORDATA: “Taxa de analfabetismo segundo os censos” (https://www.pordata.pt/Portugal/Taxa+de+analfabetismo+segundo+os+Censos+total+e+por+sexo-2517); Adélia Carvalho Mineiro ― Valores e Ensino no Estado Novo. Análise dos Livros Únicos, 1.ª edição, Lisboa, Edições Sílabo, 2007; Alain Besançon ― A dor do século. Sobre o comunismo, o nazismo e a unicidade da Shoah, Lisboa, Quetzal Editores, 1999; Rómulo de Carvalho ― História do Ensino em Portugal. Desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-
-Caetano, 4.ª edição, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2008.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)










