O nosso mundo é tão injusto. Falo insistentemente com os meus alunos da sorte que eles têm por poderem ir à escola. Infelizmente isso ainda não é possível para milhares de crianças, onde esse direito lhes é vedado, porque simplesmente nasceram num país e numa família que não lhe dá esse direito. É muito triste. Força àquelas crianças que lutam por aprender.
Joana Benzinho é um exemplo. Aquando de uma visita à Guiné Bissau esta Portuguesa no Mundo apercebeu-se que as crianças na Guiné Bissau que lutavam para ir à escola e trabalhavam no Verão para concretizar esse sonho. Esta Portuguesa no Mundo criou a Fundação Afetos com letras, uma ONG reconhecida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Português, que possibilita através da construção de escolas e bibliotecas que neste país milhares de crianças possam ter acesso à educação.
quinta-feira, 25 de abril de 2019
domingo, 31 de março de 2019
Dia Mundial da Paz
Anualmente no primeiro dia de cada ano comemora-se o do dia Mundial da
paz. Infelizmente o Mundo está repleto de situações de guerra e conflitos, onde
quem mais sofre são os mais frágeis ou seja as crianças e o idosos.
Para a comemoração deste dia, o papa Francisco dirigiu-se aos fieis
indicando os males latentes na política como a corrupção, o abuso de poder, enriquecimento
ilegal, xenofobia e racismo. Todos estes abusos dão azo a guerras e consequente
à necessidade de as pessoas procurarem melhores condições de vida noutros
locais aumentando as migrações.
As migrações são muitas vezes observadas de forma negativa pelas
populações locais que vêm os seus empregos em risco com a entrada de
estrangeiros no seu país.
Sobre a mensagem do Papa Francisco queria realçar a necessidade de em
primeiro lugar os governos fazerem bem o seu papel gerindo convenientemente os
seus recursos distribuindo-os de forma homogénea pela população local de forma
a que esta não sinta necessidade de sair por motivos políticos ou religiosos. Por
outro lado os países mais desenvolvidos que são uma fonte de esperança para
pessoas que perderam tudo deverão mudar a sua mentalidade recebendo esta gente
jovem que poderá ser uma mais valia para a dinamização do país. O caso do
Fundão é um caso a observar com a atenção e repetir, pois houve sucesso no processo
de integração dos imigrantes.
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Direitos Humanos,
Pobreza,
Tiago Sousa
sábado, 30 de março de 2019
A romancista da ALDEIA DOS VENTOS
Ermelinda
da Silva (1922-2019) foi uma escritora autodidacta de Vila Franca da Beira, que
subiu a pulso a “íngreme cordilheira das letras”. No total, deu à estampa
quatro obras: Da Realidade à Fantasia
(1988); Sofia – A mãe solteira (1992); A Toutinegra do Moinho (1999) e A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma
chora (2006).
Filha de um agricultor e de uma
mulher que se dedicava aos afazeres domésticos, foi profundamente influenciada
por um avô, que lhe passou precocemente para as mãos um dicionário ilustrado
que a jovem passou a ler de fio a pavio, como se de um autêntico romance se
tratasse. Poupada às lides agrícolas, acostumou-se, como fazia questão de
recordar, a ouvir o povo tratá-la por fidalga.
Na década de 30, já depois de
concluir a 3.ª classe, preparou-se, sob a orientação da professora Clarisse,
para o temido exame da 4.ª classe, acabando reprovada “devido aos problemas
aritméticos”. Casou-se em 1946, cerca de um ano após o fim da II Guerra
Mundial, com Manuel Abrantes, mais conhecido como “Vidal” (1920-2012). Nesse
mesmo ano, o casal teve o primeiro e único filho, que ainda hoje lá na aldeia
todos conhecem simplesmente como Vidal.
Segundo a própria narrou, em
entrevista gravada em 2017, teria começado a escrever devido a um episódio dramático,
mas relativamente comum na primeira metade do século XX: a inesperada gravidez
de uma rapariga solteira. Este acontecimento, que implicava um estigma profundo
para todas as mulheres que o vivenciavam, sobretudo nos meios rurais, deixou
também marcas profundas em Ermelinda da Silva. Obcecada pelo sofrimento da
jovem e pela “desonra” da família, Ermelinda passou a ter insónias frequentes e
apenas começou a descansar um pouco quando decidiu verter para o papel uma
versão romanceada daquele trágico episódio. A fazer fé no testemunho da
romancista, esta teria marcado a sua primeira incursão literária, infelizmente
destruída pela própria após o traumático falecimento do marido, já em 2012. É,
porém, provável que o facto em causa tenha de algum modo sido recuperado quando
redigiu Sofia – A mãe solteira,
romance dado à estampa em 1992.
Em 1948, o casal foi viver para o
Porto, onde passaram a dirigir um restaurante. Ermelinda da Silva ocupava-se,
fundamentalmente, da cozinha e aproveitaria todos os raros intervalos (até
mesmo quando estava a fazer fritos!) para ir lendo: caso do extinto periódico O primeiro de Janeiro, mas também do
romancista histórico António Campos Júnior (1850-1917), com A ala dos namorados e A rainha madrasta. Depois chegou mesmo a
alugar livros, que ia religiosamente lendo todos os dias, como se de uma
obrigação se tratasse. Em 2017, com 95 anos, a minha conterrânea
Vila-Franquense continuava a recordar-se destas leituras, quase como se as
tivesse concretizado na semana anterior.
À semelhança do que já tive
oportunidade de escrever (prefácio à reedição da obra Da Realidade à Fantasia, em 2016, pela Câmara Municipal de Oliveira
do Hospital), todos temos pais espirituais, além dos biológicos. Para mim,
Ermelinda da Silva foi a minha “mãe” espiritual. A partir daqui, tudo o que eu
possa dizer será necessariamente escasso para reafirmar a admiração que tenho
pela extraordinária autodidacta, com a qual descobri uma das maiores lições da
vida, quiçá mesmo uma das mais árduas de concretizar: a importância de aprender
a ouvir os outros, antes de tentar dizer ou escrever o que quer que seja.
Ermelinda da Silva predispôs-se,
sobretudo, a ouvir o povo, ao qual foi colher uma grande parte da matéria-prima
para escrever as suas obras. Algumas delas, segundo penso, mereciam mesmo uma
projecção nacional, caso do romance A
Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora, que abre de um modo
magistral: “Seguramente o pensamento de Zé Luís era um caminheiro sem destino,
ou seria como pêndulo de relógio no seu toque, toque”. De resto, prosseguindo o
esforço cultural que a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital tem vindo a
desenvolver nos últimos anos, acredito que seria de todo pertinente proceder a
uma reedição, pelo menos, da referida obra, garantindo, no entanto, que a mesma
fosse previamente expurgada de gralhas e outros lapsos que, lamentavelmente,
integraram a 1.ª edição.
Trata-se
– não será despiciendo afirmá-lo – de uma autora progressista, sempre
preocupada com os leitores, nomeadamente os mais jovens, aos quais, de resto,
sempre procurou infundir uma mensagem de esperança e de valorização do estudo e
do trabalho. As personagens dos seus livros aparecem insufladas de um tal
humanismo, que não podem deixar de parecer-nos familiares. Personagens tão
reais que, por vezes, temos a impressão de poder tocá-las nas nossas
deambulações quotidianas. A título ilustrativo, atente-se nesta fala da
personagem Adriana a Zé Luís, inserta na obra A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora: “– Solta-te pá,
vamos curtir. Não me digas que ainda és virgem? Se assim for, não sabes o que é
um beijo profundo, sensual, caraças, nunca tiveste uma experiência amorosa?”.
São, pois, feitas de carne e osso todas as personagens ressuscitadas por Ermelinda
da Silva, mas sempre caldeadas pelo denso nevoeiro em que habita a imaginação;
véu sem o qual, aliás, toda a vida se tornaria insuportável.
Ermelinda
da Silva era uma mulher divertida, emotiva e muito atenta aos detalhes. Uma
mulher que manteve uma lucidez e uma tremenda vontade de aprender praticamente
até aos últimos instantes da vida e que, também por isso, procurou estabelecer
laços sociais, sobretudo, com pessoas que a ajudassem a adquirir novos
conhecimentos. Sempre pronta para uma boa conversa, em redor de um chá com
bolinhos, mostrava-se uma interlocutora acutilante e incisiva nas suas críticas
ao Homem e à sociedade. Privou de perto com nomes como Tarquínio Hall
(1915-2002) e Manuel Cid Teles (1911-2009), que chegaram a buscar a companhia
da sua família, em Vila Franca da Beira.
Tive
o raro privilégio de frequentar a sua casa e assistir quase em directo ao acto
da criação literária no seu escritório franciscano. Quando decidi entrevistá-la,
em 2017, para além das notas que fui escrevinhando no caderno de capas pretas
que sempre me acompanha, optei por colocar em cima da mesa o gravador. E em boa
hora o fiz, pois recordar a sua voz continuará a ser pela vida fora uma maneira
de ir matando saudades da melhor romancista que algum dia tive oportunidade de
conhecer. Uma Amiga, com a qual aprendi muito; uma mulher que apenas concluiu a
3.ª classe e, sacrificando o próprio património familiar, perseguiu o sonho de
tornar-se escritora, numa terra (num país) onde poucos são aqueles que lêem ou
revelam verdadeiras preocupações culturais. Uma mãe e esposa muito dedicada aos
seus, acompanhada ao longo de quase sete décadas por um homem (Manuel Abrantes
“Vidal”) que, numa sociedade ainda profundamente machista, soube compreender
desde muito cedo as aspirações culturais da esposa e tudo fez para ajudar a
concretizá-las.
Deixo-vos
apenas com algumas das lições que fui colhendo de Ermelinda da Silva. Haveria
outras, muitas, mas estas são apenas algumas daquelas que fui escrevendo e
registando. A sua mensagem é mais vasta e continua viva nas obras que editou.
Vale a pena marcar um encontro com as palavras que nos legou.
I – “O povo é poeta, transpira
poesia, e nem se dá conta disso”;
II – “Não somos todos iguais”;
III – “Estudar também é trabalhar,
faz suar”;
IV – “O amor é perdão”;
V – “Rasguei tanto, tanto! Andei à
deriva como um barco, mas teimei e avancei”;
VI – “É forçoso ler e escrever.
Também é uma forma de fugir às futilidades”;
VII – “Os dias mais felizes da minha
vida: o casamento (a minha mãe abraçou-
-se a mim a chorar de alegria, assim que saí da capela); o dia em que nasceu o meu filho e quando editei o meu primeiro livro”;
-se a mim a chorar de alegria, assim que saí da capela); o dia em que nasceu o meu filho e quando editei o meu primeiro livro”;
VIII – “O povo está deslumbrado”;
IX – “Quem quer escrever tem de ler.
Ler muito e ouvir o povo. É preciso auscultar o povo”.
Analisada
à luz das suas circunstâncias, Ermelinda da Silva é, sem margem para dúvida,
uma lição de vida. Por isso, bem merecia outro texto de maior fôlego. Esta foi
apenas a homenagem possível a uma autora que me marcou profundamente. Uma
Amiga, à qual sempre ficarei grato.
Renato
Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
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segunda-feira, 25 de março de 2019
Uma imagem e uma história para refletirmos
Alheia ao que se passa ao seu redor, junto à praça do município da Beira, Zinha tenta secar os seus livros uma semana depois da sua casa, de construção precária, ter desabado. Para além da sua vontade de aprender ela quer salvar o seu único bem: os livros de distribuição gratuita.
by
Rui Miguel Lamarques
Grupo 420( Facebook)
https://www.facebook.com/groups/1480385788912391/
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Rui Miguel Lamarques
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Tiago Sousa
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país!
Mas não de acordo com o ranking das escolas, onde a Básica do Bairro Padre Cruz, em Lisboa, ficou em 1044o. Aliás, dependendo do ranking das escolas, pais e alunos fugiriam a sete pés desta escola, rapidamente levando ao seu encerramento e ao fim de um dos pilares deste bairro social.
Porque na Básica do Bairro Padre Cruz nenhum aluno fica sem comer. E há muitos em risco de passar o dia sem comer. Para muitos, a refeição na escola será a única do dia inteiro. Para muitos, poder comer é a razão de ir à escola. Mas não só.
Porque a Básica do Bairro Padre Cruz coloca o carinho e o afecto antes do currículo, fazendo de tudo para que os alunos passem mais um dia na escola e menos um dia na rua, passo a passo reconstruindo as vidas perdidas de tantas crianças perdidas. O Bairro Padre Cruz é assim chamado em homenagem ao Padre Francisco Rodrigues da Cruz e a uma vida dedicada em pleno aos mais desfavorecidos. E outra coisa não se pode dizer sobre a sua Escola, onde os professores são mesmo a família que os alunos nunca tiveram, nunca terão, têm agora, na escola, na professora, nos professores e auxiliares, no Director da escola.
Porque um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor.
E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças,tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que
somos.
É impossível não nos envolvermos. É impossível não nos emocionarmos. E esta é a maior aprendizagem de quem vem ensinar para esta escola. Esta é a maior prova de crescimento num corpo docente com 60% de professores novos este ano, professores esses que em setembro estarão noutro lado, isto se não estiverem desempregados.
Meus caros, a mobilidade docente é um crime. É dizer às crianças que não há mais ninguém. É deixá-las por sua conta. É deixá-las à deriva no meio da tempestade, outra vez, e ninguém se habitua a uma tempestade. À deriva, as tempestades aumentam. É frustrar as expectativas, os sonhos, as lágrimas, é criar mais raiva, mais ódio, solidão, angústia.
Não obstante, sem desistir, esperançosos, os professores multiplicam-se e desdobram-se entre as aulas e os apoios individuais, entre os projectos e as reuniões com os pais, educando alunos mas também famílias inteiras, fazendo milagres com os poucos recursos ao seu dispor. Isto porque a diminuição do número de alunos ao longo da última década levou sucessivos governos a retirar à escola desde psicólogos ao grupo de teatro, sem esquecer o grupo de música, as colónias de férias, visitas de estudo. Outro crime, e os alunos não são números, as crianças não são números, mas são, são o futuro, o nosso futuro, nem por isso risonho. A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país! Digam o que disserem. Por não se limitar a ensinar, a formar, por querer saber de facto sobre as crianças, por viver os seus problemas, por sair dos muros da escola ao encontro do bairro, por abrir as portas ao bairro, por fazer parte de um todo e no todo trabalhar, sem parar, à procura de respostas. E as respostas para o abandono escolar, para as reprovações consecutivas, para o analfabetismo, para os problemas sociais e as famílias desestruturadas começam pela fixação do corpo docente. Para que estas crianças possam voltar a sonhar. E nós também.
Rui Cardoso
http://www.arlindovsky.net/2019/02/a-escola-basica-do-bairro-padre-cruz-e-a-melhor-escola-do-pais-joao-andre-costa/
Porque na Básica do Bairro Padre Cruz nenhum aluno fica sem comer. E há muitos em risco de passar o dia sem comer. Para muitos, a refeição na escola será a única do dia inteiro. Para muitos, poder comer é a razão de ir à escola. Mas não só.
Porque a Básica do Bairro Padre Cruz coloca o carinho e o afecto antes do currículo, fazendo de tudo para que os alunos passem mais um dia na escola e menos um dia na rua, passo a passo reconstruindo as vidas perdidas de tantas crianças perdidas. O Bairro Padre Cruz é assim chamado em homenagem ao Padre Francisco Rodrigues da Cruz e a uma vida dedicada em pleno aos mais desfavorecidos. E outra coisa não se pode dizer sobre a sua Escola, onde os professores são mesmo a família que os alunos nunca tiveram, nunca terão, têm agora, na escola, na professora, nos professores e auxiliares, no Director da escola.
Porque um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor.
E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças,tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que
somos.
É impossível não nos envolvermos. É impossível não nos emocionarmos. E esta é a maior aprendizagem de quem vem ensinar para esta escola. Esta é a maior prova de crescimento num corpo docente com 60% de professores novos este ano, professores esses que em setembro estarão noutro lado, isto se não estiverem desempregados.
Meus caros, a mobilidade docente é um crime. É dizer às crianças que não há mais ninguém. É deixá-las por sua conta. É deixá-las à deriva no meio da tempestade, outra vez, e ninguém se habitua a uma tempestade. À deriva, as tempestades aumentam. É frustrar as expectativas, os sonhos, as lágrimas, é criar mais raiva, mais ódio, solidão, angústia.
Não obstante, sem desistir, esperançosos, os professores multiplicam-se e desdobram-se entre as aulas e os apoios individuais, entre os projectos e as reuniões com os pais, educando alunos mas também famílias inteiras, fazendo milagres com os poucos recursos ao seu dispor. Isto porque a diminuição do número de alunos ao longo da última década levou sucessivos governos a retirar à escola desde psicólogos ao grupo de teatro, sem esquecer o grupo de música, as colónias de férias, visitas de estudo. Outro crime, e os alunos não são números, as crianças não são números, mas são, são o futuro, o nosso futuro, nem por isso risonho. A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país! Digam o que disserem. Por não se limitar a ensinar, a formar, por querer saber de facto sobre as crianças, por viver os seus problemas, por sair dos muros da escola ao encontro do bairro, por abrir as portas ao bairro, por fazer parte de um todo e no todo trabalhar, sem parar, à procura de respostas. E as respostas para o abandono escolar, para as reprovações consecutivas, para o analfabetismo, para os problemas sociais e as famílias desestruturadas começam pela fixação do corpo docente. Para que estas crianças possam voltar a sonhar. E nós também.
Rui Cardoso
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domingo, 20 de janeiro de 2019
Momentos só nossos
O rebuliço profissional de
segunda a sexta, onde saímos de casa muito cedo e chegamos tarde dentro impede-nos
de desfrutar os momentos em família com a nossa criança que cresce tão rapidamente.
Com a velocidade dos dias, basta descuidamos por breves semanas e não nos apercebemos
quando ele dá os primeiros passos e passa repentinamente do gatinhar para o correr
sem passar por o andar. A vontade de viver transparecida nos olhos da criança
enchem-nos os olhos de água por percebemos que não é possível desfrutamos e
dar-lhe toda a atenção que ela merecia. Enfim no meio daquela semana de
trabalho tentamos naquela hora de jantar e antes de o deitar dar-lhe todos os
abraços e carinhos que não demos durante o dia.
O fim de semana é um tempo mágico
que passa num estalar de dedos. Nesses dois dias tentamos conciliarmo-nos enquanto pais
e dar-lhe tempo para passear e estar verdadeiramente com ele. É bom perceber em família que com vinte e poucos meses já
articula há muito tempo o nome do pai e da mãe para não falar da restante
família. É maravilhoso cantar-lhe as músicas tradicionais e perceber que ele
tenta imediatamente imitar-nos e no fim bate as palminhas com um imenso ar de
satisfação.
Ao domingo de manhã geralmente o
pai costuma ir passeá-lo para que este
possa desfrutar da natureza. O deleite daquele passeio de domingo de manhã já
não dispensamos. A ida ao parque do Mandanelho ver os “patos cá, cás” é já uma rotina,
pois ele quando lá chega fala logo deles. Por norma os passeios no parque têm dois
períodos, o primeiro onde este caminha livremente naquele espaço amplo pisando
as folhas secas do Inverno ou então a areia grossa das áreas reservadas às diversões.
Sentir o olhar de felicidade na criança,
transparece de imediato para os pais. Após um conjunto de longas caminhadas
chegamos finalmente ao segundo momento, o lago dos patos localizado a Norte do parque numa zona
baixa. Sentados na margem do lago sobre uma laje de granito observamos muito atentos os sons
balbuciados por estes animais na sua linguagem muito característica. Depois de
observar com muita atenção toda aquela envolvência este diz por vezes expressões como: “estão a tomar
banho” ou “tantos patos cá, cás”. São momentos que vão passar muito rápido, no
entanto é sinal que está a crescer bem e feliz e isso deixa-nos tão tranquilos.
Sentimos que é uma criança
muito feliz e que se sente muito bem na sua escola. Isso dá-nos um conforto e
força para enfrentar mais um dia de trabalho e calcorrear centenas de quilómetros
diariamente. Obrigado a todos que nos ajudam diariamente.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
A capacidade de incluir
Há um tempo atrás ouvi na rádio
uma entrevista de um dos responsável pela Operação Nariz Vermelho que numa
conversa com o diretor de um Hospital,diziam: Diretor do
Hospital “os hospitais não são sítios para palhaços”; responsável Operação
Nariz Vermelho “se não é para palhaços também não deveria ser para crianças.”
Perceber as necessidades de uma
criança no século XXI é algo que não está intrínseco a qualquer pessoa. Em dois
discursos que pude compartilhar no primeiro trimestre do ano letivo apercebi-me
disso: O primeiro ocorreu algures no mês de Novembro nos bancos da cantina da escola
C+S da Pampilhosa da Serra. Por acaso no meio da refeição surgiu à conversa
qual seria o nome do irmão de uma criança de 4 anos que está para nascer no
início de 2019, ao que esta com a inocência característica da sua idade disse
que se chamaria António. Eu sem conhecer o contexto familiar congratulei a
criança e os pais pelo nascimento ao que as funcionárias com um ar desgostoso
disseram que infelizmente seria mais um para somar à miséria que jaz naquela
casa onde já há 4 criança, e não existem as condições mínimas para as poder
sustentar. A segunda história decorreu num dos múltiplos trajetos entre a
Pampilhosa da Serra e Oliveira do Hospital no qual para reduzir custos
repartimos as boleias. Um colega comentou que há uns anos atrás um professor de Matemática que lecionava no arquipélago dos Açores foi mandado parar por um homem que o ameaçou
que se lhe tirassem a mulher eles iriam arrepender-se. A mulher era uma menina de
15 anos que já estava a viver com um adulto.
Infelizmente são histórias vividas em pleno século XXI em Portugal
Continental ou no Arquipélago dos Açores que nos entristecem, enquanto
cidadãos de Portugal e do Mundo.
Em Portugal com
o prolongamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano e com a nova
legislação para os alunos com necessidades seletivas adicionais(antigos alunos com necessidades educativas especiais), a escola tem
responsabilidades acrescidas que não detinha há uns anos atrás onde os alunos
só eram obrigados a permanecer na escola até aos 16 anos.
Ter a capacidade de incluir alunos com necessidades seletivas
adicionais, numa turma com
alunos com capacidades cognitivas normais é por vezes uma tarefa hercúlea que
os professores estão ainda a adaptar-se. Perceber o que fazer a alunos que numa
turma do 3º ciclo não são capazes de
reconhecer países da Europa, ou que devido às sua deficiência por serem
autistas não são capazes de fazer muito mais além de pintar ou associas
tabelas, gera dificuldades aos professores que têm de cumprir o currículo e
chegar a um maior número de alunos possível.
Apesar de não me sentir preparado considero a integração na sala de aula dos antigos alunos com Currículo Específico Individualizado (CEI), que agora se designam alunos com medidas adicionais, por terem mais dificuldades cognitivas, pode ser positivo para a sua evolução cognitiva,
no entanto considero que deviam ser dadas mais horas aos docentes, pois os objetivos
curriculares mantiveram-se exatamente os mesmo com vários reveses entre os
quais destaco um que me chateou particularmente, termos de preencher um
quantidade infindável de grelhas sem qualquer utilidade.
sábado, 8 de dezembro de 2018
Pampilhosa da Serra uma perspectiva de desenvolvimento
Ser professor é uma profissão muito singular, pois funciona
como intermediária entre ao pais e os alunos na educação e caminho da
criança. A irreverência é algo intrínseco à juventude e apesar de me preocupar
os seus excessos, preocupa-me muito mais o seu isolamento.
No fim de semana passado fui a uma festa de família à Sobreda (Almada) e tive uma passagem fugaz pela capital
em hora de jogo do Benfica. Naqueles momentos pude perceber as dificuldades sentidas por quem faz aquele
trajeto diariamente. Quando cheguei à Sobreda questione-me se é melhor
viver no interior onde as acessibilidade não são as melhores e onde se demora
mais de 1 hora para percorrer 40 km ou nos concelhos à volta da capital onde se demora igual
tempo para percorrer igual distância. Para mim definitivamente a primeira
hipótese, qualidade de vida não é andar continuamente em filas de trânsito,
para chegar ao seu destino.
Sobre a realidade que trabalho, a Pampilhosa da Serra, gostava
de vos dar a conhecer um pouco da minha curta experiência.
Pampilhosa da Serra está localizada na extremidade sudeste
do distrito de Coimbra. O seu isolamento e a necessidade de atrair população conduziu a que o município direccionasse os seus investimentos com o intuito de fixar e atrair população.
A oferta dos manuais escolares, uma medida que foi tomada
agora a nível nacional, é algo que já existe na Pampilhosa da Serra há mais de
uma década. A gratuitidade no acesso a todos os eventos ou serviços públicos
com piscinas, ginásios ou a feira anual é algo que nem merece discussão ou
comentários na localidade.
Relativamente a uma outra questão senti mesmo a vontade de perguntar aos alunos a sua opinião. Se a população escolar está a diminuir, porque é que estão a construir uma escola nova para o 1ºciclo.
Relativamente a uma outra questão senti mesmo a vontade de perguntar aos alunos a sua opinião. Se a população escolar está a diminuir, porque é que estão a construir uma escola nova para o 1ºciclo.
A minha opinião, é clara, a construção de uma escola para o 1º
ciclo é um caminho bem definido, no entanto não basta construir é preciso atrair
pessoas para que a escola possa crescer. Neste caso específico a oferta
formativa consegue manter os alunos até ao 9º ano só que depois não lhe dá opções alternativas ao ensino regular no ensino secundário e os alunos vêem-se na obrigação de sair do concelho, perdendo-se assim, grande parte do investimento que foi feito. A construção da escola é muito bem vinda, no entanto espero que
associado, venham projetos a longo prazo que dêem mais
opções, fixem os alunos que têm e atraiam outros.
Os alunos infelizmente vêem a construção da nova escola como um elefante branco que não deveria ser construído pois o que existe é suficiente. Observo que apesar de todas as mais valias que têm os alunos não valorizam o facto de viverem na Pampilhosa da Serra tendo uma visão redutora sobre a sua permanência. Alguns disseram iriam escolher outros concelhos para a realização do ensino secundário, outros mesmo que permanecessem dificilmente lá iriam permanecer na idade adulta, pois não há ofertas de emprego.
Antes de fazer a questão já tinha uma ideia predefinida
sobre aquilo que os alunos me iriam dizer. O caminho mais fácil é a gratuitidade,
isso dá votos a curto prazo, no entanto a longo o prazo não se vê o
desenvolvimento de uma região. Os acessos continuam deficientes demora-se
muito tempo para chegar às capitais de distrito mais próximas, as empresas
acabam por não se sentir atraídas, porque na minha opinião o município da Pampilhosa da Serra direcionam os seus esforços para horizontes muito curtos não pensando a longo prazo.
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Tiago Sousa
Resistir em tempo de terror
Stanley
Kubrick produziu e dirigiu, em 1980, um perturbador filme de terror intitulado The Shining, no qual Jack Nicholson
desempenhou, de um modo magistral, o papel de Jack Torrance, um escritor, com
problemas alcoólicos.
Ao
arranjar trabalho num misterioso hotel que, no auge do Inverno, permanecia
isolado, Jack parecia ter encontrado também o tempo livre e a solidão que o
ajudariam a escrever um livro. Porém, começou a ter visões e, aparentemente influenciado
por uma presença sobrenatural, enlouqueceu, chegando mesmo a tentar assassinar
a mulher e o filho.
Ora, segundo creio, este filme de
terror parece traduzir o que se passa actualmente em Portugal, no âmbito de
vários ministérios, com particular destaque para a Educação e a Saúde. Para
compreender os motivos que nos conduziram a este ponto é fundamental ter em
consideração vários aspectos.
I
– a corte de Luís XIV.
Os ministérios políticos que por aí
proliferam transformaram-se num mundo obscuro, onde vão subsistindo milhares de
funcionários politicamente arregimentados na situação. Ávidos de mostrar
serviço e receosos de regressar à profissão de origem, procuram criar
documentos e mais documentos, como se o mundo dependesse deles para continuar a
sobreviver. Por isso, vociferam, “é bom que as leis durem pouco tempo e sejam
substituídas por outras que já estão na forja”.
Esta
massa de burocratas foi, progressivamente, deixando de funcionar como um todo e
hoje representa apenas um conjunto de partes divididas em gabinetes distintos,
que em situações muito excepcionais lá são mobilizadas para a cerimónia do
beija-
-mão. Enfim, eis a corte de Luís XIV, com as suas características intrigas palacianas e redes tentaculares, adaptada à actualidade nacional.
-mão. Enfim, eis a corte de Luís XIV, com as suas características intrigas palacianas e redes tentaculares, adaptada à actualidade nacional.
II
– a síndrome do gabinete.
Isolados, estes funcionários
públicos, que actuam como inspectores morais da Nação, perderam completamente a
noção da realidade. Com a caneta, uma folha e meia dúzia de teorias
estapafúrdias colhidas nas esotéricas escolas das ciências da educação que para
aí proliferam as ideias brotam-lhes como cogumelos venenosos. “Iluminados” (Shining), começam a ouvir vozes: (“Olhai
todos: este é o caminho do futuro”). Empreendedores, não têm dúvidas ou
hesitações. Claro está, quem, ingenuamente, cai
no erro de contraditá-los é visto como um incompetente, que cometeu o pecado
mortal de não ter assimilado as admiráveis oportunidades da ambígua legislação,
esse vasto mundo de indefinições onde pode caber tudo e precisamente o seu
contrário, ou seja, nada...
III
– acelerar o futuro.
“O
futuro das competências está ao virar da esquina”, proclamam os teóricos da “nova
educação”, como os gurus da auto-ajuda, os vendedores de banha da cobra, os
videntes ou os cartomantes. Esse futuro será tão diferente do mundo que
conhecemos que os saberes tradicionais de pouco ou nada nos valerão, afinal as
profissões mudarão por completo. De que adianta memorizar datas, conhecer a
tabuada de trás para a frente ou estimular a memória? A inteligência artificial
obriga-nos a percorrer um admirável caminho novo. Não vale a pena dizer que
esses trilhos conduzem à profunda ignorância, pois Eles jamais nos irão ouvir.
Eles são como deuses e os deuses não se desmentem ou contrariam. Veneram-se,
com as costas curvadas e os olhos postos no chão.
Na verdade, ontem, como hoje,
ninguém sabe como será o futuro. E ainda bem que assim é. No entanto, a
sistemática desvalorização do conhecimento substantivo, da exigência, do
trabalho e do estudo, em detrimento de um facilitismo reinante que permitirá a
todos – sem excepção – concluir o 12.º ano (sem a mácula das dispendiosas
retenções), implicará, numa perspectiva de médio e longo prazo, consequências
catastróficas: agravamento dos desequilíbrios sociais e criação de uma
sociedade constituída por indivíduos egoístas e incapazes, mas convictos de que
são infalíveis e inquestionáveis e, por isso, mal preparados para lidar com a
frustração e o insucesso próprios da vida. Cada vez mais, o berço determinará a
posição social que se ocupa na pirâmide, por muito que as mais recentes leis
(ditas) “inclusivas” sustentem o contrário e pretendam, utopicamente, acabar
com todas as categorizações. Estes são, sem margem para dúvida, tempos de
profundas exclusões.
Por outro lado, os profissionais que
perseguem a excelência, nos mais variados sectores do Estado, aqueles que de
facto vivem com maior angústia toda esta trapalhada legislativa, sentem-se cada
vez mais sufocados, desgastados e desmotivados, ao ponto de mal dormirem ou
entrarem em processo de falência mental (burnout).
É
bom recordar que assassinar alguém não implica apenas sacar do revólver ou
dissolver veneno na comida. Em Portugal, a excelência é cada vez mais
destruída, privilegiando-se os arrivistas, capazes de lamber as botas a todos
os focos do poder. Eles representam a face visível de um sistema podre, que
esconde os doentes nas macas arrumadas a um canto do corredor e, entre outros
exemplos, insiste em considerar as touradas como produtos culturais que importa
financiar.
III – o Leopardo.
Giuseppe
Tomasi di Lampedusa deixou-nos um dos romances mais notáveis que tive
oportunidade de ler. O Leopardo,
inicialmente recusado por várias editoras, desenrola-se na segunda metade do
século XIX, na época da luta pela unificação de Itália. Em 1963, foi minuciosamente
adaptado ao cinema por Luchino Visconti e ainda hoje tem uma “actualité
brûlante”.
A personagem central, D. Fabrizio, príncipe de
Salina, um aristocrata italiano, consegue revelar a inteligência e a intuição
suficientes – mas raras – para interpretar os sinais do seu tempo e
perspectivar a agonia de uma civilização (que ele, enquanto nobre,
representava), em detrimento da emergente, pautada pela afirmação da burguesia.
Para além da solidez psicológica, D.
Fabrizio toca-me profundamente, em especial pela sua capacidade de análise, isto
apesar de estar dentro dos próprios acontecimentos, que, como quase sempre
sucede, evoluem de um modo surpreendentemente vertiginoso e incontrolável. A consagrada
máxima, inicialmente proferida por Tancredi (sobrinho e protegido de Fabrizio,
futuro deputado a quem, reflicta-se, será prometida uma legação em Lisboa),
tornar-se-á um dos lemas do príncipe de Salina, até aos últimos dias da sua
vida: “É preciso que tudo mude, se quisermos que tudo fique como está”. E é
isso que ele procurará fazer: garantir que, no novo mundo, o seu sobrinho (a
quem ele ama como um filho) perpetue, embora de um modo renovado, o poder e o
prestígio da família.
Talvez esta lição de um homem, que
sente a vida a esvair-se-lhe irremediavelmente das veias, possa ainda hoje
servir-nos, de algum modo, nestes tempos em que assistimos ao inevitável
estertor de uma civilização e ao nascimento de outra, que não augura nada de
bom (“depois do Leopardo virão os chacais”). Neste momento, talvez a maior
resistência que possamos oferecer aos comportamentos psicóticos daqueles que
nos governam (não, já não é apenas uma questão de ignorância) deva passar pelo
bom senso de, enquanto classes profissionais, recordar diariamente que aderir
não significa participar...
Num dos seus mais recentes livros (Homo Deus. História Breve do Amanhã), o historiador
Yuval Noah Harari diz-nos que inteligência e consciência não são sinónimos.
Talvez a segunda, individual, nos possa ainda salvar da falta de inteligência e
dos comportamentos psicóticos daqueles que nos governam. Ainda iremos a tempo?
Renato
Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
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Renato Nunes
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
Dia da Floresta Autóctone e a rota das Faias
Muito se fala sobre a inclusão de espécies não autóctones como o eucalipto, a acácia e o pinheiro bravo que acabaram por impedir a proliferação daquelas que sempre lá existiram, como o carvalho ou o medronho. Sobre este tema por não ter conhecimentos, não vou fazer qualquer comentário, preferindo abordar a forma como o Escola Básica e Secundária de Manteigas celebrou este dia.
Para a celebração deste dia a Câmara Municipal de Manteigas, contou com o contributo Escola Básica e Secundária, que canalizou para esta atividade as turmas do 7º e 8º ano de escolaridade. A iniciativa constou na plantação de medronheiros num terreno baldio da Junta de Freguesia de Manteigas. Considero que para a celebração deste dia, o contacto com a natureza é fundamental, sendo muito importante que os alunos percebam o significado de plantar para mais tarde colher. A iniciativa foi um êxito, tendo os alunos demonstrado empenho na sua realização.
Na viagem de regresso para a vila de Manteigas procedemos à realização da rota das faias, que por serem espécies de folha caduca no Outono dão um brilho especial à paisagem. As faias não sendo uma espécie autóctone em Portugal, é uma das espécies arbóreas mais interessantes das florestas europeias, do ponto de vista ecológico e económico. É um dos quatro pilares do ano solar Celta.
Ao
longo do percurso passamos por um conjuntos casas abandonados que outrora eram
habitadas por agricultores que povoavam as encostas.
A
Igreja de São Lourenço foi antes da chegada do cristianismo uma zona adorada
pelos deuses daí o grande número de
carvalhos que existia à sua volta, sendo-lhe atribuída a designação de "Bosquete de carvalhos monumentais".
Nesta
zona, caso as condições atmosféricas o permitam é possível observar a localidade de Sameiro ou a Serra de Gata já na Estremadura Espanhola.
Segundo
reza a lenda o imperador de Roma questionou São Lourenço sobre as riquezas que esta região tinha ao que este respondeu, “Caro imperador a nossa principal riqueza
são os nossos fies”. O imperador ficou irado, pois pensava que havia uma
qualquer riqueza material e por isso castigou-o, condenando-o à morte, queimando-o.
São Lourenço mesmo aquando da sua morte queimado, não perdeu a sua boa disposição dizendo a quem o matava, "deste lado já estou bem assado, pode-me virar para o outro". Devido a esta história a figura de São Lourenço é conhecida por estar a
segurar numa grelha.
A
zona junto a esta igreja de São Lourenço todos os anos em Agosto recebe uma festa que junta centenas de
pessoas.
O
posto de vigia de São Lourenço é usado essencialmente no verão, época de maior calor quando o risco de incêndio é mais elevado. Este posto de vigia dada a sua excelente visibilidade tem um papel fundamental na preservação da fauna e flora locais.
As pseudotsugas são resinosa que foram introduzidas nesta região no início do século XX tendo por isso já um porte considerável como demonstra a foto 3. Estas árvores têm características muito específicas, pois aquando da sua plantação as suas sementes foram criteriosamente selecionadas para que os seus troncos tivessem um formato retilíneo. A industria do mobiliário valoriza muito este tipo de árvores, sendo portanto esta uma zona conhecida como o “sementão”, pois as suas sementes são aproveitadas para a plantação noutras áreas do país.
Por outro lado estas árvores têm um papel muito especial, pois devido à sua altura impedem que a água das chuvas caia diretamente no solo,purificando-a. Em consequência da grande inclinação das vertentes esta árvores permitem a infiltração da água nos solo e a alimentação dos inúmeros aquíferos que existem nesta região. .
A fase seguinte do percurso é a parte mais bonita, a visualização das faias. A altura melhor do ano para observar as faias é o final do mês de Outubro, quando as folhas ainda se encontram nas árvores, o que não aconteceu aquando desta visita, onde grande parte das árvores já estavam sem folhas. Quero realçar a importância do grande manto de folhas que cobre o solo, que tem um papel muito importante na sua fertilização.
Os socalcos são uma constante ao longo do percurso, o que demonstra a luta que o homem manteve com a natureza durante décadas com o intuito de ter um modo de subsistência, a agricultura.
A chegada à vila de Manteigas correspondeu ao final de um dia diferente. Obrigado ao Engenheiro Florestal da Câmara Municipal de Manteigas, assim como ao Presidente da Junta de Freguesia de Manteigas que nos acompanharam na caminhada e com os quais podemos aprender um pouco mais sobre a rota das faias.
Os socalcos são uma constante ao longo do percurso, o que demonstra a luta que o homem manteve com a natureza durante décadas com o intuito de ter um modo de subsistência, a agricultura.
A chegada à vila de Manteigas correspondeu ao final de um dia diferente. Obrigado ao Engenheiro Florestal da Câmara Municipal de Manteigas, assim como ao Presidente da Junta de Freguesia de Manteigas que nos acompanharam na caminhada e com os quais podemos aprender um pouco mais sobre a rota das faias.
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sábado, 17 de novembro de 2018
A função de pai e mãe
Salvo erro em Novembro de 2011 quando estava no Colégio
Santo André na Venda do Pinheiro lembro-me perfeitamente de um testemunho de
uma criança. Na altura interpelei-a sobre a alegria do reencontro com os pais
ao fim do dia ao qual esta me respondeu com um olhar vazio, dizendo-me que os
pais no final do dia de trabalho continuavam focados nos ecrãs dos smartfones, tablets ou portáteis em detrimento de darem atenção ao filho. Esse
momento fez-me refletir e pensar na importância crescente da escola, perante os
seus educandos e na ausência dos pais.
Há distância de sete anos e já no papel de pai percebo
melhor a história que me foi contada por aquela criança, pretendendo que a
mesma não seja contada pelo meu filho daqui a uns anos. O papel de pai é fantástico,
no entanto aufere uma responsabilidade muito singular que infelizmente nem todos
são capazes. Eu não me considero um pai perfeito, pois acho que ninguém o será,
no entanto quando estou com ele, o tempo por mais pequeno que seja tem de ser
apenas para ele.
Feliz ou Infelizmente, o nosso filho, tem os seus pais professores
contratados que nem sempre estão presentes, tendo horários muito voláteis, onde
são obrigados por vezes a sair muito cedo de casa e chegar ao fim da tarde. Muitas
vezes é necessário um grande jogo de cintura de forma a conseguir dar a atenção
desejada a uma criança que não tem culpa nenhuma. Felizmente podemos dizer com uma grande
sensação de conforto de responsabilidade, que temos a sorte de ter um grande
suporte familiar.
Sobre tudo o que foi dito, gostaria de relatar duas histórias
de colegas com filhos comentadas ocasionalmente na sala de professores:
A primeira história é de uma mãe com um filho adolescente que
lhe pediu ajuda para os trabalhos da escola. Esta cansada depois de um dia de
trabalho e com dezenas de quilómetros percorrido respondeu-lhe, depois de
jantar tratamos disso. Esta fez o jantar e tratou dos afazeres domésticos, e já
perto das 21:00 disse ao filho para trazer os livros da escola. Em conjunto com
o seu filho esta mãe e professora ajudou-o dando-lhe a atenção que ele merecia.
Perto das 22:30 disse-lhe, está na hora de ir para a cama visto amanhã teres
que acordar cedo. Às 23:00 a professora pegou finalmente nas aulas que teria de
lecionar no dia seguinte, ao qual dedicou cerca de 2h30 deitando-se quando já
passava da 1h da manhã. Ao outro dia às 7h30 teria de se fazer à estrada para
mais um dia de trabalho.
A segunda história fala de um professor que estava a fazer
uma formação elarning. Este tem dois
filhos gémeos e viu-se na obrigação de pedir para lhe alterarem o horário dos fóruns para as 22:00, quando este tinham sido definidos para as 19:00. Entre as 19;00 e as 22:00
eram momentos que ele dedicava apenas aos filhos não abdicando desse tempo para outra qualquer tarefa.
Com o meu testemunho e de dois colegas professores queria deixar
um alertar a todos o pais. Diariamente apercebo-me de situações que
me fazem doer o coração. A vida por vezes dá voltas, e não é possível prever determinadas
coisas, no entanto quando decidirem ter um filho coloquem-no a no centro de
tudo e dêem-lhe o Amor e à Atenção que ele merece.
sábado, 10 de novembro de 2018
Desabafos de um professor
A vida de um
professor não é mesmo nada fácil, é preciso gostar verdadeiramente para termos
estofo para aguentar com as burocracias do Ministério da Educação, alunos e turmas
indisciplinadas, com metas para atingir num universo muito diferente,
cognitivamente falando.
Por outro
lado, e talvez para mim o mais doloroso, as viagens. Foi uma opção tendo por
isso que me sujeitar às suas consequências, no entanto não entendo que o
Ministério da Educação não auxilie monetariamente como faz com os deputados, os
professores que se encontrem deslocados do seu local de residência.
Executar de
forma competente uma profissão depende de vários fatores, como o gosto por
aquilo que se faz, ou as condições que nos são dadas para executarmos a nossa
profissão. As escolas nos dias que correm, têm dificuldades em colocar
professores. O que eu propunha às entidades é que fossem ao fundo da questão e
percebessem, o porquê. Porquê que a profissão de professor é cada vez menos
escolhida pelos jovens.
Eu na escola
sinto um cansaço generalizado do corpo docente. As razões são várias: cortes
nos salários, congelamento das carreiras, ou o aumento da idade da reforma. Ser
reconhecido por aquilo que fazemos é algo que nos motiva e nos faz dar mais de
nós em prol da nossa profissão. O que tem acontecido é precisamente o oposto Em
consequência da forma como temos sido tratados a maior parte dos professores
faz o mínimo (na minha opinião bem), isto é dá aulas, vão às reuniões e não dão
mais do seu tempo à escola nem aos alunos. Quem perde, todos na minha opinião.
Ir ao fundo
da questão na minha opinião é fundamental, perceber o que é preciso para nos
sentirmos bem num local. Estabilidade e renovação do corpo docente na minha
opinião é essencial para a melhoria da Educação em Portugal. Fazer um estudo
sobre as maiores necessidades docente por Quadro de Zona Pedagógica (QZP) e
criar estratégias para a colocação de professores, com contratos superiores a 1
ano, serão para mim boas soluções. Sei que é difícil agradar a todos e a proximidade
ao local de residência não é fácil, no entanto é preciso criar mecanismos para
que um professor possa ter mais valias por se encontrar distante do seu lugar
de residência. A disponibilidade de residências a um preço mais acessível ou a
criação de um subsidio que auxilie nas deslocações poderão ser estratégias a
tomar pelo Ministério da Educação, pelas escolas ou pelos Municípios para tornar o corpo docente mais concordante
com quem lhes paga.
Haveria mais
coisas a dizer. Como professor acredito num futuro melhor, no
entanto é preciso que cada um não reme para o seu lado, sem haver muitas
discrepâncias, pois o Futuro do país depende da Educação e vice-versa.
segunda-feira, 5 de novembro de 2018
A recompensa
Todos
os domingos, depois da missa matinal, os garotos lá da aldeia juntavam-se no
clube para jogar matraquilhos e roubar um beijo às gaiatas. Ricardo, porém,
raramente brincava com os seus colegas e, cerca de uma hora antes de amanhecer,
partia com o pai na icónica 4L castanha, em direcção ao rio Mondego.
Naquele
tempo, já lá vão mais de 30 anos, o pimpão vermelho inundava as águas ainda
límpidas e os pescadores ansiavam por chegar a casa com o balde cheio de barbatanas-vermelhas
para reclamar junto das patroas o suculento molho de escabeche. Esse manjar dos
deuses, que os beirões de outros tempos conheciam como ninguém.
Ricardo
fez-se poeta junto às margens do Mondego, para onde fora arrastado, tantas
vezes quase a dormir, durante anos a fio. Aqueles que já assistiram ao nascer
do sol, sentados ao lado das águas serpenteantes, dificilmente poderão esquecer
esses momentos sagrados. À medida que o negro da madrugada se dissipa, o rio
assume a forma de uma envergonhada noiva que, lentamente, vai despindo o véu,
até desnudar a cara. O frio gela-nos o sangue, mas o silêncio é tão profundo
que a eternidade parece revelar-se mesmo ali à nossa frente. Então, encobertos
por uma espécie de cápsula do tempo, tornamo-nos imunes a quase todas as tragédias.
O
pescador – diz a gíria popular – é, habitualmente, um efabulador (repare-se que
não digo mentiroso):
“–
Ontem, apanhei um achigã com 20 kg!” – e os companheiros, sabedores das manhas
da faina, lá relativizam os números, enquanto os mais desprevenidos ficam de
queixo caído, pensando num tal enigmático monstro das águas subterrâneas Porém,
o pescador é também, vulgarmente, um dos mais introspectivos seres que
poderemos encontrar à face da Terra. Verdadeiro filósofo, atrever-me-ia mesmo a
concluir.
Para
compreender Ricardo era forçoso tomar em consideração as intermináveis horas
que este passara junto ao rio, a ouvir o seu silêncio corrente. Verdade seja
dita que ele nunca foi um grande pescador. Distraído como era, raramente pressentia
a bóia a afundar-se nas águas profundas e, por isso, quando, finalmente,
despertava para a realidade já o peixe comera as iscas colocadas no anzol:
bichos das mais variadas espécies, trigo, milho, massa ou até, imagine-se, pão,
cuidadosamente repartido em pequenas bolinhas. É certo que o pai bem tentava
dar-lhe uns carolos, para ver se o acordava para a realidade, mas o raio do
rapaz raramente conseguia concentrar-se na pescaria. Poucos minutos depois de
ter a cana na mão, já a sua cabeça viajava para outros continentes e planetas
longínquos, sendo quase impossível trazê-lo de volta.
Era,
precisamente, no momento do regresso a casa que Ricardo mais sentia o abismo
que o separava dos seus pares. Os outros transportavam os baldes repletos de
peixe, enquanto Ricardo raramente se estreava. Nesses instantes em que todos
comparavam os troféus, o pai castigava-o severamente, humilhando-o em frente
aos colegas. E nada lhe doía mais do que aquelas terríveis palavras, para
sempre inscritas na alma:
“–
Não vales nada. Todos tiram peixes, menos tu. Olha para esse balde… vazio como
a tua cabeça”.
Fruto
das suas circunstâncias, Ricardo passou então a tornar-se um menino cada vez
mais triste e solitário. Tão triste e solitário que, por vezes, apenas o rio
lhe servia de consolo. E foi muitas vezes ao rio que ele confiou a sua história
e o terrível drama em ser tão distraído e diferente.
O
menino não sabia (como poderia imaginá-lo?), mas era um poeta e um aprendiz de
filósofo. Interessado em tudo o que o rodeava, imaginava-se a cavalgar em cima
das nuvens, convocava todos os seres das profundezas do rio e quando menos se
precatava já estava a léguas e léguas de distância, confiando ao infinito as
mais surpreendentes perguntas.
Um
dia, já lá vão mais de 30 anos, Ricardo chegou ao Mondego ainda mais triste do
que o habitual. A sua mãe acabara de falecer e um vazio profundo apoderara-se-lhe
do espírito. Por isso, naquela madrugada, ao contrário do que sucedia nos
outros dias, Ricardo abandonou a cana junto às margens, em cima de um salgueiro,
e sentou-se a contemplar silenciosamente o vazio das águas. As lágrimas
escorriam-lhe pela face, caindo nas mãos e alagando-as torrencialmente.
Sozinho, afastado dos demais, o menino confundia-se de tal modo com a paisagem,
que até os guarda-rios se aproximavam dele e as distraídas rãs vinham aninhar-se
a seu lado, a coaxar demoradamente.
Naquele
dia, foi apenas a poucos instantes do regresso que Ricardo decidiu colocar uma
minhoca no anzol e atirar a linha para a água. Contudo, assim que o fez, a bóia
deu um violento tropeção, afundando-se imediatamente nas profundezas. De
imediato, Ricardo imprimiu um pequeno esticão na cana e começou a recuperar
lentamente a linha. Depois, quando o peixe estava mesmo a chegar à beira, o
menino levantou o braço. Sem compreender muito bem como, viu então um enorme
barbo, de longos bigodes e boca profundamente escancarada, a saltitar no chão. De
cá para lá, de lá para cá… enquanto o tempo parecia ter parado.
Ricardo
olhou demoradamente o majestoso peixe e sorriu. Do outro lado, chegavam,
entretanto, os primeiros vultos espantados com o tamanho de tal gigante a
estrebuchar em terra. Foi a primeira vez que o menino conheceu o orgulho de ter
alcançado algo admirável.
Há
muitos anos, alguém me disse que o rio ouve sempre o que lhe segredamos. Por
vezes, sempre em silêncio, sacrifica mesmo alguns dos seus filhos para
recompensar com um sorriso os que mais sofrem, apesar de nunca termos aprendido
a respeitá-lo.
Vale
sempre a pena regressar às margens do rio da nossa infância para escutar a voz
que nos habita nas mais recônditas profundezas da alma… Afinal, são esses
locais sagrados – autênticos santuários – que ainda nos podem salvar, não só
enquanto indivíduos, mas enquanto Humanidade.
Mondego
Águas
da meninice
Vinde
agora ouvir-me,
Afinal,
tudo o que já disse
Foi
este rio a contar-me…
Renato
Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
domingo, 30 de setembro de 2018
Cid Teles, a cigarra do Triste Fado (Notas conclusivas)
Notas conclusivas
Quando Cid Teles faleceu, em 2009,
tinha já completado a provecta idade de 98 anos. Apesar de ter nascido em
Tábua, em 1911 (ano em que também nasceu o neo-realista Alves Redol), e de
durante vários anos ter acompanhado os pais nas suas deambulações profissionais
por várias regiões do país (Grândola, Santiago do Cacém, Montijo, Viseu,
Lamego, Porto e Matosinhos), foi em Oliveira do Hospital que acabou por radicar-se,
por volta dos anos 40 ou 50 do século passado. Nesta (actual) cidade passou
cerca de seis décadas, fazendo parte do seu percurso diário, além da casa,
junto ao Largo Ribeiro do Amaral (na rua que dá acesso à Caixa Geral de
Depósitos), os cafés “Jardim” e “Portugal”, bem como a extinta pastelaria “Olipão”,
onde gostava de reunir-se com os amigos para as recorrentes tertúlias.
Cid Teles foi, sem qualquer dúvida,
uma das figuras mais icónicas, pelo menos, da sede do concelho de Oliveira do
Hospital. Os seus longos e precoces cabelos brancos, com um sereno porte de
matusalém, dificilmente passariam despercebidos aos transeuntes. Ao longo da
vida, teria desempenhado, sobretudo, funções relacionadas com as suas vocações
artísticas: compôs letras musicais, peças de teatro, contracenou com vultos nacionais
dos palcos (v.g., Manuel Lereno,
1909-1976), dinamizou vários programas radiofónicos, nomeadamente na Rádio Boa
Nova e na Emissora Nacional.
Estreou-se aos 21 anos, com a obra As minhas quadras, contando com o
apadrinhamento literário de Fausto Guedes de Teixeira, poeta de Lamego que
enviou a Cid Teles um soneto da sua autoria, para figurar na obra de estreia.
Um soneto, cuja versão manuscrita, ainda hoje pode ser consultado na Fundação
Maria Emília Vasconcelos, em Oliveira do Hospital (um local de paragem
obrigatória para todos aqueles que se interessam pela cultura da região).
Pianista, pintor autodidacta,
ensaiador de grupos de teatro e de ranchos folclóricos de várias regiões do
concelho oliveirense (caso do Rancho Folclórico Infantil da Casa do Povo de
Midões, do Rancho Folclórico de Alvôco das Várzeas e do Rancho Folclórico de
Santo António do Alva), Cid Teles, apesar de ter cultivado uma vida algo
solitária, nem por isso deixou de consagrar a vida aos outros e, em particular,
à cultura do concelho.
Várias
das suas quadras e sonetos foram editados, pela primeira vez, em jornais
locais, caso da Comarca de Arganil. Aprendeu
a tocar piano com a mãe (Alzira de Matos Cid Teles), depois ele próprio ensinou,
durante algum tempo, música no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas e deu lições
de canto coral. A fazer fé nas suas próprias palavras, costumava dizer aos
alunos que quando “as coisas não são feitas com carinho e amor, não valem
nada”.
Vista no seu conjunto, a obra de Cid
Teles é multifacetada, pese embora o facto de as áreas temáticas serem
relativamente reduzidas e até mesmo atravessadas pela repetição de algumas
ideias nucleares. Por detrás de uma aparente simplicidade (o difícil na vida é
ser simples), esconde-se uma filosofia de vida ancorada num percurso solitário,
instrospectivo e com certo pendor existencialista. Um conjunto de lições que
bem reclamam um reencontro dos leitores, sobretudo dos jovens estudantes do
concelho, com a obra telesiana.
Como teve oportunidade de concluir o
professor, maçon e oposicionista ao
Estado Novo Manuel Monteiro, num artigo dado à estampa na Comarca de Arganil, em 9 de Maio de 1959, “o poeta do «Sou como Sou»,
com uma aparência física sólida, bem conformada, tranquilidade nos modos, nos
gestos e nas feições, no espiritual dá estes binómios engraçados:
inquietação-conformismo, angústia-
-serenidade, revolta-pacificação”.
-serenidade, revolta-pacificação”.
Enfim, um mundo de contradições, que reflectem
o carácter inconstante, inconformado e rebelde do indivíduo e que também nos
ajudam a compreender a aura de mistério que sempre pairou sobre a sua
personalidade. Um homem que todos conheciam, mas com o qual poucos tiveram o
privilégio de privar na intimidade. Atentem-se nestas palavras, que fazem parte
da obra Chuva de estrelas:
Eu
vivo comigo mesmo
Em
louca contradição:
Se
digo não… penso sim,
Se digo sim… penso não!
Cid
Teles preferiu desde muito cedo o contacto com os mais idosos. Durante a
infância e grande parte da adolescência, as dificuldades em criar
relacionamentos interpessoais com os seus pares, em virtude das constantes
deambulações profissionais do pai, tê-lo-iam levado a passar muitas horas
sozinho e, nessa sequência, a adquirir uma maturidade invulgar para a sua idade,
bem como o gosto pela poesia. A sua facilidade em versejar era tal que o pai,
autor do Livro do coração (ao qual
António Nobre, o autor do “livro mais triste que há em Portugal”, teria
dedicado a “Carta a Manuel”) teria mesmo afirmado: “Tu fazes versos com uma pá
velha”. Uma curiosa expressão beirã, que apenas me lembro de ler nas obras do
notável romancista e novelista beirão Aquilino Ribeiro. O contacto com a
poetisa alentejana Florbela Espanca, em Matosinhos, bem como a leitura da sua
obra, marcou-o profundamente.
Acompanhou a doença e a velhice dos
pais, do tio José Madeira Teles e da irmã Inácia, ela própria uma poetisa e
professora no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas. A perda da família biológica
(os progenitores morreram em 1945, com um breve intervalo de tempo) marcou-o de
modo profundo, reflectindo-se essa tristeza, pessimismo e inquietação na sua
obra poética e nas suas pinturas (sobretudo nas paisagens pintadas a aguarela),
que chegou a expor na Casa da Cultura César Oliveira, em Oliveira do Hospital.
Isto para já não falar na terrível experiência do envelhecimento, da solidão e
da proximidade da morte, a respeito das quais demonstrava, sobretudo na fase
final da vida, uma profunda consciência e sentido pragmático.
Na obra Farrapos da minha vida, confessou ter vivido em função dos outros:
No fim da vida em que estou
Só agora compreendi
Que vivi mais para os outros
Do que para mim vivi.
Mas Cid Teles, além do poeta do
“Triste Fado”, também foi a cigarra, que levou alegria a tantos habitantes do
concelho de Oliveira, durante anos a fio. Qual palhaço que sobe à cena e,
nesses instantes, se esquece dos dramas da existência individual, Cid Teles foi
um homem da cultura, do palco e do público. Quase todos o conheciam, mas uma
auréola de mistério sempre pairou sobre a sua cabeça.
Cid Teles, o poeta conselheiro,
atravessado por uma amarga filosofia de vida que, por vezes, me recorda António
Aleixo (1899-1949). Eis esta quadra do poeta oliveirense, eternizado nas suas Quadras Soltas:
Por
uma estranha razão
Difícil
de compreender,
São
sempre os que mais sofrem
Que
mais desejam viver.
Palavras breves, que tantas vezes
resumem décadas e décadas de amarga aprendizagem, como esta que inicialmente
foi dada à estampa nos Farrapos da minha
vida:
Numa
quadra pequenina,
Por magia feiticeira,
Pode caber a razão
Duma vida toda inteira.
Cid Teles também foi, por vezes, o
incisivo crítico social, como bem demonstra esta quadra inserta nos Farrapos da minha vida:
Há
pessoas, sim, eu sei
Que
há pessoas por aí
Que
julgam saber dos outros
Mais
do que sabem de si!
Apesar de sempre ter afirmado que
não gostava do que escrevia e de ter resumido a própria vida como o poeta do
“Triste Fado”, importa, porém, reconhecer que Cid Teles viu, desde cedo,
reconhecido o seu talento, pelo menos, no âmbito do concelho onde residiu a maior
parte da vida, algo que nem sempre sucede(u) com grandes nomes da literatura
nacional.
Manuel Cid Teles teria perseguido
uma certa independência política, evidenciando mesmo um certo alheamento em
relação à mesma, pese embora o facto de ter vivido várias décadas sob o regime
censório e repressivo do Estado Novo (1933-1974). Apesar de não ter assumido ao
longo da vida uma intervenção política, desempenhou um inequívoco papel no
domínio cultural do concelho de Oliveira do Hospital.
Cid
Teles, um homem com uma inequívoca preocupação em relação à sua obra e à
eternidade da sua mensagem. Através da sua correspondência pessoal, é possível
comprovar que procurou oferecer os seus livros a personalidades consagradas da
vida nacional, talvez também enquanto um meio de divulgar a sua mensagem e
obter algum reconhecimento literário.
Aqui
deixo, pois, algumas notas a respeito de um homem que conheci na fase final da
vida. Não são mais do que alguns traços impressionistas a respeito dos
percursos de um homem do palco, mas também de um indefectível solitário, que
nunca casou e nunca teve filhos. Uma cigarra, que apesar de ter um “Triste Fado”,
sempre procurou levar a cultura às gentes do concelho de Oliveira do Hospital.
Eis,
por conseguinte, a homenagem possível a um poeta, que me marcou profundamente. Uma
homenagem ao homem, com as suas virtudes e defeitos, as suas sombras e luzes,
próprias, de resto, de todos os Homens. Esta é, por conseguinte, a minha
homenagem a uma cigarra que, ao contrário do que é socialmente expectável e
devido às circunstâncias favoráveis de que beneficiou do ponto de vista
financeiro, não dedicou a vida, de um modo sistemático, a uma profissão
propriamente dita (o seu feitio seria, de resto, pouco atreito a horários
rígidos e a rotinas). Ainda assim, viveu em função de uma vocação artístico-
-literária e, malgré tout, conheceu a consagração local. Uma lição, com sabor a sátira, inserta na obra Canta cigarra, canta!:
-literária e, malgré tout, conheceu a consagração local. Uma lição, com sabor a sátira, inserta na obra Canta cigarra, canta!:
Canta
cigarra, canta, canta mais
E
deixa lá falar essas formigas,
Que
quando estás, te tratam como amigas,
Mas
te censuram logo que te vais!...
A
sua família, como tantas vezes me confessou, eram as suas gentes de Oliveira do
Hospital, mas talvez a abertura da enigmática caixa confiada à guarda da
Fundação Maria Emília Vasconcelos Cabral, que deverá conter elementos relativos
à irmã de Manuel Cid Teles (Inácia), possa ajudar-nos a iluminar um pouco
melhor esta matéria.
Capa
da obra escrita por Inácia, irmã de Cid Teles
No
momento em que escrevo, com a Serra da Estrela em pano de fundo e as obras do
poeta em cima da secretária, o sentimento que me invade é de saudade e profunda
admiração, perante uma cigarra que conseguiu cantar praticamente até aos
momentos finais da vida (como se comprova pela grande qualidade da obra São restos, já editada a título póstumo,
em grande parte graças ao trabalho notável de Maria Rosa Lobo Gonçalves). Despeço-me,
invocando aquele que talvez represente um dos sonetos mais icónicos de toda a
sua vida, dos percursos de um cidadão incontornável na História cultural do
concelho onde passei a minha infância, grande parte da adolescência e ao qual
regresso sempre que posso:
SOU COMO SOU
Sou como sou, e
não me importo nada
Que este ou aquele
não goste do que eu sou.
Sei o que quero, e
aonde quero vou,
A passo firme e
fronte levantada!
Amo essa mão
estranha, ignorada,
Que do destino as
linhas me traçou,
E dos outros
diverso me tornou,
Dando-me esta alma
inquieta de nortada!
Louco! Poeta! E
que me importa a mim?
Tantos falando
porque eu sou assim,
Tantos dizendo o
que eu devia ser…
Sou como sou! E
sinto até vaidade,
Quando posso
gritar esta verdade:
Sou
como sou, e assim hei-de morrer!
Muitos outros aspectos ficaram ainda
por iluminar a respeito de Cid Teles e, naturalmente, o estudo mais aprofundado
da sua vida ajudará a encontrar as inevitáveis falhas de que enfermam os vários
artigos que partilhei com o leitor ao longo das últimas semanas. Por isso,
resta-me apenas pedir desculpa por essas falhas, agradecer a todas as pessoas
que me facultaram informações e renovar os votos para que todos os leitores
utilizem as incríveis potencialidades das Novas Tecnologias e partilhem também
as suas memórias a respeito de Manuel Cid Teles. Afinal, todos os dados, depois
de devidamente cruzados, poderão revelar-se importantes para figurar nesse
roteiro histórico-literário concelhio que tanta falta nos faz e que talvez um
dia possa ainda ser publicado. Manuel Cid Teles terá, por mérito próprio, de
constar dele.
Renato
Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
Etiquetas:
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