domingo, 31 de março de 2019

Dia Mundial da Paz


Anualmente no primeiro dia de cada ano comemora-se o do dia Mundial da paz. Infelizmente o Mundo está repleto de situações de guerra e conflitos, onde quem mais sofre são os mais frágeis ou seja as crianças e o idosos.
Para a comemoração deste dia, o papa Francisco dirigiu-se aos fieis indicando os males latentes na política como a corrupção, o abuso de poder, enriquecimento ilegal, xenofobia e racismo. Todos estes abusos dão azo a guerras e consequente à necessidade de as pessoas procurarem melhores condições de vida noutros locais aumentando as migrações.
As migrações são muitas vezes observadas de forma negativa pelas populações locais que vêm os seus empregos em risco com a entrada de estrangeiros no seu país.
Sobre a mensagem do Papa Francisco queria realçar a necessidade de em primeiro lugar os governos fazerem bem o seu papel gerindo convenientemente os seus recursos distribuindo-os de forma homogénea pela população local de forma a que esta não sinta necessidade de sair por motivos políticos ou religiosos. Por outro lado os países mais desenvolvidos que são uma fonte de esperança para pessoas que perderam tudo deverão mudar a sua mentalidade recebendo esta gente jovem que poderá ser uma mais valia para a dinamização do país. O caso do Fundão é um caso a observar com a atenção e repetir, pois houve sucesso no processo de integração dos imigrantes.

sábado, 30 de março de 2019

A romancista da ALDEIA DOS VENTOS


Ermelinda da Silva (1922-2019) foi uma escritora autodidacta de Vila Franca da Beira, que subiu a pulso a “íngreme cordilheira das letras”. No total, deu à estampa quatro obras: Da Realidade à Fantasia (1988); Sofia – A mãe solteira (1992); A Toutinegra do Moinho (1999) e A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora (2006).
            Filha de um agricultor e de uma mulher que se dedicava aos afazeres domésticos, foi profundamente influenciada por um avô, que lhe passou precocemente para as mãos um dicionário ilustrado que a jovem passou a ler de fio a pavio, como se de um autêntico romance se tratasse. Poupada às lides agrícolas, acostumou-se, como fazia questão de recordar, a ouvir o povo tratá-la por fidalga.
            Na década de 30, já depois de concluir a 3.ª classe, preparou-se, sob a orientação da professora Clarisse, para o temido exame da 4.ª classe, acabando reprovada “devido aos problemas aritméticos”. Casou-se em 1946, cerca de um ano após o fim da II Guerra Mundial, com Manuel Abrantes, mais conhecido como “Vidal” (1920-2012). Nesse mesmo ano, o casal teve o primeiro e único filho, que ainda hoje lá na aldeia todos conhecem simplesmente como Vidal.
            Segundo a própria narrou, em entrevista gravada em 2017, teria começado a escrever devido a um episódio dramático, mas relativamente comum na primeira metade do século XX: a inesperada gravidez de uma rapariga solteira. Este acontecimento, que implicava um estigma profundo para todas as mulheres que o vivenciavam, sobretudo nos meios rurais, deixou também marcas profundas em Ermelinda da Silva. Obcecada pelo sofrimento da jovem e pela “desonra” da família, Ermelinda passou a ter insónias frequentes e apenas começou a descansar um pouco quando decidiu verter para o papel uma versão romanceada daquele trágico episódio. A fazer fé no testemunho da romancista, esta teria marcado a sua primeira incursão literária, infelizmente destruída pela própria após o traumático falecimento do marido, já em 2012. É, porém, provável que o facto em causa tenha de algum modo sido recuperado quando redigiu Sofia – A mãe solteira, romance dado à estampa em 1992.
            Em 1948, o casal foi viver para o Porto, onde passaram a dirigir um restaurante. Ermelinda da Silva ocupava-se, fundamentalmente, da cozinha e aproveitaria todos os raros intervalos (até mesmo quando estava a fazer fritos!) para ir lendo: caso do extinto periódico O primeiro de Janeiro, mas também do romancista histórico António Campos Júnior (1850-1917), com A ala dos namorados e A rainha madrasta. Depois chegou mesmo a alugar livros, que ia religiosamente lendo todos os dias, como se de uma obrigação se tratasse. Em 2017, com 95 anos, a minha conterrânea Vila-Franquense continuava a recordar-se destas leituras, quase como se as tivesse concretizado na semana anterior.
            À semelhança do que já tive oportunidade de escrever (prefácio à reedição da obra Da Realidade à Fantasia, em 2016, pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital), todos temos pais espirituais, além dos biológicos. Para mim, Ermelinda da Silva foi a minha “mãe” espiritual. A partir daqui, tudo o que eu possa dizer será necessariamente escasso para reafirmar a admiração que tenho pela extraordinária autodidacta, com a qual descobri uma das maiores lições da vida, quiçá mesmo uma das mais árduas de concretizar: a importância de aprender a ouvir os outros, antes de tentar dizer ou escrever o que quer que seja.
            Ermelinda da Silva predispôs-se, sobretudo, a ouvir o povo, ao qual foi colher uma grande parte da matéria-prima para escrever as suas obras. Algumas delas, segundo penso, mereciam mesmo uma projecção nacional, caso do romance A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora, que abre de um modo magistral: “Seguramente o pensamento de Zé Luís era um caminheiro sem destino, ou seria como pêndulo de relógio no seu toque, toque”. De resto, prosseguindo o esforço cultural que a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital tem vindo a desenvolver nos últimos anos, acredito que seria de todo pertinente proceder a uma reedição, pelo menos, da referida obra, garantindo, no entanto, que a mesma fosse previamente expurgada de gralhas e outros lapsos que, lamentavelmente, integraram a 1.ª edição.
Trata-se – não será despiciendo afirmá-lo – de uma autora progressista, sempre preocupada com os leitores, nomeadamente os mais jovens, aos quais, de resto, sempre procurou infundir uma mensagem de esperança e de valorização do estudo e do trabalho. As personagens dos seus livros aparecem insufladas de um tal humanismo, que não podem deixar de parecer-nos familiares. Personagens tão reais que, por vezes, temos a impressão de poder tocá-las nas nossas deambulações quotidianas. A título ilustrativo, atente-se nesta fala da personagem Adriana a Zé Luís, inserta na obra A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora: “– Solta-te pá, vamos curtir. Não me digas que ainda és virgem? Se assim for, não sabes o que é um beijo profundo, sensual, caraças, nunca tiveste uma experiência amorosa?”. São, pois, feitas de carne e osso todas as personagens ressuscitadas por Ermelinda da Silva, mas sempre caldeadas pelo denso nevoeiro em que habita a imaginação; véu sem o qual, aliás, toda a vida se tornaria insuportável.
Ermelinda da Silva era uma mulher divertida, emotiva e muito atenta aos detalhes. Uma mulher que manteve uma lucidez e uma tremenda vontade de aprender praticamente até aos últimos instantes da vida e que, também por isso, procurou estabelecer laços sociais, sobretudo, com pessoas que a ajudassem a adquirir novos conhecimentos. Sempre pronta para uma boa conversa, em redor de um chá com bolinhos, mostrava-se uma interlocutora acutilante e incisiva nas suas críticas ao Homem e à sociedade. Privou de perto com nomes como Tarquínio Hall (1915-2002) e Manuel Cid Teles (1911-2009), que chegaram a buscar a companhia da sua família, em Vila Franca da Beira.
Tive o raro privilégio de frequentar a sua casa e assistir quase em directo ao acto da criação literária no seu escritório franciscano. Quando decidi entrevistá-la, em 2017, para além das notas que fui escrevinhando no caderno de capas pretas que sempre me acompanha, optei por colocar em cima da mesa o gravador. E em boa hora o fiz, pois recordar a sua voz continuará a ser pela vida fora uma maneira de ir matando saudades da melhor romancista que algum dia tive oportunidade de conhecer. Uma Amiga, com a qual aprendi muito; uma mulher que apenas concluiu a 3.ª classe e, sacrificando o próprio património familiar, perseguiu o sonho de tornar-se escritora, numa terra (num país) onde poucos são aqueles que lêem ou revelam verdadeiras preocupações culturais. Uma mãe e esposa muito dedicada aos seus, acompanhada ao longo de quase sete décadas por um homem (Manuel Abrantes “Vidal”) que, numa sociedade ainda profundamente machista, soube compreender desde muito cedo as aspirações culturais da esposa e tudo fez para ajudar a concretizá-las.
            Deixo-vos apenas com algumas das lições que fui colhendo de Ermelinda da Silva. Haveria outras, muitas, mas estas são apenas algumas daquelas que fui escrevendo e registando. A sua mensagem é mais vasta e continua viva nas obras que editou. Vale a pena marcar um encontro com as palavras que nos legou.

            I – “O povo é poeta, transpira poesia, e nem se dá conta disso”;
            II – “Não somos todos iguais”;
            III – “Estudar também é trabalhar, faz suar”;
            IV – “O amor é perdão”;
            V – “Rasguei tanto, tanto! Andei à deriva como um barco, mas teimei e avancei”;
            VI – “É forçoso ler e escrever. Também é uma forma de fugir às futilidades”;
            VII – “Os dias mais felizes da minha vida: o casamento (a minha mãe abraçou-
-se a mim a chorar de alegria, assim que saí da capela); o dia em que nasceu o meu filho e quando editei o meu primeiro livro”;
            VIII – “O povo está deslumbrado”;
            IX – “Quem quer escrever tem de ler. Ler muito e ouvir o povo. É preciso auscultar o povo”.

Analisada à luz das suas circunstâncias, Ermelinda da Silva é, sem margem para dúvida, uma lição de vida. Por isso, bem merecia outro texto de maior fôlego. Esta foi apenas a homenagem possível a uma autora que me marcou profundamente. Uma Amiga, à qual sempre ficarei grato.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 25 de março de 2019

Uma imagem e uma história para refletirmos

Alheia ao que se passa ao seu redor, junto à praça do município da Beira, Zinha tenta secar os seus livros uma semana depois da sua casa, de construção precária, ter desabado. Para além da sua vontade de aprender ela quer salvar o seu único bem: os livros de distribuição gratuita.
by 
Rui Miguel Lamarques

Grupo 420( Facebook)
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país!

Mas não de acordo com o ranking das escolas, onde a Básica do Bairro Padre Cruz, em Lisboa, ficou em 1044o. Aliás, dependendo do ranking das escolas, pais e alunos fugiriam a sete pés desta escola, rapidamente levando ao seu encerramento e ao fim de um dos pilares deste bairro social.
Porque na Básica do Bairro Padre Cruz nenhum aluno fica sem comer. E há muitos em risco de passar o dia sem comer. Para muitos, a refeição na escola será a única do dia inteiro. Para muitos, poder comer é a razão de ir à escola. Mas não só.
Porque a Básica do Bairro Padre Cruz coloca o carinho e o  afecto antes do currículo, fazendo de tudo para que os alunos passem mais um dia na escola e menos um dia na rua, passo a passo reconstruindo as vidas perdidas de tantas crianças perdidas. O Bairro Padre Cruz é assim chamado em homenagem ao Padre Francisco Rodrigues da Cruz e a uma vida dedicada em pleno aos mais desfavorecidos. E outra coisa não se pode dizer sobre a sua Escola, onde os professores são mesmo a família que os alunos nunca tiveram, nunca terão, têm agora, na escola, na professora, nos professores e auxiliares, no Director da escola.
Porque um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor.
E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças,tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que
somos.
É impossível não nos envolvermos. É impossível não nos emocionarmos. E esta é a maior aprendizagem de quem vem ensinar para esta escola. Esta é a maior prova de crescimento num corpo docente com 60% de professores novos este ano, professores esses que em setembro estarão noutro lado, isto se não estiverem desempregados.
Meus caros, a mobilidade docente é um crime. É dizer às crianças que não há mais ninguém. É deixá-las por sua conta. É deixá-las à deriva no meio da tempestade, outra vez, e ninguém se habitua a uma tempestade. À deriva, as tempestades aumentam. É frustrar as expectativas, os sonhos, as lágrimas, é criar mais raiva, mais ódio, solidão, angústia.
Não obstante, sem desistir, esperançosos, os professores multiplicam-se e desdobram-se entre as aulas e os apoios individuais, entre os projectos e as reuniões com os pais, educando alunos mas também famílias inteiras, fazendo milagres com os poucos recursos ao seu dispor. Isto porque a diminuição do número de alunos ao longo da última década levou sucessivos governos a retirar à escola desde psicólogos ao grupo de teatro, sem esquecer o grupo de música, as colónias de férias, visitas de estudo. Outro crime, e os alunos não são números, as crianças não são números, mas são, são o futuro, o nosso futuro, nem por isso risonho. A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país! Digam o que disserem. Por não se limitar a ensinar, a formar, por querer saber de facto sobre as crianças, por viver os seus problemas, por sair dos muros da escola ao encontro do bairro, por abrir as portas ao bairro, por fazer parte de um todo e no todo trabalhar, sem parar, à procura de respostas. E as respostas para o abandono escolar, para as reprovações consecutivas, para o analfabetismo, para os problemas sociais e as famílias desestruturadas começam pela fixação do corpo docente. Para que estas crianças possam voltar a sonhar. E nós também.



Rui Cardoso
http://www.arlindovsky.net/2019/02/a-escola-basica-do-bairro-padre-cruz-e-a-melhor-escola-do-pais-joao-andre-costa/

domingo, 20 de janeiro de 2019

Momentos só nossos


O rebuliço profissional de segunda a sexta, onde saímos de casa muito cedo e chegamos tarde dentro impede-nos de desfrutar os momentos em família com a nossa criança que cresce tão rapidamente. Com a velocidade dos dias, basta descuidamos por breves semanas e não nos apercebemos quando ele dá os primeiros passos e passa repentinamente do gatinhar para o correr sem passar por o andar. A vontade de viver transparecida nos olhos da criança enchem-nos os olhos de água por percebemos que não é possível desfrutamos e dar-lhe toda a atenção que ela merecia. Enfim no meio daquela semana de trabalho tentamos naquela hora de jantar e antes de o deitar dar-lhe todos os abraços e carinhos que não demos durante o dia.

O fim de semana é um tempo mágico que passa num estalar de dedos. Nesses dois dias tentamos conciliarmo-nos enquanto pais e dar-lhe tempo para passear e estar verdadeiramente com ele. É bom perceber em família que com vinte e poucos meses já articula há muito tempo o nome do pai e da mãe para não falar da restante família. É maravilhoso cantar-lhe as músicas tradicionais e perceber que ele tenta imediatamente imitar-nos e no fim bate as palminhas com um imenso ar de satisfação.

Ao domingo de manhã geralmente o pai costuma ir passeá-lo  para que este possa desfrutar da natureza. O deleite daquele passeio de domingo de manhã já não dispensamos. A ida ao parque do Mandanelho ver os “patos cá, cás” é já uma rotina, pois ele quando lá chega fala logo deles. Por norma os passeios no parque têm dois períodos, o primeiro onde este caminha livremente naquele espaço amplo pisando as folhas secas do Inverno ou então a areia grossa das áreas reservadas às diversões. 

Sentir o olhar de felicidade na criança, transparece de imediato para os pais. Após um conjunto de longas caminhadas chegamos finalmente ao segundo momento,  o lago dos patos localizado a Norte do parque numa zona baixa. Sentados na margem do lago sobre uma laje de granito observamos muito atentos os sons balbuciados por estes animais na sua linguagem muito característica. Depois de observar com muita atenção toda aquela envolvência este  diz por vezes expressões como: “estão a tomar banho” ou “tantos patos cá, cás”. São momentos que vão passar muito rápido, no entanto é sinal que está a crescer bem e feliz e isso deixa-nos tão tranquilos.



Sentimos que é uma criança muito feliz e que se sente muito bem na sua escola. Isso dá-nos um conforto e força para enfrentar mais um dia de trabalho e calcorrear centenas de quilómetros diariamente. Obrigado a todos que nos ajudam diariamente.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A capacidade de incluir


Há um tempo atrás ouvi na rádio uma entrevista de um dos responsável pela Operação Nariz Vermelho que numa conversa com o diretor de um Hospital,diziam: Diretor do Hospital “os hospitais não são sítios para palhaços”; responsável Operação Nariz Vermelho “se não é para palhaços também não deveria ser para crianças.”

Perceber as necessidades de uma criança no século XXI é algo que não está intrínseco a qualquer pessoa. Em dois discursos que pude compartilhar no primeiro trimestre do ano letivo apercebi-me disso: O primeiro ocorreu algures no mês de Novembro nos bancos da cantina da escola C+S da Pampilhosa da Serra. Por acaso no meio da refeição surgiu à conversa qual seria o nome do irmão de uma criança de 4 anos que está para nascer no início de 2019, ao que esta com a inocência característica da sua idade disse que se chamaria António. Eu sem conhecer o contexto familiar congratulei a criança e os pais pelo nascimento ao que as funcionárias com um ar desgostoso disseram que infelizmente seria mais um para somar à miséria que jaz naquela casa onde já há 4 criança, e não existem as condições mínimas para as poder sustentar. A segunda história decorreu num dos múltiplos trajetos entre a Pampilhosa da Serra e Oliveira do Hospital no qual para reduzir custos repartimos as boleias. Um colega comentou que há uns anos atrás um professor de Matemática que lecionava no arquipélago dos Açores  foi mandado parar por um homem que o ameaçou que se lhe tirassem a mulher eles iriam arrepender-se. A mulher era uma menina de 15 anos que já estava a viver com um adulto.
Infelizmente são histórias vividas em pleno século XXI em Portugal Continental ou no Arquipélago dos Açores que nos entristecem, enquanto cidadãos de Portugal e do Mundo.

Em Portugal com o prolongamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano e com a nova legislação para os alunos com necessidades seletivas adicionais(antigos alunos com necessidades educativas especiais), a escola tem responsabilidades acrescidas que não detinha há uns anos atrás onde os alunos só eram obrigados a permanecer na escola até aos 16 anos.
Ter a capacidade de incluir alunos com necessidades seletivas adicionais,  numa turma com alunos com capacidades cognitivas normais é por vezes uma tarefa hercúlea que os professores estão ainda a adaptar-se. Perceber o que fazer a alunos que numa turma do 3º ciclo  não são capazes de reconhecer países da Europa, ou que devido às sua deficiência por serem autistas não são capazes de fazer muito mais além de pintar ou associas tabelas, gera dificuldades aos professores que têm de cumprir o currículo e chegar a um maior número de alunos possível.

Apesar de não me sentir preparado considero a integração na sala de aula dos antigos alunos com Currículo Específico Individualizado (CEI), que agora se designam alunos com medidas adicionais, por terem mais dificuldades cognitivas, pode ser positivo para a sua evolução cognitiva, no entanto considero que deviam ser dadas mais horas aos docentes, pois os objetivos curriculares mantiveram-se exatamente os mesmo com vários reveses entre os quais destaco um que me chateou particularmente, termos de preencher um quantidade infindável de grelhas sem qualquer utilidade.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Pampilhosa da Serra uma perspectiva de desenvolvimento


Ser professor é uma profissão muito singular, pois funciona como intermediária entre ao pais e os alunos na educação e caminho da criança. A irreverência é algo intrínseco à juventude e apesar de me preocupar os seus excessos, preocupa-me muito mais o seu isolamento.

No fim de semana passado fui a uma festa de família à Sobreda (Almada)  e tive uma passagem fugaz pela capital em hora de jogo do Benfica. Naqueles momentos pude perceber as dificuldades sentidas por quem faz aquele trajeto diariamente. Quando cheguei à Sobreda questione-me se é melhor viver no interior onde as acessibilidade não são as melhores e onde se demora mais de 1 hora para percorrer 40 km ou nos concelhos à volta da capital onde se demora igual tempo para percorrer igual distância. Para mim definitivamente a primeira hipótese, qualidade de vida não é andar continuamente em filas de trânsito, para chegar ao seu destino.

Sobre a realidade que trabalho, a Pampilhosa da Serra, gostava de vos dar a conhecer um pouco da minha curta experiência.

Pampilhosa da Serra está localizada na extremidade sudeste do distrito de Coimbra. O seu isolamento e a necessidade de atrair população conduziu a que o município direccionasse os seus investimentos com o intuito de fixar e atrair população.

A oferta dos manuais escolares, uma medida que foi tomada agora a nível nacional, é algo que já existe na Pampilhosa da Serra há mais de uma década. A gratuitidade no acesso a todos os eventos ou serviços públicos com piscinas, ginásios ou a feira anual é algo que nem merece discussão ou comentários na localidade.

Relativamente a uma outra questão senti mesmo a vontade de perguntar aos alunos a sua opinião. Se a população escolar está a diminuir, porque é que estão a construir uma escola nova para o 1ºciclo.


A minha opinião, é clara, a construção de uma escola para o 1º ciclo é um caminho bem definido, no entanto não basta construir é preciso atrair pessoas para que a escola possa crescer. Neste caso específico a oferta formativa consegue manter os alunos até ao 9º ano só que depois não lhe dá opções alternativas ao ensino regular no ensino secundário e os alunos vêem-se na obrigação de sair do concelho, perdendo-se assim, grande parte do investimento que foi feito.  A construção da escola é muito bem vinda, no entanto espero que associado, venham projetos a longo prazo que dêem mais opções, fixem os alunos que têm e atraiam outros.

Os alunos infelizmente vêem a  construção da nova escola como um elefante branco que não deveria ser construído pois o que existe é suficiente. Observo que apesar de todas as mais valias que têm os alunos não valorizam o facto de viverem na Pampilhosa da Serra  tendo uma visão redutora sobre a sua permanência. Alguns disseram iriam escolher outros concelhos para a realização do ensino secundário, outros mesmo que permanecessem dificilmente lá iriam permanecer na idade adulta, pois não há ofertas de emprego.

Antes de fazer a questão já tinha uma ideia predefinida sobre aquilo que os alunos me iriam dizer. O caminho mais fácil é a gratuitidade, isso dá votos a curto prazo, no entanto a longo o prazo não se vê o desenvolvimento de uma região. Os acessos continuam deficientes demora-se muito tempo para chegar às capitais de distrito mais próximas, as empresas acabam por não se sentir atraídas, porque na minha opinião o município da Pampilhosa da Serra  direcionam os seus esforços para horizontes muito curtos não pensando a longo prazo.

Resistir em tempo de terror


Stanley Kubrick produziu e dirigiu, em 1980, um perturbador filme de terror intitulado The Shining, no qual Jack Nicholson desempenhou, de um modo magistral, o papel de Jack Torrance, um escritor, com problemas alcoólicos.
Ao arranjar trabalho num misterioso hotel que, no auge do Inverno, permanecia isolado, Jack parecia ter encontrado também o tempo livre e a solidão que o ajudariam a escrever um livro. Porém, começou a ter visões e, aparentemente influenciado por uma presença sobrenatural, enlouqueceu, chegando mesmo a tentar assassinar a mulher e o filho.
            Ora, segundo creio, este filme de terror parece traduzir o que se passa actualmente em Portugal, no âmbito de vários ministérios, com particular destaque para a Educação e a Saúde. Para compreender os motivos que nos conduziram a este ponto é fundamental ter em consideração vários aspectos.

            I – a corte de Luís XIV.
            Os ministérios políticos que por aí proliferam transformaram-se num mundo obscuro, onde vão subsistindo milhares de funcionários politicamente arregimentados na situação. Ávidos de mostrar serviço e receosos de regressar à profissão de origem, procuram criar documentos e mais documentos, como se o mundo dependesse deles para continuar a sobreviver. Por isso, vociferam, “é bom que as leis durem pouco tempo e sejam substituídas por outras que já estão na forja”.
Esta massa de burocratas foi, progressivamente, deixando de funcionar como um todo e hoje representa apenas um conjunto de partes divididas em gabinetes distintos, que em situações muito excepcionais lá são mobilizadas para a cerimónia do beija-
-mão. Enfim, eis a corte de Luís XIV, com as suas características intrigas palacianas e redes tentaculares, adaptada à actualidade nacional.

            II – a síndrome do gabinete.
            Isolados, estes funcionários públicos, que actuam como inspectores morais da Nação, perderam completamente a noção da realidade. Com a caneta, uma folha e meia dúzia de teorias estapafúrdias colhidas nas esotéricas escolas das ciências da educação que para aí proliferam as ideias brotam-lhes como cogumelos venenosos. “Iluminados” (Shining), começam a ouvir vozes: (“Olhai todos: este é o caminho do futuro”). Empreendedores, não têm dúvidas ou hesitações. Claro está, quem, ingenuamente, cai no erro de contraditá-los é visto como um incompetente, que cometeu o pecado mortal de não ter assimilado as admiráveis oportunidades da ambígua legislação, esse vasto mundo de indefinições onde pode caber tudo e precisamente o seu contrário, ou seja, nada...

            III – acelerar o futuro.
            O futuro das competências está ao virar da esquina”, proclamam os teóricos da “nova educação”, como os gurus da auto-ajuda, os vendedores de banha da cobra, os videntes ou os cartomantes. Esse futuro será tão diferente do mundo que conhecemos que os saberes tradicionais de pouco ou nada nos valerão, afinal as profissões mudarão por completo. De que adianta memorizar datas, conhecer a tabuada de trás para a frente ou estimular a memória? A inteligência artificial obriga-nos a percorrer um admirável caminho novo. Não vale a pena dizer que esses trilhos conduzem à profunda ignorância, pois Eles jamais nos irão ouvir. Eles são como deuses e os deuses não se desmentem ou contrariam. Veneram-se, com as costas curvadas e os olhos postos no chão.
            Na verdade, ontem, como hoje, ninguém sabe como será o futuro. E ainda bem que assim é. No entanto, a sistemática desvalorização do conhecimento substantivo, da exigência, do trabalho e do estudo, em detrimento de um facilitismo reinante que permitirá a todos – sem excepção – concluir o 12.º ano (sem a mácula das dispendiosas retenções), implicará, numa perspectiva de médio e longo prazo, consequências catastróficas: agravamento dos desequilíbrios sociais e criação de uma sociedade constituída por indivíduos egoístas e incapazes, mas convictos de que são infalíveis e inquestionáveis e, por isso, mal preparados para lidar com a frustração e o insucesso próprios da vida. Cada vez mais, o berço determinará a posição social que se ocupa na pirâmide, por muito que as mais recentes leis (ditas) “inclusivas” sustentem o contrário e pretendam, utopicamente, acabar com todas as categorizações. Estes são, sem margem para dúvida, tempos de profundas exclusões.
            Por outro lado, os profissionais que perseguem a excelência, nos mais variados sectores do Estado, aqueles que de facto vivem com maior angústia toda esta trapalhada legislativa, sentem-se cada vez mais sufocados, desgastados e desmotivados, ao ponto de mal dormirem ou entrarem em processo de falência mental (burnout).
É bom recordar que assassinar alguém não implica apenas sacar do revólver ou dissolver veneno na comida. Em Portugal, a excelência é cada vez mais destruída, privilegiando-se os arrivistas, capazes de lamber as botas a todos os focos do poder. Eles representam a face visível de um sistema podre, que esconde os doentes nas macas arrumadas a um canto do corredor e, entre outros exemplos, insiste em considerar as touradas como produtos culturais que importa financiar.
           
III – o Leopardo.
            Giuseppe Tomasi di Lampedusa deixou-nos um dos romances mais notáveis que tive oportunidade de ler. O Leopardo, inicialmente recusado por várias editoras, desenrola-se na segunda metade do século XIX, na época da luta pela unificação de Itália. Em 1963, foi minuciosamente adaptado ao cinema por Luchino Visconti e ainda hoje tem uma “actualité brûlante”.
             A personagem central, D. Fabrizio, príncipe de Salina, um aristocrata italiano, consegue revelar a inteligência e a intuição suficientes – mas raras – para interpretar os sinais do seu tempo e perspectivar a agonia de uma civilização (que ele, enquanto nobre, representava), em detrimento da emergente, pautada pela afirmação da burguesia.
            Para além da solidez psicológica, D. Fabrizio toca-me profundamente, em especial pela sua capacidade de análise, isto apesar de estar dentro dos próprios acontecimentos, que, como quase sempre sucede, evoluem de um modo surpreendentemente vertiginoso e incontrolável. A consagrada máxima, inicialmente proferida por Tancredi (sobrinho e protegido de Fabrizio, futuro deputado a quem, reflicta-se, será prometida uma legação em Lisboa), tornar-se-á um dos lemas do príncipe de Salina, até aos últimos dias da sua vida: “É preciso que tudo mude, se quisermos que tudo fique como está”. E é isso que ele procurará fazer: garantir que, no novo mundo, o seu sobrinho (a quem ele ama como um filho) perpetue, embora de um modo renovado, o poder e o prestígio da família.
            Talvez esta lição de um homem, que sente a vida a esvair-se-lhe irremediavelmente das veias, possa ainda hoje servir-nos, de algum modo, nestes tempos em que assistimos ao inevitável estertor de uma civilização e ao nascimento de outra, que não augura nada de bom (“depois do Leopardo virão os chacais”). Neste momento, talvez a maior resistência que possamos oferecer aos comportamentos psicóticos daqueles que nos governam (não, já não é apenas uma questão de ignorância) deva passar pelo bom senso de, enquanto classes profissionais, recordar diariamente que aderir não significa participar... 
            Num dos seus mais recentes livros (Homo Deus. História Breve do Amanhã), o historiador Yuval Noah Harari diz-nos que inteligência e consciência não são sinónimos. Talvez a segunda, individual, nos possa ainda salvar da falta de inteligência e dos comportamentos psicóticos daqueles que nos governam. Ainda iremos a tempo?

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Dia da Floresta Autóctone e a rota das Faias


Muito se fala sobre a inclusão de espécies não autóctones como o eucalipto, a acácia e o pinheiro bravo que acabaram por impedir a proliferação daquelas que sempre lá existiram, como o carvalho ou o medronho.  Sobre este tema por não ter conhecimentos, não vou fazer qualquer comentário, preferindo abordar a forma como o Escola Básica e Secundária de Manteigas celebrou este dia.





Para a celebração deste dia a Câmara Municipal de Manteigas, contou com o contributo Escola Básica e Secundária, que canalizou para esta atividade as turmas do 7º e 8º ano de escolaridade. A iniciativa constou na plantação de medronheiros num terreno baldio da Junta de Freguesia de Manteigas. Considero que para a celebração deste dia, o contacto com a natureza é fundamental, sendo muito importante que os alunos percebam o significado de plantar para mais tarde colher. A iniciativa foi um êxito, tendo os alunos demonstrado empenho na sua realização.





Na viagem de regresso para a vila de Manteigas procedemos à realização da rota das faias, que por serem espécies de folha caduca no Outono dão um brilho especial à paisagem. As faias não sendo uma espécie autóctone em Portugal, é uma das espécies arbóreas mais interessantes das florestas europeias, do ponto de vista ecológico e económico. É um dos quatro pilares do ano solar Celta.




Ao longo do percurso passamos por um conjuntos casas abandonados que outrora eram habitadas por agricultores que povoavam as encostas.


A Igreja de São Lourenço foi antes da chegada do cristianismo uma zona adorada pelos deuses  daí o grande número de carvalhos que existia à sua volta, sendo-lhe atribuída a designação de "Bosquete de carvalhos  monumentais".


Nesta zona, caso as condições atmosféricas o permitam é possível observar a localidade de Sameiro ou a Serra de Gata já na Estremadura Espanhola.


Segundo reza a lenda o imperador de Roma questionou São Lourenço sobre as riquezas que esta região tinha ao que este respondeu, “Caro imperador a nossa principal riqueza são os nossos fies”. O imperador ficou irado, pois pensava que havia uma qualquer riqueza material e por isso castigou-o, condenando-o à morte, queimando-o. São Lourenço mesmo aquando da sua morte queimado, não perdeu a sua boa disposição dizendo a quem o matava, "deste lado já estou bem assado, pode-me virar para o outro". Devido a esta história a figura de São Lourenço é conhecida por estar a segurar numa grelha.

A zona junto a esta igreja de São Lourenço todos os anos em Agosto recebe uma festa que junta centenas de pessoas.



O posto de vigia de São Lourenço é usado essencialmente no verão, época de maior calor quando o risco de incêndio é mais elevado. Este posto de vigia dada a sua excelente visibilidade tem um papel fundamental na preservação da fauna e flora locais.


As pseudotsugas são resinosa que foram introduzidas nesta região no início do século XX tendo por isso já um porte considerável como demonstra a foto 3. Estas árvores têm características muito específicas, pois aquando da sua plantação as suas sementes foram criteriosamente selecionadas para que os seus troncos tivessem um formato retilíneo. A industria do mobiliário valoriza muito este tipo de árvores, sendo portanto esta uma zona conhecida como o “sementão”, pois as suas sementes são aproveitadas para a plantação noutras áreas do país.


Por outro lado estas árvores têm um papel muito especial, pois devido à sua altura impedem que a água das chuvas caia diretamente no solo,purificando-a. Em consequência da grande inclinação das vertentes esta árvores permitem a infiltração da água nos solo e a  alimentação dos inúmeros aquíferos que existem nesta região. .


A fase seguinte do percurso é a parte mais bonita, a visualização das faias. A altura melhor do ano para observar as faias é o final do mês de Outubro, quando as folhas ainda se encontram nas árvores, o que não aconteceu aquando desta visita, onde grande parte das árvores já estavam sem folhas. Quero realçar a importância do grande manto de folhas que cobre o solo, que tem um papel muito importante na sua fertilização.



Os socalcos são uma constante ao longo do percurso, o que demonstra a luta que o homem manteve com a natureza durante décadas com o intuito de ter um modo de subsistência, a agricultura.


A chegada à vila de Manteigas correspondeu ao final de um dia diferente. Obrigado ao Engenheiro Florestal da Câmara Municipal de Manteigas, assim como ao Presidente da Junta de Freguesia de Manteigas que nos acompanharam na caminhada e com os quais podemos aprender um pouco mais sobre a rota das faias.

sábado, 17 de novembro de 2018

A função de pai e mãe


Salvo erro em Novembro de 2011 quando estava no Colégio Santo André na Venda do Pinheiro lembro-me perfeitamente de um testemunho de uma criança. Na altura interpelei-a sobre a alegria do reencontro com os pais ao fim do dia ao qual esta me respondeu com um olhar vazio, dizendo-me que os pais no final do dia de trabalho continuavam focados nos ecrãs dos smartfones, tablets ou portáteis em detrimento de darem atenção ao filho. Esse momento fez-me refletir e pensar na importância crescente da escola, perante os seus educandos e na ausência dos pais.

Há distância de sete anos e já no papel de pai percebo melhor a história que me foi contada por aquela criança, pretendendo que a mesma não seja contada pelo meu filho daqui a uns anos. O papel de pai é fantástico, no entanto aufere uma responsabilidade muito singular que infelizmente nem todos são capazes. Eu não me considero um pai perfeito, pois acho que ninguém o será, no entanto quando estou com ele, o tempo por mais pequeno que seja tem de ser apenas para ele.

Feliz ou Infelizmente, o nosso filho, tem os seus pais professores contratados que nem sempre estão presentes, tendo horários muito voláteis, onde são obrigados por vezes a sair muito cedo de casa e chegar ao fim da tarde. Muitas vezes é necessário um grande jogo de cintura de forma a conseguir dar a atenção desejada a uma criança que não tem culpa nenhuma.  Felizmente podemos dizer com uma grande sensação de conforto de responsabilidade, que temos a sorte de ter um grande suporte familiar.

Sobre tudo o que foi dito, gostaria de relatar duas histórias de colegas com filhos comentadas ocasionalmente na sala de professores:
A primeira história é de uma mãe com um filho adolescente que lhe pediu ajuda para os trabalhos da escola. Esta cansada depois de um dia de trabalho e com dezenas de quilómetros percorrido respondeu-lhe, depois de jantar tratamos disso. Esta fez o jantar e tratou dos afazeres domésticos, e já perto das 21:00 disse ao filho para trazer os livros da escola. Em conjunto com o seu filho esta mãe e professora ajudou-o dando-lhe a atenção que ele merecia. Perto das 22:30 disse-lhe, está na hora de ir para a cama visto amanhã teres que acordar cedo. Às 23:00 a professora pegou finalmente nas aulas que teria de lecionar no dia seguinte, ao qual dedicou cerca de 2h30 deitando-se quando já passava da 1h da manhã. Ao outro dia às 7h30 teria de se fazer à estrada para mais um dia de trabalho.

A segunda história fala de um professor que estava a fazer uma formação elarning. Este tem dois filhos gémeos e viu-se na obrigação de pedir  para lhe alterarem o horário dos fóruns para as 22:00, quando este tinham sido definidos para as 19:00. Entre as 19;00 e as 22:00 eram momentos que ele dedicava apenas aos filhos não abdicando desse tempo para outra qualquer tarefa.

Com o meu testemunho e de dois colegas professores queria deixar um alertar a todos o pais. Diariamente apercebo-me de situações que me fazem doer o coração. A vida por vezes dá voltas, e não é possível prever determinadas coisas, no entanto quando decidirem ter um filho coloquem-no a no centro de tudo e dêem-lhe o Amor e à Atenção que ele merece.

sábado, 10 de novembro de 2018

Desabafos de um professor


A vida de um professor não é mesmo nada fácil, é preciso gostar verdadeiramente para termos estofo para aguentar com as burocracias do Ministério da Educação, alunos e turmas indisciplinadas, com metas para atingir num universo muito diferente, cognitivamente falando.

Por outro lado, e talvez para mim o mais doloroso, as viagens. Foi uma opção tendo por isso que me sujeitar às suas consequências, no entanto não entendo que o Ministério da Educação não auxilie monetariamente como faz com os deputados, os professores que se encontrem deslocados do seu local de residência.

Executar de forma competente uma profissão depende de vários fatores, como o gosto por aquilo que se faz, ou as condições que nos são dadas para executarmos a nossa profissão. As escolas nos dias que correm, têm dificuldades em colocar professores. O que eu propunha às entidades é que fossem ao fundo da questão e percebessem, o porquê. Porquê que a profissão de professor é cada vez menos escolhida pelos jovens.

Eu na escola sinto um cansaço generalizado do corpo docente. As razões são várias: cortes nos salários, congelamento das carreiras, ou o aumento da idade da reforma. Ser reconhecido por aquilo que fazemos é algo que nos motiva e nos faz dar mais de nós em prol da nossa profissão. O que tem acontecido é precisamente o oposto Em consequência da forma como temos sido tratados a maior parte dos professores faz o mínimo (na minha opinião bem), isto é dá aulas, vão às reuniões e não dão mais do seu tempo à escola nem aos alunos. Quem perde, todos na minha opinião.

Ir ao fundo da questão na minha opinião é fundamental, perceber o que é preciso para nos sentirmos bem num local. Estabilidade e renovação do corpo docente na minha opinião é essencial para a melhoria da Educação em Portugal. Fazer um estudo sobre as maiores necessidades docente por Quadro de Zona Pedagógica (QZP) e criar estratégias para a colocação de professores, com contratos superiores a 1 ano, serão para mim boas soluções. Sei que é difícil agradar a todos e a proximidade ao local de residência não é fácil, no entanto é preciso criar mecanismos para que um professor possa ter mais valias por se encontrar distante do seu lugar de residência. A disponibilidade de residências a um preço mais acessível ou a criação de um subsidio que auxilie nas deslocações poderão ser estratégias a tomar pelo Ministério da Educação, pelas escolas ou pelos Municípios  para tornar o corpo docente mais concordante com quem lhes paga.

Haveria mais coisas a dizer. Como professor acredito num futuro melhor, no entanto é preciso que cada um não reme para o seu lado, sem haver muitas discrepâncias, pois o Futuro do país depende da Educação e vice-versa.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A recompensa

Todos os domingos, depois da missa matinal, os garotos lá da aldeia juntavam-se no clube para jogar matraquilhos e roubar um beijo às gaiatas. Ricardo, porém, raramente brincava com os seus colegas e, cerca de uma hora antes de amanhecer, partia com o pai na icónica 4L castanha, em direcção ao rio Mondego.
Naquele tempo, já lá vão mais de 30 anos, o pimpão vermelho inundava as águas ainda límpidas e os pescadores ansiavam por chegar a casa com o balde cheio de barbatanas-vermelhas para reclamar junto das patroas o suculento molho de escabeche. Esse manjar dos deuses, que os beirões de outros tempos conheciam como ninguém.
Ricardo fez-se poeta junto às margens do Mondego, para onde fora arrastado, tantas vezes quase a dormir, durante anos a fio. Aqueles que já assistiram ao nascer do sol, sentados ao lado das águas serpenteantes, dificilmente poderão esquecer esses momentos sagrados. À medida que o negro da madrugada se dissipa, o rio assume a forma de uma envergonhada noiva que, lentamente, vai despindo o véu, até desnudar a cara. O frio gela-nos o sangue, mas o silêncio é tão profundo que a eternidade parece revelar-se mesmo ali à nossa frente. Então, encobertos por uma espécie de cápsula do tempo, tornamo-nos imunes a quase todas as tragédias.
O pescador – diz a gíria popular – é, habitualmente, um efabulador (repare-se que não digo mentiroso):
“– Ontem, apanhei um achigã com 20 kg!” – e os companheiros, sabedores das manhas da faina, lá relativizam os números, enquanto os mais desprevenidos ficam de queixo caído, pensando num tal enigmático monstro das águas subterrâneas Porém, o pescador é também, vulgarmente, um dos mais introspectivos seres que poderemos encontrar à face da Terra. Verdadeiro filósofo, atrever-me-ia mesmo a concluir.
Para compreender Ricardo era forçoso tomar em consideração as intermináveis horas que este passara junto ao rio, a ouvir o seu silêncio corrente. Verdade seja dita que ele nunca foi um grande pescador. Distraído como era, raramente pressentia a bóia a afundar-se nas águas profundas e, por isso, quando, finalmente, despertava para a realidade já o peixe comera as iscas colocadas no anzol: bichos das mais variadas espécies, trigo, milho, massa ou até, imagine-se, pão, cuidadosamente repartido em pequenas bolinhas. É certo que o pai bem tentava dar-lhe uns carolos, para ver se o acordava para a realidade, mas o raio do rapaz raramente conseguia concentrar-se na pescaria. Poucos minutos depois de ter a cana na mão, já a sua cabeça viajava para outros continentes e planetas longínquos, sendo quase impossível trazê-lo de volta.
Era, precisamente, no momento do regresso a casa que Ricardo mais sentia o abismo que o separava dos seus pares. Os outros transportavam os baldes repletos de peixe, enquanto Ricardo raramente se estreava. Nesses instantes em que todos comparavam os troféus, o pai castigava-o severamente, humilhando-o em frente aos colegas. E nada lhe doía mais do que aquelas terríveis palavras, para sempre inscritas na alma:
“– Não vales nada. Todos tiram peixes, menos tu. Olha para esse balde… vazio como a tua cabeça”.
Fruto das suas circunstâncias, Ricardo passou então a tornar-se um menino cada vez mais triste e solitário. Tão triste e solitário que, por vezes, apenas o rio lhe servia de consolo. E foi muitas vezes ao rio que ele confiou a sua história e o terrível drama em ser tão distraído e diferente.
O menino não sabia (como poderia imaginá-lo?), mas era um poeta e um aprendiz de filósofo. Interessado em tudo o que o rodeava, imaginava-se a cavalgar em cima das nuvens, convocava todos os seres das profundezas do rio e quando menos se precatava já estava a léguas e léguas de distância, confiando ao infinito as mais surpreendentes perguntas.
Um dia, já lá vão mais de 30 anos, Ricardo chegou ao Mondego ainda mais triste do que o habitual. A sua mãe acabara de falecer e um vazio profundo apoderara-se-lhe do espírito. Por isso, naquela madrugada, ao contrário do que sucedia nos outros dias, Ricardo abandonou a cana junto às margens, em cima de um salgueiro, e sentou-se a contemplar silenciosamente o vazio das águas. As lágrimas escorriam-lhe pela face, caindo nas mãos e alagando-as torrencialmente. Sozinho, afastado dos demais, o menino confundia-se de tal modo com a paisagem, que até os guarda-rios se aproximavam dele e as distraídas rãs vinham aninhar-se a seu lado, a coaxar demoradamente.
Naquele dia, foi apenas a poucos instantes do regresso que Ricardo decidiu colocar uma minhoca no anzol e atirar a linha para a água. Contudo, assim que o fez, a bóia deu um violento tropeção, afundando-se imediatamente nas profundezas. De imediato, Ricardo imprimiu um pequeno esticão na cana e começou a recuperar lentamente a linha. Depois, quando o peixe estava mesmo a chegar à beira, o menino levantou o braço. Sem compreender muito bem como, viu então um enorme barbo, de longos bigodes e boca profundamente escancarada, a saltitar no chão. De cá para lá, de lá para cá… enquanto o tempo parecia ter parado.
Ricardo olhou demoradamente o majestoso peixe e sorriu. Do outro lado, chegavam, entretanto, os primeiros vultos espantados com o tamanho de tal gigante a estrebuchar em terra. Foi a primeira vez que o menino conheceu o orgulho de ter alcançado algo admirável.

Há muitos anos, alguém me disse que o rio ouve sempre o que lhe segredamos. Por vezes, sempre em silêncio, sacrifica mesmo alguns dos seus filhos para recompensar com um sorriso os que mais sofrem, apesar de nunca termos aprendido a respeitá-lo.
Vale sempre a pena regressar às margens do rio da nossa infância para escutar a voz que nos habita nas mais recônditas profundezas da alma… Afinal, são esses locais sagrados – autênticos santuários – que ainda nos podem salvar, não só enquanto indivíduos, mas enquanto Humanidade.

Mondego
Águas da meninice
Vinde agora ouvir-me,
Afinal, tudo o que já disse
Foi este rio a contar-me…
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)           

domingo, 30 de setembro de 2018

Cid Teles, a cigarra do Triste Fado (Notas conclusivas)


Notas conclusivas
            Quando Cid Teles faleceu, em 2009, tinha já completado a provecta idade de 98 anos. Apesar de ter nascido em Tábua, em 1911 (ano em que também nasceu o neo-realista Alves Redol), e de durante vários anos ter acompanhado os pais nas suas deambulações profissionais por várias regiões do país (Grândola, Santiago do Cacém, Montijo, Viseu, Lamego, Porto e Matosinhos), foi em Oliveira do Hospital que acabou por radicar-se, por volta dos anos 40 ou 50 do século passado. Nesta (actual) cidade passou cerca de seis décadas, fazendo parte do seu percurso diário, além da casa, junto ao Largo Ribeiro do Amaral (na rua que dá acesso à Caixa Geral de Depósitos), os cafés “Jardim” e “Portugal”, bem como a extinta pastelaria “Olipão”, onde gostava de reunir-se com os amigos para as recorrentes tertúlias.
            Cid Teles foi, sem qualquer dúvida, uma das figuras mais icónicas, pelo menos, da sede do concelho de Oliveira do Hospital. Os seus longos e precoces cabelos brancos, com um sereno porte de matusalém, dificilmente passariam despercebidos aos transeuntes. Ao longo da vida, teria desempenhado, sobretudo, funções relacionadas com as suas vocações artísticas: compôs letras musicais, peças de teatro, contracenou com vultos nacionais dos palcos (v.g., Manuel Lereno, 1909-1976), dinamizou vários programas radiofónicos, nomeadamente na Rádio Boa Nova e na Emissora Nacional.
            Estreou-se aos 21 anos, com a obra As minhas quadras, contando com o apadrinhamento literário de Fausto Guedes de Teixeira, poeta de Lamego que enviou a Cid Teles um soneto da sua autoria, para figurar na obra de estreia. Um soneto, cuja versão manuscrita, ainda hoje pode ser consultado na Fundação Maria Emília Vasconcelos, em Oliveira do Hospital (um local de paragem obrigatória para todos aqueles que se interessam pela cultura da região).
            Pianista, pintor autodidacta, ensaiador de grupos de teatro e de ranchos folclóricos de várias regiões do concelho oliveirense (caso do Rancho Folclórico Infantil da Casa do Povo de Midões, do Rancho Folclórico de Alvôco das Várzeas e do Rancho Folclórico de Santo António do Alva), Cid Teles, apesar de ter cultivado uma vida algo solitária, nem por isso deixou de consagrar a vida aos outros e, em particular, à cultura do concelho.
Várias das suas quadras e sonetos foram editados, pela primeira vez, em jornais locais, caso da Comarca de Arganil. Aprendeu a tocar piano com a mãe (Alzira de Matos Cid Teles), depois ele próprio ensinou, durante algum tempo, música no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas e deu lições de canto coral. A fazer fé nas suas próprias palavras, costumava dizer aos alunos que quando “as coisas não são feitas com carinho e amor, não valem nada”.
            Vista no seu conjunto, a obra de Cid Teles é multifacetada, pese embora o facto de as áreas temáticas serem relativamente reduzidas e até mesmo atravessadas pela repetição de algumas ideias nucleares. Por detrás de uma aparente simplicidade (o difícil na vida é ser simples), esconde-se uma filosofia de vida ancorada num percurso solitário, instrospectivo e com certo pendor existencialista. Um conjunto de lições que bem reclamam um reencontro dos leitores, sobretudo dos jovens estudantes do concelho, com a obra telesiana.
            Como teve oportunidade de concluir o professor, maçon e oposicionista ao Estado Novo Manuel Monteiro, num artigo dado à estampa na Comarca de Arganil, em 9 de Maio de 1959, “o poeta do «Sou como Sou», com uma aparência física sólida, bem conformada, tranquilidade nos modos, nos gestos e nas feições, no espiritual dá estes binómios engraçados: inquietação-conformismo, angústia-
-serenidade, revolta-pacificação”.
            Enfim, um mundo de contradições, que reflectem o carácter inconstante, inconformado e rebelde do indivíduo e que também nos ajudam a compreender a aura de mistério que sempre pairou sobre a sua personalidade. Um homem que todos conheciam, mas com o qual poucos tiveram o privilégio de privar na intimidade. Atentem-se nestas palavras, que fazem parte da obra Chuva de estrelas:

Eu vivo comigo mesmo
Em louca contradição:
Se digo não… penso sim,
Se digo sim… penso não!

            Cid Teles preferiu desde muito cedo o contacto com os mais idosos. Durante a infância e grande parte da adolescência, as dificuldades em criar relacionamentos interpessoais com os seus pares, em virtude das constantes deambulações profissionais do pai, tê-lo-iam levado a passar muitas horas sozinho e, nessa sequência, a adquirir uma maturidade invulgar para a sua idade, bem como o gosto pela poesia. A sua facilidade em versejar era tal que o pai, autor do Livro do coração (ao qual António Nobre, o autor do “livro mais triste que há em Portugal”, teria dedicado a “Carta a Manuel”) teria mesmo afirmado: “Tu fazes versos com uma pá velha”. Uma curiosa expressão beirã, que apenas me lembro de ler nas obras do notável romancista e novelista beirão Aquilino Ribeiro. O contacto com a poetisa alentejana Florbela Espanca, em Matosinhos, bem como a leitura da sua obra, marcou-o profundamente.
            Acompanhou a doença e a velhice dos pais, do tio José Madeira Teles e da irmã Inácia, ela própria uma poetisa e professora no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas. A perda da família biológica (os progenitores morreram em 1945, com um breve intervalo de tempo) marcou-o de modo profundo, reflectindo-se essa tristeza, pessimismo e inquietação na sua obra poética e nas suas pinturas (sobretudo nas paisagens pintadas a aguarela), que chegou a expor na Casa da Cultura César Oliveira, em Oliveira do Hospital. Isto para já não falar na terrível experiência do envelhecimento, da solidão e da proximidade da morte, a respeito das quais demonstrava, sobretudo na fase final da vida, uma profunda consciência e sentido pragmático.
            Na obra Farrapos da minha vida, confessou ter vivido em função dos outros:

            No fim da vida em que estou
                Só agora compreendi
                Que vivi mais para os outros
                Do que para mim vivi.

            Mas Cid Teles, além do poeta do “Triste Fado”, também foi a cigarra, que levou alegria a tantos habitantes do concelho de Oliveira, durante anos a fio. Qual palhaço que sobe à cena e, nesses instantes, se esquece dos dramas da existência individual, Cid Teles foi um homem da cultura, do palco e do público. Quase todos o conheciam, mas uma auréola de mistério sempre pairou sobre a sua cabeça.
            Cid Teles, o poeta conselheiro, atravessado por uma amarga filosofia de vida que, por vezes, me recorda António Aleixo (1899-1949). Eis esta quadra do poeta oliveirense, eternizado nas suas Quadras Soltas:

Por uma estranha razão
Difícil de compreender,
São sempre os que mais sofrem
Que mais desejam viver.

            Palavras breves, que tantas vezes resumem décadas e décadas de amarga aprendizagem, como esta que inicialmente foi dada à estampa nos Farrapos da minha vida:

Numa quadra pequenina,
             Por magia feiticeira,
             Pode caber a razão
             Duma vida toda inteira.

            Cid Teles também foi, por vezes, o incisivo crítico social, como bem demonstra esta quadra inserta nos Farrapos da minha vida:

Há pessoas, sim, eu sei
Que há pessoas por aí
Que julgam saber dos outros
Mais do que sabem de si!

            Apesar de sempre ter afirmado que não gostava do que escrevia e de ter resumido a própria vida como o poeta do “Triste Fado”, importa, porém, reconhecer que Cid Teles viu, desde cedo, reconhecido o seu talento, pelo menos, no âmbito do concelho onde residiu a maior parte da vida, algo que nem sempre sucede(u) com grandes nomes da literatura nacional.
            Manuel Cid Teles teria perseguido uma certa independência política, evidenciando mesmo um certo alheamento em relação à mesma, pese embora o facto de ter vivido várias décadas sob o regime censório e repressivo do Estado Novo (1933-1974). Apesar de não ter assumido ao longo da vida uma intervenção política, desempenhou um inequívoco papel no domínio cultural do concelho de Oliveira do Hospital.
Cid Teles, um homem com uma inequívoca preocupação em relação à sua obra e à eternidade da sua mensagem. Através da sua correspondência pessoal, é possível comprovar que procurou oferecer os seus livros a personalidades consagradas da vida nacional, talvez também enquanto um meio de divulgar a sua mensagem e obter algum reconhecimento literário.
Aqui deixo, pois, algumas notas a respeito de um homem que conheci na fase final da vida. Não são mais do que alguns traços impressionistas a respeito dos percursos de um homem do palco, mas também de um indefectível solitário, que nunca casou e nunca teve filhos. Uma cigarra, que apesar de ter um “Triste Fado”, sempre procurou levar a cultura às gentes do concelho de Oliveira do Hospital.
Eis, por conseguinte, a homenagem possível a um poeta, que me marcou profundamente. Uma homenagem ao homem, com as suas virtudes e defeitos, as suas sombras e luzes, próprias, de resto, de todos os Homens. Esta é, por conseguinte, a minha homenagem a uma cigarra que, ao contrário do que é socialmente expectável e devido às circunstâncias favoráveis de que beneficiou do ponto de vista financeiro, não dedicou a vida, de um modo sistemático, a uma profissão propriamente dita (o seu feitio seria, de resto, pouco atreito a horários rígidos e a rotinas). Ainda assim, viveu em função de uma vocação artístico-
-literária e, malgré tout, conheceu a consagração local. Uma lição, com sabor a sátira, inserta na obra Canta cigarra, canta!:
Canta cigarra, canta, canta mais
E deixa lá falar essas formigas,
Que quando estás, te tratam como amigas,
Mas te censuram logo que te vais!...

A sua família, como tantas vezes me confessou, eram as suas gentes de Oliveira do Hospital, mas talvez a abertura da enigmática caixa confiada à guarda da Fundação Maria Emília Vasconcelos Cabral, que deverá conter elementos relativos à irmã de Manuel Cid Teles (Inácia), possa ajudar-nos a iluminar um pouco melhor esta matéria.




Capa da obra escrita por Inácia, irmã de Cid Teles

No momento em que escrevo, com a Serra da Estrela em pano de fundo e as obras do poeta em cima da secretária, o sentimento que me invade é de saudade e profunda admiração, perante uma cigarra que conseguiu cantar praticamente até aos momentos finais da vida (como se comprova pela grande qualidade da obra São restos, já editada a título póstumo, em grande parte graças ao trabalho notável de Maria Rosa Lobo Gonçalves). Despeço-me, invocando aquele que talvez represente um dos sonetos mais icónicos de toda a sua vida, dos percursos de um cidadão incontornável na História cultural do concelho onde passei a minha infância, grande parte da adolescência e ao qual regresso sempre que posso:

SOU COMO SOU
Sou como sou, e não me importo nada
Que este ou aquele não goste do que eu sou.
Sei o que quero, e aonde quero vou,
A passo firme e fronte levantada!


Amo essa mão estranha, ignorada,
Que do destino as linhas me traçou,
E dos outros diverso me tornou,
Dando-me esta alma inquieta de nortada!

Louco! Poeta! E que me importa a mim?
Tantos falando porque eu sou assim,
Tantos dizendo o que eu devia ser…


Sou como sou! E sinto até vaidade,
Quando posso gritar esta verdade:
Sou como sou, e assim hei-de morrer!

            Muitos outros aspectos ficaram ainda por iluminar a respeito de Cid Teles e, naturalmente, o estudo mais aprofundado da sua vida ajudará a encontrar as inevitáveis falhas de que enfermam os vários artigos que partilhei com o leitor ao longo das últimas semanas. Por isso, resta-me apenas pedir desculpa por essas falhas, agradecer a todas as pessoas que me facultaram informações e renovar os votos para que todos os leitores utilizem as incríveis potencialidades das Novas Tecnologias e partilhem também as suas memórias a respeito de Manuel Cid Teles. Afinal, todos os dados, depois de devidamente cruzados, poderão revelar-se importantes para figurar nesse roteiro histórico-literário concelhio que tanta falta nos faz e que talvez um dia possa ainda ser publicado. Manuel Cid Teles terá, por mérito próprio, de constar dele.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)