quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Como que... em dominó?

A tese do dominó (expressão mediaticamente virtuosa) foi um dos argumentos utilizados pelos voluntaristas neocons para justificar a intervenção americana de 2003 no Iraque. Alegava-se, na altura, que a substituição de Saddam significaria, qual estrada de Damasco, uma conversão do país ao modelo das democracias liberais e, por efeito de arrastamento, de todo o Médio Oriente. Não é preciso ser particularmente arguto para perceber que a previsão, além de teoricamente bacoca e desonesta, revelou-se um tremendo fracasso.

Quase oito anos volvidos, uma súbita quão inesperada vaga agita, agora sim, por contágio, todo o Magrebe e o Médio Oriente. Se as revoluções em marcha parecem espontâneas, os seus resultados estão em aberto, sendo possíveis vários desfechos consoante a sociologia política de cada país (não, os árabes não são todos iguais) : teocratização; democracias islâmicas conservadoras (porventura à imagem da Turquia); regimes musculados de juntas militares; novas lideranças carismáticas; processos de transição longos e de objectivos indefinidos.

Nada do que lá se passa terá a ver com Iraques e Afeganistões, antes nascendo de uma população predominatemente jovem e com relativo grau de formação mas sem expectativas e sem paciência para tiranos e conveniências geoestratégicas dos mesmos e dos seus aliados de conveniência (Europa, EUA; Rússia, Venezuela...). Deste caldo político mais ou menos caótico, surge a pergunta fatal: como é que se pode considerar as Relções Internacionais e a Ciência Política como fazendo parte dos saberes nerecedores da designação de científico? A pergunta é ainda mais pertinente se tivermos em linha de conta que alguns dos «teóricos» são, afinal, gente com grandes ligações ou interesses à decisão política internacional e que, na área têm sido aduzidos monumentais disparates sob a forma de wishful thinkings ou self fulfilled prophecies como o Choque de Civilizações. Ironicamente, Samuel Huntington que profetizou o choque de civilizações. não se lembrou, no seu Third Wave Democratization in Late Twentieth, que o mesmo poderia, hipoteticamente, suceder nos contextos muçulmanos.
Interessante é que a noção de terceira vaga aplicava-se à democratização da Europa do Sul e, depois, do Leste, países que muitos «cientistas políticos» consideravam à margem das possibilidades de democratização.
Manda a prudência que se se espere para ver o que vai acontecer.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011



Apesar de as estrelas da bandeira da UE não representarem os Estados membros (ao contrário do que acontece nos EUA, por exemplo), a imagem está bem conseguida.


P.S. Não deixará de ser significativo que o Tratado de Lisboa proclame que pos símbolos não são obrigatórios nas cerimónias oficiais...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

What's in a name?

Às 18h00 de hoje vou ter uma sessão de formação sobre Escola Virtual. TIC, pois está claro! Abreviando agora a questão de saber se os problemas da educação serão solucionados com a panaceia destes neo-alquimistas do teclado, há algo de saborosamente irónico na designação desta formação....

O Regresso do Cinismo

Os dias que correm sabem a fel. Ele é o FMI, ele é austeridade/austeritarismo, ele é o País do faz-de-conta, ele é os 30.000 que vão para a rua, ele é a finança que proclama em Davos, sem pudor e sem que lhe quebrem os dentes, que o «excesso de regulação» (não, não é peta) prejudica a banca e, por arrastamento, a economia, ele é uma (des)União Europeia que quer impor um dumping social evidente como forma de «resolver» a crise em vez de aproveitar os ventos favoráveis do outro lado do Atlântico para reconstituir algo vagamente aparentado com um sistema de controlo dos mecanismos financeiros, no fundo, domesticar a globalização... Não, nada disso, o que importa é que a Alemanha imponha o modelo do seu Banco Central ao resto da Europa ao jeito do directório em que tudo se decide nos corredores das chancelarias. Regressou o Cinismo como forma de fazer política na Europa... E, pior, Merkel não viveu o nazismo...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Portugal na Balança da Europa

A sugestão de leitura do Sérgio incitou-me à pesquisa. O título pareceu-me logo à partida sugestivo havendo uma alusão clara da subserviência de Portugal perante a Europa. Ainda na altura não se falava do FMI, nem de União Europeia A Conquista da liberdade em Portugal não foi uma tarefa fácil, pois ela depende do povo, da sua vontade de mudar as mentalidades e lutar pela sua liberdade. Em Portugal isso só aconteceu verdadeiramente a partir 25 de Abril de 1974.

Fiz uma breve busca na Internet sobre a obra "Portugal na Balança da Europa" de  Almeida Garret , onde encontrei uma breve síntese do livro no Instituto Camões, e um link onde está o livro em formato pdf . Li apenas umas linhas onde constatei imediatamente a ideologia de Almeida Garret  sobre o Portugal do século XIX.
Transcrevendo-se um breve excerto do livro percebem-se as semelhanças com o Portugal de Hoje: "D'essa fatal corrupção das sociedades nasce o maior inimigo da liberdade o indifferentismo. Quando uma nação pervertida e podre chega a cahir n'este estado paralytico, nem há que esperar para a liberdade nem que recear para o despotismo"

Entretanto...

A União Europeia vai exibindo a sua triste irrelevância internacional perante a actual redefinição política em curso do Magrebe ao Médio Oriente. A Turquia e o Irão agradecem.

Sugestão

Uma sugestão de leitura para estes dias (perdoem-me a estultícia) seria Portugal na Balança da Europa, um tratado político sobre as grandes opções de Portugal na Europa, seu espaço natural (?) de inserção. A prosa referia-se a um Portugal, Ibéria e Europa nas encruzilhadas das lutas ente liberais e absolutistas. Mas no essencial a coisa permanece interessante para os dias que temos. Ah, é do Almeida Garrett.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Actualidades

Não percebo como se dá crédito a um discurso como o de Passos Coelho que refere que a saída da crise seria privatizar todas as empresas públicas que dão prejuízos avultados. Deu o exemplo salvo erro das transportadoras como as principais despesistas.
Concordo que deve haver um maior rigor na gestão, no entanto há uma coisa que deve ser tida em conta,não há nenhuma entidade privada que pegue na CP ou REFER, e se isso acontecer vão fechar muitas linhas mantendo só aquelas que dão lucro. Isto terá como consequências o abandono do interior e a sobrecarga do transporte rodoviário. Que eu saiba não temos poços de petróleo. Não queremos amenizar a dívida?!?!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Dados Curiosos

Preocupantemente interessante é a tendência de certos políticos em lugares destacados no mando usarem de um tom populista e demagógico contra a política. São características mais ou menos constantes deste rasteirismo, a diabolização da política, do pensamento político, da troca de ideias em nome de um pretensa superioridade da técnica e da acção univocamente conduzida por, claro está, sábios idolatrados como novos milagreiros. E o pior é que as cortinas de fumo resultam muito bem...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Salazar e o Estado Novo: algumas considerações

Quando nos debruçamos sobre a já extensa bibliografia nacional, directa ou indirectamente relacionada com o Estado Novo, poderemos constatar que continua a persistir uma certa tendência para discorrer sobre este período com base na imagem que o regime português procurou, ao longo dos anos, ir transmitindo de si próprio ou com base nas representações, hoje em dia quase transformadas em dogmas, que historiadores como, por exemplo, António Costa Pinto e Manuel Braga da Cruz edificaram, muito particularmente no que se refere ao autoritarismo conservador, não fascista, do Estado Novo.
            O contacto com as fontes – talvez pela extrema dificuldade, em todos os sentidos, que isso implica… – raramente é estimulado e, por vezes, mesmo quando ocorre, o próprio historiador vê-se de tal modo sufocado em tanta informação que, quase automaticamente, incorre na necessidade de limitar-se a imprimir uma sequência cronológica e narrativa/explicativa aos factos isolados, que vai encontrando, sem que, no entanto, amadureça suficientemente as ideias para que possa integrá-las na complexidade da realidade, afinal, o objectivo último de qualquer trabalho historiográfico. É neste sentido que, em nosso entender, por exemplo, ainda se encontra verdadeiramente por fazer a “História da PIDE”, pese embora o estudo que a investigadora Irene Flunser Pimentel deu à estampa, precisamente com aquele (ambicioso) título.
            A própria descida aos arquivos tem de merecer cuidados redobrados dos investigadores, pois não sabemos até que ponto, por exemplo, o Arquivo de Salazar, na realidade um autêntico labirinto, foi ou não, de algum modo, filtrado pelo regime. É no entanto através da sua consulta, bem como das provas da censura, dos ficheiros da polícia política, da Legião Portuguesa, entre muitos outros possíveis exemplos, que poderemos surpreender o Estado Novo, já sem alguns dos seus mecanismos de cosmética, daí a importância que o estudo sistemático daquelas fontes poderá assumir.
            A elasticidade do Estado Novo resultou, em grande parte, do modo como Salazar soube, habilmente, dotá-lo de uma grande dose de subjectividade, onde tudo era possível, frequentemente nunca chegando a sê-lo, fórmula sintetizada pelo filósofo José Gil na célebre “retórica da invisibilidade”. De facto, lendo a Constituição de 1933 e explorando, por exemplo, o decreto-lei n.º 22.469, publicado em 11 de Abril de 1933, em que se refere que continuam sujeitas a censura prévia “as publicações definidas na lei de imprensa, e bem assim as folhas volantes, folhetos, cartazes e outras publicações, sempre que em qualquer delas se versem assuntos de carácter político ou social” teremos rapidamente uma imagem dessa subjectividade, propositadamente procurada por Salazar. Bastará para o efeito perguntar, ainda a propósito do referido decreto-lei: o que é que o regime entendia (ou podia entender) por “assuntos de carácter político ou social”? O que é que o regime entendia (ou podia entender) por “outras publicações”? Em sentido lato, tudo, mas mesmo tudo, lá podia caber, assim fosse considerado conveniente.
            Estado Novo: por detrás desta aparente singularidade, esconde-se um regime que foi sabendo readaptar-se aos novos tempos, travestindo-se em múltiplas operações de cosmética e escondendo-se debaixo da capa do não comprometimento. E tudo isso, até 1968, sob a égide de um líder que, curiosamente, talvez por considerar-se investido de uma missão “providencial” (expressão utilizada pelo historiador Filipe Ribeiro de Meneses, radicado na Irlanda, Dublin e que publicou recentemente uma biografia de Salazar), pouco mudou ao longo dos anos, parecendo aguardar que o futuro previsto ainda viesse a demonstrar que a sua cristalização tinha sido a melhor forma de proteger-
-se (e salvaguardar o país) dos nefastos ares trazidos pelos novos tempos, depois de 1945.
            A “ambiguidade” (Filipe Ribeiro de Meneses) bem como a inexistência de uma linha conceptual rigidamente definida imprimiram ao regime essa elasticidade que, afinal, virá a revelar-se fundamental para a sua perpetuação, institucionalmente durante 41 anos (1933 a 1974).
            Apresentado mais em função do que não era, do que em relação ao que objectivamente pretendia ser (recorde-se antiparlamentar, antidemocrático, antiliberal ou ainda a repetida fórmula “Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a Pátria e a sua História. Não discutimos a Autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a Família e a sua moral, não discutimos a glória do trabalho e o seu dever”.), o Estado Novo propunha-se, desde logo, acabar com a “balbúrdia sanguinolenta” da I República, implantar a ordem alicerçada num ideal de uma certa razão, em detrimento da emoção, facto bem visível, por exemplo, na insistência de Salazar em preparar e ler sempre os seus discursos, em clara oposição às intervenções inflamadas e mais ou menos espontâneas dos deputados durante a I República.
            A “ambiguidade” – retomemos a nossa linha de raciocínio – permitiu a Salazar não fechar as portas nas mais variadas (e por vezes antagónicas) frentes, pelo menos enquanto tal comprometimento lhe parecesse perigoso. É assim que poderemos explicar os seguintes aspectos, entre muitos outros: pelo menos numa fase inicial, muitos monárquicos continuaram a acalentar a esperança da restauração da Monarquia; o dia que marcou a implantação da República (5 de Outubro) continuou a ser um feriado histórico, durante o Estado Novo, ao contrário, por exemplo, do 28 de Maio; os nacionais-sindicalistas de Rolão Preto, amplamente identificados por muitos como membros do único movimento fascista português, foram rapidamente perseguidos e ilegalizados, sem que, no entanto, muitos dos seus filiados deixassem de ser habilmente integrados/anulados na Acção Escolar Vanguarda, propositadamente engendrada para o efeito…
            Curiosamente, Filipe Ribeiro de Meneses, o mais recente biógrafo de Salazar, que como já referimos publicou recentemente o livro "Salazar – A Political Biography", um volume com mais de 600 páginas sob a chancela da editora nova-iorquina Enigma Books, quando foi interrogado por uma jornalista do jornal Público sobre o aspecto que mais o surpreendeu na investigação que, ao longo de aproximadamente 7 anos levou a cabo, destacou a “necessidade de separar Salazar, enquanto homem de Estado e pensador, do Estado Novo. Muitas vezes falamos de salazarismo (um termo que ele abominava) e Estado Novo como sendo a mesma coisa: mas o Estado Novo nunca cessou de evoluir, enquanto as ideias de Salazar foram sempre mais ou menos as mesmas”. (Cf. http://forumpatria.com/desporto-musica-livros-e-lazer/'salazar-a-political-biography'-de-filipe-ribeiro-de-meneses/).
            A necessidade de sobreviver permanecia, assim, acima de qualquer ideologia que pudesse estar subjacente ou moldar o regime português. Bastará pensar, por exemplo, no caso italiano para compreender que, na realidade, a questão do regime político em que o fascismo podia desenvolver-se não era assim tão importante como à partida se poderia supor. Sob a égide de uma Monarquia ou de uma República, seria possível, afinal, perseguir a tendência totalitária e, em nosso entender, não é por acaso, a esse respeito, que o que aconteceu em Itália ao rei Victor Manuel III, após a subida de Mussolini ao poder, é em tudo idêntico ao apagamento a que foi votada a figura do Presidente da República em Portugal, durante o Estado Novo, pese embora o facto de, formalmente, até ao “terramoto delgadista” de 1958, aquele continuar a ser “eleito” e possuir sempre, nominalmente, maiores poderes que o próprio Presidente do Conselho, ao ponto de poder demiti-lo.
            Além da polícia política, da censura e do inequívoco apoio, a nível institucional, de estruturas como a Igreja e as Forças Armadas, entre outras, foi também esta elasticidade, construída pelo próprio Salazar, que possibilitou a sobrevivência do regime, muito especialmente depois da II Guerra Mundial e da decorrente vitória das democracias.
            Como facilmente se compreenderá, o historiador tem uma tarefa particularmente difícil quando procura vislumbrar, naquele constante jogo de sombras e de luzes, as “máscaras de Salazar”, para recuperar a bem conseguida expressão de Fernando Dacosta, num livro em que o autor, ironicamente, se deixou também ele encandear pelas próprias máscaras criadas pela propaganda do ditador… Para conseguir ver para além da fachada, digamos assim, é necessário um aturado e nem sempre frutífero esforço, que é como quem diz, uma demorada reflexão, acto que nem sempre se pode coadunar com as exigências da sociedade de consumo em que vivemos e onde, numa espécie de lógica neo-positivista, se exigem evidências a uma velocidade estonteante, o que, naturalmente, acaba por incluir todos aqueles que estão dependentes de uma bolsa para conseguirem investigar…
            Quase mensalmente, continuam a vir à luz do dia inúmeras publicações que têm como pano de fundo o Estado Novo e, mais especificamente, Salazar, que se tornou há muito uma marca de garantia de sucesso nas vendas. Ainda recentemente, o antigo Presidente do Conselho foi eleito num mediático concurso televisivo o maior português de todos os tempos, facto que não pode deixar de evidenciar, em nosso entender, pelo menos uma certa curiosidade, se não mesmo um certo fascínio. No entanto, filtradas essas publicações que facilmente encontramos em posições de destaque nas mais variadas montras editorais, poderemos rapidamente constatar que a grande maioria das páginas vindas a lume limitam-se a abordar a “petite histoire” do ditador, seja no que se refere aos seus romances (reais ou imaginários), seja no que se refere às suas anotações, agora transformadas, muitas vezes, nesse ímpeto editorial de atingir rapidamente o lucro, numa espécie de diário com contornos intimistas.
            Em nosso entender, pese embora o inestimável esforço desenvolvido por alguns historiadores, como sejam António Costa Pinto, Fernando Rosas, Manuel Braga da Cruz e, só a título de exemplo, Luís Reis Torgal, continuam ainda a escassear obras de reflexão sobre este período recente da História de Portugal, que almejem ultrapassar o exíguo círculo dos académicos e nos transmitam uma visão amadurecida e global sobre as múltiplas dimensões do regime português, ao longo dos 41 anos em que, institucionalmente, vigorou. Falta ainda fomentar e divulgar um verdadeiro debate nacional sobre o Estado Novo, cruzando os vários ângulos desta complexa realidade e promovendo, por exemplo, encontros frequentes entre os investigadores e o público em geral, no intuito de potencializar as memórias de quem viveu este período.
            A construção do Centro de Estudos António de Oliveira Salazar em Santa Comba Dão poderia representar um importante passo para que se reunisse no mesmo local um conjunto de investigadores, fontes/estudos que, na actualidade, se encontram dispersos, facto que, desde logo, dificulta sobremaneira a vida daqueles que, muito especialmente neste país, ainda ousam consagrar a vida ao estudo e ensino da História, quiçá na ilusória esperança de que assim ela não desapareça ou não se reconverta naquilo que alguns magnatas sempre desejaram. Talvez ainda seja possível acreditar que um dia, como referiu o historiador Luís Reis Torgal numa entrevista a Daniel Serapiglia, “o Homem — e não o sistema capitalista — [volte] a tomar conta da história”.
Renato Nunes
 

sábado, 1 de janeiro de 2011

Saudades de 2010

Saudades de 2010 !! Por vezes não compreendo se é bom se é mau ter saudades de algo. Não é fácil de descrever sentimentos que nos vêem de dentro e dar-lhe o valor necessário para que possamos sentir sua a falta.
Considero que as saudades de um ano revelam-se quando olhamos para trás e nos começamos a lembrar  de acontecimento  que ocorreram há pouco tempo e nos dá a sensação que foram há uma eternidade. Estas vicissitudes revolvem-nos a lembrança, nos apercebemos do quão é importante saborearmos a vida dia,  nos empenhamos em algo que nos dê gozo e percebermos o entusiasmo de termos conseguido ultrapassar um obstáculo.
Quando olho para trás e calcorreio os caminhos da memória, sobressaem os sorrisos de uma boa conversa, dias e noites de trabalho rentabilizados ou o prazer de uma boa leitura numa das maravilhosas paisagens que subsistem no nosso país.
Parece utopia esta ordem de ideias, no entanto considero que as dificuldades sentidas, devem ser observadas como impulsos, que nos permitirão crescer e perceber os meandros que sobressaem nas nossas vidas. Apenas a consciência das nossas potencialidades nos permitirão crescer de um modo sustentado, saborear cada momento, vividendo-o com intensidade  e sentir o significado da palavra saudade.
Neste ano de 2010 tão aziago no que respeita a acontecimentos, apercebo-me com satisfação a relativa estabilização da minha situação profissional, a que se adiciona a saúde e o suporte familiar.
Desejo a todos os leitores do blogue um 2011 carregado de saúde, trabalho, amizade, boas leituras e conversas enriquecedoras

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Acualização de agendas

Meus caros, ritualizemos a passagem de ano à medida de cada um e porfiemos por tempos melhores. Esperemos que sim.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Homo Faber

O texto postado pelo Renato e as considerações que o Tiago fez sobre o mesmo assunto remetem-nos para a questão do fascínio que as tecnologias de informação exercem. Embora me sinta relutante em escrever sobre este assunto já tão bem abordado nos dois textos, não posso deixar de dizer que também me preocupa um certo monismo/unanimismo em torno das designadas TIC. Entendamo-nos: sou um utilizador banal do pc e da net. Gosto de visitar bolgs e sites que me possam ser úteis ou ter algum efeito hobby. Creio que isto se enquadrará numa utilização esclarecida da internet. Não é isto, porém, que está em causa.

Preocupa-me o lugar cada vez mais omnipresente, quase compulsivo, que o computador e tecnologias derivadas ocupam no imaginário educativo de há uns anos a esta parte. Empiricamente, qualquer um de nós poderá relatar casos de salas mal aquecidas, com mobiliário velho, janelas partidas, portas avariadas mas devidamente munidas de projector multimédia ou, inclusive, dos quadros interactivos. Não é a disponibilidade destes equipamentos, aliás ocasionalmente úteis, que perturba mas sim o encantamento pouco sofisticado em relação aos mesmos. Dito de outro modo, é a quase dependência da informática como panaceia didáctica e pedagógica acompanhada de um discurso pseudo-científico bebido no eduquês e no pedagogismo das mudanças de «paradigma» da relação professor-aluno e de ambiente de sala de aula. Do meu ponto de vista, a única mudança de paradigma tem sido a redução permanente do perfil funcional dos professores a burocratas com um palavreado jurídico infantil e a executores curriculares sem autonomia nem esqueleto científico. Creio que a profusão de acções de formação nas áreas das TIC e respectivas aplicações em detrimento de boas sessões de formação em áreas científicas (ou mesmo o desincentivo semi-oculto à continuação de estudos pós-graduados ou outros) são demonstrativas da importância desmedida e deproporcionada atribuída áquilo que é instrumental e não essencial. Do mesmo modo, estou persuadido que a crescente infantilização da escola, onde se sacrifica o conteúdo à forma, o permanente ao breve, caminha de mãos dadas com uma obtusa tendência de se acreditar que informação é conhecimento e que o acesso àquela é condição suficiente deste. Com efeito, a procura de informação, seja em que suporte for, só poderá ser séria e relevante se for orientada por algo que está para além das TIC e que só se adquire com o tempo que a maturidade cultural traz. E esse tempo não é o dos downloads nem dos trabalhos decalcados de um qualquer site da net à boleia do discurso já pitoresco do savoir-faire (mas fazer o quê e como?) e de uma autonomia sem conteúdo.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Aos meus caríssimos co-bloggers e família, votos de uma belíssima quadra festiva com a paz e harmonia que merecem.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal recuperado

“– Junto ao Penedo do Algar, à última badalada da meia-noite, as bruxas saem dos seus covis, agarram nas vassouras e esvoaçam pelas matas. Então, passando por cima de todas as árvores, chegam, num instante, à aldeia. O luar ilumina a penumbra da noite quando, subitamente, as vassouras estancam sobre o telhado da casa. Depois, quando regressam ao Penedo, já levam companhia… nessa noite, meu netinho, foi escolhida a tua mãe. Era quase véspera de Natal e o primeiro tronco de oliveira já ardia na lareira.”
            “– Conta-me. Conta-me, avó! Contas?!”
            “– Claro que conto… ouve o vento, pois ele ainda guarda as memórias desse dia. Levaram-me a tua mãe, por cima de todas as árvores, colocaram-na junto a uma grande fogueira e todas as bruxas começaram a pular e a saltar à sua volta. Saltavam e pulavam tão alto que a minha pequenina, de tão assustada, começou a puxar as brasas mais incandescentes para junto dela e depois passou a atirá-las em direcção a tudo o que bulia, queimando as pernas das mais desprevenidas. Então, quando uma delas se apercebeu agarrou-a por um braço e foi escondê-la na alminha do Outeiro da Boiça. As outras bruxas, que seguiram de perto a viagem, desataram a rir em altas gargalhadas, enquanto diziam: – ah pequenota, nunca serás libertada…”
            “– E a minha mãe, ! Ó , e a minha mãe?!”
            “–  Calma, calma… aqui, comigo, tudo sempre acaba bem. Nessa noite, a tua mãe não voltou a casa, mas, logo que a manhã seguinte começou a romper, eu e o teu avô saímos à procura da nossa menina. Quando, por acaso, passámos ao lado da alminha do Outeiro da Boiça, o teu avô, como era habitual, tirou o chapéu e ajoelhou-
-se para rezar. Eu ainda o tentei convencer a deixar as rezas para mais tarde; até lhe devo ter furado os tímpanos de tanto o azucrinar com a minha mania das pressas! Mas o teu avô ajoelhou-se e rezou por todos os espíritos que já não estavam fisicamente entre nós, pediu a Deus que ajudasse todos os Homens, sobretudo aqueles que mais precisavam. Então, como que por magia, bem do meio da pedra, apareceu a minha menininha, beijando muito o teu avô. Agarrou-se a nós a chorar e, quando conseguiu recompor-se, segredou-nos:
eu ouvi as bruxas dizerem que as alminhas guardam os segredos mais bonitos de cada Homem, mas apenas alguém verdadeiramente puro, tão puro que aqui parasse a rezar, pensando somente nos outros, poderia libertar-
-me
…”
            “– E depois ? E depois?!”
            “– E depois foi o Natal, meu netinho! Era véspera de Natal e a lareira iluminava a noite…”
            Ano após ano, ao longo da meninice, fui ouvindo, cada vez com maior espanto, a fabulosa narração associada ao Penedo do Algar e às gentes da minha aldeia. Agora, que o Natal está aí mesmo à porta, dou por mim mais uma vez sentado, em casa de meus pais, a recordar esta estória, que continua a preencher-me. Sempre que aqui regresso e acendo a lareira, quase consigo jurar que pressinto as bruxas paradas em cima do telhado, como outrora, a aguardarem… E isso ajuda-me a recordar que existem lugares que nunca abandonamos; confundem-se de tal modo com aquilo que somos, que, dificilmente, conseguimos descrever-nos sem reconstruí-los por dentro, nos mais ínfimos pormenores, em imagens, cheiros ou sabores. O Natal faz parte desses lugares; faz parte das pessoas insubstituíveis da nossa vida. E o vazio ocupa-se.
            Nestes dias em que o frio e o nevoeiro se entrelaçam, saio muitas vezes a deambular pela noite dentro. Sempre que reencontro uma alminha, talvez por influência das recordações que trago escondidas no poço mais fundo da minha existência, paro, persigno-me e aproximo-me, quiçá à espera de libertar os segredos mais bonitos que ainda não destruí. E, incrivelmente, sorrio, limito-me a sorrir… Existem sorrisos que condensam milhões de palavras; desnecessárias.
            Depois, já em casa, os candeeiros crivados de teias de aranha conservam ainda as memórias de um tempo, simultaneamente, tão próximo e tão distante. Sabem…, mãe, pai, avó, avô… talvez seja hoje que as bruxas vão, finalmente, ganhar coragem e levar-me, por cima de todas as árvores, até ao Penedo do Algar, onde já todos vocês devem estar a dançar, à volta de uma enorme fogueira. Talvez… Mas enquanto isso não acontece, enquanto a última badalada não ecoa, são as estórias do último Natal que ainda me permitem fazer a consoada, como só ela pode ser feita, com toda, toda a família à mesa… antes e depois da última badalada. E do silêncio que ecoa dentro de nós quando pensamos nessa comunhão.
            Pela noite dentro, embrenhado na mais profunda solidão, eterna exigência da reflexão, reinvento-me a escrever o Natal possível, depois da maior perda; eis aqui, afinal, o meu Natal recuperado…
Renato Nunes      
  

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Importância de saber usar as Novas Tecnologias

”Vivemos na designada sociedade da informação” Parece não existir qualquer dúvida sobre a frase inicialmente citada. A informação circula a um ritmo alucinante, actualmente é possível ter um conhecimento imediato de algo que se passa do outro lado do Mundo. É a magia da informação.
Comentando o post do Renato que aborda a submissão perante as novas tecnologias, o primeiro parágrafo não poderia vir mais a propósito.
Lá está, “post”, sinónimo das novas tecnologias, outrora designava-se texto ou artigos, palavras bem portuguesas, ao contrário de post, um neologismo introduzido pela internet. Apesar da complexidade que a Língua Portuguesa acarreta não consigo deixar de ficar fascinado pela constante descoberta que faço, quando me apercebo de uma palavra nova que conheço e a consigo integrar num texto. Após o estado de saturação resultante do excesso de trabalho pretendo ler o último livro do Eduardo Agualusa, “Milagrário Pessoal” que fala precisamente sobre a questão  da introdução de novas palavras e da extinção de outras.
Com isto acabei por fugir um pouco ao cerne daquilo que queria falar, no entanto considero que me faz bem escrever ao mesmo ritmo que me surgem as ideias, sem reflectir muito sobre elas, ajuda a acalmar e desentorpecer pensamentos que rigidamente se direccionaram numa direcção durante as últimas semanas. Continuando!!!
Actualmente vivemos numa sociedade designada pelo Renato de “Ditadura do Digital”, não vejo as coisas de um modo tão duro e autoritário, no entanto concordo em parte com aquilo que ele escreveu no seu post. O Digital, a internet é algo que tem pouco mais de meio século de existência, no entanto foi algo que veio revolucionar a sociedade actual. A informação hoje está à distância de um clique, há um manancial de recursos enorme que nós professores temos de ter o discernimento de o saber usar convenientemente. A Era digital quando mal usada pode dar origem à preguiça e à falta de eficácia no ensino. Com isto quero dizer que quando pretendemos alguma informação por mais simples que seja vamos à internet. Perdeu-se o hábito do contacto com os livros, e a dificuldade inerente à procura de encontrar alguma informação que pesquisemos.
Cabe-nos a nós professores e transmissores de conhecimento, não usar estar novas tecnologias como promissoras de algo com um intuito essencialmente lúdico, minimizando os conteúdos e as competências.
Digamos em abono da verdade toda esta situação que caminha para uma desmotivação e descrédito da carreira docente não é culpa maioritariamente nossa, pois hoje em dia com a obrigatoriedade do ensino até ao 12º ano há um consequente aumento dos alunos sendo as turmas mais heterogéneas. No meu caso chego a ter que planear 3 aulas para uma turma, pois tenho 2 alunos com necessidades educativas especiais, com ritmos de aprendizagem diferentes.
Actualmente ser professor, é algo cada vez mais exigente, pois envolve a percepção das realidades degradantes que entram cada vez mais no ensino. As estratégias e modelos de aprendizagem têm que se adequar a esse grupo de novos alunos. As novas tecnologias onde eu insiro os manuais em formato digital, permitem amenizar a carga burocrática e laboral a que estamos sujeitos, no entanto temos de saber usa-la conveniente para que o saber palpável e a exigência da avaliação, não se percam e haja um mínimo de dignidade no ensino.

A necessidade de conhecer os nossos direitos

O ano de 2010 que está prestes a terminar foi celebrado pela União Europeia como sendo o Ano Europeu contra a Pobreza e Exclusão Social. É cada vez mais importante percebermos a realidade que nos rodeia, as desigualdades espaciais e económicas, entender as suas razões e consequências.
A disciplina de Geografia tem o papel de aferir as competências, de acordo com o grau de ensino, ajudando os alunos a interpretar melhor o nosso Mundo, pois considero que a sua boa percepção os poderá tornar cidadãos mais conscientes no futuro.
As desigualdades económicas, sociais e demográficas são cada vez mais evidentes. Na nossa sociedade é cada vez mais difícil triunfar e ter êxito, pois valoriza-se cada vez mais a qualificação, assim como a autoconfiança e a capacidade de arriscar.
O conhecimento dos nossos direitos é por isso cada vez algo indispensável. No dia 10 de Dezembro celebra-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos, declaração proferida em 1948 pela ONU. Há várias omissões aos Direitos Humanos em vários países que é necessário alertar, pois todo o ser humano tem os mesmos direitos, devendo por isso ser respeitados em qualquer parte do Mundo.
É um percurso longo, provavelmente não atingível a curto prazo, mas é preciso dar um crescente valor à pessoa humana em detrimento dos interesses económicos, que na maior parte das vezes sobressaem. Em Portugal começam a notar-se cada vez mais casos de pobreza, observam-se que a linha entre a estabilidade e instabilidade é cada vez mais ténue e muito dos direitos fundamentais do Homem são colocados em causa.
A alterações dos valores e princípios é algo cada vez mais urgente, deixar de pensar unicamente em nós e preocuparmo-nos mais com o bem estar dos outros. É importante recuperar um pouco da inter-ajuda que existia num passado próximo. Por isso é com satisfação que devemos assumir a proposta da União Europeia de comemorar o próximo ano de 2011 como sendo o Ano do Voluntariado e da Cidadania Activa. Para que para que a dávida de nós aos outros e a garantia do respeito pelos Direitos Humanos sejam uma realidade.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A ditadura do digital…

            “ – Fará sentido continuar a escrever assim, com a caneta na mão, quando à nossa volta tudo é dominado pelas novas tecnologias, quando vivemos numa sociedade que exige o recurso a computadores para as tarefas banais do dia-a-
-dia?” – eis uma questão, recorrentemente, colocada pelos adolescentes nas Escolas portuguesas.
            De facto, se pensarmos no “choque tecnológico” implementado nos últimos anos, talvez não seja muito difícil imaginar que os velhos cadernos e as canetas que nos habituámos a ver em cima das secretárias acabem por ser substituídos pelas novas tecnologias, que emergem, aos olhos de muitos, como a panaceia para todos os problemas do sistema educativo. Os computadores “Magalhães” aparecem hoje como a imagem de marca do estudante nacional, mas eles são apenas a ponta de icebergue de um movimento mais complexo que passa, por exemplo, pela gradual substituição do quadro-negro e do insosso giz pelos modernaços quadros interactivos, pelos comandos individuais que permitem a cada aluno ensaiar, a partir da sua carteira, alguns célebres jogos já eternizados em formato televisivo ou ainda, apenas a título de exemplo, pelas Acções de Formação que os docentes têm de frequentar na área das novas tecnologias, tendo em vista o famigerado reconhecimento da sua “competência digital”, desiderato final de qualquer docente que se preze…
            Embora reconheça que existe hoje uma tendência muito vincada para todos nos deixarmos levar pela ditadura do teclado e admitindo o contributo válido que as novas tecnologias desempenham nas sociedades actuais, penso que será pertinente reflectir nalguns aspectos que passo a enumerar.
            I – As novas tecnologias não são imprescindíveis para que exista um bom ambiente de trabalho e de aprendizagem dentro da sala de aula. O computador, os quadros interactivos e demais acessórios são, apenas e só, mais um dos recursos que o professor e os alunos têm ao seu dispor. Bem sei que não produz tanto “espectáculo”, mas a simples leitura interpretativa de um texto pode ser tão ou mais válida do que qualquer um dos propalados recursos tecnológicos. Aliás, segundo creio, o professor é e continuará a ser o principal “recurso” dentro da sala de aula, pelo que essa ilusão de querer transformá-lo num simples motivador dos meninos que vão “descobrindo e desenvolvendo as competências”, pura e simplesmente não faz qualquer sentido. As novas tecnologias, é bom que não se esqueça, não devem constituir, dentro da sala de aula, um fim em si mesmo, mas um meio para que os alunos aprendam e se desenvolvam…
            II – Dizia-me recentemente um professor catedrático que “a Escola já não serve, fundamentalmente, para aprender a ler, a escrever e a contar”. Contra-
-argumentei na altura e volto aqui a reafirmá-lo. No meu entender, a Escola deve servir, fundamentalmente, para aprender a ler, a escrever e a contar, sob a orientação e (não receio dizê-lo) a autoridade do professor. O resto, as competências de que tantos pseudo-pedagogos falam, virá sempre por acréscimo, será o resultado natural de uma aprendizagem substantivada em conteúdos. Ninguém reflecte no vazio. É preciso possuir conhecimentos, para depois conseguir mobilizar o que sabemos e aplicá-lo à situação concreta. O conceito de competência, no meu entender, é indissociável de conteúdo. Muitos problemas do actual sistema de ensino entroncam, precisamente, aqui: na substituição dos conteúdos pelas esotéricas competências e na desautorização crescente da figura do docente.
            III – Um bom professor deve, antes de mais, dominar cientificamente os conteúdos da disciplina que lecciona. É urgente intervir a montante e não a jusante, onde já pouco há a fazer. A formação contínua dos professores deverá ser recentrada na sua área de leccionação, pois, na actualidade, parece prevalecer a ideia segundo a qual para ser um bom professor de História é preciso saber de tudo (sobretudo Informática…), menos de História. As teorias pedagógicas, que me perdoem os que não concordarem, afloram naturalmente, quando existe conhecimento, quando existe vocação, quando há vontade de ajudar os outros e o aluno, o professor, demais órgãos educativos e a imprescindível família assumem, verdadeiramente, um papel activo.
            IV – Quando analisamos o longo e complexo processo de evolução física e mental do Homem, podemos constatar que a mão desempenhou um papel fulcral na Hominização, pois o (aparentemente) simples facto de o Homem necessitar de agarrar, suavemente, um objecto exige uma estreita articulação/coordenação com o cérebro, factor que possibilitou o seu desenvolvimento. Na actualidade, existe uma inquestionável tendência para substituir a ideia do lápis e da caneta como prolongamentos da mão, por um novo método, em que nos limitamos a premir um botão (técnica de “picar o teclado”). Antes, quando, ainda crianças, ouvíamos as histórias que os nossos avós tinham para contar-nos desenvolvíamos a imaginação. Agora, tudo é servido, já totalmente mastigado… Implicações, a longo prazo, desta tendência? Não sei. Mas a verdade é que todos os processos que possam implicar um maior comodismo cerebral deveriam, pelo menos, fazer-nos parar para reflectir, ou não fosse a doença de Alzheimer, já neste momento, um inquietante problema…
            V – Talvez a tendência actual saia mesmo vencedora e o velho hábito de escrever à mão, com a folha de papel vazia e a caneta, acabe por ser substituído pelas novas tecnologias. Talvez essa tendência venha mesmo a tornar-se uma marca incontornável dos novos tempos, a par do anunciado fim dos livros em suporte de papel. A verdade é que, a maioria dos poetas que já li confessam não conseguir libertar qualquer poema em frente ao ecrã e os artistas dificilmente poderão prescindir desse contacto mais directo com os materiais. Não sei o que virá a seguir, apenas posso perguntar: será que a “ditadura das máquinas” pode humanizar-nos? A minha consciência leva-me a responder que não. O leitor saberá encontrar a sua resposta.

Renato Nunes

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Desenhar a consciência e salvar-se…

Já perdeste a noção das horas em que procuraste salvar-te enquanto escreves. Os dedos escorrem-te pelo teclado. Lá fora chove desalmadamente; é a forma que a Natureza encontrou para se purificar; quanto a ti, este é o único verbo que aprendeste a conjugar para, ainda, te conseguires lavar.
            O local onde te encontras já serviu de abrigo a outros Homens, que partiram muito antes de chegares. À tua volta, as paredes estão prenhes de pinturas e mesmo em frente ao teu nariz jaz um enorme bisonte, eternizado naquele instante em que a lança o atravessa. Sentado, com o computador nas pernas, ligas a lanterna e vais inspeccionando detalhadamente cada pormenor da gruta, quiçá na esperança de reconstruir os esqueletos que trazes perdidos na memória.
            Quando o discípulo de Hipócrates te disse que apenas te restavam mais alguns meses de vida e ouviste aquela palavra, que ainda agora não consegues sequer pronunciar, fugiste o mais depressa possível. Correste, correste até chegar aqui, a esta húmida caverna.
            Agora, embrenhado na mais profunda solidão, remiras cada uma das pinturas rupestres e vêm-te à memória as centenas de livros que foste devorando sobre a arte da pré-história. Sim, tu sabes que numa gruta esparsamente iluminada seria quase impensável esgrimir uma função meramente estética para estes desenhos. Sim, os compêndios alertam-te para o significado mágico destes traços, factor indissociável da omnipresente luta pela sobrevivência. Mas tu procuras o Homem concreto para além destes magníficos desenhos, queres conhecê-lo de um modo tão intenso que, de tanto imaginá-lo, quase podes jurar pressenti-lo ali mesmo a escassos metros da tua presença.
            Sentes que está frio, está muito frio e este lugar parece ter feito um pacto com a escuridão. Agora mesmo, desejas estender a mão direita e tocar na pele desse antepassado que há vinte mil anos aqui esteve, a colorir com o próprio sangue as pedras que também lhe serviam de abrigo. Tu sabes que chegaste aqui irremediavelmente atrasado, mas as imagens que carregas dentro de ti são de tal modo vivas que, por breves instantes, chegas mesmo a perder-te nesse lapso que medeia o passado e o presente. Entretanto, nesse entretanto que é a vida, talvez tenhas deixado de existir ou talvez possas até ter-te transformado num outro eu – a minha única certeza é que deixaste de estar só.
            Deixei de conseguir reconhecer-te, mas, por entre a penumbra, consigo ver que tens agora a teu lado a rena que demoraste uma semana a caçar. Pareces acenar-me. Sim, estás agora a acenar-me. Queres dizer-me como esta caçada foi dura. Primeiro, ouviste os bramidos da besta ainda à distância de um lançamento com recurso ao magnífico propulsor, depois, construíste uma imagem da sua forma e esculpiste-a a ocre vermelho e com o teu próprio sangue. Apontas a parede mesmo à minha frente e eu sorrio. Continuas, então, a reconstituição, dizendo-me que ludibriaste o vento com a ajuda do deus-sol, atraíste o animal e desferiste-lhe o golpe fatal, no exacto momento em que recomeçou a nevar. Agora, sem que nada o fizesse prever, interrompeste o relato. Apontas desamparadamente para cima, mas o teu olhar parece ultrapassar a última pedra que te impede de tocar o firmamento. A gritar, a gesticular por todos os lados e em direcção a todos os lados, anuncias-me que o deus-sol te exigiu um sacrifício e, por isso, tiveste de regressar sozinho à gruta. Com toda a violência que consegues, atiras uma bolota contra a parede, para logo a seguir murmurares que arrastaste a presa e a depositaste na cavidade onde ainda agora se encontra. Depois, continuas, voltaste a desafiar o gelo exterior. Não sabes ao certo por que o fizeste, mas algo dentro de ti parecia anunciar-te que era assim que deverias actuar. Quando chegaste ao local da caçada, embalaste o cadáver de teu irmão no peito e avançaste até aqui, onde agora permaneces. Ele era o sacrifício que o deus-sol te exigiu.
            Tens as mãos inundadas de sangue. Do alto do meu pedestal, fiquei a observar-te enquanto sustinhas a lança para vasculhar as entranhas da carcaça do animal. Agora mesmo, vejo-te chafurdar a mão direita do teu irmão no interior da rena. O cheiro a sangue fresco inunda toda a lúgubre caverna. Mas tu não pareces incomodado com nada disso. Estás apenas preocupado em gravar lado a lado, na ala nascente do abrigo, as mãos direitas dos únicos irmãos que algum dia ali tinham vivido: tu e ele. Só depois poderás partir.
            Partirás até que exista um depois. Ritualmente, sempre que a lua se enche e os sentidos, já saciados, se apaziguam, regressas àquela gruta parada no tempo. Quando o fazes, sentes a tua existência prolongada naquela imagem; passou a ser a tua porta para as emoções. Diariamente, transporta-la contigo, ajuda-te a acreditar que não estás só, que lá longe a mão do teu único irmão continua presente, sempre pronta a agarrar-te, mesmo que não o tivesses ajudado quando ele mais necessitou. Aquela imagem é estranha: tu deste-lhe vida, mas ao mesmo tempo ela alimenta-te, adquiriu uma vida própria. Com ela, aprendeste lentamente a imaginar o que está para além do que podes apenas tocar e inventaste o futuro.
            Ao longo do tempo (ah! filogenia…) aprendeste a saber que sabes o que sentes, subiste a pulso o poço da existência: desde o proto-eu, passando pelo eu nuclear até ao eu autobiográfico, como muito mais tarde António Damásio haveria de chamar ao patamar mais sublime da consciência humana.
            Aqui, nesta gruta gélida e escura, há milhares de anos atrás, tu eras eu, eras nós… a casa da consciência, como Damásio lhe chama, começou a ser, verdadeiramente, aperfeiçoada naquele dia, naquela hora, por um nosso antepassado que se procurava para além do que tocava e desenhava…
            A arte construiu-nos, salvou-nos e poderá sempre voltar a erguer-nos, sobretudo nos momentos em que mais necessitarmos. Possam estes traços auxiliar-vos, tal como ainda agora me ajudaram, nestes instantes da vida em que andamos perdidos dentro de nós próprios, à procura de um sentido para o que enfrentamos, o que somos ou para onde vamos.
Renato Nunes