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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
A Importância de saber usar as Novas Tecnologias
”Vivemos na designada sociedade da informação” Parece não existir qualquer dúvida sobre a frase inicialmente citada. A informação circula a um ritmo alucinante, actualmente é possível ter um conhecimento imediato de algo que se passa do outro lado do Mundo. É a magia da informação.
Comentando o post do Renato que aborda a submissão perante as novas tecnologias, o primeiro parágrafo não poderia vir mais a propósito.
Lá está, “post”, sinónimo das novas tecnologias, outrora designava-se texto ou artigos, palavras bem portuguesas, ao contrário de post, um neologismo introduzido pela internet. Apesar da complexidade que a Língua Portuguesa acarreta não consigo deixar de ficar fascinado pela constante descoberta que faço, quando me apercebo de uma palavra nova que conheço e a consigo integrar num texto. Após o estado de saturação resultante do excesso de trabalho pretendo ler o último livro do Eduardo Agualusa, “Milagrário Pessoal” que fala precisamente sobre a questão da introdução de novas palavras e da extinção de outras.
Com isto acabei por fugir um pouco ao cerne daquilo que queria falar, no entanto considero que me faz bem escrever ao mesmo ritmo que me surgem as ideias, sem reflectir muito sobre elas, ajuda a acalmar e desentorpecer pensamentos que rigidamente se direccionaram numa direcção durante as últimas semanas. Continuando!!!
Actualmente vivemos numa sociedade designada pelo Renato de “Ditadura do Digital”, não vejo as coisas de um modo tão duro e autoritário, no entanto concordo em parte com aquilo que ele escreveu no seu post. O Digital, a internet é algo que tem pouco mais de meio século de existência, no entanto foi algo que veio revolucionar a sociedade actual. A informação hoje está à distância de um clique, há um manancial de recursos enorme que nós professores temos de ter o discernimento de o saber usar convenientemente. A Era digital quando mal usada pode dar origem à preguiça e à falta de eficácia no ensino. Com isto quero dizer que quando pretendemos alguma informação por mais simples que seja vamos à internet. Perdeu-se o hábito do contacto com os livros, e a dificuldade inerente à procura de encontrar alguma informação que pesquisemos.
Cabe-nos a nós professores e transmissores de conhecimento, não usar estar novas tecnologias como promissoras de algo com um intuito essencialmente lúdico, minimizando os conteúdos e as competências.
Digamos em abono da verdade toda esta situação que caminha para uma desmotivação e descrédito da carreira docente não é culpa maioritariamente nossa, pois hoje em dia com a obrigatoriedade do ensino até ao 12º ano há um consequente aumento dos alunos sendo as turmas mais heterogéneas. No meu caso chego a ter que planear 3 aulas para uma turma, pois tenho 2 alunos com necessidades educativas especiais, com ritmos de aprendizagem diferentes.
Actualmente ser professor, é algo cada vez mais exigente, pois envolve a percepção das realidades degradantes que entram cada vez mais no ensino. As estratégias e modelos de aprendizagem têm que se adequar a esse grupo de novos alunos. As novas tecnologias onde eu insiro os manuais em formato digital, permitem amenizar a carga burocrática e laboral a que estamos sujeitos, no entanto temos de saber usa-la conveniente para que o saber palpável e a exigência da avaliação, não se percam e haja um mínimo de dignidade no ensino.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
A ditadura do digital…
“ – Fará sentido continuar a escrever assim, com a caneta na mão, quando à nossa volta tudo é dominado pelas novas tecnologias, quando vivemos numa sociedade que exige o recurso a computadores para as tarefas banais do dia-a-
-dia?” – eis uma questão, recorrentemente, colocada pelos adolescentes nas Escolas portuguesas.
-dia?” – eis uma questão, recorrentemente, colocada pelos adolescentes nas Escolas portuguesas.
De facto, se pensarmos no “choque tecnológico” implementado nos últimos anos, talvez não seja muito difícil imaginar que os velhos cadernos e as canetas que nos habituámos a ver em cima das secretárias acabem por ser substituídos pelas novas tecnologias, que emergem, aos olhos de muitos, como a panaceia para todos os problemas do sistema educativo. Os computadores “Magalhães” aparecem hoje como a imagem de marca do estudante nacional, mas eles são apenas a ponta de icebergue de um movimento mais complexo que passa, por exemplo, pela gradual substituição do quadro-negro e do insosso giz pelos modernaços quadros interactivos, pelos comandos individuais que permitem a cada aluno ensaiar, a partir da sua carteira, alguns célebres jogos já eternizados em formato televisivo ou ainda, apenas a título de exemplo, pelas Acções de Formação que os docentes têm de frequentar na área das novas tecnologias, tendo em vista o famigerado reconhecimento da sua “competência digital”, desiderato final de qualquer docente que se preze…
Embora reconheça que existe hoje uma tendência muito vincada para todos nos deixarmos levar pela ditadura do teclado e admitindo o contributo válido que as novas tecnologias desempenham nas sociedades actuais, penso que será pertinente reflectir nalguns aspectos que passo a enumerar.
I – As novas tecnologias não são imprescindíveis para que exista um bom ambiente de trabalho e de aprendizagem dentro da sala de aula. O computador, os quadros interactivos e demais acessórios são, apenas e só, mais um dos recursos que o professor e os alunos têm ao seu dispor. Bem sei que não produz tanto “espectáculo”, mas a simples leitura interpretativa de um texto pode ser tão ou mais válida do que qualquer um dos propalados recursos tecnológicos. Aliás, segundo creio, o professor é e continuará a ser o principal “recurso” dentro da sala de aula, pelo que essa ilusão de querer transformá-lo num simples motivador dos meninos que vão “descobrindo e desenvolvendo as competências”, pura e simplesmente não faz qualquer sentido. As novas tecnologias, é bom que não se esqueça, não devem constituir, dentro da sala de aula, um fim em si mesmo, mas um meio para que os alunos aprendam e se desenvolvam…
II – Dizia-me recentemente um professor catedrático que “a Escola já não serve, fundamentalmente, para aprender a ler, a escrever e a contar”. Contra-
-argumentei na altura e volto aqui a reafirmá-lo. No meu entender, a Escola deve servir, fundamentalmente, para aprender a ler, a escrever e a contar, sob a orientação e (não receio dizê-lo) a autoridade do professor. O resto, as competências de que tantos pseudo-pedagogos falam, virá sempre por acréscimo, será o resultado natural de uma aprendizagem substantivada em conteúdos. Ninguém reflecte no vazio. É preciso possuir conhecimentos, para depois conseguir mobilizar o que sabemos e aplicá-lo à situação concreta. O conceito de competência, no meu entender, é indissociável de conteúdo. Muitos problemas do actual sistema de ensino entroncam, precisamente, aqui: na substituição dos conteúdos pelas esotéricas competências e na desautorização crescente da figura do docente.
-argumentei na altura e volto aqui a reafirmá-lo. No meu entender, a Escola deve servir, fundamentalmente, para aprender a ler, a escrever e a contar, sob a orientação e (não receio dizê-lo) a autoridade do professor. O resto, as competências de que tantos pseudo-pedagogos falam, virá sempre por acréscimo, será o resultado natural de uma aprendizagem substantivada em conteúdos. Ninguém reflecte no vazio. É preciso possuir conhecimentos, para depois conseguir mobilizar o que sabemos e aplicá-lo à situação concreta. O conceito de competência, no meu entender, é indissociável de conteúdo. Muitos problemas do actual sistema de ensino entroncam, precisamente, aqui: na substituição dos conteúdos pelas esotéricas competências e na desautorização crescente da figura do docente.
III – Um bom professor deve, antes de mais, dominar cientificamente os conteúdos da disciplina que lecciona. É urgente intervir a montante e não a jusante, onde já pouco há a fazer. A formação contínua dos professores deverá ser recentrada na sua área de leccionação, pois, na actualidade, parece prevalecer a ideia segundo a qual para ser um bom professor de História é preciso saber de tudo (sobretudo Informática…), menos de História. As teorias pedagógicas, que me perdoem os que não concordarem, afloram naturalmente, quando existe conhecimento, quando existe vocação, quando há vontade de ajudar os outros e o aluno, o professor, demais órgãos educativos e a imprescindível família assumem, verdadeiramente, um papel activo.
IV – Quando analisamos o longo e complexo processo de evolução física e mental do Homem, podemos constatar que a mão desempenhou um papel fulcral na Hominização, pois o (aparentemente) simples facto de o Homem necessitar de agarrar, suavemente, um objecto exige uma estreita articulação/coordenação com o cérebro, factor que possibilitou o seu desenvolvimento. Na actualidade, existe uma inquestionável tendência para substituir a ideia do lápis e da caneta como prolongamentos da mão, por um novo método, em que nos limitamos a premir um botão (técnica de “picar o teclado”). Antes, quando, ainda crianças, ouvíamos as histórias que os nossos avós tinham para contar-nos desenvolvíamos a imaginação. Agora, tudo é servido, já totalmente mastigado… Implicações, a longo prazo, desta tendência? Não sei. Mas a verdade é que todos os processos que possam implicar um maior comodismo cerebral deveriam, pelo menos, fazer-nos parar para reflectir, ou não fosse a doença de Alzheimer, já neste momento, um inquietante problema…
V – Talvez a tendência actual saia mesmo vencedora e o velho hábito de escrever à mão, com a folha de papel vazia e a caneta, acabe por ser substituído pelas novas tecnologias. Talvez essa tendência venha mesmo a tornar-se uma marca incontornável dos novos tempos, a par do anunciado fim dos livros em suporte de papel. A verdade é que, a maioria dos poetas que já li confessam não conseguir libertar qualquer poema em frente ao ecrã e os artistas dificilmente poderão prescindir desse contacto mais directo com os materiais. Não sei o que virá a seguir, apenas posso perguntar: será que a “ditadura das máquinas” pode humanizar-nos? A minha consciência leva-me a responder que não. O leitor saberá encontrar a sua resposta.
Renato Nunes
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Desenhar a consciência e salvar-se…
Já perdeste a noção das horas em que procuraste salvar-te enquanto escreves. Os dedos escorrem-te pelo teclado. Lá fora chove desalmadamente; é a forma que a Natureza encontrou para se purificar; quanto a ti, este é o único verbo que aprendeste a conjugar para, ainda, te conseguires lavar.
O local onde te encontras já serviu de abrigo a outros Homens, que partiram muito antes de chegares. À tua volta, as paredes estão prenhes de pinturas e mesmo em frente ao teu nariz jaz um enorme bisonte, eternizado naquele instante em que a lança o atravessa. Sentado, com o computador nas pernas, ligas a lanterna e vais inspeccionando detalhadamente cada pormenor da gruta, quiçá na esperança de reconstruir os esqueletos que trazes perdidos na memória.
Quando o discípulo de Hipócrates te disse que apenas te restavam mais alguns meses de vida e ouviste aquela palavra, que ainda agora não consegues sequer pronunciar, fugiste o mais depressa possível. Correste, correste até chegar aqui, a esta húmida caverna.
Agora, embrenhado na mais profunda solidão, remiras cada uma das pinturas rupestres e vêm-te à memória as centenas de livros que foste devorando sobre a arte da pré-história. Sim, tu sabes que numa gruta esparsamente iluminada seria quase impensável esgrimir uma função meramente estética para estes desenhos. Sim, os compêndios alertam-te para o significado mágico destes traços, factor indissociável da omnipresente luta pela sobrevivência. Mas tu procuras o Homem concreto para além destes magníficos desenhos, queres conhecê-lo de um modo tão intenso que, de tanto imaginá-lo, quase podes jurar pressenti-lo ali mesmo a escassos metros da tua presença.
Sentes que está frio, está muito frio e este lugar parece ter feito um pacto com a escuridão. Agora mesmo, desejas estender a mão direita e tocar na pele desse antepassado que há vinte mil anos aqui esteve, a colorir com o próprio sangue as pedras que também lhe serviam de abrigo. Tu sabes que chegaste aqui irremediavelmente atrasado, mas as imagens que carregas dentro de ti são de tal modo vivas que, por breves instantes, chegas mesmo a perder-te nesse lapso que medeia o passado e o presente. Entretanto, nesse entretanto que é a vida, talvez tenhas deixado de existir ou talvez possas até ter-te transformado num outro eu – a minha única certeza é que deixaste de estar só.
Deixei de conseguir reconhecer-te, mas, por entre a penumbra, consigo ver que tens agora a teu lado a rena que demoraste uma semana a caçar. Pareces acenar-me. Sim, estás agora a acenar-me. Queres dizer-me como esta caçada foi dura. Primeiro, ouviste os bramidos da besta ainda à distância de um lançamento com recurso ao magnífico propulsor, depois, construíste uma imagem da sua forma e esculpiste-a a ocre vermelho e com o teu próprio sangue. Apontas a parede mesmo à minha frente e eu sorrio. Continuas, então, a reconstituição, dizendo-me que ludibriaste o vento com a ajuda do deus-sol, atraíste o animal e desferiste-lhe o golpe fatal, no exacto momento em que recomeçou a nevar. Agora, sem que nada o fizesse prever, interrompeste o relato. Apontas desamparadamente para cima, mas o teu olhar parece ultrapassar a última pedra que te impede de tocar o firmamento. A gritar, a gesticular por todos os lados e em direcção a todos os lados, anuncias-me que o deus-sol te exigiu um sacrifício e, por isso, tiveste de regressar sozinho à gruta. Com toda a violência que consegues, atiras uma bolota contra a parede, para logo a seguir murmurares que arrastaste a presa e a depositaste na cavidade onde ainda agora se encontra. Depois, continuas, voltaste a desafiar o gelo exterior. Não sabes ao certo por que o fizeste, mas algo dentro de ti parecia anunciar-te que era assim que deverias actuar. Quando chegaste ao local da caçada, embalaste o cadáver de teu irmão no peito e avançaste até aqui, onde agora permaneces. Ele era o sacrifício que o deus-sol te exigiu.
Tens as mãos inundadas de sangue. Do alto do meu pedestal, fiquei a observar-te enquanto sustinhas a lança para vasculhar as entranhas da carcaça do animal. Agora mesmo, vejo-te chafurdar a mão direita do teu irmão no interior da rena. O cheiro a sangue fresco inunda toda a lúgubre caverna. Mas tu não pareces incomodado com nada disso. Estás apenas preocupado em gravar lado a lado, na ala nascente do abrigo, as mãos direitas dos únicos irmãos que algum dia ali tinham vivido: tu e ele. Só depois poderás partir.
Partirás até que exista um depois. Ritualmente, sempre que a lua se enche e os sentidos, já saciados, se apaziguam, regressas àquela gruta parada no tempo. Quando o fazes, sentes a tua existência prolongada naquela imagem; passou a ser a tua porta para as emoções. Diariamente, transporta-la contigo, ajuda-te a acreditar que não estás só, que lá longe a mão do teu único irmão continua presente, sempre pronta a agarrar-te, mesmo que não o tivesses ajudado quando ele mais necessitou. Aquela imagem é estranha: tu deste-lhe vida, mas ao mesmo tempo ela alimenta-te, adquiriu uma vida própria. Com ela, aprendeste lentamente a imaginar o que está para além do que podes apenas tocar e inventaste o futuro.
Ao longo do tempo (ah! filogenia…) aprendeste a saber que sabes o que sentes, subiste a pulso o poço da existência: desde o proto-eu, passando pelo eu nuclear até ao eu autobiográfico, como muito mais tarde António Damásio haveria de chamar ao patamar mais sublime da consciência humana.
Aqui, nesta gruta gélida e escura, há milhares de anos atrás, tu eras eu, eras nós… a casa da consciência, como Damásio lhe chama, começou a ser, verdadeiramente, aperfeiçoada naquele dia, naquela hora, por um nosso antepassado que se procurava para além do que tocava e desenhava…
A arte construiu-nos, salvou-nos e poderá sempre voltar a erguer-nos, sobretudo nos momentos em que mais necessitarmos. Possam estes traços auxiliar-vos, tal como ainda agora me ajudaram, nestes instantes da vida em que andamos perdidos dentro de nós próprios, à procura de um sentido para o que enfrentamos, o que somos ou para onde vamos.
Renato Nunes
domingo, 3 de outubro de 2010
De 2010 a 1910, passando por 1810!!!!
Nos dias que correm o centenário da República tem dominado as temáticas desenvolvidas pela imprensa nacional. O 5 de Outubro de 1910 promoveu a transição de regime político da Monarquia para República.
Não me vou imiscuir na passagem, entre este dois Regimes Políticos e as controversas opiniões decorrente do processo de transição, assim como as suas vantagens e desvantagens.
Durante o centenário da República, Portugal viveu períodos conturbados, desde o sem número de governos da fase inicial da sua implementação, até à ditadura vivida entre 1926 e 1974, culminando nas medidas de austeridade descritas recentemente pelo actual governo.
De acordo com a crónica de Octávio dos Santos, numa crónica do jornal Público do dia 27 de Setembro, o Estado Português criou a uma Comissão Nacional para a Comemoração do Centenário da República com um orçamento de 10 milhões de euros.
De algum modo, percebe-se o ênfase dado às comemorações de uma data marcante, suscitando interpretações mais aprofundadas sobre um período para muitos, principalmente os mais jovens , totalmente desconhecido.
No entanto, considero intrigante observar os gastos supérfluos do nosso Estado, que apresenta a mania das grandezas, transparecendo ideologias políticas manipuladoras e demagógicas, preocupando-se excessivamente no ganho de preponderância.
Os jogos do empurra e as constantes ameaças de uma crise política, caso não se aprove o orçamento de Estado, intrigam-me pois estou no início da carreira profissional e não consigo confiar nos nossos governantes que mudam constantemente o seu discurso, de acordo com as conveniências temporais, ou seja as medidas tomadas antes e após o período eleitoral.
Lamento que a imprensa se cinja ao desenvolvimento de temática mediáticas que lhe concedem preponderância no que concerne à audiência, fazendo pouca referência ao bicentenário da batalha do Bussaco que se comemorou no passado dia 27 de Setembro. A Batalha do Bussaco pode-se considerar, uma das mais importantes vitórias das tropas aliadas(portugueses e ingleses), que culminou em 1811 com a retirada dos Franceses do território português.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Coisas dos Tempos que Correm
Após uma inadmissível penumbra na minha participação neste projecto superiormente mantido pelo Tiago, eis que agora regresso à escrita. Com impressões dos dias, da espuma dos dias e das questões que mais nos afectam.
1) A União Europeia é uma sombra da sua retórica. Sarkozy não se deixa ficar atrás de um certo político italiano que o pudor me impede de recordar e, vai daí, expulsa estrangeiros, preferencialmente membros de uma comunidade específica: ciganos, é verdade. Dizendo isto, adianto desde já que não entro numa certa lamechice afectada de defesa intransigente dos ciganos. Como a muita gente, incomodam-me os hábitos marginais voluntários etnicamente «justificados», uma inaceitável violação de direitos dos membros da própria comunidade (casamentos forçados, endogamia imposta, impedimento de se ir à escola, etc.) e presunção de que podem estar algures apenas com as regras que ditam para si (e para os outros, por arrastamento, sempre que há contacto intercultural). Daí que as opções de tipo comunitarista sejam essencialmente erradas e potenciadoras da marginalização das próprias minorias, não fomentando uma efectiva integração multicultural sustentada na ideia imprescindível da universalidade de direitos. O que quer dizer que se um cigano cometer um crime deve ser punido pela lei geral e não por uma lei particular, o mesmo sucedendo a um não-cigano.
Dito isto, importa agora perceber que apesar de a Roménia ainda não estar plenamente integrada no espaço Schengen, esta expulsão selectiva colide com os princípios do projecto europeu e agride a memória colectiva, num continente que também foi de totalitarismos, de pogrons e do racismo como política de Estado. De genocídios e de fanatismos vários. Não são estes os valores que animaram os propósitos europeístas.
Quer o exposto dizer que os problemas reconhecidos às comunidades ciganas têm de ser solucionados sem estes impulsos populistas em que Sarkozy se notabilizou. Como? Sinceramente, não sei, mas não me agrada esta abordagem evocativa de práticas passadas. Até porque uma vez aberta a Caixa de Pandora...
2) O Requiem pelo neoliberalismo foi manifestamente precipitado. No início da crise financeira-económica-social os intelectuais, políticos e cidadãos de esquerda julgaram estar a reviver o início de uma nova fase (tal como após 1929) pautada por mais apertadas regulações económicas e financeiras, por um regresso necessário do social e do Estado, enfim, por uma ordem internacional economicamente domesticada. Dito de outra forma, pela domação da globalização e pelo ocaso do neoliberalismo. A esperança era, como é, justificada, nomeadamente pelos efeitos devastadores da crise, pelas fraudes imensas a coberto da mão-(in)visível e do mito da auto-regulação. Sobretudo, porque chegara Obama à presidência, bem mais keynesiano do que muitos sociais-democratas europeus e do que a monetarista União Europeia.
Quem duvida, hoje, que os tempos que vivemos mais do que um regresso ao paradigma social, reforçaram os mecanismos socialmente regressivos do neoliberalismo: controlo orçamental obsessivo; redução das prestações sociais quando elas são mais necssárias, multiplicação de fora de economistas neoclássicos nos medias para preparar as mentes no elogio da austeridade (assimétrica).
3) Uma avaliação dos ODM. Os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio pretendiam reduzir substancialmente a pobreza e melhorar os indicadores de saúde e educação das regiões mais pobres. Segundo as Nações Unidas, as acções no âmbito dos ODM evitaram a morte a várias centenas de milhões de pessoas. O esforço é de louvar, mas não será angustiante festejar? Os problemas do subdesenvolvimento aí estão para durar, zombando das metas dos ODM (o programa apontava para o ano de 2015). Já repararam como uma catástrofo natural mostra a fragilidade destas conquistas: as monções do Paquistão, as secas no Corno de África, o banditismo de Estados falhados (Somália), a ignorância/fanatismo religiosos no Darfur mostram-nos que a condição humana é coisa pouco apreciada em muitos lados...
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