segunda-feira, 15 de julho de 2019

Livro de Poesia "Pedra após pedra"- Fernando Alva



Livro escrito por Renato Nunes que adquiriu como heterónimo Fernando Alva.
Comprem o livro e se puderem vão à sua apresentação no próximo dia 20 de Julho em Santa Iria da Azoia.
Fica o convite!!!

domingo, 23 de junho de 2019

Lítio, a perigosa promessa do “ouro branco”


O escritor beirão Aquilino Ribeiro (1885-1963) publicou, durante a II Guerra Mundial, um notável romance intitulado Volfrâmio, inspirado na exploração do subsolo português pela Alemanha e pelos Ingleses, em busca do volfrâmio, importante matéria-
-prima utilizada, por exemplo, para fortalecer as cápsulas das granadas e para conferir ao “aço uma maior resistência ao calor”: indispensável, portanto, “em máquinas como em armas” (António Louçã – Hitler e Salazar. Comércio em tempos de guerra, 1940-
-1944
, ps. 8 e 43).  
No livro em causa ficam bem evidentes as consequências dramáticas da ávida busca pelo “ouro negro”: abandono e destruição dos campos agrícolas; desenvolvimento do contrabando e da especulação; perseguição do lucro (pequenas “fortunas”), sem olhar a meios, que logo depois se dissipava para dar a aparência de novo-rico. Cobiça a sobrepor-se a todos os valores humanistas. Numa palavra: morte. Consequências que, de resto, se estendem até aos dias de hoje, como bem sabem os habitantes das zonas circundantes das minas, agora tantas vezes confiadas ao abandono ou até mesmo convertidas em espaços museológicos. Isto para já não falar, por exemplo, na proveniência do ouro utilizado pelos alemães para pagar o volfrâmio português. Ouro esse tantas vezes espoliado aos judeus que acabariam por ser mortos nos campos de concentração nazis…   
Em 1958, o aludido romancista beirão editou outro notável romance intitulado Quando os lobos uivam, a respeito da apropriação dos baldios pelo Estado Novo, tendo em vista a sua florestação coerciva. Esta questão gerou vários confrontos entre as populações locais e os Serviços Florestais, incumbidos de aplicar as medidas previstas pelo governo.
Ora, os dois livros anteriormente referidos têm uma actualidade surpreendente, na medida em que o Governo português tem vindo a permitir que diversas multinacionais iniciem um conjunto de prospecções em território nacional, tendo em vista a possível exploração do lítio (v.g. Aviso n.º 6518/2019, publicado em Diário da República, datado de 9/4). A área abrangida pelas prospecções – ainda que neste momento mal conhecida – é extremamente significativa, integrando, por exemplo, as Terras do Barroso (a norte), mas também uma vasta região do centro do país.
Entre outros aspectos, parece evidente que o recente desenvolvimento dos carros eléctricos tem vindo a gerar uma maior necessidade de matéria-prima para a produção de baterias. Daí esta desenfreada corrida ao lítio, apresentada por alguns magnatas como uma oportunidade para o interior profundo de Portugal se desenvolver e enriquecer.
Não é esta, porém, a minha opinião e digo isto com toda a carga ideológica que implica este género de tomada de posições. Os potenciais riscos associados à exploração do subsolo em busca do lítio são demasiado elevados para justificar alguns dividendos que meia dúzia de poderosos e outros tantos mangas-de-alpaca poderão obter. A extracção de rochas provocará irreversíveis impactos paisagísticos: crateras enormes, contaminação dos recursos hídricos, ruído, poluição do ar (partículas em suspensão) e, consequentemente, doenças graves, desde logo, do foro respiratório. Isto significará comprometer o futuro das novas gerações e o desenvolvimento sustentável de áreas significativas do país.
É, por conseguinte, fundamental quebrar este silêncio político que estrategicamente tem vindo a enredar esta matéria. É fundamental perguntar onde estão os estudos de impacto ambiental que deveriam ter, obrigatoriamente, antecedido estas prospecções. É fundamental perguntar se as populações locais estão a ser ouvidas e, em caso afirmativo, se foram (e são) devidamente informadas a respeito do que verdadeiramente está em causa.
Os dramáticos incêndios que afectaram o país, em 2017, trouxeram um conjunto de novas promessas políticas, vindas dos mais diferentes quadrantes. A verdade dos factos, porém, é que, apesar da demagogia reinante, as populações do interior foram e continuam a ser votadas a um tremendo abandono por parte do poder central. O silêncio que envolve esta negociata (é isto que realmente está em causa) demonstra-o com todas as letras.
Escreveu Miguel Torga, em 1942, no volume II do seu Diário: “Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo” (1943, p. 140). A avidez das multinacionais em busca do novo “ouro branco” pode transformar o que ainda sobra do santuário em que vivemos num autêntico inferno. A apropriação dos baldios e a expropriação de territórios, em nome do suposto interesse nacional, será apenas o início desse dramático processo silenciosamente consumado.
É escusado, pouco ou nada aprendemos com a História. Ou os cidadãos se mobilizam ou estaremos condenados a destruir e deixar destruir quase tudo o que temos de melhor. Aos nossos filhos e netos deixaremos as cinzas de tudo o que permitimos destruir, que mais não seja com a cobardia do nosso silêncio.     
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

domingo, 9 de junho de 2019

O sofrimento nos olhos deles (Reportagem Jornal Expresso)




Este fim de semana li no expresso uma reportagem que retrata a triste realidade do maior campo de refugiados do Mundo, no Bangladesh. Optei apesar da sua extensão por expor a reportagem na integra.

"A fuga de mais de 740 mil pessoas da minoria étnica muçulmana rohingya, de Myanmar, fez com que nascesse no sul do Bangladesh o maior campo de refugiados do mundo. Em apenas três meses. São hoje 1,2 milhões de pessoas dependentes de assistência humanitária

Há nos olhos raiados de Jamila uma tristeza profunda. “Quando me lembro da situação em Myanmar quase choro.” Pausa.
As frases chegam devagar e sem força. Saem dos seus olhos mais palavras do que as que a boca carrega. Não precisaria de falar para que se entendesse a dureza impregnada nos seus 50 anos. “Incêndios, pessoas chacinadas, casas queimadas, pessoas violadas.” Perdeu o marido. O irmão. A irmã. “Foram mortos pelos rakhines.”
Ela, as quatro filhas, os dois filhos e o neto conseguiram fugir. Embrenharam-se floresta dentro durante quatro dias até alcançarem a margem do rio Naf. “Sem comida. Sem água”, lembra sentada numa cadeira de plástico à entrada da casa de bambu que lhe serviu de teto no último ano e meio de vida. Para aqui chegar, ao Bangladesh, faltava-lhe ainda esperar cinco dias na margem do rio até que lhes fosse possível fazer a travessia de barco. Foram necessárias 12 horas para chegar, por fim, ao país. “Sofremos muito. Tínhamos fome. Tivemos de beber água salgada.”
Regressamos a agosto de 2017, quando uma vaga de violência explodiu no Estado de Rakhine, em Myanmar, entre militares birmaneses e a minoria muçulmana rohingya. Foi este conflito que fez com que nascesse na divisão de Chittagong, Bangladesh, o maior campo de refugiados do mundo. “Eram ondas e ondas de pessoas a chegar sem parar.” Um anos depois a memória de Sunee Singh, responsável pelo departamento político do Programa Alimentar Mundial (PAM), continua bem fresca. “Chovia e eles estavam completamente molhados. Todos choravam. Fiquei chocada e pensei que aquele era um momento que só vemos nos filmes. Não tínhamos comida para todos. Em 2016 tivemos um pequeno influxo de cerca de 75 mil pessoas. Estávamos à espera de algo semelhante ou um pouco mais.” Chegaram mais de 745 mil pessoas em três meses.
Terrível poderá não ser palavra suficiente para descrever as histórias vividas pelos rohingya. Fatama Begum, 33 anos, foi violada por cinco homens. “Primeiro mataram o meu irmão. Depois atiraram-me para o lado e um rasgou-me as vestes, agarrou-me pela boca e manteve-me quieta. Espetou-me uma faca e manteve-a ali enquanto os homens me violaram.” Sobreviveu. A filha de Hassina, com um ano, não. Foi retirada dos braços da mãe e atirada viva para uma fogueira onde os corpos dos homens que haviam sido mortos eram queimados. Hassina, de 20 anos, e outras mulheres foram levadas depois até uma casa onde foram violadas, esfaqueadas e pontapeadas. A casa foi depois incendiada, mas ela acordou a tempo de fugir. As outras não.
De acordo com os Médicos sem Fronteiras e a Human Rights Watch (HRW ) mais de metade das vítimas de violação em tratamento nos campos têm menos de 18 anos, algumas menos de 10 anos. Não se sabe o número total de vítimas. Referem-se milhares. Só ao Fundo de População das Nações Unidas, UNFPA, foram reportados mais de 10 mil casos. O acesso a elas está vedado aos jornalistas, seguindo o protocolo internacional para que o trauma não seja repetidamente revivido. Apesar do apoio psicológico, 20% da população do campo ainda apresenta problemas do foro mental, segundo dados do ACNUR.“O estado em que chegaram era gravíssimo.”, recorda Manuel Pereira, coordenador de emergências da OIM em Cox Bazar. “Em termos de resposta humanitária, a pressão das pessoas a chegar não tem muitos precedentes.” 52% eram mulheres. Mais de meio milhão crianças. Durante o denominado estado de emergência, organizações governamentais e não-governamentais trabalharam em conjunto para dar resposta ao monstruoso influxo de pessoas: providenciar cuidados de saúde básicos, abrigo, alimentação e água, preparar o terreno para as chuvas fortes. “Foi uma resposta muito em cima do joelho para garantir que as pessoas tinham os mínimos.”, explica Pereira.
O MAIOR CAMPO DE REFUGIADOS DO MUNDO
Os rohingyas foram acampando entre Teknaf e Palong Khlai, dois territórios do Bangladesh separados por mais de 50 quilómetros e embrenhados no santuário de vida selvagem de Teknaf. A vegetação teve de ser destruída para que dos montes se fizesse casa para o maior
influxo de refugiados que o mundo presenciou na sua História. Aí nasceram 33 campos, adicionados aos refugiados que já se haviam instalado no local anteriormente a 2017, perfazendo um total de 909 mil rohingyas.

Mas os cálculos incluem ainda as comunidades afetadas pelo influxo, levando a que o número ultrapasse o milhão — 1,2 milhões de pessoas dependente de assistência humanitária. Os números catapultaram o Bangladesh para o topo mundial das crises humanitárias, atribuindo a este território o título de maior campo de refugiados do mundo.

Do topo de um dos montes em Kutupalong, a cerca de uma hora de Cox Bazar, seria fácil imaginar que a vida se havia aqui instalado há anos. O pó amarelo levado pelo vento quente e forte cobriu os plásticos que formam paredes e tetos em conjunto com o bambu. Os olhos perdem-se na imensidão dos campos.

Há pontes e escadarias feitas em bambu, estradas de tijolo, placas de localização, campos de futebol improvisados, centros de saúde e de distribuição de comida, escolas, mercados, barbeiros, pequenos cafés, muita construção que prepara os campos para a época das monções. Chamar-lhe cidade seria desajustado, dizer organizado é “demasiado forte”. Manuel Pereira prefere a palavra “estruturado”, um terreno gigante onde a vegetação começa a surgir e uma ou outra árvore se manteve hirta.
É necessário descer o monte para se entender as muitas dificuldades. O risco de cólera e de outras doenças infetocontagiosas permanece. Faltam ainda estradas, pontes, centros de alimentação e saúde em lugares estratégicos. Falta reconstruir e reforçar os abrigos, melhorar a iluminação, preparar os terrenos para as cheias, reflorestar. E falta aumentar o número de postos de abastecimentos de água, melhorar o escoamento de efluentes, com consequências no ambiente, na qualidade da água e na saúde. É um leque de trabalhos que conta com a participação dos refugiados.

COMBATER O TRÁFICO HUMANO
Descendo o monte até ao campo 4 entramos no Centro de Mulheres. Escondem-se os rostos entre os lenços. Um sorriso tímido aqui e ali. A cabeça voltada para o chão. Aqui não há homens. Ouve-se o barulho das muitas máquinas de costura vindo de uma das salas do centro, um refúgio da vida, um espaço que pretende dotar as raparigas de qualificações e oportunidades. Sunee Singh, do PAM, criou o primeiro programa mundial de resiliência para mulheres em campos de refugiados, em parceria com outros programas das Nações Unidas e o Governo do Bangladesh. “As mulheres foram as mais afetadas e percebi que, além do apoio psicológico, era necessário providenciar um acompanhamento especializado.” Aqui ensina-se a costurar, a fazer pintura de panos e a arranjar telemóveis. “Estamos a dar-lhes algo que elas nunca tiveram, algo que vai para lá da sobrevivência. Estamos a dar-lhes dignidade, a contribuir para a economia local e do campo.”

Num dos cantos, um pequeno grupo de mulheres junta-se em redor de uma mesa onde se acumulam peças de telemóveis antigos. Ummesalina, olhos presos ao chão, está a aprender a arranjar telemóveis. “Nós encarámos tantas adversidades até chegarmos à margem. Chovia e os montes foram tão difíceis. Aqui somos felizes.” A voz jovem treme por trás da burqa, mas não lhe falha. “Quando ouvi falar do serviço que estava a ser providenciado no Centro de Mulheres disse à minha mãe que era importante vir e ser uma mulher qualificada”, conta enquanto esconde o rosto e fala repetidamente do irmão e da irmã que ainda se encontram em Myanmar. “É muito importante ser educada, porque quando nos casarmos as nossas crianças serão também educadas”, acredita. Na sala ao lado, cheia de tecidos coloridos e antigas máquinas de costura pintadas com flores, as palavras de Khaleda demonstram já a transformação pessoal ocorrida nos últimos meses: “Ser educada permite-nos ser resilientes, ter autoconfiança, fazer parte das decisões da comunidade. Nós não sabíamos sequer escrever o nosso nome”, conta, escrevendo a sua assinatura num caderno, ar orgulhoso e letra vinda de mãos ainda pouco acostumadas ao peso da caneta.
É preciso mais meia hora de viagem para abandonar o grande complexo de Kutupalong-Balukhali onde vivem quase 750 mil pessoas, passar por campos de arroz e estradas em terra batida para chegar ao campo 22, onde o isolamento é visível e as condições de vida ainda mais precárias. As raparigas caminham uma hora para chegar ao Centro de Mulheres deste campo. Sentadas em fila, pedem mais, de olhar determinado. Mais centros, mais máquinas. Ao lado das instalações, Laila, viúva e mãe de três filhos, mostra-nos embevecida a sua horta, fruto das sementes dadas pelo programa. É um quadrado de terra que lhe alimenta a família e lhe gera dinheiro no bolso. Cerca de cinco euros que lhe transformam a vida.

Existem 226 mil mulheres no campo com mais de 18 anos. O programa do Centro de Mulheres iniciado em julho de 2018 chega, por agora, a seis mil mulheres, com um custo de 200 dólares por pessoa [cerca de 175 euros]. Até ao final de 2019 o objetivo é, combatendo a falta de terrenos e financiamento, aumentar o número de atividades, passar de 10 a 14 centros e envolver 15 mil pessoas, incluindo homens.

A questão cultural é, porém, ainda uma grande barreira. As mulheres não tiveram acesso a educação, sofrem um grande isolamento social, são vítimas de violência de género e discriminação étnica. O programa foi apresentado porta a porta. Inicialmente cerca de 5% das mulheres desistiram. Foram proibidas pelo pai ou pelo marido, engravidaram, mudaram de campo.

A par da aprendizagem cada mulher recebe cerca de 10 euros em forma de e-voucher, um incentivo que, pretende-se, funcione como motivador de participação e colmate alguns dos grandes problemas atuais que assolam os campos: tráfico humano, prostituição, trabalho forçado e casamento precoce. A responsável pelo programa explica: “Mulheres, homens e crianças viveram debaixo de uma monitorização muito restrita, de ação e mobilidade, o que os torna muito inocentes e ingénuos, especialmente as raparigas e mulheres que não tiveram muita exposição. Por isso, é fácil enganá-las, dar-lhes esperança. É fácil levá-las para uma teia de crimes.”
Diariamente, 60 mulheres e raparigas são paradas pelas agências de segurança do Bangladesh numa tentativa de abandonar o campo. Entre as raparigas que se encontram a receber assistência médica física e mental por parte da organização após serem resgatadas, dois terços foram vítimas de trabalho forçado e 10% de exploração sexual. “Estes são riscos muito reais vividos pelas crianças nos campos”, reconhece Karen Reldy, da UNICEF.

O Bangladesh tem um dos maiores índices mundiais de casamento precoce. 50% das raparigas casam-se com menos de 18 anos, 18% com menos de 15 anos. A fim de eliminar o problema, a UNICEF criou em parceria com o Governo do país um Plano de Ação Nacional, que pretende erradicar o casamento precoce até 2041, informa Reldy.

POBREZA E MÁ ALIMENTAÇÃO
O suor escorre da testa de Azizur Rahman. A camisa verde escureceu com a transpiração. Azizur e o filho acabam de caminhar vinte minutos desde o centro de distribuição de comida até à pequena casa no campo 3, subindo e descendo montes, com a ração dos próximos 15 dias carregada às costas: 30 quilos de arroz, alguns sacos de lentilhas e óleo de palma.

Há mais de um ano que é esta a alimentação dos cinco elementos da família. As filhas escondem-se nas pequenas separações da casa, enquanto a mulher, Arefa, posicionada atrás de Azizur, se queixa da qualidade do arroz. Estende-o num saco sobre o chão de terra e mostra os arrozeiros que não são consumíveis.

Há um simultâneo sentimento de agradecimento e saturação. “Não temos dinheiro para comprar nada. Temos apenas a ração. Precisamos de mais para nos alimentarmos”, lamenta Azizur. A frustração é generalizada. Desde a sua chegada que os rohingyas vivem, quase na totalidade, sem qualquer fonte de rendimento e um terço da população continua a aceder apenas ao sistema de distribuição geral de comida do PAM. Sacos e sacos seguem sobre os corpos curvados de homens. Um camião de comida circula a cada 15 minutos dos armazéns para os campos. São quase 400 mil quilos de comida distribuída diariamente só para este sistema do PAM. Mas esta é uma realidade em metamorfose.
No campo 5 nasceu o que o PAM apelida de megaloja, um armazém gigante com três vendedores locais. Nas paredes encontram-se cartazes com os 18 ingredientes disponíveis e o preço de cada um. Há filas e filas de sacos de arroz e lentilhas empilhados, vegetais, ovos, especiarias, peixe seco e ainda sabonete. A entrada e saída de pessoas é constante e fora das grades do armazém a curiosidade é evidente. O medo de que os alimentos escasseiem faz com que a meio da tarde as prateleiras estejam quase vazias. Só a partir deste centro são alimentadas 40 mil pessoas. Ao membro feminino mais velho da família foi entregue um e-voucher que funciona por impressão digital, com 750 taka, cerca de 7,5 euros, atribuído a cada membro da família mensalmente. “Estou feliz. Aqui tenho o que a minha família necessita”, diz uma das mulheres. 324 mil pessoas têm já acesso a este sistema através das 21 lojas existentes. O PAM pretende que até ao final do ano todos tenham acesso ao programa alimentar e-voucher a uma distância máxima de 1,5 quilómetros de cada casa.
Nem só de comida vive o homem. Da colina mais elevada do campo 12, Massud escava a terra onde foram colocados seis tanques de água, quase 600 mil litros, o suficiente para providenciar água a 30 mil refugiados Rohingya. São números referentes à primeira fase do sistema de água potável movido a energia solar. É o maior sistema do campo de refugiados do Bangladesh. Será o maior do mundo em campos de refugiados quando o sistema funcionar para o mais de um milhão de pessoas.

O parque com 180 painéis solares está quase concluído. É um plano preparado ao pormenor e com vantagens assinaladas em todas as áreas. Mohan Mishra e Watsan, da equipa WASH (Água, Saneamento e Higiene) da OIM, sublinham a qualidade da água. “Cerca de 70% da água obtida estava contaminada”. As consequências na saúde são previsíveis. Para este projeto, perfurou-se até 400 metros, reduzindo o risco de contaminação e escassez de água e a necessidade de manutenção do sistema. Simplifica-se a operação, diminuem-se as consequências ambientais e cria-se uma rede preparada para a época forte das chuvas, salienta Mohan Mishra.
Os parâmetros humanitários indicam que cada pessoa deverá ter acesso a água até 500 metros. A equipa WASH quer reduzir o número para 100 metros e permitir que cada pessoa usufrua de 17 litros de água diários, ao invés dos 15 indicados. Com estas mudanças, as mulheres, habitualmente responsáveis por carregar a água necessária para a casa, não só precisarão de menos tempo como estarão menos sujeitas à insegurança provocada pelas longas caminhadas noturnas.

"TODOS OS DIAS SÃO DIAS DE PONTA"
Cheira ainda a novo. Se esquecêssemos a realidade para lá das portas deste centro de saúde poderíamos acreditar que estávamos numa vila. No espaço recentemente aberto no campo 3, onde o bambu deu lugar ao tijolo, há uma farmácia, uma sala de emergência, uma sala de partos, espaço para consultas e vacinação e apoio psicológico [nos campos, 4% dos jovens reportaram comportamentos suicidas]. É a imagem que as organizações querem futuramente transportar para as mais de 190 instalações médicas existentes. Os quatro médicos e três assistentes deste centro não têm tempo para parar. “Todos os dias são dias de ponta”, desabafa o clínico, enquanto assiste uma criança vítima de afogamento. Todos os dias, são aqui atendidas 250 pessoas.

“Falamos de pessoas que não tinham qualquer tipo de ajuda médica, mulheres que não sabem que cuidados ter durante a gravidez.”, diz o médico. 30 mil mulheres chegaram ao Bangladesh grávidas (várias em consequência de violações). Mais de 80% continuam a realizar os partos em casa. “Não basta dar assistência médica. É necessário educar sobre os cuidados de saúde mais primários”, refere. Nurbaar concorda. A acompanhar a mãe com um carcinoma, a mulher de 32 anos reconhece que nunca foi a um médico e que os cuidados aqui providenciados são cruciais. Na sala, a maioria dos casos são de varicela, um espelho da realidade atual dos campos: só este ano foram reportados quase 10 mil casos; mais de 340 mil crianças com menos de cinco anos sofrem de subnutrição.

HOW ARE YOU?
As ruas estão cheias de crianças. Algumas descalças, outras desnudas. A pele e a roupa sujas. Um laço rosa a servir de enfeite na cabeça das meninas. Varicela no corpo de alguns. Riem-se muito. Acenam muito. Gritam “Hello! How are you?”. Nunca pedem. Nem comida. Nem dinheiro. Brincam com rodas de ferro empurradas pela terra por um outro cabo de ferro, carros em bambu com tampas de garrafa a servir de rodas. Se tiverem sorte de estar em determinadas localizações nos campos há escorregas e cavalinhos de brincar. São mais de 500 mil crianças, ou seja, 55% da população refugiada no campo.
São mais de meio milhão. Para eles foram criados 3700 espaços de aprendizagem, outros tantos onde lhes tentam apagar os traumas vividos. “Quando chegaram, as crianças desenhavam helicópteros a disparar balas sobre as pessoas, pessoas a fugir de casas e vilas incendiadas, pessoas enforcadas nas árvores”, descreve Karen Reldy, da UNICEF. Hoje essas mesmas crianças já desenham as suas casas rodeadas de rios, campos verdes e animais. Nos centros de aprendizagem ensina-se inglês e birmanês, matemática, ciências e competências básicas. O bengalês não está permitido por parte do Governo do Bangladesh.

A UNICEF, em conjunto com organizações parceiras, indica que até ao ano passado 216 mil crianças rohingya estavam envolvidas em algum tipo de educação. As sondagens do último relatório da OIM mostram que entre os 5 e os 11 anos, cerca de 10% não frequentam os centros educativos. O valor cresce quando olhamos para os adolescentes entre os 12 e os 17 anos. Sobretudo no sector feminino. Mais de 80% das raparigas não frequentam a escola.
Do campo Nayapara, em Teknaf, avista-se facilmente o Estado de Rakhine e as suas montanhas Arakan disfarçadas pela neblina da manhã. Nas águas onde hoje se passeiam cruzeiros, há mais de um ano singravam barcos e barcos carregados de rohingyas, cruzando os três mil metros desde Myanmar até alcançar as margens do Bangladesh. Nadar seria ousado. Perigoso, na realidade. O rio chega a alcançar os 120 metros de profundidade. Ainda assim, muitos tentaram.
“Vimos os refugiados chegar. Eram tantos. Víamos o fumo desde o outro lado das montanhas das vilas a arder. Que mal fizeram estas crianças? Que mal fizeram as mulheres para serem violadas?” As palavras em inglês chegam de Mohammed Sadek, 21 anos. A mãe chegou grávida ao Bangladesh nos anos 90, fugindo da antiga Birmânia exatamente pelas mesmas razões que as mais de 740 mil pessoas em 2017.
O estatuto de refugiado é também atribuído a Mohammed e, por isso, não lhe é permitido, à semelhança dos restantes refugiados rohingya, trabalhar fora do campo. Nayapara é possivelmente o maior palco onde se cruzam antigos e novos refugiados, onde a presença de militares é mais visível.
920 milhões de dólares [mais de 800 milhões de euros] são necessários para continuar a dar resposta à crise humanitária dos rohingyas em 2019. O denominado Plano de Resposta Conjunta é o apelo de mais de 130 organizações — agências das Nações Unidas e organizações não-governamentais — que trabalham no maior campo de refugiados do mundo. A maior parte dos fundos servirá para a “ajuda crítica” no que diz respeito a comida, água, saneamento e abrigos. “É um plano altamente priorizado. É só mesmo, mesmo, para o essencial. É um pedido, como uma carta ao Pai Natal”, reconhece o coordenador de emergências da OIM em Cox Bazar.

Dificilmente as organizações recebem 100% do valor pedido, por isso Manuel Pereira gostaria de ver chegar pelo menos 50% e faz uso de uma comparação para que se entenda a realidade em que vivem os rohingyas: “É como se estivéssemos todos deitados numa cama com uma manta muito pequenina. Puxa de um lado, falha no outro. E não há dinheiro suficiente para comprar uma manta maior.”
909 mil rohingyas encontraram no Bangladesh a segurança que procuravam. Das bocas dos refugiados reconhecem-se muitas incertezas no futuro, mas de todas elas sai uma certeza: a de que não regressam sem que os direitos humanos e de cidadãos de Myanmar lhes sejam reconhecidos e garantidos. “O Governo do Bangladesh quer que as pessoas regressem o mais cedo possível, as pessoas querem regressar o mais cedo possível e nós queremos apoiar o regresso, mas todos concordamos que se as condições não forem seguras, se não forem dignificadas, não pode haver regresso. Estamos a tentar encontrar formas de mobilizar apoio no mundo com diversos parceiros para promover a resolução política em Myanmar”, declara Manuel Pereira, que indica ainda que é objetivo das organizações que muita da gestão dos campos vá sendo passada para o Governo do Bangladesh.

Dialogamos e assinamos acordos com Myanmar para a repatriação dos rohingyas. Mas o Governo de Myanmar não está a atuar nesse sentido”, afirmou Sheikh Hasina, primeira-ministra do Bangladesh. A viver em Myanmar desde o século XIX, os rohingyas tentam obter o cartão de cidadão desde a independência da ex-Birmânia. Até hoje, o Governo de Myanmar recusou-se a reconhecer a minoria étnica — que perfazia mais de um terço da população do Estado de Rakhine — como cidadãos de pleno direito do país e nega a crise existente relativa à etnia.

A Human Rights Watch acusa o país de ter realizado uma limpeza étnica, incriminando Myanmar de crimes contra a humanidade. Na mais recente missão das Nações Unidas à antiga Birmânia a ONU afirmou ao que os militares do país deveriam ser investigados por genocídio e que tinham sido ignorados os sinais alarmantes verificados anteriormente ao alegado genocídio.

Azizur Rahman está cansado. Jamila quebrada. Sanuara tem saudades. Ummesalina anseia pelos irmãos e por um Myanmar livre. Manuel Pereira acredita que um dia os Rohingya vão olhar para o mundo e ver-se “como iguais, dignos”. Khaleda sonha com o dia em que possa regressar. No interior da sua casa, com vista sobre o enorme descampado amarelo, com o braço sobre uma trave de bambu que lhe segura a cabeça, Azizur diz, resiliente, o que todas as bocas querem dizer: “Não há lugar mais feliz do que a nossa pátria”.

Lá fora ouve-se o vento e as crianças a brincar.

Jornal Expresso

REPORTAGEM MULTIMÉDIA:PAULA ALVES SILVA
INFOGRAFIA:CARLOS ESTEVES
WEB DESIGN: JOÃO MELANCIA E TIAGO PEREIRA SANTOS
WEB DEVELOPER: MARIA ROMERO
COORDENAÇÃO EDITORIAL: JOANA BELEZA E GERMANO OLIVEIRA



sábado, 18 de maio de 2019

A minha opinião sobre o texto do Pacheco Pereira

Concordo essencialmente com a importância dos professores numa sociedade que se quer democrática onde o seu papel é fundamental, pois somos nós professores que damos o conhecimento e as ferramentas aos alunos para os prepararmos para entrarem numa sociedade cada vez mais extremista e anti democrática. O papel do professores é cada vez mais desacreditado em prol das novas tecnologias que não nos podem de modo nenhum substituir.
Os professores devem ser rigorosos na transmissão dos saberes, pois apenas dessa forma podemos ser reconhecido.
É uma opinião contraditória e susceptível a criticas, pois nós estamos tão cansados e sujeitos ao preenchimento de relatórios e papeis inúteis que não dedicamos o tempo necessário à nossa função que é ensinar.

A hostilidade aos professores (Texto de Pacheco Pereira)

A hostilidade aos professores é evidente em muitos sectores da sociedade portuguesa. Manifestou-se mais uma vez no último conflito gerado pelas votações dos partidos na Assembleia atribuindo aos professores a contagem integral do tempo de serviço. Antes, durante e depois deste processo, a vaga de hostilidade aos professores atingiu níveis elevados, com a comunicação social a escavar fundo a ferida, com sondagens orientadas e uma miríade de artigos de opinião e editoriais.
Valia a pena parar para pensar, porque este movimento de hostilidade é mais anómalo do que se pensa, e acompanha outros, como o ataque aos velhos como sendo um “fardo” dos novos. Mostram que estamos a entrar numa cosmovisão social que implica um retrocesso enorme naquilo a que chamamos precariamente “civilização”. É preciso recuar muito para encontrar ataques aos professores, o último dos quais teve expressão quando a escola laica, em países como a França, foi um alvo importante da igreja, que tinha o monopólio do ensino.

Mas eu seria muito cuidadoso sobre as razões dessa actual hostilidade, porque ela incorpora aspectos muito negativos da evolução da nossa sociedade. É um caminho que muita gente está a trilhar, sem perceber que ele vai dar a um profundo retrocesso. E isso acontece muitas vezes na história: anda-se para trás quase sem se dar por ela, contando com a inacção, a apatia, ou a acédia, de quem deveria reagir. Como a democracia é uma fina película contra a barbárie e é apenas defendida pela vontade dos homens e não por nenhuma lei da natureza, mais vale prevenir com todos os megafones possíveis.

Há vários aspectos na actual hostilidade. Há uma agravante no caso português que tem a ver com a vitória muito significativa da ideologia da troika, que está longe de ter desaparecido e, nalguns casos, migrou para sectores que lhe deveriam ser alheios e não são: os socialistas, por exemplo. Disfarçada de “economia”, essa ideologia assenta numa visão pseudo-cíentifica, muito rudimentar e simplista, cheia de variantes neo-malthusianas, que se apresentou como não tendo alternativa, a nefasta TINA. Isto encheu-nos as cabeças e não saiu delas.
Essa ideologia centra-se na crítica do Estado, em particular do Estado social, e transforma os funcionários públicos em cúmplices de uma rede de privilégio, sendo descritos apenas como “despesa” excessiva. Vale a pena ensinar-lhes um pouco de história europeia e lembrar-lhes o papel do Estado desde Bismarck como instrumento para impedir sociedades bipolares de “proletários” e ricos, com a consequente conflitualidade social extrema. Acresce que esse processo criou à volta do Estado uma classe média, os tais desdenhados funcionários públicos, que não só funcionou como tampão como arrastou muita gente que vinha da pobreza e acedeu à mediania. A economia privada e o dinamismo das empresas, quando existiu ou existe, teve e tem igualmente esse papel, mas não chegou para criar este elevador social.

Portanto, gritem contra a função pública e os malefícios do Estado, que também existem como é obvio, mas percebam que o pacote de não ter professores, enfermeiros, médicos, jardineiros, funcionário das repartições, leva atrás de si o ensino e a saúde pública, que são componentes essenciais do elevador social, o único meio de retirar as pessoas da pobreza, quer no privado, quer no público. Pais lavradores, que conheceram a verdadeira pobreza, filha professora primária ou funcionária pública, neto estudante universitário – sendo que o papel da educação é um elemento fundamental para esta ascensão.

Depois, há outros ingredientes. Os professores protestam, fazem greves, boicotam exames, fecham escolas, e hoje há uma forte penalização para as lutas sociais. Quem defende os seus interesses é penalizado e de imediato tem contra si muita comunicação social, o bas-fond das redes sociais e a maioria da opinião pública. São os enfermeiros, os camionistas, os professores, os trabalhadores dos transportes – manifestam-se, são logo classificados de privilegiados e egoístas. Os mansos que recebem migalhas no fundo do seu ressentimento invejam quem se mexe. Sem mediações, a sociedade esconde os que não precisam, e pune os que lutam. As greves hoje são solitárias

O papel mais negativo é o da comunicação social, que se coloca sempre na primeira linha do combate ao protesto social. Despreza por regra os sindicatos, que considera anacrónicos, aceita condições de trabalho de sweatshop e ajuda a apagar e a tornar incómoda a memória de que o pouco que muitos têm no mundo do trabalho foi conseguido com muito sangue, e não ficando em casa a jogar gomas no telemóvel ou a coscuvilhar no Facebook.

Por fim, e o mais importante, há uma desvalorização do papel do professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber, o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que se fala. É o que leva Trump a dizer que se combatia o incêndio de Notre Dame com aviões tanques atirando toneladas de água, cujo resultado seria derrubar o que veio a escapar, paredes, vitrais, obras de arte. É destas “bocas” que pululam nas redes sociais que nasce também a hostilidade aos professores. É o ascenso da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro.

Os professores têm muitas culpas, deveriam aceitar uma mais rigorosa avaliação profissional, deveriam evitar ser tão parecidos como estes novos ignorantes, deveriam ler e estudar mais, deveriam ser severos com as modas do deslumbramento tecnológico, mas isso não esconde que têm hoje uma das mais difíceis profissões que existe. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de Camilo. Não de Eça, mas de Camilo, do Portugal de Camilo. Verdade seja que isto já não significa nada para a maioria das pessoas. Batam nos professores e depois queixem-se.
 Pacheco Pereira
Colunista Jornal  Público

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Um informador da “PIDE”


O historiador Paulo Marques da Silva (PMS) editou recentemente a obra A PIDE e os seus informadores. O caso de Inácio, sob a chancela da Palimage. Trata-se de um estudo alicerçado num minucioso trabalho de investigação, em especial, das fontes primárias existentes nos Arquivos. Um facto que merece ser enaltecido, na medida em que este esforço vai rareando, mesmo entre estudos académicos, mas também porque o investigador em causa, PMS, residente em Condeixa-a-Nova (distrito de Coimbra), desempenha uma actividade profissional desligada da historiografia e paga do seu próprio bolso as avultadas despesas inerentes ao processo de investigação em arquivos distantes, como sejam o Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo e a Biblioteca Nacional, ambos localizados em Lisboa.  
A obra em causa integra uma nota de apresentação do consagrado historiador da Época Contemporânea Luís Reis Torgal, possui cerca de 350 páginas e encontra-se estruturada em dez parte: I – “A PIDE e os informadores”; II – “O informador Inácio”; III – “Inácio e a Oposição ao Regime em Coimbra”; IV – “Inácio e as informações sobre militares”; V – “Inácio na Universidade”; VI – “Inácio pela região de Coimbra e pelo país”; VII – “Inácio nos espaços de actuação da Oposição”; VIII – “Inácio e os tempos da Oposição”; IX – “Inácio e as iniciativas de propaganda e de cultura da Oposição”; X – “Inácio (ele próprio) e os outros”. Já em anexo, é apresentado um breve apêndice documental, seguido de um sempre útil índice onomástico.
O estudo que inspira o presente artigo desenrola-se em torno de um prolífico informador da polícia política, que actuava, fundamentalmente, na região centro (em especial, Coimbra) e assinava com o pseudónimo “Inácio”. Este zeloso funcionário dos Caminhos-de-Ferro enviou informações à polícia política entre 1935 e 1971, denunciando, segundo PMS, mais de duzentas pessoas, entre as quais se contam nomes como Miguel Torga, Fernando Namora, Fernando Valle, Alberto Vilaça e Tomás da Fonseca (PMS – ob. cit., 2019, pp. 46-48). As informações eram prestadas através de relatórios escritos, mas também via telefónica ou talvez até mesmo através do contacto directo e representavam um rendimento extra para “Inácio”, cujo obsessivo trabalho de vigilância parecia ser apreciado e valorizado pelos funcionários da polícia política, em Coimbra. Tal como teve oportunidade de recordar Irene Pimentel (A História da PIDE, 1.ª edição, 2007, pp. 312-337), é possível constatar que as denúncias enviadas à “PIDE” não radicavam apenas em motivos políticos, mas, por vezes, decorriam também de rivalidades, invejas, questiúnculas pessoais e sede de vingança, o que, de certo modo, não pode deixar de fazer-nos recordar o que sucedeu em Portugal durante o longo período em que a Inquisição se manteve em funcionamento.
Dos relatórios elaborados por “Inácio” sobressai quase sempre o ataque pessoal do denunciante em relação ao visado e o – mais ou menos directo – apelo para que os agentes policiais intensificassem a vigilância e a repressão. E destas informações, não o esqueçamos, dependia muitas vezes a decisão sobre a concessão (ou não) de empregos públicos, de bolsas ou passaportes, para já não falar na própria demissão da Função Pública. Citemos apenas três exemplos. 
Num relatório datado de 31 de Agosto de 1966, “Inácio” tecia as seguintes considerações a respeito de Joaquim Cameira Calado: “comunista e bêbedo, sem qualquer espécie de vergonha”. Ainda nesse documento, agora a respeito de António Rodrigues Novo concluía tratar-se de um “simpatizante avançado, género ordinário e sem vergonha”. E sobre Maria de Lourdes Braga Temido, num relatório com a data de 16 de Abril de 1948, afirmava: “Possui carro que guia (o marido vai ao lado como lacaio e com atitude de anjinho pois nada percebe de automóveis)” (PMS – ob. cit., 2019, ps. 225, 226 e 279).
“Inácio” teria sido um informador especial, na medida em que não se limitava a desempenhar as funções habituais do delator. Tratava-se de um “homem que incorporava a ideologia e os valores do regime, situado até na sua ala mais conservadora”, que, na sua ânsia de garantir a ordem, ousava tecer algumas sugestões e críticas à actuação das autoridades (PMS – ob. cit., 2019, p. 267) e chegou mesmo a receber/coligir informações disponibilizadas por outros informadores. Desempenhou, por conseguinte, um importante papel ao nível da referenciação e da vigilância dos principais elementos da oposição em Coimbra, com especial enfoque no meio universitário.
            Compreender os motivos que teriam permitido que a identidade de “Inácio” não fosse revelada durante o longo período em que se manteve activo (1935-1971), ainda para mais numa cidade pequena como Coimbra, não é tarefa fácil. Poderia ser um “excelente actor”, como PMS sugere (p. 45), mas também é provável que o delator em causa não fosse tão íntimo das pessoas que denunciava, ao contrário do que pretendeu fazer crer, talvez até para justificar junto da polícia política o seu trabalho/remuneração. O que também nos ajudaria a compreender a inequívoca tendência daquele para exagerar cenários comunistas ou desferir violentos ataques pessoais aos visados nos seus relatórios/denúncias. 
            Face ao exposto, importa concluir que estamos perante um estudo meritório, que é redigido num estilo claro e fluido e atinge o seu auge quando a identidade do misterioso “Inácio” é revelada. Até pelo aturado e demorado trabalho de investigação subjacente, teria, contudo, sido importante proceder a um trabalho de depuração do texto, quer ao nível da virgulação, da acentuação, da ortografia e de pequenas gralhas. Outrossim, teria sido interessante desenvolver os dados biográficos a respeito de “Inácio”, de modo a que o leitor compreendesse melhor o homem e as suas circunstâncias. Essa opção, em articulação com um maior esforço de síntese e selecção de apenas alguns relatórios considerados mais significativos, enriqueceria, segundo penso, ainda mais a obra. Do ponto de vista metodológico, faltou introduzir a fundamental lista de siglas utilizadas, de modo a facilitar a tarefa do leitor. 
O legado de Abril de 1974 passa, sobretudo, pelo permanente desafio ao pensamento individual, para o qual se revela essencial, segundo penso, o contacto com os livros com inequívoca qualidade literária e científica. A obra do historiador PMS ajuda-nos a compreender um pouco melhor a dimensão do legado que herdámos de Abril, mas também a importância determinante que os informadores tiveram para a própria sobrevivência do Estado Novo, ao longo de mais de quatro décadas (1933--1974).
Comemorar Abril também deve passar por ler, partilhar e discutir livros como aquele que PMS nos deixou. Esta também é a minha forma de agradecer ao autor o seu meritório esforço para continuar a construir História, num país onde, nas mais variadas áreas da sociedade, o espectáculo do entretenimento se sobrepõe cada vez mais ao conhecimento e à reflexão.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Fundação dos Afetos com letras (Guine Bissau)

O nosso mundo é tão injusto. Falo insistentemente com os meus alunos da sorte que eles têm por poderem ir à escola. Infelizmente isso ainda não é possível para milhares de crianças, onde esse direito lhes é vedado, porque simplesmente nasceram num país e numa família que não lhe dá esse direito. É muito triste. Força àquelas crianças que lutam por aprender.



Joana Benzinho é um exemplo. Aquando de uma visita à Guiné Bissau esta Portuguesa no Mundo apercebeu-se que as crianças na Guiné Bissau que lutavam para ir à escola e trabalhavam no Verão para concretizar esse sonho. Esta Portuguesa no Mundo criou a Fundação Afetos com letras, uma ONG reconhecida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Português, que possibilita através da construção de escolas e bibliotecas que neste país milhares de crianças possam ter acesso à educação.

domingo, 31 de março de 2019

Dia Mundial da Paz


Anualmente no primeiro dia de cada ano comemora-se o do dia Mundial da paz. Infelizmente o Mundo está repleto de situações de guerra e conflitos, onde quem mais sofre são os mais frágeis ou seja as crianças e o idosos.
Para a comemoração deste dia, o papa Francisco dirigiu-se aos fieis indicando os males latentes na política como a corrupção, o abuso de poder, enriquecimento ilegal, xenofobia e racismo. Todos estes abusos dão azo a guerras e consequente à necessidade de as pessoas procurarem melhores condições de vida noutros locais aumentando as migrações.
As migrações são muitas vezes observadas de forma negativa pelas populações locais que vêm os seus empregos em risco com a entrada de estrangeiros no seu país.
Sobre a mensagem do Papa Francisco queria realçar a necessidade de em primeiro lugar os governos fazerem bem o seu papel gerindo convenientemente os seus recursos distribuindo-os de forma homogénea pela população local de forma a que esta não sinta necessidade de sair por motivos políticos ou religiosos. Por outro lado os países mais desenvolvidos que são uma fonte de esperança para pessoas que perderam tudo deverão mudar a sua mentalidade recebendo esta gente jovem que poderá ser uma mais valia para a dinamização do país. O caso do Fundão é um caso a observar com a atenção e repetir, pois houve sucesso no processo de integração dos imigrantes.

sábado, 30 de março de 2019

A romancista da ALDEIA DOS VENTOS


Ermelinda da Silva (1922-2019) foi uma escritora autodidacta de Vila Franca da Beira, que subiu a pulso a “íngreme cordilheira das letras”. No total, deu à estampa quatro obras: Da Realidade à Fantasia (1988); Sofia – A mãe solteira (1992); A Toutinegra do Moinho (1999) e A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora (2006).
            Filha de um agricultor e de uma mulher que se dedicava aos afazeres domésticos, foi profundamente influenciada por um avô, que lhe passou precocemente para as mãos um dicionário ilustrado que a jovem passou a ler de fio a pavio, como se de um autêntico romance se tratasse. Poupada às lides agrícolas, acostumou-se, como fazia questão de recordar, a ouvir o povo tratá-la por fidalga.
            Na década de 30, já depois de concluir a 3.ª classe, preparou-se, sob a orientação da professora Clarisse, para o temido exame da 4.ª classe, acabando reprovada “devido aos problemas aritméticos”. Casou-se em 1946, cerca de um ano após o fim da II Guerra Mundial, com Manuel Abrantes, mais conhecido como “Vidal” (1920-2012). Nesse mesmo ano, o casal teve o primeiro e único filho, que ainda hoje lá na aldeia todos conhecem simplesmente como Vidal.
            Segundo a própria narrou, em entrevista gravada em 2017, teria começado a escrever devido a um episódio dramático, mas relativamente comum na primeira metade do século XX: a inesperada gravidez de uma rapariga solteira. Este acontecimento, que implicava um estigma profundo para todas as mulheres que o vivenciavam, sobretudo nos meios rurais, deixou também marcas profundas em Ermelinda da Silva. Obcecada pelo sofrimento da jovem e pela “desonra” da família, Ermelinda passou a ter insónias frequentes e apenas começou a descansar um pouco quando decidiu verter para o papel uma versão romanceada daquele trágico episódio. A fazer fé no testemunho da romancista, esta teria marcado a sua primeira incursão literária, infelizmente destruída pela própria após o traumático falecimento do marido, já em 2012. É, porém, provável que o facto em causa tenha de algum modo sido recuperado quando redigiu Sofia – A mãe solteira, romance dado à estampa em 1992.
            Em 1948, o casal foi viver para o Porto, onde passaram a dirigir um restaurante. Ermelinda da Silva ocupava-se, fundamentalmente, da cozinha e aproveitaria todos os raros intervalos (até mesmo quando estava a fazer fritos!) para ir lendo: caso do extinto periódico O primeiro de Janeiro, mas também do romancista histórico António Campos Júnior (1850-1917), com A ala dos namorados e A rainha madrasta. Depois chegou mesmo a alugar livros, que ia religiosamente lendo todos os dias, como se de uma obrigação se tratasse. Em 2017, com 95 anos, a minha conterrânea Vila-Franquense continuava a recordar-se destas leituras, quase como se as tivesse concretizado na semana anterior.
            À semelhança do que já tive oportunidade de escrever (prefácio à reedição da obra Da Realidade à Fantasia, em 2016, pela Câmara Municipal de Oliveira do Hospital), todos temos pais espirituais, além dos biológicos. Para mim, Ermelinda da Silva foi a minha “mãe” espiritual. A partir daqui, tudo o que eu possa dizer será necessariamente escasso para reafirmar a admiração que tenho pela extraordinária autodidacta, com a qual descobri uma das maiores lições da vida, quiçá mesmo uma das mais árduas de concretizar: a importância de aprender a ouvir os outros, antes de tentar dizer ou escrever o que quer que seja.
            Ermelinda da Silva predispôs-se, sobretudo, a ouvir o povo, ao qual foi colher uma grande parte da matéria-prima para escrever as suas obras. Algumas delas, segundo penso, mereciam mesmo uma projecção nacional, caso do romance A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora, que abre de um modo magistral: “Seguramente o pensamento de Zé Luís era um caminheiro sem destino, ou seria como pêndulo de relógio no seu toque, toque”. De resto, prosseguindo o esforço cultural que a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital tem vindo a desenvolver nos últimos anos, acredito que seria de todo pertinente proceder a uma reedição, pelo menos, da referida obra, garantindo, no entanto, que a mesma fosse previamente expurgada de gralhas e outros lapsos que, lamentavelmente, integraram a 1.ª edição.
Trata-se – não será despiciendo afirmá-lo – de uma autora progressista, sempre preocupada com os leitores, nomeadamente os mais jovens, aos quais, de resto, sempre procurou infundir uma mensagem de esperança e de valorização do estudo e do trabalho. As personagens dos seus livros aparecem insufladas de um tal humanismo, que não podem deixar de parecer-nos familiares. Personagens tão reais que, por vezes, temos a impressão de poder tocá-las nas nossas deambulações quotidianas. A título ilustrativo, atente-se nesta fala da personagem Adriana a Zé Luís, inserta na obra A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora: “– Solta-te pá, vamos curtir. Não me digas que ainda és virgem? Se assim for, não sabes o que é um beijo profundo, sensual, caraças, nunca tiveste uma experiência amorosa?”. São, pois, feitas de carne e osso todas as personagens ressuscitadas por Ermelinda da Silva, mas sempre caldeadas pelo denso nevoeiro em que habita a imaginação; véu sem o qual, aliás, toda a vida se tornaria insuportável.
Ermelinda da Silva era uma mulher divertida, emotiva e muito atenta aos detalhes. Uma mulher que manteve uma lucidez e uma tremenda vontade de aprender praticamente até aos últimos instantes da vida e que, também por isso, procurou estabelecer laços sociais, sobretudo, com pessoas que a ajudassem a adquirir novos conhecimentos. Sempre pronta para uma boa conversa, em redor de um chá com bolinhos, mostrava-se uma interlocutora acutilante e incisiva nas suas críticas ao Homem e à sociedade. Privou de perto com nomes como Tarquínio Hall (1915-2002) e Manuel Cid Teles (1911-2009), que chegaram a buscar a companhia da sua família, em Vila Franca da Beira.
Tive o raro privilégio de frequentar a sua casa e assistir quase em directo ao acto da criação literária no seu escritório franciscano. Quando decidi entrevistá-la, em 2017, para além das notas que fui escrevinhando no caderno de capas pretas que sempre me acompanha, optei por colocar em cima da mesa o gravador. E em boa hora o fiz, pois recordar a sua voz continuará a ser pela vida fora uma maneira de ir matando saudades da melhor romancista que algum dia tive oportunidade de conhecer. Uma Amiga, com a qual aprendi muito; uma mulher que apenas concluiu a 3.ª classe e, sacrificando o próprio património familiar, perseguiu o sonho de tornar-se escritora, numa terra (num país) onde poucos são aqueles que lêem ou revelam verdadeiras preocupações culturais. Uma mãe e esposa muito dedicada aos seus, acompanhada ao longo de quase sete décadas por um homem (Manuel Abrantes “Vidal”) que, numa sociedade ainda profundamente machista, soube compreender desde muito cedo as aspirações culturais da esposa e tudo fez para ajudar a concretizá-las.
            Deixo-vos apenas com algumas das lições que fui colhendo de Ermelinda da Silva. Haveria outras, muitas, mas estas são apenas algumas daquelas que fui escrevendo e registando. A sua mensagem é mais vasta e continua viva nas obras que editou. Vale a pena marcar um encontro com as palavras que nos legou.

            I – “O povo é poeta, transpira poesia, e nem se dá conta disso”;
            II – “Não somos todos iguais”;
            III – “Estudar também é trabalhar, faz suar”;
            IV – “O amor é perdão”;
            V – “Rasguei tanto, tanto! Andei à deriva como um barco, mas teimei e avancei”;
            VI – “É forçoso ler e escrever. Também é uma forma de fugir às futilidades”;
            VII – “Os dias mais felizes da minha vida: o casamento (a minha mãe abraçou-
-se a mim a chorar de alegria, assim que saí da capela); o dia em que nasceu o meu filho e quando editei o meu primeiro livro”;
            VIII – “O povo está deslumbrado”;
            IX – “Quem quer escrever tem de ler. Ler muito e ouvir o povo. É preciso auscultar o povo”.

Analisada à luz das suas circunstâncias, Ermelinda da Silva é, sem margem para dúvida, uma lição de vida. Por isso, bem merecia outro texto de maior fôlego. Esta foi apenas a homenagem possível a uma autora que me marcou profundamente. Uma Amiga, à qual sempre ficarei grato.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 25 de março de 2019

Uma imagem e uma história para refletirmos

Alheia ao que se passa ao seu redor, junto à praça do município da Beira, Zinha tenta secar os seus livros uma semana depois da sua casa, de construção precária, ter desabado. Para além da sua vontade de aprender ela quer salvar o seu único bem: os livros de distribuição gratuita.
by 
Rui Miguel Lamarques

Grupo 420( Facebook)
https://www.facebook.com/groups/1480385788912391/

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país!

Mas não de acordo com o ranking das escolas, onde a Básica do Bairro Padre Cruz, em Lisboa, ficou em 1044o. Aliás, dependendo do ranking das escolas, pais e alunos fugiriam a sete pés desta escola, rapidamente levando ao seu encerramento e ao fim de um dos pilares deste bairro social.
Porque na Básica do Bairro Padre Cruz nenhum aluno fica sem comer. E há muitos em risco de passar o dia sem comer. Para muitos, a refeição na escola será a única do dia inteiro. Para muitos, poder comer é a razão de ir à escola. Mas não só.
Porque a Básica do Bairro Padre Cruz coloca o carinho e o  afecto antes do currículo, fazendo de tudo para que os alunos passem mais um dia na escola e menos um dia na rua, passo a passo reconstruindo as vidas perdidas de tantas crianças perdidas. O Bairro Padre Cruz é assim chamado em homenagem ao Padre Francisco Rodrigues da Cruz e a uma vida dedicada em pleno aos mais desfavorecidos. E outra coisa não se pode dizer sobre a sua Escola, onde os professores são mesmo a família que os alunos nunca tiveram, nunca terão, têm agora, na escola, na professora, nos professores e auxiliares, no Director da escola.
Porque um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor.
E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças,tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que
somos.
É impossível não nos envolvermos. É impossível não nos emocionarmos. E esta é a maior aprendizagem de quem vem ensinar para esta escola. Esta é a maior prova de crescimento num corpo docente com 60% de professores novos este ano, professores esses que em setembro estarão noutro lado, isto se não estiverem desempregados.
Meus caros, a mobilidade docente é um crime. É dizer às crianças que não há mais ninguém. É deixá-las por sua conta. É deixá-las à deriva no meio da tempestade, outra vez, e ninguém se habitua a uma tempestade. À deriva, as tempestades aumentam. É frustrar as expectativas, os sonhos, as lágrimas, é criar mais raiva, mais ódio, solidão, angústia.
Não obstante, sem desistir, esperançosos, os professores multiplicam-se e desdobram-se entre as aulas e os apoios individuais, entre os projectos e as reuniões com os pais, educando alunos mas também famílias inteiras, fazendo milagres com os poucos recursos ao seu dispor. Isto porque a diminuição do número de alunos ao longo da última década levou sucessivos governos a retirar à escola desde psicólogos ao grupo de teatro, sem esquecer o grupo de música, as colónias de férias, visitas de estudo. Outro crime, e os alunos não são números, as crianças não são números, mas são, são o futuro, o nosso futuro, nem por isso risonho. A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país! Digam o que disserem. Por não se limitar a ensinar, a formar, por querer saber de facto sobre as crianças, por viver os seus problemas, por sair dos muros da escola ao encontro do bairro, por abrir as portas ao bairro, por fazer parte de um todo e no todo trabalhar, sem parar, à procura de respostas. E as respostas para o abandono escolar, para as reprovações consecutivas, para o analfabetismo, para os problemas sociais e as famílias desestruturadas começam pela fixação do corpo docente. Para que estas crianças possam voltar a sonhar. E nós também.



Rui Cardoso
http://www.arlindovsky.net/2019/02/a-escola-basica-do-bairro-padre-cruz-e-a-melhor-escola-do-pais-joao-andre-costa/

domingo, 20 de janeiro de 2019

Momentos só nossos


O rebuliço profissional de segunda a sexta, onde saímos de casa muito cedo e chegamos tarde dentro impede-nos de desfrutar os momentos em família com a nossa criança que cresce tão rapidamente. Com a velocidade dos dias, basta descuidamos por breves semanas e não nos apercebemos quando ele dá os primeiros passos e passa repentinamente do gatinhar para o correr sem passar por o andar. A vontade de viver transparecida nos olhos da criança enchem-nos os olhos de água por percebemos que não é possível desfrutamos e dar-lhe toda a atenção que ela merecia. Enfim no meio daquela semana de trabalho tentamos naquela hora de jantar e antes de o deitar dar-lhe todos os abraços e carinhos que não demos durante o dia.

O fim de semana é um tempo mágico que passa num estalar de dedos. Nesses dois dias tentamos conciliarmo-nos enquanto pais e dar-lhe tempo para passear e estar verdadeiramente com ele. É bom perceber em família que com vinte e poucos meses já articula há muito tempo o nome do pai e da mãe para não falar da restante família. É maravilhoso cantar-lhe as músicas tradicionais e perceber que ele tenta imediatamente imitar-nos e no fim bate as palminhas com um imenso ar de satisfação.

Ao domingo de manhã geralmente o pai costuma ir passeá-lo  para que este possa desfrutar da natureza. O deleite daquele passeio de domingo de manhã já não dispensamos. A ida ao parque do Mandanelho ver os “patos cá, cás” é já uma rotina, pois ele quando lá chega fala logo deles. Por norma os passeios no parque têm dois períodos, o primeiro onde este caminha livremente naquele espaço amplo pisando as folhas secas do Inverno ou então a areia grossa das áreas reservadas às diversões. 

Sentir o olhar de felicidade na criança, transparece de imediato para os pais. Após um conjunto de longas caminhadas chegamos finalmente ao segundo momento,  o lago dos patos localizado a Norte do parque numa zona baixa. Sentados na margem do lago sobre uma laje de granito observamos muito atentos os sons balbuciados por estes animais na sua linguagem muito característica. Depois de observar com muita atenção toda aquela envolvência este  diz por vezes expressões como: “estão a tomar banho” ou “tantos patos cá, cás”. São momentos que vão passar muito rápido, no entanto é sinal que está a crescer bem e feliz e isso deixa-nos tão tranquilos.



Sentimos que é uma criança muito feliz e que se sente muito bem na sua escola. Isso dá-nos um conforto e força para enfrentar mais um dia de trabalho e calcorrear centenas de quilómetros diariamente. Obrigado a todos que nos ajudam diariamente.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A capacidade de incluir


Há um tempo atrás ouvi na rádio uma entrevista de um dos responsável pela Operação Nariz Vermelho que numa conversa com o diretor de um Hospital,diziam: Diretor do Hospital “os hospitais não são sítios para palhaços”; responsável Operação Nariz Vermelho “se não é para palhaços também não deveria ser para crianças.”

Perceber as necessidades de uma criança no século XXI é algo que não está intrínseco a qualquer pessoa. Em dois discursos que pude compartilhar no primeiro trimestre do ano letivo apercebi-me disso: O primeiro ocorreu algures no mês de Novembro nos bancos da cantina da escola C+S da Pampilhosa da Serra. Por acaso no meio da refeição surgiu à conversa qual seria o nome do irmão de uma criança de 4 anos que está para nascer no início de 2019, ao que esta com a inocência característica da sua idade disse que se chamaria António. Eu sem conhecer o contexto familiar congratulei a criança e os pais pelo nascimento ao que as funcionárias com um ar desgostoso disseram que infelizmente seria mais um para somar à miséria que jaz naquela casa onde já há 4 criança, e não existem as condições mínimas para as poder sustentar. A segunda história decorreu num dos múltiplos trajetos entre a Pampilhosa da Serra e Oliveira do Hospital no qual para reduzir custos repartimos as boleias. Um colega comentou que há uns anos atrás um professor de Matemática que lecionava no arquipélago dos Açores  foi mandado parar por um homem que o ameaçou que se lhe tirassem a mulher eles iriam arrepender-se. A mulher era uma menina de 15 anos que já estava a viver com um adulto.
Infelizmente são histórias vividas em pleno século XXI em Portugal Continental ou no Arquipélago dos Açores que nos entristecem, enquanto cidadãos de Portugal e do Mundo.

Em Portugal com o prolongamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano e com a nova legislação para os alunos com necessidades seletivas adicionais(antigos alunos com necessidades educativas especiais), a escola tem responsabilidades acrescidas que não detinha há uns anos atrás onde os alunos só eram obrigados a permanecer na escola até aos 16 anos.
Ter a capacidade de incluir alunos com necessidades seletivas adicionais,  numa turma com alunos com capacidades cognitivas normais é por vezes uma tarefa hercúlea que os professores estão ainda a adaptar-se. Perceber o que fazer a alunos que numa turma do 3º ciclo  não são capazes de reconhecer países da Europa, ou que devido às sua deficiência por serem autistas não são capazes de fazer muito mais além de pintar ou associas tabelas, gera dificuldades aos professores que têm de cumprir o currículo e chegar a um maior número de alunos possível.

Apesar de não me sentir preparado considero a integração na sala de aula dos antigos alunos com Currículo Específico Individualizado (CEI), que agora se designam alunos com medidas adicionais, por terem mais dificuldades cognitivas, pode ser positivo para a sua evolução cognitiva, no entanto considero que deviam ser dadas mais horas aos docentes, pois os objetivos curriculares mantiveram-se exatamente os mesmo com vários reveses entre os quais destaco um que me chateou particularmente, termos de preencher um quantidade infindável de grelhas sem qualquer utilidade.