segunda-feira, 15 de julho de 2019
Livro de Poesia "Pedra após pedra"- Fernando Alva
Livro escrito por Renato Nunes que adquiriu como heterónimo Fernando Alva.
Comprem o livro e se puderem vão à sua apresentação no próximo dia 20 de Julho em Santa Iria da Azoia.
Fica o convite!!!
domingo, 23 de junho de 2019
Lítio, a perigosa promessa do “ouro branco”
O
escritor beirão Aquilino Ribeiro (1885-1963) publicou, durante a II Guerra
Mundial, um notável romance intitulado Volfrâmio,
inspirado na exploração do subsolo português pela Alemanha e pelos Ingleses, em
busca do volfrâmio, importante matéria-
-prima utilizada, por exemplo, para fortalecer as cápsulas das granadas e para conferir ao “aço uma maior resistência ao calor”: indispensável, portanto, “em máquinas como em armas” (António Louçã – Hitler e Salazar. Comércio em tempos de guerra, 1940-
-1944, ps. 8 e 43).
-prima utilizada, por exemplo, para fortalecer as cápsulas das granadas e para conferir ao “aço uma maior resistência ao calor”: indispensável, portanto, “em máquinas como em armas” (António Louçã – Hitler e Salazar. Comércio em tempos de guerra, 1940-
-1944, ps. 8 e 43).
No
livro em causa ficam bem evidentes as consequências dramáticas da ávida busca pelo
“ouro negro”: abandono e destruição dos campos agrícolas; desenvolvimento do
contrabando e da especulação; perseguição do lucro (pequenas “fortunas”), sem
olhar a meios, que logo depois se dissipava para dar a aparência de novo-rico.
Cobiça a sobrepor-se a todos os valores humanistas. Numa palavra: morte.
Consequências que, de resto, se estendem até aos dias de hoje, como bem sabem
os habitantes das zonas circundantes das minas, agora tantas vezes confiadas ao
abandono ou até mesmo convertidas em espaços museológicos. Isto para já não
falar, por exemplo, na proveniência do ouro utilizado pelos alemães para pagar
o volfrâmio português. Ouro esse tantas vezes espoliado aos judeus que
acabariam por ser mortos nos campos de concentração nazis…
Em
1958, o aludido romancista beirão editou outro notável romance intitulado Quando os lobos uivam, a respeito da
apropriação dos baldios pelo Estado Novo, tendo em vista a sua florestação
coerciva. Esta questão gerou vários confrontos entre as populações locais e os
Serviços Florestais, incumbidos de aplicar as medidas previstas pelo governo.
Ora,
os dois livros anteriormente referidos têm uma actualidade surpreendente, na
medida em que o Governo português tem vindo a permitir que diversas
multinacionais iniciem um conjunto de prospecções em território nacional, tendo
em vista a possível exploração do lítio (v.g.
Aviso n.º 6518/2019, publicado em Diário
da República, datado de 9/4). A área abrangida pelas prospecções – ainda
que neste momento mal conhecida – é extremamente significativa, integrando, por
exemplo, as Terras do Barroso (a norte), mas também uma vasta região do centro
do país.
Entre
outros aspectos, parece evidente que o recente desenvolvimento dos carros
eléctricos tem vindo a gerar uma maior necessidade de matéria-prima para a
produção de baterias. Daí esta desenfreada corrida ao lítio, apresentada por
alguns magnatas como uma oportunidade para o interior profundo de Portugal se
desenvolver e enriquecer.
Não
é esta, porém, a minha opinião e digo isto com toda a carga ideológica que
implica este género de tomada de posições. Os potenciais riscos associados à
exploração do subsolo em busca do lítio são demasiado elevados para justificar
alguns dividendos que meia dúzia de poderosos e outros tantos mangas-de-alpaca
poderão obter. A extracção de rochas provocará irreversíveis impactos
paisagísticos: crateras enormes, contaminação dos recursos hídricos, ruído,
poluição do ar (partículas em suspensão) e, consequentemente, doenças graves,
desde logo, do foro respiratório. Isto significará comprometer o futuro das
novas gerações e o desenvolvimento sustentável de áreas significativas do país.
É,
por conseguinte, fundamental quebrar este silêncio político que
estrategicamente tem vindo a enredar esta matéria. É fundamental perguntar onde
estão os estudos de impacto ambiental que deveriam ter, obrigatoriamente,
antecedido estas prospecções. É fundamental perguntar se as populações locais
estão a ser ouvidas e, em caso afirmativo, se foram (e são) devidamente
informadas a respeito do que verdadeiramente está em causa.
Os
dramáticos incêndios que afectaram o país, em 2017, trouxeram um conjunto de
novas promessas políticas, vindas dos mais diferentes quadrantes. A verdade dos
factos, porém, é que, apesar da demagogia reinante, as populações do interior
foram e continuam a ser votadas a um tremendo abandono por parte do poder
central. O silêncio que envolve esta negociata (é isto que realmente está em
causa) demonstra-o com todas as letras.
Escreveu
Miguel Torga, em 1942, no volume II do seu Diário:
“Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo” (1943, p. 140). A avidez
das multinacionais em busca do novo “ouro branco” pode transformar o que ainda
sobra do santuário em que vivemos num autêntico inferno. A apropriação dos
baldios e a expropriação de territórios, em nome do suposto interesse nacional,
será apenas o início desse dramático processo silenciosamente consumado.
É
escusado, pouco ou nada aprendemos com a História. Ou os cidadãos se mobilizam
ou estaremos condenados a destruir e deixar destruir quase tudo o que temos de
melhor. Aos nossos filhos e netos deixaremos as cinzas de tudo o que permitimos
destruir, que mais não seja com a cobardia do nosso silêncio.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
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Renato Nunes
domingo, 9 de junho de 2019
O sofrimento nos olhos deles (Reportagem Jornal Expresso)
Este fim de semana li no expresso uma reportagem que retrata a triste realidade do maior campo de refugiados do Mundo, no Bangladesh. Optei apesar da sua extensão por expor a reportagem na integra.
"A fuga de mais de 740 mil pessoas da minoria étnica muçulmana rohingya, de Myanmar, fez com que nascesse no sul do Bangladesh o maior campo de refugiados do mundo. Em apenas três meses. São hoje 1,2 milhões de pessoas dependentes de assistência humanitária
Há nos olhos raiados de Jamila uma tristeza profunda. “Quando me lembro da situação em Myanmar quase choro.” Pausa.
As frases chegam devagar e sem força. Saem dos seus olhos
mais palavras do que as que a boca carrega. Não precisaria de falar para que se
entendesse a dureza impregnada nos seus 50 anos. “Incêndios, pessoas
chacinadas, casas queimadas, pessoas violadas.” Perdeu o marido. O irmão. A
irmã. “Foram mortos pelos rakhines.”
Ela, as quatro filhas, os dois filhos e o neto conseguiram
fugir. Embrenharam-se floresta dentro durante quatro dias até alcançarem a
margem do rio Naf. “Sem comida. Sem água”, lembra sentada numa cadeira de
plástico à entrada da casa de bambu que lhe serviu de teto no último ano e meio
de vida. Para aqui chegar, ao Bangladesh, faltava-lhe ainda esperar cinco dias
na margem do rio até que lhes fosse possível fazer a travessia de barco. Foram
necessárias 12 horas para chegar, por fim, ao país. “Sofremos muito. Tínhamos
fome. Tivemos de beber água salgada.”
Regressamos a agosto de 2017, quando uma vaga de violência
explodiu no Estado de Rakhine, em Myanmar, entre militares birmaneses e a
minoria muçulmana rohingya. Foi este conflito que fez com que nascesse na
divisão de Chittagong, Bangladesh, o maior campo de refugiados do mundo. “Eram
ondas e ondas de pessoas a chegar sem parar.” Um anos depois a memória de Sunee
Singh, responsável pelo departamento político do Programa Alimentar Mundial
(PAM), continua bem fresca. “Chovia e eles estavam completamente molhados.
Todos choravam. Fiquei chocada e pensei que aquele era um momento que só vemos
nos filmes. Não tínhamos comida para todos. Em 2016 tivemos um pequeno influxo
de cerca de 75 mil pessoas. Estávamos à espera de algo semelhante ou um pouco
mais.” Chegaram mais de 745 mil pessoas em três meses.
Terrível poderá não ser palavra suficiente para descrever as
histórias vividas pelos rohingya. Fatama Begum, 33 anos, foi violada por cinco
homens. “Primeiro mataram o meu irmão. Depois atiraram-me para o lado e um
rasgou-me as vestes, agarrou-me pela boca e manteve-me quieta. Espetou-me uma
faca e manteve-a ali enquanto os homens me violaram.” Sobreviveu. A filha de
Hassina, com um ano, não. Foi retirada dos braços da mãe e atirada viva para
uma fogueira onde os corpos dos homens que haviam sido mortos eram queimados.
Hassina, de 20 anos, e outras mulheres foram levadas depois até uma casa onde
foram violadas, esfaqueadas e pontapeadas. A casa foi depois incendiada, mas
ela acordou a tempo de fugir. As outras não.
De acordo com os Médicos sem Fronteiras e a Human Rights
Watch (HRW ) mais de metade das vítimas de violação em tratamento nos campos
têm menos de 18 anos, algumas menos de 10 anos. Não se sabe o número total de
vítimas. Referem-se milhares. Só ao Fundo de População das Nações Unidas,
UNFPA, foram reportados mais de 10 mil casos. O acesso a elas está vedado aos
jornalistas, seguindo o protocolo internacional para que o trauma não seja
repetidamente revivido. Apesar do apoio psicológico, 20% da população do campo
ainda apresenta problemas do foro mental, segundo dados do ACNUR.“O estado em
que chegaram era gravíssimo.”, recorda Manuel Pereira, coordenador de
emergências da OIM em Cox Bazar. “Em termos de resposta humanitária, a pressão
das pessoas a chegar não tem muitos precedentes.” 52% eram mulheres. Mais de
meio milhão crianças. Durante o denominado estado de emergência, organizações
governamentais e não-governamentais trabalharam em conjunto para dar resposta
ao monstruoso influxo de pessoas: providenciar cuidados de saúde básicos,
abrigo, alimentação e água, preparar o terreno para as chuvas fortes. “Foi uma
resposta muito em cima do joelho para garantir que as pessoas tinham os
mínimos.”, explica Pereira.
O MAIOR CAMPO DE
REFUGIADOS DO MUNDO
Os rohingyas foram acampando entre Teknaf e Palong Khlai,
dois territórios do Bangladesh separados por mais de 50 quilómetros e
embrenhados no santuário de vida selvagem de Teknaf. A vegetação teve de ser
destruída para que dos montes se fizesse casa para o maior
influxo de refugiados que o mundo presenciou na sua
História. Aí nasceram 33 campos, adicionados aos refugiados que já se haviam
instalado no local anteriormente a 2017, perfazendo um total de 909 mil
rohingyas.
Mas os cálculos incluem ainda as comunidades afetadas pelo
influxo, levando a que o número ultrapasse o milhão — 1,2 milhões de pessoas
dependente de assistência humanitária. Os números catapultaram o Bangladesh
para o topo mundial das crises humanitárias, atribuindo a este território o título
de maior campo de refugiados do mundo.
Do topo de um dos montes em Kutupalong, a cerca de uma hora
de Cox Bazar, seria fácil imaginar que a vida se havia aqui instalado há anos.
O pó amarelo levado pelo vento quente e forte cobriu os plásticos que formam
paredes e tetos em conjunto com o bambu. Os olhos perdem-se na imensidão dos
campos.
Há pontes e escadarias feitas em bambu, estradas de tijolo,
placas de localização, campos de futebol improvisados, centros de saúde e de
distribuição de comida, escolas, mercados, barbeiros, pequenos cafés, muita
construção que prepara os campos para a época das monções. Chamar-lhe cidade
seria desajustado, dizer organizado é “demasiado forte”. Manuel Pereira prefere
a palavra “estruturado”, um terreno gigante onde a vegetação começa a surgir e
uma ou outra árvore se manteve hirta.
É necessário descer o monte para se entender as muitas
dificuldades. O risco de cólera e de outras doenças infetocontagiosas
permanece. Faltam ainda estradas, pontes, centros de alimentação e saúde em
lugares estratégicos. Falta reconstruir e reforçar os abrigos, melhorar a
iluminação, preparar os terrenos para as cheias, reflorestar. E falta aumentar
o número de postos de abastecimentos de água, melhorar o escoamento de
efluentes, com consequências no ambiente, na qualidade da água e na saúde. É um
leque de trabalhos que conta com a participação dos refugiados.
COMBATER O TRÁFICO
HUMANO
Descendo o monte até ao campo 4 entramos no Centro de
Mulheres. Escondem-se os rostos entre os lenços. Um sorriso tímido aqui e ali.
A cabeça voltada para o chão. Aqui não há homens. Ouve-se o barulho das muitas
máquinas de costura vindo de uma das salas do centro, um refúgio da vida, um
espaço que pretende dotar as raparigas de qualificações e oportunidades. Sunee
Singh, do PAM, criou o primeiro programa mundial de resiliência para mulheres
em campos de refugiados, em parceria com outros programas das Nações Unidas e o
Governo do Bangladesh. “As mulheres foram as mais afetadas e percebi que, além
do apoio psicológico, era necessário providenciar um acompanhamento
especializado.” Aqui ensina-se a costurar, a fazer pintura de panos e a
arranjar telemóveis. “Estamos a dar-lhes algo que elas nunca tiveram, algo que
vai para lá da sobrevivência. Estamos a dar-lhes dignidade, a contribuir para a
economia local e do campo.”
Num dos cantos, um pequeno grupo de mulheres junta-se em
redor de uma mesa onde se acumulam peças de telemóveis antigos. Ummesalina,
olhos presos ao chão, está a aprender a arranjar telemóveis. “Nós encarámos
tantas adversidades até chegarmos à margem. Chovia e os montes foram tão
difíceis. Aqui somos felizes.” A voz jovem treme por trás da burqa, mas não lhe
falha. “Quando ouvi falar do serviço que estava a ser providenciado no Centro
de Mulheres disse à minha mãe que era importante vir e ser uma mulher
qualificada”, conta enquanto esconde o rosto e fala repetidamente do irmão e da
irmã que ainda se encontram em Myanmar. “É muito importante ser educada, porque
quando nos casarmos as nossas crianças serão também educadas”, acredita. Na
sala ao lado, cheia de tecidos coloridos e antigas máquinas de costura pintadas
com flores, as palavras de Khaleda demonstram já a transformação pessoal
ocorrida nos últimos meses: “Ser educada permite-nos ser resilientes, ter
autoconfiança, fazer parte das decisões da comunidade. Nós não sabíamos sequer
escrever o nosso nome”, conta, escrevendo a sua assinatura num caderno, ar
orgulhoso e letra vinda de mãos ainda pouco acostumadas ao peso da caneta.
É preciso mais meia hora de viagem para abandonar o grande
complexo de Kutupalong-Balukhali onde vivem quase 750 mil pessoas, passar por
campos de arroz e estradas em terra batida para chegar ao campo 22, onde o
isolamento é visível e as condições de vida ainda mais precárias. As raparigas
caminham uma hora para chegar ao Centro de Mulheres deste campo. Sentadas em
fila, pedem mais, de olhar determinado. Mais centros, mais máquinas. Ao lado
das instalações, Laila, viúva e mãe de três filhos, mostra-nos embevecida a sua
horta, fruto das sementes dadas pelo programa. É um quadrado de terra que lhe
alimenta a família e lhe gera dinheiro no bolso. Cerca de cinco euros que lhe
transformam a vida.
Existem 226 mil mulheres no campo com mais de 18 anos. O
programa do Centro de Mulheres iniciado em julho de 2018 chega, por agora, a
seis mil mulheres, com um custo de 200 dólares por pessoa [cerca de 175 euros].
Até ao final de 2019 o objetivo é, combatendo a falta de terrenos e
financiamento, aumentar o número de atividades, passar de 10 a 14 centros e
envolver 15 mil pessoas, incluindo homens.
A questão cultural é, porém, ainda uma grande barreira. As
mulheres não tiveram acesso a educação, sofrem um grande isolamento social, são
vítimas de violência de género e discriminação étnica. O programa foi
apresentado porta a porta. Inicialmente cerca de 5% das mulheres desistiram.
Foram proibidas pelo pai ou pelo marido, engravidaram, mudaram de campo.
A par da aprendizagem cada mulher recebe cerca de 10 euros
em forma de e-voucher, um incentivo que, pretende-se, funcione como motivador
de participação e colmate alguns dos grandes problemas atuais que assolam os
campos: tráfico humano, prostituição, trabalho forçado e casamento precoce. A
responsável pelo programa explica: “Mulheres, homens e crianças viveram debaixo
de uma monitorização muito restrita, de ação e mobilidade, o que os torna muito
inocentes e ingénuos, especialmente as raparigas e mulheres que não tiveram
muita exposição. Por isso, é fácil enganá-las, dar-lhes esperança. É fácil
levá-las para uma teia de crimes.”
Diariamente, 60 mulheres e raparigas são paradas pelas
agências de segurança do Bangladesh numa tentativa de abandonar o campo. Entre
as raparigas que se encontram a receber assistência médica física e mental por
parte da organização após serem resgatadas, dois terços foram vítimas de
trabalho forçado e 10% de exploração sexual. “Estes são riscos muito reais
vividos pelas crianças nos campos”, reconhece Karen Reldy, da UNICEF.
O Bangladesh tem um dos maiores índices mundiais de
casamento precoce. 50% das raparigas casam-se com menos de 18 anos, 18% com
menos de 15 anos. A fim de eliminar o problema, a UNICEF criou em parceria com
o Governo do país um Plano de Ação Nacional, que pretende erradicar o casamento
precoce até 2041, informa Reldy.
POBREZA E MÁ
ALIMENTAÇÃO
O suor escorre da testa de Azizur Rahman. A camisa verde
escureceu com a transpiração. Azizur e o filho acabam de caminhar vinte minutos
desde o centro de distribuição de comida até à pequena casa no campo 3, subindo
e descendo montes, com a ração dos próximos 15 dias carregada às costas: 30
quilos de arroz, alguns sacos de lentilhas e óleo de palma.
Há mais de um ano que é esta a alimentação dos cinco
elementos da família. As filhas escondem-se nas pequenas separações da casa,
enquanto a mulher, Arefa, posicionada atrás de Azizur, se queixa da qualidade
do arroz. Estende-o num saco sobre o chão de terra e mostra os arrozeiros que
não são consumíveis.
Há um simultâneo sentimento de agradecimento e saturação. “Não
temos dinheiro para comprar nada. Temos apenas a ração. Precisamos de mais para
nos alimentarmos”, lamenta Azizur. A frustração é generalizada. Desde a sua
chegada que os rohingyas vivem, quase na totalidade, sem qualquer fonte de
rendimento e um terço da população continua a aceder apenas ao sistema de
distribuição geral de comida do PAM. Sacos e sacos seguem sobre os corpos
curvados de homens. Um camião de comida circula a cada 15 minutos dos armazéns
para os campos. São quase 400 mil quilos de comida distribuída diariamente só
para este sistema do PAM. Mas esta é uma realidade em metamorfose.
No campo 5 nasceu o que o PAM apelida de megaloja, um
armazém gigante com três vendedores locais. Nas paredes encontram-se cartazes
com os 18 ingredientes disponíveis e o preço de cada um. Há filas e filas de
sacos de arroz e lentilhas empilhados, vegetais, ovos, especiarias, peixe seco
e ainda sabonete. A entrada e saída de pessoas é constante e fora das grades do
armazém a curiosidade é evidente. O medo de que os alimentos escasseiem faz com
que a meio da tarde as prateleiras estejam quase vazias. Só a partir deste
centro são alimentadas 40 mil pessoas. Ao membro feminino mais velho da família
foi entregue um e-voucher que funciona por impressão digital, com 750 taka,
cerca de 7,5 euros, atribuído a cada membro da família mensalmente. “Estou
feliz. Aqui tenho o que a minha família necessita”, diz uma das mulheres. 324
mil pessoas têm já acesso a este sistema através das 21 lojas existentes. O PAM
pretende que até ao final do ano todos tenham acesso ao programa alimentar
e-voucher a uma distância máxima de 1,5 quilómetros de cada casa.
Nem só de comida vive o homem. Da colina mais elevada do
campo 12, Massud escava a terra onde foram colocados seis tanques de água,
quase 600 mil litros, o suficiente para providenciar água a 30 mil refugiados
Rohingya. São números referentes à primeira fase do sistema de água potável
movido a energia solar. É o maior sistema do campo de refugiados do Bangladesh.
Será o maior do mundo em campos de refugiados quando o sistema funcionar para o
mais de um milhão de pessoas.
O parque com 180 painéis solares está quase concluído. É um
plano preparado ao pormenor e com vantagens assinaladas em todas as áreas.
Mohan Mishra e Watsan, da equipa WASH (Água, Saneamento e Higiene) da OIM,
sublinham a qualidade da água. “Cerca de 70% da água obtida estava
contaminada”. As consequências na saúde são previsíveis. Para este projeto,
perfurou-se até 400 metros, reduzindo o risco de contaminação e escassez de
água e a necessidade de manutenção do sistema. Simplifica-se a operação,
diminuem-se as consequências ambientais e cria-se uma rede preparada para a
época forte das chuvas, salienta Mohan Mishra.
Os parâmetros humanitários indicam que cada pessoa deverá
ter acesso a água até 500 metros. A equipa WASH quer reduzir o número para 100
metros e permitir que cada pessoa usufrua de 17 litros de água diários, ao
invés dos 15 indicados. Com estas mudanças, as mulheres, habitualmente
responsáveis por carregar a água necessária para a casa, não só precisarão de
menos tempo como estarão menos sujeitas à insegurança provocada pelas longas
caminhadas noturnas.
"TODOS OS DIAS SÃO DIAS DE PONTA"
Cheira ainda a novo. Se esquecêssemos a realidade para lá
das portas deste centro de saúde poderíamos acreditar que estávamos numa vila.
No espaço recentemente aberto no campo 3, onde o bambu deu lugar ao tijolo, há
uma farmácia, uma sala de emergência, uma sala de partos, espaço para consultas
e vacinação e apoio psicológico [nos campos, 4% dos jovens reportaram
comportamentos suicidas]. É a imagem que as organizações querem futuramente
transportar para as mais de 190 instalações médicas existentes. Os quatro
médicos e três assistentes deste centro não têm tempo para parar. “Todos os
dias são dias de ponta”, desabafa o clínico, enquanto assiste uma criança
vítima de afogamento. Todos os dias, são aqui atendidas 250 pessoas.
“Falamos de pessoas que não tinham qualquer tipo de ajuda
médica, mulheres que não sabem que cuidados ter durante a gravidez.”, diz o
médico. 30 mil mulheres chegaram ao Bangladesh grávidas (várias em consequência
de violações). Mais de 80% continuam a realizar os partos em casa. “Não basta
dar assistência médica. É necessário educar sobre os cuidados de saúde mais
primários”, refere. Nurbaar concorda. A acompanhar a mãe com um carcinoma, a
mulher de 32 anos reconhece que nunca foi a um médico e que os cuidados aqui
providenciados são cruciais. Na sala, a maioria dos casos são de varicela, um
espelho da realidade atual dos campos: só este ano foram reportados quase 10
mil casos; mais de 340 mil crianças com menos de cinco anos sofrem de
subnutrição.
HOW ARE YOU?
As ruas estão cheias de crianças. Algumas descalças, outras
desnudas. A pele e a roupa sujas. Um laço rosa a servir de enfeite na cabeça
das meninas. Varicela no corpo de alguns. Riem-se muito. Acenam muito. Gritam
“Hello! How are you?”. Nunca pedem. Nem comida. Nem dinheiro. Brincam com rodas
de ferro empurradas pela terra por um outro cabo de ferro, carros em bambu com
tampas de garrafa a servir de rodas. Se tiverem sorte de estar em determinadas
localizações nos campos há escorregas e cavalinhos de brincar. São mais de 500
mil crianças, ou seja, 55% da população refugiada no campo.
São mais de meio milhão. Para eles foram criados 3700
espaços de aprendizagem, outros tantos onde lhes tentam apagar os traumas
vividos. “Quando chegaram, as crianças desenhavam helicópteros a disparar balas
sobre as pessoas, pessoas a fugir de casas e vilas incendiadas, pessoas
enforcadas nas árvores”, descreve Karen Reldy, da UNICEF. Hoje essas mesmas
crianças já desenham as suas casas rodeadas de rios, campos verdes e animais.
Nos centros de aprendizagem ensina-se inglês e birmanês, matemática, ciências e
competências básicas. O bengalês não está permitido por parte do Governo do
Bangladesh.
A UNICEF, em conjunto com organizações parceiras, indica que
até ao ano passado 216 mil crianças rohingya estavam envolvidas em algum tipo
de educação. As sondagens do último relatório da OIM mostram que entre os 5 e
os 11 anos, cerca de 10% não frequentam os centros educativos. O valor cresce
quando olhamos para os adolescentes entre os 12 e os 17 anos. Sobretudo no
sector feminino. Mais de 80% das raparigas não frequentam a escola.
Do campo Nayapara, em Teknaf, avista-se facilmente o Estado
de Rakhine e as suas montanhas Arakan disfarçadas pela neblina da manhã. Nas
águas onde hoje se passeiam cruzeiros, há mais de um ano singravam barcos e
barcos carregados de rohingyas, cruzando os três mil metros desde Myanmar até
alcançar as margens do Bangladesh. Nadar seria ousado. Perigoso, na realidade.
O rio chega a alcançar os 120 metros de profundidade. Ainda assim, muitos
tentaram.
“Vimos os refugiados chegar. Eram tantos. Víamos o fumo
desde o outro lado das montanhas das vilas a arder. Que mal fizeram estas
crianças? Que mal fizeram as mulheres para serem violadas?” As palavras em
inglês chegam de Mohammed Sadek, 21 anos. A mãe chegou grávida ao Bangladesh
nos anos 90, fugindo da antiga Birmânia exatamente pelas mesmas razões que as
mais de 740 mil pessoas em 2017.
O estatuto de refugiado é também atribuído a Mohammed e, por
isso, não lhe é permitido, à semelhança dos restantes refugiados rohingya,
trabalhar fora do campo. Nayapara é possivelmente o maior palco onde se cruzam
antigos e novos refugiados, onde a presença de militares é mais visível.
920 milhões de dólares [mais de 800 milhões de euros] são
necessários para continuar a dar resposta à crise humanitária dos rohingyas em
2019. O denominado Plano de Resposta Conjunta é o apelo de mais de 130
organizações — agências das Nações Unidas e organizações não-governamentais —
que trabalham no maior campo de refugiados do mundo. A maior parte dos fundos
servirá para a “ajuda crítica” no que diz respeito a comida, água, saneamento e
abrigos. “É um plano altamente priorizado. É só mesmo, mesmo, para o essencial.
É um pedido, como uma carta ao Pai Natal”, reconhece o coordenador de
emergências da OIM em Cox Bazar.
Dificilmente as organizações recebem 100% do valor pedido,
por isso Manuel Pereira gostaria de ver chegar pelo menos 50% e faz uso de uma
comparação para que se entenda a realidade em que vivem os rohingyas: “É como
se estivéssemos todos deitados numa cama com uma manta muito pequenina. Puxa de
um lado, falha no outro. E não há dinheiro suficiente para comprar uma manta
maior.”
909 mil rohingyas encontraram no Bangladesh a segurança que
procuravam. Das bocas dos refugiados reconhecem-se muitas incertezas no futuro,
mas de todas elas sai uma certeza: a de que não regressam sem que os direitos
humanos e de cidadãos de Myanmar lhes sejam reconhecidos e garantidos. “O
Governo do Bangladesh quer que as pessoas regressem o mais cedo possível, as
pessoas querem regressar o mais cedo possível e nós queremos apoiar o regresso,
mas todos concordamos que se as condições não forem seguras, se não forem
dignificadas, não pode haver regresso. Estamos a tentar encontrar formas de
mobilizar apoio no mundo com diversos parceiros para promover a resolução
política em Myanmar”, declara Manuel Pereira, que indica ainda que é objetivo
das organizações que muita da gestão dos campos vá sendo passada para o Governo
do Bangladesh.
Dialogamos e assinamos acordos com Myanmar para a
repatriação dos rohingyas. Mas o Governo de Myanmar não está a atuar nesse
sentido”, afirmou Sheikh Hasina, primeira-ministra do Bangladesh. A viver em
Myanmar desde o século XIX, os rohingyas tentam obter o cartão de cidadão desde
a independência da ex-Birmânia. Até hoje, o Governo de Myanmar recusou-se a reconhecer
a minoria étnica — que perfazia mais de um terço da população do Estado de
Rakhine — como cidadãos de pleno direito do país e nega a crise existente
relativa à etnia.
A Human Rights Watch acusa o país de ter realizado uma
limpeza étnica, incriminando Myanmar de crimes contra a humanidade. Na mais
recente missão das Nações Unidas à antiga Birmânia a ONU afirmou ao que os
militares do país deveriam ser investigados por genocídio e que tinham sido
ignorados os sinais alarmantes verificados anteriormente ao alegado genocídio.
Azizur Rahman está cansado. Jamila quebrada. Sanuara tem
saudades. Ummesalina anseia pelos irmãos e por um Myanmar livre. Manuel Pereira
acredita que um dia os Rohingya vão olhar para o mundo e ver-se “como iguais,
dignos”. Khaleda sonha com o dia em que possa regressar. No interior da sua
casa, com vista sobre o enorme descampado amarelo, com o braço sobre uma trave
de bambu que lhe segura a cabeça, Azizur diz, resiliente, o que todas as bocas
querem dizer: “Não há lugar mais feliz do que a nossa pátria”.
Lá fora ouve-se o vento e as crianças a brincar.
Jornal Expresso
REPORTAGEM MULTIMÉDIA:PAULA ALVES SILVA
INFOGRAFIA:CARLOS ESTEVES
WEB DESIGN: JOÃO MELANCIA E TIAGO PEREIRA SANTOS
WEB DEVELOPER: MARIA ROMERO
COORDENAÇÃO EDITORIAL: JOANA BELEZA E GERMANO OLIVEIRA
Etiquetas:
desigualdades,
Direitos Humanos,
Outros Autores,
Pobreza
sábado, 18 de maio de 2019
A minha opinião sobre o texto do Pacheco Pereira
Concordo essencialmente com a importância dos professores numa sociedade que se quer democrática onde o seu papel é fundamental, pois somos nós professores que damos o conhecimento e as ferramentas aos alunos para os prepararmos para entrarem numa sociedade cada vez mais extremista e anti democrática. O papel do professores é cada vez mais desacreditado em prol das novas tecnologias que não nos podem de modo nenhum substituir.
Os professores devem ser rigorosos na transmissão dos saberes, pois apenas dessa forma podemos ser reconhecido.
É uma opinião contraditória e susceptível a criticas, pois nós estamos tão cansados e sujeitos ao preenchimento de relatórios e papeis inúteis que não dedicamos o tempo necessário à nossa função que é ensinar.
A hostilidade aos professores (Texto de Pacheco Pereira)
A hostilidade aos professores é evidente em muitos sectores da sociedade portuguesa. Manifestou-se mais uma vez no último conflito gerado pelas votações dos partidos na Assembleia atribuindo aos professores a contagem integral do tempo de serviço. Antes, durante e depois deste processo, a vaga de hostilidade aos professores atingiu níveis elevados, com a comunicação social a escavar fundo a ferida, com sondagens orientadas e uma miríade de artigos de opinião e editoriais.
Valia
a pena parar para pensar, porque este movimento de hostilidade é mais anómalo
do que se pensa, e acompanha outros, como o ataque aos velhos como sendo um
“fardo” dos novos. Mostram que estamos a entrar numa cosmovisão social que
implica um retrocesso enorme naquilo a que chamamos precariamente “civilização”.
É preciso recuar muito para encontrar ataques aos professores, o último dos
quais teve expressão quando a escola laica, em países como a França, foi um
alvo importante da igreja, que tinha o monopólio do ensino.
Mas
eu seria muito cuidadoso sobre as razões dessa actual hostilidade, porque ela
incorpora aspectos muito negativos da evolução da nossa sociedade. É um caminho
que muita gente está a trilhar, sem perceber que ele vai dar a um profundo
retrocesso. E isso acontece muitas vezes na história: anda-se para trás quase
sem se dar por ela, contando com a inacção, a apatia, ou a acédia, de quem
deveria reagir. Como a democracia é uma fina película contra a barbárie e é
apenas defendida pela vontade dos homens e não por nenhuma lei da natureza,
mais vale prevenir com todos os megafones possíveis.
Há vários aspectos na actual
hostilidade. Há uma agravante no caso português que tem a ver com a vitória
muito significativa da ideologia da troika,
que está longe de ter desaparecido e, nalguns casos, migrou para sectores que
lhe deveriam ser alheios e não são: os socialistas, por exemplo. Disfarçada de
“economia”, essa ideologia assenta numa visão pseudo-cíentifica, muito
rudimentar e simplista, cheia de variantes neo-malthusianas, que se apresentou
como não tendo alternativa, a nefasta TINA. Isto encheu-nos as cabeças e não
saiu delas.
Essa ideologia centra-se na crítica do Estado, em particular do
Estado social, e transforma os funcionários públicos em cúmplices de uma rede
de privilégio, sendo descritos apenas como “despesa” excessiva. Vale a pena
ensinar-lhes um pouco de história europeia e lembrar-lhes o papel do Estado
desde Bismarck como instrumento para impedir sociedades bipolares de “proletários”
e ricos, com a consequente conflitualidade social extrema. Acresce que esse
processo criou à volta do Estado uma classe média, os tais desdenhados
funcionários públicos, que não só funcionou como tampão como arrastou muita
gente que vinha da pobreza e acedeu à mediania. A economia privada e o
dinamismo das empresas, quando existiu ou existe, teve e tem igualmente esse
papel, mas não chegou para criar este elevador social.
Portanto, gritem contra a função pública e os malefícios do
Estado, que também existem como é obvio, mas percebam que o pacote de não ter
professores, enfermeiros, médicos, jardineiros, funcionário das repartições,
leva atrás de si o ensino e a saúde pública, que são componentes essenciais do
elevador social, o único meio de retirar as pessoas da pobreza, quer no
privado, quer no público. Pais lavradores, que conheceram a verdadeira pobreza,
filha professora primária ou funcionária pública, neto estudante universitário
– sendo que o papel da educação é um elemento fundamental para esta ascensão.
Depois, há outros ingredientes. Os professores protestam, fazem
greves, boicotam exames, fecham escolas, e hoje há uma forte penalização para
as lutas sociais. Quem defende os seus interesses é penalizado e de imediato
tem contra si muita comunicação social, o bas-fond das
redes sociais e a maioria da opinião pública. São os enfermeiros, os
camionistas, os professores, os trabalhadores dos transportes – manifestam-se,
são logo classificados de privilegiados e egoístas. Os mansos que recebem migalhas
no fundo do seu ressentimento invejam quem se mexe. Sem mediações, a sociedade
esconde os que não precisam, e pune os que lutam. As greves hoje são
solitárias
O papel mais negativo é o da comunicação social, que se coloca
sempre na primeira linha do combate ao protesto social. Despreza por regra os
sindicatos, que considera anacrónicos, aceita condições de trabalho de sweatshop e
ajuda a apagar e a tornar incómoda a memória de que o pouco que muitos têm no
mundo do trabalho foi conseguido com muito sangue, e não ficando em casa a
jogar gomas no telemóvel ou a coscuvilhar no Facebook.
Por fim, e o mais importante, há uma desvalorização do papel do
professor, de ensinar, de transmitir um saber. Vem num pacote sinistro que
inclui o falso igualitarismo nas redes sociais, o ataque à hierarquia do saber,
o desprezo pelo conhecimento profissional resultado de muito trabalho a favor
de frases avulsas, com erros e asneiras, sem sequer se conhecer aquilo de que
se fala. É o que leva Trump a dizer que se combatia o incêndio de Notre Dame
com aviões tanques atirando toneladas de água, cujo resultado seria derrubar o
que veio a escapar, paredes, vitrais, obras de arte. É destas “bocas” que
pululam nas redes sociais que nasce também a hostilidade aos professores. É o ascenso
da nova ignorância arrogante, um sinal muito preocupante para o nosso futuro.
Os professores têm muitas culpas, deveriam aceitar uma mais
rigorosa avaliação profissional, deveriam evitar ser tão parecidos como estes
novos ignorantes, deveriam ler e estudar mais, deveriam ser severos com as
modas do deslumbramento tecnológico, mas isso não esconde que têm hoje uma das
mais difíceis profissões que existe. E que, sem ela, caminhamos para o mundo de
Camilo. Não de Eça, mas de Camilo, do Portugal de Camilo. Verdade seja que isto
já não significa nada para a maioria das pessoas. Batam nos professores e
depois queixem-se.
segunda-feira, 6 de maio de 2019
Um informador da “PIDE”
O
historiador Paulo Marques da Silva (PMS) editou recentemente a obra A PIDE e os seus informadores. O caso de
Inácio, sob a chancela da Palimage. Trata-se de um estudo alicerçado num
minucioso trabalho de investigação, em especial, das fontes primárias
existentes nos Arquivos. Um facto que merece ser enaltecido, na medida em que
este esforço vai rareando, mesmo entre estudos académicos, mas também porque o
investigador em causa, PMS, residente em Condeixa-a-Nova (distrito de Coimbra),
desempenha uma actividade profissional desligada da historiografia e paga do
seu próprio bolso as avultadas despesas inerentes ao processo de investigação
em arquivos distantes, como sejam o Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre
do Tombo e a Biblioteca Nacional, ambos localizados em Lisboa.
A
obra em causa integra uma nota de apresentação do consagrado historiador da
Época Contemporânea Luís Reis Torgal, possui cerca de 350 páginas e encontra-se
estruturada em dez parte: I – “A PIDE e os informadores”; II – “O informador Inácio”; III – “Inácio e a Oposição ao Regime em Coimbra”; IV – “Inácio e as informações sobre
militares”; V – “Inácio na
Universidade”; VI – “Inácio pela
região de Coimbra e pelo país”; VII – “Inácio
nos espaços de actuação da Oposição”; VIII – “Inácio e os tempos da Oposição”; IX – “Inácio e as iniciativas de propaganda e de cultura da Oposição”; X
– “Inácio (ele próprio) e os outros”.
Já em anexo, é apresentado um breve apêndice documental, seguido de um sempre
útil índice onomástico.
O
estudo que inspira o presente artigo desenrola-se em torno de um prolífico informador
da polícia política, que actuava, fundamentalmente, na região centro (em
especial, Coimbra) e assinava com o pseudónimo “Inácio”. Este zeloso
funcionário dos Caminhos-de-Ferro enviou informações à polícia política entre
1935 e 1971, denunciando, segundo PMS, mais de duzentas pessoas, entre as quais
se contam nomes como Miguel Torga, Fernando Namora, Fernando Valle, Alberto
Vilaça e Tomás da Fonseca (PMS – ob.
cit., 2019, pp. 46-48). As informações eram prestadas através de relatórios
escritos, mas também via telefónica ou talvez até mesmo através do contacto
directo e representavam um rendimento extra para “Inácio”, cujo obsessivo
trabalho de vigilância parecia ser apreciado e valorizado pelos funcionários da
polícia política, em Coimbra. Tal como teve oportunidade de recordar Irene
Pimentel (A História da PIDE, 1.ª
edição, 2007, pp. 312-337), é possível constatar que as denúncias enviadas à
“PIDE” não radicavam apenas em motivos políticos, mas, por vezes, decorriam
também de rivalidades, invejas, questiúnculas pessoais e sede de vingança, o
que, de certo modo, não pode deixar de fazer-nos recordar o que sucedeu em
Portugal durante o longo período em que a Inquisição se manteve em
funcionamento.
Dos
relatórios elaborados por “Inácio” sobressai quase sempre o ataque pessoal do
denunciante em relação ao visado e o – mais ou menos directo – apelo para que
os agentes policiais intensificassem a vigilância e a repressão. E destas
informações, não o esqueçamos, dependia muitas vezes a decisão sobre a
concessão (ou não) de empregos públicos, de bolsas ou passaportes, para já não
falar na própria demissão da Função Pública. Citemos apenas três exemplos.
Num
relatório datado de 31 de Agosto de 1966, “Inácio” tecia as seguintes
considerações a respeito de Joaquim Cameira Calado: “comunista e bêbedo, sem
qualquer espécie de vergonha”. Ainda nesse documento, agora a respeito de
António Rodrigues Novo concluía tratar-se de um “simpatizante avançado, género
ordinário e sem vergonha”. E sobre Maria de Lourdes Braga Temido, num relatório
com a data de 16 de Abril de 1948, afirmava: “Possui carro que guia (o marido
vai ao lado como lacaio e com atitude de anjinho pois nada percebe de automóveis)”
(PMS – ob. cit., 2019, ps. 225, 226 e
279).
“Inácio”
teria sido um informador especial, na medida em que não se limitava a
desempenhar as funções habituais do delator. Tratava-se de um “homem que
incorporava a ideologia e os valores do regime, situado até na sua ala mais
conservadora”, que, na sua ânsia de garantir a ordem, ousava tecer algumas
sugestões e críticas à actuação das autoridades (PMS – ob. cit., 2019, p. 267) e chegou mesmo a receber/coligir
informações disponibilizadas por outros informadores. Desempenhou, por
conseguinte, um importante papel ao nível da referenciação e da vigilância dos
principais elementos da oposição em Coimbra, com especial enfoque no meio
universitário.
Compreender os motivos que teriam
permitido que a identidade de “Inácio” não fosse revelada durante o longo
período em que se manteve activo (1935-1971), ainda para mais numa cidade
pequena como Coimbra, não é tarefa fácil. Poderia ser um “excelente actor”,
como PMS sugere (p. 45), mas também é provável que o delator em causa não fosse
tão íntimo das pessoas que denunciava, ao contrário do que pretendeu fazer
crer, talvez até para justificar junto da polícia política o seu
trabalho/remuneração. O que também nos ajudaria a compreender a inequívoca
tendência daquele para exagerar cenários comunistas ou desferir violentos
ataques pessoais aos visados nos seus relatórios/denúncias.
Face ao exposto, importa concluir
que estamos perante um estudo meritório, que é redigido num estilo claro e
fluido e atinge o seu auge quando a identidade do misterioso “Inácio” é
revelada. Até pelo aturado e demorado trabalho de investigação subjacente,
teria, contudo, sido importante proceder a um trabalho de depuração do texto,
quer ao nível da virgulação, da acentuação, da ortografia e de pequenas gralhas.
Outrossim, teria sido interessante desenvolver os dados biográficos a respeito
de “Inácio”, de modo a que o leitor compreendesse melhor o homem e as suas
circunstâncias. Essa opção, em articulação com um maior esforço de síntese e selecção
de apenas alguns relatórios considerados mais significativos, enriqueceria,
segundo penso, ainda mais a obra. Do ponto de vista metodológico, faltou
introduzir a fundamental lista de siglas utilizadas, de modo a facilitar a
tarefa do leitor.
O
legado de Abril de 1974 passa, sobretudo, pelo permanente desafio ao pensamento
individual, para o qual se revela essencial, segundo penso, o contacto com os
livros com inequívoca qualidade literária e científica. A obra do historiador
PMS ajuda-nos a compreender um pouco melhor a dimensão do legado que herdámos
de Abril, mas também a importância determinante que os informadores tiveram
para a própria sobrevivência do Estado Novo, ao longo de mais de quatro décadas
(1933--1974).
Comemorar
Abril também deve passar por ler, partilhar e discutir livros como aquele que
PMS nos deixou. Esta também é a minha forma de agradecer ao autor o seu
meritório esforço para continuar a construir História, num país onde, nas mais
variadas áreas da sociedade, o espectáculo do entretenimento se sobrepõe cada
vez mais ao conhecimento e à reflexão.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
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quinta-feira, 25 de abril de 2019
Fundação dos Afetos com letras (Guine Bissau)
O nosso mundo é tão injusto. Falo insistentemente com os meus alunos da sorte que eles têm por poderem ir à escola. Infelizmente isso ainda não é possível para milhares de crianças, onde esse direito lhes é vedado, porque simplesmente nasceram num país e numa família que não lhe dá esse direito. É muito triste. Força àquelas crianças que lutam por aprender.
Joana Benzinho é um exemplo. Aquando de uma visita à Guiné Bissau esta Portuguesa no Mundo apercebeu-se que as crianças na Guiné Bissau que lutavam para ir à escola e trabalhavam no Verão para concretizar esse sonho. Esta Portuguesa no Mundo criou a Fundação Afetos com letras, uma ONG reconhecida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Português, que possibilita através da construção de escolas e bibliotecas que neste país milhares de crianças possam ter acesso à educação.
Joana Benzinho é um exemplo. Aquando de uma visita à Guiné Bissau esta Portuguesa no Mundo apercebeu-se que as crianças na Guiné Bissau que lutavam para ir à escola e trabalhavam no Verão para concretizar esse sonho. Esta Portuguesa no Mundo criou a Fundação Afetos com letras, uma ONG reconhecida pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros Português, que possibilita através da construção de escolas e bibliotecas que neste país milhares de crianças possam ter acesso à educação.
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domingo, 31 de março de 2019
Dia Mundial da Paz
Anualmente no primeiro dia de cada ano comemora-se o do dia Mundial da
paz. Infelizmente o Mundo está repleto de situações de guerra e conflitos, onde
quem mais sofre são os mais frágeis ou seja as crianças e o idosos.
Para a comemoração deste dia, o papa Francisco dirigiu-se aos fieis
indicando os males latentes na política como a corrupção, o abuso de poder, enriquecimento
ilegal, xenofobia e racismo. Todos estes abusos dão azo a guerras e consequente
à necessidade de as pessoas procurarem melhores condições de vida noutros
locais aumentando as migrações.
As migrações são muitas vezes observadas de forma negativa pelas
populações locais que vêm os seus empregos em risco com a entrada de
estrangeiros no seu país.
Sobre a mensagem do Papa Francisco queria realçar a necessidade de em
primeiro lugar os governos fazerem bem o seu papel gerindo convenientemente os
seus recursos distribuindo-os de forma homogénea pela população local de forma
a que esta não sinta necessidade de sair por motivos políticos ou religiosos. Por
outro lado os países mais desenvolvidos que são uma fonte de esperança para
pessoas que perderam tudo deverão mudar a sua mentalidade recebendo esta gente
jovem que poderá ser uma mais valia para a dinamização do país. O caso do
Fundão é um caso a observar com a atenção e repetir, pois houve sucesso no processo
de integração dos imigrantes.
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Tiago Sousa
sábado, 30 de março de 2019
A romancista da ALDEIA DOS VENTOS
Ermelinda
da Silva (1922-2019) foi uma escritora autodidacta de Vila Franca da Beira, que
subiu a pulso a “íngreme cordilheira das letras”. No total, deu à estampa
quatro obras: Da Realidade à Fantasia
(1988); Sofia – A mãe solteira (1992); A Toutinegra do Moinho (1999) e A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma
chora (2006).
Filha de um agricultor e de uma
mulher que se dedicava aos afazeres domésticos, foi profundamente influenciada
por um avô, que lhe passou precocemente para as mãos um dicionário ilustrado
que a jovem passou a ler de fio a pavio, como se de um autêntico romance se
tratasse. Poupada às lides agrícolas, acostumou-se, como fazia questão de
recordar, a ouvir o povo tratá-la por fidalga.
Na década de 30, já depois de
concluir a 3.ª classe, preparou-se, sob a orientação da professora Clarisse,
para o temido exame da 4.ª classe, acabando reprovada “devido aos problemas
aritméticos”. Casou-se em 1946, cerca de um ano após o fim da II Guerra
Mundial, com Manuel Abrantes, mais conhecido como “Vidal” (1920-2012). Nesse
mesmo ano, o casal teve o primeiro e único filho, que ainda hoje lá na aldeia
todos conhecem simplesmente como Vidal.
Segundo a própria narrou, em
entrevista gravada em 2017, teria começado a escrever devido a um episódio dramático,
mas relativamente comum na primeira metade do século XX: a inesperada gravidez
de uma rapariga solteira. Este acontecimento, que implicava um estigma profundo
para todas as mulheres que o vivenciavam, sobretudo nos meios rurais, deixou
também marcas profundas em Ermelinda da Silva. Obcecada pelo sofrimento da
jovem e pela “desonra” da família, Ermelinda passou a ter insónias frequentes e
apenas começou a descansar um pouco quando decidiu verter para o papel uma
versão romanceada daquele trágico episódio. A fazer fé no testemunho da
romancista, esta teria marcado a sua primeira incursão literária, infelizmente
destruída pela própria após o traumático falecimento do marido, já em 2012. É,
porém, provável que o facto em causa tenha de algum modo sido recuperado quando
redigiu Sofia – A mãe solteira,
romance dado à estampa em 1992.
Em 1948, o casal foi viver para o
Porto, onde passaram a dirigir um restaurante. Ermelinda da Silva ocupava-se,
fundamentalmente, da cozinha e aproveitaria todos os raros intervalos (até
mesmo quando estava a fazer fritos!) para ir lendo: caso do extinto periódico O primeiro de Janeiro, mas também do
romancista histórico António Campos Júnior (1850-1917), com A ala dos namorados e A rainha madrasta. Depois chegou mesmo a
alugar livros, que ia religiosamente lendo todos os dias, como se de uma
obrigação se tratasse. Em 2017, com 95 anos, a minha conterrânea
Vila-Franquense continuava a recordar-se destas leituras, quase como se as
tivesse concretizado na semana anterior.
À semelhança do que já tive
oportunidade de escrever (prefácio à reedição da obra Da Realidade à Fantasia, em 2016, pela Câmara Municipal de Oliveira
do Hospital), todos temos pais espirituais, além dos biológicos. Para mim,
Ermelinda da Silva foi a minha “mãe” espiritual. A partir daqui, tudo o que eu
possa dizer será necessariamente escasso para reafirmar a admiração que tenho
pela extraordinária autodidacta, com a qual descobri uma das maiores lições da
vida, quiçá mesmo uma das mais árduas de concretizar: a importância de aprender
a ouvir os outros, antes de tentar dizer ou escrever o que quer que seja.
Ermelinda da Silva predispôs-se,
sobretudo, a ouvir o povo, ao qual foi colher uma grande parte da matéria-prima
para escrever as suas obras. Algumas delas, segundo penso, mereciam mesmo uma
projecção nacional, caso do romance A
Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora, que abre de um modo
magistral: “Seguramente o pensamento de Zé Luís era um caminheiro sem destino,
ou seria como pêndulo de relógio no seu toque, toque”. De resto, prosseguindo o
esforço cultural que a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital tem vindo a
desenvolver nos últimos anos, acredito que seria de todo pertinente proceder a
uma reedição, pelo menos, da referida obra, garantindo, no entanto, que a mesma
fosse previamente expurgada de gralhas e outros lapsos que, lamentavelmente,
integraram a 1.ª edição.
Trata-se
– não será despiciendo afirmá-lo – de uma autora progressista, sempre
preocupada com os leitores, nomeadamente os mais jovens, aos quais, de resto,
sempre procurou infundir uma mensagem de esperança e de valorização do estudo e
do trabalho. As personagens dos seus livros aparecem insufladas de um tal
humanismo, que não podem deixar de parecer-nos familiares. Personagens tão
reais que, por vezes, temos a impressão de poder tocá-las nas nossas
deambulações quotidianas. A título ilustrativo, atente-se nesta fala da
personagem Adriana a Zé Luís, inserta na obra A Aldeia dos Ventos. Lágrimas que a alma chora: “– Solta-te pá,
vamos curtir. Não me digas que ainda és virgem? Se assim for, não sabes o que é
um beijo profundo, sensual, caraças, nunca tiveste uma experiência amorosa?”.
São, pois, feitas de carne e osso todas as personagens ressuscitadas por Ermelinda
da Silva, mas sempre caldeadas pelo denso nevoeiro em que habita a imaginação;
véu sem o qual, aliás, toda a vida se tornaria insuportável.
Ermelinda
da Silva era uma mulher divertida, emotiva e muito atenta aos detalhes. Uma
mulher que manteve uma lucidez e uma tremenda vontade de aprender praticamente
até aos últimos instantes da vida e que, também por isso, procurou estabelecer
laços sociais, sobretudo, com pessoas que a ajudassem a adquirir novos
conhecimentos. Sempre pronta para uma boa conversa, em redor de um chá com
bolinhos, mostrava-se uma interlocutora acutilante e incisiva nas suas críticas
ao Homem e à sociedade. Privou de perto com nomes como Tarquínio Hall
(1915-2002) e Manuel Cid Teles (1911-2009), que chegaram a buscar a companhia
da sua família, em Vila Franca da Beira.
Tive
o raro privilégio de frequentar a sua casa e assistir quase em directo ao acto
da criação literária no seu escritório franciscano. Quando decidi entrevistá-la,
em 2017, para além das notas que fui escrevinhando no caderno de capas pretas
que sempre me acompanha, optei por colocar em cima da mesa o gravador. E em boa
hora o fiz, pois recordar a sua voz continuará a ser pela vida fora uma maneira
de ir matando saudades da melhor romancista que algum dia tive oportunidade de
conhecer. Uma Amiga, com a qual aprendi muito; uma mulher que apenas concluiu a
3.ª classe e, sacrificando o próprio património familiar, perseguiu o sonho de
tornar-se escritora, numa terra (num país) onde poucos são aqueles que lêem ou
revelam verdadeiras preocupações culturais. Uma mãe e esposa muito dedicada aos
seus, acompanhada ao longo de quase sete décadas por um homem (Manuel Abrantes
“Vidal”) que, numa sociedade ainda profundamente machista, soube compreender
desde muito cedo as aspirações culturais da esposa e tudo fez para ajudar a
concretizá-las.
Deixo-vos
apenas com algumas das lições que fui colhendo de Ermelinda da Silva. Haveria
outras, muitas, mas estas são apenas algumas daquelas que fui escrevendo e
registando. A sua mensagem é mais vasta e continua viva nas obras que editou.
Vale a pena marcar um encontro com as palavras que nos legou.
I – “O povo é poeta, transpira
poesia, e nem se dá conta disso”;
II – “Não somos todos iguais”;
III – “Estudar também é trabalhar,
faz suar”;
IV – “O amor é perdão”;
V – “Rasguei tanto, tanto! Andei à
deriva como um barco, mas teimei e avancei”;
VI – “É forçoso ler e escrever.
Também é uma forma de fugir às futilidades”;
VII – “Os dias mais felizes da minha
vida: o casamento (a minha mãe abraçou-
-se a mim a chorar de alegria, assim que saí da capela); o dia em que nasceu o meu filho e quando editei o meu primeiro livro”;
-se a mim a chorar de alegria, assim que saí da capela); o dia em que nasceu o meu filho e quando editei o meu primeiro livro”;
VIII – “O povo está deslumbrado”;
IX – “Quem quer escrever tem de ler.
Ler muito e ouvir o povo. É preciso auscultar o povo”.
Analisada
à luz das suas circunstâncias, Ermelinda da Silva é, sem margem para dúvida,
uma lição de vida. Por isso, bem merecia outro texto de maior fôlego. Esta foi
apenas a homenagem possível a uma autora que me marcou profundamente. Uma
Amiga, à qual sempre ficarei grato.
Renato
Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
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segunda-feira, 25 de março de 2019
Uma imagem e uma história para refletirmos
Alheia ao que se passa ao seu redor, junto à praça do município da Beira, Zinha tenta secar os seus livros uma semana depois da sua casa, de construção precária, ter desabado. Para além da sua vontade de aprender ela quer salvar o seu único bem: os livros de distribuição gratuita.
by
Rui Miguel Lamarques
Grupo 420( Facebook)
https://www.facebook.com/groups/1480385788912391/
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país!
Mas não de acordo com o ranking das escolas, onde a Básica do Bairro Padre Cruz, em Lisboa, ficou em 1044o. Aliás, dependendo do ranking das escolas, pais e alunos fugiriam a sete pés desta escola, rapidamente levando ao seu encerramento e ao fim de um dos pilares deste bairro social.
Porque na Básica do Bairro Padre Cruz nenhum aluno fica sem comer. E há muitos em risco de passar o dia sem comer. Para muitos, a refeição na escola será a única do dia inteiro. Para muitos, poder comer é a razão de ir à escola. Mas não só.
Porque a Básica do Bairro Padre Cruz coloca o carinho e o afecto antes do currículo, fazendo de tudo para que os alunos passem mais um dia na escola e menos um dia na rua, passo a passo reconstruindo as vidas perdidas de tantas crianças perdidas. O Bairro Padre Cruz é assim chamado em homenagem ao Padre Francisco Rodrigues da Cruz e a uma vida dedicada em pleno aos mais desfavorecidos. E outra coisa não se pode dizer sobre a sua Escola, onde os professores são mesmo a família que os alunos nunca tiveram, nunca terão, têm agora, na escola, na professora, nos professores e auxiliares, no Director da escola.
Porque um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor.
E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças,tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que
somos.
É impossível não nos envolvermos. É impossível não nos emocionarmos. E esta é a maior aprendizagem de quem vem ensinar para esta escola. Esta é a maior prova de crescimento num corpo docente com 60% de professores novos este ano, professores esses que em setembro estarão noutro lado, isto se não estiverem desempregados.
Meus caros, a mobilidade docente é um crime. É dizer às crianças que não há mais ninguém. É deixá-las por sua conta. É deixá-las à deriva no meio da tempestade, outra vez, e ninguém se habitua a uma tempestade. À deriva, as tempestades aumentam. É frustrar as expectativas, os sonhos, as lágrimas, é criar mais raiva, mais ódio, solidão, angústia.
Não obstante, sem desistir, esperançosos, os professores multiplicam-se e desdobram-se entre as aulas e os apoios individuais, entre os projectos e as reuniões com os pais, educando alunos mas também famílias inteiras, fazendo milagres com os poucos recursos ao seu dispor. Isto porque a diminuição do número de alunos ao longo da última década levou sucessivos governos a retirar à escola desde psicólogos ao grupo de teatro, sem esquecer o grupo de música, as colónias de férias, visitas de estudo. Outro crime, e os alunos não são números, as crianças não são números, mas são, são o futuro, o nosso futuro, nem por isso risonho. A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país! Digam o que disserem. Por não se limitar a ensinar, a formar, por querer saber de facto sobre as crianças, por viver os seus problemas, por sair dos muros da escola ao encontro do bairro, por abrir as portas ao bairro, por fazer parte de um todo e no todo trabalhar, sem parar, à procura de respostas. E as respostas para o abandono escolar, para as reprovações consecutivas, para o analfabetismo, para os problemas sociais e as famílias desestruturadas começam pela fixação do corpo docente. Para que estas crianças possam voltar a sonhar. E nós também.
Rui Cardoso
http://www.arlindovsky.net/2019/02/a-escola-basica-do-bairro-padre-cruz-e-a-melhor-escola-do-pais-joao-andre-costa/
Porque na Básica do Bairro Padre Cruz nenhum aluno fica sem comer. E há muitos em risco de passar o dia sem comer. Para muitos, a refeição na escola será a única do dia inteiro. Para muitos, poder comer é a razão de ir à escola. Mas não só.
Porque a Básica do Bairro Padre Cruz coloca o carinho e o afecto antes do currículo, fazendo de tudo para que os alunos passem mais um dia na escola e menos um dia na rua, passo a passo reconstruindo as vidas perdidas de tantas crianças perdidas. O Bairro Padre Cruz é assim chamado em homenagem ao Padre Francisco Rodrigues da Cruz e a uma vida dedicada em pleno aos mais desfavorecidos. E outra coisa não se pode dizer sobre a sua Escola, onde os professores são mesmo a família que os alunos nunca tiveram, nunca terão, têm agora, na escola, na professora, nos professores e auxiliares, no Director da escola.
Porque um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor.
E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças,tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que
somos.
É impossível não nos envolvermos. É impossível não nos emocionarmos. E esta é a maior aprendizagem de quem vem ensinar para esta escola. Esta é a maior prova de crescimento num corpo docente com 60% de professores novos este ano, professores esses que em setembro estarão noutro lado, isto se não estiverem desempregados.
Meus caros, a mobilidade docente é um crime. É dizer às crianças que não há mais ninguém. É deixá-las por sua conta. É deixá-las à deriva no meio da tempestade, outra vez, e ninguém se habitua a uma tempestade. À deriva, as tempestades aumentam. É frustrar as expectativas, os sonhos, as lágrimas, é criar mais raiva, mais ódio, solidão, angústia.
Não obstante, sem desistir, esperançosos, os professores multiplicam-se e desdobram-se entre as aulas e os apoios individuais, entre os projectos e as reuniões com os pais, educando alunos mas também famílias inteiras, fazendo milagres com os poucos recursos ao seu dispor. Isto porque a diminuição do número de alunos ao longo da última década levou sucessivos governos a retirar à escola desde psicólogos ao grupo de teatro, sem esquecer o grupo de música, as colónias de férias, visitas de estudo. Outro crime, e os alunos não são números, as crianças não são números, mas são, são o futuro, o nosso futuro, nem por isso risonho. A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país! Digam o que disserem. Por não se limitar a ensinar, a formar, por querer saber de facto sobre as crianças, por viver os seus problemas, por sair dos muros da escola ao encontro do bairro, por abrir as portas ao bairro, por fazer parte de um todo e no todo trabalhar, sem parar, à procura de respostas. E as respostas para o abandono escolar, para as reprovações consecutivas, para o analfabetismo, para os problemas sociais e as famílias desestruturadas começam pela fixação do corpo docente. Para que estas crianças possam voltar a sonhar. E nós também.
Rui Cardoso
http://www.arlindovsky.net/2019/02/a-escola-basica-do-bairro-padre-cruz-e-a-melhor-escola-do-pais-joao-andre-costa/
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domingo, 20 de janeiro de 2019
Momentos só nossos
O rebuliço profissional de
segunda a sexta, onde saímos de casa muito cedo e chegamos tarde dentro impede-nos
de desfrutar os momentos em família com a nossa criança que cresce tão rapidamente.
Com a velocidade dos dias, basta descuidamos por breves semanas e não nos apercebemos
quando ele dá os primeiros passos e passa repentinamente do gatinhar para o correr
sem passar por o andar. A vontade de viver transparecida nos olhos da criança
enchem-nos os olhos de água por percebemos que não é possível desfrutamos e
dar-lhe toda a atenção que ela merecia. Enfim no meio daquela semana de
trabalho tentamos naquela hora de jantar e antes de o deitar dar-lhe todos os
abraços e carinhos que não demos durante o dia.
O fim de semana é um tempo mágico
que passa num estalar de dedos. Nesses dois dias tentamos conciliarmo-nos enquanto pais
e dar-lhe tempo para passear e estar verdadeiramente com ele. É bom perceber em família que com vinte e poucos meses já
articula há muito tempo o nome do pai e da mãe para não falar da restante
família. É maravilhoso cantar-lhe as músicas tradicionais e perceber que ele
tenta imediatamente imitar-nos e no fim bate as palminhas com um imenso ar de
satisfação.
Ao domingo de manhã geralmente o
pai costuma ir passeá-lo para que este
possa desfrutar da natureza. O deleite daquele passeio de domingo de manhã já
não dispensamos. A ida ao parque do Mandanelho ver os “patos cá, cás” é já uma rotina,
pois ele quando lá chega fala logo deles. Por norma os passeios no parque têm dois
períodos, o primeiro onde este caminha livremente naquele espaço amplo pisando
as folhas secas do Inverno ou então a areia grossa das áreas reservadas às diversões.
Sentir o olhar de felicidade na criança,
transparece de imediato para os pais. Após um conjunto de longas caminhadas
chegamos finalmente ao segundo momento, o lago dos patos localizado a Norte do parque numa zona
baixa. Sentados na margem do lago sobre uma laje de granito observamos muito atentos os sons
balbuciados por estes animais na sua linguagem muito característica. Depois de
observar com muita atenção toda aquela envolvência este diz por vezes expressões como: “estão a tomar
banho” ou “tantos patos cá, cás”. São momentos que vão passar muito rápido, no
entanto é sinal que está a crescer bem e feliz e isso deixa-nos tão tranquilos.
Sentimos que é uma criança
muito feliz e que se sente muito bem na sua escola. Isso dá-nos um conforto e
força para enfrentar mais um dia de trabalho e calcorrear centenas de quilómetros
diariamente. Obrigado a todos que nos ajudam diariamente.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
A capacidade de incluir
Há um tempo atrás ouvi na rádio
uma entrevista de um dos responsável pela Operação Nariz Vermelho que numa
conversa com o diretor de um Hospital,diziam: Diretor do
Hospital “os hospitais não são sítios para palhaços”; responsável Operação
Nariz Vermelho “se não é para palhaços também não deveria ser para crianças.”
Perceber as necessidades de uma
criança no século XXI é algo que não está intrínseco a qualquer pessoa. Em dois
discursos que pude compartilhar no primeiro trimestre do ano letivo apercebi-me
disso: O primeiro ocorreu algures no mês de Novembro nos bancos da cantina da escola
C+S da Pampilhosa da Serra. Por acaso no meio da refeição surgiu à conversa
qual seria o nome do irmão de uma criança de 4 anos que está para nascer no
início de 2019, ao que esta com a inocência característica da sua idade disse
que se chamaria António. Eu sem conhecer o contexto familiar congratulei a
criança e os pais pelo nascimento ao que as funcionárias com um ar desgostoso
disseram que infelizmente seria mais um para somar à miséria que jaz naquela
casa onde já há 4 criança, e não existem as condições mínimas para as poder
sustentar. A segunda história decorreu num dos múltiplos trajetos entre a
Pampilhosa da Serra e Oliveira do Hospital no qual para reduzir custos
repartimos as boleias. Um colega comentou que há uns anos atrás um professor de Matemática que lecionava no arquipélago dos Açores foi mandado parar por um homem que o ameaçou
que se lhe tirassem a mulher eles iriam arrepender-se. A mulher era uma menina de
15 anos que já estava a viver com um adulto.
Infelizmente são histórias vividas em pleno século XXI em Portugal
Continental ou no Arquipélago dos Açores que nos entristecem, enquanto
cidadãos de Portugal e do Mundo.
Em Portugal com
o prolongamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano e com a nova
legislação para os alunos com necessidades seletivas adicionais(antigos alunos com necessidades educativas especiais), a escola tem
responsabilidades acrescidas que não detinha há uns anos atrás onde os alunos
só eram obrigados a permanecer na escola até aos 16 anos.
Ter a capacidade de incluir alunos com necessidades seletivas
adicionais, numa turma com
alunos com capacidades cognitivas normais é por vezes uma tarefa hercúlea que
os professores estão ainda a adaptar-se. Perceber o que fazer a alunos que numa
turma do 3º ciclo não são capazes de
reconhecer países da Europa, ou que devido às sua deficiência por serem
autistas não são capazes de fazer muito mais além de pintar ou associas
tabelas, gera dificuldades aos professores que têm de cumprir o currículo e
chegar a um maior número de alunos possível.
Apesar de não me sentir preparado considero a integração na sala de aula dos antigos alunos com Currículo Específico Individualizado (CEI), que agora se designam alunos com medidas adicionais, por terem mais dificuldades cognitivas, pode ser positivo para a sua evolução cognitiva,
no entanto considero que deviam ser dadas mais horas aos docentes, pois os objetivos
curriculares mantiveram-se exatamente os mesmo com vários reveses entre os
quais destaco um que me chateou particularmente, termos de preencher um
quantidade infindável de grelhas sem qualquer utilidade.
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