segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Cid Teles, a cigarra do Triste Fado (A obra poética)



A obra poética
A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (volume XXXI) registou as seguintes notas biográficas a respeito de Cid Teles: “Poeta, nascido em 1910 [na verdade, 1911], em Tábua. Residiu durante anos no Porto, onde publicou os seguintes livros de versos: As Minhas Quadras, 1932; Sombras, 1934; e Chuva de Estrelas, 1947. Tem colaborado em jornais e revistas literárias”.
Além das obras já anteriormente mencionadas, Cid Teles escreveu ainda Sou como sou (1945); Canta cigarra, canta! (1999) e Farrapos da Minha Vida (2002). As quadras e os sonetos do autor, que já tinham sido publicados, foram reunidos, em 2006, numa colectânea intitulada Tendo Embora Um Triste Fado…, que contou ainda com as “Quadras Soltas” (inéditas). Já a título póstumo, foi publicada a obra São Restos, 2011, que, importará realçá-lo, contém um notável prefácio de Francisco Correia das Neves (1929-2017). Segundo o próprio poeta, numa entrevista que concedeu aos alunos de uma escola, em data que não conseguimos precisar (pode ser consultada a partir da página digital da CM de Oliveira do Hospital), este teria escrito o primeiro poema por volta dos sete anos e tê-lo-ia dedicado ao pai:

Quando estou ao pé de ti
Passa o tempo de corrida
Tu és o dia mais lindo
Dos dias da minha vida.

            Manuel Cid Teles: poeta, pianista, ensaiador de grupos de teatro do concelho de Oliveira do Hospital e de vários ranchos folclóricos; professor de canto coral no antigo Colégio Brás Garcia de Mascarenhas; actor, com inegável voz de tenor, e autor de peças de teatro; amigo e colaborador de Manuel Lereno (1909-1976); declamador, por exemplo no programa de rádio “Poesia, Música e Sonho” da antiga Emissora Nacional ou na rubrica “Querida manhã” da Rádio Boa Nova; pintor autodidacta, especialmente de aguarelas; colaborador de vários jornais e revistas, como sejam Voz de Lamego, Comércio de Leixões ou A Comarca de Arganil.
            Apesar da grande quantidade de quadras e sonetos que Cid Teles nos legou, os temas privilegiados nas suas composições são relativamente fáceis de delimitar. De um modo geral, giram em torno do amor, da infância, da morte e da religião.
            Sigmund Freud (1856-1939), considerado o pai da psicanálise, teria escrito que o inconsciente não tem tempo. O estudo dos versos que nos legou Cid Teles permite-nos aceder à noite mais escura que o poeta carregava dentro de si e ao modo como este tentou conferir sentido à existência, nessa permanente tensão entre passado, presente e futuro.
O mundo literário de Cid Teles é atravessado por uma permanente saudade de um sujeito que se assume como um eterno insatisfeito. Um drama que o pai do poeta, Manuel Madeira Teles, parece ter adivinhado desde muito cedo:

Vejo-o tentar subir, com alvoroço,
Alturas onde, ao meio, o pai cansou;
Vai subindo… mas como começou
Eu acabar devia e não posso.

Deixam-lhe os versos só a pele e o osso,
E aos vinte anos já tanta dor cantou
Que alguém, de boa fé, o proclamou
“Venerando poeta”!... Pobre moço!

Enlaça-nos o nome e a poesia,
Mas levamos os dois trocado o trilho,
Ele atrás da Tristeza, eu da Alegria…

E assim a Natureza errada vai:
Eu sou um pai mais moço do que o filho,
Ele um filho mais velho do que o pai!...

            Debrucemo-nos agora, amigo leitor, perante aqueles que poderão ser considerados os temas aglutinadores da obra do poeta.
            I – Amor
            Trata-se de um dos temas mais recorrentes da obra poética de Cid Teles. Um dos separadores do seu livro Farrapos da minha vida intitula-se “Lembranças de amores passados”. O poeta deixou-nos alguns dos mais belos e ternos sonetos de amor, como seja este que tem o título “Primavera”, inicialmente dado à estampa na obra Sou como sou:
[…]
                Na doce suavidade das tardinhas
                Gemem rolas nas moitas de jasmim,
                Antigamente, quando tu não vinhas,
                Nem primaveras havia para mim.

                Agora sinto-a em tudo, basta ver-te.
                Trago-a na alma! É primavera querer-te
                Assim como eu te quero, imensamente…

                O inverno é sempre triste de passar,
                Meu amor, meu amor, deixa-te estar
                E será primavera eternamente!

            Trata-se de um amor quase sempre não correspondido, que provoca sofrimento no sujeito poético. Um sofrimento que atravessa toda a obra de Cid Teles e, implicitamente, parece ter atravessado toda a sua vida.
            O amor telesiano é, fundamentalmente, um amor platónico, de um indivíduo que idealiza alguém que não existe e que, por esse motivo, se transforma num inferno, quando concretizado. Atente-se no seguinte excerto retirado dos Farrapos da minha vida:

Persegui-te anos a fio
             Na fé de te possuir.
             Hoje acordei a teu lado
             E apetece-me fugir…

            II – Infância
            Eis a idade mítica do poeta, ao qual este regressa ciclicamente para reconstruir, de modo idealizado, o que nunca teve. Recorde-se que a infância de Cid Teles foi marcada por constantes deslocações, motivadas pela situação profissional do pai, o que teria dificultado a criação de amigos. A perda dos pais e a posterior morte da irmã implicou a perda da sua família biológica, levando o poeta a recordar sistematicamente o passado, quando, supostamente, ainda estaria completo. Daí essa saudade permanente, não só por aquilo que existiu, mas por tudo o que o poeta (um profundo fingidor, como diria Fernando Pessoa: 1888-
-1935) procurou permanentemente reconstruir, nesse esforço para conferir sentido à existência.

            III – Religião
            Na fase final da vida, Cid Teles confessava ser um profundo crente. Encontramos com alguma frequência a palavra Deus nos versos que nos legou. O poeta, sublinhe-se, acompanhou musicalmente, durante vários anos, as celebrações litúrgicas católicas, permitindo, assim, de acordo com as palavras de António Simões Saraiva (1927-), “que a sua música imprimisse mais intimismo, numa ligação mais espiritual com os Mistérios do altar”.
            Um dos separadores da obra Farrapos da minha vida, dada à estampa em 2002, intitula-se “Lições de Deus, do Mundo e da vida”. Atente-se nas seguintes quadras:

Só procura Deus no Céu
O que não sabe nem sente
Que Deus anda neste mundo,
Em tudo e em toda a gente!
[…]
Só na justiça de Deus
Tenho inteira confiança,
Pois na dos homens não vejo
Que esteja certa a balança...  
           
IV – Morte
            Cid Teles confessou que a morte o assustava, quando ainda tinha a família biológica viva. Ouçam-se os Farrapos da minha vida:

Não foi nunca a minha morte
Que temi ou temerei.
O triste, p’ra mim, da morte,
Foi ver morrer os que amei.

Habituado, desde muito cedo, a conviver com os mais velhos, a cuidar dos mais idosos (foi ele que tratou dos pais e da irmã, na fase final da vida). Nas entrevistas que concedeu, o poeta reconheceu que o seu posicionamento perante a morte evoluiu para a aceitação da necessidade de um fim. Ainda assim, logo na sua obra de estreia (As minhas quadras), aos 21 anos, escreveu:

Dizem ser a morte triste
Mas é engano, afinal,
Pois nos lábios de alguns mortos
Há um sorriso sem igual.

            A recta final da vida de Cid Teles foi marcada pela permanente consciência da decadência física e da irreversível proximidade do fim, constituindo mesmo um dos temas mais recorrentes da sua produção poética. Eis alguns versos retirados dos Farrapos da minha vida:

          Das saudades a saudade
             A mais cruel e atroz
É a saudade que a gente
Um dia sente de nós!...

            Dito isto, falta apenas marcar o próximo encontro, agora em torno de algumas das representações (narrativas ou imagens) divulgadas, ao longo do tempo, pela imprensa a respeito de Cid Teles. Até lá, insisto, vale a pena regressar à obra do poeta e à geografia literária dos seus percursos por Oliveira do Hospital.
 
Casa onde morou o poeta, em Oliveira do Hospital: Largo Ribeiro do Amaral, na rua que dá acesso à Caixa Geral de Depósitos

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Cid Teles, a cigarra do Triste Fado (Possíveis influências)


Possíveis influências
            Não é fácil identificar as influências de um indivíduo. Ainda assim, o estudo dos seus percursos, da sua época, das relações interpessoais travadas, da biblioteca pessoal e dos próprios vestígios que foi deixando, quer nas obras, quer nas entrevistas concedidas, constituem importantes fontes onde os investigadores podem beber inspiração. Através do seu cruzamento será possível traçar uma imagem mais objectiva a respeito dos locais e das pessoas onde o autor foi colher algumas das influências, que o ajudaram depois a forjar o seu pensamento e o estilo.
            Nos artigos anteriores, ficou evidente o quão trágico foi para Cid Teles a perda dos pais, em 1945, bem como a morte da irmã, Inácia, já nos anos 90, do século passado. As constantes deambulações a que foi sujeito durante a infância, devido à situação profissional do pai, o contacto precoce com pessoas mais idosas, bem como o interesse pela poesia ajudam-nos a compreender um certo carácter introspectivo do indivíduo, bem como a sua permanente nostalgia em relação à idade mítica de uma infância, que adivinhamos bastante solitária.
            A poesia telesiana é atravessada por um inequívoco pendor existencialista e saudosista. Isto para já não falar nas contradições próprias do poeta, um ser que se busca, mas que sabe estar condenado a nunca se encontrar. Ora, entre as possíveis influências literárias do poeta é forçoso destacar os casos de Fausto Guedes de Teixeira (1871-1940), poeta de Lamego que, em 1932, teria apadrinhado com um soneto a obra de estreita de Cid Teles, mas, sobretudo, Florbela Espanca (1894-1930), poetisa que Cid Teles teve oportunidade de conhecer.
            Na entrevista que concedeu à Rádio Boa Nova, em 22 de Setembro de 2006, perante a insistência da jornalista Ângela Cunha, o poeta radicado há várias décadas no concelho deixou a seguinte mensagem aos jovens:

                               Aos jovens, a mensagem que lhe deixo é que aproveitem a sua vida, que realmente vivam a sua mocidade e sintam a graça que têm que dar a Deus de estarem jovens, de poderem ir aqui, de poderem falar, poderem escrever, poderem viver. […] A morte para mim sempre me horrorizou era enquanto tinha o meu pai vivo, a minha mãe viva, a minha irmã, as pessoas que eu amava realmente, verdadeiramente… agora depois de uma certa idade encaro realmente as coisas, a minha idade e realmente até acho que a morte para mim agora é benfazeja: “Fecha-me os olhos que já viram tudo, prende-me as asas que voaram tanto” – dizia a Florbela Espanca, que era a minha vizinha em Matosinhos, casada com o Dr. Mário Lage e que fui eu até talvez um dos primeiros admiradores de Florbela… Florbela de Alma da Conceição Espanca Lage, era até o nome dela, que era casada com o Dr. Mário Lage e tudo e isso… agora “Morte, minha senhor Dona Morte, que bom que deve ser o teu abraço” – eu agora já digo isso. “Lânguido e doce como um doce laço e como uma raiz, serena e forte. Não há mágoa nem dor que não conforte tua mão que nos guia passo a passo. Em ti, dentro de ti, no teu regaço não há triste destino, nem má sorte. Dona Morte dos dedos de veludo, fecha-me os olhos que já viram tudo, prende-me as asas que voaram tanto. Vim de agoirama, sou filha de rei, má fada me encantou e aqui fiquei à tua espera. Quebra-me o encanto” – estes versos e sonetos são da Florbela Espanca. E que hoje sinto e repito muitas vezes para mim…
           
            As alusões de Cid Teles à poetisa alentejana Florbela Espanca eram recorrentes, quer durante os diálogos, quer nos versos que foi libertando. Da biblioteca pessoal telesiana, à guarda da Fundação Maria Emília Vasconcelos, em Oliveira do Hospital, faz parte, por exemplo, o livro de sonetos Charneca em Flor (edição póstuma, 1931), onde o poeta eternizou, em 13 de Julho de 1932, o seguinte desabafo: “Que dia!...”
Florbela Espanca nasceu, em Vila Viçosa (distrito de Évora), no dia 8 de Dezembro de 1894 e faleceu no dia 7 de Dezembro de 1930, em Matosinhos, sendo sepultada no dia seguinte, quando completaria 36 anos.

Florbela Espanca
            Em 1913, casou-se com Alberto de Jesus Silva Coutinho, acabando por divorciar-se (30 de Abril de 1921). Foi viver para o Porto, onde, uma vez mais, manteve um relacionamento pouco venturoso. Novo casamento, novo divórcio, seguido, em 1925, de um terceiro casamento, agora com o médico Mário Pereira Lage (?-1967). Teria sido durante este período em que que a malograda poetisa viveu em Matosinhos, que Cid Teles a teria conhecido. Florbela faleceu em Matosinhos (algumas teses apontam mesmo para a possibilidade de suicídio), sendo que, em 1949, portanto, já durante o Estado Novo, os seus restos mortais foram transladados para Évora.
            No seu Livro de Mágoas, editado em 1919, Florbela Espanca escreveu, logo no soneto introdutório:

Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo.
[…] Livro de Mágoas… Dores… Ansiedades!
Livro de Sombras…
           
Ora, o poeta que agora inspira este artigo, Manuel Cid Teles, privou de perto, em Matosinhos, com a malograda poetisa e publicou, em 1934, um conjunto de sonetos, precisamente com o título Sombras
            De acordo com M. da Graça Orge Martins, Florbela Espanca:
            Refugiava-se nos seus versos narcísicos e sedentos de um futuro que se recusava a nascer e na mágoa de um passado que nem sempre lhe fora sorridente, mas em cuja recordação saudosista procurava o bálsamo que suavizasse a sua mágoa de não pertencer a qualquer tempo, de ser uma mulher que vivia fora de uma época, exterior a todos os tempos.

                Já em relação a Fausto Guedes Teixeira, importa dizer que este poeta de Lamego nasceu, em 1871, e morreu em 1940. Publicou Náufragos (1892), Carta a um Poeta (1899), Sonetos de Amor (1922) e, a título póstumo, O Meu Livro (1941), que reúne todas as suas obras. Aquilino Ribeiro (1885-1963), o célebre romancista beirão do pícaro Malhadinhas, também se interessou pelas obras de Fausto Guedes Teixeira.
            Na biblioteca pessoal de Cid Teles, em Oliveira do Hospital, encontrei obras de Gustave Flaubert, Georges Ohnet, Jack London, Fernando Pessoa, Jean-
-Paul Sartre, José Régio, Honoré de Balzac, Stefan Zweig, Manuel da Fonseca, Guy Breton, Jaime Cortesão ou, entre outros possíveis exemplos, Florbela Espanca.
            Aqui ficam, por conseguinte, algumas das sementes que o indivíduo colheu ao longo da vida. É através delas que, afinal, também poderemos compreender a obra telesiana, matéria a respeito da qual me debruçarei no próximo artigo. Até lá, amigo leitor, perca-se na geografia literária de Cid Teles, vasculhando os mais recônditos lugares da cidade de Oliveira do Hospital. São, afinal, estes locais que também nos ajudam a compreender as palavras do poeta.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Cid Teles, a cigarra do Triste Fado (As Origens)


As origens
            O poeta que inspira estas palavras nasceu em 8 de Março de 1911, em Tábua, concelho que já durante a I República se encontrava integrado no distrito de Coimbra. Faleceu em Oliveira do Hospital, em 25 de Abril de 2009, com 98 anos.
Cid Teles era filho do poeta Manuel Madeira Teles (1872?-1945), funcionário das finanças que teria privado com o poeta António Nobre (1867-1900), e da pianista Alzira de Matos Cid Teles (1872?-1945). As notas biográficas referem habitualmente a existência de uma irmã, Inácia, mas Maria Heloísa Santos, da Bobadela (em entrevista gravada), menciona quatro irmãos, que teriam falecido primeiro: Inácia, Heloísa, Maria Rita e Luís (trata-se, porém, de uma informação que não conseguimos comprovar). Sublinhe-se que Maria Heloísa Santos teria ido para a Quinta da Coitena, por volta dos três anos, aí permanecendo a trabalhar até aos 27. Foi nesta quinta que, após a morte dos pais, em 1945, Cid Teles teria passado a viver, em conjunto com um tio.
           Quinta da Coitena(Oliveira do Hospital)

Manuel Cid Teles teria sido um fruto extemporâneo, não sendo um nascimento previsto pelos pais. Ele próprio escreveu, na obra Farrapos da minha vida:


Por um engano fatal
Na verdade ao mundo vim.
Nem minha Mãe nem meu Pai
Esperavam já por mim.

            A respeito do seu mês de nascimento, escreveu, por exemplo, o soneto “Março”, que integrou na obra Canta cigarra, canta! A primeira quadra pode ajudar-nos a compreender um pouco melhor o modo como o próprio poeta se vislumbrava:

Eu gosto do meu mês, vário, inconstante,
Que ri agora e logo se entristece,
Que tanto nos enregela como aquece,
Que é desabrido e meigo num instante.

            Manuel Teles Cid (nome de baptismo) adoptou o pseudónimo de Manuel Cid Teles na obra As minhas quadras, editada em 1932, quando tinha 21 anos. Este facto pode ajudar-nos a compreender as palavras do poeta, quando redigiu os seguintes versos, datados de 31 de Maio de 2006, e integrados nos Farrapos da minha vida: “Nem a morte há-de vencer / Dois que apenas um só são. Pode morrer o Teles Cid, / O Cid Teles é que não!”
Quando Cid Teles nasceu (1911), a I República levava apenas cerca de cinco meses de existência. De acordo com o censo geral da população portuguesa realizado em 1 de Dezembro de 1911 e divulgado em 1913, no ano em que Manuel Cid Teles nasceu, o concelho de Tábua possuía um total de 17.533 pessoas, sendo 7.503 do sexo masculino e 10.030 do sexo feminino. Nesse mesmo ano, o concelho de Oliveira do Hospital possuía um total de 27.242 habitantes, sendo 12.258 homens e 14.984 mulheres. Nesse ano, o censo contou 5.960.056 “habitantes de facto” em Portugal, o que representava um aumento absoluto de 36.972 habitantes, em relação ao último censo (1864). A taxa de analfabetismo em todo o país rondaria os 75%.
            Tábua era à época uma região periférica do país, afastada dos grandes centros de decisão, um pouco à semelhança da restante região das Beiras, que parece ter marcado, de modo decisivo, a identidade de Cid Teles. O poeta escreverá mesmo um soneto, intitulado “Canta”, onde convida o leitor a visitar aquela região situada, grosso modo, entre o Douro e o Mondego. Estes excertos fazem parte da obra Farrapos da minha vida:

Não conheces a Beira? Pois então
Faz as malas e vem por aí fora,
Que tens ao teu dispor o casarão
Da velha quinta onde vivo agora.

                                      Não hesites e vem, que a ocasião
                                      Não pode ser melhor, mesmo que embora
                                      A Beira Alta tem, quem o ignora?
                                      Um novo encanto em cada estação.

                                      É Primavera: os prados e os pinhais
                                      Estão em flor, há urzes e tojais,
                                      Giestas, rosmaninhos e afinal
Seria um crime até, se não viesses,
                                      Tu que amas a beleza e desconheces
                                      A mais bela região de Portugal!

Apesar de ter nascido em Tábua, devido à situação profissional do pai (funcionário das Finanças), a família Teles foi obrigada a deambular por várias regiões do país: Grândola, Santiago do Cacém, Montijo, Viseu… Ora, este nomadismo irá marcar profundamente o poeta, na medida em que dificultará a criação de laços de amizade com outros jovens da sua idade e motivará o seu contacto precoce com os adultos. Circunstâncias que também nos permitem compreender a sua precoce maturidade e, em certo sentido, o seu prematuro interesse pela poesia.
Nas conversas que travei com Cid Teles, já nos últimos anos da sua vida, quando ele residia no lar da Fundação Aurélio Amaro Diniz, em Oliveira do Hospital, era evidente a importância que o poeta concedia à família biológica, em especial aos pais e à irmã Inácia Cid Teles, também ela uma poetisa. A título póstumo, foi publicada a obra de versos Nada torna a voltar, na portada da qual o poeta escreveu as seguintes palavras: “Eu sempre [fui] para Ela como um filho muito querido e a Morte ao levar-ma deixou em mim e na Vida que me resta para viver, um vazio que jamais nada nem ninguém poderá preencher!”
À época das nossas conversas (2007-2009), já tinham falecido todos os familiares directos de Cid Teles, mas este convocava-os amiúde para o meio de nós, um pouco à semelhança da saudade que parecia alimentar em relação à infância. Ou pelo menos a uma certa infância, à qual regressava ciclicamente, num permanente exercício de recordação e reconstrução da suposta “idade do ouro”.
No soneto “Sonata ao luar”, dedicado à sua prima Heloísa Cid e integrado na obra Canta cigarra, canta!, Manuel Cid Teles recordou a sua mãe:

                             Da “Sonata ao Luar” o piano exala
                                      Doce lamento, e logo na lembrança
                                      Eu retorno aos meus tempos de criança,
                                      E em nossa casa corro até à sala.

                                      Ao piano, a minha Mãe. Poder pintá-la!
                                      Jovem e bela, artista por herança,
                                      Com sentimento, arte e segurança
                                      Ao piano dá o choro, o riso e a fala.
                                      No meu quartito estreito e já deitado,
                                      Eu escutava esse murmúrio alado
                                      E nunca o esqueci p’la vida além…

                                      Que da “Sonata ao Luar” a suavidade
                                      Sempre lembrar me faz – com que saudade!
                                      A nossa sala, o piano e a minha Mãe…

            E ainda sobre os pais, dirá, na obra Farrapos da minha vida:

Tendo embora um triste fado,
Nascer p’ra mim foi um bem,
Por ter tido o Pai que tive
E por mãe a minha Mãe.

            De acordo com as informações que me foram transmitidas por Maria Heloísa Santos, da Bobadela, após a morte dos progenitores, em 1945, Cid Teles teria enfrentado várias dificuldades, chegando mesmo a passar fome. Depois, teria ido viver para junto do seu tio, na Quinta da Coitena, na Bobadela, freguesia de Oliveira do Hospital. Tratava-se do terratenente José Madeira Teles (1873-1956), um fervoroso adepto da Monarquia e um posterior defensor do salazarismo.
A Quinta da Coitena parece ter exercido um papel nevrálgico na Bobadela, sendo que, na notável obra Enquadramento Histórico e Toponímia. Concelho de Oliveira do Hospital, Francisco Correia das Neves associa este topónimo “Coitena” a um “local privilegiado ou defesa ou coutada”. Maria Heloísa Santos confirma esta asserção, dizendo que na memória popular sempre circulara o rumor segundo o qual, na época da Monarquia Constitucional, quem pretendesse ficar “livre” do serviço militar deveria pedir protecção ao senhor da Coitena.
Importante terratenente, José Madeira Teles era irmão do pai de Cid Teles, Manuel Madeira Teles. Apesar de nunca ter contraído matrimónio, José Madeira Teles viria a ter um filho, ao qual acabaria por deixar os bens. À morte do tio, Cid Teles ficou, porém, com o usufruto da casa e de duas fazendas, com a obrigação de zelar pela sua manutenção. No entanto, segundo alguns testemunhos, as relações entre Cid Teles e o tio nem sempre terão sido pacíficas.
Outra das personalidades marcantes da vida de Cid Teles foi a sua irmã, Inácia, constituindo a sua morte um dos acontecimentos dramáticos da vida do poeta, que lhe dedicou o soneto “Alguém”, inicialmente integrado na obra Sou como sou:

De faces brancas como as açucenas,
   Olhos azuis do fluido azul dos céus,
   As mãos esguias, leves como véus,
   Se afagam chagas, aliviam penas.

   De cílios magoados quais verbenas,
   De barbas loiras como os Galileus,
   Dirão os crentes: tu descreves Deus!
   E num sorriso lhes respondo apenas:

   Se o homem foi à Sua imagem feito,
   O que na semelhança é mais perfeito
   Dentre os outros perfeito sobressai.

   E assim um Deus num outro Deus confundo,
   Vejo um no Céu e o outro neste mundo,
Na figura sublime de meu Pai!

Já no seu livro Canta cigarra, canta!, Cid Teles consagrou outro soneto à memória da irmã. Tem o sugestivo e dramático título “Ela partiu”:

          Ela partiu para não mais voltar,
             No mais frio e cinzento amanhecer,
             E já sem voz p’ra me poder dizer
             A mágoa que sentia em me deixar.

             Ela partiu deixando-me a penar
             A mágoa sem remédio de a perder,
             E já sem forças para procurar
             Outra qualquer razão para viver.

             Ela partiu para o distante Além
             Onde Deus encontrou, e onde também
             De novo se juntou aos nossos Pais.

             Gotas d’água deste beiral da vida,
             Uma cai, outra cai, e outra em seguida
A cair não demora muito mais!

            Como um dia escreveu Ortega Y Gasset, o Homem é o Homem e as suas circunstâncias. Dentre estas, destaca-se a terra em que se nasce/cresce, a época histórica em que se vive, a família (educação e genética), a formação cultural (escola, leituras, relações interpessoais…), para já não falar na sorte ou no azar, que também fazem parte da vida. Das influências que o poeta recebeu procurarei ocupar-me no próximo artigo. Até lá, amigo leitor, se ainda não o fez – permita-se-me a ousadia de um conselho –, vá até à Biblioteca Municipal de Oliveira do Hospital e requisite uma das obras do nosso poeta. Será, porventura, uma das formas de dar outro significado aos (cada vez mais raros) períodos de descanso…
  
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)



terça-feira, 4 de setembro de 2018

Cid Teles, a cigarra do Triste Fado (Introdução)


Introdução


Manuel Cid Teles nasceu em 8 de Março de 1911, em Tábua, e faleceu em Oliveira do Hospital, em 25 de Abril de 2009, com 98 anos. Tive apenas oportunidade de conhecê-lo na fase final da vida, quando se encontrava no lar da Fundação Aurélio Amaro Diniz. Certo é que os nossos encontros, apesar de esparsos no tempo, me marcaram profundamente.
            Ia, habitualmente, visitá-lo quando regressava dos Açores, onde estava a trabalhar desde Setembro de 2007. O modo como sempre me recebeu no seu quarto emprestado continua ainda hoje a comover-me profundamente. Quase sempre de pé, ao lado da cama, sem recorrer a qualquer registo escrito, declamou-me um sem número de poemas, uns da sua pena, outros de Florbela Espanca (1894-1930). Abrindo as gavetas, confiou-me os intermináveis (e mais estranhos) papéis, nos quais ia incessantemente rabiscando os mais recentes versos, tocou no piano improvisado, declamou efusivamente e voltou a declamar poemas, que a poesia e a música corriam-lhe no sangue quase tão naturalmente como o oxigénio que respirava. Tudo isto e muito mais, como se me conhecesse há longos anos e nos unisse uma profunda amizade. Estranhamente ou talvez não, sempre que entrei naquele refúgio senti que fazia parte da sua extensa e anónima família, pese embora o facto de ele nunca me ter perguntado quem era, onde vivia, o que fazia ou a que vinha. Certo é que o brilho do seu olhar – com o desconto que devem merecer-nos todos estes géneros de comparações feitas à distância de uma década – ainda hoje me faz lembrar a limpidez de Fernando Valle (1900-2004), um dos históricos fundadores do PS, que tive o privilégio de conhecer num fugaz encontro agendado pelo engenheiro António Campos, também ele uma das incontornáveis figuras históricas do PS.
            Servem estas palavras introdutórias para anunciar que, ao longo dos próximos artigos, irei procurar ajudar a iluminar um pouco melhor a longa vida de Manuel Cid Teles, um homem que viveu quase um século, longo período no decurso do qual Portugal viveu sob a I República, a Ditadura Militar, o Estado Novo e o pós-25 de Abril. Trata-se apenas de alguns contributos, divididos em seis artigos, para o estudo histórico, psicológico, biográfico e literário de um homem que imagino sempre com os seus cabelos brancos, num porte de matusalém atravessado por uma imperturbável serenidade, mas, simultaneamente, caracterizado por um certo mistério próprio das águas profundas da sensibilidade artística. Afinal, Cid Teles foi também o poeta dos paradoxos: um homem sociável, mas, outrossim, um indefectível solitário; um trovador, mas também um saudosista; uma cigarra, mas também um poeta da mágoa, da tristeza e das sombras.   

Manuel Cid Teles
 Fernand Braudel, o consagrado historiador da Escola dos Annales, acreditou ser fundamental iluminar o rei Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) à luz da sua religiosidade interior. Eu penso que será muito importante tentar compreender Cid Teles à luz do seu percurso solitário, qual peregrino que Morris West eternizou na obra Uma Visão Sublime. Ao longo dos próximos artigos, veremos até que ponto esta tese poderá ou não ser confirmada.
O objectivo de estudar a personalidade e a psicologia do homem, à luz das suas circunstâncias espácio-temporais, levou-me a dividir os vários artigos em quatro núcleos aglutinadores, aos quais se seguirá a síntese possível. Assim, no segundo artigo, que dará continuidade à presente Introdução, ocupar-me-ei das origens de Cid Teles, com destaque para a família, o meio e a época. No terceiro texto, procurarei surpreender as principais influências recebidas pelo poeta, enquanto no quarto artigo será meu intento sintetizar os temas privilegiados por Cid Teles nas suas obras, arrumando-os numa espécie de breve dicionário literário telesiano. O quinto texto terá como objectivo chave acompanhar algumas das representações (as imagens) veiculadas, ao longo do tempo, pela imprensa a respeito de Cid Teles, sendo que no último texto procurarei apresentar as principais conclusões. Devo, desde já, confessar que um dos grandes problemas com que me deparei residiu em conseguir sintetizar em poucas páginas a grande quantidade de material que fui recolhendo ao longo dos últimos anos, pois, quando tomei consciência, já tinha armazenado umas boas centenas de páginas de elementos dispersos. Diga-se ainda que optei por eliminar as referências bibliográficas e todo o tipo de anotações habituais em trabalhos académicos, pois pretendi simplificar ao máximo a tarefa do leitor.
Dizia Miguel Torga que o universal é o local sem paredes. Lev Tolstói escreveu mesmo: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Ao longo dos últimos anos, sobretudo nos momentos de descanso, quer das actividades lectivas, quer de um longo e ciumento namoro que travo obsessivamente com o escritor Aquilino Ribeiro (1885-1963) há 11 anos, fui perscrutando Cid Teles e regressando regularmente à sua obra, como um filho que mata saudades da casa paterna, olhando para a imagem de uma velha e esmaecida fotografia.
Perscrutar Cid Teles, ousar colocar o poeta, o músico, o pintor autodidacta e o homem no xadrez da sua época, ajudou-me a compreender melhor a História do meu próprio concelho, Oliveira do Hospital. E ao estudar a História local foi também mais fácil enquadrar alguns aspectos da História nacional.
A História de um indivíduo cruza-se com a História do seu país e, por vezes, até mesmo com a História do próprio mundo (estou a lembrar-me, por exemplo, da I Guerra Mundial, na qual participaram tantos homens do concelho de Oliveira do Hospital). Tudo o que fazemos também é o produto das nossas circunstâncias. Ao interrogá-las é que compreendemos melhor o que somos e também o que nunca pudemos ser. Um esforço, afinal, fulcral para entender qualquer Homem e aprender a perdoar. O que não me impede, porém, de subscrever as palavras de Cid Teles, quando este afirma, nas suas Quadras Soltas, que a melhor biografia de qualquer autor se encontra nas suas próprias obras:

Se alguém desejar saber
O que foi a minha vida,
Leia meus versos, que neles
Eu lha deixo resumida.

O principal escopo destes artigos, cuja edição agora se inicia, é trazer de novo a debate a incontornável figura de Cid Teles, alertando para a importância do seu estudo, muito especialmente nas escolas do Ensino Básico e Secundário, bem como entre os próprios investigadores.
Vale sempre a pena regressar às obras do poeta. Vale mesmo a pena requisitar os seus livros na Biblioteca Municipal de Oliveira do Hospital (no Largo Ribeiro do Amaral) e rentabilizar os momentos de descanso, para revisitar o autor do notável e libertário soneto “Sou como sou”:

Sou como sou, e não me importo nada
Que este ou aquele não goste do que eu sou.
Sei o que quero, e aonde quero vou,
A passo firme e fronte levantada!


Amo essa mão estranha, ignorada,
Que do destino as linhas me traçou,
E dos outros diverso me tornou,
Dando-me esta alma inquieta de nortada!

Louco! Poeta! E que me importa a mim?
Tantos falando porque eu sou assim,
Tantos dizendo o que eu devia ser…

Sou como sou! E sinto até vaidade,
Quando posso gritar esta verdade:
Sou como sou, e assim hei-de morrer!

Vale a pena passar pelo memorial consagrado ao poeta, na Praceta Manuel Cid Teles, em Oliveira do Hospital, e determo-nos nas suas palavras. Afinal, sempre que regressamos aos locais por onde vagueou um poeta, os versos adquirem outro significado. O verbo faz-se sangue.
O património histórico de uma terra também se estende aos trilhos literários dos seus cidadãos e o vasto concelho de Oliveira do Hospital possui, neste âmbito, um prolífico e surpreendente conjunto de exemplos que bem merecem continuar a ser estudados e divulgados. Cid Teles é apenas um dos possíveis exemplos, para figurar nesse roteiro histórico-literário concelhio que tanta falta nos faz e para a elaboração do qual tão prementes seriam os comentários, as sugestões e as correcções de todos os leitores, rentabilizando, assim, as fantásticas oportunidades que as novas tecnologias podem abrir-nos. Por isso, caro leitor, não hesite e deixe também o seu testemunho pessoal a respeito de Manuel Cid Teles…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)