quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Conversa entre a Pilar e o Duarte

 As conversas sobre a escola acontecem de forma espontânea, Ontem a mãe começou por dizer que a Pilar era um pouco cusca. A mãe iniciou desta forma a pequena conversa "falas com ela nas aulas" e o  Duarte disse " eu durante as aulas estou calado a ouvir a professora" de pois desta frase o Duarte disse " A Pilar disse-me que um do 3º ano andou à bulha com um do 1º ano".  Depois de ter sabido desta novidade através da Pilar o Duarte perguntou-lhe como ela descobriu ao que ela respondeu "ouvi falar".

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Conversas no recreio

 O Duarte fala imenso e às vezes conta histórias curiosas. No fim de semana o Duarte quando estava na casa de banho estava pensativo e a mãe perguntou-lhe "já tens namorada?" ao que o Duarte respondeu "Ainda não escolhi se calhar na próxima semana vou juntar todas as raparigas da minha turma" e a conversa continuou "Estava a falar com a Pilar e o Leo disse já tens uma namorada". O Duarte retorquiu "Só estou a falar com ela". Bem no fim desta conversa a mãe pontuou a conversa " Olha se as juntares as todas quando escolheres não digas a todas chama-a à parte" 

Conversas ao almoço

Hoje almocei no "marmitório" da escola. A manhã foi cansativa e soube-me bem aqueles minutos que no fim me apercebi que foi uma hora. Com a  proximidade de casa apercebo-me que as minhas colegas conhecem as mesmas pessoas que eu. Durante o almoço falei mais uma vez do Luso, desta vez sobre "A sardinha fora da lata" e do requinte da sua comida. Na minha há imensos colegas de Coimbra e da zona de Aveiro que fazem muito mais quilómetros do que eu, é uma sensação estranha, foram muito anos de precariedade e este ano tenho este presente. É bom estar em casa meia hora depois de terminar as aulas.  

domingo, 17 de setembro de 2023

O nosso Sábado

 No sábado acordou mais tarde depois de dois dias onde acordou cedo e correspondeu positivamente aos anseios dos pais sobre as manhãs de escola. O Duarte cresce rápido.

Neste sábado chuvoso, ficou logo descartada a minha ideia matinal de ir jogar ténis. Recentemente tenho ido jogar ténis com o Duarte e tenho-me divertido a vê-lo crescer nesta modalidade. Ele vai a todas muitas vezes sem ser preciso o incentivo paterno. 

Ainda antes do almoço o Duarte fez os trabalhos de casa com a supervisão dos pais. Apesar das distrações que fazem parte da idade, tentou contornar a realização da tarefa iniciada focando-se noutras coisas, levantou-se por várias vezes para realizar outras  tarefas que gostava mais de fazer. O mais importante é que passado quase uma hora conclui com inteiro sucesso a tarefa pretendida.

O Duarte esteve teve um bónus, o Gaspar veio cá passar o fim de semana e ele teve a tarde todo com o "pimo". O Duarte gosta muito de estar com o "pimo", e o "pimo " com ele. Quando estão os dois há risadas brincadeiras e boa disposição. O Duarte tem muita paciência para brincar com o primo e adapta-se às brincadeiras com menos 4 anos de idade. 

O Duarte tem o problema de dispersar com coisas que lhe são mais aprazíveis de fazer, correr atrás de um balão, brincar com uma bola, simular que é guarda redes atirando a bola contra a parede e defendo são tarefas que repetidas muitas vezes levam os pais ao desespero. Temos de aprender a saber lidar com ele e ele connosco.

As conversas durante as refeições são ricas. Ao jantar a conversa divergiu para a música. Falámos que este fim de semana vem cá a Maria João no entanto infelizmente devido à distância, ao mau tempo e também não ser o nosso género de música preferido não iremos.  Congratulo o município por conseguir trazer cá uma artista de tamanho renome. Já na parte final da refeição acabei por falar da deslocação do novo  projeto musical da Capicua "Mão verde II" O grupo irá à Covilhã no próximo dia 7 de Outubro. 



Neste sábado dia 16 de Setembro foi à Covilhã o grupo "Birds are Indie". Um grupo português que canta em inglês música pop rock.


sábado, 16 de setembro de 2023

Os primeiros dias de Escola do Duarte

O Duarte entrou em mais uma fase da sua ainda curta vida, começou o primeiro de escolaridade.
O dia da apresentação foi o reviver do amigo Leonardo, os abraços foram muitos e a ternura do reencontro foi enternecedora. A apresentação da professora demasiado extensa conduziu a uma maior agitação de crianças e pais na parte final da sessão. Foi o dia da apresentação e reconhecimento dos pais e principalmente dos futuros colegas durante o primeiro ano de escolaridade.

O segundo dia coincidiu com a sexta e foi o primeiro dia de aulas a sério. A ansiedade era visível nos pais e também no Duarte. A noite foi agitado no entanto o acordar foi tranquilo, o Duarte foi um Senhor. Os nossos receios não se confirmaram e o Duarte acordou, vestiu-se e ainda não eram 8:30 e já estava a tomar o pequeno almoço. A avó Paulita levou-o à escola e entregou à auxiliar os muitos materiais que a professora pediu. O dia decorreu com normalidade. O barulho foi o que mais fez impressão ao Duarte. A mudança de uma escola pequena com pouco mais de 20 alunos fez impressão àquela cabeça pequenina que infelizmente tem já alguns problemas de audição e é sensível quando o barulho é maior. 

Não há muito mais a acrescentar, AAAHHH no final do dia de dois amigos o grupo do Duarte passou a incluir o Issaacc. Outra coisa no intervalo devido ao imenso barulho o Leo não ouviu a campainha e o Duarte é que o foi chamar para ele regressar às aulas.   

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Conversas com o Duarte sobre a escola

 Ontem tive uma conversa sobre a escola com o Duarte. Tentei explicar-lhe as mudanças que o esperavam no próximo ano letivo. Hoje digeri melhor o que lhe disse e apercebi-me que exagerei ou melhor temos exagerado um pouco na forma como estamos a alertar o Duarte. Referimos apenas as diferenças negativas do primeiro ano quando comparado com a pré escola: Tem de estar sentado numa sala, ouvir com atenção a professora e que irá passar a ter que fazer atividades em casa. 

Ele perguntou-me no final da conversa com um ar tristonho, " mas as atividades não são todas feitas na escola"

Amanhã será o primeiro dia de escola do Duarte.


terça-feira, 12 de setembro de 2023

O autocarro do Duarte


 Neste início do ano letivo andamos num reboliço a tentar adaptar-nos aos novos ritmos das novas escolas. O Duarte acaba por sofrer na pele este stresse que reina sobre nós pais professores.

Noto-o a crescer e a ser mais autónomo. Ontem eu tinha que estar na escola entre as nove e as nove e meia. Ele acordou às 8:15 vestiu-se e pouco depois das 8:30 estava quase pronto para sair. Já é um menino grande.

Depois do jantar eu sentei-me no sofá junto do Duarte e este disse-me, pegando num cabide, este é o volante e eu vou conduzir-te no meu autocarro. Eu lá acedi na minha sonolência e disse-lhe que pretendia ir para o Porto. Ele perguntou-me para onde ao que eu respondi para o café Porto.

Após me ter sentado um pouco no sofá e passado pelas brasas enquanto ia para o Porto fui sentar-me um pouco ao computador a adiantar tarefas da escola.

Enquanto estávamos ambos a trabalhar no escritório ele veio ter connosco e pediu por várias vezes para o ajudar a utilizar a fita cola, pois à medida que ele estava a fazer as colagens com fita cola, a ponta insistia em colar-se e ele não tinha dedos para a retirar. 

Passado uns instantes vem ter connosco e chamou-nos, pais venham à sala rápido. Vejam o que é que eu fiz no sofá. Quando chegámos observámos com atenção o sofá e observámos que ele tinha colocado a matricula e os faróis dianteiros na parte dianteira(lateral) do sofá e a matricula e os faróis traseiros na outra parte do sofá.

Achei delicioso!

Conversas no Multibanco

 Na passada sexta feira fui ao multibanco fazer o pagamento anual do Jornal do Fundão, no entanto o pagamento não estava a dar e estivemos ali uns minutos. 

A seguir a mim estava um senhor para pagar a eletricidade que infelizmente também não conseguiu fazer o pagamento naquele multibanco.

Naqueles minutos houve uma breve conversa entre o Duarte e o senhor:

Senhor: Então vais para a escola

Duarte: Não me recordo o que o Duarte, penso que fugiu ao tema. 

Senhor: Moras em que rua?

Duarte: Rua Alexandre Herculano

Senhor: Moro na rua Brás Garcia de Mascarenhas, mesmo pertinho de ti. 

Duarte: Tu és carteiro

Senhor: Sim sou, tenho o fato, só estou de bermudas 

Duarte: És Zé ou Miguel 

Senhor: Sou Zé mas se me chamares Miguel eu não me importo


Achei muito interessante a espontaneidade do Duarte, quando interpelado por adultos. Neste caso conhece o senho há pouco tempo, o carteiro Zé (admito que eu não sabia o nome dele), tem uma relação mais próxima e duradoura com o carteiro Miguel daí a sua confusão.

Naquele dia falámos com o Antero que relembrou o meu pai que no dia 17 de Setembro de 2023 vem a Aldeia das Dez a Maria João. Um acontecimento inédito.




 


quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Um breve regresso à escrita.

 A tarefa de escrever tem sido cada vez mais difícil. Este ano não terei que alugar casa e consegui algo que não sonhava que o conseguisse tão cedo, entrar no quadro e ser colocado numa escola a 30 e poucos quilómetros de casa. 

A gestão das minhas emoções não é nada fácil. Eu olho demasiadas vezes para trás, vejo um passado pesado. Este ano letivo não começou como eu desejava. No dia da apresentação faltaram-me as conversas descontraídas que tinha em Vendas Novas. A passagem por Vendas Novas, principalmente no segundo ano fez-me muito bem, arrisco-me a dizer que foi das poucas escolas onde trouxe amigos que irão ficar para a vida. Quando olho para trás sinto que tive um ano muito difícil mas apoiei-me nos sorrisos e na força dos colegas, evolui muito enquanto docente. Nas viagem de mais de três horas que fazia recordo que pensei que ainda não me fui embora mas já estou com saudades. A empatia conquista-se e eu sinto que consegui deixar o meu sorriso e humildade em muitos dos meus colegas. Naquele local eu gostei de ensinar, senti-me feliz,  partilhei opiniões, fui ouvido e respeitado.

Agora avizinha-se mais um desafio difícil. Eu tenho de aprender que não posso ser quem não sou, gostar mais de mim e olhar em frente.  

sábado, 22 de abril de 2023

Histórias narradas ao desafio em dois minutos

Esta tarde fiz ao Duarte o seguinte desafio: 

Eu sugeri uma palavra e a partir daí começo uma história inventada em dois minutos. 

Na primeira história, mais curtinha, dei eu o mote no entanto a partir da segunda história o Duarte quis ser ele a começar e correu ainda melhor,


Primeira palavra foi:

Elefante

Pai: O elefante comeu a erva...

Duarte: depois veio o leão e comeu o elefante e deu aos filhos e à mãe...

Pai: e ficaram com a barriga cheia. 

A segunda palavra foi:


Segunda Palavra

Banana

Duarte: Abanana encontrou a maça e disse-lhe "maça queres brincar comigo?"

Pai O que é que sugeres banana?

Duarte: Vamos brincar no parque

Pai: Queres  brincar a quê?

Duarte: Queres brincar nos baloiços 

Pai: Sim

Duarte: A seguir ao baloiço vamos à concha.


Terceira palavra:

Pegeout

Duarte: O Pegeout encontrou o BMW e disse-lhe vamos fazer uma corrida 

Pai: Quando queres começar?

Duarte: Agora

Pai: Queres ir para onde

Duarte: Sei lá para uma pista de carros 

Pai: Em que pista

Duarte: Em Évora há uma pista de Kartings 

Pai: Achas que nos deixam entrar

Duarte: Sim

Pai: Então vamos 

Duarte: 3,2,1 Partida, a corrida começa.

Pai: Quem ganha

Duarte: Sei lá.


Quarta palavra:

Cenoura

Duarte: A cenoura foi dar uma caminhada e encontrou uma couve

Pai: Olá cenoura como estás 

Duarte: Estou bem, queres fazer uma corrida a caminhar?

Pai: Onde é a meta:

Duarte: Sei lá, trouxeste um giz?

Pai: Só tenho um giz roxo

Duarte: Faz um risco no chão

Pai: Está feito

Duarte: 3,2,1 Partida 

Pai: Quem é que ganhou?

Duarte: Sei lá, foi a couve


Desafio "Se eu fosse..."



Aproveitámos um livro do Richard Zimler e cumprimos o seguinte desafio de nos colocarmos no lugar de outro ser vivo, neste caso foi escolhida a árvore

O desafio durou 3 minutos  

 

Se eu fosse uma árvore.... 

Duarte- dava muitas frutas  

Pai- Dava sombra 

Duarte- Dava ar 

Pai- Tinha frio no Inverno 

Duarte- Gostava de ver a paisagem 

Pai- As folhas caiam-me no Outono 

Duarte- No outono as folhas ficavam amarelas, laranja,.... 

Pai- Estava presa no chão 

Duarte- Olhavam para mim e diziam que era muito bonita  

Pai- tinha pássaros a cantar nos meus galhos  

Duarte- As pessoas podavam-me 

Pai- A minha sombra representava o norte 

Duarte- Não gostava que me cortassem


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Uma história de setembro de 2021

 Por vezes penso que sou forte, que a dor da distância é facilmente ultrapassada com o foco no trabalho e na inevitabilidade de estar longe de quem mais gostamos. Tenho por hábito escrever um diário onde descrevo as minudências dos meus dias. Hoje fiz greve e comecei a ler papeis que tinha escrito no ano letivo passado e parei neste que fez chorar, senti alívio em chorar. Afinal não podemos estar sempre a esconder aquilo que sentimos para nos sentirmos forte.

Passo a citar o texto escrito no dia 25 de setembro de 2021 o meu filho Duarte tinha 4 anos.

"A passagem do tempo é algo que aos poucos começa a entrar no cérebro do pequenino do Duarte.

Este ano letivo parece estar a ser mais difícil para ele gerir  a minha ausência. No ano letivo ainda não percebia porque eu me ia embora  todas as semanas. Nós dissemos-lhe que eu saia de noite e chegava muito cedo e só num determinado dia da semana é que eu chegava a horas de poder estar com ele. 

Eu no ano letivo passado senti um afastamento do Duarte em relação a mim. lembro-me perfeitamente que a minha ausência o afastou de mim e aproximou da mãe. 

Este ano letivo está a ser diferente, sinto-o mais próximo e apercebo-me que a minha presença é fundamental. A alegria transparecida no olhar é evidente assim como a vontade de me vir abraçar.

O ano passado também acontecia, mas este ano é diferente.

Nós ganhámos ligações que nos tornaram inseparáveis. Conseguir ter tempo para o Duarte ao fim de semana passou a ser algo indispensável para mim e para ele.

Os jogos inventados com bolas que se colocam no cesto ou na baliza ou  as conversas com o senhor Fogaça sobre possíveis missões que eu tinha de tomar são muitas das brincadeiras que temos durante o fim de semana.

No passado fim de semana lembro-me da futebolada que fizemos onde se fartou de correr marcar golos e divertir-se. Acabou exausto e deixou-se dormir no banco de jardim que está junto ao campo.

Passado uns instantes fomos ao pavilhão ver um torneio de hóquei que lá estava a decorrer    e sinto-o cansado. Tivemos lá pouco mais de meia hora. Quando fomos para casa fizemos a paragem habitual junto ao reservatório da água que fica junto aos bombeiros e ele já estava quase a adormecer quando me disse "pai levas.me ao colo até casa". Acabei por leva-lo às cavalitas e mal chegou a casa deitei-o e adormeceu profundamente. Acordámo-lo um pouco antes das 19h para jantar.

A amizade e o amor é crescente apesar da distância e isso deixa-me feliz apesar de saber que lhe custa mais a minha ausência.

Esta semana a mãe disse-me que ele olhou para um cartão da escola de Grândola pegou nele abraçou-o e disse "tenho saudades do pai" e chorou." 

Costuma-se dizer que vida é assim, todas estas adversidades nos fazem crescer e tornar mais forte mas custam, custam muito. Hoje  a distância custa-me a mim mas também ao Duarte, sinto-o na despedida.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Eu e o Duarte

Observo o Duarte! Tenho medo de falhar na educação que lhe transmito. Observo alguns traços meus e deixa-me assustado. Percebo no Duarte ainda muita insegurança, muito medo de falhar, desiste facilmente quando vê que não consegue. Eu sou assim. O Duarte dispersa o pensamento e deixa as tarefas a meio se não for incentivado a acaba-las. Acontece-me isso muitas vezes principalmente quando não estou focado a realizar uma tarefa e as adio ao máximo, pois não tenho um rumo, estou perdido e não sei por onde ir. Hoje o Duarte após tomar o pequeno almoço a mãe mandou-o lavar os dentes e ele passou uma enormidade de tempo na casa de banho, antecipou a tarefa que tinha de fazer, ou esqueceu-se mesmo que era para lavar os dentes. Será que ele também tem receio de ir para a escola de ser confrontado com colegas que o desafiam. O Duarte é mole como eu não reage quando lhe batem ou quando recebe de um colega uma expressão menos positiva. 

Daquilo que me recordo dos relatos dos meus pais sobre a minha pré escola/ ensino primário foi eles dizerem aos professores que eu era muito tímido. Desde sempre gostei de estar no meu canto, na minha bolha. Aquilo que mais me aflige é minha obsessão por definir objetivos constantemente quando algo corre mal. Estar constantemente a partir pedra para tentar chegar a um objetivo que nunca consigo. Quero sempre ser melhor, defino as estratégias, mas quando as implemento e percebo que algo corre mal coloco tudo em causa e volto quase à estaca zero. Considero isso masoquismo! O convívio social e a integração foi sempre o meu calcanhar de Aquiles. Tenho medo de expressar a minha opinião, de tirar as minhas dúvidas pois penso que elas são despropositadas, ou simplesmente porque não me sinto à vontade para falar com aquela pessoa.  Estes serão alguns dos meus defeitos. Percebo que estes defeitos me tornam mais incompetente pois não me pedi ajuda quando o devia ter feito e tomei uma decisão errada que foi alvo de chacota por colegas ou alunos. Colocar-me constantemente na cabeça do outro é tremendamente desgastante e tóxico. Eu percebo  isso mas é a maneira que eu tenho de lidar com as situações principalmente as que correm menos bem. Digo isto tudo porque sei que quando tenho as coisas bem definidas, acredito nelas tudo corre melhor. Na escola quando consigo desbloquear as minhas dúvidas, os meus receios tudo corre melhor. Partilho uma história vivenciada aquando da realização do cadastro predial no concelho de Oliveira do Hospital, mais concretamente em Aldeia da dez. Estava a fazer um levantamento de um prédio rústico e estavam lá cerca de cinco pessoas a opinar e acabei por não perceber nada do que eles diziam, até que me impus e disse que não estava a perceber nada e apenas saia dali quando percebesse a configuração do prédio(terreno) que estava e medir a área. Acabei uns instantes depois por perceber as estremas do prédio. Nesse período acabaram por acontecer mais situações dessas, no entanto consegui resolver grande parte delas através da minha organização dos meus esquemas em papel. Ainda hoje, e já passaram 10 anos consigo ver através dos inúmeros dossiers que fui construindo a localização dos prédios. Tento idealizar constantemente um modelo de organização que me sinta confortável, no entanto esbarro constantemente na complexidade do ensino de hoje e descuro o mais importante que é dar aulas. Talvez seja essa a solução para muito dos meus problemas. 

Observo o Duarte e vejo que felizmente ele é mais sociável, não tem receio de brincar com outras crianças nos baloiços. Não é preciso dizer-lhe vai. O Duarte é uma criança  muito inocente, ainda não sabe de forma clara o que está certo e errado. Acontece comigo, na definição do risco, saber até onde posso ir. Fizeram-me falta o confronto com regras com limites, fez-me falta conversar mais com os meus pais sobre os meus problemas, as minhas dúvidas. Fez-me faltar falar sobre aquilo que fui alvo na infância/adolescência a professores, amigos mais próximos. 

Tudo o que eu sou hoje é também reflexo do meu passado. Agradeço a quem tem a paciência de conviver comigo diariamente. Posso dizer que apesar de tudo tenho muita sorte.

domingo, 26 de junho de 2022

Diário Pedra após Pedra (3º volume)- Fernando Alva

 Acabei hoje de ler o 3º volume do diário de Fernando Alva A densidade da escrita, das narrações em prosa e em verso fizeram-me conhecer melhor o meu amigo Renato Nunes. Uma vida dedicada à escrita à investigação e ao prazer da leitura de Torga e Aquilino as suas duas grandes referências literárias que recorre frequentemente como forma sorver as suas palavras e recuperar energia. O autor observa a escola como um santuário do conhecimento. Fernando Alva é um critico de muitas políticas introduzidas atualmente na Educação. Uma boa parte deste livro é escrita  nos Açores, onde foi docente de Educação Especial durante 3 anos. Fernando Alva retrata como ninguém a dureza mas também o poder do silêncio e da aprendizagem constante das vivências numa ilha. A trilogia de diários do Fernando Alva termina aqui. Tenho que lhe dizer o meu obrigado pois senti vontade de descobrir a poesia, algo que eu nunca pensei que acontecesse.  Vou começar com uma poetiza local (Oliveira do Hospital) Lucinda Maria e depois quem sabe irei para Torga e quem sabe Pessoa. 


Bem haja amigo


domingo, 3 de abril de 2022

Reflexões no fim do segundo período.

 As lágrimas por vezes caem-me sem avisar.  A pressão e o medo de falhar por vezes bloqueiam-me e impedem-me de seguir pelo caminho mais fácil. Insisto em não acreditar em mim e sigo a medo, com hesitações. O trabalho inevitavelmente não corre bem. Insisto, procuro focar-me nas tarefas imediatas e esquecer o que correu menos bem. Aos poucos vou-me erguendo, procurando ganhar energia em momentos de sucesso por mais pequenos que sejam. Vou levantando a cabeça.  Em consequência do meu passado adquiri um medo de olhar as pessoas nos olhos. Lembro-me da saudosa "France" que me associou a uma avestruz por estar sempre de cabeça baixa. Sempre que levanto a cabeça e encaro um problema cara a cara lembro-me dela e de muitos alunos que se queixaram dizendo "o professor não nos olha nos olhos". Aos poucos e ao longo do meu percurso profissional procurei ganhar confiança naquilo que fazia. Não é fácil resistir aos sucessivos fracassos. A palavra desistir foi a palavra que predominou no léxico do meu percurso de vida. Apercebo-me muitas vezes que não consigo cumprir os meus objetivos, atingir uma meta. Penso nos sucessivos obstáculos que tenho de ultrapassar e das minhas limitações enquanto ser humano. Não pensei chegasse onde cheguei num tão curto espaço de tempo. Ainda cometo tantos erros no desempenho da minha profissão, sou olhado de lado por colegas, ou será a minha cabeça a julgar o comportamento dos outros? São tudo incógnitas de uma personalidade que privilegia mais em agradar aos outros que agradar a mim mesmo. Caminho muitas vezes sozinho, centenas de quilómetros de estrada. Recordo-me quando fui carteiro que dizia apesar da dureza do trabalho " tu consegues, não desistas". Senti que nessa altura trabalhava 12 hora por dia por estrada de terra no aldeia e lugares mais recônditas do concelho Seia. Sei que nessa altura fui criticado por muita gente pela incompetência no desempenho da minha função. Dessa experiência prefiro recordar uma conversa que mantive com um dos representantes da junta da Vide onde expus a minha preocupação pela impossibilidade do desempenho da profissão de carteiro devido à grande extensão do percurso. Foi um trabalho muito mal pago, lembro-me que ganhava o ordenado mínimo. Sempre privilegiei o trabalho ao ar livre, o contacto na rua com pessoas. Adorei o trabalho que desempenhei aquando da participação do cadastro de Oliveira do Hospital. Fiz levantamentos GPS de prédios rústicos e urbanos. Uma vez que entrei com o comboio já em andamento a formação teve que ser feita no terreno. Desenvolvi competências sociais através do contacto com as pessoas, conquistei o respeito das pessoas e de quem trabalhou comigo. Trabalhei arduamente no desempenho de funções que adorei fazer. Ainda hoje e já passaram quase dez anos sou recordados pelos moradores. Orgulho-me disso! O ensino regressou em consequência de um período de largos meses sem conseguir qualquer trabalho. Ao longo destes quatros anos no ensino, observei a dureza da vida de professor. Cresci muto e aprendi a gostar daquilo que fazia. Ser professor hoje é muito mais difícil que há 10 anos atrás. Os alunos estão mais desmotivados  e é necessário estratégias diferentes para os cativar. Hoje há uma maior diversidade de alunos dentro da sala de aulas. Numa turma observam-se alunos com muitas dificuldades até alunos de excelência, passando por uma grande diversidade de culturas. Este ano letivo trabalho com alunos indianos, uma aluna do leste europeu( não me recordo do país), brasileiros e a partir da passada sexta feira de alunos ucranianos oriundos de uma Guerra sem fim à vista.   Apercebo-me que os professores têm de estar constantemente a formar-se e adaptar-se . Uma batalha para os professores sobreviverem num mundo global de hoje. Uma profissão nobre que presta um grande serviço ao país e ao mundo.  Para ser professor é preciso ter estofo e gostar mesmo daquilo que fazemos. Sinto que ainda tenho um caminho a percorrer. Adaptar.me às novas exigência e não desistir!  

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Entre poesia, prosa e reflexões sobre o ensino

 À medida que vou lendo o livro "Pedra após pedra. A palavra- Diário III" vou conhecendo melhor a experiência do Renato Nunes  por terras açorianas, enquanto Professor e Ser Humano. O Renato deixou fluir a caneta no seu caderno de capa preta e escrevia poesia à noite ao sabor do silêncio e de um heterónimo que ele designou Fernando Alva.

Recordo-me quando o Renato me ofereceu o primeiro volume do seu diário por terras açorianas disse-me  "Tiago lês isso no instante". O Português nunca foi a  minha disciplina preferida na escola e a poesia nunca foi dos conteúdos que gostei mais. 

Nunca vou esquecer as aulas do Secundário onde tive a sorte de ter a professora da Florbela Pires, que infelizmente nos deixou precocemente em consequência de um cancro fulminante. Da Florbela recordo o seu sorriso e alegria de viver. Lembro-me quando Florbela me entregou um teste de Português onde eu obtive a classificação de Bom. Era um teste de poesia, tenho pena de já não saber onde está esse teste, gostava voltar a ler o poema passado mais de 20 anos. Nunca me vou esquecer da frase que ela me disse quando fazia a correção "foste quem melhor percebeu o poema". As minhas memórias da minha adolescência são muito curtas, no entanto esta passagem nunca irei esquecer, provavelmente pela surpresa do comentário e da nota obtida.

Voltando ao Renato Nunes e ao primeiro volume do seu diário, não o li em poucas semanas mas tentei perceber o ele escreveu. Acabei por escrever 3 textos no blogue: 

Pedra após pedra- A palavra Diário I (2012-13) Fernando Alva (I- Educação Especial;

Pedra após pedra- A palavra Diário I (2012-13) Fernando Alva (II- A Família);

Pedra após pedra- A palavra Diário I (2012-13) Fernando Alva (III- Sensibilidade e Humildade).

(...)

Parei um pouco e  li num ápice  o texto do Renato Nunes escrito escrito em Dezembro de 2017 Ódio à escola. Aquando da leitura  recordei as minhas últimas aulas de Geografia numa turma do oitavo ano. Este ano letivo estou a lecionar pela primeira em regime de semestralidade e comecei a lecionar Geografia no segundo terço do programa do sétimo ano que não tinha sido acabado no ano letivo transato. A turma é muito barulhenta, heterogénea e com cerca de 27 alunos. Optei pela estratégia de os colocar a escrever, visto que eles não terem manual do 7º ano, e a realizar fichas em simultâneo. As estratégias acabaram por surtir efeito no entanto no entanto senti a pressão de ainda ter o livro do oitavo ano para lecionar e as aulas terminariam cerca 40 tempos depois. Os conteúdos do oitavo são imensos e não há tempo para os conseguir lecionar de forma calma. Atualmente vou com cerca de 12 tempos nos conteúdos do oitavo ano e apercebo-me das  dificuldades que os alunos estão a ter para conseguir acompanhar o ritmo. Na aula do dia 11 de Novembro fiz uma questão que pensava que grande parte da turma sabia responder, e qual não é o meu espanto quando observo o silêncio total na sala e apenas alunos a dizer que não sabiam, caiu-me a ficha.

 A pressa é inimiga da perfeição. Eu à semelhança do professor do 1º ciclo do texto Ódio à Escola estou a correr contra o tempo, tenho uma turma enorme à frente e sinto frustração por saber que a mensagem não está a passar aos meus alunos. Não há maior revolta e tristeza para um professor quando percebe que não consegui transmitir a mensagem.


sábado, 13 de novembro de 2021

Inquietações (Clube de discussão do Fumaça)


Texto de Maria Almeida do Fumaça a apresentar mais uma conversa do inquietações no dia 10 de Novembro de 2021.

"Olá. 

Hoje é dia de Inquietações, o clube de discussão da Comunidade Fumaça. 

"Vamos Comprar um Poeta" de Afonso Cruz vai ser o ponto de partida de uma conversa sobre a arte e o seu propósito, o capitalismo e o materialismo.

Este pequeno livro transporta-nos para uma sociedade imaginada onde cada pessoa tem um número em vez de um nome, os alimentos são medidos com total exatidão e os afetos contabilizados ao grama. Neste universo, as famílias não têm animais de estimação, têm artistas. E é assim que os protagonistas acabam a comprar um poeta e levá-lo para casa."


Nesta fase do ano letivo a argúcia para resolver problemas não é a mesma do inicio do ano letivo. Quando tenho mais  responsabilidades por vezes sinto que não consigo chegar a todo o lado. 

Conversar num ambiente de tertúlia sobre temas que eu me revejo ajudou-me a desbloquear e a preparar com mais calma o dia seguinte. Participar numa conversa do Fumaça para mim foi uma vitória como foi ter conseguido gerir a minha reunião enquanto diretor de turma. Pequenas vitórias que fazem crescer enquanto pessoa.

Convido-vos a comprar o livro, após a sua leitura vão observar o vosso dia a dia de uma outra forma.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Palavras de um Professor

 Há momentos em que as lágrimas nos caem involuntariamente quando sentimos a voz do nosso filho  a largas centenas de quilómetros. É duro, muito duro ser professor nos dias que correm. 

Dói demasiado quando as coisas correm mal em catadupa, falhamos em consequência do cansaço que aumenta o medo de falhar.  Em frente de um público não podemos mostrar insegurança, mas por vezes é inevitável em consequência da pressão, da burocracia, de querer chegar a todo o lado ao mesmo tempo e não conseguir. 

Os papéis acumulam-se ao lado da secretária assim como as tarefas para o dia seguinte. Recordo-me hoje de manhã enquanto fazia uma pausa para comer uma sandes no bar da escola,  desabafei com uma colega de Geografia " por mais anos que tenha de experiência o cansaço nesta fase do ano letivo é inevitável " Ela disse-me "Tiago não desanimes ainda tens muitos anos pela frente". Depois de ela ter dito aquilo pensei "será que eu vou aguentar este ritmo durante muito mais anos, bem tendo em conta o panorama extra ensino talvez não tenha escolha"

Trabalho imenso para melhorar e conseguir ser melhor professor mas esbarro muitas vezes em pensamentos que limitam o desenvolvimento das minhas capacidades. Isso enerva-me tanto.

Ser professor é sentir muitas vezes a desilusão quando preparamos tudo para que as coisas nos corram bem e depois a turma não nos deixar explicar os conteúdos com a clareza desejamos. Fico triste por saber que não correu tão bem, com imensas dores de cabeça, no entanto procuro encontrar forças na esperança que o próximo dia será melhor. 

Ser professor é ser resiliente é abdicar de ter tempo com os nossos filhos e familiares e dedicar o nosso tempo aos outros na esperança de ouvir um dia destes um Obrigado. Estou tão habituado a ouvir criticas ou chamadas de atenção dos alunos dos colegas que até me esqueço daquela vez em que os alunos do EFA em Rio Maior me disseram " Obrigado professor" ou no Fundão quando um aluno do secundário me disse na última aula do ano letivo após todos os restantes alunos terem saído da sala  "O professor explica muito bem, podia ser é mais simpático". Fiquei surpreendido, se calhar devia perguntar mais a opinião dos alunos sobre mim. 

Escrevo este texto depois de um início de semana menos bom na esperança que com trabalho dias melhores virão. 

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A menina do 2º ciclo

Este ano letivo estou a lecionar no Plano Casa.

Comecei há cerca de duas semanas e a minha tarefa é dar apoio a uma instituição de acolhimento de raparigas que são retiradas ao seu lar familiar por diversos motivos. 

Quando entrei lá no primeiro dia observei um meio calmo, estranhei um pouco confesso. A Educadora muito simpática, afável e sempre com um sorriso na cara. Para ser Educadora numa Instituição de acolhimento de crianças é preciso gostar mesmo daquilo que se faz e dedicar-se de corpo e alma a uma causa tão nobre, admiro-a muito por isso.

Sobre o meu primeiro dia, lembro-me de uma conversa que a Educadora partilhou comigo enquanto eu estava a dar apoio na sala de estudo. Ela indicou-me as peripécias que tinha tido durante a madrugada onde teve que ir buscar uma residente da casa a um hospital de Lisboa em consequência dos excessos cometidos, lembro-me perfeitamente da expressão dela sobre a sua menina "Ela está a fazer mal a ela própria".

O apoio que eu faço é muito generalizado e acabo muitas vezes por divagar por caminhos das vidas das educandas. Uma delas ainda no segundo ciclo quando eu lhe coloquei um mapa de Portugal, perguntei-lhe onde era Lisboa, ela não me conseguiu dizer onde era, indicando-me que gostava de ir ao Porto, pois tinha lá um irmão ou um primo. Acabei por dizer-lhe onde era Lisboa e ela conseguiu depois dizer onde era o Porto. Aquando da conversa disse-lhe que o Porto ficava muito distante do local onde ela se encontra, cerca de 5 horas de carro. A menina dizia muitas frases repetidamente "pois é muito longe" "gostava muito de lá ir".... Notei um discurso vago e vazio. Percebi imediatamente a falta de bases e alguém que lhe indicasse um rumo. Devido ao pouco acolhimento para a minha presença  das restantes educandas voltei à menina do segundo ciclo no segundo dia e entre a realização dos exercícios de Português íamos divagando por histórias da sua vida que eu levanto aqui um pouco da ponta do véu. Eu percebi que ela de 15 em 15 dias já vai a casa de familiares e subentendi a sua  da vontade de sair daquele espaço e voltar para a família. Não percebi se ela gostou de estar em casa dos familiares no fim de semana, pois enquanto falávamos deixou escapar a expressão "felizmente ou finalmente (não me recordo ao certo) voltei para a instituição". Sinto quando falo  com ela no seu tom monocórdico e pouco expressivo que ela ainda não está preparada para estar ali e o lar familiar também não será o local ideal. Assustou-me ouvir repetidas vezes ela dizer "Eu quero seguir a minha vida, eu não quero ser como as outras meninas". Quando ouvi dizer a primeira vez fiquei contente, mas quando a ouvi dizer quatro vezes fiquei preocupado. Após as sucessivas repetições senti que não era ela a pensar mas uma cartilha que lhe foi comunicada e ela segue-a sem perceber bem o seu significado. Na instituição sinto-a isolada e perdida. No terceiro dia eu propositadamente não fui ter com ela. Quando faltava pouco mais de meia hora para me ir embora veio ter comigo olhou para o meu telemóvel observou o meu filho e a partir daí decorreu mais uma conversa espontânea.

Fico por aqui nesta minhas novas experiência como professor.

 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Educação e Arte

Uma escola deve ser um espaço embelezado essencialmente pelos alunos. Este ano letivo no Agrupamento de escolas de Vendas Novas, recordo-me perfeitamente nos primeiros dias andar "a partir pedra" de modo a que me apresentassem os cantos à casa. Assim do nada e com muita sorte deparei-me com uma pessoa muito simpática que me mostrou o Agrupamento de Escolas nº 1 de Vendas Novas. Subi as escadas e deparei-me com dois ou três magníficos quadros na parede da escola que me fizeram por momentos parar, deixar de a ouvir e contemplar a beleza daquelas obras de arte feita por alunos. Pedi-lhe desculpa em consequência de por breves instantes deixar de ouvir mas foi mais forte do que eu.

Gosto muito da minha escola pela forma bonita como está embelezada por dentro. Na minha opinião a arte permite aumentar a criatividade dos alunos.





Trabalhar na escola de hoje é um desafio diário, pois a heterogeneidade  dos alunos é cada vez maior e temos de saber lidar como imensos alunos com profundas dificuldades. Por vezes não é fácil mas improvisamos à nossa maneira.

Lembro-me que o Duarte pergunta por muitas vezes o significado da morte à maneira dele. Nós tentamos sempre suavizar e dizer-lhe que está a dormir. 

Para fazer a ligação entre a arte, as dificuldades de aprendizagens e o Duarte vou citar um excerto do II diário escrito por Fernando Alva designado "Pedra após pedra". O Renato Nunes autor do livro que criou o pseudónimo Fernando Alva enquanto narrador das suas peripécias enquanto professor de Ensino Especial nos Açores.

Cito a pág. 120 " ...Vivo em função dos outros. Falta-me um equilíbrio suficiente para me esquecer de mim. 

Hoje, fui à escola, talvez a minha segunda casa, pedi a um menino com Perturbação do Espectro do Autismo que folheasse uma obra sobre Rembrant, pintor do século XVII, da designada escola realista. Ao ver "A descida da cruz", os olhos do jovem condoeram-se com o cenário dantesco. Depois de chocar com a mãe de Jesus deitada no chão, quis saber se estava morta e respondi-lhe que por certo havia apenas  desmaiado. Senti-o mais tranquilo, mas os seus olhos rapidamente regressaram ao corpo martirizado de Messias, magro, barbudo e cabeludo....Que turbilhão de emoções terão atravessado a poderosa armadura daquele menino habituado a desviar o olhar?

Um colega de trabalho (não digo a profissão ressalve-se), vendo esta minha teimosia em expor "estes jovens" (para mim são apenas jovens) às mais nobres revelações artísticas, riu-.se sobranceiramente e jurou-me que não valia a pena.

Não sei se, na verdade, o faço mais por eles do que por mim próprio. Mas tenho a certeza absoluta que vale a pena. Quase todas as armaduras para não dizer todas têm um calcanhar de Aquiles e arte pode destruir muitas barreiras. 

Van Gogh, Da Vinci, Rembrandt ... decisivamente, eu irei continuar."