domingo, 26 de novembro de 2017

Incêndios: Cadastro é essencial, mas reforma florestal exige mais medidas, diz investigador

O cadastro florestal é essencial para a reforma da floresta, mas tem de ser acompanhado de outras medidas como o emparcelamento, afirma o diretor do Núcleo de Investigação de Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, Luciano Lourenço.

O Governo decidiu, no Conselho de Ministros de sábado, avançar com a realização do cadastro simplificado florestal nos concelhos mais atingidos pelos incêndios deste ano, medida que Luciano Lourenço subscreve “inteiramente”, embora ela “peque por ter pelo menos 30 anos de atraso”.
Sem se saber “o que existe ou quantos proprietários existem”, não é possível “organizar o território”, sustenta, em declarações à agência Lusa, o especialista da Universidade de Coimbra (UC).
O cadastro de pouco ou nada valerá, sublinha, se não for acompanhada de outras ações, como o emparcelamento de propriedades, medida que “vai muito para além” desse registo, mas indispensável para que seja possível tirar “rendimento da floresta”, mesmo quando dividida por múltiplas parcelas, muito pequenas e dispersas.
Luciano Lourenço não sabe “exatamente” o que significa na prática “cadastro simplificado” (falta ainda a respetiva regulamentação), preconizado pelo Governo, mas se ele agregar os que já existem aos registos a identificar, assume grande importância.
Há propriedades em relação às quais não se sabe quem são os proprietários, reconhece o investigador, mas mais serão aquelas cujos limites são difíceis de identificar, mas isso não pode ser motivo para adiar a realização do cadastro.
É igualmente necessário promover o emparcelamento, adverte Luciano Lourenço, salientando que um proprietário de pequenas parcelas, mesmo que muitas, e, frequentemente, dispersas por um território relativamente extenso, jamais consegue gerir e tornar rentáveis essas parcelas.
O emparcelamento, através da união de proprietários e agregação de terras, da cedência da exploração de terras, do arrendamento ou da venda, são a forma de tornar a floresta rentável, gerível e menos exposta a risco de incêndio (“a floresta é sempre rentável, mas desde que, antes de mais, não arda”).
Luciano Lourenço considera, entretanto, que este património deve ser gerido por privados, ainda que o Estado também o possa fazer, mas, antes tem de “dar o exemplo”, isto é, tem de demonstrar que sabe e é capaz de gerir bem a floresta que é sua e isso “não tem acontecido”.
Há no nosso país “muito bons técnicos” nos organismos do Estado, mas são poucos para todas as tarefas que têm de desempenhar, alerta.
Outras medidas são também indispensáveis para proteger e tornar gerível a floresta, acrescenta o investigador da UC, insistindo na ideia de que com fogos não pode haver floresta rentável ou nem sequer floresta.
É necessário, por isso, sensibilizar as pessoas para esta causa e não apenas nas escolas, mas também, de um modo geral, junto de toda a população e, em particular, de quem trabalha com fogo na floresta.
Os pastores precisam de fazer queimadas, reconhece, mas para além de as proibir em determinadas épocas e condições, é preciso sensibiliza-los para a importância de procederem de acordo com determinadas regras e apoios, exemplifica.
“Quero acreditar que desta vez” a reforma da floresta vai ser feita, mas depois de tudo o que tem acontecido “ao longo dos últimos anos, desde 2003/2004, ainda tenho as minhas dúvidas”, conclui Luciano Lourenço.
Luciano Lourenço
 26 de Novembro de 2017

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Uma reflexão sobre os incêndios florestais de 2017

O problema dos incêndios florestais está longe de ser um problema de espécies florestais ou de mera gestão de espaços. No nosso país é, antes de mais, um problema de pessoas. Infelizmente estas estão colocadas, ostensivamente, fora do sistema.

Portugal sofreu no ano de 2017 a maior devastação de que existe registo no âmbito dos incêndios florestais em um só ano. Embora o desempenho do país não tenha sido muito positivo ao longo das décadas passadas, no confronto com outros países e com situações comparáveis, os incêndios que percorreram o Centro e Norte de Portugal neste ano constituíram um absoluto choque e uma chamada de atenção para toda a sociedade. A perda de mais de 115 vidas, a devastação de cerca de 500 mil ha, a destruição de centenas de casas, instalações industriais e empresariais, com o leque de efeitos sociais, ambientais e económicos que trouxe, parece que finalmente despertou a sociedade para a relevância do problema dos incêndios florestais.
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Todos sentimos que o propósito de “nunca mais”, formulado em várias ocasiões anteriores, tem de ser levado mesmo a sério, agora mais do que nunca. O país já teve outras chamadas de atenção, nos anos de 2003, 2005 e 2013, mas, como se pode verificar, apenas se ficou a meio caminho, na tomada de consciência, na mudança de comportamentos e de atitudes e na adoção de medidas eficazes. Perdeu-se muito tempo, pactuando com o desleixo e com a negligência, que conduziu o nosso país a esta situação calamitosa. O país está indignado e certamente não deixará de prestar uma atenção continuada a este assunto nos tempos futuros, e de retirar dele consequências políticas também. Conforme foi dito, já se perdeu muito tempo e não podemos senão adotar as medidas certas, sem perder mais tempo com experimentações ou medidas irrealistas.   
Ao comentar esta tragédia, em mais do que uma ocasião, disse que “falhámos todos”. Nesta expressão começo por me incluir pessoalmente, pois sinto que falhei no meu propósito de chamar a atenção de quem de direito para a importância do problema e no desenvolvimento de soluções que permitissem, ao menos, minimizar as tragédias pessoais que sofremos. Mas incluo também, de uma forma geral, todos os cidadãos, porque se trata de uma questão que envolve toda a sociedade. Ninguém se pode colocar fora do problema e, menos ainda, julgar os outros, porque terá certamente deixado algo por fazer. Se não, não teríamos sofrido esta tragédia.
O país está chocado e indignado, mas já não bastam os sentimentos. Temos de passar à ação. Como cientista que há mais de 30 anos procura ter uma intervenção na temática dos incêndios, o modo mais adequado que encontro para manifestar a minha indignação é o de contribuir com o meu trabalho e o do meu centro de investigação, para o seu estudo e compreensão.
Para além da investigação científica, como cidadão, procuro ter também uma intervenção cívica, que me tem levado a colaborar, com espírito aberto, com uma crítica construtiva e leal, com todos os Governos que tenho conhecido, independentemente da sua cor política, e com todas as instituições envolvidas na gestão do problema dos incêndios florestais.
Por esse motivo aceitei, com a minha equipa, o encargo do Governo para produzir um Relatório sobre o Incêndio de Pedrógão Grande, que se encontra publicado parcialmente (https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/comunicacao/documento#o-complexo-de-incendios-de-pedrogao-grande-e-concelhos-limitrofes-iniciado-a-17-de-junho-de-2017). Neste relatório apresentamos os factos tal como se nos depararam e procurámos retirar lições, para que não se repitam as perdas que aquele incêndio teve. Infelizmente, a divulgação de algumas destas lições não foi feita a tempo de evitar, ao menos em parte, a tragédia que sofremos em 15 de outubro. 
O relatório que a minha equipa produziu baseia-se num extenso trabalho de campo, desenvolvido por uma equipa de 14 especialistas, muitos deles com longos anos de experiência de investigação nesta área e de realização de estudos semelhantes. Contém uma análise detalhada das condições meteorológicas, da origem e do comportamento do fogo, das perdas humanas e do impacto do incêndio nas comunidades. Infelizmente, não foi ainda tornado público o capítulo 6, que trata das perdas humanas, que é por sinal um dos mais extensos do relatório, no qual se relatam, de modo anónimo, cada um dos acidentes que causaram as 65 vítimas mortais e algumas das cerca de duas centenas de feridos. Neste relatório é apontada como causa provável dos incêndios principais a falta de manutenção da faixa de proteção de uma linha elétrica existente nos locais de origem dos mesmos.
Indicámos que, para além de todos os fatores circunstanciais que se encontram associados ao incêndio e que potenciaram a sua gravidade, está a deficiente governação do país, que ao longo de dezenas de anos tem vindo a negligenciar o problema do mundo rural e em particular da sua proteção em relação aos incêndios. Ao longo dos anos, temos vindo a chamar a atenção das autoridades para a necessidade de modificar este estado de coisas, a denunciar a inoperância de algumas entidades, a ineficácia de muita legislação e propondo medidas para correção do rumo.
Quem me tiver ouvido, em especial nos últimos anos, poderá lembrar-se de que sempre defendi que o sistema de defesa da floresta contra os incêndios (SNDCIF), assente nos três pilares estatais da ANPC, do ICNF e da GNR, é desadequado. Em minha opinião, falta um quarto pilar, que designo por “População”, que deveria envolver toda a sociedade, para além das entidades estatais. Envolveria antes de mais a população, que tem sido marginalizada do problema e das tentativas de solução. Engloba igualmente as autarquias, as empresas, a comunidade científica e tantas outras instituições que, como agora se vê claramente, querem dar o seu contributo, mas não sabem como, porque têm sido deixadas à margem do sistema e se encontram desorganizadas.
Sempre disse que se o Estado persistir em tentar vencer esta “guerra”, apenas com a força das suas instituições, não o conseguirá. Um dos seus pilares, a ANPC, que prestou serviços muito meritórios ao país, encontra-se nesta altura fragilizado, injustamente, mas também por demérito próprio. Outro pilar, o ICNF, tem-se mostrado frouxo desde há vários anos, com uma desfocagem e afastamento crescentes, relativamente o problema dos incêndios florestais. A GNR, que está há pouco mais de dez anos no sistema, mercê de uma excelente liderança e organização de que dispõe, tem-se mostrado ser o pilar mais consistente e com um leque de funções mais diversificado no dispositivo.
Quanto ao “quarto pilar”, está quase tudo por fazer. É o mais difícil, mas é também o mais importante. O problema dos incêndios florestais está longe de ser um problema de espécies florestais ou de mera gestão de espaços. No nosso país é, antes de mais, um problema de pessoas. Infelizmente estas estão colocadas, ostensivamente, fora do sistema.
No passado dia 21 de outubro, realizou-se um Conselho de Ministros dedicado a analisar o problema dos incêndios florestais e a aprovar um conjunto de medidas legais, para dar um sinal ao país de que havia a intenção de passar das palavras aos atos. Por muita preparação que pudesse ter havido, para fazer estas propostas, era para mim óbvio que faltou tempo para se refletir o suficiente, para se reunir consensos e juntar as forças para que pudesse sair uma reforma profunda e consequente. Como é compreensível, uma boa parte das medidas poderiam ter sido postas em prática há muito tempo, sem ter de se alterar o sistema vigente. Apenas se pergunta porque não se puseram em prática antes.
O conjunto das medidas visa essencialmente os três pilares do Estado e o reforço de verbas. Não se vislumbra uma única medida de fundo destinada a envolver a população, a apoiar as pessoas, a contribuir para melhorar a sua situação, as suas condições de vida e a sua segurança e para as preparar melhor para enfrentar estas situações.
Passarei a comentar algumas das medidas anunciadas, utilizando para tal extratos do discurso do primeiro-ministro efetuado no final do Conselho de Ministros, reservando para uma situação mais oportuna um comentário mais aprofundado sobre algumas das medidas.
1. Neste discurso refere-se que se pretende “aproximar a prevenção e o combate aos incêndios rurais, nomeadamente dando mais centralidade à área de Governo da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, no processo”.
A prevenção e o combate são apenas duas das faces do problema mais vasto que é o da gestão dos incêndios florestais, que envolve, entre outros aspetos, a preparação das comunidades, a prevenção estrutural, a preparação imediata, o combate e a reabilitação. De que aproximação se está a falar? O que quer dizer “dar mais centralidade aos ministérios da Agricultura ou do Ambiente? Quem foi que afastou estes ministérios do processo? Que foi que os impediu de estar mais centrados e de contribuírem para a solução? O que fizeram ao longo dos anos passados? Em minha opinião, estes e outros ministérios, e várias outras entidades públicas e privadas, têm de se centrar mais na realidade de que existem incêndios florestais em Portugal, coisa que parece não terem tido presente nos passados 20 anos, pelo menos, agindo como se nada se passasse.
2. Diz-se que “é preciso reforçar o profissionalismo em todo o sistema, com um papel alargado do apoio militar de emergência, no patrulhamento, no apoio logístico, no rescaldo e nas capacidades de apoio à decisão da engenharia militar”.
Concordo com o aumento do profissionalismo, mas tem de se avaliar bem o custo dessa medida. Até que ponto pode o nosso país ir? Concordo igualmente com um papel mais interventivo das Forças Armadas, mas com a devida preparação e igualmente com uma ponderação da relação custo/benefício dessa intervenção. Mas pergunto: onde está o apoio à sociedade civil? O que se vai fazer para apoiar, por exemplo, as comunidades e as forças locais de proteção civil?
3. É dito que “será confiada à Força Aérea a gestão e operação dos meios aéreos, quer do Estado quer contratados”.
Concordo com a aquisição de meios próprios, incluindo meios pesados, que se encontra implícita nesta medida. Parece-me bem haver uma maior intervenção da Força Aérea, desde que não haja incompatibilidade entre a finalidade e missão das Forças Armadas e a disponibilidade de recursos humanos e materiais, que se requer para os incêndios florestais, e os custos sejam comportáveis para o país. Oxalá se assegurem, desde o início, mecanismos de transparência e de avaliação nos processos de utilização destes recursos, tendo em conta os elevados custos que comportam.
4. Diz-se que “vai ser retomada a expansão das companhias dos GIPS da GNR”.
Acho muito bem esta medida, mas pergunto: o que se vai fazer com a Força Especial de Bombeiros e com os bombeiros em geral? Não se vai apoiar a sua expansão e qualificação? Como se irão articular as FEB e os GIPS no território do país?
5. Defende-se que “vai ser reforçada a capacitação e profissionalismo entre os bombeiros voluntários, criando em cada associação de bombeiros, nas zonas de maior risco, equipas profissionais formadas na Escola Nacional de Bombeiros, que será integrada no sistema formal de ensino como uma escola profissional”.
Concordo com uma maior profissionalização dos bombeiros, não apenas nas zonas de maior risco, mas em todo o país, pois os bombeiros podem ser chamados a intervir em qualquer ponto do território.
Deve, ainda assim, continuar a apoiar-se e a fomentar o voluntariado, que constitui um valor inestimável do nosso sistema de socorro.
A ENB deveria ser reformulada de modo profundo, mas não é este o lugar próprio para abordar este assunto.
6. Recomenda-se que “esta profissionalização passe por que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e a ANPC vejam reforçados os seus meios e a ANPC seja institucionalizada com um quadro próprio de profissionais, com dirigentes designados por concurso”.
Custa a crer que seja precisa nova legislação para se colocar estas medidas em prática. Concordo com o reconhecimento implícito de que estas duas instituições não dispõem de recursos humanos qualificados e em número suficiente para fazer face ao problema dos incêndios florestais. Mas onde se irão buscar esses recursos e onde se irão qualificar? Em minha opinião, os agentes de Proteção Civil e os bombeiros em particular deveriam ter uma Academia de Proteção Civil, equiparada a um instituto universitário, tal como sucede nas Forças Armadas e na Polícia.
7. Propõe-se que “a capacitação destas instituições passe por maior incorporação de conhecimento, com a criação de uma linha de apoio à investigação e reforço da componente de formação nos institutos politécnicos”.
Não posso deixar de aplaudir o reconhecimento da necessidade de se incorporar mais conhecimento e formação em todo o problema da gestão dos incêndios florestais. Pergunto no entanto de que conhecimento se trata e de fazer notar que a instituição a que pertenço tem vindo a produzir conhecimento em diversas áreas relevantes e a fazer a transferência desses conhecimentos para o sector operacional desde há vários anos.
Aplaudo igualmente a criação de uma linha de apoio à investigação científica, de uma forma regular e continuada. Tendo já sido publicado um diploma sobre este assunto, tenciono debruçar-me sobre ele, com mais detalhe, noutro lugar.
É surpreendente a medida de “reforço da componente formativa nos institutos politécnicos”. Por que razão não se incluem, de forma explicita, também as universidades no processo?
8. Refere-se que “a especialização progressiva, sem prejuízo da unidade de comando, entre o combate aos incêndios rurais e a proteção de pessoas e bens e das povoações, desenvolvendo capacidades próprias das brigadas de prevenção do ICNF, dos GIPS e dos Canarinhos, para se concentrarem na missão de combater os incêndios rurais”.
A proposta contida nesta medida constitui, em minha opinião, um erro estratégico, que já constava da proposta de plano que resultou do trabalho de um Grupo criado pela APIF (Agência para a Prevenção dos Incêndios Florestais), em 2004, com a finalidade de reformar o sistema. Em boa hora esta medida não foi acolhida e surpreende-me que volte a surgir, sem que tenha sido feito qualquer esforço para mostrar a sua validade desde então, quando noutros países se está a abandonar esta filosofia de separar o combate aos incêndios rurais do da defesa das habitações e das pessoas.
Atualmente o país dispõe de Corpos de Bombeiros que estão formados, treinados e equipados e possuem experiência e provas dadas no combate, tanto em incêndios urbanos como em florestais e para prestar socorro diferenciado às pessoas. Vai-se dispensar esta capacidade, para criar uma outra entidade, com capacidades semelhantes ou com metade delas? Os bombeiros apenas não combatem o fogo na floresta e dão prioridade às casas quando já não existem condições para combater o fogo na floresta. Será nessas condições que os “bombeiros florestais” vão entrar em ação?
Quais são as “brigadas de prevenção do ICNF”, que são mencionadas na medida? Serão porventura as equipas de sapadores florestais? Se assim for, por que razão durante todos estes anos o ICNF não aproveitou essa força, a organizou, equipou, treinou, estruturou e utilizou? É agora que o vai fazer? Ou será que as centenas de novas equipas que estão anunciadas irão ser mais do mesmo?
9. Por fim recomenda-se que “as equipas de intervenção permanente dos bombeiros voluntários serão vocacionadas, cada vez mais, para a mais nobre missão de proteger a vida das pessoas, as povoações e os bens, permitindo otimizar o conhecimento de cada um para todos podermos ter melhor segurança”.
Esta medida é um corolário do erro contido na anterior.
Como se pode qualificar de “a mais nobre missão” como sendo a de proteger a vida das pessoas, as povoações e os bens? Então a missão dos outros combatentes “especializados” não é tão nobre? Parece que não se compreende que são aspetos distintos do mesmo combate, mas que não carece de forças distintas? Uma vez mais pergunto, onde está o conhecimento nesta área, no sector do ICNF, que contribua para a melhor segurança de todos?

Professor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra. O autor segue o Acordo Ortográfico




Professor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra. O autor segue o Acordo Ortográfico

DOMINGOS XAVIER VIEGAS- Jornal Público 19 de Novembro de 2017

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Desabafos-José Carlos Marques


Texto de José Carlos Marques-Responsável pela Proteção Civil, um amigo e um colega dos tempos em que fiz o estágio na Câmara Municipal de Oliveira do Hospital. Um texto profundo que diz tudo sobre o que passámos em Oliveira que vai deixar marcas em todo o país. Leiam e reflitam sobre o seu testemunho, um excelente texto

Desabafos na 1° pessoa,
do Técnico: domingo, 15 de outubro de 2017, 10h26m, um domingo que seria como como tantos outros, mas que, inesperadamente se transformou, quiçá, no pior domingo da minha (ainda curta) Vida. 
Saído de uma Missa vespertina, na Igreja de Lourosa, rececionando o novo Pároco da freguesia (Padre Rodolfo), e acabadinho de chegar a casa, para um dia domingueiro, na companhia da família, eis que irrompe pelo telemóvel um simples sms alertando para uma ocorrência de incêndio.
Mais um, pensei eu. E lá fui eu, como tantos outros operacionais (Bombeiros, Sapadores, GNR, Manobradores de Máquinas), na Esperança de regressar novamente umas poucas horas, já com o incêndio extinto, e o sentimento de dever cumprido.
Puro engano. Efetivamente o incêndio rapidamente tomou proporções incontroláveis, transformando-se num incêndio difícil de combater. As horas foram passando, o vento aumentando, o incêndio avançando descontroladamente, não dando tréguas aos Valentes operacionais que com a sua tenacidade lá o iam enfrentando. 
O meio/fim da tarde chegou e com ela a pior das notícias. Outro incêndio avançava descontroladamente em direção ao nosso concelho. Pouco tempo depois, notícia de outro que também se dirigia ao nosso encontro. Momentos depois notícia de novos focos de incêndio, motivado pela inexplicável força do vento, que lá ía potenciando novas projeções.
Em poucos minutos ficámos (operacionais e população), cercados pelo fogo, votados à nossa sorte. Em redor só víamos lume, parecia noite cerrada. Lavaredas enormes irrompiam pelo céu. Foi neste momento que o desalento e o sentimento de impotência se abateu sobre todos, sim TODOS. Mas apesar deste sentimento continuámos a Nossa Nobre Missão de ajudar e tentar Salvar Vidas. Não conseguimos na plenitude. 
De Heróis todos tivémos um pouco.
O resto já sabem…
Fiquei e estou desolado. Foi um rude golpe. Vi desmoronar um trabalho de uma dúzia de anos. Desanimei. Hoje assumo. Sim, fui abaixo. Estou ainda desanimado mas a tentar “Renascer”. Tenho Esperança que vou, aliás, vamos conseguir.
do Autarca: recém-eleito duas semanas antes, longe de imaginar que, duas semanas depois, este iria tornar-se o maior desafio da Vida. 
Motivos profissionais impediram-me de poder ajudar as gentes da minha freguesia neste fatídico dia. De partilhar o sofrimento connvosco. De poder também auxiliar-vos a salvar as vossas vidas, as vossas casas, os vossos pertences, a dar aquela palavra de amor, de ânimo, de conforto que tanto significado têm nestes momentos e que seria também a minha obrigação. 
do Marido, Filho e Neto: o dever chamou-me, e fui… à semelhança de tantos outros, abandonando a família, em auxílio de outrem. Quando tudo aconteceu, estava longe de vocês e perto de outras famílias, também elas a viver momentos de angústia, de desespero, tentando transmitir serenidade a quem, tal como vocês, estava a sofrer na pele as agruras daquele maldito fogo. 
A notícia que ninguém pensa ouvir, entretanto rapidamente chegou pela voz da Sandra, minha esposa. A minha pequena aldeia tinha sido completamente cercada pelo fogo. A nossa casa tinha ardido, a Sandra tinha abandonado a casa, cruzando o fogo, refugiando-se em casa de amigos noutra localidade, noutro concelho. A aflição era tamanha que não sabia como e onde estavam a minha mãe e o meu avô (acamado), assim como os restantes familiares. Era uma voz desesperada. Nem queria acreditar.
E eu, lá do outro lado, na freguesia de Aldeia das Dez, numa Missão com os meus companheiros, com os Bombeiros e com a GNR, sem poder ajudar, com a cabeça envolta num turbilhão de emoções tentando manter a calma, depois de tão desoladoras notícias. E mantive, ainda estou para saber como. Reencontrei a Fé revendo o Padre Rodolfo em Chão Sobral, também ele "apanhado" no meio desta tragédia e horas depois nos ter-mos encontrado na missa vespertina de domingo em Lourosa.
Depois, eram para aí uma e tal da manhã, ainda com estradas cortadas, embora por breves momentos, regressei à minha freguesia e à minha aldeia. A tormenta já havia passado. Passei pela nossa casa, fui ter com a Sandra e com alguns dos meus familiares. Graças a Deus estavam todos bem e a casa não havia ardido.
Fiquei destroçado por ver tamanha destruição. Depois regressei de novo à minha Missão.
Estou sentido. Ainda hoje não me conformo por, talvez no momento da vida em que vocês mais precisavam da minha presença, eu não estava para vos poder ajudar. 
Por vezes a Vida é assim…
Quinze dias depois, tive o grato privilégio de receber a Isabel e a Catarina, psicólogas de profissão e que voluntariaram para auxiliar na tarefa de reerguer as nossas gentes. Percorremos a freguesia, contatámos com inúmeras pessoas. No pouco tempo que privei com ambas dialogámos um pouco. Bem não foi bem um diálogo, foi mais monólogo. Tentei ser forte. Não consegui. Logo me alertaram de que também eu estaria a precisar de ser acompanhado. Caí em mim. Creio que têm razão. “Um Homem também chora, quando assim tem de ser”.
E para finalizar deixaram escapar esta frase “… mas por favor, não descuides de ti, dos teus e dos teus alicerces. Muita Força e Coragem nestes dias difíceis”.
Dei-lhes razão. Afinal, duas semanas depois, ainda não tinha tido tempo de pensar nisso...
do José Carlos Marques: Um sincero Muito Obrigado a Todos (e foram tantos, mas tantos) que nos têm ajudado a "Renascer". 
Um agradecimento a TODOS os Operacionais e aos inúmeros Voluntários, que tornaram possível e bem conseguida esta gigantesca, complexa e sem precedentes Missão de reposição da normalidade, 
Por último, um apelo aos Nossos Governantes lá por Lisboa: venham até nós, pisar as nossas cinzas, sentir e ouvir a angústia das nossas gentes, dos nossos agricultores de subsistência, dos nossos empresários, pois creio que passado que foi um mês, ainda não perceberam bem a tragédia que se nos abateu. 
Fim…
José Carlos Marques

15 de Novembro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Recordar os mortos, para compreender os vivos

            Durante semanas a fio, vi-o repetir o mesmo ritual. Quando a porta se abria, logo pela manhã, entrava, benzia-se e depositava um ramo de alecrim sobre a pedra tumular. Depois, como se não houvesse tempo, ficava apenas a olhar longamente as escassas palavras inscritas na lápide. Sempre em silêncio.
            Sou coveiro. Dito assim de rompante, o meu trabalho até é relativamente simples de explicar: escondo o que poucos ousam ver. Abro e tapo buracos com cerca de 2 metros de profundidade, arrasto pedras e observo a dor dos vivos que se procuram no meio dos mortos. Já lá vão mais de 50 anos que ando por estas bandas, mas ainda me lembro do dia em que pisei esta terra pela primeira vez, trazido pela mão do meu pai, ele mesmo um coveiro. Pobre do homem veio tentar mostrar-me como isto era difícil, para que eu me esforçasse mais na Escola. Nunca pude esquecer esse dia. Era Inverno e chovia desalmadamente. O cheiro da terra molhada e o pavor da cova aberta foram o suficiente para que começasse imediatamente a chorar. Então, o homem condoeu-se e, apertando-me nas pontas dos dedos, voltou a levar-me para casa.
            A verdade nua e crua é que os meus pais nunca quiseram que eu enveredasse por estes caminhos. Ainda hoje não compreendo muito bem o que me trouxe até aqui. Quem pode, afinal, entender as estranhas malhas do destino? Sei apenas que nunca fui bom aluno. Na Escola, os professores diziam-me:
            “– Seu asno! Hás-de ser sempre como o teu pai. Um desgraçado da morte” – e eu começava logo a chorar, porque não queria ser um desgraçado da morte. Afinal, eu até sempre tive medo do mundo dos mortos e o escuro causava-me os piores pesadelos. Contudo, que futuro poderia haver para o filho do único coveiro da povoação? Quando fiquei só neste mundo, por volta dos 16, é que compreendi o verdadeiro peso da herança. Cada vez mais, seremos apenas o espelho do berço onde nascemos...
            Antes de abrir a primeira sepultura, emborquei uns bons cálices de aguardente. Queimar a alma é a melhor forma de escravizar o corpo e anular quase todos os sentidos. Mas encontrar o que resta de um ser humano condensado numa meia elástica abala a fé de qualquer um, mesmo bêbedo até à ponta dos cabelos.
            Ao longo dos anos, tive, é certo, algumas oportunidades para abandonar este ofício miserável. Ganhei a lotaria duas vezes, mas o dinheiro escorregou-me sempre das mãos com uma velocidade difícil de explicar. Um homem sem ninguém via-se de repente rodeado por amigos de todos os lados. E foi difícil não escapar à tentação de fazer cada vez mais e mais amigos instantâneos. Até perder tudo e as mãos que me apertavam passarem novamente a ignorar-me. O sabor da exclusão chama-se invisibilidade.
            Hoje, logo pela manhã, ao ver aquele menino entrar uma vez mais no cemitério, dei por mim a pensar nos motivos que o trariam ali. Então, o mais silenciosamente que consegui, ganhei coragem e aproximei-me. Chamava-se Pedro, como nos Evangelhos, tinha 10 anos e perdera recentemente o irmão. Vinha visitá-lo na sua última morada e pedir à avó que cuidasse dele.
            “– E o alecrim? Para que deixas tu o alecrim?”
            “– O meu irmão – respondeu – dizia-me que o alecrim era bom para a memória. Que até houve um tempo, há mais de 2000 anos, em que os estudantes gregos o colocavam atrás das orelhas para terem boas notas na Escola”.
            “– Isso é muito engraçado… Mas para que trazes tu o alecrim?” – insisti.
            “– Para nunca esquecer o meu irmão”...
            Ao ouvir aquele menino, não posso deixar de sorrir. Afinal, as grandes perdas da vida são sempre acompanhadas de um terrível período de esquecimento. Primeiro, há um fantasmagórico nevoeiro que se apodera de nós e a imagem da pessoa amada começa rapidamente a desvanecer-se. As suas palavras misturam-se, a voz afasta-se e até os objectos parecem esvaziar-se de qualquer significado. As casas, então, transformam-se num vazio arrepiante. E ao fim de algum tempo é que começamos a compreender o esforço que é preciso fazer para não esquecer quase tudo. Sim, para não esquecer quase tudo, como se pura e simplesmente nada tivesse existido. Como se tudo não passasse de um sonho condenado a desaparecer.
            Condenado a esquecer… O Homem foi condenado a esquecer. Caso não o fizesse, desistiria rapidamente de quase tudo na vida. Trata-se de um mecanismo de sobrevivência, que, no entanto, também implica recordar. E é nessa equação, entre o que esquecemos (ou pensamos esquecer) e o que recordamos, que está algures o que somos.
            Agora, que se aproxima a entrada de Novembro, muitos regressarão temporariamente ao terreno dos mortos. Passarão o velho portão de ferro, alguns irão mesmo fazer o sinal da cruz antes de refugiar-se na interminável saudade, nesse vazio imenso para o qual ainda não inventaram palavras... Quase todos, porém, continuarão a mostrar-se incapazes de compreender o drama dos vivos que por aqui trabalham.
            Poucos o terão imaginado, mas cada regresso ao mundo do eterno repouso é sempre um acto de resistência. Ao depositar o ramo de alecrim, uma flor, acender uma vela, afastar o pó da imagem que insiste em apagar-se ou simplesmente permanecer em silêncio estamos a cuidar de nós, como se nos fosse dada a possibilidade de entrar no hospital onde estamos internados e vigiar a própria doença. Em certo sentido, é uma viagem ao futuro, onde nos reencontramos, despidos de todos os títulos e cosméticas. Nesses instantes, apenas os símbolos parecem fazer ainda algum sentido.
Símbolos e utopias que nos fazem cada vez mais falta. O feriado de Novembro e, em especial, o segundo dia consagrado à memória dos que já partiram também podem ajudar-nos a pensar nisso… Ou não fosse a memória o pólen indispensável para cada um pensar depois a sua própria história.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sábado, 7 de outubro de 2017

Pensar a República

Não há pensamento sem tempo livre. Os feriados constituem, por isso, uma oportunidade privilegiada para parar, fugir do ruído e ousar chegar às próprias conclusões. Aproveitemos, por conseguinte, o feriado de 5 de Outubro para mais este breve acto de rebeldia.
            A revolução republicana de 1910 constitui um marco decisivo na História de Portugal e a nossa identidade radica em vários dos seus símbolos. Quem já saiu do país e avistou de repente a bandeira nacional sabe bem do que estou a falar. O escudo foi, até há pouco, outro desses símbolos, ao qual poderemos ainda associar o incontornável hino nacional. Muitos já não se recordarão, mas “A Portuguesa” foi composta no final do século XIX, como reacção patriótica ao humilhante Ultimato Inglês de 1890, sendo depois adoptada pela I República como hino oficial.Seriam apenas introduzidas ligeiras alterações: a expressão “contra os Bretões [Britânicos] marchar, marchar” foi substituída pela mais inócua fórmula “contra os canhões, marchar, marchar”.
            Ora, um dos primeiros aspectos que se torna evidente para quem procura estudar a I República é a profunda complexidade deste período, em que tudo fervilhava e as ideias brotavam a um ritmo vertiginoso. Afinal, Portugal replicava a tumultuosa ambiência europeia da época.
As várias facções em que se desdobraram os republicanos (Partido Republicano Português/Partido “Democrático”, Evolucionistas, Unionistas, Machadistas, Socialistas…) reflectem bem esse arco-íris, muitas vezes explosivo, como bem o demonstra a fatídica “Noite Sangrenta”, em 1921, no decurso da qual foram assassinados os «heróis» do 5 de Outubro Machado Santos e Carlos da Maia, bem como, por exemplo, o primeiro-ministro António Granjo. Falamos de um período de 16 anos também marcado por revoltas, perseguições religiosas, assassinatos, traições, tentativas de restaurar a Monarquia e por duas breves ditaduras (Pimenta de Castro, em 1915, e Sidónio Pais, em 1917-1918).
            A Ditadura Militar, implantada com o golpe de 1926, e sobretudo o Estado Novo conseguiram esvaziar essa pluralidade de tendências político-ideológicas da I República. Afinal, no âmbito da sua hábil capacidade estratégica, Salazar sempre procurou construir a ideia segundo a qual, a partir de 1933, se iria iniciar uma nova era na História de Portugal, deixando para trás o caos e a decadência da República (daí que o Estado salazarista se definisse como “Novo”). A habitual política de criar elásticos equilíbrios levava o ditador a conseguir anular os seus adversários, integrando-os. Repare-se: ao desvalorizar a questão do regime (entre República e Monarquia não haveria urgente necessidade de escolher, pois o importante seria garantir o bem da “Nação”), Salazar mantinha viva a esperança dos monárquicos e fazia-os aproximar da “situação”, enquadrando-os e anulando-os.
            Hoje, ao confrontar-me com o legado da I República – e sem pretender escamotear a repressão, a violência e as mortes que marcaram este fervilhante período, agudizado, de modo decisivo, pela intervenção do país na I Guerra Mundial e por uma consequente instabilidade política, económica e social –, será fundamental destacar as tentativas levadas a cabo para implementar um conjunto de reformas inéditas na História do país, nas mais variadas áreas. Tentativas que, apesar de tudo, constituem uma referência ideológica incontornável. Refira-se, a título ilustrativo, a aprovação do direito à greve, a fixação do horário semanal de trabalho (48 horas), os mecanismos legais que asseguravam a protecção na doença e na velhice, a reforma dos ensinos universitário e primário, o qual se tornou obrigatório, o combate inglório ao analfabetismo e as leis da laicidade do Estado, nas quais os republicanos democráticos terão mesmo ido longe de mais. Falamos de medidas que, à luz da sua época, representavam um profundo avanço, não só no nosso país, mas na História da própria Europa.
            Em Portugal, pese embora todos os avanços decorrentes do Liberalismo, o conceito de cidadão nasceu, sobretudo, em Outubro de 1910, por oposição ao súbdito monárquico. A carta de alforria abriu caminho a um renovado projecto de liberdade (marcado, reforcemos, por grandes excessos), ao qual fará todo o sentido consagrar as últimas palavras desta reflexão.
            A tentação de silenciar aqueles que discordam de nós continua ainda a ser tremenda, o que poderá (ou não) ser um resquício dos 48 anos de ditadura em que vivemos submersos, mas também da sistemática desvalorização da ética, sempre ultrapassada pela desmedida ambição de subir a todo o custo.
            Nesta era dos cemitérios do pensamento, faz-nos, portanto, falta o fervilhar de ideias da I República (o pensamento é sempre um acto de ousadia e rebeldia). No momento em que se completam 107 anos da Revolução de Outubro de 1910, é, pois, importante parar para pensar nesta data histórica em que radica muito do que somos. O que também implica problematizar o significado de“republicano” e o quão ligado a este conceito está a liberdade concreta dos Homens.
Primeiro o Homem sonha, depois a obra nasce. A I República lançou as sementes. Cabe-nos problematizar o seu legado, renunciando ao que deve ser renunciado (a começar pelo radicalismo) e potenciando os aspectos positivos, como seja a tentativa de pensar o país e criar medidas para o transformar. Isso chama-se tentar construir pontes entre o passado e o futuro. E as pontes são cada vez mais uma necessidade…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

Os pais da exclusão

Biblioteca Nacional de Lisboa, 29 de Setembro de 2017. Depois de mais um dia de trabalho, venho queimar os últimos cartuchos da resistência em redor dos livros. Passo os olhos pela sala, repleta de leitores assoberbados nos seus próprios dilemas. Mesmo ao meu lado, um “jovem” na casa dos 80 estuda Gomes Freire de Andrade, na mesa da frente há livros sobre a I República e atrás de mim alguém se debruça sobre o cancro. Esta sala – dou por mim a pensar – é bem o reflexo de um país, onde cada um vive isolado nos seus próprios trabalhos, incapaz, pelas mais variadas circunstâncias, de encetar diálogo com o semelhante. Fico até com a impressão de que se neste momento Donald Trump lançasse um ataque sobre a Coreia do Norte todos permaneceriam exactamente como estão. Pura indiferença, à qual também não escapa a tapeçaria da Leitura Nova, com D. Manuel I no centro, ali mesmo à frente...
            Ironia das ironias, foi na Biblioteca Nacional que nasceu, em 1921, um grupo de intelectuais que procurou intervir na sociedade, responsabilizando-se pela transformação das mentalidades. Desse grupo de republicanos, entre os quais se incluíram Jaime Cortesão, Raul Proença e Aquilino Ribeiro, viria a surgir a revista Seara Nova, na qual seriam publicadas ideias concretas (e em certo sentido ainda actuais) para reformar Portugal, procurando construir uma opinião pública esclarecida e exigente. Falamos de intelectuais, que ousaram pensar e intervir, pagando depois caro – Aquilino Ribeiro, por exemplo, teria de exilar-se em França, na sequência da sua participação nas revoltas de 1927 e 1928 contra a Ditadura Militar.
            Neste momento, em que regressamos a uma nova era de Guerra Fria, faz-nos cada vez mais falta uma opinião pública esclarecida e exigente, disponível para defender a paz e os ideais democráticos em que radica a identidade da civilização ocidental. Importa não esquecer que o lançamento das duas primeiras bombas atómicas da História, sobre Hiroxima e Nagasáqui, em Agosto de 1945, terá provocado, entre efeitos imediatos e posteriores, mais de 300.000 mortos. Hoje ninguém saberá prever o que poderia suceder, caso fosse iniciada uma nova guerra a esta escala, mas não há dúvida de que todas as palavras seriam escassas para descrever aquele que concretizaria o pior pesadelo de toda a Humanidade, senão mesmo a sua completa aniquilação. Oppenheimer, o brilhante físico teórico que liderou o grupo responsável pela invenção da arma nuclear, percebeu isso tarde de mais, chegando mesmo a perguntar-se, na sequência das bombas atómicas que ele mesmo ajudara a desenvolver, até que ponto a ciência era realmente boa para o Homem.
            Nesta “era dos extremos” (Eric Hobsbawm) em que ainda parecemos mergulhados, a ética será cada vez mais uma necessidade. É também por isso que não me canso de repetir que as disciplinas que nos ajudam a estruturar o pensamento (caso da Literatura, da Filosofia, da Poesia, da História, da Arte, da Música, enfim, do regresso aos clássicos…) poderão fazer toda a diferença. Sem ética e sensibilidade, o conhecimento de pouco ou nada nos adiantará.
            O actual sistema educativo nacional, que se autoproclama inclusivo, tem na realidade vindo a constituir-se como um foco segregador e potenciador de exclusões. Ao desrespeitar o ritmo de aprendizagem de cada aluno (negando quase sempre o direito a que este possa ficar retido – “chumbar” poderá traumatizar e contribui para aumentar o défice…), ao impor programas curriculares profundamente desajustados que obrigam a recorrentes explicações extra-lectivas (logo a partir do 1.º ciclo!) e que conduzem ao sucesso das elites e ao insucesso (não aprendizagem e progressiva desmotivação) dos restantes, ao transformar os professores em meros escravos de tecnocratas políticos, enfim, ao fazer da Escola um local de repetição e não de pensamento, está apenas a contribuir para que se criem cada vez mais e mais focos de exclusão. Por muita retórica gongórica que para aí exista a respeito das nossas conquistas da inclusão, a verdade é que as últimas décadas educativas têm constituído um período de terríveis e encapotadas exclusões. E a herança de Abril parece desvanecer-se perigosamente…
Um dos muitos exemplos obscurantistas é a mais recente proposta apresentada pelo Ministério da Educação para alterar a pedra angular da escola inclusiva em Portugal (decreto-lei n.º 3/2008, com as suas revisões dadas pela lei n.º 21/2008, de 12 de Maio). Além de consubstanciar um projecto esotérico, trata-se de um documento de tal modo subjectivo e abrangente que abre portas às mais variadas, antagónicas e perversas interpretações, criando dúvidas desnecessárias e fazendo tábua rasa do decreto-lei antecedente.
            Sejamos práticos.Um dos grandes pré-requisitos para a inclusão passa pela efectiva redução do número de alunos por turma (15 no máximo). Depois, é urgente rever a questão da formação dos docentes, a começar no conceito de especialização em Educação Especial, que, nos moldes actuais, se revela manifestamente insuficiente para fazer face à complexidade desta área. A formação contínua dos restantes professores, membros de direcções de escolas, técnicos, assistentes operacionais é demasiado séria para continuar a ser deixada nas mãos dos centros de (de)formação que para aí proliferam como cogumelos. E quanto a legislação, não é preciso inventar, basta aperfeiçoar a que já existe e garantir a sua operacionalização. E não – repita-se bem alto – não é com mais leis que se melhora o sistema educativo.
            O actual paradigma de pensar a Escola continua centrado naquilo que de pior existe nas ciências da educação que para aí reinam: modelos teóricos e ininteligíveis, aparentemente alicerçados numa ética inclusiva, mas que na verdade são o oposto. É hora de fazer regressar a função primordial da Escola: a aprendizagem de conhecimentos substantivos (ler, escrever, contar), dando aos alunos e professores tempo e condições para pensarem e aprenderem permanentemente em conjunto, o que também significa, repita-se, sustentar o direito à retenção dos alunos que, sobretudo numa fase precoce, necessitam de mais tempo para consolidar os conteúdos trabalhados. Apenas com medidas concretas poderemos efectivamente contribuir para a melhoria das aprendizagens (o que é diferente, subentenda-se, de garantir elevadas e artificiais taxas de sucesso para todos).
            A Escola pública, cada vez mais politizada, tem vindo a perder o espírito democrático de Abril, como, de resto, demonstra o modo como os Diretores dos Agrupamentos são nomeados por um colégio eleitoral restrito (na verdade, é o que acontece). A recente proposta de substituição do decreto-lei n.º 3/2008 representa mais uma poderosa machadada na inclusão, à qual a liberdade abriu portas.
E não nos iludamos, os excluídos de hoje serão, muito provavelmente, os miseráveis, os criminosos e os terroristas de amanhã. Escravos que as ditaduras agradecerão. O problema é que quando esse dia chegar não teremos a capacidade de compreender quem as ajudou a alimentar.
            Sim – André Singer tem razão – Night will fall… E fomos nós que apagámos as luzes. Também por isso, talvez algures no futuro nos chamem os novos pais da exclusão. Logo a nós, que tantas vezes repetimos (em vão) a palavra inclusão.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sábado, 27 de maio de 2017

Casas abandonadas

A partir do momento em que a minha avó materna faleceu, já lá vão 22 anos, a sua casa de granito na Beira Alta passou a ficar desabitada. Ao longo destas décadas, sempre que lá entrei, contorcendo-me entre as teias de aranha, senti que fazia uma viagem ao passado.
            Nada do que hoje reencontro naquela casa abandonada continua a pertencer a este tempo, pois o contexto que lhe conferia sentido há muito que se apagou irremediavelmente. Desapareceu a dona das pedras de granito, a janela de carvalho perdeu a cor e até o menino que lá entrava, a tactear as paredes em plena escuridão, deixou em grande parte de existir.
            Ainda assim, as fotografias a preto e branco, as cartas religiosamente depositadas na gaveta, as velhas arcas brasileiras a testemunharem a aventura transatlântica que tantos portugueses empreenderam, os tachos e a trempe enferrujada… tudo o que hoje ainda reconheço naquele santuário me ajuda a marcar um encontro comigo mesmo, com uma parte da minha identidade. Deste modo, ao interrogar cada fragmento, vou reconstruindo e desfazendo imagens, onde a luz e a escuridão se materializam em memórias fugazes e intermináveis esquecimentos, que mais tarde, na busca do rigor, vou cruzando com as narrações de outras vozes que ainda recordam o passado partilhado.
            Eis aqui a imagem que melhor me ocorre quando penso no ofício de estudar História: regressar ciclicamente às casas abandonadas (moradias, mais ou menos familiares, que nunca param de aumentar dentro de nós), para interrogar incessantemente o que somos, à luz das nossas preocupações actuais. História: uma narrativa científica feita de luzes, sombras, silêncios, memórias e esquecimentos, à qual, nos últimos anos, deixei de dever o pão que me alimenta, mas que, ainda assim, jamais poderei apagar do meu posicionamento cívico perante o mundo.
            Ora, no âmbito das comemorações dos 43 anos da Revolução de 1974, a RTP2 (balão de oxigénio da televisão pública nacional) transmitiu um interessante programa a respeito das conquistas de Abril (“Sociedade Civil”, XIII, 26/4, episódio 68). Já na parte final das conversas, o jornalista confrontou o historiador António José Telo com a seguinte questão:
              – Estamos a ensinar aos mais novos verdadeiramente o que foi o 25 de Abril? Estamos a passar-lhes os valores de Abril, estamos a ensinar-lhes as diferenças que existiam com a ditadura e aquilo que é a vida deles agora com a democracia?
            A resposta do académico – autor de uma prolífica, séria e multifacetada obra, decisiva para compreender o último século da nossa existência colectiva – fez-me saltar do sofá:
            – Todas essas preocupações são preocupações mais a ver com a política do que com a História. Esta preocupa-se em explicar o que aconteceu (https://www.rtp.pt/play/p3150/e285778/sociedade-civil).
            Devo dizer que discordo em absoluto desta posição. Afinal, como escreveu Marc Ferro, as primeiras etapas do ensino desempenham um papel fundamental na “imagem que fazemos de outros povos e de nós mesmos” (A manipulação da História no ensino e nos meios de comunicação, Brasil, IBRASA, 1983, p. 11), daí – acrescento eu – o carácter absolutamente determinante do educador de infância e do professor do 1.º ciclo na formação do indivíduo. Um tema que, de resto, bem justificaria outro artigo…      
.           Segundo creio, vários dos nossos problemas radicam no modo como continuamos a tratar as ciências estruturantes do pensamento, caso da História, mas também da Literatura e da Filosofia, que ainda há pouco tempo vi ser apelidada, por uma professora britânica, como o domínio do “nonsense”, perante a gargalhada geral da plateia.
            As sociedades contemporâneas necessitam de ética e pensamento próprio como pão para a boca, a começar pelos líderes que governam o que ainda sobra da União Europeia. Pese embora as profundas transformações a que continuamos a assistir, a Escola continuará a desempenhar um papel decisivo na construção dos nossos alicerces civilizacionais. É a partir dela que poderemos continuar a combater de modo sustentado Trump, Le Pen e demais extremismos, que nos poderão conduzir, num ápice, a mergulhar no inferno auto-destrutivo da guerra total. Estar atento é, portanto, uma necessidade, para todos os cidadãos.
            Mais do que nunca faltam-nos pontes de sabedoria, nesta era dos muros de aço. E os (denominados) intelectuais deveriam ser os primeiros a compreendê-lo, descer das torres de marfim em que tantas vezes vivem enclausurados, erguer a voz e intervir. Por conseguinte, os historiadores que desprezam problematizar o modo como a sua ciência é trabalhada nos vários níveis de ensino estão a demitir-se da sua função cívica.
            Todos nós temos as nossas casas abandonadas, esqueletos aos quais somos tentados a regressar. A História exerce um fascínio tremendo sobre o indivíduo, a começar pela maioria das crianças e jovens das nossas escolas. Falta-nos garantir que os programas curriculares da disciplina sejam ajustados à faixa etária dos alunos, que sejam pensados como um todo (numa perspectiva global, estruturada e articulada entre os vários ciclos), que a disciplina passe a contar com uma maior carga horária, que as turmas sejam efectivamente reduzidas (não me refiro às recentes produções de cosmética que continuam a vir a lume) e, por exemplo, que os professores passem a ter tempo para estudar e aprender. O que equivale a dizer que é urgente expurgar o sistema das inúteis burocracias e da kafkiana máquina de fazer dinheiro em que se transformaram as inúteis formações que para aí proliferam.
            Nestes estranhos tempos em que quase tudo nos faz adormecer e obedecer, a Escola ainda pode continuar a fazer toda a diferença. Para isso, terá de constituir-se enquanto um jardineiro do pensamento e do espírito democrático. Ora, um dos primeiros passos concretos poderia ser o regresso da eleição da figura do diretor por todos os seus pares pedagógicos.
            Caso a Escola não consiga adaptar-se, a mensagem dos Pink Floyd continuará a ser cada vez mais actual: “We don’t need no education”. E todos os extremismos terão cada vez mais escravos à sua disposição…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)