segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Uma reflexão sobre os incêndios florestais de 2017

O problema dos incêndios florestais está longe de ser um problema de espécies florestais ou de mera gestão de espaços. No nosso país é, antes de mais, um problema de pessoas. Infelizmente estas estão colocadas, ostensivamente, fora do sistema.

Portugal sofreu no ano de 2017 a maior devastação de que existe registo no âmbito dos incêndios florestais em um só ano. Embora o desempenho do país não tenha sido muito positivo ao longo das décadas passadas, no confronto com outros países e com situações comparáveis, os incêndios que percorreram o Centro e Norte de Portugal neste ano constituíram um absoluto choque e uma chamada de atenção para toda a sociedade. A perda de mais de 115 vidas, a devastação de cerca de 500 mil ha, a destruição de centenas de casas, instalações industriais e empresariais, com o leque de efeitos sociais, ambientais e económicos que trouxe, parece que finalmente despertou a sociedade para a relevância do problema dos incêndios florestais.
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Todos sentimos que o propósito de “nunca mais”, formulado em várias ocasiões anteriores, tem de ser levado mesmo a sério, agora mais do que nunca. O país já teve outras chamadas de atenção, nos anos de 2003, 2005 e 2013, mas, como se pode verificar, apenas se ficou a meio caminho, na tomada de consciência, na mudança de comportamentos e de atitudes e na adoção de medidas eficazes. Perdeu-se muito tempo, pactuando com o desleixo e com a negligência, que conduziu o nosso país a esta situação calamitosa. O país está indignado e certamente não deixará de prestar uma atenção continuada a este assunto nos tempos futuros, e de retirar dele consequências políticas também. Conforme foi dito, já se perdeu muito tempo e não podemos senão adotar as medidas certas, sem perder mais tempo com experimentações ou medidas irrealistas.   
Ao comentar esta tragédia, em mais do que uma ocasião, disse que “falhámos todos”. Nesta expressão começo por me incluir pessoalmente, pois sinto que falhei no meu propósito de chamar a atenção de quem de direito para a importância do problema e no desenvolvimento de soluções que permitissem, ao menos, minimizar as tragédias pessoais que sofremos. Mas incluo também, de uma forma geral, todos os cidadãos, porque se trata de uma questão que envolve toda a sociedade. Ninguém se pode colocar fora do problema e, menos ainda, julgar os outros, porque terá certamente deixado algo por fazer. Se não, não teríamos sofrido esta tragédia.
O país está chocado e indignado, mas já não bastam os sentimentos. Temos de passar à ação. Como cientista que há mais de 30 anos procura ter uma intervenção na temática dos incêndios, o modo mais adequado que encontro para manifestar a minha indignação é o de contribuir com o meu trabalho e o do meu centro de investigação, para o seu estudo e compreensão.
Para além da investigação científica, como cidadão, procuro ter também uma intervenção cívica, que me tem levado a colaborar, com espírito aberto, com uma crítica construtiva e leal, com todos os Governos que tenho conhecido, independentemente da sua cor política, e com todas as instituições envolvidas na gestão do problema dos incêndios florestais.
Por esse motivo aceitei, com a minha equipa, o encargo do Governo para produzir um Relatório sobre o Incêndio de Pedrógão Grande, que se encontra publicado parcialmente (https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/comunicacao/documento#o-complexo-de-incendios-de-pedrogao-grande-e-concelhos-limitrofes-iniciado-a-17-de-junho-de-2017). Neste relatório apresentamos os factos tal como se nos depararam e procurámos retirar lições, para que não se repitam as perdas que aquele incêndio teve. Infelizmente, a divulgação de algumas destas lições não foi feita a tempo de evitar, ao menos em parte, a tragédia que sofremos em 15 de outubro. 
O relatório que a minha equipa produziu baseia-se num extenso trabalho de campo, desenvolvido por uma equipa de 14 especialistas, muitos deles com longos anos de experiência de investigação nesta área e de realização de estudos semelhantes. Contém uma análise detalhada das condições meteorológicas, da origem e do comportamento do fogo, das perdas humanas e do impacto do incêndio nas comunidades. Infelizmente, não foi ainda tornado público o capítulo 6, que trata das perdas humanas, que é por sinal um dos mais extensos do relatório, no qual se relatam, de modo anónimo, cada um dos acidentes que causaram as 65 vítimas mortais e algumas das cerca de duas centenas de feridos. Neste relatório é apontada como causa provável dos incêndios principais a falta de manutenção da faixa de proteção de uma linha elétrica existente nos locais de origem dos mesmos.
Indicámos que, para além de todos os fatores circunstanciais que se encontram associados ao incêndio e que potenciaram a sua gravidade, está a deficiente governação do país, que ao longo de dezenas de anos tem vindo a negligenciar o problema do mundo rural e em particular da sua proteção em relação aos incêndios. Ao longo dos anos, temos vindo a chamar a atenção das autoridades para a necessidade de modificar este estado de coisas, a denunciar a inoperância de algumas entidades, a ineficácia de muita legislação e propondo medidas para correção do rumo.
Quem me tiver ouvido, em especial nos últimos anos, poderá lembrar-se de que sempre defendi que o sistema de defesa da floresta contra os incêndios (SNDCIF), assente nos três pilares estatais da ANPC, do ICNF e da GNR, é desadequado. Em minha opinião, falta um quarto pilar, que designo por “População”, que deveria envolver toda a sociedade, para além das entidades estatais. Envolveria antes de mais a população, que tem sido marginalizada do problema e das tentativas de solução. Engloba igualmente as autarquias, as empresas, a comunidade científica e tantas outras instituições que, como agora se vê claramente, querem dar o seu contributo, mas não sabem como, porque têm sido deixadas à margem do sistema e se encontram desorganizadas.
Sempre disse que se o Estado persistir em tentar vencer esta “guerra”, apenas com a força das suas instituições, não o conseguirá. Um dos seus pilares, a ANPC, que prestou serviços muito meritórios ao país, encontra-se nesta altura fragilizado, injustamente, mas também por demérito próprio. Outro pilar, o ICNF, tem-se mostrado frouxo desde há vários anos, com uma desfocagem e afastamento crescentes, relativamente o problema dos incêndios florestais. A GNR, que está há pouco mais de dez anos no sistema, mercê de uma excelente liderança e organização de que dispõe, tem-se mostrado ser o pilar mais consistente e com um leque de funções mais diversificado no dispositivo.
Quanto ao “quarto pilar”, está quase tudo por fazer. É o mais difícil, mas é também o mais importante. O problema dos incêndios florestais está longe de ser um problema de espécies florestais ou de mera gestão de espaços. No nosso país é, antes de mais, um problema de pessoas. Infelizmente estas estão colocadas, ostensivamente, fora do sistema.
No passado dia 21 de outubro, realizou-se um Conselho de Ministros dedicado a analisar o problema dos incêndios florestais e a aprovar um conjunto de medidas legais, para dar um sinal ao país de que havia a intenção de passar das palavras aos atos. Por muita preparação que pudesse ter havido, para fazer estas propostas, era para mim óbvio que faltou tempo para se refletir o suficiente, para se reunir consensos e juntar as forças para que pudesse sair uma reforma profunda e consequente. Como é compreensível, uma boa parte das medidas poderiam ter sido postas em prática há muito tempo, sem ter de se alterar o sistema vigente. Apenas se pergunta porque não se puseram em prática antes.
O conjunto das medidas visa essencialmente os três pilares do Estado e o reforço de verbas. Não se vislumbra uma única medida de fundo destinada a envolver a população, a apoiar as pessoas, a contribuir para melhorar a sua situação, as suas condições de vida e a sua segurança e para as preparar melhor para enfrentar estas situações.
Passarei a comentar algumas das medidas anunciadas, utilizando para tal extratos do discurso do primeiro-ministro efetuado no final do Conselho de Ministros, reservando para uma situação mais oportuna um comentário mais aprofundado sobre algumas das medidas.
1. Neste discurso refere-se que se pretende “aproximar a prevenção e o combate aos incêndios rurais, nomeadamente dando mais centralidade à área de Governo da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, no processo”.
A prevenção e o combate são apenas duas das faces do problema mais vasto que é o da gestão dos incêndios florestais, que envolve, entre outros aspetos, a preparação das comunidades, a prevenção estrutural, a preparação imediata, o combate e a reabilitação. De que aproximação se está a falar? O que quer dizer “dar mais centralidade aos ministérios da Agricultura ou do Ambiente? Quem foi que afastou estes ministérios do processo? Que foi que os impediu de estar mais centrados e de contribuírem para a solução? O que fizeram ao longo dos anos passados? Em minha opinião, estes e outros ministérios, e várias outras entidades públicas e privadas, têm de se centrar mais na realidade de que existem incêndios florestais em Portugal, coisa que parece não terem tido presente nos passados 20 anos, pelo menos, agindo como se nada se passasse.
2. Diz-se que “é preciso reforçar o profissionalismo em todo o sistema, com um papel alargado do apoio militar de emergência, no patrulhamento, no apoio logístico, no rescaldo e nas capacidades de apoio à decisão da engenharia militar”.
Concordo com o aumento do profissionalismo, mas tem de se avaliar bem o custo dessa medida. Até que ponto pode o nosso país ir? Concordo igualmente com um papel mais interventivo das Forças Armadas, mas com a devida preparação e igualmente com uma ponderação da relação custo/benefício dessa intervenção. Mas pergunto: onde está o apoio à sociedade civil? O que se vai fazer para apoiar, por exemplo, as comunidades e as forças locais de proteção civil?
3. É dito que “será confiada à Força Aérea a gestão e operação dos meios aéreos, quer do Estado quer contratados”.
Concordo com a aquisição de meios próprios, incluindo meios pesados, que se encontra implícita nesta medida. Parece-me bem haver uma maior intervenção da Força Aérea, desde que não haja incompatibilidade entre a finalidade e missão das Forças Armadas e a disponibilidade de recursos humanos e materiais, que se requer para os incêndios florestais, e os custos sejam comportáveis para o país. Oxalá se assegurem, desde o início, mecanismos de transparência e de avaliação nos processos de utilização destes recursos, tendo em conta os elevados custos que comportam.
4. Diz-se que “vai ser retomada a expansão das companhias dos GIPS da GNR”.
Acho muito bem esta medida, mas pergunto: o que se vai fazer com a Força Especial de Bombeiros e com os bombeiros em geral? Não se vai apoiar a sua expansão e qualificação? Como se irão articular as FEB e os GIPS no território do país?
5. Defende-se que “vai ser reforçada a capacitação e profissionalismo entre os bombeiros voluntários, criando em cada associação de bombeiros, nas zonas de maior risco, equipas profissionais formadas na Escola Nacional de Bombeiros, que será integrada no sistema formal de ensino como uma escola profissional”.
Concordo com uma maior profissionalização dos bombeiros, não apenas nas zonas de maior risco, mas em todo o país, pois os bombeiros podem ser chamados a intervir em qualquer ponto do território.
Deve, ainda assim, continuar a apoiar-se e a fomentar o voluntariado, que constitui um valor inestimável do nosso sistema de socorro.
A ENB deveria ser reformulada de modo profundo, mas não é este o lugar próprio para abordar este assunto.
6. Recomenda-se que “esta profissionalização passe por que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e a ANPC vejam reforçados os seus meios e a ANPC seja institucionalizada com um quadro próprio de profissionais, com dirigentes designados por concurso”.
Custa a crer que seja precisa nova legislação para se colocar estas medidas em prática. Concordo com o reconhecimento implícito de que estas duas instituições não dispõem de recursos humanos qualificados e em número suficiente para fazer face ao problema dos incêndios florestais. Mas onde se irão buscar esses recursos e onde se irão qualificar? Em minha opinião, os agentes de Proteção Civil e os bombeiros em particular deveriam ter uma Academia de Proteção Civil, equiparada a um instituto universitário, tal como sucede nas Forças Armadas e na Polícia.
7. Propõe-se que “a capacitação destas instituições passe por maior incorporação de conhecimento, com a criação de uma linha de apoio à investigação e reforço da componente de formação nos institutos politécnicos”.
Não posso deixar de aplaudir o reconhecimento da necessidade de se incorporar mais conhecimento e formação em todo o problema da gestão dos incêndios florestais. Pergunto no entanto de que conhecimento se trata e de fazer notar que a instituição a que pertenço tem vindo a produzir conhecimento em diversas áreas relevantes e a fazer a transferência desses conhecimentos para o sector operacional desde há vários anos.
Aplaudo igualmente a criação de uma linha de apoio à investigação científica, de uma forma regular e continuada. Tendo já sido publicado um diploma sobre este assunto, tenciono debruçar-me sobre ele, com mais detalhe, noutro lugar.
É surpreendente a medida de “reforço da componente formativa nos institutos politécnicos”. Por que razão não se incluem, de forma explicita, também as universidades no processo?
8. Refere-se que “a especialização progressiva, sem prejuízo da unidade de comando, entre o combate aos incêndios rurais e a proteção de pessoas e bens e das povoações, desenvolvendo capacidades próprias das brigadas de prevenção do ICNF, dos GIPS e dos Canarinhos, para se concentrarem na missão de combater os incêndios rurais”.
A proposta contida nesta medida constitui, em minha opinião, um erro estratégico, que já constava da proposta de plano que resultou do trabalho de um Grupo criado pela APIF (Agência para a Prevenção dos Incêndios Florestais), em 2004, com a finalidade de reformar o sistema. Em boa hora esta medida não foi acolhida e surpreende-me que volte a surgir, sem que tenha sido feito qualquer esforço para mostrar a sua validade desde então, quando noutros países se está a abandonar esta filosofia de separar o combate aos incêndios rurais do da defesa das habitações e das pessoas.
Atualmente o país dispõe de Corpos de Bombeiros que estão formados, treinados e equipados e possuem experiência e provas dadas no combate, tanto em incêndios urbanos como em florestais e para prestar socorro diferenciado às pessoas. Vai-se dispensar esta capacidade, para criar uma outra entidade, com capacidades semelhantes ou com metade delas? Os bombeiros apenas não combatem o fogo na floresta e dão prioridade às casas quando já não existem condições para combater o fogo na floresta. Será nessas condições que os “bombeiros florestais” vão entrar em ação?
Quais são as “brigadas de prevenção do ICNF”, que são mencionadas na medida? Serão porventura as equipas de sapadores florestais? Se assim for, por que razão durante todos estes anos o ICNF não aproveitou essa força, a organizou, equipou, treinou, estruturou e utilizou? É agora que o vai fazer? Ou será que as centenas de novas equipas que estão anunciadas irão ser mais do mesmo?
9. Por fim recomenda-se que “as equipas de intervenção permanente dos bombeiros voluntários serão vocacionadas, cada vez mais, para a mais nobre missão de proteger a vida das pessoas, as povoações e os bens, permitindo otimizar o conhecimento de cada um para todos podermos ter melhor segurança”.
Esta medida é um corolário do erro contido na anterior.
Como se pode qualificar de “a mais nobre missão” como sendo a de proteger a vida das pessoas, as povoações e os bens? Então a missão dos outros combatentes “especializados” não é tão nobre? Parece que não se compreende que são aspetos distintos do mesmo combate, mas que não carece de forças distintas? Uma vez mais pergunto, onde está o conhecimento nesta área, no sector do ICNF, que contribua para a melhor segurança de todos?

Professor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra. O autor segue o Acordo Ortográfico




Professor do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra. O autor segue o Acordo Ortográfico

DOMINGOS XAVIER VIEGAS- Jornal Público 19 de Novembro de 2017

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Desabafos-José Carlos Marques


Texto de José Carlos Marques-Responsável pela Proteção Civil, um amigo e um colega dos tempos em que fiz o estágio na Câmara Municipal de Oliveira do Hospital. Um texto profundo que diz tudo sobre o que passámos em Oliveira que vai deixar marcas em todo o país. Leiam e reflitam sobre o seu testemunho, um excelente texto

Desabafos na 1° pessoa,
do Técnico: domingo, 15 de outubro de 2017, 10h26m, um domingo que seria como como tantos outros, mas que, inesperadamente se transformou, quiçá, no pior domingo da minha (ainda curta) Vida. 
Saído de uma Missa vespertina, na Igreja de Lourosa, rececionando o novo Pároco da freguesia (Padre Rodolfo), e acabadinho de chegar a casa, para um dia domingueiro, na companhia da família, eis que irrompe pelo telemóvel um simples sms alertando para uma ocorrência de incêndio.
Mais um, pensei eu. E lá fui eu, como tantos outros operacionais (Bombeiros, Sapadores, GNR, Manobradores de Máquinas), na Esperança de regressar novamente umas poucas horas, já com o incêndio extinto, e o sentimento de dever cumprido.
Puro engano. Efetivamente o incêndio rapidamente tomou proporções incontroláveis, transformando-se num incêndio difícil de combater. As horas foram passando, o vento aumentando, o incêndio avançando descontroladamente, não dando tréguas aos Valentes operacionais que com a sua tenacidade lá o iam enfrentando. 
O meio/fim da tarde chegou e com ela a pior das notícias. Outro incêndio avançava descontroladamente em direção ao nosso concelho. Pouco tempo depois, notícia de outro que também se dirigia ao nosso encontro. Momentos depois notícia de novos focos de incêndio, motivado pela inexplicável força do vento, que lá ía potenciando novas projeções.
Em poucos minutos ficámos (operacionais e população), cercados pelo fogo, votados à nossa sorte. Em redor só víamos lume, parecia noite cerrada. Lavaredas enormes irrompiam pelo céu. Foi neste momento que o desalento e o sentimento de impotência se abateu sobre todos, sim TODOS. Mas apesar deste sentimento continuámos a Nossa Nobre Missão de ajudar e tentar Salvar Vidas. Não conseguimos na plenitude. 
De Heróis todos tivémos um pouco.
O resto já sabem…
Fiquei e estou desolado. Foi um rude golpe. Vi desmoronar um trabalho de uma dúzia de anos. Desanimei. Hoje assumo. Sim, fui abaixo. Estou ainda desanimado mas a tentar “Renascer”. Tenho Esperança que vou, aliás, vamos conseguir.
do Autarca: recém-eleito duas semanas antes, longe de imaginar que, duas semanas depois, este iria tornar-se o maior desafio da Vida. 
Motivos profissionais impediram-me de poder ajudar as gentes da minha freguesia neste fatídico dia. De partilhar o sofrimento connvosco. De poder também auxiliar-vos a salvar as vossas vidas, as vossas casas, os vossos pertences, a dar aquela palavra de amor, de ânimo, de conforto que tanto significado têm nestes momentos e que seria também a minha obrigação. 
do Marido, Filho e Neto: o dever chamou-me, e fui… à semelhança de tantos outros, abandonando a família, em auxílio de outrem. Quando tudo aconteceu, estava longe de vocês e perto de outras famílias, também elas a viver momentos de angústia, de desespero, tentando transmitir serenidade a quem, tal como vocês, estava a sofrer na pele as agruras daquele maldito fogo. 
A notícia que ninguém pensa ouvir, entretanto rapidamente chegou pela voz da Sandra, minha esposa. A minha pequena aldeia tinha sido completamente cercada pelo fogo. A nossa casa tinha ardido, a Sandra tinha abandonado a casa, cruzando o fogo, refugiando-se em casa de amigos noutra localidade, noutro concelho. A aflição era tamanha que não sabia como e onde estavam a minha mãe e o meu avô (acamado), assim como os restantes familiares. Era uma voz desesperada. Nem queria acreditar.
E eu, lá do outro lado, na freguesia de Aldeia das Dez, numa Missão com os meus companheiros, com os Bombeiros e com a GNR, sem poder ajudar, com a cabeça envolta num turbilhão de emoções tentando manter a calma, depois de tão desoladoras notícias. E mantive, ainda estou para saber como. Reencontrei a Fé revendo o Padre Rodolfo em Chão Sobral, também ele "apanhado" no meio desta tragédia e horas depois nos ter-mos encontrado na missa vespertina de domingo em Lourosa.
Depois, eram para aí uma e tal da manhã, ainda com estradas cortadas, embora por breves momentos, regressei à minha freguesia e à minha aldeia. A tormenta já havia passado. Passei pela nossa casa, fui ter com a Sandra e com alguns dos meus familiares. Graças a Deus estavam todos bem e a casa não havia ardido.
Fiquei destroçado por ver tamanha destruição. Depois regressei de novo à minha Missão.
Estou sentido. Ainda hoje não me conformo por, talvez no momento da vida em que vocês mais precisavam da minha presença, eu não estava para vos poder ajudar. 
Por vezes a Vida é assim…
Quinze dias depois, tive o grato privilégio de receber a Isabel e a Catarina, psicólogas de profissão e que voluntariaram para auxiliar na tarefa de reerguer as nossas gentes. Percorremos a freguesia, contatámos com inúmeras pessoas. No pouco tempo que privei com ambas dialogámos um pouco. Bem não foi bem um diálogo, foi mais monólogo. Tentei ser forte. Não consegui. Logo me alertaram de que também eu estaria a precisar de ser acompanhado. Caí em mim. Creio que têm razão. “Um Homem também chora, quando assim tem de ser”.
E para finalizar deixaram escapar esta frase “… mas por favor, não descuides de ti, dos teus e dos teus alicerces. Muita Força e Coragem nestes dias difíceis”.
Dei-lhes razão. Afinal, duas semanas depois, ainda não tinha tido tempo de pensar nisso...
do José Carlos Marques: Um sincero Muito Obrigado a Todos (e foram tantos, mas tantos) que nos têm ajudado a "Renascer". 
Um agradecimento a TODOS os Operacionais e aos inúmeros Voluntários, que tornaram possível e bem conseguida esta gigantesca, complexa e sem precedentes Missão de reposição da normalidade, 
Por último, um apelo aos Nossos Governantes lá por Lisboa: venham até nós, pisar as nossas cinzas, sentir e ouvir a angústia das nossas gentes, dos nossos agricultores de subsistência, dos nossos empresários, pois creio que passado que foi um mês, ainda não perceberam bem a tragédia que se nos abateu. 
Fim…
José Carlos Marques

15 de Novembro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Recordar os mortos, para compreender os vivos

            Durante semanas a fio, vi-o repetir o mesmo ritual. Quando a porta se abria, logo pela manhã, entrava, benzia-se e depositava um ramo de alecrim sobre a pedra tumular. Depois, como se não houvesse tempo, ficava apenas a olhar longamente as escassas palavras inscritas na lápide. Sempre em silêncio.
            Sou coveiro. Dito assim de rompante, o meu trabalho até é relativamente simples de explicar: escondo o que poucos ousam ver. Abro e tapo buracos com cerca de 2 metros de profundidade, arrasto pedras e observo a dor dos vivos que se procuram no meio dos mortos. Já lá vão mais de 50 anos que ando por estas bandas, mas ainda me lembro do dia em que pisei esta terra pela primeira vez, trazido pela mão do meu pai, ele mesmo um coveiro. Pobre do homem veio tentar mostrar-me como isto era difícil, para que eu me esforçasse mais na Escola. Nunca pude esquecer esse dia. Era Inverno e chovia desalmadamente. O cheiro da terra molhada e o pavor da cova aberta foram o suficiente para que começasse imediatamente a chorar. Então, o homem condoeu-se e, apertando-me nas pontas dos dedos, voltou a levar-me para casa.
            A verdade nua e crua é que os meus pais nunca quiseram que eu enveredasse por estes caminhos. Ainda hoje não compreendo muito bem o que me trouxe até aqui. Quem pode, afinal, entender as estranhas malhas do destino? Sei apenas que nunca fui bom aluno. Na Escola, os professores diziam-me:
            “– Seu asno! Hás-de ser sempre como o teu pai. Um desgraçado da morte” – e eu começava logo a chorar, porque não queria ser um desgraçado da morte. Afinal, eu até sempre tive medo do mundo dos mortos e o escuro causava-me os piores pesadelos. Contudo, que futuro poderia haver para o filho do único coveiro da povoação? Quando fiquei só neste mundo, por volta dos 16, é que compreendi o verdadeiro peso da herança. Cada vez mais, seremos apenas o espelho do berço onde nascemos...
            Antes de abrir a primeira sepultura, emborquei uns bons cálices de aguardente. Queimar a alma é a melhor forma de escravizar o corpo e anular quase todos os sentidos. Mas encontrar o que resta de um ser humano condensado numa meia elástica abala a fé de qualquer um, mesmo bêbedo até à ponta dos cabelos.
            Ao longo dos anos, tive, é certo, algumas oportunidades para abandonar este ofício miserável. Ganhei a lotaria duas vezes, mas o dinheiro escorregou-me sempre das mãos com uma velocidade difícil de explicar. Um homem sem ninguém via-se de repente rodeado por amigos de todos os lados. E foi difícil não escapar à tentação de fazer cada vez mais e mais amigos instantâneos. Até perder tudo e as mãos que me apertavam passarem novamente a ignorar-me. O sabor da exclusão chama-se invisibilidade.
            Hoje, logo pela manhã, ao ver aquele menino entrar uma vez mais no cemitério, dei por mim a pensar nos motivos que o trariam ali. Então, o mais silenciosamente que consegui, ganhei coragem e aproximei-me. Chamava-se Pedro, como nos Evangelhos, tinha 10 anos e perdera recentemente o irmão. Vinha visitá-lo na sua última morada e pedir à avó que cuidasse dele.
            “– E o alecrim? Para que deixas tu o alecrim?”
            “– O meu irmão – respondeu – dizia-me que o alecrim era bom para a memória. Que até houve um tempo, há mais de 2000 anos, em que os estudantes gregos o colocavam atrás das orelhas para terem boas notas na Escola”.
            “– Isso é muito engraçado… Mas para que trazes tu o alecrim?” – insisti.
            “– Para nunca esquecer o meu irmão”...
            Ao ouvir aquele menino, não posso deixar de sorrir. Afinal, as grandes perdas da vida são sempre acompanhadas de um terrível período de esquecimento. Primeiro, há um fantasmagórico nevoeiro que se apodera de nós e a imagem da pessoa amada começa rapidamente a desvanecer-se. As suas palavras misturam-se, a voz afasta-se e até os objectos parecem esvaziar-se de qualquer significado. As casas, então, transformam-se num vazio arrepiante. E ao fim de algum tempo é que começamos a compreender o esforço que é preciso fazer para não esquecer quase tudo. Sim, para não esquecer quase tudo, como se pura e simplesmente nada tivesse existido. Como se tudo não passasse de um sonho condenado a desaparecer.
            Condenado a esquecer… O Homem foi condenado a esquecer. Caso não o fizesse, desistiria rapidamente de quase tudo na vida. Trata-se de um mecanismo de sobrevivência, que, no entanto, também implica recordar. E é nessa equação, entre o que esquecemos (ou pensamos esquecer) e o que recordamos, que está algures o que somos.
            Agora, que se aproxima a entrada de Novembro, muitos regressarão temporariamente ao terreno dos mortos. Passarão o velho portão de ferro, alguns irão mesmo fazer o sinal da cruz antes de refugiar-se na interminável saudade, nesse vazio imenso para o qual ainda não inventaram palavras... Quase todos, porém, continuarão a mostrar-se incapazes de compreender o drama dos vivos que por aqui trabalham.
            Poucos o terão imaginado, mas cada regresso ao mundo do eterno repouso é sempre um acto de resistência. Ao depositar o ramo de alecrim, uma flor, acender uma vela, afastar o pó da imagem que insiste em apagar-se ou simplesmente permanecer em silêncio estamos a cuidar de nós, como se nos fosse dada a possibilidade de entrar no hospital onde estamos internados e vigiar a própria doença. Em certo sentido, é uma viagem ao futuro, onde nos reencontramos, despidos de todos os títulos e cosméticas. Nesses instantes, apenas os símbolos parecem fazer ainda algum sentido.
Símbolos e utopias que nos fazem cada vez mais falta. O feriado de Novembro e, em especial, o segundo dia consagrado à memória dos que já partiram também podem ajudar-nos a pensar nisso… Ou não fosse a memória o pólen indispensável para cada um pensar depois a sua própria história.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sábado, 7 de outubro de 2017

Pensar a República

Não há pensamento sem tempo livre. Os feriados constituem, por isso, uma oportunidade privilegiada para parar, fugir do ruído e ousar chegar às próprias conclusões. Aproveitemos, por conseguinte, o feriado de 5 de Outubro para mais este breve acto de rebeldia.
            A revolução republicana de 1910 constitui um marco decisivo na História de Portugal e a nossa identidade radica em vários dos seus símbolos. Quem já saiu do país e avistou de repente a bandeira nacional sabe bem do que estou a falar. O escudo foi, até há pouco, outro desses símbolos, ao qual poderemos ainda associar o incontornável hino nacional. Muitos já não se recordarão, mas “A Portuguesa” foi composta no final do século XIX, como reacção patriótica ao humilhante Ultimato Inglês de 1890, sendo depois adoptada pela I República como hino oficial.Seriam apenas introduzidas ligeiras alterações: a expressão “contra os Bretões [Britânicos] marchar, marchar” foi substituída pela mais inócua fórmula “contra os canhões, marchar, marchar”.
            Ora, um dos primeiros aspectos que se torna evidente para quem procura estudar a I República é a profunda complexidade deste período, em que tudo fervilhava e as ideias brotavam a um ritmo vertiginoso. Afinal, Portugal replicava a tumultuosa ambiência europeia da época.
As várias facções em que se desdobraram os republicanos (Partido Republicano Português/Partido “Democrático”, Evolucionistas, Unionistas, Machadistas, Socialistas…) reflectem bem esse arco-íris, muitas vezes explosivo, como bem o demonstra a fatídica “Noite Sangrenta”, em 1921, no decurso da qual foram assassinados os «heróis» do 5 de Outubro Machado Santos e Carlos da Maia, bem como, por exemplo, o primeiro-ministro António Granjo. Falamos de um período de 16 anos também marcado por revoltas, perseguições religiosas, assassinatos, traições, tentativas de restaurar a Monarquia e por duas breves ditaduras (Pimenta de Castro, em 1915, e Sidónio Pais, em 1917-1918).
            A Ditadura Militar, implantada com o golpe de 1926, e sobretudo o Estado Novo conseguiram esvaziar essa pluralidade de tendências político-ideológicas da I República. Afinal, no âmbito da sua hábil capacidade estratégica, Salazar sempre procurou construir a ideia segundo a qual, a partir de 1933, se iria iniciar uma nova era na História de Portugal, deixando para trás o caos e a decadência da República (daí que o Estado salazarista se definisse como “Novo”). A habitual política de criar elásticos equilíbrios levava o ditador a conseguir anular os seus adversários, integrando-os. Repare-se: ao desvalorizar a questão do regime (entre República e Monarquia não haveria urgente necessidade de escolher, pois o importante seria garantir o bem da “Nação”), Salazar mantinha viva a esperança dos monárquicos e fazia-os aproximar da “situação”, enquadrando-os e anulando-os.
            Hoje, ao confrontar-me com o legado da I República – e sem pretender escamotear a repressão, a violência e as mortes que marcaram este fervilhante período, agudizado, de modo decisivo, pela intervenção do país na I Guerra Mundial e por uma consequente instabilidade política, económica e social –, será fundamental destacar as tentativas levadas a cabo para implementar um conjunto de reformas inéditas na História do país, nas mais variadas áreas. Tentativas que, apesar de tudo, constituem uma referência ideológica incontornável. Refira-se, a título ilustrativo, a aprovação do direito à greve, a fixação do horário semanal de trabalho (48 horas), os mecanismos legais que asseguravam a protecção na doença e na velhice, a reforma dos ensinos universitário e primário, o qual se tornou obrigatório, o combate inglório ao analfabetismo e as leis da laicidade do Estado, nas quais os republicanos democráticos terão mesmo ido longe de mais. Falamos de medidas que, à luz da sua época, representavam um profundo avanço, não só no nosso país, mas na História da própria Europa.
            Em Portugal, pese embora todos os avanços decorrentes do Liberalismo, o conceito de cidadão nasceu, sobretudo, em Outubro de 1910, por oposição ao súbdito monárquico. A carta de alforria abriu caminho a um renovado projecto de liberdade (marcado, reforcemos, por grandes excessos), ao qual fará todo o sentido consagrar as últimas palavras desta reflexão.
            A tentação de silenciar aqueles que discordam de nós continua ainda a ser tremenda, o que poderá (ou não) ser um resquício dos 48 anos de ditadura em que vivemos submersos, mas também da sistemática desvalorização da ética, sempre ultrapassada pela desmedida ambição de subir a todo o custo.
            Nesta era dos cemitérios do pensamento, faz-nos, portanto, falta o fervilhar de ideias da I República (o pensamento é sempre um acto de ousadia e rebeldia). No momento em que se completam 107 anos da Revolução de Outubro de 1910, é, pois, importante parar para pensar nesta data histórica em que radica muito do que somos. O que também implica problematizar o significado de“republicano” e o quão ligado a este conceito está a liberdade concreta dos Homens.
Primeiro o Homem sonha, depois a obra nasce. A I República lançou as sementes. Cabe-nos problematizar o seu legado, renunciando ao que deve ser renunciado (a começar pelo radicalismo) e potenciando os aspectos positivos, como seja a tentativa de pensar o país e criar medidas para o transformar. Isso chama-se tentar construir pontes entre o passado e o futuro. E as pontes são cada vez mais uma necessidade…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

Os pais da exclusão

Biblioteca Nacional de Lisboa, 29 de Setembro de 2017. Depois de mais um dia de trabalho, venho queimar os últimos cartuchos da resistência em redor dos livros. Passo os olhos pela sala, repleta de leitores assoberbados nos seus próprios dilemas. Mesmo ao meu lado, um “jovem” na casa dos 80 estuda Gomes Freire de Andrade, na mesa da frente há livros sobre a I República e atrás de mim alguém se debruça sobre o cancro. Esta sala – dou por mim a pensar – é bem o reflexo de um país, onde cada um vive isolado nos seus próprios trabalhos, incapaz, pelas mais variadas circunstâncias, de encetar diálogo com o semelhante. Fico até com a impressão de que se neste momento Donald Trump lançasse um ataque sobre a Coreia do Norte todos permaneceriam exactamente como estão. Pura indiferença, à qual também não escapa a tapeçaria da Leitura Nova, com D. Manuel I no centro, ali mesmo à frente...
            Ironia das ironias, foi na Biblioteca Nacional que nasceu, em 1921, um grupo de intelectuais que procurou intervir na sociedade, responsabilizando-se pela transformação das mentalidades. Desse grupo de republicanos, entre os quais se incluíram Jaime Cortesão, Raul Proença e Aquilino Ribeiro, viria a surgir a revista Seara Nova, na qual seriam publicadas ideias concretas (e em certo sentido ainda actuais) para reformar Portugal, procurando construir uma opinião pública esclarecida e exigente. Falamos de intelectuais, que ousaram pensar e intervir, pagando depois caro – Aquilino Ribeiro, por exemplo, teria de exilar-se em França, na sequência da sua participação nas revoltas de 1927 e 1928 contra a Ditadura Militar.
            Neste momento, em que regressamos a uma nova era de Guerra Fria, faz-nos cada vez mais falta uma opinião pública esclarecida e exigente, disponível para defender a paz e os ideais democráticos em que radica a identidade da civilização ocidental. Importa não esquecer que o lançamento das duas primeiras bombas atómicas da História, sobre Hiroxima e Nagasáqui, em Agosto de 1945, terá provocado, entre efeitos imediatos e posteriores, mais de 300.000 mortos. Hoje ninguém saberá prever o que poderia suceder, caso fosse iniciada uma nova guerra a esta escala, mas não há dúvida de que todas as palavras seriam escassas para descrever aquele que concretizaria o pior pesadelo de toda a Humanidade, senão mesmo a sua completa aniquilação. Oppenheimer, o brilhante físico teórico que liderou o grupo responsável pela invenção da arma nuclear, percebeu isso tarde de mais, chegando mesmo a perguntar-se, na sequência das bombas atómicas que ele mesmo ajudara a desenvolver, até que ponto a ciência era realmente boa para o Homem.
            Nesta “era dos extremos” (Eric Hobsbawm) em que ainda parecemos mergulhados, a ética será cada vez mais uma necessidade. É também por isso que não me canso de repetir que as disciplinas que nos ajudam a estruturar o pensamento (caso da Literatura, da Filosofia, da Poesia, da História, da Arte, da Música, enfim, do regresso aos clássicos…) poderão fazer toda a diferença. Sem ética e sensibilidade, o conhecimento de pouco ou nada nos adiantará.
            O actual sistema educativo nacional, que se autoproclama inclusivo, tem na realidade vindo a constituir-se como um foco segregador e potenciador de exclusões. Ao desrespeitar o ritmo de aprendizagem de cada aluno (negando quase sempre o direito a que este possa ficar retido – “chumbar” poderá traumatizar e contribui para aumentar o défice…), ao impor programas curriculares profundamente desajustados que obrigam a recorrentes explicações extra-lectivas (logo a partir do 1.º ciclo!) e que conduzem ao sucesso das elites e ao insucesso (não aprendizagem e progressiva desmotivação) dos restantes, ao transformar os professores em meros escravos de tecnocratas políticos, enfim, ao fazer da Escola um local de repetição e não de pensamento, está apenas a contribuir para que se criem cada vez mais e mais focos de exclusão. Por muita retórica gongórica que para aí exista a respeito das nossas conquistas da inclusão, a verdade é que as últimas décadas educativas têm constituído um período de terríveis e encapotadas exclusões. E a herança de Abril parece desvanecer-se perigosamente…
Um dos muitos exemplos obscurantistas é a mais recente proposta apresentada pelo Ministério da Educação para alterar a pedra angular da escola inclusiva em Portugal (decreto-lei n.º 3/2008, com as suas revisões dadas pela lei n.º 21/2008, de 12 de Maio). Além de consubstanciar um projecto esotérico, trata-se de um documento de tal modo subjectivo e abrangente que abre portas às mais variadas, antagónicas e perversas interpretações, criando dúvidas desnecessárias e fazendo tábua rasa do decreto-lei antecedente.
            Sejamos práticos.Um dos grandes pré-requisitos para a inclusão passa pela efectiva redução do número de alunos por turma (15 no máximo). Depois, é urgente rever a questão da formação dos docentes, a começar no conceito de especialização em Educação Especial, que, nos moldes actuais, se revela manifestamente insuficiente para fazer face à complexidade desta área. A formação contínua dos restantes professores, membros de direcções de escolas, técnicos, assistentes operacionais é demasiado séria para continuar a ser deixada nas mãos dos centros de (de)formação que para aí proliferam como cogumelos. E quanto a legislação, não é preciso inventar, basta aperfeiçoar a que já existe e garantir a sua operacionalização. E não – repita-se bem alto – não é com mais leis que se melhora o sistema educativo.
            O actual paradigma de pensar a Escola continua centrado naquilo que de pior existe nas ciências da educação que para aí reinam: modelos teóricos e ininteligíveis, aparentemente alicerçados numa ética inclusiva, mas que na verdade são o oposto. É hora de fazer regressar a função primordial da Escola: a aprendizagem de conhecimentos substantivos (ler, escrever, contar), dando aos alunos e professores tempo e condições para pensarem e aprenderem permanentemente em conjunto, o que também significa, repita-se, sustentar o direito à retenção dos alunos que, sobretudo numa fase precoce, necessitam de mais tempo para consolidar os conteúdos trabalhados. Apenas com medidas concretas poderemos efectivamente contribuir para a melhoria das aprendizagens (o que é diferente, subentenda-se, de garantir elevadas e artificiais taxas de sucesso para todos).
            A Escola pública, cada vez mais politizada, tem vindo a perder o espírito democrático de Abril, como, de resto, demonstra o modo como os Diretores dos Agrupamentos são nomeados por um colégio eleitoral restrito (na verdade, é o que acontece). A recente proposta de substituição do decreto-lei n.º 3/2008 representa mais uma poderosa machadada na inclusão, à qual a liberdade abriu portas.
E não nos iludamos, os excluídos de hoje serão, muito provavelmente, os miseráveis, os criminosos e os terroristas de amanhã. Escravos que as ditaduras agradecerão. O problema é que quando esse dia chegar não teremos a capacidade de compreender quem as ajudou a alimentar.
            Sim – André Singer tem razão – Night will fall… E fomos nós que apagámos as luzes. Também por isso, talvez algures no futuro nos chamem os novos pais da exclusão. Logo a nós, que tantas vezes repetimos (em vão) a palavra inclusão.

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

sábado, 27 de maio de 2017

Casas abandonadas

A partir do momento em que a minha avó materna faleceu, já lá vão 22 anos, a sua casa de granito na Beira Alta passou a ficar desabitada. Ao longo destas décadas, sempre que lá entrei, contorcendo-me entre as teias de aranha, senti que fazia uma viagem ao passado.
            Nada do que hoje reencontro naquela casa abandonada continua a pertencer a este tempo, pois o contexto que lhe conferia sentido há muito que se apagou irremediavelmente. Desapareceu a dona das pedras de granito, a janela de carvalho perdeu a cor e até o menino que lá entrava, a tactear as paredes em plena escuridão, deixou em grande parte de existir.
            Ainda assim, as fotografias a preto e branco, as cartas religiosamente depositadas na gaveta, as velhas arcas brasileiras a testemunharem a aventura transatlântica que tantos portugueses empreenderam, os tachos e a trempe enferrujada… tudo o que hoje ainda reconheço naquele santuário me ajuda a marcar um encontro comigo mesmo, com uma parte da minha identidade. Deste modo, ao interrogar cada fragmento, vou reconstruindo e desfazendo imagens, onde a luz e a escuridão se materializam em memórias fugazes e intermináveis esquecimentos, que mais tarde, na busca do rigor, vou cruzando com as narrações de outras vozes que ainda recordam o passado partilhado.
            Eis aqui a imagem que melhor me ocorre quando penso no ofício de estudar História: regressar ciclicamente às casas abandonadas (moradias, mais ou menos familiares, que nunca param de aumentar dentro de nós), para interrogar incessantemente o que somos, à luz das nossas preocupações actuais. História: uma narrativa científica feita de luzes, sombras, silêncios, memórias e esquecimentos, à qual, nos últimos anos, deixei de dever o pão que me alimenta, mas que, ainda assim, jamais poderei apagar do meu posicionamento cívico perante o mundo.
            Ora, no âmbito das comemorações dos 43 anos da Revolução de 1974, a RTP2 (balão de oxigénio da televisão pública nacional) transmitiu um interessante programa a respeito das conquistas de Abril (“Sociedade Civil”, XIII, 26/4, episódio 68). Já na parte final das conversas, o jornalista confrontou o historiador António José Telo com a seguinte questão:
              – Estamos a ensinar aos mais novos verdadeiramente o que foi o 25 de Abril? Estamos a passar-lhes os valores de Abril, estamos a ensinar-lhes as diferenças que existiam com a ditadura e aquilo que é a vida deles agora com a democracia?
            A resposta do académico – autor de uma prolífica, séria e multifacetada obra, decisiva para compreender o último século da nossa existência colectiva – fez-me saltar do sofá:
            – Todas essas preocupações são preocupações mais a ver com a política do que com a História. Esta preocupa-se em explicar o que aconteceu (https://www.rtp.pt/play/p3150/e285778/sociedade-civil).
            Devo dizer que discordo em absoluto desta posição. Afinal, como escreveu Marc Ferro, as primeiras etapas do ensino desempenham um papel fundamental na “imagem que fazemos de outros povos e de nós mesmos” (A manipulação da História no ensino e nos meios de comunicação, Brasil, IBRASA, 1983, p. 11), daí – acrescento eu – o carácter absolutamente determinante do educador de infância e do professor do 1.º ciclo na formação do indivíduo. Um tema que, de resto, bem justificaria outro artigo…      
.           Segundo creio, vários dos nossos problemas radicam no modo como continuamos a tratar as ciências estruturantes do pensamento, caso da História, mas também da Literatura e da Filosofia, que ainda há pouco tempo vi ser apelidada, por uma professora britânica, como o domínio do “nonsense”, perante a gargalhada geral da plateia.
            As sociedades contemporâneas necessitam de ética e pensamento próprio como pão para a boca, a começar pelos líderes que governam o que ainda sobra da União Europeia. Pese embora as profundas transformações a que continuamos a assistir, a Escola continuará a desempenhar um papel decisivo na construção dos nossos alicerces civilizacionais. É a partir dela que poderemos continuar a combater de modo sustentado Trump, Le Pen e demais extremismos, que nos poderão conduzir, num ápice, a mergulhar no inferno auto-destrutivo da guerra total. Estar atento é, portanto, uma necessidade, para todos os cidadãos.
            Mais do que nunca faltam-nos pontes de sabedoria, nesta era dos muros de aço. E os (denominados) intelectuais deveriam ser os primeiros a compreendê-lo, descer das torres de marfim em que tantas vezes vivem enclausurados, erguer a voz e intervir. Por conseguinte, os historiadores que desprezam problematizar o modo como a sua ciência é trabalhada nos vários níveis de ensino estão a demitir-se da sua função cívica.
            Todos nós temos as nossas casas abandonadas, esqueletos aos quais somos tentados a regressar. A História exerce um fascínio tremendo sobre o indivíduo, a começar pela maioria das crianças e jovens das nossas escolas. Falta-nos garantir que os programas curriculares da disciplina sejam ajustados à faixa etária dos alunos, que sejam pensados como um todo (numa perspectiva global, estruturada e articulada entre os vários ciclos), que a disciplina passe a contar com uma maior carga horária, que as turmas sejam efectivamente reduzidas (não me refiro às recentes produções de cosmética que continuam a vir a lume) e, por exemplo, que os professores passem a ter tempo para estudar e aprender. O que equivale a dizer que é urgente expurgar o sistema das inúteis burocracias e da kafkiana máquina de fazer dinheiro em que se transformaram as inúteis formações que para aí proliferam.
            Nestes estranhos tempos em que quase tudo nos faz adormecer e obedecer, a Escola ainda pode continuar a fazer toda a diferença. Para isso, terá de constituir-se enquanto um jardineiro do pensamento e do espírito democrático. Ora, um dos primeiros passos concretos poderia ser o regresso da eleição da figura do diretor por todos os seus pares pedagógicos.
            Caso a Escola não consiga adaptar-se, a mensagem dos Pink Floyd continuará a ser cada vez mais actual: “We don’t need no education”. E todos os extremismos terão cada vez mais escravos à sua disposição…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)  

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Mário Soares

          Mário Soares é, de facto, um «animal político». Não nasceu para a política depois do 25 de Abril. Ao invés, combateu o Estado Novo salazarista e marcelista, em tempos de servidão, quando era preciso ter coragem para vencer o medo e fazer política. No PCP, no MUD, na CEUD, no PS, nas candidaturas de Norton de Matos e de Humberto Delgado, na defesa da família do "general sem medo", barbaramente assassinado pela PIDE — a qual, hoje sabemo-lo, agiu a mando ou, no mínimo, com a aquiescência de Salazar —, na denúncia da guerra colonial. Para os mais esquecidos, importa recordar que nessa época Portugal vivia agrilhoado a um regime autoritário, com censura, polícia e prisões políticas, tribunais plenários, deportações, ostracismo e demissões sumárias por motivos políticos.

            Abandonado pelo mundo capitalista, pelo mundo comunista e pelo Movimento dos Países Não Alinhados, o país vivia «orgulhosamente só», dilacerado por um regime e uma guerra colonial anacrónicos que desgastaram a sua população, desbarataram a economia e as finanças do Estado e penhoraram o seu futuro. Excetuando algumas centenas de idealistas que arriscaram as suas vidas e condicionaram as vidas das suas famílias para se baterem pela queda de um regime que pelo menos a partir dos anos 60 entrou em estado de agonia, a maioria dos portugueses foi aceitando, de modo mais ou menos subserviente, o seu destino. Outros estavam mesmo convictos que o Estado Novo haveria de eternizar-se. Muitos dos oposicionistas idealistas acabaram presos, deportados ou exilados, tiveram uma vida trágica, adoeceram e morreram precocemente, em condições económicas difíceis. Era o tempo das ideologias, em que os oposicionistas não faziam política com a obsessão interesseira de ascenderem e enriquecerem nas hierarquias públicas e privadas, mas com a esperança de mudar o país e o mundo. «O tempora, o mores!» Depois da Revolução de Abril, Soares bateu-se contra a sovietização do país e foi um dos primeiros arautos e construtores da adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia 
Ultimamente, tornou-se um crítico intransigente do neoliberalismo e da globalização selvagens, que agudizaram as desigualdades e tornaram o mundo mais perigoso. Soares é, pois, uma das grandes personalidades da História portuguesa do século XX. A democratização e a modernização do país resultantes da revolução do 25 de Abril e da posterior adesão à União Europeia devem-lhe muito. Por exemplo, Cavaco Silva só existiu como político, graças à ação cívica de políticos como Soares. Cometeu erros políticos e por vezes aparentava uma altivez desconcertante? Certamente, mas a sua vida cívica longa e cheia e os bons serviços prestados ao país já redimiram os seus pecados veniais. Vem este arrazoado a propósito de textos inenarráveis, mais ou menos anónimos, que, ultimamente, circulam na net e invadem as nossas páginas do facebook. É demasiado fácil, à luz dos factos e dos documentos, desconstruir esses textos caceteiros e trauliteiros que julgam as pessoas com base em atoardas bafientas e falsificam grosseiramente a História. Esses textos que são engendrados por gente desprovida de memória histórica e possuída por um ódio sectário e um saudosismo neurasténico. Gente que não tem sequer a coragem de os assinar e cuja mentalidade estagnou num mundo anterior a 1974. Hitler foi exímio no engenho e arte de suscitar ódios e fabricar mitos malévolos para endrominar as massas populares. Todos sabemos para que vielas putrefactas conduziu ele a Alemanha e a Europa. Estando nós em época natalícia, melhor será dizermos: que Deus lhes perdoe, porque eles não sabem o que fazem.
 Luís  Filipe Reis Torgal

domingo, 18 de setembro de 2016

Os piores deuses? Nós.

        O historiador Yuval Noah Harari publicou em 2011 uma obra, intitulada Sapiens. De Animais a Deuses. História Breve da Humanidade. Numa época em que o conhecimento é cada vez mais compartimentado, é meritório o esforço do académico para nos apresentar uma síntese global da evolução da Humanidade (macro-
-História). Trata-se, portanto, de um livro estimulante, que abre com uma questão seminal: como foi possível que o Homem moderno – um ser “insignificante” há cerca de 70.000 anos atrás – tenha conseguido dominar o mundo?
            Eis, pois, uma viagem à noite mais escura da nossa existência, fundamental para compreender a diferença entre o que efectivamente somos e o que apenas imaginamos ser. Um percurso orientado por questões às quais nem sempre os historiadores dedicaram a devida atenção.
         De um modo geral, o professor de “História do Mundo” na Universidade Hebraica de Jerusalém sustenta que terá sido a nossa capacidade de cooperação em larga escala e de modo mais flexível a elevar-nos ao pedestal máximo dos seres, tornando-nos, assim, uma espécie de deuses na Terra. Uma vitória apenas garantida graças à nossa capacidade de linguagem e de imaginação, competências que nos levaram a criar abstracções como o dinheiro, empresas, ou seja, um conjunto de “ficções legais” às quais estaremos cada vez mais ligados. O nosso mundo e a nossa sobrevivência parecem depender, em grande medida, da confiança que continuamos a depositar nestas ilusões. Confiança é, pois, uma palavra-chave na actualidade.
             Ora, a crise económica global iniciada em 2008, um pouco à semelhança da Longa Depressão que rebentou em 1929, constituem dois possíveis exemplos do que pode suceder quando existem demasiadas ilusões, nomeadamente aquela que nos leva a acreditar que é possível fazer indefinidamente mais dinheiro apenas com dinheiro. Um problema cuja origem pode ser situada antes do século passado, pois Yuval Harari descreve-nos o caso da “Bolha do Mississípi”, uma crise de natureza especulativa do sistema financeiro, sublinhe-se, ainda em pleno século XVIII.
            Além das bolhas de natureza especulativa, o mundo contemporâneo vive imerso em muitas outras ilusões. Como “pessoas sensíveis” que somos – parafraseando Sophia de Mello Breyner Andresen – não matamos galinhas, mas comemo-las. Vamos buscá-las ao talho, já limpas e cheirosas, ignorando o percurso que, na maior parte dos casos, fizeram até chegar ali. As circunstâncias em que são criados os animais que nos servem de alimento são recuperadas pelo historiador israelita de um modo difícil de esquecer. Eis a legenda que acompanha uma imagem onde se vêem pintainhos em cima de um tapete rolante de uma incubadora comercial:
       “Pintainhos machos e fêmeas imperfeitas são excluídos do tapete rolante e asfixiados em câmaras de gás, colocados em destruidores automáticos ou, simplesmente, atirados no lixo, onde são esmagados até à morte. Centenas de milhões de pintainhos morrem todos os anos nestas incubadoras”.
            Como se comprova pelo excerto transcrito, o best-seller internacional que inspira este artigo foi escrito de um modo didáctico e límpido, algo difícil de encontrar na maioria dos historiadores portugueses. Trata-se, de resto, de uma obra que procura desconstruir várias ideias que julgamos como adquiridas, constituindo, por isso, um estímulo à reflexão e um desafio à nossa capacidade para “pensar fora da caixa”. Primeiro exemplo: “A Terra de há 100 milénios era pisada por, pelo menos, seis espécies diferentes de homens”, asserção que nos leva a problematizar a linha de progresso contínuo, segundo a qual a hominização é, vulgarmente, apresentada nos manuais de História (do Australopithecus até ao Homem moderno). Segundo exemplo: alguns animais ditos irracionais conseguem mentir – “já foi visto um macaco-de-
-Tarrafe a gritar «Cuidado! Um leão!», sem que houvesse um leão por perto. O sinal de alarme assustou, convenientemente, um outro macaco que tinha acabado de encontrar uma banana, deixando o mentiroso sozinho para poder ficar com o prémio para si”. Terceiro e último exemplo: a tragédia ecológica, pela qual somos responsáveis, iniciou-se muito antes da Revolução Industrial – “O Homo Sapiens levou à extinção perto de metade dos animais de grande porte do planeta, muito antes de os humanos terem inventado a roda, a escrita ou as ferramentas de ferro”.
            Importa, porém, dizer que Yuval Harari, doutorado em História pela Universidade de Oxford, parece obcecado pela “síndrome das descobertas” (expressão consagrada pelo historiador Luís Reis Torgal), o que o leva a colocar questões nem sempre muito objectivas, como a tentativa de comparar o grau de felicidade do Homem antes e depois da invenção da agricultura ou, ainda a título ilustrativo, saber se existe justiça na História.
            O perigo de idealizar o passado – a que o próprio investigador se refere – parece, por vezes, levá-lo a apresentar uma perspectiva cor-de-rosa dos tempos pré-
-históricos: “A economia de recolecção garantia à maior parte das pessoas vidas mais interessantes do que a agricultura ou a indústria”. Ademais, considerar a passagem do paleolítico ao neolítico como “a maior fraude da História” assemelha-se-me bastante redutor, pois todos os progressos (qual moeda com duas faces) são sempre acompanhados de desvantagens. Claro que inventar a agricultura significou “acelerar a passadeira da vida”, o que nos trouxe novos problemas (diminuição da altura média, inflamação das articulações, cáries dentárias, doenças infecciosas como a tuberculose – na sequência da domesticação dos animais…). É, porém, importante não perder de vista a necessidade de fazer um balanço dos aspectos positivos e negativos, reflexão que me leva a pensar no dramático período de luta pela sobrevivência que os nossos antepassados caçadores-recolectores viveram, encontrando-se completamente dependentes das misteriosas forças da natureza, desde logo, da grande instabilidade do clima, erupções vulcânicas, cheias, bem como das perigosas migrações a partir de África (continente que até hoje continua a ser considerado o berço da Humanidade)...
            O optimismo algo exacerbado que parece atravessar as 490 páginas da obra é refreado pelas palavras finais do autor no posfácio, intitulado “O animal que se tornou um deus”:
                                   Infelizmente, o domínio sapiens na Terra produziu, até agora, pouco de que possamos orgulhar-nos.
                                               […] Ainda pior: os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses autoproclamados, com apenas as leis da física para nos fazerem companhia, não somos responsabilizados por ninguém. Estamos, assim, a espalhar o caos sobre os nossos companheiros animais e o ecossistema envolvente, em busca de pouco mais do que o nosso próprio conforto e divertimento, sem, no entanto, nos darmos por satisfeitos.
                                               Existirá algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis, que não sabem o que querem?

            Dito isto, também não poderemos ignorar os avanços já registados pelo Homo Sapiens, nomeadamente a partir do século XVIII. Como o próprio historiador faz questão de recordar, em 1958, um estudante negro chamado Clennon King candidatou-se ao ensino superior. Consequência: foi julgado e internado num asilo psiquiátrico, pois o juiz “considerou que uma pessoa de cor tinha, decerto, de ser louca para pensar que poderia ser admitida na Universidade do Mississípi”.
            Existem ao longo de toda a obra algumas afirmações que me parecem, no mínimo, discutíveis. Registo alguns exemplos, embora daí decorra o perigo de descontextualizar o pensamento do autor. Faço-o, sobretudo, em jeito de desafio ao leitor, para que estude a obra e chegue às suas próprias conclusões:
            “A vida de um camponês é menos segura do que a de um caçador-recolector. […]. A vida nas aldeias trouxe, certamente, alguns benefícios imediatos aos primeiros agricultores, como uma melhor protecção contra animais selvagens, a chuva e o frio. No entanto, para a pessoa comum, as desvantagens provavelmente suplantam os benefícios”;
            “À medida que o século XXI se vai desenrolando, o nacionalismo está a perder rapidamente terreno”.
            “Hoje, a humanidade quebrou a lei da selva. Existe, por fim, uma verdadeira paz e não apenas uma ausência de guerra. Para a maior parte dos regimes, não existe um cenário plausível que conduza a um conflito aberto dentro de um ano”.
            Ademais, datar o início da Revolução Industrial há “500 anos” afigura-se-me abusivo.
            Entre outros aspectos, teria sido importante, aquando da explicitação apresentada em torno dos ratings dos vários países, que o autor reflectisse um pouco sobre os negócios obscuros que envolvem as agências encarregues da atribuição destas classificações de referência mundial. O documentário Inside Job, realizado por Charles Ferguson, em 2011, daria um bom mote para o efeito...
            Outrossim, não poderemos também ignorar a crescente capacidade de adaptação demonstrada pelo Homem moderno em relação às suas circunstâncias e à necessidade de dominar a Natureza. A sua sobrevivência e domínio, desde logo sobre as restantes espécies humanas (que poderá ter inclusivamente destruído, caso dos Neandertais), também dependeram disso. 
            Em conclusão, é notável a capacidade de Yuval para interligar os conhecimentos e apresentar uma visão de síntese da globalidade. Considero, portanto, tratar-se de uma obra de referência, que merece a maior divulgação possível. Assim, se este breve artigo não foi suficiente para despertar o seu interesse, amigo leitor, saiba ainda que Yuval Harari – aludindo a vários investigadores – menciona a possibilidade de em 2050 o homem se tornar “amortal”…
            De resto, vale a pena visualizar esta intervenção do historiador e depois mergulhar na leitura da obra: https://www.ted.com/talks/yuval_noah_harari_what_explains_the_rise_of_humans?language=pt#t-24057
             Afinal, os admiráveis (mas também perigosos) “mundos novos” que se abrem diante de nós exigem cidadãos cada vez mais atentos e interventivos na sua pólis. A ética e a memória histórica são um imperativo de todos os tempos, mas sobretudo desta época em que os novos poderes do Homem, cada vez mais egoísta, parecem conduzir-nos ao nosso próprio fim – pelo menos como nos conhecemos – e igualmente à extinção de inúmeras espécies, a começar pelos anfíbios e passando, entre outros, pelos grandes primatas do planeta (Público, 10/9/2016).
            Seremos mesmo Sapiens, o tal “Homem Sábio”?

            Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)