Não há nada pior que a rotina a pressão dos nossos superiores que nos limitam e bloqueiam quando não paramos e observamos que há um caminho que é preciso é sermos nós a discerni-lo e não deixarmos que sejam os outros a fazê-o. Nos últimos tempos tenho perdido um pouco a razão e deixei de desfrutar dos belos momentos que a vida nos oferece. Hoje, já não o fazia há meses, tirei fotografias enquanto trabalhava num levantamento GPS. Parei uns minutos e observei o percurso de uma bela borboleta de flor para flor.Não foi tarefa fácil conseguir foca-la pois ela mal eu me aproximava fugia. Na primeira ela esta numa flor enquanto a segunda está a fugir pois apercebeu-se da minha presença. Ambas as fotos para mim têm um singelo significado, pois por momentos saboreei um prazer da vida e o conforto da natureza.
domingo, 26 de abril de 2015
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Turista na própria terra
De
mochila às costas, vou deambulando pelas ruas, com a tranquilidade que apenas
as manhãs de domingo ainda me permitem respirar. Perdido, sobretudo, nas ruelas
mais recônditas, quer seja em Lisboa, nas Beiras ou nos Açores, ainda não tive
um dia que, depois desses périplos caseiros, não regressasse ao lar
surpreendido com a quantidade de novidades reveladas.
Neste âmbito, o “Passeio dos Poetas”
disseminado pela Praia da Vitória constitui uma oportunidade privilegiada para
lavar a alma com os versos mais inesperados e reencontrar algum do silêncio
imprescindível para um raro momento de introspecção e reflexão. Aqui ficam, a
título de aperitivo, as incisivas lições de João Lourenço Soares, “O Vital”,
postadas na rua do Conselheiro Nicolau Anastácio (perpendicular à rua de Jesus):
“a serpente que rasteja / põe a selva em sobressalto / somente por ter inveja /
da águia que voa alto”. Ou ainda a (dramática) profecia de Rui Rodrigues, já na
rua de Jesus: “os meninos / morrem dentro dos homens”. E por momentos vem-me à
memória a amarga, mas tão sofrida (e cristalina) poesia filosófica de António
Aleixo…
Outrossim, ir à Praia da Vitória,
com parte do seu inconfundível núcleo histórico tipicamente renascentista
(adoptado, grosso modo, após o sismo
de 1841), também é ver a Igreja Matriz de Santa Cruz a ostentar o seu portal de
três arcos quebrados, debruados pela magnificente arquivolta exterior. Com as
suas claras influências marítimas (o “nosso” estilo “Manuelino” ainda temperado
pelo Gótico), vejam-se as cordas umbilicalmente entrelaçadas, os motivos
naturalistas e, apenas a título ilustrativo, logo do lado esquerdo (no sentido
da entrada), o quase despercebido busto do penitente, em oração latente. O
pórtico em jeito afunilado como que prepara, gradualmente, a entrada do crente
num mundo mais puro. Abandonar o exterior, beber o silêncio do santuário e a
beleza da arte (sendo ou não religioso) é recuar ao passado e sair regenerado…
À saída da Igreja Matriz, logo do
lado esquerdo, o monumento consagrado a Francisco de Ornelas da Câmara
recorda-nos o primeiro lugar onde, nos Açores, no dia 24 de Março de 1641, foi aclamado
D. João IV rei de Portugal e, como tal, proclamada a restauração da
independência nacional. Nestes tempos tão estranhos em que o neo-
-liberalismo vigente nos vai roubando a identidade, contemplar este monumento e ler a sua (já incompleta) inscrição é recuperar parte da memória do que somos e daqueles que nos ergueram ao patamar em que nos movemos. Do lado direito, à saída da Matriz, lá de cima a ermida de São Salvador convida-nos a contemplar o seu sino, enquanto as suas desgastadas pedras parecem ansiosas por contar-nos uma longa história…
-liberalismo vigente nos vai roubando a identidade, contemplar este monumento e ler a sua (já incompleta) inscrição é recuperar parte da memória do que somos e daqueles que nos ergueram ao patamar em que nos movemos. Do lado direito, à saída da Matriz, lá de cima a ermida de São Salvador convida-nos a contemplar o seu sino, enquanto as suas desgastadas pedras parecem ansiosas por contar-nos uma longa história…
Descendo, passamos pela “Casa Vitorino
Nemésio”, saboreamos as palavras do escritor, sempre temperadas pelo
interminável murmúrio das ondas: “Eu me construo e ergo peça a peça de saudade,
vagar e reflexão”. Continuando a descer, a “Casa das Tias”, o busto do autor
açoriano (criador do célebre romance Mau
Tempo no Canal) com mais algumas das suas colossais mensagens, que nos
apressamos a gravar na alma: “Sou ilhéu. E tanto ou mais do que a ilha, o ilhéu
define-se por um rodeio de mar por todos os lados”. Depois, mesmo em frente, a
Igreja da Misericórdia, com os seus invulgares dois altares-mores, os seus “torreões-minaretes”
e a sua inconfundível imagem imaculadamente branca e azul celestial. Descemos,
voltamos a subir as ruas mais sinuosas, perdemo-nos em inscrições, que nos recordam
importantes figuras institucionais do passado, como seja o caso do corregedor. Não
tarda e somos forçados a parar em frente aos Paços do Concelho, a imaginar o
antigo presídio municipal (no actual edifício ocupado pelos CTT) e a contemplar
o monumento consagrado à decisiva vitória dos liberais, na batalha da Praia que
haveria de moldar o futuro de Portugal (11 de Agosto de 1829).
Lá ao fundo, o Paul serpenteia
delicadamente. Homem das Beiras que sou, criado não muito longe do curso do
Mondego, a imagem mais próxima que tenho de um rio é ao Paul da Praia que vou
recuperá-la. As margens, ladeadas pelos juncos agudos e pelas malvas bastardas,
escondem as esquivas galinhas d’água, com o seu bico carmesim. Bem no coração do
santuário líquido, os patos deslizam graciosamente, enquanto, à distância, a
garça-real lava as penas com o comprido bico. Lá ao cimo, no Miradouro do
Facho, o vento deve continuar a soprar bem forte, mas a omnipresente imagem de
Maria permanece indiferente a toda a agitação. Afinal, subir lá ao topo é mesmo
uma necessidade: ajuda-nos, que mais não seja, a compreender as formiguinhas
que somos e os verdadeiros “moinhos de vento” quixotescos em que diariamente
nos enredamos…
A Praia é tudo isto e muito,
muitíssimo mais (a “Casa da Roda”, a Biblioteca Silvestre Ribeiro, o Mercado e
o Jardim Municipal, o fontanário oitocentista…). Continental que sou, aprendi a
admirar esta “vitoriosa” cidade em cada um dos seus detalhes. A Praia ajuda-me
a interrogar os pormenores, a olhar e ouvir para além da simples aparência. Por
isso, sempre que posso, procuro percorrê-la e beber as suas intermináveis
lições. Fazê-lo, ajuda-me ainda a recordar que as terras nunca são pequenas; os
nossos espíritos – cada vez mais consumistas – é que nem sempre estão à altura
do que vislumbram. Uma máxima que, afinal, parece vir mesmo a calhar nesta
época de Natal…
E o(a) leitor(a): já imaginou ser
turista na sua própria terra? Se ainda não o fez, nem calcula os milagres que está
a perder…
Renato
Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Uma conversa
O maior prazer quando vou fazer levantamentos GPS para o
cadastro predial de Oliveira do Hospital, é perceber que qualquer situação que
ocorra ela é única. Um ponto nunca é
tirado no mesmo sitio, as conversas os sorrisos e os rancores das pessoas nunca
são o mesmo. É com um sentido de descoberta que eu parto para mais uma tarefa
do meu trabalho que gosto muito de fazer.
No dia 20 de Outubro quando o proprietário disse que estava na hora de almoço e o ser humano era como os carros quando carece tem que se voltar a atestar com combustível. De facto estava mais do que na hora pois já passava largamente das 14:00,quando deixei o senhor e dei por terminado o meu dia. Percorri o caminho entre o Campo e Lourosa quando me deparei com uma figura estranha a acenar-me. Parei o
carro e instintivamente abri o vidro, quando a tal figura estranha com uma fala
enrolada e com os dentes em muito
estragados, me pediu boleia para ir de Lourosa à Venda da Esperança , pouco mais
de 1km de distância a subir.
Não
resisti e e deixei-o entrar, tendo uma reação imediata e instintiva de guardar tudo o que tinha no banco do pendura sobre as minha s pernas. Um medo instintivo que
se assolou de mim que foi parando à medida que a conversa decorreu. Mal entrou
no carro disse que tinha apanhado um esgotamento há cerca de 8 anos quando era camionista.
O flagelo foi tremendo principalmente para a família que de repente perderam
uma pessoa normal ficando na opinião
dele incapacitado de exercer qualquer profissão, desempenhando apenas funções de
jardinagem em casa. Surpreendeu-me a maneira natural e espontânea como ele
falava convicto que iria ficar bom, segundo ele com a ajuda de um primo cientista
que terá a cura para os seus males. A Venda Esperança já estava perto quando decidi perguntar-lhe como é que ele apanhou um esgotamento como camionista e
ele com a sua espontaneidade natural disse que não comia só fazia quilómetros.
Passado poucos segundos chegávamos à Venda da Esperança e deixo-o para o seu cafezinho.
Após uns momento conclui Pensei eu que será que vale a pena
sobrecarregarmo-nos com trabalho fazer noitadas
quando de um momento para o outo o nosso corpo nos dá um sinal que temos
que parar que pode ser irreversível. Esta curta conversa fez –me pensar e mudar
os meus planos para o dia pois tencionava ir almoçar a casa mas uma vez que já
eram quase 15:00 e estava sem comer desde as 9:00 decidi ceder aos pedidos dos estômago parar no parque de merendas do Senhor das Almas e antecipar o almoço pois tinha trazido a merenda de casa.
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Tiago Sousa
domingo, 26 de outubro de 2014
Momentos
Há momentos em que paramos, e nos deparamos para observar simplesmente o que nos rodeia. Nos inúmeros levantamentos GPS que tenho feito, observei muitas paisagens maravilhosas,no entanto a que realizei no passado dia 20 de Outubro no Campo(Lourosa) deixou-me maravilhado. O Campo é uma localidade da freguesia de Lourosa localizada a sul da sede de freguesia nas vertente norte da bacia hidrográfica do rio Alva Esta foto retrata uma antiga zona agrícola junto a uma ribeira que vai desaguar no rio Alva. Vale a pena ver e saborear e no meu caso lembrar.
domingo, 12 de outubro de 2014
Doutor Nuno Crato: DEMITA-SE!
Segundo creio, Nuno Crato será recordado pela
História como um dos piores Ministros da Educação do pós-25 de Abril. Um
Ministro que, contrariamente ao que seria expectável aquando da sua
entronização, mostrou não ter qualquer tipo de ideia própria em relação à sua
pasta, navegando pura e simplesmente aos encontrões, que é como quem diz às
apalpadelas. A mais recente trapalhada com as colocações dos professores é
apenas a ponta de icebergue de um académico de gabinete e antigo crítico
encartado em assuntos educativos, que denota um total desconhecimento da
realidade diária das escolas nacionais.
Garantiu
Nuno Crato em pleno Parlamento (casa primordial da Democracia) que ninguém
sairia prejudicado pelos erros verificados nas colocações (pelos quais, de
resto, pediu mesmo desculpa). Eis as suas palavras: “onde houver e se houver
alguma ultrapassagem de posições, essa situação será corrigida. Os professores
colocados mantêm-se, os alunos não serão prejudicados. Depois da nova ordenação,
eventuais duplicações serão avaliadas caso a caso. O objectivo é que ninguém
seja prejudicado”. Porém, pouco depois, Nuno Crato ordenou a anulação das
colocações obtidas no passado dia 12 de Setembro: uma ordem transmitida aos
Directores das Escolas, sublinhe-se, com o objectivo de revogar um acto
administrativo da autoria da Direcção-Geral da Administração Escolar! Na edição
do Público de 9 de Setembro vinha a
explicação do Ministro para tentar justificar o injustificável: “Eu disse
mantêm-se. Não disse manter-se-ão” (p. 51)! A isto chama-se, sem eufemismos, Doutor
Nuno Crato, mentir descaradamente e usar os subordinados para matar os elos
mais fracos: professores contratados que leccionam há várias décadas, na mais
absoluta precariedade laboral e sem qualquer tipo de esperança num futuro
melhor. Frágeis elos que, afinal, reflectem a situação da grande maioria da
população portuguesa na actualidade.
Na
sua crítica da pedagogia romântica e construtivista (O “Eduquês” em discurso directo), Nuno Crato sustentou que “As
mudanças devem ser graduais, experimentadas e avaliadas” (2011, p. 116). A sua governação, porém, como já sustentei, assemelha-se
a alguém que navega sem qualquer tipo de orientação ou preparação prévia, senão
vejamos…
Os programas escolares manifestam-se
cada vez mais desadequados à faixa etária/maturidade intelectual dos alunos,
mostrando-se igualmente pouco ou nada articulados entre os vários ciclos (v.g., essa de introduzir as “Homotetias”
no programa de Matemática do 7.º ano não lembraria nem ao Diabo, isto para já
não falar nas isometrias leccionadas no 1.º e 2.º ciclos ou na dantesca dose de
gramática que inunda os manuais de Português! – e os exemplos poderiam
prolongar-se quase até ao infinito…). A ideia central deste tipo de políticas
ditas educativas parece querer passar por introduzir a universidade logo nas
primeiras etapas escolares, procurando matar todo o tempo necessário para
amadurecer ou consolidar o que quer que seja, desde logo, a capacidade crítica
(depois, queixam-se que os alunos não têm bases: poderiam possuí-las, se nunca
definimos o que é realmente prioritário em cada ciclo e raramente tivemos a
preocupação de percepcionar as várias etapas do ensino como uma cadeia
interligada?!). Será tudo isto intencional (um dos hábeis mecanismos dos novos
“Estados Totalitários”) ou resultará pura e simplesmente da ignorância/improviso
que nos comandam? Depois – prossigamos –, os programas (e a legislação) mudam a
uma velocidade estonteante, havendo, neste momento, alunos dentro das salas de
aula com dois manuais diferentes: os mais recentes já respeitam as novas “metas
curriculares”. O que nós não ganharíamos se todos voltássemos pura e
simplesmente a falar em conteúdos e deixássemos de lado essa dimensão romântica
e esotérica que algumas correntes das Ciências da Educação e outras “psicologices”
ditas modernas vieram acrescentar à utopia de um ensino estruturado nas tais
competências, que alguns iluminados imaginam poder desligar-se dos conteúdos,
do trabalho puro e duro, da memorização e, claro, do desgaste provocado pelo
estudo. Sim, que ninguém se iluda: é preciso suar para aprender. O prazer vem
depois.
A famosa Prova de Avaliação de Conhecimentos
e Competências – uma das bandeiras deste Ministério – revelou-se um verdadeiro
fiasco. Afinal, se querem avaliar os professores (e, já agora, porque não os
docentes das Universidades privadas e demais Institutos Superiores, subindo,
assim, a montante?), não faria mais sentido avaliá-los (já agora a todos) nas
suas áreas específicas, em detrimento das várias charadas que marcaram as
Provas já aplicadas? Um professor de História não deverá saber, sobretudo, de
História? Um professor de Matemática não deverá saber, sobretudo, de
Matemática? Ou isso são apenas pormenores? Não terá chegado o momento de
investir, isso sim, na formação contínua (séria e rigorosa) dos docentes nas
suas áreas específicas, premiando quem, de facto, continua a actualizar-se
científica e pedagogicamente?
No decurso da última década, continuámos
a investir em infra-estuturas, em recursos materiais, e voltámos a esquecer que
o mais importante são os recursos humanos (Arnold Toynbee escreveu um
dia que “é muito fácil construir igrejas; o que é difícil é meter Deus lá
dentro”). O dia em que, efectivamente, se quiser contribuir
para a melhoria do sucesso educativo em Portugal, desde logo em Matemática, no
3.º ciclo, pense-se em desdobrar as turmas, à semelhança do que sucede nas
Ciências, e, de um modo mais geral, reduzir o número de alunos por turma…
Queiramos ou não, a Escola pública, com todos os seus defeitos, é
uma das maiores conquistas do pós-25 de Abril em Portugal. Existem, porém,
alguns indícios perturbadores, que parecem levar-me a pensar que o ensino cada
vez mais elitista está irremediavelmente de regresso (terá este Governo em
mente a efectiva destruição da Escola pública e o lançamento das bases para a
sua privatização total?). Outrossim, a crescente tendência para dotar as
Escolas de maior autonomia no que se refere à contratação de professores
introduz uma variável extremamente perversa, que, afinal, significa o regresso
em força da famosa cunha e, como tal, a destruição dos mais elementares
princípios que presidem a uma sociedade dita democrática.
No
passado dia 3 de Outubro, centenas de professores que já se encontravam a
leccionar nas suas escolas (onde haviam sido colocados pelo Ministério da
Educação) foram atirados para a rua, literalmente humilhados, enganados,
ultrajados. Se o Ministério da Educação errou (tão só porque não compreende –
ou não quer compreender – que existe uma lista nacional de ordenação dos
candidatos que deve ser impreterivelmente respeitada, em detrimento desses
manhosos critérios existentes nas ofertas de escola – repito, se o Ministério
da Educação errou, o seu responsável máximo deve ter a verticalidade de assumir
a falha e demitir-se de uma vez por todas (o que é diferente de colocar o lugar
à disposição) –, atitude que, naturalmente, colocaria o nosso agonizante
Primeiro-Ministro numa posição algo delicada, pois seria interessante perceber
quem, para além dos boys, estaria
neste momento disponível para substituir o Doutor Nuno Crato nesta recta
final... Quanto aos professores, segundo penso, é evidente que a Escola e os
alunos precisam, cada vez mais, do seu precioso trabalho. Se este Governo
tivesse o mínimo de honestidade intelectual nenhum dos docentes demitidos no início
do presente mês deveria ficar por colocar. Sugestão minha: os custos
financeiros deveriam ser suportados por quem errou. Afinal, também não exigem à
população portuguesa que continue a suportar os erros políticos que nos
conduziram à tragédia? Haja vergonha.
Segundo
penso, não existem as mínimas condições para que o Doutor Nuno Crato se
mantenha no cargo que ocupa. Perdeu o respeito de quase todos. Demita-se… ou
demitam-no. É um favor que se faz ao futuro do país. Ele já pertence ao passado;
um profundo vazio cósmico – eis como o actual Ministro da Educação será
recordado.
Renato
Nunes
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
I Guerra Mundial: a indústria da morte
Há
100 anos atrás, o mundo estava em guerra. O primeiro conflito à escala planetária
(1914-1918) constitui um dos marcos mais importantes da História Contemporânea,
pois o seu desenrolar originou um conjunto de profundas transformações. A
partir desse momento, o mundo nunca mais seria igual: nascia uma nova era, que
colocava fim à “idade dourada da segurança” (Stefan Zweig); nascia a indústria
da morte, que se aperfeiçoa cirurgicamente até aos dias de hoje…
A assinatura do armistício, a 11 de
Novembro de 1918, em Rethondes (França), deixava para trás cerca de 10 milhões
de cadáveres, mais de 25 milhões de mutilados, uma Europa praticamente
destruída e progressivamente dominada pela inflação galopante/desemprego, impérios
desfragmentados e, por exemplo, uma nova configuração geo-política
internacional, com os EUA a assumirem o papel de principal potência mundial e a
Rússia, já sob o domínio de Lenine (após a revolução socialista soviética de
1917), a atrair a curiosidade (e o receio…) do mundo. Alguns historiadores
consideram mesmo que o início do século XX pode ser associado, numa perspectiva
mais abrangente, à I Guerra e, segundo creio, o mundo dos nossos dias nasceu
naquela época, sendo que pouco do que aconteceu a seguir (desde logo, a
ascensão dos regimes totalitários e a II Guerra Mundial) pode ser compreendido
sem a sua existência.
Ora, conversando recentemente com
algumas pessoas mais idosas da minha aldeia, fiquei surpreendido com as
prolíficas memórias familiares que ainda existem sobre este conflito, à
primeira vista tão longínquo no tempo: afinal, à escala humana, um século
parece por vezes uma eternidade! Pena é que esta “consciência histórica” não
possa estender-se aos mais jovens…
A I Guerra Mundial intersectou, de
um modo bastante vincado, a História das famílias com a História da própria
Humanidade. Daí que nas gavetas de muitos portugueses anónimos continuem
escondidos vários tesouros. Em certo sentido, podemos dizer que esses
esqueletos escondidos são cicatrizes que nunca se fecharam; portas das quais
nunca se regressa incólume…
Ao procurar identificar o nome de um
combatente da aldeia onde cresci, morto na frente europeia, em 1918, fui
surpreendido com a existência de, pelo menos, mais oito expedicionários, onde
se contava uma outra vítima mortal da guerra. Uma fugaz passagem pelo Centro
Social e Paroquial (Lar de Idosos) mais próximo ajudou-me rapidamente a
depreender que um eventual alargamento do estudo desta temática a todo o
concelho (Oliveira do Hospital) faria, por certo, disparar os números e
desenterrar outros tesouros.
Por agora, entre os cofres abertos,
não posso deixar de partilhar aqui alguns dos dados que tive oportunidade de
compulsar numa caderneta militar de um conterrâneo meu, documento esse que
apresenta um invulgar estado de conservação, pese embora o facto de ter mais de
um século! As suas capas pretas impecavelmente alinhadas, sem qualquer vinco no
tecido, cumprem rigorosamente uma das indicações constantes logo na página
inicial: “Não é permitido dobrar a caderneta”.
A cédula militar em causa pertenceu
a Alípio Esteves Borges (“Monteiro”), soldado n.º 2909, residente em Vila
Franca (à época, do Ervedal), nascido em Novembro de 1893. O recrutado assentou
praça quando tinha 19 anos (30 de Julho de 1913), para servir até aos 45 anos
de idade, a cargo do distrito de Coimbra, no regimento de Infantaria.
Aquando da recruta, o jovem agricultor
saberia ler, escrever e contar, parecendo poder depreender-se da sua cédula
militar que teria concluído a 3.ª classe. Retenha-se que, em 1910, a taxa
nacional de analfabetismo rondaria os 75%, flagelo que haveria, em traços
gerais, de perpetuar-se pelo tempo fora, pese embora o esforço feito pela jovem
República no sentido de combater este problema (preocupação, de resto, fulcral
para compreender a inauguração da Escola Primária de Vila Franca, ainda no
antigo largo do Cruzeiro, por volta de 1911, no lugar anteriormente ocupado
pela Capela de Santa Margarida – cf. “Monografia” escrita por José Marques
Lopes: http://vilafrancadabeiranoticias.blogspot.pt/).
Finalizada a instrução de recruta,
em 30 de Abril de 1914, Alípio Borges foi integrado no Corpo Expedicionário
Português (CEP) e embarcou para França, em 23 de Fevereiro de 1917, de onde
apenas regressou, a título definitivo, em 23 de Julho de 1918. Mais tarde,
acabaria por beneficiar de uma parca pensão e receberia uma medalha
comemorativa dos combates travados pelo exército português, com a legenda
“França 1917-1918”.
Esteve, portanto, na frente de
batalha europeia cerca de um ano e cinco meses, o que, de per si, nos permite imaginar algumas das dificuldades que, por
certo, terá experimentado, nomeadamente durante a desgastante fase das
trincheiras (v.g., no Inverno de 1917/1918, as temperaturas desceram aos 30
graus negativos, que congelavam a água existente nos motores; segundo Isabel
Pestana Marques, os expedicionários portugueses chegaram a estar mais de um ano
na linha da frente, ao contrário dos ingleses que eram rendidos trimestralmente)…
Memórias que, por certo, terão acompanhado Alípio Borges até à morte, em 1972,
e que, talvez, tenham sido reavivadas quando, no dia 1 de Janeiro de 1961, com
67 anos, voltou a ser obrigado a “apresentar-se” em Oliveira do Hospital, por
certo no contexto do início da Guerra do Ultramar.
Importará dizer que o primeiro
contingente de tropas do CEP destinado à guerra na Europa embarcou em Lisboa, no
final de Janeiro de 1917 (para África, os primeiros portugueses partiram logo
em 1914). Após a instrução prévia, os expedicionários eram concentrados em
Tancos (Vila Nova da Barquinha, Santarém), onde recebiam um treino mais
intensivo, mas, sabemos hoje, profundamente desajustado à nova realidade bélica
mundial, dada a proeminência da guerra química (veja-se o caso do gás
mostarda), do poder da artilharia (a metralhadora pesada inglesa Vickers de 7,7 mm poderia disparar cerca
de 600 projécteis por minuto), dos tanques, dos lança-chamas, do impacto da
aviação militar e dos submarinos, entre outros recursos tecnológicos dramaticamente
mortíferos e causadores de doenças até então desconhecidas, nomeadamente do
ponto de vista mental (neurose de guerra).
Aplicado o propalado “milagre de
Tancos”, os expedicionários rumavam de comboio para Santa Apolónia, daí
marchavam para Alcântara e, de barco, seguiam para o porto de Brest (França) e, finalmente, para a
linha da frente (no total, seriam 55 mil portugueses a chegar à Flandres). Esse
trajecto final até ao Norte da França seria, de resto, marcado pelas constantes
paragens em várias estações, como nos recorda Isabel Pestana Marques, na sua
incontornável obra Das Trincheiras, com
saudade, na qual a historiadora partilha as conclusões extraídas ao longo
de 18 anos de investigação.
Escreveu Jay Winter que cerca de
metade dos homens que morreram na I Guerra não têm túmulo conhecido. Numa
iniciativa a todos os títulos meritória, o jornal Público tem vindo a editar diariamente uma série de suplementos
sobre o conflito, procurando, assim, reerguer do esquecimento os combatentes
nacionais, ainda hoje, repita-se, muitas vezes sepultados no vazio do
anonimato, como acontece em África (Público,
I Grande Guerra, n.º 4, 31 de Julho de 2014).
No cemitério da minha aldeia nativa,
o tempo tem-se encarregado de fazer desaparecer das lápides os nomes destes
meus conterrâneos “serranos” que, no início do século passado, foram
mobilizados pela jovem I República para combaterem em terras estrangeiras, por
uma causa (mormente, no que se refere à Europa – principal palco do conflito)
que pouco ou nada lhes diria, além da iminente certeza de uma morte anunciada
pelos obuses e, tantas vezes, vislumbrada nos cadáveres, com os quais
coabitavam nas trincheiras, já para não falar nas pulgas, piolhos, larvas,
ratos, lama… Homens que, muitas vezes, mal conheciam os limites do concelho
onde haviam nascido e que percepcionavam Lisboa como o outro lado do mundo…
A I Guerra Mundial teve um impacto
decisivo do ponto de vista político (contribuindo para o agudizar da crise da I
República), mas os seus efeitos fizeram-se sentir igualmente no quotidiano das
populações, nesse Portugal profundo, vincadamente rural, analfabeto, periférico
e ainda bastante marcado pela matriz católica, pese embora o esforço de
laicização empreendido pela jovem República, vertido na polémica Lei da separação das Igrejas do Estado,
promulgada, em 1911, pelo Governo Provisório saído da revolução de 5 de Outubro
de 1910.
1917 e os anos seguintes ficaram
marcados por sucessivos relatos de “aparições” que eclodiram por todo o país,
sendo o mais paradigmático o fenómeno das alegadas “aparições” da Virgem Maria
aos três pastorinhos (Francisco, Jacinta e Marta), na Cova da Iria (Fátima). Sintomaticamente,
na memória de muitos habitantes de Vila Franca da Beira ainda paira a imagem
das mães que rumavam diariamente ao santuário da Santa Margarida, para pedir o
regresso, breve e saudável, dos seus filhos. Parece, pois, verificar-se um
revivalismo do culto religioso, nesta época de fome, guerra e peste (Geoffrey
Blainey refere mesmo que, durante a guerra, por cada soldado morto por balas,
granadas ou explosivos um morria de doença e, além disso, segundo aquele
historiador australiano, a gripe “espanhola”, surgida na ressaca do conflito,
matou ainda mais pessoas do que a I Guerra).
Procurando não cair na tendência de
fazer hagiografia, importa hoje, cada vez mais, recordar estes homens
esquecidos na voragem dos tempos. De Vila Franca da Beira, eis a lista,
naturalmente provisória (com as naturais imperfeições daí decorrentes),
daqueles que terão participado no primeiro conflito à escala planetária (um
trabalho apenas possível em grande parte graças à preciosa memória das gentes
que me viram crescer): Celestino Pais, Alípio Esteves Borges, Aires Lopes
Figueiredo, Eduardo Borges de Campos, Gabriel Tavares Gonçalves, Sebastião
Esteves Simões, Carlos Fernandes Lopes, Sebastião e Abel, sendo que os dois
últimos (cujos apelidos terão ainda de ser confirmados) estão incluídos entre
os cerca de 8 mil portugueses que perderam a vida na Flandres e em África.
Segundo creio, valeria a pena
alargar a lista a todo o concelho, pelo que deixo aqui o repto ao leitor, que
ainda conserva algum tipo de memória sobre este assunto, para que a inscreva no
espaço consagrado aos comentários, que, felizmente, as novas tecnologias nos
permitem utilizar e que poderiam trazer inequívocas vantagens para todos, caso
fossem utilizadas de um modo mais eficiente e, digamos, menos maledicente...
Na sua obra Uma breve história do século XX, Geoffrey Blainey conclui que, Albert
Einstein, inadvertidamente, “ao pregar uma versão de pacifismo numa altura
inapropriada”, contribuiu, dada a sua influência, “para enfraquecer alguns dos
entraves colocados à subida de Hitler ao poder”. Nestes novos tempos, em que a
guerra parece ter entrado numa nova era (desde logo, com os drones e os conflitos localizados
caracterizados por um poder de destruição total), importa não descurar a
vigília. Afinal, uma nova guerra mundial poderá estar mesmo ao dobrar da
esquina e a verdade é que ninguém poderá partir para um novo conflito com as
ilusões que muitos experimentaram, aquando da declaração de guerra da
Inglaterra e França à Alemanha e ao império Austro-Húngaro (Agosto de 1914), pois
a indústria da morte tem as chamas mais vivas do que nunca…
Conhecer a guerra através das
pessoas de carne e osso que a viveram e que, afinal, são os nossos familiares
directos ajudar-nos-á, por certo, a perceber que, por trás da banalidade com
que assistimos, durante o almoço, a uma guerra do outro lado do mundo, existem dimensões
da vida que nenhuma palavra poderá descrever. Afinal, o sofrimento e o drama
nunca têm limites. Quando os estudamos é que compreendemos que nenhuma guerra
acaba com as guerras. Quando os vivemos é que realmente sentimos…
Termino com Marc Ferro, que, no livro
A grande guerra 1914-1918, cita as
dramáticas palavras escritas pelo combatente Raymond Naegelen, a propósito da
vida infernal nas trincheiras. No ano em que se completam 100 anos após o
início da I Guerra e parece proliferar a tendência para derrubar ainda mais as
pontes entre as Nações (crescente isolamento proteccionista…), vale a pena
pensar nelas:
“Sobre toda a frente do cabeço de
Souain, desde Setembro de 1915, os soldados de infantaria ceifados pelas
metralhadoras jazem estendidos de barriga para baixo, alinhados como num
exercício.
A chuva cai sobre eles, inexorável,
e as balas partem os seus ossos embranquecidos.
Uma noite, Jacques, durante uma
patrulha, viu sob os seus capotes descoloridos ratazanas a fugir, ratazanas
enormes, engordadas a carne humana. Com o coração a bater, ele rastejava em
direcção a um morto. O capacete tinha caído. O homem apresentava a cabeça
contorcida, vazia de carne: o crânio à vista, as órbitas vazias, os olhos
comidos. A dentadura tinha deslizado sobre a camisa podre e da boca escancarada
saltou um bicho imundo”…
Renato
Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
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Renato Nunes
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Abril, 40 anos depois
Regresso à minha aldeia nativa e
pressinto-a cada vez mais despovoada, já com muitas das casas de granito
convertidas em fantasmas. Deambulo pelas ruas, recordo as histórias inscritas
nas pedras e deixo-me levar pelas memórias da meninice, com os gaiatos do Cimo
do Povo a jogarem à bola na calçada. Actualmente, são poucas as crianças desta
terra, pese embora o meritório trabalho desenvolvido, mormente na última
década, ao nível da melhoria das infra-estruturas locais.
Francisca e André (nomes fictícios)
são hoje um dos poucos meninos desta terra das Beiras, que levo na alma em cada
travessia do Atlântico. Ela com 6 anos, ele com 4, oriundos de um meio
económico e cultural claramente desfavorecido, ajudam-me a viajar no tempo; a
recuar mais de três décadas. No ano em que nasci (1980), 17% dos portugueses
adultos não sabiam ler, mas a mobilidade social ascendente começava a revelar-se
possível. De facto, a revolução de Abril abriu um conjunto de portas e
oportunidades ̶
inimagináveis durante o Estado Novo ̶ e todas as vitórias pareciam possíveis. Foi
por isso, apenas por isso (por uma questão de mais oportunidades), que dos 7
filhos que os meus pais geraram apenas eu tive o privilégio de continuar a
estudar.
Hoje, olhando estes dois irmãos, quais
torgas que resistem na aridez das fragas, revejo o meu próprio percurso e dou
por mim a pensar no seu futuro. Francisca e André não sabem ̶ como poderiam
saber? ̶ ,
mas o seu país prepara-se para receber os 40 anos da revolução de Abril, numa
altura em que as notícias mais recentes dizem que o salário mínimo nacional
vale hoje menos do que em Maio de 1974 ̶ argumento que muitos
saudosistas poderão querer utilizar para desvalorizar o movimento militar, depois
de cariz popular, que derrubou o Estado Novo.
Se é certo que as datas históricas
não servem para ser colocadas num pedestal e glorificadas como santos, também é
certo que o povo que perdeu a capacidade de recordar os marcos fundadores da
sua identidade é um povo sem memória e, consequentemente, condenado a
naufragar.
O 25 de Abril é um dos nossos marcos
fundadores, enquanto país. Como escreveu Miguel Torga no seu Diário, no próprio dia da revolução, tratou-se
de “um passo”, um início para, desde logo, acrescento eu, acabar com a guerra
colonial, que há já 13 anos estropiava o país. A tragédia que veio a seguir não
deve servir, não pode servir, para escamotear a importância da “revolução dos
cravos” e dos seus actores, nomeadamente aqueles que pediram para depois serem
sepultados numa campa rasa, como foi o caso do capitão Salgueiro Maia.
Recordar a situação de Portugal
durante o Estado Novo também não significa ilibar os actuais actores políticos
das suas tremendas responsabilidades na situação calamitosa a que chegámos. Os
40 anos da revolução deveriam servir, isso sim, para procurar corrigir…
Ora, em data de aniversário, é
curioso como, de uma penachada, a segunda figura da Nação, Assunção Esteves
(reformada na ternura dos 40 anos, a receber mais de 7000 euros mensais e com
direito a “ajudas de custo” ̶ com o apoio
incondicional dos deputados da coligação que governa o país, tudo dentro da
mais absoluta legalidade…), descartou os militares da “Casa da Democracia”, até
com alguma arrogância pelo meio, impedindo-os de tomar a palavra. O que
equivale a dizer: comemore-se Abril, mas longe dos seus pais. Afinal, o que
eles teriam para dizer provoca assim tanto medo, 40 anos depois de termos
extinto, pelo menos formalmente, a censura? Entrementes, enquanto se anulam as
vozes incómodas, alguns pretendem estrategicamente apropriar-se da memória
daqueles que nunca se venderam ̶ não é esse, afinal, o objectivo dos iluminados
que pretendem levar Salgueiro Maia para o Panteão Nacional, contra a vontade
expressa pelo próprio militar, no seu testamento de 1989? Calam-se os vivos e
usam-se os mortos. Haja vergonha.
Num momento em que os políticos
necessitam, como pão para a boca, de actos de credibilidade, Durão Barroso veio
a público, diz-se que algo emocionado, afirmar que antes do 25 de Abril,
“apesar de algumas liberdades cortadas, havia na escola uma cultura de mérito,
exigência, rigor, disciplina e trabalho”. E depois conclui a respeito dele
mesmo, em jeito de empáfia: “Sabia, era arguto na argumentação e já tinha algum
espírito irreverente” (Diário de Notícias,
13/4/2014, p. 22). O próximo candidato a Presidente da República (segundo os
rumores mais recentes) ou o Primeiro-
-Ministro que, em 2004, abandonou o país para assumir o cargo de Presidente da Comissão Europeia não deveria enxergar minimamente a situação da maioria da população portuguesa quando estudava e tenho dúvidas em relação ao seu conhecimento sobre a actual situação do país profundo. Caso houvesse em Portugal um conjunto de cidadãos dotados de um mínimo sentido de memória histórica, nem mesmo os elogios do salamurdo Cavaco Silva lhe poderiam valer de muito…
-Ministro que, em 2004, abandonou o país para assumir o cargo de Presidente da Comissão Europeia não deveria enxergar minimamente a situação da maioria da população portuguesa quando estudava e tenho dúvidas em relação ao seu conhecimento sobre a actual situação do país profundo. Caso houvesse em Portugal um conjunto de cidadãos dotados de um mínimo sentido de memória histórica, nem mesmo os elogios do salamurdo Cavaco Silva lhe poderiam valer de muito…
Num
momento em que os políticos necessitam, como pão para a boca, de actos de
credibilidade, o Engenheiro (perdão, Mestre…) Sócrates lá continua no canal
público a tentar reconstruir a imagem que deixou no decurso dos anos
desastrosos em que governou, pese embora as enternecedoras e elogiosas palavras
que muitos ainda lhe votam, caso de Santana Lopes. Depois, o Dr. Miguel Relvas,
notável malabarista, fosforesce nos seus novos cargos público-privados, tendo
ainda recentemente sido nomeado por Passos Coelho para encabeçar a lista ao
Conselho Nacional do PSD; as prescrições dos casos que envolvem milhões
avolumam-se a um ritmo alucinante, enquanto se anuncia um provável debate em
torno da (reduzida) subida do salário mínimo nacional e, claro, se comemora
sofregamente a vitória do Benfica no campeonato e se aguarda o pontapé de saída
do Mundial, no Brasil ̶ país onde já vários cidadãos parecem ter
percebido que o “pão e o circo” da Roma Antiga emergem hoje travestidos de
outras fórmulas (como a estratégica “Factura da Sorte”, com o sorteio de carros
alemães de alta cilindrada, à margem da fiscalização do Serviço de Inspecção de
Jogos…), mas o objectivo essencial mantém-se.
Num momento em que os políticos
necessitam, como pão para a boca, de actos de credibilidade, mantêm-se as
perigosas (e seculares) ligações promíscuas entre os grandes interesses/grupos económicos
e o Estado, como o documentário realizado por Jorge Costa nos permite
surpreender e que, por certo, por uma simples questão de coincidência, a RTP2
exibiu já pela madrugada dentro (“Donos de Portugal”: http://vimeo.com/40658606 ).
A Nomenklatura continua a imperar…
Francisca e André: como eu gostaria
de anunciar-vos um futuro diferente daquele que, neste momento, vos posso
prever. No próximo ano, por certo, encerrar-
-vos-ão a escola da família e irão atirar-vos para as novas indústrias mega-agrupadas. Não sei o que acontecerá depois. Enquanto estudante, eu tive a hipótese de ver o esforço premiado pelos mecanismos do Estado Social, que, verdadeiramente, começou a ser edificado no pós-25 de Abril em Portugal. Quanto a vós, infelizmente, não estou certo que tal ocorra. 40 anos depois de Abril, a Escola pública, progressivamente inclusiva, corre o risco de implodir e com essa destruição seguirá, inevitavelmente, para o charco uma poderosa via de mobilidade social ascendente, o que equivale a dizer a anulação de uma ferramenta imprescindível para a edificação de uma sociedade efectivamente livre e democrática. Como é lógico, a Nomenklatura agradece, pois isso significará a perpetuação da velha máxima elitista: Diz-me onde nasceste, dir-te-ei onde chegarás...
-vos-ão a escola da família e irão atirar-vos para as novas indústrias mega-agrupadas. Não sei o que acontecerá depois. Enquanto estudante, eu tive a hipótese de ver o esforço premiado pelos mecanismos do Estado Social, que, verdadeiramente, começou a ser edificado no pós-25 de Abril em Portugal. Quanto a vós, infelizmente, não estou certo que tal ocorra. 40 anos depois de Abril, a Escola pública, progressivamente inclusiva, corre o risco de implodir e com essa destruição seguirá, inevitavelmente, para o charco uma poderosa via de mobilidade social ascendente, o que equivale a dizer a anulação de uma ferramenta imprescindível para a edificação de uma sociedade efectivamente livre e democrática. Como é lógico, a Nomenklatura agradece, pois isso significará a perpetuação da velha máxima elitista: Diz-me onde nasceste, dir-te-ei onde chegarás...
Há 40 anos, Abril foi uma porta que
se abriu. O Homem que um dia deixa de evocar conscientemente o aniversário
acabará depois por esquecer o seu próprio nome. A seguir, não restará mais
nada, além do vazio das pedras abandonadas, fantasmas.
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)
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Renato Nunes
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Um Percurso!!!
Reli os textos escritos durante todo o percurso deste projecto, que começou em 2007. Parei para pensar, abstrair-me e desfrutar de um prazer terapêutico. a escrita.
O afastamento da escrita é reflexo de momentos, onde o trabalho e a necessidade de encontrar saídas asfixiaram os pensamentos e me impediram de explanar as palavras, de me sentir FELIZ
Perguntaram-me porque é que não escrevia, que ficavam tristes quando se apercebiam que quando abriam o blogue não viam novos textos e novas ideias.
Fez-me pensar na minha utilidade e importância neste Mundo. Por vezes esqueço-me dela e descuro-a. Um abraço aqueles que me fizeram lembrar-me dela e perceber a sua importância .
O afastamento da escrita é reflexo de momentos, onde o trabalho e a necessidade de encontrar saídas asfixiaram os pensamentos e me impediram de explanar as palavras, de me sentir FELIZ
Perguntaram-me porque é que não escrevia, que ficavam tristes quando se apercebiam que quando abriam o blogue não viam novos textos e novas ideias.
Fez-me pensar na minha utilidade e importância neste Mundo. Por vezes esqueço-me dela e descuro-a. Um abraço aqueles que me fizeram lembrar-me dela e perceber a sua importância .
sábado, 28 de dezembro de 2013
Conto de Natal: “Família que reza mantém-se unida”
Atravessavam-se quilómetros e aquele
apelido, por si só, era chave infalível para entrar em qualquer cofre-forte: “–
Sabe, venho da parte do sr. Forjaz”. E a casa escancarava-se mesmo à frente dos
nossos olhos, sem qualquer pergunta adicional.
A família Forjaz construíra um dos
maiores impérios da nação, graças, em primeiro lugar, à compra e venda de
habitações. Ao velho Forjaz costumavam, de resto, chamar o rei do imobiliário,
o que curiosamente até rimava com milionário.
Manuel Antunes de Pina Forjaz
nascera em Vila Marim, no norte do país, no seio de uma família da astuta
burguesia. Crescera numa velha casa de granito com vista para um penedo onde
alguém um dia inscrevera uma frase, que sempre guardaria inconscientemente por
dentro: “Família que reza mantém-se unida”. De resto, como não quisera queimar
as pestanas com os livros, acabara por casar-se com uma dama da nobreza, por
sinal bem mais velha, que, segundo acreditava, lhe poderia garantir o prestígio
de um nome azul até ao fim dos dias.
Logo após o matrimónio, partiram
para a capital e, graças ao belo pé-de-meia que traziam escondido, conseguiram
adquirir uns vastos quilómetros de terreno a escassos quarteirões do Tejo.
Apenas dois anos volvidos, revenderam alguns lotes e ganharam o suficiente para
adquirir três belas moradias na zona mais cara da cidade. A histórica Olisipo crescia então a olhos vistos e o
cobiçoso Forjaz, cada vez mais raposo, não perdia a oportunidade de ceifar a
seara.
Passaram-se anos e anos, os
suficientes para que a família Forjaz se tornasse sinónimo de sucesso em todo o
país. Aos poucos, começaram a minar as mais variadas áreas: restauração, saúde,
vestuário e, já numa fase mais recente, uma petrolífera – os reputados investidores
diziam que o ouro negro era o único futuro do país e o cobiçoso Forjaz, cada
vez mais lampeiro, em tudo o que via cheirava dinheiro.
Todavia, sobretudo a partir de uma
determinada fase da vida – talvez porque nunca tivessem filhos – os dias começaram
a parecer-lhes insuportavelmente iguais. O casal Forjaz sentia a rotina a
amargar-lhe na boca: acordar às 5h00 da madrugada, engolir o pequeno-almoço,
separar tarefas (– tu vais à clínica!; – tu segues para os restaurantes…),
atravessar a confusão dos carros parados nos semáforos, respirar o ruído do
fumo a fugir dos escapes das chapas andantes que acabavam de arrancar. E no
meio de tudo isso uma insuportável sensação de profundo vazio. Um vazio que, na
verdade, contrastava com as inúmeras pessoas que diariamente recebiam no
conforto das suas casas repletas de festas simuladas. Silêncio.
Forjaz casara-se com pouco mais de
18 anos. Maria teria na casa dos 30. Durante todas as suas vidas, nunca haviam
conhecido o sabor da fome, nem sequer algum dia haviam pensado em tal
realidade. As suas habitações eram fartas e as mesas estavam sempre recheadas
com tudo o que de melhor existia. Ainda assim, invadia-os a solidão, uma
desgastante e insuportável solidão que a cada minuto os fazia perguntar o
sentido da sua condição e, ao mais pequeno pretexto, os conduzia à discussão.
Um dia, Maria aproximou-se do velho
Forjaz e, estendendo-lhe delicadamente as mãos, mostrou-
-lhe uma caixa de sapatos, cujo interior fora forrado com um pano de seda. Lá dentro, dormitavam dois gatinhos recém-nascidos, ainda com os olhinhos bem fechados. O velho Forjaz coçou a cabeça e sorriu longamente, parecendo assim aprovar a ideia da mulher para combater aquele vazio. De resto, gostou tanto que, logo no dia seguinte, foi ele próprio que repetiu a proeza e trouxe para casa dois cãezinhos que passaram a ser uma das poucas alegrias dos seus dias de milionário solitário.
-lhe uma caixa de sapatos, cujo interior fora forrado com um pano de seda. Lá dentro, dormitavam dois gatinhos recém-nascidos, ainda com os olhinhos bem fechados. O velho Forjaz coçou a cabeça e sorriu longamente, parecendo assim aprovar a ideia da mulher para combater aquele vazio. De resto, gostou tanto que, logo no dia seguinte, foi ele próprio que repetiu a proeza e trouxe para casa dois cãezinhos que passaram a ser uma das poucas alegrias dos seus dias de milionário solitário.
A chegada dos irrequietos bicharocos
trouxe luz à escuridão do casal e a partir daquele momento os dias nunca mais
foram os mesmos. O velho Forjaz via os tapetes roídos e as cadeiras arranhadas,
mas perante o olhar complacente dos novos inquilinos nem sequer conseguia
erguer a voz para proferir a mais breve reprimenda. Limitava-se a sorrir à
esposa, que a todo o custo tentava esconder as asneiras dos bicharocos!
Bastaram alguns dias e tornou-se evidente que a harmonia trouxera finalmente
uma família à moradia. E pela primeira vez havia alegria.
Passaram-se meia dúzia de anos e os
animais cresceram alegremente na companhia uns dos outros. Nem os cães corriam
atrás dos gatos, nem os felinos se intrometiam nos afazeres caninos. Quando
muito, nos tempos mais recentes, lá vinha um miar mais assanhado ou um latido
mais assustador sempre que a comida parecia não chegar para todos. A princípio,
os quatro patas – amamentados no tempo das vacas gordas – começaram a estranhar
a diminuição progressiva da ração, mas ao fim de algum tempo lá acabaram por
convencer-se que tudo aquilo faria parte de uma dessas dietas malucas que a
dona tantas vezes prescrevia a si mesma. Arre que era teimosa!
Mesmo Fadista, o possante perdigueiro
de orelhas caídas que mais se aproximara do coração do velho Forjaz, deixara de
conseguir avançar o suficiente para sentir a mão no pêlo a afagar-lhe os
sentidos. Aliás, ainda se lembrava muito bem quando, talvez há menos de duas
semanas, tentara fazê-lo e tivera mesmo de fugir a sete pés, para não levar com
o ferro da lareira em cima da cachimónia. Gerou-se então longa discussão entre
a bicharada por muitas noites dentro.
Um dia, porém, logo pela madrugada,
chegou a ansiada explicação. Na mansão todos puderam ouvir que os Forjaz
acabavam de decretar falência e em breve tudo seria entregue aos credores. Num
ápice, as empresas foram seladas e quase de imediato vendidas em hasta pública,
o mesmo sucedendo com o restante património ampliado ao longo de décadas e
décadas de investimento e dura poupança.
Então, o velho casal, já sem o
prestígio que o dinheiro oferece ao nome de baptismo, foi forçado a deixar tudo
para trás. Quanto aos animais que um dia haviam acolhido, não hesitaram em
escorraçá-los imediatamente com sete pedras nas mãos. Pedrada após pedrada, os
desorientados bicharocos ganiam dolorosamente e rodopiavam em volta da porta,
nunca se afastando o suficiente para ficarem em segurança. Quando, por fim, as
pedras deixaram de cair sentaram-se sobre as patinhas traseiras e aguardaram.
Manuel e Maria abandonaram a mansão
pela porta das traseiras numa manhã de Inverno. Mais sós do que nunca,
arrastaram-se pelas ruas da cidade durante várias semanas. Sentiram frio,
conheceram a fome, dormiram nas entradas dos edifícios que no passado haviam
possuído e, ironia das ironias, acabaram a vasculhar a comida dos restaurantes
onde ainda há pouco davam ordens. E enquanto percorriam as ruas em busca das
portas abertas sentiam o desprezo das inúmeras visitas que durante anos e anos
haviam diariamente recebido nos seus lares…
Numa dessas intermináveis noites em
que vagueavam pelas ruas abandonadas atracaram na velha mansão onde um dia
haviam imperado. Repararam então que no interior da casa havia luzes, muitas
luzes, e decidiram esperar atrás de um enorme arcipreste que crescera do outro
lado da calçada. Estava escuro e, por certo, lá dentro, o jantar estaria
prestes a terminar. – Talvez depois algum
empregado venha despejar os restos das refeições no lixo... – matutaram
para os seus botões. E esperaram, sempre escondidos.
Estava frio, muito frio mesmo, e os
trovões sulcavam assustadoramente os céus. Manuel abrigava a mulher debaixo da
gabardina, apertando-a contra o peito quando, subitamente, o ansiado criado da
mansão ultrapassou o secular portão de castanho. Viram-no debruçar-se e
assobiar, durante alguns minutos. Logo depois, chegaram dois cães franzinos,
com as caudas a abanar, fixando atentamente o homem da camisa branca que lhes
estendia os restos da noite. O empregado aproximou-se e antes de partir
afagou-lhes ternamente o cachaço, sem sequer ter tempo para ver os dois gatos
que, entretanto, se haviam acercado da desejada comida.
À distância, Manuel podia jurar
conhecer aqueles animais de algum lado, mas a miopia cada vez mais acentuada
imprimia uma perspetiva impressionista a todas as imagens que lhe chegavam à
mente. Então, deixou o homem da camisa branca fechar completamente o portão e,
depois de avançar alguns metros, quase sentiu um aperto no peito, quando
identificou os bicharocos que ainda há tão pouco tempo havia escorraçado à
pedrada. Percebia agora que eles sempre haviam permanecido por ali…
Pressentindo-os avançar para a
desejada comida, Manuel assobiou o mais alto que conseguiu, enquanto coxeava em
direção ao centro dos acontecimentos, arrastando atrás de si a sua mulher, cada
vez mais fraca e dorida pelo gelo da noite, pelo imenso poder da fome. Vazio.
Ao assobio, os animais olharam em
uníssono para o casal, completamente absortos da cabeça às patas, sem qualquer
movimento, talvez estupefactos pela inesperada presença dos seus donos. Até
que, sem que nada o fizesse prever, um a um, todos se desviaram da fumegante
refeição, como que abrindo caminho aos estômagos vazios daqueles que ainda
recentemente os haviam abandonado.
Vendo aquela surpreendente prova de
fidelidade e bondade, Manuel baixou ternamente a face e apertou a mão de Maria
com mais força. Negociante de poucas palavras, sempre lhe haviam ensinado que
um homem não chora, e por isso continuou a arrastar a mulher pela calçada fora.
Depois, sempre juntos, sentaram-se lado a lado, recolheram a comida do chão e
começaram a atirá-la, alternadamente, a cada um dos animais, também eles
profundamente esfomeados. Já há vários dias que nenhum dava uso à dentuça.
Nas ruas não havia ninguém. O frio
descia silenciosamente das montanhas e atravessava cada ser até às mais
profundas entranhas. Aninhados sobre a entrada da mansão onde um dia haviam
crescido, os quatro patas envolviam-se num lânguido sussurro, rodeando
ternamente os seus donos, com ou sem dinheiro, com ou sem roupas douradas ou
insígnias imaginadas. Nem sr. Forjaz, nem sr. Manuel, nem conde, visconde, deão
ou barão. Apenas e sempre os seus donos, finalmente de regresso. Nada mais.
Ali mesmo, do outro lado dos seus
antigos abrigos, não havia solidão. Afinal, também ali chegara, provavelmente,
uma das maiores lições desta época: “Família que reza mantém-se unida” – e
existem tantas formas diferentes de rezar…
Naquele inesperado local, pela
primeira vez na vida daquele casal foi Natal…
[Natal,
Ferida sem mal,
Safanão de luz
Que nos conduz
A perceber
Que apenas reencontramos
O que somos
Quando fugimos do artificial.
Natal, cordão umbilical,
Caminho que nunca se constrói
sozinho;
É preciso merecê-lo
Para depois recebê-lo
E não
voltar a perdê-lo.]
Renato Nunes
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Entre a História e a vida
Historiadores
e filósofos clássicos como Heródoto, Tucídides ou Cícero acreditaram que “a
História é a mestra da vida”. Alguns autores mais recentes, no entanto, têm
vindo a sustentar que a grande mestra da História (e da Humanidade) é a vida: enquanto
esta nos grava na pele as duras aprendizagens adquiridas à custa dos nossos
próprios erros, a primeira limita-se, em traços sumários, a mostrar-nos à
distância alguns percursos trilhados pelos nossos antepassados. Trata-se de uma
distinção que, embora simplista, talvez possa ajudar-nos a compreender a
crónica dificuldade que sentimos em aprender com os erros dos outros…
Vem este arrazoado a propósito de
uma reflexão que já algum tempo venho amadurecendo acerca das relações do Homem
com a História, em particular nestes tempos tão estranhos que continuamos a
viver. Estar atento aos sinais dos dias deveria ser uma tarefa de todos os
cidadãos e, em particular, daqueles que consagram a vida ao estudo desta “narrativa
científica”. Também por isso, não consigo aceitar (embora me pareça fácil
explicar) o “enterrar da cabeça na areia” que para aí vai grassando, mesmo
entre pessoas com responsabilidades histórico-culturais evidentes…
Por isso, no início deste terceiro parágrafo
lanço um desafio ao leitor: perca algum do seu tempo a observar as emissões do “Canal
História”. Aí, poderá deparar-se com várias “preciosidades esotéricas”, que
podem passar pela procura de seres extra-
-terrestres nas mais surpreendentes construções feitas pelo Homem, no âmbito das várias civilizações, ou até mesmo, só para dar outros exemplos bizarros, pela busca de vampiros, monstros lendários ou deuses que se fizeram Homens… Podia, afinal, falar de um “Canal História” que, de um modo regular, parece querer falar de tudo, menos de História. Naturalmente que, se um canal que deveria ser de referência é assim, nem vale a pena explorar o que acontece no caso dos generalistas… big brother’s (ressalve-
-se aqui, apesar de tudo, o meritório esforço da RTP2 do ponto de vista cultural, pese embora a espada de Dâmocles – leia-se, privatização – que paira sobre a sua cabeça…).
-terrestres nas mais surpreendentes construções feitas pelo Homem, no âmbito das várias civilizações, ou até mesmo, só para dar outros exemplos bizarros, pela busca de vampiros, monstros lendários ou deuses que se fizeram Homens… Podia, afinal, falar de um “Canal História” que, de um modo regular, parece querer falar de tudo, menos de História. Naturalmente que, se um canal que deveria ser de referência é assim, nem vale a pena explorar o que acontece no caso dos generalistas… big brother’s (ressalve-
-se aqui, apesar de tudo, o meritório esforço da RTP2 do ponto de vista cultural, pese embora a espada de Dâmocles – leia-se, privatização – que paira sobre a sua cabeça…).
Esta é, no entanto – como outros
articulistas já denunciaram –, a ponta do icebergue de uma tendência mais
vasta, que se reflecte, por exemplo, no modo como a História aparece
representada nos escaparates das grandes superfícies comerciais, com títulos
cada vez mais sensacionalistas e graficamente adornados, mas cujo conteúdo
está, afinal, para a História como um camelo para o rio Mondego… Depois, quanto
aos estudos sérios que ainda vão existindo (sim, porque neste país ainda se
produz alguma investigação séria e rigorosa), quando conseguem ser editados,
raramente chegam ao grande público por mais de uns fugazes instantes, logo
desaparecendo (inexplicavelmente?) dos expositores.
Serão estas grandes transformações
inconscientemente fabricadas pelos arautos do neo-liberalismo reinante neste
novo século, quais usurários que há muito venderam a alma ao Diabo, em nome do
seu único deus, o dinheiro? Tratar-se-á apenas de ignorância ou as razões serão
mais obscuras? Existirá uma estratégia deliberada de reconverter os cidadãos em
súbditos, o pensamento em obediência? Estaremos, afinal, a regressar
paulatinamente, sub-repticiamente, a um Estado totalitário, que se intromete
nos mais variados domínios da existência do indivíduo, regulando e vigiando
obsessivamente tudo o que somos, passando até mesmo pelo número de animais que
acolhemos dentro das casas onde vivemos? Aproveitar-se-ão os líderes do facto
de as multidões preferirem ser conduzidas, em detrimento de tomar as rédeas do
futuro nas próprias mãos? E poderão, efectivamente, tomá-las? O leitor saberá
encontrar a sua resposta. Mas, por favor, reflicta. E ouse discordar das minhas
respostas.
Respostas que, afinal, são cada vez
mais difíceis de encontrar, sobretudo para aqueles que se sacrificaram ao longo
de uma vida inteira ou para os jovens que desperdiçaram décadas a concluírem
percursos académicos, muitas vezes com distinção, e depois são convidados a
emigrar para o resto dos seus dias. Respostas que, de resto, não estão ao
alcance dos comuns mortais e cujo sentido, por mais que os nossos manhosos líderes
nos procurem inculcar, deixam sempre qualquer ser pensante com a pulga atrás da
orelha. Afinal, como recentemente me escrevia um amigo, este país já não é para
jovens, nem para idosos e, naturalmente, ainda menos para crianças. Este país é
para as pedras e, claro, para os arrivistas, os burocratas mangas-de-alpaca, os
corruptos, os farsantes, tantos engenheiros ou doutores “à la burla”, que
depois até lançam livros onde se apresentam como vítimas de um sistema que
ainda há bem pouco tempo ajudaram habilmente a forjar…
Atravessamos um período de indefinição,
laxismo, niilismo, anomia e, sobretudo, de total impunidade em relação aos protegidos
dos vários reis que para aí existem. Efectivamente, pensando bem, Portugal abandonou
a Monarquia em 1910, mas nunca deixou de ser um conjunto de pequenos reinos,
governados por vários caciques, cuja utilidade é tantas vezes justificada com o
pretexto de um carimbo ou uma simples rubrica. Olhamos à nossa volta e vemos
polícias condenados à prisão por terem colocado a vida em risco, perseguindo
criminosos; pais com medo de imporem regras aos filhos, pela pressão social de
algumas correntes psico-pedagógicas que transformam as crianças em deuses que
não podem ouvir um não ou sentir o traumatismo da frustração e muito menos de
um berro; professores ameaçados, agredidos, publicamente humilhados e, agora,
forçados a fazer provas cujo principal objectivo, além de representar um belo
encaixe financeiro para os cofres do Estado, passa por escamotear os dramáticos
números do desemprego. Afinal, deixarão de existir docentes desempregados, cinicamente
reconvertidos em candidatos a professores que não conseguiram obter aprovação
na tal prova generalista já do dia 18 de Dezembro, onde serão testadas as
competências esotéricas que para aí grassam… A verdade é que a qualidade do
sistema não constitui o grande objectivo deste tipo de medidas com carácter
eliminatório que, de resto, me fazem lembrar um pouco a trágica anedota do
paciente que se dirige repetidamente ao médico, queixando-se de dores no peito
e o clínico limita-se a mandar-lhe repetir exames atrás de exames, até que o
desgraçado lá acaba por morrer e, desse modo, contribui para a redução
estatística do número de doentes. Não é, afinal, o que tem sucedido em Portugal
ao longo dos últimos anos com esta obsessiva ideia de que tudo se resolve com
mais exames, em detrimento de atacar as verdadeiras causas? A este ritmo, não
tardará que deixem de existir desempregados, pobres, deficientes ou quaisquer
outro tipo de calamidades e então o reino dos céus terá, finalmente, chegado a
este cantinho do Mundo… Hoje, no meio de tanta miséria e de tanto cinismo, os
acenos que o poder nos faz são cada vez mais apetecíveis. Depois, resistir-lhes
implica uma integridade, que, reconheço, nem sempre se coaduna com a
necessidade de sobrevivência.
As linhas traçadas para o futuro
deste país, nomeadamente ao nível da Educação, são simplesmente desastrosas.
Veja-se, por exemplo, a preconizada privatização das Escolas (ninguém se iluda:
é o que está realmente a acontecer), que significará “apenas” a destruição de
um dos mais poderosos meios de mobilidade social ascendente construído neste
país no pós-25 de Abril e que permitiu a vários jovens (entre os quais me
incluo) continuar a estudar e ensaiar construir um futuro diferente das raízes
onde nasceu. Com todas estas medidas, no mundo dos privados, as elites poderão
continuar a perpetuar-se (dinheiro gera dinheiro, poder gera poder) e os
desgraçados do berço poderão igualmente perpetuar-se… na miséria. Estamos,
afinal, perante um profundo retrocesso civilizacional.
Os arautos que nos desgovernam
parecem efectivamente acreditar no efeito Mateus: “Porque ao que tem, dar-se-á
e terá em abundância; mas ao que não tem, ser-
-lhe-á tirado até mesmo o que tem”. Será que é apenas porque nunca conheceram o amargo de não ter? A verdade é que – perdoem-me o desabafo – ninguém deveria governar os outros sem conhecer o sabor da fome, sem sentir na pele a verdadeira dimensão da realidade.
-lhe-á tirado até mesmo o que tem”. Será que é apenas porque nunca conheceram o amargo de não ter? A verdade é que – perdoem-me o desabafo – ninguém deveria governar os outros sem conhecer o sabor da fome, sem sentir na pele a verdadeira dimensão da realidade.
Neste último parágrafo, debruçado entre
a vida e a História, opto pelas pontes que unam as duas construtoras da memória
e, consequentemente, de tudo o que somos. Recordando o meu próprio percurso
pessoal e daqueles que me são mais próximos, regresso à História-ciência e
História-docência a que um dia pensei, ingenuamente, poder consagrar a vida, em
regime de exclusividade. Regresso a todos os gigantes que continuam a
transportar-nos aos ombros. Regresso a esses gigantes, a tantos heróis do
silêncio do anonimato, que merecem, pelo menos, a nossa indignação. E deles recupero
uma lição que a História parece querer gritar-me – se a indiferença vencer, o
século XXI não será muito diferente do século que o antecedeu: 1914-1918 – I
Guerra Mundial; 1939-1945 – II Guerra Mundial, Holocausto… Será mesmo
necessário continuar a escrever, sabendo que apenas este último conflito terá
provocado mais de 50 milhões de mortos e a banalização do genocídio? Até quando
a História e a vida caminharão de costas voltadas dentro de cada um de nós?
Renato
Nunes
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