Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias. Mostrar todas as mensagens

sábado, 28 de dezembro de 2013

Conto de Natal: “Família que reza mantém-se unida”


            Atravessavam-se quilómetros e aquele apelido, por si só, era chave infalível para entrar em qualquer cofre-forte: “– Sabe, venho da parte do sr. Forjaz”. E a casa escancarava-se mesmo à frente dos nossos olhos, sem qualquer pergunta adicional.

            A família Forjaz construíra um dos maiores impérios da nação, graças, em primeiro lugar, à compra e venda de habitações. Ao velho Forjaz costumavam, de resto, chamar o rei do imobiliário, o que curiosamente até rimava com milionário.

            Manuel Antunes de Pina Forjaz nascera em Vila Marim, no norte do país, no seio de uma família da astuta burguesia. Crescera numa velha casa de granito com vista para um penedo onde alguém um dia inscrevera uma frase, que sempre guardaria inconscientemente por dentro: “Família que reza mantém-se unida”. De resto, como não quisera queimar as pestanas com os livros, acabara por casar-se com uma dama da nobreza, por sinal bem mais velha, que, segundo acreditava, lhe poderia garantir o prestígio de um nome azul até ao fim dos dias.

            Logo após o matrimónio, partiram para a capital e, graças ao belo pé-de-meia que traziam escondido, conseguiram adquirir uns vastos quilómetros de terreno a escassos quarteirões do Tejo. Apenas dois anos volvidos, revenderam alguns lotes e ganharam o suficiente para adquirir três belas moradias na zona mais cara da cidade. A histórica Olisipo crescia então a olhos vistos e o cobiçoso Forjaz, cada vez mais raposo, não perdia a oportunidade de ceifar a seara.

            Passaram-se anos e anos, os suficientes para que a família Forjaz se tornasse sinónimo de sucesso em todo o país. Aos poucos, começaram a minar as mais variadas áreas: restauração, saúde, vestuário e, já numa fase mais recente, uma petrolífera – os reputados investidores diziam que o ouro negro era o único futuro do país e o cobiçoso Forjaz, cada vez mais lampeiro, em tudo o que via cheirava dinheiro.

            Todavia, sobretudo a partir de uma determinada fase da vida – talvez porque nunca tivessem filhos – os dias começaram a parecer-lhes insuportavelmente iguais. O casal Forjaz sentia a rotina a amargar-lhe na boca: acordar às 5h00 da madrugada, engolir o pequeno-almoço, separar tarefas (– tu vais à clínica!; – tu segues para os restaurantes…), atravessar a confusão dos carros parados nos semáforos, respirar o ruído do fumo a fugir dos escapes das chapas andantes que acabavam de arrancar. E no meio de tudo isso uma insuportável sensação de profundo vazio. Um vazio que, na verdade, contrastava com as inúmeras pessoas que diariamente recebiam no conforto das suas casas repletas de festas simuladas. Silêncio.

            Forjaz casara-se com pouco mais de 18 anos. Maria teria na casa dos 30. Durante todas as suas vidas, nunca haviam conhecido o sabor da fome, nem sequer algum dia haviam pensado em tal realidade. As suas habitações eram fartas e as mesas estavam sempre recheadas com tudo o que de melhor existia. Ainda assim, invadia-os a solidão, uma desgastante e insuportável solidão que a cada minuto os fazia perguntar o sentido da sua condição e, ao mais pequeno pretexto, os conduzia à discussão.

            Um dia, Maria aproximou-se do velho Forjaz e, estendendo-lhe delicadamente as mãos, mostrou-
-lhe uma caixa de sapatos, cujo interior fora forrado com um pano de seda. Lá dentro, dormitavam dois gatinhos recém-nascidos, ainda com os olhinhos bem fechados. O velho Forjaz coçou a cabeça e sorriu longamente, parecendo assim aprovar a ideia da mulher para combater aquele vazio. De resto, gostou tanto que, logo no dia seguinte, foi ele próprio que repetiu a proeza e trouxe para casa dois cãezinhos que passaram a ser uma das poucas alegrias dos seus dias de milionário solitário.

            A chegada dos irrequietos bicharocos trouxe luz à escuridão do casal e a partir daquele momento os dias nunca mais foram os mesmos. O velho Forjaz via os tapetes roídos e as cadeiras arranhadas, mas perante o olhar complacente dos novos inquilinos nem sequer conseguia erguer a voz para proferir a mais breve reprimenda. Limitava-se a sorrir à esposa, que a todo o custo tentava esconder as asneiras dos bicharocos! Bastaram alguns dias e tornou-se evidente que a harmonia trouxera finalmente uma família à moradia. E pela primeira vez havia alegria.

            Passaram-se meia dúzia de anos e os animais cresceram alegremente na companhia uns dos outros. Nem os cães corriam atrás dos gatos, nem os felinos se intrometiam nos afazeres caninos. Quando muito, nos tempos mais recentes, lá vinha um miar mais assanhado ou um latido mais assustador sempre que a comida parecia não chegar para todos. A princípio, os quatro patas – amamentados no tempo das vacas gordas – começaram a estranhar a diminuição progressiva da ração, mas ao fim de algum tempo lá acabaram por convencer-se que tudo aquilo faria parte de uma dessas dietas malucas que a dona tantas vezes prescrevia a si mesma. Arre que era teimosa!

            Mesmo Fadista, o possante perdigueiro de orelhas caídas que mais se aproximara do coração do velho Forjaz, deixara de conseguir avançar o suficiente para sentir a mão no pêlo a afagar-lhe os sentidos. Aliás, ainda se lembrava muito bem quando, talvez há menos de duas semanas, tentara fazê-lo e tivera mesmo de fugir a sete pés, para não levar com o ferro da lareira em cima da cachimónia. Gerou-se então longa discussão entre a bicharada por muitas noites dentro.

            Um dia, porém, logo pela madrugada, chegou a ansiada explicação. Na mansão todos puderam ouvir que os Forjaz acabavam de decretar falência e em breve tudo seria entregue aos credores. Num ápice, as empresas foram seladas e quase de imediato vendidas em hasta pública, o mesmo sucedendo com o restante património ampliado ao longo de décadas e décadas de investimento e dura poupança.

            Então, o velho casal, já sem o prestígio que o dinheiro oferece ao nome de baptismo, foi forçado a deixar tudo para trás. Quanto aos animais que um dia haviam acolhido, não hesitaram em escorraçá-los imediatamente com sete pedras nas mãos. Pedrada após pedrada, os desorientados bicharocos ganiam dolorosamente e rodopiavam em volta da porta, nunca se afastando o suficiente para ficarem em segurança. Quando, por fim, as pedras deixaram de cair sentaram-se sobre as patinhas traseiras e aguardaram.

            Manuel e Maria abandonaram a mansão pela porta das traseiras numa manhã de Inverno. Mais sós do que nunca, arrastaram-se pelas ruas da cidade durante várias semanas. Sentiram frio, conheceram a fome, dormiram nas entradas dos edifícios que no passado haviam possuído e, ironia das ironias, acabaram a vasculhar a comida dos restaurantes onde ainda há pouco davam ordens. E enquanto percorriam as ruas em busca das portas abertas sentiam o desprezo das inúmeras visitas que durante anos e anos haviam diariamente recebido nos seus lares…

            Numa dessas intermináveis noites em que vagueavam pelas ruas abandonadas atracaram na velha mansão onde um dia haviam imperado. Repararam então que no interior da casa havia luzes, muitas luzes, e decidiram esperar atrás de um enorme arcipreste que crescera do outro lado da calçada. Estava escuro e, por certo, lá dentro, o jantar estaria prestes a terminar. – Talvez depois algum empregado venha despejar os restos das refeições no lixo... – matutaram para os seus botões. E esperaram, sempre escondidos.

            Estava frio, muito frio mesmo, e os trovões sulcavam assustadoramente os céus. Manuel abrigava a mulher debaixo da gabardina, apertando-a contra o peito quando, subitamente, o ansiado criado da mansão ultrapassou o secular portão de castanho. Viram-no debruçar-se e assobiar, durante alguns minutos. Logo depois, chegaram dois cães franzinos, com as caudas a abanar, fixando atentamente o homem da camisa branca que lhes estendia os restos da noite. O empregado aproximou-se e antes de partir afagou-lhes ternamente o cachaço, sem sequer ter tempo para ver os dois gatos que, entretanto, se haviam acercado da desejada comida.

            À distância, Manuel podia jurar conhecer aqueles animais de algum lado, mas a miopia cada vez mais acentuada imprimia uma perspetiva impressionista a todas as imagens que lhe chegavam à mente. Então, deixou o homem da camisa branca fechar completamente o portão e, depois de avançar alguns metros, quase sentiu um aperto no peito, quando identificou os bicharocos que ainda há tão pouco tempo havia escorraçado à pedrada. Percebia agora que eles sempre haviam permanecido por ali…

            Pressentindo-os avançar para a desejada comida, Manuel assobiou o mais alto que conseguiu, enquanto coxeava em direção ao centro dos acontecimentos, arrastando atrás de si a sua mulher, cada vez mais fraca e dorida pelo gelo da noite, pelo imenso poder da fome. Vazio.

            Ao assobio, os animais olharam em uníssono para o casal, completamente absortos da cabeça às patas, sem qualquer movimento, talvez estupefactos pela inesperada presença dos seus donos. Até que, sem que nada o fizesse prever, um a um, todos se desviaram da fumegante refeição, como que abrindo caminho aos estômagos vazios daqueles que ainda recentemente os haviam abandonado.

            Vendo aquela surpreendente prova de fidelidade e bondade, Manuel baixou ternamente a face e apertou a mão de Maria com mais força. Negociante de poucas palavras, sempre lhe haviam ensinado que um homem não chora, e por isso continuou a arrastar a mulher pela calçada fora. Depois, sempre juntos, sentaram-se lado a lado, recolheram a comida do chão e começaram a atirá-la, alternadamente, a cada um dos animais, também eles profundamente esfomeados. Já há vários dias que nenhum dava uso à dentuça.

            Nas ruas não havia ninguém. O frio descia silenciosamente das montanhas e atravessava cada ser até às mais profundas entranhas. Aninhados sobre a entrada da mansão onde um dia haviam crescido, os quatro patas envolviam-se num lânguido sussurro, rodeando ternamente os seus donos, com ou sem dinheiro, com ou sem roupas douradas ou insígnias imaginadas. Nem sr. Forjaz, nem sr. Manuel, nem conde, visconde, deão ou barão. Apenas e sempre os seus donos, finalmente de regresso. Nada mais.

            Ali mesmo, do outro lado dos seus antigos abrigos, não havia solidão. Afinal, também ali chegara, provavelmente, uma das maiores lições desta época: “Família que reza mantém-se unida” – e existem tantas formas diferentes de rezar…

            Naquele inesperado local, pela primeira vez na vida daquele casal foi Natal…

            [Natal,

            Ferida sem mal,

            Safanão de luz

            Que nos conduz

            A perceber

            Que apenas reencontramos

            O que somos

            Quando fugimos do artificial.

 

            Natal, cordão umbilical,

            Caminho que nunca se constrói sozinho;

            É preciso merecê-lo

            Para depois recebê-lo
            E não voltar a perdê-lo.]   

Renato Nunes                       

terça-feira, 22 de maio de 2012

O segredo da partida (Conto infantil)

Sabes, a história que vou contar-te é muito diferente de todas aquelas que até hoje ouviste. Confesso que nunca a partilhei com ninguém. Serás a primeira pessoa em todo o mundo a ouvir estas palavras e, por isso, vou fazer-te um pedido muito importante. Antes de mais, quero que te sentes ao lado das duas pessoas mais especiais da tua vida e que leias em voz alta este segredo. És capaz de fazer isso por mim, não és?

            Nunca te disseram, mas no jardim da tua casa apareceu, há alguns anos atrás, um gato muito amarelo, mais amarelo ainda que o próprio sol. Esse gato, que todos chamavam Pico, tinha uma cauda enorme, duas patinhas rechonchudas e uns bigodes afiados. Quando alguém o chamava, arrebitava a orelha direita, espreguiçava cada uma das patinhas e só depois, tranquilamente, decidia avançar. Quem conseguiu estar perto dele jurou-me que nunca tinha visto uns olhos assim; uns olhos que até falavam, ainda que com outras palavras…

            Como sabes, bem no meio do oceano Atlântico existe uma grande fatia de terra, rodeada de água por todos os lados. A essa fatia de terra os crescidos chamam ilha do Pico, não porque ela pique as pessoas que por aí passam, mas porque lá existe uma montanha muito alta. Vê bem, é a montanha mais alta de Portugal e, até hoje, poucos homens conseguiram ficar muito tempo lá em cima. Há quem diga que a montanha, assim que vê chegar alguém, enrola-se num denso nevoeiro e começa a gemer tão alto, que quase todos são obrigados a descer rapidamente. Ainda hoje, naquela ilha, se diz que é possível ouvir esse som, quando algum intruso se aproxima. E, acredita em mim, já muitos tentaram subir à montanha mais alta de Portugal…

            Entre os muitos que desejaram chegar lá mesmo em cima está o Micha – um pastor que, durante vários anos, apascentou as suas ovelhas nos terrenos do sopé da montanha. Micha era grande, tinha crescido a ouvir a música que descia do cume e poucos conheciam como ele os segredos das alturas.

            Durante anos e anos, Micha guiara o seu rebanho pelos trilhos que conduziam à montanha, sem nunca ter a tentação de desafiá-la e invadi-la. Um dia, porém, quando estava na taberna da vila, um homem tentou-o:

            “– Ouve lá, Micha! Aposto tudo o que queiras que nem tu mesmo és capaz de subir ao ponto mais alto do Pico e passar lá a noite.”

            No início, o pastor quase nem reparou naquele desafio. Limitou-se a sorrir, enquanto baixava a cabeça. Respeitava muito a montanha e não seria um simples tolo a convencê-lo a subir lá em cima. O homem, no entanto, não desistiu e voltou à carga:

            “– Não ouviste o que te disse? Pois olha. Eu estava mesmo disposto a apostar contigo quinhentas moedas como nem tu próprio consegues. Ouvi dizer que tens a mulher doente no hospital da Horta. Se calhar dava-te jeito. Mas deixa lá. Não és capaz e ponto final.”

             Micha tinha realmente a mulher muito doente. E aquelas moedas davam-lhe mesmo jeito. Agora, que era pai, aquelas palavras batiam-lhe ainda mais no fundo do coração. Fitou o tolo com muita atenção nos olhos e disse-lhe:

            “– Qual é, afinal, o teu interesse em ver-me subir à montanha? Ganhas alguma coisa com isso? Que eu consiga ou não chegar lá mesmo ao topo, é uma coisa que não te diz respeito. Guarda as tuas moedas.” – e, dito isto, ficou a olhar para um pardal que ora ajeitava as penas, ora saltitava de rocha em rocha. Por breves momentos, aquele passarinho transportou-o para outro lugar ligado à sua infância; lá, onde também se fala português, o saltitão é conhecido por tchota. Curioso, não é! Mas o arco-íris só é belo porque tem muitas cores – já tinhas pensado nisso?

            Micha saiu então para a rua. Começara a escurecer e lá bem no alto apareciam as primeiras estrelas. Atrás dele seguiu rapidamente o tolo. Ele não desistia facilmente:

            “– Apostei duas mil moedas com o Doutor Xabegras da Madalena, como nem tu lá ias acima. Por isso, vê bem, se tentares e falhares eu ganho a aposta e, como recompensa, ainda te dou quinhentas moedas. É pegar ou largar, agora!”

            “– E imagina que eu consigo mesmo chegar lá em cima…”

            “– Nesse caso, ainda seria melhor para ti. O Doutor Xabegras prometeu entregar-te o dobro do que eu iria dar-te. Pediu-me que te convencesse a aceitar… na Madalena há muitos curiosos em saber se tu consegues ou não. À noite, nas tabernas, não se fala de outra coisa senão do grande espírito da montanha e daqueles que ainda poderão vencê-lo.”

            Micha franziu a testa ao ouvir aquelas palavras. “Pobres tolos se pensam que alguém pode vencer a montanha. Como estão tão enganados…” – pensou para os seus próprios botões, enquanto lhe passava pela cabeça a imagem do seu novo rebento, a pedir-lhe comida: Papá, tenho fome… dás-me comida, não dás??

            Naquela noite, Micha quase não dormiu. A montanha parecia estar dentro do seu próprio quarto e por vezes teve mesmo a impressão de ouvir a voz das alturas a pedir-
-lhe para não aceitar aquele desafio. A dizer-lhe que não precisava daquelas malvadas moedas; que a sua mulher iria melhorar; que a sua mesa voltaria a ficar cheiinha de comidinhas boas e que nunca mais teria de chorar, enquanto ouvia aquela frase: Papá, tenho fome… dás-me comida, não dás??

            Quando amanheceu, Micha rezou muito e depois correu em direcção à vila, para aceitar a aposta. Que fosse o que Deus quisesse, concluiu. Assim que chegou à taberna, viu o Doutor Xabregas, já à sua espera; parece que o espírito da noite lhe tinha anunciado aquela decisão e ele próprio resolvera vir da Madalena para confirmar a audácia do pastor. Sentaram-se e voltaram a levantar-se sem reparar que em cima da desgastada mesa restava ainda uma taça de café, já abandonada…

            No final, ficou acordado que, nesse mesmo dia, Micha iria avançar. Começou a preparar-se ainda durante a quarta hora, nome pelo qual os monges da Idade Média conheciam o período das dez horas da manhã. Agarrou num saco, colocou lá dentro um pedaço de pão seco, com duas azeitonas e, sem mais demoras, caminhou rapidamente até ao cume. Conhecia aqueles carreiros como quem distingue as linhas da palma das mãos e, por isso, não levou muito tempo a chegar até ao piquinho da montanha. Tinham combinado que assim que ele vencesse as alturas colocaria um facho a arder, para que, logo à noitinha, em toda a ilha se soubesse que o pastor Micha tinha conseguido ultrapassar o que todos temiam.

            Ainda não era escuro e já o facho ardia, bem lá no pontinho mais alto de todo o Portugal. Puxou do saco que levava e começou a roer o pão seco, que ia misturando com as azeitonas guardadas. Depois, aconchegou-se o mais que pôde com a esfarrapada samarra que trazia vestida e adormeceu. Lá em baixo, poucos poderiam sequer imaginar aquela paz interior que invadira o pastor.

            Porém, por volta das três horas da madrugada, Micha foi inesperadamente acordado por uma voz que parecia vir do interior da própria montanha, cada vez mais protegida por um denso manto de nevoeiro. Aquela frase nunca mais o abandonaria:

            Ganhaste as moedas, mas perderás bem mais”…

            Assustado, Micha ajoelhou-se e rezou muito, como nunca tinha rezado.   

            Pediu então a Deus que não lhe levasse ainda a sua mulher, a sua Tina, pois não conseguia imaginar a vida sem aquela flor. Chorou, chorou tão alto que, por momentos, conseguiu até fazer calar a voz da montanha que pareceu, ela própria, ter ficado comovida com todo aquele sofrimento. Depois, ainda com as lágrimas a escorrerem-lhe pela face, correu pela montanha abaixo, o mais rapidamente que lhe permitiam as suas já frágeis pernas. Tinha quase 50 anos.

            Quando tomou das mãos do Doutor Xabegras as mil moedas a que tinha direito, foi recebido no meio de grandes aplausos e gritaria, como se de um autêntico herói se tratasse. Então, sem que ninguém se apercebesse, voltou-se para a montanha e viu que o Facho que lá tinha colocado já estava apagado.

            Com o dinheiro nas mãos, correu à mercearia da freguesia e comprou tudo o que precisava em casa. Tinha jurado que não mais voltaria a ouvir aquele Papá, tenho fome… dás-me comida, não dás??        Depois, já com a barriga cheia e o seu mais tenro rebento deitado na cama, apanhou o barco, atravessou o agitado canal e foi ao Faial. Inesperadamente, a sua mulher tinha ficado melhor e alguns dias depois estaria já em casa, completamente recomposta da doença, que quase a levara para junto de Deus. As suas preces foram ouvidas pela montanha, pensou Micha, aliviado. Era como se lhe tivessem tirado um peso do coração.

            Alguns anos se passaram depois deste episódio que, a pouco e pouco, foi sendo esquecido pelos habitantes do Pico (o ser humano tem a proeza de conseguir esquecer quase, quase tudo). Até que um dia, quando já a tarde se preparava para desaparecer, rebentou uma notícia que rapidamente atravessou todas as freguesias da ilha: a filha mais nova do Micha tinha desaparecido no meio da montanha – há já algumas horas que o pai a procurava desesperadamente e nem sequer um rasto apanhava.

            Começou então a dizer-se, por todo o lado, que a montanha se tinha vingado da ousadia do pastor, que mais tarde ou mais cedo ninguém escapava à sua maldição e que, nessa manhã, o espírito das alturas voltara a gritar, como já não o fazia desde aquela longínqua noite.

            Castigo ou não, a verdade é que a menina nunca mais aparecia. Passaram-se dias e dias, tantos que nem eu te posso contar. Micha ficou cada vez mais velho, tão velho que já mal conseguia ver. A tristeza de Micha tornara-se tão grande que passava o tempo fechado em casa, ao lado da sua mulher, de cabelos cada vez mais brancos e compridos, a tocarem o que ainda restava de um rosto já queimado pela vida.

            Um dia de Outono, apareceu-lhes em casa um gato amarelo, que não parava de ronronar; estava cheio de fome. Ao ver aquele bichano completamente abandonado, Micha comoveu-se e deitou-lhe uma bela tigela de leite com pedaços de pão. Há já muito tempo que aquela malga, colorida com estrelinhas, não era utilizada e, ao agarrá-
-la, o pastor sentiu um arrepio a invadi-lo por dentro. Depois, o gato foi ficando, ficando, até que se tornou um membro da família. Quando estava triste, Micha aninhava-o no seu colo, fazia-lhe festas e contava-lhe muitas vezes a história da montanha. As suas lágrimas eram ainda tão intensas que, segundo se diz, eram suficientes para lavar o pêlo, cada dia mais macio do bichano. Chamava-se Pico e os seus olhos pareciam falar, ainda que com outras palavras, lembras-te?

            Um dia, bem pela manhã, depois de lamber a malga de leite, o bichano olhou mais demoradamente para Micha, como que a querer dizer-lhe alguma coisa e, esfregando lentamente os bigodes, partiu, para nunca mais voltar. Lá na ilha, há ainda hoje quem diga que ele subiu ao topo da montanha e deixou depois regressar a menina para junto dos seus pais, sacrificando a própria liberdade para toda a eternidade.

            Sabes, na ilha todos acreditam que essa criança, que hoje já cresceu, és tu. Foi o gato amarelo, mais amarelo que o próprio sol, que partiu para te salvar e te devolveu àqueles que, agora mesmo, estão junto a ti, a embalar-te as mãos. Sabes, há muitas pessoas que, às vezes, têm de partir, para que outras possam chegar… Esse gato, o Pico, tal como o teu avô, partiram para te trazer até junto de nós.

            Até o Sol tem, todos os dias, de embarcar para deixar a lua chegar…

            Agora dorme, meu amor.
Renato Nunes

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O rapaz da fogueira

Esta noite, as luzes apagaram-se mais cedo e a aldeia encerrou-se precocemente na escuridão. Deambulas pelas ruas sem destino marcado e vais sentindo as gargalhadas que atravessam as paredes das casas, enquanto imaginas o que estará para além do que nunca te deixaram ver ou sentir.

Ano após ano, desde que te lembras existir, aquela era sem dúvida a noite mais triste da tua vida. Talvez por isso, nunca deixavas de caminhar, como se tivesses um lugar a alcançar e existisse mesmo alguém à tua espera, ao fundo de cada esquina que vias aparecer à distância da imaginação.

Hoje, à medida que a noite avança, os teus passos ecoam na calçada e isso é o mais próximo do que podes saber sobre a porta de uma casa. Agora que te lembras, já lá vão muitos anos desde a tua chegada à rua. Verdadeiramente, foi ali que nasceste e também ali cresceste. Tudo o que conheces tem o sabor daquelas pedras.

No vazio da escuridão, continuas a avançar, até que, subitamente, do outro lado da rua há uma luz que se acende. Tens pressa em esconder-te, mas as pernas tremem-te e quanto mais tentas correr, mais o teu corpo balança descoordenadamente de um lado para o outro. Nunca confiaste em ninguém e nunca ninguém confiou em ti e, por isso, a tua vida é a solidão.

Pouco depois, quando a luz se apaga, regressas ao trilho desejado. Na próxima esquina, lembras-te, quando derem as onze badaladas, haverá muita comida no lixo, trazida pelos homens da casa amarela. E dás por ti a caminhar mais rapidamente, desejoso de forrar os sentidos com alguma segurança.

Não tarda para que percebas que tudo será como nos anos anteriores. Estranhamente ou talvez não, dás por ti a pensar como é curiosa esta época, em que os homens repetem, ano após ano, um conjunto de rituais, como se temessem a mudança e as partidas que o futuro, inevitavelmente, anuncia. Talvez por isso, logo a seguir, exactamente às onze badaladas em ponto, a casa amarela abrirá as suas portas e os caixotes com os produtos enjeitados estarão à tua espera. Agora mesmo, a primeira refeição do dia reclama a tua presença.

Já com a barriga cheia, poderás novamente avançar. Ouvirás as doze badaladas junto à porta da casa de pedra e os sorrisos dos meninos chegarão até ti, como se te embalassem e convidassem a entrar.

Mas tu estás sempre de partida e a próxima casa já está ali mesmo à frente, a escassos metros da tua presença. À distância, qualquer observador atento poderia perceber que a noite avança em sintonia com os teus passos a ecoar na calçada. Dentro de ti, há risos e barulhos constantes que tentas entender à luz do silêncio da tua sombra, a perseguir-te. Mas as escalas são muito diferentes e existem mundos difíceis de equilibrar, até mesmo no pensamento…

Ao fundo da rua, vês um vulto negro a correr para o caixote da casa mais pobre da aldeia. Serão talvez quatro da madrugada e sabes que dali não haverá muito a esperar, mas, ainda assim, avanças com a mesma ansiedade com que sempre o fizeste anteriormente. Quando estás quase a chegar, um barulho estranho desperta-te a atenção e paralisa-te os movimentos.

Finalmente, quando ganhas coragem e tocas o saco preto atirado para o lixo ouves um leve choro que te toca a alma, como nunca ninguém havia conseguido. Tomas aquele embrulho nas mãos e ao depositá-lo no chão compreendes que existe ali uma criança, muito pequenina, como todas as crianças.

Ao olhar aquele rosto desprotegido quase podes jurar estar perante um espelho do tempo, em todos os sentidos. Também tu, um dia, tinhas sido abandonado, para não mais ser lembrado. Tu poderias ser aquela criança – e ali mesmo, em frente à casa mais pobre da aldeia, o teu pensamento foge para junto daqueles que um dia terão partido depois de te deixar. Talvez as pedras duras encimadas pelas janelas com vidros partidos te ajudem a explicar o que nunca poderias perdoar.

As lágrimas caem-te pelo rosto, como nunca pensaste poder acontecer. Retiras o casaco de serapilheira, único abrigo que ainda te resta e com dificuldade consegues estendê-lo no chão. Depois, a tremer por todos os lados, embalas o tenro rebento em todas as roupas que encontras e deposita-lo no teu casaco, enquanto procuras nos bolsos um fósforo que te apressas a acender.

No chão, mesmo ao lado daquela criança, começam a arder os papéis que acumulaste ao vasculhar os restos dos outros. Aquele calor não durará muito, pensas para ti próprio. E então, deixas-te cair sobre o chão, ergues as mãos e arrancas cada uma das pernas de pau que um dia uma alma caridosa te havia colocado e que o próprio ventre te havia recusado. Ali aprisionado, consentes que o fogo, lentamente, as consuma, uma a uma. E sentes o calor a crescer por fora.

No seu berço improvisado no meio do nada, a criança fascinada pelo inesperado calor da fogueira balbucia um sorriso e deixa-se adormecer. Está tranquila. Talvez sonhe.

Algumas horas depois, quando várias pessoas foram atraídas por aquela chama intensa, já ardia a última perna de pau daquele rapaz abandonado, que, para sobreviver, passara a vida a vaguear pelas ruas.

Sobre o que se passou a seguir nada poderei dizer ao certo, que a memória é curta e as minhas fontes, infelizmente, foram-se apagando com a passagem dos anos. Recordo que durante a meninice, perguntei muitas vezes à minha avó se aquela criança encontrada no meio do lixo tinha ou não sido salva, mas a resposta chegou sempre atrelada ao mesmo sorriso: Isso, meu netinho, ainda está por escrever... Talvez um dia, talvez um dia possas compreender…

Ainda hoje, naquela aldeia embalada no meio das serranias, por onde deambula o autor destas palavras, se diz que, uma vez por ano, no velho adro da igreja, a fogueira se acende no exacto local onde há muitos, muitos anos aquele rapaz abandonado também o tinha feito, para abrir as portas a uma nova vida, quando todas as outras já tinham sido fechadas.

Tal como me recorda o eterno sorriso da minha avó, a resposta à velha pergunta ainda está por construir; depende apenas de nós. Afinal, sempre que a porta se abre, o Natal acontece. E a distância desaparece.

Este “conto” é particularmente dedicado a todos aqueles que, pelos mais variados motivos, um dia tiveram de partir (ou ver partir…) e viver o Natal à distância.
Renato Nunes

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Um relato para ler e reler

Não costumo ser muito lamechas, no entanto a cada dia que passa apercebo-me de situações que me admiram. Já leccionei em 6 escolas nos últimos três anos, pude compartilhar sentimentos com crianças e perceber situações que me deixaram perplexo. Por vezes é admirável perceber o quão boa é uma criança, após perceber a sua realidade familiar. Não é meu timbre descrever Histórias relatadas por outrém no blogue, no entanto, não resisto a contar esta que me foi enviada por mail:

O menino do restaurante
Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, porque queria aproveitar os poucos minutos que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns bugs de programação num sistema que estava a desenvolver, além de planear a minha viagem de férias, coisa que há tempos que não sei o que são. Pedi um filete de salmão com alcaparras em manteiga, uma salada e um sumo de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é regime não é?
Abri o meu portátil e apanhei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim:
- Senhor, não tem umas moedinhas?
- Não tenho, menino.
- Só uma moedinha para comprar um pão.
- Está bem, eu compro um.
Para variar, a minha caixa de entrada está cheia de e-mail.
Fico distraído a ver poesias, as formatações lindas, rindo com as piadas malucas.
Ah! Essa música leva-me até Londres e às boas lembranças de tempos áureos.
- Senhor, peça para colocar margarina e queijo.
Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali.
- Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito ocupado, está bem?
Chega a minha refeição e com ela o meu mal-estar. Faço o pedido do menino, e o empregado pergunta-me se quero que mande o menino ir embora.
O peso na consciência, impede-me de o dizer.
Digo que está tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e, mais uma refeição decente para ele.
Então sentou-se à minha frente e perguntou:
- Senhor o que está fazer?
- Estou a ler uns e-mail.
- O que são e-mail?
- São mensagens electrónicas mandadas por pessoas via Internet (sabia que ele não ia entender nada, mas, a título de livrar-me de questionários desses):
- É como se fosse uma carta, só que via Internet.
- Senhor você tem Internet?
- Tenho sim, essencial no mundo de hoje.
- O que é Internet ?
- É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo no mundo virtual.
- E o que é virtual?
Resolvo dar uma explicação simplificada, sabendo com certeza que ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, sem culpas.
- Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar, apanhar, pegar... é lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer.
Criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse.
- Que bom isso. Gostei!
- Menino, entendeste o significado da palavra virtual?
- Sim, também vivo neste mundo virtual.
- Tens computador?! - Exclamo eu!!!
- Não, mas o meu mundo também é vivido dessa maneira...Virtual.
A minha mãe fica todo dia fora, chega muito tarde, quase não a vejo, enquanto eu fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a chorar de fome e eu dou-lhe água para ele pensar que é sopa, a minha irmã mais velha sai todo dia também, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, porque ela volta sempre com o corpo, o meu pai está na cadeia há muito tempo, mas imagino sempre a nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos de natal e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia.
Isto é virtual não é senhor???
Fechei o portátil, mas não fui a tempo de impedir que as lágrimas caíssem sobre o teclado.
Esperei que o menino acabasse de literalmente 'devorar' o prato dele, paguei, e dei-lhe o troco, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um
'Brigado senhor, você é muito simpático!'.
Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel nos rodeia de verdade e fazemos de conta que não percebemos!

É por estas situações que concluímos que grande parte das nossas incertezas e problemas são irrelevantes!!!