sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Sol da Liberdade

Ainda mal nascia o sol e já Maria da Conceição subia a rua, com o pescoço aninhado pela carga do molho que levava à cabeça. Hoje sentia-se particularmente mais fraca e as pernas tremiam-lhe quando os paus que carregava riscavam as paredes por onde vagueava.


Era Outubro e as primeiras chuvas espreitavam bem lá do alto. Maria olhava para o céu, calculava o tempo que ainda lhe restava e acelerava o passo. Aquele maldito molho de lenha enxuta mal a deixava respirar.

Maria, a Forneira, como todos a conheciam por aquelas bandas das Beiras, tinha pouco mais de vinte anos e desde que se lembra sempre vivera assim. Órfã de nascença da mãe, mal tivera tempo para conhecer o pai: pouco depois de ter concluído o Exame da quarta classe, chegou-lhe a notícia da morte do progenitor, num maldito fogo que queimou quase toda a serração. Hoje, como ontem, para sobreviver, Maria cozia pão para a aldeia. Vai daí, todos a chamavam Maria, a Forneira; e não havia expressão de maior solidão.

Enquanto aluna, Maria sempre se distinguira dos demais. Lá na aldeia, onde os próprios rostos espelham o congelamento do tempo, ninguém sabia o que significava ser pobre, pois também ninguém conhecia o sabor da riqueza. Pela manhã, quando os meninos chegavam à Escola com as roupas esfarrapadas e os pés feridos pelas pedras da calçada todos pensavam tratar-se de uma situação normal. E todos percebiam muito bem o som que fica no estômago depois de semanas a enganar a fome.

Naquelas remotas fragas perdidas da memória dos próprios deuses, ninguém estranhava a cor da miséria. Ninguém, à excepção da Dona Isaura, professora primária que, apesar das várias décadas no magistério, nunca se conformara. Ao fim-de-

-semana, quando a Escola se fechava no silêncio do desocupado, abria as portas da própria casa para abrigar aquelas pobres almas do diabo, que mais não fosse para lhes dar uma côdea de pão ou um copo de leite quente. Em troca – convencia sempre os pais e todos os meninos que ali havia mesmo uma troca – pedia-lhes que fossem buscar cântaros de água: de manhã, à tarde e à noite. Depois, quando os meninos e as meninas, com a rodilha na cabeça, chegavam à cozinha com a água, agradecia-lhes e ia despejá-la, para que lá em casa houvesse sempre motivo que justificasse o trabalho dos mais novos. Passaram assim tantas décadas e nunca ninguém se perguntou sobre o que fazia, afinal, Dona Isaura a tanta água que os seus alunos iam buscar à Carreira!

Três meses antes do Exame Final da quarta classe, que tantas voltas provocava nos intestinos da rapaziada, as portas da casa da docente abriam-se com uma regularidade ainda maior. Quase todos os dias, depois das aulas, às vezes até perto da meia-noite, as portas escancaravam-se e era uma roda-viva que nem dava para acreditar. Uns chegavam às oito da noite, outros às dez, outros mesmo às onze… e a todos, Dona Isaura, depois de ouvir o habitual: “Dá-me licença senhora professora?”, a todos, Dona Isaura começava por perguntar se já tinham comido.

Maria nunca chegava antes das onze. Mas vinha sempre. A ofegar, de tanto correr, às vezes até parecia que o cabelo se lhe ia soltar da cabeça, pois vinha todo no ar, sempre a esvoaçar. Dona Isaura ouvia os passos daquela menina, ainda bem ao longe, e depois ficava a aguardar que o portão batesse e de imediato ecoasse pela sua alma aquela voz suave. Rígida e implacável por fora, a piedosa Mestre chorava prolongadamente por dentro quando Maria se sentava, para comer e depois estudar.

Em trinta e tal anos de ensino, com turmas de quarenta cabeças, sempre separadas pelo sexo, a Mestre nunca vira uma aluna com tais capacidades. Ditava-lhe contas de somar, subtrair e multiplicar que para todos os outros dariam para uma semana e a pequena discípula despachava-as numa hora. Algumas, ainda a Mestre estava a ditá-las e já Maria as resolvia prontamente. A professora repreendia-a imediatamente, exigia-lhe que escrevesse, que apresentasse todos os cálculos e, depois de conseguir confirmar mentalmente a validade da resposta que a discípula lhe dera, ficava a matutar como conseguiria o raio da miúda fazer contas que ela própria…

Maria nunca tivera um livro em casa. Um sábado, bem pela manhã, Dona Isaura foi à livraria central do concelho e comprou de uma assentada três volumosas antologias de contos, uma resma de folhas, uma caneta de tinta permanente e um tinteiro. Mais tarde, já em casa, aguardou ansiosamente a chegada de todos os seus meninos e, em especial, da melhor aluna que algum dia lhe havia passado pelas mãos. Estava mesmo decidida a fazer daquela menina o que todos os outros nunca poderiam ser.

Nesse mesmo dia, todos chegaram às explicações suplementares como depois partiram; de mansinho. Já passava da meia-noite quando Maria se preparava para sair, após uma hora de intenso e exigente estudo. Então, num raro gesto de afecto transparente aos olhos, a velha Mestre da escola epicurista puxou a menina para os seus braços, como se fosse a filha que nunca gerou, e num tom doce disse-lhe:

– Hoje fui à sede do concelho, onde daqui a dois meses irás fazer Exame, e comprei-te uma prenda. – Maria olhava embevecida o rosto daquela pobre mulher. Na verdade, não sabia o que era uma prenda e tão-só conhecia o sabor de uma mão de mãe entrelaçada na sua.

– Tens aqui três livros, que reúnem vários contos de alguns dos melhores escritores do mundo. Comprei-te papel, uma caneta e tinta. A melhor forma que tens para agradecer-me é ler todos os livros, uma e outra vez. E depois escreveres, escreveres e vires a correr mostrar-me. Prometes? Prometes?

Maria embalou nas mãos aquela inesperada oferenda dos deuses e depois de muito agradecer saiu a correr. Já pela calçada, as lágrimas tombaram-lhe, como uma torrente interminável. Apenas quando chegou a casa e os olhos lhe caíram na lombada daqueles três tesouros é que a alma se tranquilizou e pôde enfim deixar de soluçar.

Nessa noite, logo pela madrugada, como já era habitual, o pai chamou-a para descer. Precisava que fosse buscar o molho de lenha às matas, para mais logo fazer a comida e cozer o pão no forno. Todos os dias, de manhã e à noite, a menina saía para arranjar madeira seca.

Maria, a Forneira, desceu, despediu-se do pai com um beijo na testa, viu-lhe as mãos queimadas pelo frio da serra e a barba cada vez mais cerrada pela cor da neve e correu para a lenha. Em breve, quando ainda o sol mal se espreguiçava lá ao fundo já Maria subia a rua do Cimo do Povo, com um grande molho de lenha na cabeça, tão grande que quem a avistasse à distância até poderia pensar que o molho avançava por magia. Quando chegou a casa, foi arrumar o fruto da sua colheita na floresta, varreu o chão de terra e lançou uns canuchos (os citadinos insistem em chamar-lhe palha de milho…) ao burro e às duas cabras que estavam na loja, mesmo por baixo do seu quarto. Depois, foi a correr ao quarto, pegou num monte de folhas e saiu, novamente a voar.

Meia hora depois e Maria estava a pedir licença para entrar no salão nobre da Escola, a tão desejada sala da quarta classe. Quando se sentou, as pernas tremiam-lhe de tanta alegria. Naquela menina, o cansaço não entrava e nem mesmo a fome a podia impedir de sorrir.

Chegou a hora do intervalo e Maria ficou, como era habitual, no seu lugar. Quando os outros partiam para brincar, Maria continuava a ler, a escrever e a contar. Nunca ninguém a ensinara a brincar.

Depois, a Mestre aproximou-se e a menina estendeu-lhe um conjunto de folhas inundadas por letras cuidadosamente arredondadas. Incrédula, a velha professora exclamou:

– Não me digas que passaste a noite a ler e a escrever? Mas não saíste cedo para ir buscar lenha?

– Sim, saí. – Disse a pequenina, com medo de ter cometido algum erro grave que enervasse a sua professora.

– Como conseguiste tu ler durante a noite se não tens luz em casa?

– Acendia carqueja seca e a luz dava-me para ler uma página. Depois, imaginava o que ia escrever e quando voltava a incendiar a carqueja era só escrever, muito, muito rapidamente…

– E não te deu o sono, minha princesa? – Retorquiu a Mestre, quase a chorar.

– Sim, minha senhora. Mas eu levei uma bacia com água fria para junto de mim e, quando me dava vontade de dormir, colocava os pés lá dentro e assim as pestanas ficavam sempre abertas. A minha senhora não me leva a mal, pois não? É que eu queria mesmo ler tudo e escrever; escrever muito…

A pobre professora trincava a língua o mais duramente que conseguia. Tantos anos a aturar rostos travessos que mal sabiam ler e escrever e, no final de carreira, os seus conselhos de uma vida reencarnavam ali mesmo à sua frente no rosto de uma moçoila nascida no meio das fragas; o verbo fizera-se sangue, a escassos metros da sua presença. Como era possível que a filha do tio Zé Arnaldo, um desgraçado de um serralheiro analfabeto, conseguisse ascender a um tal patamar do conhecimento? Como era aquilo possível? Que desígnios teriam os deuses para aquela menina?

Naquele dia, quando as outras catraias entraram na sala, a Mestre abandonara o leme, sentara-se do outro lado e pedira à discípula que ensinasse às suas colegas as regras da gramática que ela própria há tantos meses se esforçava, em vão, para ensinar. Ao fim de uma hora, ficou extasiada com a simplicidade daquele génio (como nos esquecemos da dificuldade da simplicidade…). Uma hora depois e já todas as meninas papagueavam os pronomes e os complementos como se fossem a oração mais natural das suas próprias vidas.

Menos de dois meses depois, Dona Isaura levou todas as suas meninas à sede de concelho. No final, todas passaram no Exame, mas só Maria ficou distinta. Fora da sala, as outras gaivotas tinham as mães a aguardá-las para um abraço e a todas reconfortava a ideia de que, chegadas à aldeia, haveria pelo menos um pequeno pão para celebrar um dos momentos mais importantes na vida da comunidade. À saída da sala, apenas Maria estava só, pois àquela hora o seu pai trabalhava e, na verdade, não tinha mais ninguém de família que pudesse esperá-la.

Aquele foi o último ano que Dona Isaura acompanhou os seus alunos a Exame. Pouco depois reformou-se e acabou por morrer sem conseguir que Maria continuasse a estudar. Bem tentou demover o velho serralheiro dizendo-lhe, uma e outra vez, que, ao longo de toda a sua vida, nunca vira nada igual, que na sede de concelho todos os examinadores ficaram estupefactos com o conhecimento daquela menina, mas nada nem ninguém poderia levar aquele homem a compreender que uma mulher também podia estudar e fazer outra coisa diferente daquela que a sua mãe, a sua avó e a sua bisavó toda a vida haviam feito. Nada nem ninguém poderiam fazê-lo. Ainda era cedo, demasiado cedo. E ninguém acelera o que o destino trava, antes de os deuses o entenderem.

Ainda Maria ouvia na sua cabeça o toque do velho sino da Torre a anunciar que os filhos daquelas fragas haviam conseguido aprovação na terra onde até mesmo muitos fidalgos fracassavam, quando soube que a vetusta serração, junto ao cemitério da aldeia, estava a arder. Nesse mesmo dia, vieram dizer-lhe que o seu pai tinha morrido. E Maria, sentindo-se completamente só no mundo, chorou.

Decorria o cortejo fúnebre, Maria já chorava sem lágrimas, e logo começaram as investidas da Madressilva Pérola, reputada casamenteira lá do sítio. Falou-lhe da sua condição de mulher, murmurou-lhe que havia um carpinteiro, filho de uma tal Dona Etelvina, possuidora de algumas terras e várias cabeças de gado. Apontou-lhe a sua condição de profunda solidão e jurou-lhe que aquele matrimónio seria a sua única salvação.

Na verdade, no princípio, Maria nem sequer imaginava aquele verbo – casar. As palavras da carpideira casamenteira entravam-lhe por um ouvido e saíam-lhe por outro a duas mil e tantas léguas à hora. Casar? Não! Aquilo ainda não era para ela. E reconfortava nos braços os três livros que a sua saudosa professora um dia lhe oferecera, para talvez se convencer de que em breve chegaria o seu próprio príncipe encantado.

Mas o tempo consome tantas ilusões. E a fome e o frio podem tanto, tanto! Meio ano depois de perder o pai, quando nunca tinha conhecido a própria mãe, Maria começou a vacilar e, perante a insistência do abutre casamenteiro, anuiu. Que viesse o casamento, ou lá o que isso fosse, pois não existiria pior vida do que aquela, pensava ela, dia após dia. (E ainda há quem diga que as palavras significam sempre o mesmo ao longo da vida…).

Casou-se com David, o carpinteiro, que acabara de herdar a casa da mãe, um rebanho com cem cabeças e umas quantas parcelas de terra, no Vale Pinhoso, ermo localizado a cerca de duas horas de caminho do centro da aldeia. Conheceu-o no dia da cerimónia. Ela acabara de completar doze anos e ele faria vinte, uma semana depois.

A boda foi parca, como não poderia deixar de ser. Arranjaram-lhe um vestido emprestado e uns sapatos alugados. Os padrinhos de David, o carpinteiro, ofereceram a loja da casa e montaram lá uma mesa com uns comes e bebes. Reza a história que depois da cerimónia religiosa, na Igreja Matriz, todos marcharam em romaria para o Jardim, onde tiraram algumas fotografias, que até hoje ninguém parece saber onde param.

Terminada a festa, foram passar a noite no que restava das paredes que pertenceram à mãe de David, o carpinteiro. Ela era uma criança e ele, já um rapaz espigadote, e bem sabido da vida, pelas vezes que o padrinho o levara à casa das meninas, em Viseu, a partir do momento em que completara dezoito anos.

Maria era uma criança. Mal sabia tratar da casa. Nunca ninguém verdadeiramente lhe ensinara a cozinhar, a bordar, a limpar ou muito menos a ser esposa. Durante toda a vida, vivera sozinha com o pai, cada um na sua cama, cada um com a sua vida e, agora, de um momento para o outro, Maria via-se a dormir na cama com um homem que mal conhecia e cujo odor lhe dava vontade de fugir. À noite, dia após dia, David servia-se e depois Maria levantava-se com vontade de vomitar. E desatava a chorar. Mês após mês foi sempre assim. – Maria, a Forneira; à medida que o tempo passava, assumidamente, não havia expressão de maior solidão.

David era forte, estava na força máxima da vida, sentia o sangue a ferver-lhe nas veias e, ao mínimo problema, não hesitava em recorrer ao punho para levar a sua ideia avante. Chegava muitas vezes a casa completamente bêbedo, barafustava pela desarrumação do lar, apontava as camisas rotas, sem botões, a mesa vazia e logo a seguir descarregava toda a sua fúria em Maria.

Quatro anos depois de o inferno ter começado, Maria começou a sentir-se estranha. O seu corpo parecia estar a mudar rapidamente e, inesperadamente, pressentia-se acompanhada, dia e noite; era como se estivesse a ser observada por si própria, a partir do interior. Quando, finalmente, percebeu que estava grávida, baixou tristemente os olhos e correu para David. A resposta decepou-a:

– Se ele for meu tem de nascer dia 19 de Março. – Recomeçou a contar pelos dias e corrigiu: – Não! Se ele for meu tem de nascer dia 21 de Março. Nesse dia, ficas já a saber que vou sair logo pela manhã para a Feira do concelho e chamarei aqui a Tia Arnalda, a Parteira. Quando chegar, de mota, quero uma toalha branca na janela a anunciar o nascimento. Se não estiver lá, mato-te. – E Maria sabia que, bêbedo, ele matava mesmo.

A partir daquele momento, a vida de Maria foi um inferno ainda maior. Cada dia que passava, saía para o mato à procura de lenha para cozer o pão e pelo caminho rezava a Deus e a todos os santos, implorando que o filho nascesse no dia que o seu marido tanto queria. Prometia tudo o que podia e não podia só para que aquele nascimento não se entrelaçasse a uma tragédia. E depois, deixava tudo nas mãos do Divino Espírito Santo.

Chegou o dia 21 de Março. Chovia como se fosse Inverno quando David, o carpinteiro, saiu com a mota, deixando a porta entreaberta, para receber a Parteira. Lá dentro, na cama, Maria continuava a rezar. Até que ao fim do terceiro Pai Nosso, não se sabe se por milagre se por pura coincidência, nasceu mesmo um menino. E a parteira, logo depois de cortar o cordão umbilical, apressou-se a colocar uma toalha branca no parapeito da janela. Lá na aldeia todos conheciam bem o feitio do homem da casa...

Quando David chegou, ficou radiante. Deu um beijo a Maria (talvez o primeiro que alguma vez lhe havia dado) e foi a casa do Zé do Venâncio comprar-lhe uma galinha poedeira e a melhor parte do porco que ele mesmo ajudara a matar no dia anterior. Já em casa, pediu que lhe fizessem uma canja para a mulher e que lhe preparassem uma perna de porco assada na brasa. Naquela noite, Maria, uma criança com outra criança nos braços, sentiu o calor de um lar e sonhou dar a seu marido um homem que o ajudasse a ver-se ao espelho todos os dias pela manhã; e talvez isso o mudasse…

No entanto, pouco a pouco, tudo acabou por regressar à normalidade. David voltou a beber, tornou a bater em Maria, as paredes de tabique dos quartos voltaram a inundar-se de sangue e até o pequenote – chamaram-lhe António – acordava bastas vezes com o barulho dos punhos a enterrarem-se no rosto de sua mãe.

Três anos depois daquele nascimento, fomos encontrar Maria no local onde a abandonámos no preciso momento em que iniciámos esta narração: Ainda mal nascia o sol e já Maria da Conceição subia a rua, com o pescoço aninhado pela carga do molho que levava à cabeça. Hoje sentia-se particularmente mais fraca e as pernas tremiam-lhe quando os paus que carregava riscavam as paredes por onde vagueava. Teria, então, pouco mais de vinte anos.

António não evoluía. Com três anos, mal se mexia, não balbuciava, não emitia um único som perceptível aos ouvidos humanos e apenas a mãe conseguia adivinhar-

-lhe as necessidades pelo intenso choro. Maria sentia-se cada vez mais fraca. A ideia de que fora do seu ventre que nascera uma criança diferente sufocava-a ao ponto de mal conseguir caminhar. Pesava-lhe mil vezes mais do que qualquer molho de paus que carregasse à cabeça.

As gentes da vizinhança, ávidas de malvadez, perguntavam amiúde pelo garoto, e quando o viam quase morto, sem reacção, viravam as costas e escondiam as caras já saciadas. Os juízos chegavam depois, no conforto dos seus próprios lares. E o lume espalhava-se como pólvora: ¬– o filho do carpinteiro, do David, é um aleijadinho. É deficiente.

Mais tarde, quando António atingiu a idade de ir para a Escola, a professora Henriqueta veio inspeccioná-lo e confirmou: – A lei de Santa Comba é bem clara: os deficientes não precisam ir à Escola.

Em casa, a notícia que confirmava a deficiência caíra que nem uma bomba. Um dia, David chegou da rua completamente desorientado. Agarrou Maria por um braço, arrastou-a até ao quarto de António, que estava sentado a um canto do refúgio, e atacou-a:

– Foi para isto que andaste meses a engordar? Tu deste-me um monstro! Todos dizem que eu sou o pai do deficiente. A partir daqui, quero-o fechado em casa, com uma mordaça na boca. Nunca mais sairá à rua. Nunca mais me fará passar vergonha. O melhor era que nunca tivesse nascido. Eu mato-o se o ouvir grunhir.

Maria não respondeu. Ela própria sentia o peso da responsabilidade no ventre. E noite após noite, muito antes daquele monólogo, pressentira o problema do rapaz e perguntara-se, vezes sem conta, que mal seria o seu para dar à luz aquela criança. E olhando António fixamente nos olhos, vendo-o imóvel e inseguro nas suas mantas, Maria odiou profundamente aquele ser que lhe trouxera ainda mais sofrimento. Revoltou-se. Rejeitou-o. Rejeitou-se. E muito tempo depois sepultou-o por dentro. Ironia das ironias, ou não, foi preciso fazer o luto da morte de uma criança normal, ainda por cima que nunca fora pedida aos céus, para depois saber aceitar aquele menino tão diferente. Quando isso aconteceu, Maria jurou cuidar daquele rapaz até ao fim da vida.

António teria talvez seis anos quando viu, pela última vez, a luz do sol. A partir desse momento, Maria passou a despender todo o tempo livre que tinha para cuidar do seu menino, eternamente enclausurado no quarto para ficar protegido; ou talvez para iludir os que o rodeavam. Passaram-se anos e anos e António nunca conseguiu falar. Maria tentou vezes sem conta ensiná-lo a ler, contar e escrever, mas ele nunca aprendeu. Ainda assim, o tempo ajudou-os a ler nos olhos o que não conseguiam dizer em palavras ou números, e isso bastava-lhes. Maria pedia-lhe que ficasse em silêncio, que nunca fizesse qualquer espécie de som quando o pai estivesse em casa. E António olhava-a nos olhos e permanecia enternecedoramente silenciado.

A partir do dia em que David, o carpinteiro, soube que o filho era mesmo deficiente nunca mais quis vê-lo. Vociferou o mais alto que conseguia, por toda a vizinhança e arredores, que o seu filho morrera, que o enterrara no quintal. Na aldeia, todos conheciam o feitio do carpinteiro, mas enterrar o próprio filho no quintal? No início, muitos duvidaram daquela mensagem, sempre dada em tom telegráfico, como era hábito do homem das madeiras, mas, à medida que os anos foram passando, todos se convenceram que o deficiente, como era conhecido, acabara mesmo por falecer.

Muitos anos efectivamente se passaram. António nunca mais saiu do quarto. Quase cegou, quase perdeu a audição e com tanto medo de fazer barulho deixou de fazer qualquer ruído voluntário. A seu lado, Maria, a mãe, nunca o abandonou. Quando estavam juntos ele limitava-se a agarrar-lhe a mão. Nunca conhecera outra alegria. As paredes daquele quarto eram o seu mundo.

Foi nesse mesmo quarto que António ouviu da boca de sua mãe que David, seu pai, tinha morrido. E foi no quarto que passados muitos anos, tantos que eu nem sequer consigo precisar, Maria entrou para dizer ao filho que, lá longe, talvez em Lisboa, tinham feito uma “Revolução dos Cravos” também para que os meninos especiais nunca mais tivessem de passar a vida inteira escondidos do mundo num quarto escuro ou a vaguearem como cães das ruas.

António não sabia o que era uma revolução, nem o que eram cravos, nem talvez compreendesse uma só das palavras que a sua mãe, já tão precocemente velhinha, lhe dizia. E, por isso, estranhou quando Maria da Conceição, a Forneira, o arrastou lá para fora do refúgio, depois para a sala e depois, tantos, tantos anos depois, para a rua.

Lá fora era Primavera. Com a luz do dia a bater-lhe na face, António emitiu um som de dor. Depois, a mãe abraçou-o e lentamente ajudou-o a abrir o que ainda lhe restava dos olhos. Por fim, apontando para o céu, gritou, com todas as forças que tinha:

– Filho! Filho! Olha; é o sol! – E António, que já não se lembrava de ver o sol, olhou para cima, viu aquela bola de fogo e sorriu. Foi o primeiro sorriso que algum dia alguém lhe viu.

Na rua, os mais idosos que passavam, baixavam a cara e silenciosamente choravam. Todos eles sentiam que existem feridas que nunca se fecham; são portas que ainda nos humanizam...

(Dedicado aos atletas paralímpicos e a todas as pessoas com alguma “deficiência”, que todos os dias nos mostram que quase tudo é possível).

Renato Nunes



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Renato Nunes edita livro de poesia

Construir sentidos — assim se intitula o primeiro livro de poesia assinado por Fernando Alva, que, recorde-se, é o pseudónimo adoptado por Renato Nunes, autor de Vila Franca da Beira, concelho de Oliveira do Hospital.


A obra em questão é apresentada como uma antologia de poemas escritos pelo autor, entre os 11 e os 31 anos, e encontra-se à venda, numa edição limitada, na Biblioteca Municipal de Oliveira do Hospital e em várias livrarias/papelarias desta cidade.

Renato Nunes

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A necessidade de repensar o blogue

Seja um leitor, alguém que se digne a ler, pensar e possivelmente comentar merece todo o meu respeito, sendo o aumento da visitas e dos comentários o principal impulsionador deste projecto.

No entanto incumbências da vida,surgimentos de vontades e projectos paralelos provocaram que não fosse disponilizada a atenção devida e merecida ao blogue. Em consequência do decrescer da dinâmica e dos textos publicados peço as minhas desculpas.

Até ao final do corrente ano civil, procurei repensar o blogue tendo o cuidado de promover mais profissionalismo e rigor. Até lá apresentarei textos sempre que entender necesário,  ficando a aguarda  publicações e possíveis sugestões no enquadramento do blogue.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Previsibilidades

Aproxima-se mais um final de contrato. Um ano mais que passou sem que tivesse conseguido acrescentar algo de significativamente importante a uma existência banal cuja única probabilidade séria é a de um arrastamento numa mediocridade social entre o desemprego e, na melhor das hipóteses, o subemprego sorridente.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Um percurso que se sonha vitorioso

Após uma vitória suada mas inteiramente merecida frente à República Checa, Portugal apura-se mais uma vez para uma meia final de um campeonato da Europa. Um feito na minha opinião histórico para um país pequeno, no entanto com um grande potencial no panorama futebolistico, onde tanto a nível de clubes como de seleções nos temos vindo a afirmar.
Portugal pode não passar mais nenhuma eliminatória, esperemos que isso não aconteça, no entanto neste Europeu já deixámos uma imagem clara da humildade, inter-ajuda e trabalho de equipa. Ronaldo sobressai ligeiramente como a estrela maior que ajuda a olear melhor a máquina, no entanto a equipa funciona como um todo. Há quanto tempo isso não acontecia... Parabéns Portugal e acima de tudo Parabéns ao Paulo Bento que está a fazer um excelente trabalho. FORÇA PORTUGAL!!!

terça-feira, 22 de maio de 2012

O segredo da partida (Conto infantil)

Sabes, a história que vou contar-te é muito diferente de todas aquelas que até hoje ouviste. Confesso que nunca a partilhei com ninguém. Serás a primeira pessoa em todo o mundo a ouvir estas palavras e, por isso, vou fazer-te um pedido muito importante. Antes de mais, quero que te sentes ao lado das duas pessoas mais especiais da tua vida e que leias em voz alta este segredo. És capaz de fazer isso por mim, não és?

            Nunca te disseram, mas no jardim da tua casa apareceu, há alguns anos atrás, um gato muito amarelo, mais amarelo ainda que o próprio sol. Esse gato, que todos chamavam Pico, tinha uma cauda enorme, duas patinhas rechonchudas e uns bigodes afiados. Quando alguém o chamava, arrebitava a orelha direita, espreguiçava cada uma das patinhas e só depois, tranquilamente, decidia avançar. Quem conseguiu estar perto dele jurou-me que nunca tinha visto uns olhos assim; uns olhos que até falavam, ainda que com outras palavras…

            Como sabes, bem no meio do oceano Atlântico existe uma grande fatia de terra, rodeada de água por todos os lados. A essa fatia de terra os crescidos chamam ilha do Pico, não porque ela pique as pessoas que por aí passam, mas porque lá existe uma montanha muito alta. Vê bem, é a montanha mais alta de Portugal e, até hoje, poucos homens conseguiram ficar muito tempo lá em cima. Há quem diga que a montanha, assim que vê chegar alguém, enrola-se num denso nevoeiro e começa a gemer tão alto, que quase todos são obrigados a descer rapidamente. Ainda hoje, naquela ilha, se diz que é possível ouvir esse som, quando algum intruso se aproxima. E, acredita em mim, já muitos tentaram subir à montanha mais alta de Portugal…

            Entre os muitos que desejaram chegar lá mesmo em cima está o Micha – um pastor que, durante vários anos, apascentou as suas ovelhas nos terrenos do sopé da montanha. Micha era grande, tinha crescido a ouvir a música que descia do cume e poucos conheciam como ele os segredos das alturas.

            Durante anos e anos, Micha guiara o seu rebanho pelos trilhos que conduziam à montanha, sem nunca ter a tentação de desafiá-la e invadi-la. Um dia, porém, quando estava na taberna da vila, um homem tentou-o:

            “– Ouve lá, Micha! Aposto tudo o que queiras que nem tu mesmo és capaz de subir ao ponto mais alto do Pico e passar lá a noite.”

            No início, o pastor quase nem reparou naquele desafio. Limitou-se a sorrir, enquanto baixava a cabeça. Respeitava muito a montanha e não seria um simples tolo a convencê-lo a subir lá em cima. O homem, no entanto, não desistiu e voltou à carga:

            “– Não ouviste o que te disse? Pois olha. Eu estava mesmo disposto a apostar contigo quinhentas moedas como nem tu próprio consegues. Ouvi dizer que tens a mulher doente no hospital da Horta. Se calhar dava-te jeito. Mas deixa lá. Não és capaz e ponto final.”

             Micha tinha realmente a mulher muito doente. E aquelas moedas davam-lhe mesmo jeito. Agora, que era pai, aquelas palavras batiam-lhe ainda mais no fundo do coração. Fitou o tolo com muita atenção nos olhos e disse-lhe:

            “– Qual é, afinal, o teu interesse em ver-me subir à montanha? Ganhas alguma coisa com isso? Que eu consiga ou não chegar lá mesmo ao topo, é uma coisa que não te diz respeito. Guarda as tuas moedas.” – e, dito isto, ficou a olhar para um pardal que ora ajeitava as penas, ora saltitava de rocha em rocha. Por breves momentos, aquele passarinho transportou-o para outro lugar ligado à sua infância; lá, onde também se fala português, o saltitão é conhecido por tchota. Curioso, não é! Mas o arco-íris só é belo porque tem muitas cores – já tinhas pensado nisso?

            Micha saiu então para a rua. Começara a escurecer e lá bem no alto apareciam as primeiras estrelas. Atrás dele seguiu rapidamente o tolo. Ele não desistia facilmente:

            “– Apostei duas mil moedas com o Doutor Xabegras da Madalena, como nem tu lá ias acima. Por isso, vê bem, se tentares e falhares eu ganho a aposta e, como recompensa, ainda te dou quinhentas moedas. É pegar ou largar, agora!”

            “– E imagina que eu consigo mesmo chegar lá em cima…”

            “– Nesse caso, ainda seria melhor para ti. O Doutor Xabegras prometeu entregar-te o dobro do que eu iria dar-te. Pediu-me que te convencesse a aceitar… na Madalena há muitos curiosos em saber se tu consegues ou não. À noite, nas tabernas, não se fala de outra coisa senão do grande espírito da montanha e daqueles que ainda poderão vencê-lo.”

            Micha franziu a testa ao ouvir aquelas palavras. “Pobres tolos se pensam que alguém pode vencer a montanha. Como estão tão enganados…” – pensou para os seus próprios botões, enquanto lhe passava pela cabeça a imagem do seu novo rebento, a pedir-lhe comida: Papá, tenho fome… dás-me comida, não dás??

            Naquela noite, Micha quase não dormiu. A montanha parecia estar dentro do seu próprio quarto e por vezes teve mesmo a impressão de ouvir a voz das alturas a pedir-
-lhe para não aceitar aquele desafio. A dizer-lhe que não precisava daquelas malvadas moedas; que a sua mulher iria melhorar; que a sua mesa voltaria a ficar cheiinha de comidinhas boas e que nunca mais teria de chorar, enquanto ouvia aquela frase: Papá, tenho fome… dás-me comida, não dás??

            Quando amanheceu, Micha rezou muito e depois correu em direcção à vila, para aceitar a aposta. Que fosse o que Deus quisesse, concluiu. Assim que chegou à taberna, viu o Doutor Xabregas, já à sua espera; parece que o espírito da noite lhe tinha anunciado aquela decisão e ele próprio resolvera vir da Madalena para confirmar a audácia do pastor. Sentaram-se e voltaram a levantar-se sem reparar que em cima da desgastada mesa restava ainda uma taça de café, já abandonada…

            No final, ficou acordado que, nesse mesmo dia, Micha iria avançar. Começou a preparar-se ainda durante a quarta hora, nome pelo qual os monges da Idade Média conheciam o período das dez horas da manhã. Agarrou num saco, colocou lá dentro um pedaço de pão seco, com duas azeitonas e, sem mais demoras, caminhou rapidamente até ao cume. Conhecia aqueles carreiros como quem distingue as linhas da palma das mãos e, por isso, não levou muito tempo a chegar até ao piquinho da montanha. Tinham combinado que assim que ele vencesse as alturas colocaria um facho a arder, para que, logo à noitinha, em toda a ilha se soubesse que o pastor Micha tinha conseguido ultrapassar o que todos temiam.

            Ainda não era escuro e já o facho ardia, bem lá no pontinho mais alto de todo o Portugal. Puxou do saco que levava e começou a roer o pão seco, que ia misturando com as azeitonas guardadas. Depois, aconchegou-se o mais que pôde com a esfarrapada samarra que trazia vestida e adormeceu. Lá em baixo, poucos poderiam sequer imaginar aquela paz interior que invadira o pastor.

            Porém, por volta das três horas da madrugada, Micha foi inesperadamente acordado por uma voz que parecia vir do interior da própria montanha, cada vez mais protegida por um denso manto de nevoeiro. Aquela frase nunca mais o abandonaria:

            Ganhaste as moedas, mas perderás bem mais”…

            Assustado, Micha ajoelhou-se e rezou muito, como nunca tinha rezado.   

            Pediu então a Deus que não lhe levasse ainda a sua mulher, a sua Tina, pois não conseguia imaginar a vida sem aquela flor. Chorou, chorou tão alto que, por momentos, conseguiu até fazer calar a voz da montanha que pareceu, ela própria, ter ficado comovida com todo aquele sofrimento. Depois, ainda com as lágrimas a escorrerem-lhe pela face, correu pela montanha abaixo, o mais rapidamente que lhe permitiam as suas já frágeis pernas. Tinha quase 50 anos.

            Quando tomou das mãos do Doutor Xabegras as mil moedas a que tinha direito, foi recebido no meio de grandes aplausos e gritaria, como se de um autêntico herói se tratasse. Então, sem que ninguém se apercebesse, voltou-se para a montanha e viu que o Facho que lá tinha colocado já estava apagado.

            Com o dinheiro nas mãos, correu à mercearia da freguesia e comprou tudo o que precisava em casa. Tinha jurado que não mais voltaria a ouvir aquele Papá, tenho fome… dás-me comida, não dás??        Depois, já com a barriga cheia e o seu mais tenro rebento deitado na cama, apanhou o barco, atravessou o agitado canal e foi ao Faial. Inesperadamente, a sua mulher tinha ficado melhor e alguns dias depois estaria já em casa, completamente recomposta da doença, que quase a levara para junto de Deus. As suas preces foram ouvidas pela montanha, pensou Micha, aliviado. Era como se lhe tivessem tirado um peso do coração.

            Alguns anos se passaram depois deste episódio que, a pouco e pouco, foi sendo esquecido pelos habitantes do Pico (o ser humano tem a proeza de conseguir esquecer quase, quase tudo). Até que um dia, quando já a tarde se preparava para desaparecer, rebentou uma notícia que rapidamente atravessou todas as freguesias da ilha: a filha mais nova do Micha tinha desaparecido no meio da montanha – há já algumas horas que o pai a procurava desesperadamente e nem sequer um rasto apanhava.

            Começou então a dizer-se, por todo o lado, que a montanha se tinha vingado da ousadia do pastor, que mais tarde ou mais cedo ninguém escapava à sua maldição e que, nessa manhã, o espírito das alturas voltara a gritar, como já não o fazia desde aquela longínqua noite.

            Castigo ou não, a verdade é que a menina nunca mais aparecia. Passaram-se dias e dias, tantos que nem eu te posso contar. Micha ficou cada vez mais velho, tão velho que já mal conseguia ver. A tristeza de Micha tornara-se tão grande que passava o tempo fechado em casa, ao lado da sua mulher, de cabelos cada vez mais brancos e compridos, a tocarem o que ainda restava de um rosto já queimado pela vida.

            Um dia de Outono, apareceu-lhes em casa um gato amarelo, que não parava de ronronar; estava cheio de fome. Ao ver aquele bichano completamente abandonado, Micha comoveu-se e deitou-lhe uma bela tigela de leite com pedaços de pão. Há já muito tempo que aquela malga, colorida com estrelinhas, não era utilizada e, ao agarrá-
-la, o pastor sentiu um arrepio a invadi-lo por dentro. Depois, o gato foi ficando, ficando, até que se tornou um membro da família. Quando estava triste, Micha aninhava-o no seu colo, fazia-lhe festas e contava-lhe muitas vezes a história da montanha. As suas lágrimas eram ainda tão intensas que, segundo se diz, eram suficientes para lavar o pêlo, cada dia mais macio do bichano. Chamava-se Pico e os seus olhos pareciam falar, ainda que com outras palavras, lembras-te?

            Um dia, bem pela manhã, depois de lamber a malga de leite, o bichano olhou mais demoradamente para Micha, como que a querer dizer-lhe alguma coisa e, esfregando lentamente os bigodes, partiu, para nunca mais voltar. Lá na ilha, há ainda hoje quem diga que ele subiu ao topo da montanha e deixou depois regressar a menina para junto dos seus pais, sacrificando a própria liberdade para toda a eternidade.

            Sabes, na ilha todos acreditam que essa criança, que hoje já cresceu, és tu. Foi o gato amarelo, mais amarelo que o próprio sol, que partiu para te salvar e te devolveu àqueles que, agora mesmo, estão junto a ti, a embalar-te as mãos. Sabes, há muitas pessoas que, às vezes, têm de partir, para que outras possam chegar… Esse gato, o Pico, tal como o teu avô, partiram para te trazer até junto de nós.

            Até o Sol tem, todos os dias, de embarcar para deixar a lua chegar…

            Agora dorme, meu amor.
Renato Nunes

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Vicissitudes

A vida é curta e breve. Felizmente consegui mais um emprego num colégio, desta vez em A-dos-Francos (Caldas da Rainha). Com o rebuliço do trabalho nem me apercebo que já passaram 3 semanas. Uma das coisas que aprendi na eternidade de tempo que estive no desemprego é a dar um valor diferente às conquistas. Apesar da brevidade de mais este contrato,tento numa aprendizagem constante absorver mais esta experiência. Vamos ver até quanto tempo dura, a vida é uma incerteza, no entanto é bom termos a certeza que trabalhamos amanhã.

Coisas tristes

A morte de um grande e talentoso senhor.

Sons

Um grande tema de um grande grupo.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Heróis

Ao pensar nos resultados eleitorais gregos e, em particular naqueles que não votaram troika, ocorreu-me isto. Heróis por um dia, talvez pudessem ser...

http://www.youtube.com/watch?v=Tgcc5V9Hu3g&ob=av2n

quarta-feira, 25 de abril de 2012

48


No longínquo mês de Setembro aquando da minha passagem pela festa do Avante, onde pude compartilhar uma variedade imensa de ofertas culturais, parei ocasionalmente, durante alguns minutos, num anfiteatro onde passava um documentário. Observei uma atenção invulgar das pessoas à medida que íam vendo rostos e ouvindo testemunhos que transpareciam através das rugas a dureza vivida durante o Estado Novo e a repressão sentida na pele. Sentei-me e ouvi. Olhei fixamente as faces que passavam, ouvindo a voz do seu discurso, arrepiei-me com a sua experiência de vida.

Uma experiência que me marcou, pois saí daquele espaço com a intenção de conseguir adquirir aquele precioso testemunho. Adquiri-o ontem, num quiosque através do jornal público.

Este documentário é um retrato lúcido e rude do que foi o Regime do Estado Novo. Todos o deviam ver nem que seja a espaços como foi o meu caso, pois, principalmente quem nasceu e viveu com a liberdade, passará certamente a dar-lhe mais valor.

Um suspiro pela Liberdade

Actulamente encontro-me a ler o livro de José Saramago "Ensaio sobre a lucidez", um livro brilhante, que retrata as mutações políticas inerentes à manifestação de descontentamento do povo, através o voto em branco e as consequentes reacções menos democráticas dos governantes perante toda esta situação.

A democracia é um conceito com vários significados podendo ser usado e conduzido de diferentes formas consoante o seu objectivo. Actualmente vivemos uma situação em que a democracia não se presencia, pois todas as decisões são tomadas sem tomar em conta a opinião do povo, sendo que quando este pretende dar a entender a sua indignação, procedem pelo caminho mais fácil, ignoram ou humilham batendo, como aconteceu na recente manifestação.

Sente-se medo de se dizer e escrever o que se pensa, com receio de retaliações, de se perder o emprego, a estabilidade social e económica. Uma época dificil vivida por nós portugueses, habitantes do Mundo.

As opções de Mário Soares e Manuel Alegre de não marcarem, hoje presença nas comemorações do 25 de Abril, é um sinal que não estamos a caminhar pelo caminho certo.

No dia da Liberdade clamo aos políticos do meu país que apresentam na sua lapela a bandeira de Portugal, que pensem, de uma forma mais holística e não se restrijam, às limitações impostas por eles mesmos e por uma política externa demasiado dogmática e pouco realistica. Peço que tenham em conta a capacidade de luta e a tenacidade desta gente que Adora o seu país e fará tudo para o tirar da situação difícil que está. Deixem pensar e expressar um povo que resistiu a muitos anos de ditadura e repressão, não limitem os seus ambiciosos horizontes,  ouçam, dialoguem, pois dessa forma tudo será mais fácil.

Um dia com sentido

Diferente, sem alguns dos justamente e indefectíveis democratas nas comemorações mas com os cínicos e hipócritas em destaque. Eles que sempre quiseram acabar com a evocação do fim da ditadura.

Isto vai mal, mas não foi por causa deste senhor:


Não sei o que pensaria dos dias que temos, mas a culpa não foi de quem sempre ocupou o seu lugar com dignidade. Como ele. Obrigado, Capitão.



P.S. O 25 de Abril também se fez contra a arbitariedade bruta da autoridade. Ora, em tempos de crise e de alguma (pouquíssima) agitação social, as autoridades policiais têm mostrado o músculo e o bastão a não meliantes. Desde as manifs em frente à AR, no Rossio, os agentes infiltrados e, agora, a indigna actuação da PSP no Porto, contra a ES.COL.A. E dizem os mediáticos e regiamente pagos comentadores de impecável fato e penteado fancy que deixou de fazer sentido comemorar o 25 de Abril? Só se for pelo abastardamento austeritário do regime... ou deles...

terça-feira, 24 de abril de 2012

Notícias tristes

Morreu Miguel Portas. Um deputado ao Parlamento Europeu sério, empenhado nos valores de esquerda e da resolução desta miserável crise que nos aperta.

Curiosamente nasceu no dia 1 de Maio e faleceu no dia 24 de Abril... Coisas madrastas.

Obrigado por tudo.

sábado, 21 de abril de 2012

A pessoa com “deficiência” durante o Estado Novo

No ano em que se completam 38 anos da “Revolução dos Cravos”, importa recordar que ainda existem significativas áreas temáticas por desbravar em relação ao Estado Novo (1933-1974), por exemplo no que se refere à situação da pessoa “deficiente” durante aquele período. Afinal, que representações veiculava/silenciava o regime português sobre a pessoa considerada “deficiente”? Qual a acção da censura sobre os textos que, de algum modo, se relacionassem com a problemática em causa? Que analogias se poderão (ou não) estabelecer, neste caso concreto, entre Salazar, Mussolini, Hitler ou Franco?
            Como escreveu Susana Bastos, em vários momentos do Estado Novo, as pessoas consideradas como tendo “deficiência” chegaram, em certa medida, a ser equiparadas “aos opositores políticos do regime e, por isso, como eles encarcerados”, sem que, no entanto, depois do 25 de Abril se tenham feito as devidas referências a esse facto (Bastos, Susana Pereira. 1997. O Estado Novo e os Seus Vadios. Contribuição para o Estudo das Identidades Marginais e da Sua Repressão. Lisboa: Publicações Dom Quixote p. 375). Também por isso, no mês da “Revolução dos Capitães”, pareceu-nos oportuno partilhar aqui com o leitor (numa versão necessariamente sumária) algumas das reflexões que temos vindo a desenvolver sobre esta temática.
            Já lá vão, aproximadamente, 51 anos. Corria o dia 25 de Abril de 1961, em pleno Estado Novo salazarista, quando o jornal O Século tentou publicar uma notícia com o seguinte título – “Trucidada por um comboio uma doente mental”. Consequência: o censor cortou, com o “lápis azul”, a expressão “uma doente mental” e o artigo foi proibido (ANTT – Arquivo de “O Século”, Cortes de Censura, Data: 1961, Janeiro a Março; Cx. 195, M.ºs 247). Seria este corte uma excepção ou faria parte da regra “salazarista” eliminar determinadas notícias que abordassem a questão da “deficiência”? Eis a dúvida que imediatamente nos assolou quando, pela primeira vez, contactámos com a fonte agora citada e que procuraremos dissipar, na medida do possível, ao longo deste texto.  
            De um modo geral, e pese embora o perigo das sínteses redutoras (a História é multicolor e assaz complexa…), poderemos afirmar que o Estado Novo português preconizou, pelo menos até aos anos 50, um modelo de intervenção perante a pessoa com “deficiência” que passava, grosso modo, pelo seu internamento em instituições. Esta situação integrava-se, afinal, numa estratégia mais ampla de ocultar/silenciar todos os aspectos que, em certa medida, comprometessem a imagem do país (leia-se, da “Situação”), daí a “construção do estatuto marginal do vadio” e seus afins, o que incluía, por exemplo, os “deficientes mentais” (Bastos, 1997, p. 372). Era, afinal, a materialização da célebre “Política do Espírito”…
            Susana Bastos menciona que, entre 1933 a 1951, o Estado Novo procurou instaurar o modelo institucional e entre 1952 a 1974 assistiu-se à desestruturação do modelo institucional (sobretudo, do ponto de vista ideológico/conceptual, acrescentado da nossa responsabilidade). A referida investigadora, que estudou o Albergue da Mitra, durante o Estado Novo, destinado pelo regime a internar (e esconder…) os vadios e os seus equiparados, concluiu que, pelo menos até 1951, o albergue “acolhia um número considerável de doentes mentais, mas não lhes proporcionava qualquer vigilância e tratamento psiquiátricos” (Bastos, 1997, p. 216), sendo que, ainda segundo a autora, na época era muito comum a ligação estreita da vadiagem e da mendicidade à alienação mental (bem como o inverso).
            No que diz respeito a 1959, Susana Bastos alerta-nos para a admissão de doentes mentais em instituições policiais, sem qualquer preocupação do ponto de vista dos cuidados do foro psiquiátrico” (Bastos, 1997, p. 271). Assim, “encerrando tais personagens em instituições totais, exilando-os do espaço público, o regime, ao mesmo tempo que exorcizava certos medos, escondia as suas imperfeições dos olhos nacionais e de estrangeiros” (Bastos, 1997, p. 59).
            Por isso, o corte do “lápis azul” ao artigo que o jornal O Século procurou publicar, no dia 25 de Abril de 1961, não foi uma excepção! Isabel Forte, que estudou a censura salazarista ao Jornal de Notícias, recorda-nos que a expressão “alienação mental” constituía um dos termos que o “lápis azul” se encarregava de eliminar (Forte, Isabel. 2000. A Censura de Salazar no Jornal de Notícias. Coimbra: MinervaCoimbra, p. 83), facto que, naturalmente, acrescentado da nossa responsabilidade, levava os jornalistas e, de um modo mais vasto, todos aqueles que escreviam a pensarem bem antes de o fazerem (prática da autocensura).
            Através do nosso contacto com os Arquivos da Censura, afigura-se-nos possível levantar a hipótese segundo a qual a acção dos censores perante os textos analisados seria diferente consoante o tipo de “deficiência” descrita. Só isso justifica, aliás, que no dia 25 de Abril de 1961 o jornal O Século tenha conseguido publicar na íntegra a seguinte notícia: ““Bebeu de mais e vibrou duas facadas num mudo. Sambade, 24 – Devido aos vapores do vinho que ingerira, António Lamas, de 30 anos, casado, jornaleiro, vibrou no mudo Armando Carrega, de 32 anos, solteiro, duas facadas, que lhe produziram graves ferimentos na cabeça. O Armando, que é pessoa inofensiva, foi socorrido por um médico. O agressor é useiro e vezeiro em tais proezas” (ANTT – Arquivo de “O Século”, Cortes de Censura, Data: 1961, Janeiro a Março; Cx. 195, M.ºs 247).
            Já no que diz respeito a problemas do foro mental, reforce-se, o “lápis azul” parece ter sido implacável. Para o demonstrar transcrevemos de seguida duas provas de censura, que integram um corpo mais vasto de instruções telefónicas, transmitidas pelos censores ao jornalista Manuel Ramos, entre 1956 e 1966, que trabalhava no Jornal de Notícias: “Louco que em Évora se feriu com uma faca – Cortar; […] Louco desaparecido na Foz do Tua, não dizer em título que se trata de um doido” (Forte, 2000, p. 89). O referido jornalista, em jeito de comentário às instruções citadas anteriormente, deixou-nos a seguinte reflexão: “Loucos não havia. Eram suicídios, loucos e abortos. Nada” (Ramos in Forte, 2000, p. 130).
            Como destaca Humberto Rodrigues, durante a guerra colonial (1961-
-1974), os hospitais militares funcionaram como um refúgio para muitos dos “deficientes” da guerra [recorde-se que, para o Estado Novo “os deficientes eram considerados inválidos – Rodrigues, Humberto Sertório Fonseca (s.d.). Deficientes. http://www.guerracolonial.org/index.php?content=190, p. 2], mas também constituíram “um depósito onde os corpos amputados, os homens em cadeira de rodas ou os cegos tropeçando se mantiveram longe das vistas da sociedade, porque, oficialmente, Portugal não estava em guerra e a sua visibilidade poderia motivar interrogações incómodas para o regime sobre a realidade do que se passava nas frentes de combate”.
            Analisar o que se escreveu, mas também o que foi silenciado/censurado, pode, talvez, ajudar-nos a compreender não só a realidade da pessoa com “deficiência” durante o Estado Novo e o próprio regime em si, mas também alguns dos bloqueios que ainda hoje persistem, em relação a esta temática.
            Se o nascimento de uma criança “diferente” (leia-se especial) continua a ser associado, na actualidade, a uma multiplicidade de sentimentos (sofrimento, exclusão, revolta…), a verdade é que o contacto com as fontes e a revisão da literatura que temos vindo a desenvolver ajudou-nos a percepcionar algumas das diferenças que, neste caso concreto, existem entre o passado da ditadura e o período posterior à “Revolução dos Cravos”. Eis, afinal, outra das portas que Abril também abriu e que importará continuar, diariamente, a abrir…
Renato Nunes

sexta-feira, 13 de abril de 2012

As convulsões da educação

As medidas do governo surgem em catadupa, quando estamos a ingerir e perceber uma medida, surge logo outra no seu incalce, qual delas a pior. A realização das turmas mediante o seu aproveitamento, o aumento dos alunos por turma, os mega agrupamentos são, medidas que progressivamente fragmentam o ensino perdendendo-se qualidade. Com tudo isto sofrem os alunos, que não ficam tão bem preparados, os professores efectivos que lhe são aumentadas as tarefas e os professores contratados que perdem o emprego. No fundo perde o país!!!


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Europa?

Para quem quiser perceber perceber porque é que muitos europeístas deixaram de se rever nessa coisa a que já se chamou projecto europeu é ler este artigo de Viriato Soromenho Marques.
E sobre os seus ecos em Portugal, este de Manuel Maria Carrilho.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Desventuras da minha terra

É difícil acompanhar o ritmo alucinado de absolutos dislates, topetes e fúria anti social deste governo. Ele é a Maternidade Alfredo da Costa, símbolo da saúde neonatal em Portugal - um dos poucos casos de sucesso do nosso país - , ele é o lapso sobre o fim que não o é da suspensão dos subsídios de férias e do Natal, ele é a proibição das reforma antecipadas, ele é o aumento do número de vagas em lares que afinal é amontoar os velhotes: onde dormem dois dormem três, ele é o destroçar dos apoios sociais: subsídio de desemprego, RSI, a baixa por doença, gravidez e etc.

Valente povo que tais arcaísmos liberais tolera...

Encantos da minha terra

Não, não é a loja gourmet situada na rua D. Paio Mendes em Braga. É este som absolutamente magnífico dos Naifa.