terça-feira, 17 de julho de 2012

Previsibilidades

Aproxima-se mais um final de contrato. Um ano mais que passou sem que tivesse conseguido acrescentar algo de significativamente importante a uma existência banal cuja única probabilidade séria é a de um arrastamento numa mediocridade social entre o desemprego e, na melhor das hipóteses, o subemprego sorridente.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Um percurso que se sonha vitorioso

Após uma vitória suada mas inteiramente merecida frente à República Checa, Portugal apura-se mais uma vez para uma meia final de um campeonato da Europa. Um feito na minha opinião histórico para um país pequeno, no entanto com um grande potencial no panorama futebolistico, onde tanto a nível de clubes como de seleções nos temos vindo a afirmar.
Portugal pode não passar mais nenhuma eliminatória, esperemos que isso não aconteça, no entanto neste Europeu já deixámos uma imagem clara da humildade, inter-ajuda e trabalho de equipa. Ronaldo sobressai ligeiramente como a estrela maior que ajuda a olear melhor a máquina, no entanto a equipa funciona como um todo. Há quanto tempo isso não acontecia... Parabéns Portugal e acima de tudo Parabéns ao Paulo Bento que está a fazer um excelente trabalho. FORÇA PORTUGAL!!!

terça-feira, 22 de maio de 2012

O segredo da partida (Conto infantil)

Sabes, a história que vou contar-te é muito diferente de todas aquelas que até hoje ouviste. Confesso que nunca a partilhei com ninguém. Serás a primeira pessoa em todo o mundo a ouvir estas palavras e, por isso, vou fazer-te um pedido muito importante. Antes de mais, quero que te sentes ao lado das duas pessoas mais especiais da tua vida e que leias em voz alta este segredo. És capaz de fazer isso por mim, não és?

            Nunca te disseram, mas no jardim da tua casa apareceu, há alguns anos atrás, um gato muito amarelo, mais amarelo ainda que o próprio sol. Esse gato, que todos chamavam Pico, tinha uma cauda enorme, duas patinhas rechonchudas e uns bigodes afiados. Quando alguém o chamava, arrebitava a orelha direita, espreguiçava cada uma das patinhas e só depois, tranquilamente, decidia avançar. Quem conseguiu estar perto dele jurou-me que nunca tinha visto uns olhos assim; uns olhos que até falavam, ainda que com outras palavras…

            Como sabes, bem no meio do oceano Atlântico existe uma grande fatia de terra, rodeada de água por todos os lados. A essa fatia de terra os crescidos chamam ilha do Pico, não porque ela pique as pessoas que por aí passam, mas porque lá existe uma montanha muito alta. Vê bem, é a montanha mais alta de Portugal e, até hoje, poucos homens conseguiram ficar muito tempo lá em cima. Há quem diga que a montanha, assim que vê chegar alguém, enrola-se num denso nevoeiro e começa a gemer tão alto, que quase todos são obrigados a descer rapidamente. Ainda hoje, naquela ilha, se diz que é possível ouvir esse som, quando algum intruso se aproxima. E, acredita em mim, já muitos tentaram subir à montanha mais alta de Portugal…

            Entre os muitos que desejaram chegar lá mesmo em cima está o Micha – um pastor que, durante vários anos, apascentou as suas ovelhas nos terrenos do sopé da montanha. Micha era grande, tinha crescido a ouvir a música que descia do cume e poucos conheciam como ele os segredos das alturas.

            Durante anos e anos, Micha guiara o seu rebanho pelos trilhos que conduziam à montanha, sem nunca ter a tentação de desafiá-la e invadi-la. Um dia, porém, quando estava na taberna da vila, um homem tentou-o:

            “– Ouve lá, Micha! Aposto tudo o que queiras que nem tu mesmo és capaz de subir ao ponto mais alto do Pico e passar lá a noite.”

            No início, o pastor quase nem reparou naquele desafio. Limitou-se a sorrir, enquanto baixava a cabeça. Respeitava muito a montanha e não seria um simples tolo a convencê-lo a subir lá em cima. O homem, no entanto, não desistiu e voltou à carga:

            “– Não ouviste o que te disse? Pois olha. Eu estava mesmo disposto a apostar contigo quinhentas moedas como nem tu próprio consegues. Ouvi dizer que tens a mulher doente no hospital da Horta. Se calhar dava-te jeito. Mas deixa lá. Não és capaz e ponto final.”

             Micha tinha realmente a mulher muito doente. E aquelas moedas davam-lhe mesmo jeito. Agora, que era pai, aquelas palavras batiam-lhe ainda mais no fundo do coração. Fitou o tolo com muita atenção nos olhos e disse-lhe:

            “– Qual é, afinal, o teu interesse em ver-me subir à montanha? Ganhas alguma coisa com isso? Que eu consiga ou não chegar lá mesmo ao topo, é uma coisa que não te diz respeito. Guarda as tuas moedas.” – e, dito isto, ficou a olhar para um pardal que ora ajeitava as penas, ora saltitava de rocha em rocha. Por breves momentos, aquele passarinho transportou-o para outro lugar ligado à sua infância; lá, onde também se fala português, o saltitão é conhecido por tchota. Curioso, não é! Mas o arco-íris só é belo porque tem muitas cores – já tinhas pensado nisso?

            Micha saiu então para a rua. Começara a escurecer e lá bem no alto apareciam as primeiras estrelas. Atrás dele seguiu rapidamente o tolo. Ele não desistia facilmente:

            “– Apostei duas mil moedas com o Doutor Xabegras da Madalena, como nem tu lá ias acima. Por isso, vê bem, se tentares e falhares eu ganho a aposta e, como recompensa, ainda te dou quinhentas moedas. É pegar ou largar, agora!”

            “– E imagina que eu consigo mesmo chegar lá em cima…”

            “– Nesse caso, ainda seria melhor para ti. O Doutor Xabegras prometeu entregar-te o dobro do que eu iria dar-te. Pediu-me que te convencesse a aceitar… na Madalena há muitos curiosos em saber se tu consegues ou não. À noite, nas tabernas, não se fala de outra coisa senão do grande espírito da montanha e daqueles que ainda poderão vencê-lo.”

            Micha franziu a testa ao ouvir aquelas palavras. “Pobres tolos se pensam que alguém pode vencer a montanha. Como estão tão enganados…” – pensou para os seus próprios botões, enquanto lhe passava pela cabeça a imagem do seu novo rebento, a pedir-lhe comida: Papá, tenho fome… dás-me comida, não dás??

            Naquela noite, Micha quase não dormiu. A montanha parecia estar dentro do seu próprio quarto e por vezes teve mesmo a impressão de ouvir a voz das alturas a pedir-
-lhe para não aceitar aquele desafio. A dizer-lhe que não precisava daquelas malvadas moedas; que a sua mulher iria melhorar; que a sua mesa voltaria a ficar cheiinha de comidinhas boas e que nunca mais teria de chorar, enquanto ouvia aquela frase: Papá, tenho fome… dás-me comida, não dás??

            Quando amanheceu, Micha rezou muito e depois correu em direcção à vila, para aceitar a aposta. Que fosse o que Deus quisesse, concluiu. Assim que chegou à taberna, viu o Doutor Xabregas, já à sua espera; parece que o espírito da noite lhe tinha anunciado aquela decisão e ele próprio resolvera vir da Madalena para confirmar a audácia do pastor. Sentaram-se e voltaram a levantar-se sem reparar que em cima da desgastada mesa restava ainda uma taça de café, já abandonada…

            No final, ficou acordado que, nesse mesmo dia, Micha iria avançar. Começou a preparar-se ainda durante a quarta hora, nome pelo qual os monges da Idade Média conheciam o período das dez horas da manhã. Agarrou num saco, colocou lá dentro um pedaço de pão seco, com duas azeitonas e, sem mais demoras, caminhou rapidamente até ao cume. Conhecia aqueles carreiros como quem distingue as linhas da palma das mãos e, por isso, não levou muito tempo a chegar até ao piquinho da montanha. Tinham combinado que assim que ele vencesse as alturas colocaria um facho a arder, para que, logo à noitinha, em toda a ilha se soubesse que o pastor Micha tinha conseguido ultrapassar o que todos temiam.

            Ainda não era escuro e já o facho ardia, bem lá no pontinho mais alto de todo o Portugal. Puxou do saco que levava e começou a roer o pão seco, que ia misturando com as azeitonas guardadas. Depois, aconchegou-se o mais que pôde com a esfarrapada samarra que trazia vestida e adormeceu. Lá em baixo, poucos poderiam sequer imaginar aquela paz interior que invadira o pastor.

            Porém, por volta das três horas da madrugada, Micha foi inesperadamente acordado por uma voz que parecia vir do interior da própria montanha, cada vez mais protegida por um denso manto de nevoeiro. Aquela frase nunca mais o abandonaria:

            Ganhaste as moedas, mas perderás bem mais”…

            Assustado, Micha ajoelhou-se e rezou muito, como nunca tinha rezado.   

            Pediu então a Deus que não lhe levasse ainda a sua mulher, a sua Tina, pois não conseguia imaginar a vida sem aquela flor. Chorou, chorou tão alto que, por momentos, conseguiu até fazer calar a voz da montanha que pareceu, ela própria, ter ficado comovida com todo aquele sofrimento. Depois, ainda com as lágrimas a escorrerem-lhe pela face, correu pela montanha abaixo, o mais rapidamente que lhe permitiam as suas já frágeis pernas. Tinha quase 50 anos.

            Quando tomou das mãos do Doutor Xabegras as mil moedas a que tinha direito, foi recebido no meio de grandes aplausos e gritaria, como se de um autêntico herói se tratasse. Então, sem que ninguém se apercebesse, voltou-se para a montanha e viu que o Facho que lá tinha colocado já estava apagado.

            Com o dinheiro nas mãos, correu à mercearia da freguesia e comprou tudo o que precisava em casa. Tinha jurado que não mais voltaria a ouvir aquele Papá, tenho fome… dás-me comida, não dás??        Depois, já com a barriga cheia e o seu mais tenro rebento deitado na cama, apanhou o barco, atravessou o agitado canal e foi ao Faial. Inesperadamente, a sua mulher tinha ficado melhor e alguns dias depois estaria já em casa, completamente recomposta da doença, que quase a levara para junto de Deus. As suas preces foram ouvidas pela montanha, pensou Micha, aliviado. Era como se lhe tivessem tirado um peso do coração.

            Alguns anos se passaram depois deste episódio que, a pouco e pouco, foi sendo esquecido pelos habitantes do Pico (o ser humano tem a proeza de conseguir esquecer quase, quase tudo). Até que um dia, quando já a tarde se preparava para desaparecer, rebentou uma notícia que rapidamente atravessou todas as freguesias da ilha: a filha mais nova do Micha tinha desaparecido no meio da montanha – há já algumas horas que o pai a procurava desesperadamente e nem sequer um rasto apanhava.

            Começou então a dizer-se, por todo o lado, que a montanha se tinha vingado da ousadia do pastor, que mais tarde ou mais cedo ninguém escapava à sua maldição e que, nessa manhã, o espírito das alturas voltara a gritar, como já não o fazia desde aquela longínqua noite.

            Castigo ou não, a verdade é que a menina nunca mais aparecia. Passaram-se dias e dias, tantos que nem eu te posso contar. Micha ficou cada vez mais velho, tão velho que já mal conseguia ver. A tristeza de Micha tornara-se tão grande que passava o tempo fechado em casa, ao lado da sua mulher, de cabelos cada vez mais brancos e compridos, a tocarem o que ainda restava de um rosto já queimado pela vida.

            Um dia de Outono, apareceu-lhes em casa um gato amarelo, que não parava de ronronar; estava cheio de fome. Ao ver aquele bichano completamente abandonado, Micha comoveu-se e deitou-lhe uma bela tigela de leite com pedaços de pão. Há já muito tempo que aquela malga, colorida com estrelinhas, não era utilizada e, ao agarrá-
-la, o pastor sentiu um arrepio a invadi-lo por dentro. Depois, o gato foi ficando, ficando, até que se tornou um membro da família. Quando estava triste, Micha aninhava-o no seu colo, fazia-lhe festas e contava-lhe muitas vezes a história da montanha. As suas lágrimas eram ainda tão intensas que, segundo se diz, eram suficientes para lavar o pêlo, cada dia mais macio do bichano. Chamava-se Pico e os seus olhos pareciam falar, ainda que com outras palavras, lembras-te?

            Um dia, bem pela manhã, depois de lamber a malga de leite, o bichano olhou mais demoradamente para Micha, como que a querer dizer-lhe alguma coisa e, esfregando lentamente os bigodes, partiu, para nunca mais voltar. Lá na ilha, há ainda hoje quem diga que ele subiu ao topo da montanha e deixou depois regressar a menina para junto dos seus pais, sacrificando a própria liberdade para toda a eternidade.

            Sabes, na ilha todos acreditam que essa criança, que hoje já cresceu, és tu. Foi o gato amarelo, mais amarelo que o próprio sol, que partiu para te salvar e te devolveu àqueles que, agora mesmo, estão junto a ti, a embalar-te as mãos. Sabes, há muitas pessoas que, às vezes, têm de partir, para que outras possam chegar… Esse gato, o Pico, tal como o teu avô, partiram para te trazer até junto de nós.

            Até o Sol tem, todos os dias, de embarcar para deixar a lua chegar…

            Agora dorme, meu amor.
Renato Nunes

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Vicissitudes

A vida é curta e breve. Felizmente consegui mais um emprego num colégio, desta vez em A-dos-Francos (Caldas da Rainha). Com o rebuliço do trabalho nem me apercebo que já passaram 3 semanas. Uma das coisas que aprendi na eternidade de tempo que estive no desemprego é a dar um valor diferente às conquistas. Apesar da brevidade de mais este contrato,tento numa aprendizagem constante absorver mais esta experiência. Vamos ver até quanto tempo dura, a vida é uma incerteza, no entanto é bom termos a certeza que trabalhamos amanhã.

Coisas tristes

A morte de um grande e talentoso senhor.

Sons

Um grande tema de um grande grupo.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Heróis

Ao pensar nos resultados eleitorais gregos e, em particular naqueles que não votaram troika, ocorreu-me isto. Heróis por um dia, talvez pudessem ser...

http://www.youtube.com/watch?v=Tgcc5V9Hu3g&ob=av2n

quarta-feira, 25 de abril de 2012

48


No longínquo mês de Setembro aquando da minha passagem pela festa do Avante, onde pude compartilhar uma variedade imensa de ofertas culturais, parei ocasionalmente, durante alguns minutos, num anfiteatro onde passava um documentário. Observei uma atenção invulgar das pessoas à medida que íam vendo rostos e ouvindo testemunhos que transpareciam através das rugas a dureza vivida durante o Estado Novo e a repressão sentida na pele. Sentei-me e ouvi. Olhei fixamente as faces que passavam, ouvindo a voz do seu discurso, arrepiei-me com a sua experiência de vida.

Uma experiência que me marcou, pois saí daquele espaço com a intenção de conseguir adquirir aquele precioso testemunho. Adquiri-o ontem, num quiosque através do jornal público.

Este documentário é um retrato lúcido e rude do que foi o Regime do Estado Novo. Todos o deviam ver nem que seja a espaços como foi o meu caso, pois, principalmente quem nasceu e viveu com a liberdade, passará certamente a dar-lhe mais valor.

Um suspiro pela Liberdade

Actulamente encontro-me a ler o livro de José Saramago "Ensaio sobre a lucidez", um livro brilhante, que retrata as mutações políticas inerentes à manifestação de descontentamento do povo, através o voto em branco e as consequentes reacções menos democráticas dos governantes perante toda esta situação.

A democracia é um conceito com vários significados podendo ser usado e conduzido de diferentes formas consoante o seu objectivo. Actualmente vivemos uma situação em que a democracia não se presencia, pois todas as decisões são tomadas sem tomar em conta a opinião do povo, sendo que quando este pretende dar a entender a sua indignação, procedem pelo caminho mais fácil, ignoram ou humilham batendo, como aconteceu na recente manifestação.

Sente-se medo de se dizer e escrever o que se pensa, com receio de retaliações, de se perder o emprego, a estabilidade social e económica. Uma época dificil vivida por nós portugueses, habitantes do Mundo.

As opções de Mário Soares e Manuel Alegre de não marcarem, hoje presença nas comemorações do 25 de Abril, é um sinal que não estamos a caminhar pelo caminho certo.

No dia da Liberdade clamo aos políticos do meu país que apresentam na sua lapela a bandeira de Portugal, que pensem, de uma forma mais holística e não se restrijam, às limitações impostas por eles mesmos e por uma política externa demasiado dogmática e pouco realistica. Peço que tenham em conta a capacidade de luta e a tenacidade desta gente que Adora o seu país e fará tudo para o tirar da situação difícil que está. Deixem pensar e expressar um povo que resistiu a muitos anos de ditadura e repressão, não limitem os seus ambiciosos horizontes,  ouçam, dialoguem, pois dessa forma tudo será mais fácil.

Um dia com sentido

Diferente, sem alguns dos justamente e indefectíveis democratas nas comemorações mas com os cínicos e hipócritas em destaque. Eles que sempre quiseram acabar com a evocação do fim da ditadura.

Isto vai mal, mas não foi por causa deste senhor:


Não sei o que pensaria dos dias que temos, mas a culpa não foi de quem sempre ocupou o seu lugar com dignidade. Como ele. Obrigado, Capitão.



P.S. O 25 de Abril também se fez contra a arbitariedade bruta da autoridade. Ora, em tempos de crise e de alguma (pouquíssima) agitação social, as autoridades policiais têm mostrado o músculo e o bastão a não meliantes. Desde as manifs em frente à AR, no Rossio, os agentes infiltrados e, agora, a indigna actuação da PSP no Porto, contra a ES.COL.A. E dizem os mediáticos e regiamente pagos comentadores de impecável fato e penteado fancy que deixou de fazer sentido comemorar o 25 de Abril? Só se for pelo abastardamento austeritário do regime... ou deles...

terça-feira, 24 de abril de 2012

Notícias tristes

Morreu Miguel Portas. Um deputado ao Parlamento Europeu sério, empenhado nos valores de esquerda e da resolução desta miserável crise que nos aperta.

Curiosamente nasceu no dia 1 de Maio e faleceu no dia 24 de Abril... Coisas madrastas.

Obrigado por tudo.

sábado, 21 de abril de 2012

A pessoa com “deficiência” durante o Estado Novo

No ano em que se completam 38 anos da “Revolução dos Cravos”, importa recordar que ainda existem significativas áreas temáticas por desbravar em relação ao Estado Novo (1933-1974), por exemplo no que se refere à situação da pessoa “deficiente” durante aquele período. Afinal, que representações veiculava/silenciava o regime português sobre a pessoa considerada “deficiente”? Qual a acção da censura sobre os textos que, de algum modo, se relacionassem com a problemática em causa? Que analogias se poderão (ou não) estabelecer, neste caso concreto, entre Salazar, Mussolini, Hitler ou Franco?
            Como escreveu Susana Bastos, em vários momentos do Estado Novo, as pessoas consideradas como tendo “deficiência” chegaram, em certa medida, a ser equiparadas “aos opositores políticos do regime e, por isso, como eles encarcerados”, sem que, no entanto, depois do 25 de Abril se tenham feito as devidas referências a esse facto (Bastos, Susana Pereira. 1997. O Estado Novo e os Seus Vadios. Contribuição para o Estudo das Identidades Marginais e da Sua Repressão. Lisboa: Publicações Dom Quixote p. 375). Também por isso, no mês da “Revolução dos Capitães”, pareceu-nos oportuno partilhar aqui com o leitor (numa versão necessariamente sumária) algumas das reflexões que temos vindo a desenvolver sobre esta temática.
            Já lá vão, aproximadamente, 51 anos. Corria o dia 25 de Abril de 1961, em pleno Estado Novo salazarista, quando o jornal O Século tentou publicar uma notícia com o seguinte título – “Trucidada por um comboio uma doente mental”. Consequência: o censor cortou, com o “lápis azul”, a expressão “uma doente mental” e o artigo foi proibido (ANTT – Arquivo de “O Século”, Cortes de Censura, Data: 1961, Janeiro a Março; Cx. 195, M.ºs 247). Seria este corte uma excepção ou faria parte da regra “salazarista” eliminar determinadas notícias que abordassem a questão da “deficiência”? Eis a dúvida que imediatamente nos assolou quando, pela primeira vez, contactámos com a fonte agora citada e que procuraremos dissipar, na medida do possível, ao longo deste texto.  
            De um modo geral, e pese embora o perigo das sínteses redutoras (a História é multicolor e assaz complexa…), poderemos afirmar que o Estado Novo português preconizou, pelo menos até aos anos 50, um modelo de intervenção perante a pessoa com “deficiência” que passava, grosso modo, pelo seu internamento em instituições. Esta situação integrava-se, afinal, numa estratégia mais ampla de ocultar/silenciar todos os aspectos que, em certa medida, comprometessem a imagem do país (leia-se, da “Situação”), daí a “construção do estatuto marginal do vadio” e seus afins, o que incluía, por exemplo, os “deficientes mentais” (Bastos, 1997, p. 372). Era, afinal, a materialização da célebre “Política do Espírito”…
            Susana Bastos menciona que, entre 1933 a 1951, o Estado Novo procurou instaurar o modelo institucional e entre 1952 a 1974 assistiu-se à desestruturação do modelo institucional (sobretudo, do ponto de vista ideológico/conceptual, acrescentado da nossa responsabilidade). A referida investigadora, que estudou o Albergue da Mitra, durante o Estado Novo, destinado pelo regime a internar (e esconder…) os vadios e os seus equiparados, concluiu que, pelo menos até 1951, o albergue “acolhia um número considerável de doentes mentais, mas não lhes proporcionava qualquer vigilância e tratamento psiquiátricos” (Bastos, 1997, p. 216), sendo que, ainda segundo a autora, na época era muito comum a ligação estreita da vadiagem e da mendicidade à alienação mental (bem como o inverso).
            No que diz respeito a 1959, Susana Bastos alerta-nos para a admissão de doentes mentais em instituições policiais, sem qualquer preocupação do ponto de vista dos cuidados do foro psiquiátrico” (Bastos, 1997, p. 271). Assim, “encerrando tais personagens em instituições totais, exilando-os do espaço público, o regime, ao mesmo tempo que exorcizava certos medos, escondia as suas imperfeições dos olhos nacionais e de estrangeiros” (Bastos, 1997, p. 59).
            Por isso, o corte do “lápis azul” ao artigo que o jornal O Século procurou publicar, no dia 25 de Abril de 1961, não foi uma excepção! Isabel Forte, que estudou a censura salazarista ao Jornal de Notícias, recorda-nos que a expressão “alienação mental” constituía um dos termos que o “lápis azul” se encarregava de eliminar (Forte, Isabel. 2000. A Censura de Salazar no Jornal de Notícias. Coimbra: MinervaCoimbra, p. 83), facto que, naturalmente, acrescentado da nossa responsabilidade, levava os jornalistas e, de um modo mais vasto, todos aqueles que escreviam a pensarem bem antes de o fazerem (prática da autocensura).
            Através do nosso contacto com os Arquivos da Censura, afigura-se-nos possível levantar a hipótese segundo a qual a acção dos censores perante os textos analisados seria diferente consoante o tipo de “deficiência” descrita. Só isso justifica, aliás, que no dia 25 de Abril de 1961 o jornal O Século tenha conseguido publicar na íntegra a seguinte notícia: ““Bebeu de mais e vibrou duas facadas num mudo. Sambade, 24 – Devido aos vapores do vinho que ingerira, António Lamas, de 30 anos, casado, jornaleiro, vibrou no mudo Armando Carrega, de 32 anos, solteiro, duas facadas, que lhe produziram graves ferimentos na cabeça. O Armando, que é pessoa inofensiva, foi socorrido por um médico. O agressor é useiro e vezeiro em tais proezas” (ANTT – Arquivo de “O Século”, Cortes de Censura, Data: 1961, Janeiro a Março; Cx. 195, M.ºs 247).
            Já no que diz respeito a problemas do foro mental, reforce-se, o “lápis azul” parece ter sido implacável. Para o demonstrar transcrevemos de seguida duas provas de censura, que integram um corpo mais vasto de instruções telefónicas, transmitidas pelos censores ao jornalista Manuel Ramos, entre 1956 e 1966, que trabalhava no Jornal de Notícias: “Louco que em Évora se feriu com uma faca – Cortar; […] Louco desaparecido na Foz do Tua, não dizer em título que se trata de um doido” (Forte, 2000, p. 89). O referido jornalista, em jeito de comentário às instruções citadas anteriormente, deixou-nos a seguinte reflexão: “Loucos não havia. Eram suicídios, loucos e abortos. Nada” (Ramos in Forte, 2000, p. 130).
            Como destaca Humberto Rodrigues, durante a guerra colonial (1961-
-1974), os hospitais militares funcionaram como um refúgio para muitos dos “deficientes” da guerra [recorde-se que, para o Estado Novo “os deficientes eram considerados inválidos – Rodrigues, Humberto Sertório Fonseca (s.d.). Deficientes. http://www.guerracolonial.org/index.php?content=190, p. 2], mas também constituíram “um depósito onde os corpos amputados, os homens em cadeira de rodas ou os cegos tropeçando se mantiveram longe das vistas da sociedade, porque, oficialmente, Portugal não estava em guerra e a sua visibilidade poderia motivar interrogações incómodas para o regime sobre a realidade do que se passava nas frentes de combate”.
            Analisar o que se escreveu, mas também o que foi silenciado/censurado, pode, talvez, ajudar-nos a compreender não só a realidade da pessoa com “deficiência” durante o Estado Novo e o próprio regime em si, mas também alguns dos bloqueios que ainda hoje persistem, em relação a esta temática.
            Se o nascimento de uma criança “diferente” (leia-se especial) continua a ser associado, na actualidade, a uma multiplicidade de sentimentos (sofrimento, exclusão, revolta…), a verdade é que o contacto com as fontes e a revisão da literatura que temos vindo a desenvolver ajudou-nos a percepcionar algumas das diferenças que, neste caso concreto, existem entre o passado da ditadura e o período posterior à “Revolução dos Cravos”. Eis, afinal, outra das portas que Abril também abriu e que importará continuar, diariamente, a abrir…
Renato Nunes

sexta-feira, 13 de abril de 2012

As convulsões da educação

As medidas do governo surgem em catadupa, quando estamos a ingerir e perceber uma medida, surge logo outra no seu incalce, qual delas a pior. A realização das turmas mediante o seu aproveitamento, o aumento dos alunos por turma, os mega agrupamentos são, medidas que progressivamente fragmentam o ensino perdendendo-se qualidade. Com tudo isto sofrem os alunos, que não ficam tão bem preparados, os professores efectivos que lhe são aumentadas as tarefas e os professores contratados que perdem o emprego. No fundo perde o país!!!


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Europa?

Para quem quiser perceber perceber porque é que muitos europeístas deixaram de se rever nessa coisa a que já se chamou projecto europeu é ler este artigo de Viriato Soromenho Marques.
E sobre os seus ecos em Portugal, este de Manuel Maria Carrilho.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Desventuras da minha terra

É difícil acompanhar o ritmo alucinado de absolutos dislates, topetes e fúria anti social deste governo. Ele é a Maternidade Alfredo da Costa, símbolo da saúde neonatal em Portugal - um dos poucos casos de sucesso do nosso país - , ele é o lapso sobre o fim que não o é da suspensão dos subsídios de férias e do Natal, ele é a proibição das reforma antecipadas, ele é o aumento do número de vagas em lares que afinal é amontoar os velhotes: onde dormem dois dormem três, ele é o destroçar dos apoios sociais: subsídio de desemprego, RSI, a baixa por doença, gravidez e etc.

Valente povo que tais arcaísmos liberais tolera...

Encantos da minha terra

Não, não é a loja gourmet situada na rua D. Paio Mendes em Braga. É este som absolutamente magnífico dos Naifa.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Estes senhores

...Não fazem muito o meu estilo de música mas por vezes saem-se com coisas destas.

quarta-feira, 21 de março de 2012

domingo, 18 de março de 2012

Ele come tudo e rapa o tacho

Borges, não o escritor, mas o incansável e eterno CEO de qualquer coisa, ex Goldman Sachs (a tal lula vampiro) que anda sempre com um pé no dinheiro e outro no poder que lhe permite ter influência, agora entre a Parque Pública e a Jerónimo Martins, do tal senhor muito patriota que fugiu com os seus cabedais para a Holanda, qual judeu perseguido pela inquisição. Fiel retrato de um país.