terça-feira, 17 de maio de 2016

Serra da Estrela um espaço que ambiciona chegar a Geoparque

Portugal é um território que apresenta uma enorme diversidade de paisagens, que de acordo com as suas especificidades, poderão usufruir de valências para as geociências que é necessário ter em conta. Em Portugal além dos 4 Geoparque já referenciados pela UNESCO existe na Serra da Estrela um projeto para a candidatura daquele espaço a Geoparque. O projeto foi intitulado por “Aspering Geopark Estrela”. Este Geoparque que alberga a área de 9 concelhos e caracteriza-se pela existência de uma grande diversidade geológica, sendo o granito a rocha predominante, subsistindo também xistos grauvaques. No que concerne à geomorfologia esta é uma área com uma enorme riqueza, estando essencialmente associada a vestígios de cariz glaciar.
As principais geoformas glaciares da Serra da Estrela têm várias designações: formas erosivas se nos estivermos a referir a circos ou vales glaciários e formas de acumulação, como por exemplo moreias e blocos erráticos.
Os vestígios glaciares da Serra da Estrela representam de forma muito clara os limites da área glaciar, as moreias, são detritos que estão na origem da passagem do glaciar, enquanto que os lagos se destacam  por serem locais, onde é possível visualizar através de estrias o percurso seguido pelo glaciar. Os glaciares têm uma grande importância, pois as diversas línguas através do enorme poder do gelo como agente erosivo, modelam a paisagem e permitem observar formas de relevo únicas e com um grande interesse estético e paisagístico.
O reconhecimento dos locais com interesse geomorfológico de cariz glaciar e periglaciar incidiu naqueles que pela sua dimensão e fácil interpretação mereceram ser distinguidos.
Dos 10 geossítios da Serra da Estrela, destaco 3 que pela sua importância para as geociências foram inventariados no âmbito, do património geológico de relevância nacional: O vale glaciar do rio Zêzere refere-se ao melhor exemplo de um vale em forma de U de Portugal, inclui ainda vários depósitos glaciários e fluvioglaciários, os covões (Ametade e Albergaria) e os vales suspensos (covões e candieira); a lagoa comprida corresponde a um dos mais importantes campos de blocos erráticos de toda a Serra da Estrela; assim como permite a visualização de estrias e polimentos que indicam o percurso seguido pelo glaciar; a pedrice corresponde a uma elevada concentração numa área coberta por macroclastos graníticos, sendo considerado o melhor exemplo de processos de gelifração.
A designação como geossítios de 10 locais da Serra da Estrela, será benéfico para as populações, pois promove-se uma estratégia baseada no geoturismo que proporciona o bem-estar mantendo o máximo respeito pelo meio ambiente. A futura criação de um geoparque na Serra da Estrela, assegura o desenvolvimento social, económico, cultural sustentável, assegura a realização de parcerias, estimula a investigação nos territórios e contribuir ativamente para a existência de iniciativas conjuntas (publicações, troca de informações, realização de conferências, projetos comuns, etc.).
Caso seja criado o geoparque na Serra da Estrela, ocorrem a criação de vários projetos ou iniciativas locais, tais como a realização de ações de formação para que as pessoas possam compreender melhor as mais valias do território onde habitam. O queijo Serra da Estrela, um símbolo da região, poderá ver na criação do geoparque um sinal de crescimento, ao qual se poderão juntar outras ideias inovadoras que promovam os produtos da região

As sinergias espaciais devem ser frequentes devendo toda a população sentir parte de um projeto que é de todos. Além das atividades económicas locais, neste processo de divulgação e promoção é necessário incluir as escolas e as empresas de desporto aventura que poderão ver na melhor divulgação deste espaço o mote para que a população mais jovem se ligue aos ideais do desenvolvimento sustentável, transmitindo-o aos seus familiares e conhecidos.

sábado, 16 de abril de 2016

Geoparques e os conceitos que os influenciam

Quando falamos da temática dos Geoparque é muito importante percebermos vários conceitos que nos permitirão perceber melhor esta temática tão vasta e abrangente.
Os conceitos de Geodiversidade e Biodiversidade são conceitos complementares que diferem apenas no seu objecto de estudo. Geodiversidade refere-se aos elementos bióticos (vivos) enquanto Biodiversidade diz respeito aos elementos abióticos (não vivos).
O conceito de Geodiversidade é recente, tendo sido pela primeira vez abordado em 1993 aquando da Conferência de Malvern sobre Conservação Geológica e Paisagística que decorreu no Reino Unido. Segundo a Royal Society for Nature Conservation do Reino Unido “Geodiversidade consiste na variedade de ambientes geológicos, fenómenos e processos activos que dão origem a paisagens, rochas minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que são o suporte para a vida na terra”.
O Conceito de Biodiversidade e Geodiversidade estão ligados, pois determinados seres vivos só sobrevivem em condições abióticas específicas. Por exemplo há plantas que apenas subsistem com um determinado tipo de rocha, com ambiências climáticas muito específica. O património construído é um excelente espelho da Geodiversidade local. O Homem está dependente da natureza para sobreviver, pois precisa dos solos para a produção agrícola ou dos combustíveis fósseis para a produção de energia. Há uma intrínseca relação entre o Homem e a Natureza não só no que respeita às necessidades fisiológicas mas também às edificações, pois o Homem tem em conta a proximidade da matéria prima como por exemplo o tipo de rocha para a realização das suas construções.
Com a crescente preocupação ambiental tem-se observado, através de vários estudos científicos que a Biodiversidade se encontra severamente ameaçada, havendo a necessidade de realizar políticas de Geoconservação.
O conceito de Geonservação por si só não tem merecido um consenso entre os especialistas. Segundo Brilha a Geoconservação é fundamental para a manutenção da biodiversidade mas também porque a geodiversidade, só por si tem um valor intrínseco, mesmo que não se encontre associado a uma forma de vida.
A Geoconservação consiste numa gestão sustentável dos recursos bióticos (biodiversidade) e abióticos (geodiversidade). No entanto em sentido restrito é necessário entender a vastidão de recursos que existem no planeta e realizar uma inventariação rigorosa dos sítios mais relevantes para proceder à sua valorização, interpretação, divulgação e monitorização dos sítios.
A valorização dos recursos é fundamental para percebermos a importância e o interesse que lhe atribuímos. Quando falamos em locais sem interesse científico mas com interesse para a geodiversidade falamos de elementos de geodiversidade (ex situ) pois estão no local onde foram criados pela natureza, ou então elementos de geodiversidade (in situ) se forem transportados para outro local como por exemplo museus.
Quando os locais têm um inegável interesse científico, pedagógico, cultural, turísticos passam a designar-se por património geológico ou seja geossítio caso ainda se possam observar no local onde foram criados ou
elementos de património geológico se forem transportados para outro local para serem melhor estudados ou preservados.
A realização de políticas de Geoconservação tem-se debatido com diversos problemas associadas à atividade humana como por exemplo: exploração de recursos geológicos, desenvolvimento de obras e estruturas, gestão das bacias hidrográficas, desflorestação e agricultura; atividades recreativas e turísticas e outras.
Às ameaças de carácter antrópico associa-se ainda a falta de legislação sobre o tema, a inércia das autoridades para legislar sobre políticas de geoconservação e por outro lado há um desconhecimento das autoridades para a importância da geoconservação.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Famílias especiais

Os pais de crianças com algum tipo de deficiência enfrentam uma das batalhas mais árduas que a vida pode confiar a qualquer ser humano. Ora, entre as problemáticas com as quais já trabalhei, as Perturbações do Espectro do Autismo (PEA) representam, sem margem para dúvida, uma das realidades mais complexas e extenuantes, quer do ponto de vista físico, quer do ponto de vista mental.
            Importa começar por dizer que estamos perante uma síndrome ainda insuficientemente estudada (como, de resto, quase todas as que se relacionam com o desenvolvimento do enigmático cérebro), tendo apenas sido referenciada, pela primeira vez, durante a II Guerra Mundial (Leo Kanner, 1943 / Hans Asperger, 1944), embora o conceito já tivesse sido introduzido por Bleuler em 1911 (Ana Saldanha – O jogo nas crianças autistas, Lisboa, Coisas de Ler, 2014, p. 45).
            Actualmente, as PEA continuam a não ter cura e em cerca de 75% dos casos estão associadas à deficiência mental, sendo que ainda não existe um levantamento estatístico rigoroso do número de casos existentes em Portugal. Os números já conhecidos revelam-se, porém, assustadores, para todos aqueles que vêem este nome ligado ao que mais desejaram na vida.
            De facto, aceitar que um filho nosso tem problemas não é um processo fácil. Trata-se, contudo, de uma etapa decisiva para que possa depois ser implementado um programa de intervenção eficaz, que vá ao encontro das reais necessidades da criança, tal como ela é e não como os pais um dia desejaram que fosse. Vários investigadores chegam, de resto, a equiparar este doloroso período de aceitação da realidade a um processo de luto: o filho imaginado, desde logo, quando ainda se encontrava no ventre da mãe, “morre”, para poder aparecer no seu lugar a criança que, de facto, temos nos braços. Uma etapa, pois, incontornável, que tem de ser ultrapassada de modo positivo, sob pena de deixar mazelas para o resto da vida, sobretudo no elo mais frágil: a criança. 
            Talvez o autismo seja ainda mais difícil de aceitar do que a maioria das “incapacidades”, porque, em muitos casos, a criança parece desenvolver-se de um modo perfeitamente “normal” até por volta dos 3 anos, momento a partir do qual começa, inesperadamente, a regredir, perdendo várias das faculdades/competências já adquiridas. A preocupação com o facto de a criança não conseguir falar é, regra geral, um dos sinais que mais preocupa os pais e os conduz à procura de respostas junto dos especialistas. Um caminho complexo que, depois de iniciado (com muita dor e receio…), apresenta sempre um desfecho imprevisível.
            Quase sempre, o diagnóstico – por volta dos 4 anos – cai que nem uma bomba sobre a cabeça das famílias. Com ele, inicia-se uma dramática luta de resistência, ao longo da qual – importará reconhecê-lo – nem todos os casais conseguem permanecer unidos (seria importante conhecer, de um modo fidedigno, o número de divórcios também associados a estas matérias). Não raramente, os pais sentem-se sós, desgastados, amargurados e ansiosos, o que pode originar episódios de revolta, incluindo contra os profissionais da educação. De resto, sejamos honestos, é ainda incipiente o trabalho de efectiva articulação que existe entre as escolas portuguesas e as famílias.
            De um ponto de vista prático, escolas e famílias permanecem ainda, em grande parte, de costas voltadas, atribuindo-se mutuamente culpas por tudo e mais alguma coisa. Ora, no caso das crianças consideradas como tendo Necessidades Educativas Especiais esta ruptura assume consequências ainda mais graves. Faltam-nos, por conseguinte, efectivos projectos de intervenção psico-pedagógica junto de famílias nucleares. Falta-nos construir uma Escola de pontes, onde pais, professores e todos os demais profissionais possam colaborar de um modo regular, pensando única e exclusivamente no desenvolvimento integral dos mais novos, procurando soluções em conjunto que permitam rentabilizar todos os momentos da vida da criança, partilhando humildemente dúvidas e inquietações. Faltam-nos pontes e, sobretudo, uma cultura de humildade, onde todos estejam predispostos a aprender...
            De um modo muito sintetizado, poderá dizer-se que a criança portadora de uma PEA apresenta problemas de interacção social, de imaginação e de comunicação (podendo mesmo nem sequer falar). Poderá preferir isolar-se a ter de conviver com os seus pares, apresenta comportamentos repetitivos (estereotipias), que podem, por exemplo, passar pelo obsessivo interesse em rodopiar todos os objectos que encontra pela frente ou alinhar os brinquedos sempre na mesma posição/repetir invariavelmente as mesmas rotinas ou abanar as mãos. Para além destes comportamentos auto-
-reguladores, poderemos ainda falar de actos de auto e heteroagressão, que habitualmente podem interpretar-se enquanto manifestações da criança para obter rapidamente o que deseja (comportamentos funcionais) ou de episódios de riso incontrolado, que podem ser interpretados pelo adulto como atitudes desafiadoras, mas que, por vezes, mais não são do que comportamentos de auto-estimulação ou até de simples manifestações de ironia pela falta de expectativas em relação às suas potencialidades. Acrescentem-se ainda episódios de birra e choro frequentes, uma grande dificuldade em realizar novas aprendizagens, interpretar expressões faciais ou aceder a contextos diferentes do habitual (por exemplo, sair à rua ou frequentar um local desconhecido). O desvio sistemático do olhar e a necessidade de isolamento são talvez as duas características mais conhecidas, mas importa não esquecer que por trás deste conceito (PEA) se esconde uma panóplia extremamente diversificada de situações complexas, pois, de facto, cada caso é sempre um caso, daí que as generalizações sejam muito perigosas. Existem, de resto, um conjunto de representações amplamente divulgadas (nomeadamente pela literatura e pelo cinema), que, no meu entendimento, nem sempre correspondem à realidade subjacente a esta problemática. Assim, a título ilustrativo, nem sempre a criança autista sente desprazer no contacto com o outro – tem, isso sim, grande dificuldade em estabelecer relações afectivas, compreender gestos simbólicos ou sentidos metafóricos, pois o que é intuitivo para a maioria das crianças precisa, no caso do autista, de ser inicialmente explicado e racionalizado, para que possa depois ser interiorizado. Muitas vezes, a criança com autismo não brinca porque, pura e simplesmente, não sabe fazê-lo, não percebe como chegar ao outro, não possui ferramentas para compreendê-lo (empatia) e, por isso, assume comportamentos pouco apropriados, mas que são, frequentemente, a sua forma de dizer “olhem para mim… eu também quero brincar!”. Além disso, o desvio do olhar não significa, de todo, que a criança com autismo não observe o que se passa em seu redor. Bem pelo contrário! Por vezes, existe mesmo uma hipersensibilidade que leva estas crianças a “ler”, em poucos instantes, de um modo quase automatizado, os ambientes sensoriais/emocionais envolventes. E essa hipersensibilidade pode também estender-se ao modo como se percepcionam determinados cheiros, ruídos, luzes, texturas que se acumulam vertiginosamente nos seus cérebros e os conduzem a um momentâneo estádio de insuportável confusão e sofrimento. Um estado de sobreexcitação que os faz desejar ardentemente o refúgio do silêncio. A este propósito, registe-se que as estereotipias (v.g., bater as mãos) constituem, muitas vezes, uma forma que a criança encontrou para se ajudar a si mesma, tal como o condutor tem necessidade de fechar os olhos quando se vê surpreendido com os máximos de um veículo que circula em sentido oposto. Outrossim, a essa hipersensibilidade poderemos associar outras características, que – se correctamente exploradas pelos vários profissionais – poderão ser pontos fortes importantes da criança com autismo: memória visual claramente acima da média e necessidade de respeitar regras, logo menor predisposição para o erro (o ser humano dito “normal”, à medida que se sente confiante na realização das suas tarefas, tende a saltar etapas, o que aumenta exponencialmente a probabilidade de erro).
            Sendo uma problemática ainda sem cura, que afecta, sobretudo, o sexo masculino (numa proporção de, aproximadamente, 3 a 4 para 1), existem, contudo, um conjunto de programas de intervenção educativa que podem fazer toda a diferença, sendo que um dos mais conhecidos é o modelo estruturado TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Related Communication Handicapped Children). O desenvolvimento e a implementação de programas de comunicação alternativa pode também constituir outra importante via para dotar a criança com autismo de uma maior autonomia e bem-estar, ao mesmo tempo, sublinhe-se, que estimula o desenvolvimento regular da fala (métodos complementares). De resto, as últimas pesquisas científicas têm trazido algumas esperanças, sendo que não posso deixar de destacar esta notícia que o Público divulgou recentemente: “Foi possível reverter sintomas do autismo em ratinhos adultos” (19/02/2016, p. 24). É mais uma luz num mar imenso de escuridão, mas importa não deixar de ter os pés assentes na terra, pois é pernicioso vender falsas expectativas a famílias particularmente fragilizadas por um combate extremamente desgastante. Um exemplo concreto: por vezes, em determinadas palestras que publicitam uma determinada metodologia de intervenção em detrimento de outras são apresentados um conjunto de casos de grande sucesso, silenciando – consciente e deliberadamente – os que não tiveram assim tanto êxito…     
            Pese embora todos os avanços já verificados (e, nestes casos, os pequenos passos são sempre grandes vitórias), para muitas famílias, a aproximação dos 18 anos e o fim da escolaridade obrigatória trazem consigo uma angústia ainda maior, pois, frequentemente, as instituições de acolhimento não conseguem dar resposta aos inúmeros pedidos que lhes chegam às mãos. Muitas vezes, não resta aos pais, já envelhecidos, ficarem em casa com os filhos, não raramente muito violentos e no auge das suas forças físicas. Uma situação verdadeiramente dramática e que deita por terra todo o trabalho e o investimento que o Estado dito “inclusivo” desenvolveu enquanto o jovem esteve na Escola. Depois, importará perceber até que ponto a institucionalização destas pessoas representa, de facto, a melhor opção para o seu bem-estar físico, mas, sobretudo, mental…

            Assim, no momento em que se celebra o “Dia Mundial da Consciencialização do Autismo” (2 de Abril), gostaria de dedicar este breve texto a todas as famílias que enfrentam, no seu dia-a-dia, esta complexa realidade. De uma delas, anónima, ouvi ainda recentemente um desabafo, no decurso de uma palestra dinamizada em Lisboa: “O nosso menino tem autismo. Foi diagnosticado há 3 anos. E o autismo foi a melhor coisa que aconteceu na nossa vida. O autismo foi a melhor coisa que aconteceu na nossa vida”. É uma lição de amor – incondicional –, que dificilmente poderei esquecer.  
            São, de facto, famílias especiais, que ainda no passado recente, sublinhe-se, chegaram a ser apontadas como as principais responsáveis pela desordem neurológica dos filhos (teorias psicogenéticas, das quais parece ter sobrado a infeliz expressão “mãe-
-frigorífico”). Na verdade, trata-se de famílias que ainda hoje mereciam outro tratamento por parte de quem nos governa, mas também de todos nós, enquanto simples cidadãos, nos momentos mais banais do quotidiano (basta estar atento…).
            Em Abril, mês da conquista da liberdade, vale a pena reflectir nas ditaduras (pessoais e sociais) que ainda não derrubámos. É, afinal, para as identificar, compreender e tentar combater que ainda continuo a escrever.
Renato Nunes

PS – agradeço à professora Ana Teixeira a produção e cedência da magnífica ilustração que acompanha este texto.

sábado, 11 de julho de 2015

Séculos sem lágrimas

Luís Reis Torgal publicou no passado mês de Março a sua mais recente obra, à qual deu o inquietante título História… Que História? Trata-se de um livro-guia (a fazer lembrar O Príncipe, de Maquiavel), que pode ser lido por todos, seja os (ditos) especialistas ou meros curiosos; aspecto que, desde logo, traduz um assinalável esforço de divulgação científica, infelizmente, pouco comum em Portugal. Falamos, afinal, de um historiador, que, se tiver de escolher entre dois sinónimos, selecciona quase sempre o mais simples, o que, neste país ainda barroco até ao tutano, diz muito acerca da sua metodologia de trabalho.
            A intenção de simplificar o exercício da leitura pode, porém, implicar alguns inconvenientes, como sejam (nesta obra em concreto) a inexistência das notas de rodapé, que o historiador em causa reconhece, porém, como fundamentais para validar o seu discurso, mas às quais – aparentemente por critérios editoriais – teve de abdicar.    
            Apesar do esforço empreendido por Luís Reis Torgal para tornar o seu discurso acessível a um maior número de leitores, não podemos esquecer que a obra em análise é, antes de mais, um exercício de aturada reflexão (a que já nos habituou o autor), exercício ao qual se associa uma invulgar capacidade de infundir esperança, mormente nos mais jovens, que, por amor, ainda perseguem o sonho de consagrar a vida ao estudo da História. Afinal, estamos perante um historiador que, como poucos, soube e continua a saber “fazer escola”, reunindo em torno de si e da sua incontornável obra (nomeadamente sobre o Estado Novo) um conjunto de novos investigadores.
            Luís Reis Torgal dividiu o seu livro em cinco capítulos: 1 – Afinal o que é a História?; 2 – A História e a sua “circunstância”; 3 – História e ensino; 4 – História, ideologia e memória e, por fim, 5 – História e intervenção cívica.
            Enquanto discípulo deste Mestre – importa registar aqui a minha declaração de interesses –, reconheço que uma das grandes lições que dele recebi e que mais me marcou foi o modo como se posiciona perante os factos a estudar, atacando-os, de frente (“Não inventem”), através da consulta das fontes originais, da descida aos arquivos históricos e da omnipresente humildade/dúvida metódica (para evitar os erros que de tão repetidos se transformaram em verdades), construindo depois um discurso, quase sempre, aparentemente expurgado de grande roupagem teórica (o que, porém, não significa que não tenha subjacente um intenso exercício de reflexão epistemológica, como o demonstram as obras que assinou ao nível da História da História).
            Nestes tempos tão estranhos, no decurso dos quais a História ou, pelo menos, algumas correntes (ditas) historiográficas nacionais se parecem aproximar de tudo (Jornalismo, Política, Sociologia, Filosofia, Economia, Psicologia…) para depois não serem nada; nestes estranhos tempos em que se premeiam, nos mais variados domínios, as linguagens herméticas, esotéricas e profundamente ocas, seria importante – segundo penso – olhar para a lição deste Mestre conimbricense, que, já jubilado da carreira académica (mas sempre ligado ao incessante labor da História), nos interroga: Que História é esta que hoje se faz? Que História é esta que hoje, em traços gerais, se consome? Que História é esta que hoje se divulga, até mesmo no “Canal História” e na televisão pública portuguesa? Que História é esta – pergunto agora eu – que ao aproximar-se da Sociologia, da Filosofia, da Economia, da Psicologia… acaba por, tantas vezes, absorver acriticamente os seus discursos, para depois se transformar num caldo barroco de inutilidades e, assim, perder a sua identidade? Que História é esta – pergunto ainda – que parece ter deixado de privilegiar o contacto com as fontes históricas primárias?
            José Mattoso, naquela que continua a ser uma das grandes referências historiográficas da minha vida – A Escrita da História –, começa, quase paradoxalmente, por reconhecer a sua dificuldade em abordar questões de natureza teórica: “A minha insegurança resulta de uma certa aversão pessoal por questões teóricas e por noções abstractas, agravadas por uma deficiente preparação filosófica”. Mattoso, como Torgal, de resto, compreendem que a teorização não pode formatar o discurso historiográfico. Ademais, um exercício de teorização deve pressupor todo um prévio e longo percurso de contacto e interpretação das fontes e, por isso, não é por acaso que José Mattoso tenha ensaiado esses primeiros passos teóricos apenas na década de 80, sublinhe-se, mais de 20 anos depois de ter concluído o seu Doutoramento em História Medieval. Acontece porém que, por vezes, mormente em Portugal, um discurso hermético ainda é percepcionado (seja ao nível da História, da Poesia, da Literatura…) como uma boa defesa: afinal, quem não é compreendido não pode ser debatido (Quem teria, afinal, coragem de afirmar que o rei vai nu?). Muitos dos falsos deuses que nós criamos são, precisamente, alimentados por esta estratégica ausência de debate…
            Nesta “civilização do espectáculo” em que vivemos (Vargas Llosa), vários historiadores adaptam-se vertiginosamente, rendem-se à mediocridade reinante e, desse modo, também contribuem para a construção daquilo que Luís Reis Torgal apelida de “sociedades sem História”. As sociedades em que deambulamos, cada vez mais, anestesiados.
            Houve um tempo em que as pessoas tinham referências – outras pessoas –, que funcionavam como faróis. Nas horas de maior incerteza, era a elas e às suas palavras que recorriam, como quem se agarra a uma oração no meio da tempestade. Ler Luís Reis Torgal – em particular, este seu último livro – é reencontrar uma referência, um guia de saber-pensar (sem receitas pré-definidas e escassas certezas), o que também significa recuperar alguma da esperança, entretanto, perdida, na voragem destas noites sem fim à vista, onde vivemos mergulhados. Recorde-se que o genial D. Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, morreu quando deixou de acreditar nos cavaleiros andantes e regressou ao mundo terreno, onde apenas desempenhava o papel de Alonso…
            Luís Reis Torgal é, reforço, uma das grandes referências historiográficas da minha vida, o que não implica, obviamente, que tenha de concordar com tudo o que escreve. Lamento, aliás, que na sua mais recente obra se tenha rendido aos novos critérios editoriais: exclusão das notas de rodapé e adopção da verdadeira monstruosidade que é o Novo Acordo Ortográfico (pelo qual, estranhamente, ninguém é levado à barra dos tribunais…). Mas isso daria azo a um intenso e longo debate, do qual não excluo a possibilidade de eu próprio ser já (portanto, a título precoce) uma espécie de “Velho do Restelo”, incapaz de aceitar as mudanças trazidas pelos novos tempos.
            História: poucas pessoas ficarão indiferentes quando alguém lhes acena com uma parte do que são, uma parcela onde poderão, afinal, reconhecer muito do que não compreendem acerca de si mesmas e do mundo que as rodeia. O grande poder da História, enquanto ciência, também é este: ajudar-nos – como concluiu José Mattoso – a conhecer o que efectivamente somos (não o que imaginamos que somos), para, se possível, evitar o que não gostaríamos de ser.
            Escreveu Günter Grass, no seu Tambor de Lata, que o século XX haveria de ficar conhecido como o século sem lágrimas (frase onde me inspirei para escolher o título deste artigo). O estudo da História também estimula a empatia, a capacidade de nos colocarmos na pele do outro. Sem esse esforço, estaremos condenados a viver séculos sem lágrimas e novos holocaustos continuarão a perpetuar-se, mesmo à frente da nossa indiferença, da nossa crónica ausência de memória histórica...

                      Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)            

domingo, 26 de abril de 2015

Rotinas

Não há nada pior que a rotina a pressão dos nossos superiores que nos limitam e bloqueiam quando não paramos e observamos que há um caminho que é preciso é sermos nós a discerni-lo e não deixarmos que sejam os outros a fazê-o. Nos últimos tempos tenho perdido um pouco a razão e deixei de desfrutar dos belos momentos que a vida nos oferece. Hoje, já não o fazia há meses, tirei fotografias enquanto trabalhava num levantamento GPS. Parei uns minutos e observei o percurso de uma bela borboleta de flor para flor.Não foi tarefa fácil conseguir foca-la pois ela mal eu me aproximava fugia. Na primeira ela esta numa flor enquanto a segunda está a fugir pois apercebeu-se da minha presença. Ambas as fotos para mim têm um singelo significado, pois por momentos saboreei um prazer da vida e o conforto da natureza.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Turista na própria terra

De mochila às costas, vou deambulando pelas ruas, com a tranquilidade que apenas as manhãs de domingo ainda me permitem respirar. Perdido, sobretudo, nas ruelas mais recônditas, quer seja em Lisboa, nas Beiras ou nos Açores, ainda não tive um dia que, depois desses périplos caseiros, não regressasse ao lar surpreendido com a quantidade de novidades reveladas.
            Neste âmbito, o “Passeio dos Poetas” disseminado pela Praia da Vitória constitui uma oportunidade privilegiada para lavar a alma com os versos mais inesperados e reencontrar algum do silêncio imprescindível para um raro momento de introspecção e reflexão. Aqui ficam, a título de aperitivo, as incisivas lições de João Lourenço Soares, “O Vital”, postadas na rua do Conselheiro Nicolau Anastácio (perpendicular à rua de Jesus): “a serpente que rasteja / põe a selva em sobressalto / somente por ter inveja / da águia que voa alto”. Ou ainda a (dramática) profecia de Rui Rodrigues, já na rua de Jesus: “os meninos / morrem dentro dos homens”. E por momentos vem-me à memória a amarga, mas tão sofrida (e cristalina) poesia filosófica de António Aleixo…
            Outrossim, ir à Praia da Vitória, com parte do seu inconfundível núcleo histórico tipicamente renascentista (adoptado, grosso modo, após o sismo de 1841), também é ver a Igreja Matriz de Santa Cruz a ostentar o seu portal de três arcos quebrados, debruados pela magnificente arquivolta exterior. Com as suas claras influências marítimas (o “nosso” estilo “Manuelino” ainda temperado pelo Gótico), vejam-se as cordas umbilicalmente entrelaçadas, os motivos naturalistas e, apenas a título ilustrativo, logo do lado esquerdo (no sentido da entrada), o quase despercebido busto do penitente, em oração latente. O pórtico em jeito afunilado como que prepara, gradualmente, a entrada do crente num mundo mais puro. Abandonar o exterior, beber o silêncio do santuário e a beleza da arte (sendo ou não religioso) é recuar ao passado e sair regenerado…
            À saída da Igreja Matriz, logo do lado esquerdo, o monumento consagrado a Francisco de Ornelas da Câmara recorda-nos o primeiro lugar onde, nos Açores, no dia 24 de Março de 1641, foi aclamado D. João IV rei de Portugal e, como tal, proclamada a restauração da independência nacional. Nestes tempos tão estranhos em que o neo-
-liberalismo vigente nos vai roubando a identidade, contemplar este monumento e ler a sua (já incompleta) inscrição é recuperar parte da memória do que somos e daqueles que nos ergueram ao patamar em que nos movemos. Do lado direito, à saída da Matriz, lá de cima a ermida de São Salvador convida-nos a contemplar o seu sino, enquanto as suas desgastadas pedras parecem ansiosas por contar-nos uma longa história…
            Descendo, passamos pela “Casa Vitorino Nemésio”, saboreamos as palavras do escritor, sempre temperadas pelo interminável murmúrio das ondas: “Eu me construo e ergo peça a peça de saudade, vagar e reflexão”. Continuando a descer, a “Casa das Tias”, o busto do autor açoriano (criador do célebre romance Mau Tempo no Canal) com mais algumas das suas colossais mensagens, que nos apressamos a gravar na alma: “Sou ilhéu. E tanto ou mais do que a ilha, o ilhéu define-se por um rodeio de mar por todos os lados”. Depois, mesmo em frente, a Igreja da Misericórdia, com os seus invulgares dois altares-mores, os seus “torreões-minaretes” e a sua inconfundível imagem imaculadamente branca e azul celestial. Descemos, voltamos a subir as ruas mais sinuosas, perdemo-nos em inscrições, que nos recordam importantes figuras institucionais do passado, como seja o caso do corregedor. Não tarda e somos forçados a parar em frente aos Paços do Concelho, a imaginar o antigo presídio municipal (no actual edifício ocupado pelos CTT) e a contemplar o monumento consagrado à decisiva vitória dos liberais, na batalha da Praia que haveria de moldar o futuro de Portugal (11 de Agosto de 1829).
            Lá ao fundo, o Paul serpenteia delicadamente. Homem das Beiras que sou, criado não muito longe do curso do Mondego, a imagem mais próxima que tenho de um rio é ao Paul da Praia que vou recuperá-la. As margens, ladeadas pelos juncos agudos e pelas malvas bastardas, escondem as esquivas galinhas d’água, com o seu bico carmesim. Bem no coração do santuário líquido, os patos deslizam graciosamente, enquanto, à distância, a garça-real lava as penas com o comprido bico. Lá ao cimo, no Miradouro do Facho, o vento deve continuar a soprar bem forte, mas a omnipresente imagem de Maria permanece indiferente a toda a agitação. Afinal, subir lá ao topo é mesmo uma necessidade: ajuda-nos, que mais não seja, a compreender as formiguinhas que somos e os verdadeiros “moinhos de vento” quixotescos em que diariamente nos enredamos…
            A Praia é tudo isto e muito, muitíssimo mais (a “Casa da Roda”, a Biblioteca Silvestre Ribeiro, o Mercado e o Jardim Municipal, o fontanário oitocentista…). Continental que sou, aprendi a admirar esta “vitoriosa” cidade em cada um dos seus detalhes. A Praia ajuda-me a interrogar os pormenores, a olhar e ouvir para além da simples aparência. Por isso, sempre que posso, procuro percorrê-la e beber as suas intermináveis lições. Fazê-lo, ajuda-me ainda a recordar que as terras nunca são pequenas; os nossos espíritos – cada vez mais consumistas – é que nem sempre estão à altura do que vislumbram. Uma máxima que, afinal, parece vir mesmo a calhar nesta época de Natal…

            E o(a) leitor(a): já imaginou ser turista na sua própria terra? Se ainda não o fez, nem calcula os milagres que está a perder…
Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com) 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma conversa

O maior prazer quando vou fazer levantamentos GPS para o cadastro predial de Oliveira do Hospital, é perceber que qualquer situação que ocorra ela  é única. Um ponto nunca é tirado no mesmo sitio, as conversas os sorrisos e os rancores das pessoas nunca são o mesmo. É com um sentido de descoberta que eu parto para mais uma tarefa do meu trabalho que gosto muito de fazer.

No dia 20 de Outubro quando o proprietário disse que estava na hora de almoço e o ser humano era como os carros quando carece tem que se voltar a atestar com combustível. De facto estava mais do que na hora pois já passava largamente das 14:00,quando deixei o senhor e dei por terminado o meu dia. Percorri o caminho entre o Campo e Lourosa quando me deparei com uma figura estranha a acenar-me. Parei o carro e instintivamente abri o vidro, quando a tal figura estranha com uma fala enrolada  e com os dentes em muito estragados, me pediu boleia para ir de Lourosa à Venda da Esperança , pouco mais de 1km de distância a subir.
Não resisti e e deixei-o entrar, tendo uma reação imediata e instintiva de guardar  tudo o que tinha no banco do pendura sobre as minha s pernas. Um medo instintivo que se assolou de mim que foi parando à medida que a conversa decorreu. Mal entrou no carro disse que tinha apanhado um esgotamento há cerca de 8 anos quando era camionista. O flagelo foi tremendo principalmente para a família que de repente perderam uma pessoa normal  ficando na opinião dele incapacitado de exercer qualquer profissão, desempenhando apenas funções de jardinagem em casa. Surpreendeu-me a maneira natural e espontânea como ele falava convicto que iria ficar bom, segundo ele com a ajuda de um primo cientista que terá a cura para os seus males. A Venda Esperança já estava perto quando decidi perguntar-lhe como é que ele apanhou um esgotamento como camionista e ele com a sua espontaneidade natural disse que não comia só fazia quilómetros. Passado poucos segundos chegávamos à Venda da Esperança e deixo-o para o seu cafezinho.

Após uns momento conclui Pensei eu que será que vale a pena sobrecarregarmo-nos com trabalho fazer noitadas  quando de um momento para o outo o nosso corpo nos dá um sinal que temos que parar que pode ser irreversível. Esta curta conversa fez –me pensar e mudar os meus planos para o dia pois tencionava ir almoçar a casa mas uma vez que já eram quase 15:00 e estava sem comer desde as 9:00 decidi ceder aos pedidos dos estômago parar no parque de merendas do Senhor das Almas e antecipar o almoço pois tinha trazido a merenda de casa.

domingo, 26 de outubro de 2014

Momentos

Há momentos em que paramos, e nos deparamos para observar simplesmente o que nos rodeia. Nos inúmeros levantamentos GPS que tenho feito, observei muitas paisagens maravilhosas,no entanto a que realizei no passado dia 20 de Outubro no Campo(Lourosa) deixou-me maravilhado. O Campo é uma localidade da freguesia de Lourosa localizada a sul da sede de freguesia nas vertente norte da bacia hidrográfica do rio Alva Esta foto retrata uma antiga zona agrícola junto a uma ribeira que vai desaguar no rio Alva. Vale a pena ver e saborear e no meu caso lembrar.




domingo, 12 de outubro de 2014

Doutor Nuno Crato: DEMITA-SE!

Segundo creio, Nuno Crato será recordado pela História como um dos piores Ministros da Educação do pós-25 de Abril. Um Ministro que, contrariamente ao que seria expectável aquando da sua entronização, mostrou não ter qualquer tipo de ideia própria em relação à sua pasta, navegando pura e simplesmente aos encontrões, que é como quem diz às apalpadelas. A mais recente trapalhada com as colocações dos professores é apenas a ponta de icebergue de um académico de gabinete e antigo crítico encartado em assuntos educativos, que denota um total desconhecimento da realidade diária das escolas nacionais.
            Garantiu Nuno Crato em pleno Parlamento (casa primordial da Democracia) que ninguém sairia prejudicado pelos erros verificados nas colocações (pelos quais, de resto, pediu mesmo desculpa). Eis as suas palavras: “onde houver e se houver alguma ultrapassagem de posições, essa situação será corrigida. Os professores colocados mantêm-se, os alunos não serão prejudicados. Depois da nova ordenação, eventuais duplicações serão avaliadas caso a caso. O objectivo é que ninguém seja prejudicado”. Porém, pouco depois, Nuno Crato ordenou a anulação das colocações obtidas no passado dia 12 de Setembro: uma ordem transmitida aos Directores das Escolas, sublinhe-se, com o objectivo de revogar um acto administrativo da autoria da Direcção-Geral da Administração Escolar! Na edição do Público de 9 de Setembro vinha a explicação do Ministro para tentar justificar o injustificável: “Eu disse mantêm-se. Não disse manter-se-ão” (p. 51)! A isto chama-se, sem eufemismos, Doutor Nuno Crato, mentir descaradamente e usar os subordinados para matar os elos mais fracos: professores contratados que leccionam há várias décadas, na mais absoluta precariedade laboral e sem qualquer tipo de esperança num futuro melhor. Frágeis elos que, afinal, reflectem a situação da grande maioria da população portuguesa na actualidade.
            Na sua crítica da pedagogia romântica e construtivista (O “Eduquês” em discurso directo), Nuno Crato sustentou que “As mudanças devem ser graduais, experimentadas e avaliadas” (2011, p. 116). A sua governação, porém, como já sustentei, assemelha-se a alguém que navega sem qualquer tipo de orientação ou preparação prévia, senão vejamos…
            Os programas escolares manifestam-se cada vez mais desadequados à faixa etária/maturidade intelectual dos alunos, mostrando-se igualmente pouco ou nada articulados entre os vários ciclos (v.g., essa de introduzir as “Homotetias” no programa de Matemática do 7.º ano não lembraria nem ao Diabo, isto para já não falar nas isometrias leccionadas no 1.º e 2.º ciclos ou na dantesca dose de gramática que inunda os manuais de Português! – e os exemplos poderiam prolongar-se quase até ao infinito…). A ideia central deste tipo de políticas ditas educativas parece querer passar por introduzir a universidade logo nas primeiras etapas escolares, procurando matar todo o tempo necessário para amadurecer ou consolidar o que quer que seja, desde logo, a capacidade crítica (depois, queixam-se que os alunos não têm bases: poderiam possuí-las, se nunca definimos o que é realmente prioritário em cada ciclo e raramente tivemos a preocupação de percepcionar as várias etapas do ensino como uma cadeia interligada?!). Será tudo isto intencional (um dos hábeis mecanismos dos novos “Estados Totalitários”) ou resultará pura e simplesmente da ignorância/improviso que nos comandam? Depois – prossigamos –, os programas (e a legislação) mudam a uma velocidade estonteante, havendo, neste momento, alunos dentro das salas de aula com dois manuais diferentes: os mais recentes já respeitam as novas “metas curriculares”. O que nós não ganharíamos se todos voltássemos pura e simplesmente a falar em conteúdos e deixássemos de lado essa dimensão romântica e esotérica que algumas correntes das Ciências da Educação e outras “psicologices” ditas modernas vieram acrescentar à utopia de um ensino estruturado nas tais competências, que alguns iluminados imaginam poder desligar-se dos conteúdos, do trabalho puro e duro, da memorização e, claro, do desgaste provocado pelo estudo. Sim, que ninguém se iluda: é preciso suar para aprender. O prazer vem depois. 
            A famosa Prova de Avaliação de Conhecimentos e Competências – uma das bandeiras deste Ministério – revelou-se um verdadeiro fiasco. Afinal, se querem avaliar os professores (e, já agora, porque não os docentes das Universidades privadas e demais Institutos Superiores, subindo, assim, a montante?), não faria mais sentido avaliá-los (já agora a todos) nas suas áreas específicas, em detrimento das várias charadas que marcaram as Provas já aplicadas? Um professor de História não deverá saber, sobretudo, de História? Um professor de Matemática não deverá saber, sobretudo, de Matemática? Ou isso são apenas pormenores? Não terá chegado o momento de investir, isso sim, na formação contínua (séria e rigorosa) dos docentes nas suas áreas específicas, premiando quem, de facto, continua a actualizar-se científica e pedagogicamente?
            No decurso da última década, continuámos a investir em infra-estuturas, em recursos materiais, e voltámos a esquecer que o mais importante são os recursos humanos (Arnold Toynbee escreveu um dia que “é muito fácil construir igrejas; o que é difícil é meter Deus lá dentro”). O dia em que, efectivamente, se quiser contribuir para a melhoria do sucesso educativo em Portugal, desde logo em Matemática, no 3.º ciclo, pense-se em desdobrar as turmas, à semelhança do que sucede nas Ciências, e, de um modo mais geral, reduzir o número de alunos por turma…
            Queiramos ou não, a Escola pública, com todos os seus defeitos, é uma das maiores conquistas do pós-25 de Abril em Portugal. Existem, porém, alguns indícios perturbadores, que parecem levar-me a pensar que o ensino cada vez mais elitista está irremediavelmente de regresso (terá este Governo em mente a efectiva destruição da Escola pública e o lançamento das bases para a sua privatização total?). Outrossim, a crescente tendência para dotar as Escolas de maior autonomia no que se refere à contratação de professores introduz uma variável extremamente perversa, que, afinal, significa o regresso em força da famosa cunha e, como tal, a destruição dos mais elementares princípios que presidem a uma sociedade dita democrática.
            No passado dia 3 de Outubro, centenas de professores que já se encontravam a leccionar nas suas escolas (onde haviam sido colocados pelo Ministério da Educação) foram atirados para a rua, literalmente humilhados, enganados, ultrajados. Se o Ministério da Educação errou (tão só porque não compreende – ou não quer compreender – que existe uma lista nacional de ordenação dos candidatos que deve ser impreterivelmente respeitada, em detrimento desses manhosos critérios existentes nas ofertas de escola – repito, se o Ministério da Educação errou, o seu responsável máximo deve ter a verticalidade de assumir a falha e demitir-se de uma vez por todas (o que é diferente de colocar o lugar à disposição) –, atitude que, naturalmente, colocaria o nosso agonizante Primeiro-Ministro numa posição algo delicada, pois seria interessante perceber quem, para além dos boys, estaria neste momento disponível para substituir o Doutor Nuno Crato nesta recta final... Quanto aos professores, segundo penso, é evidente que a Escola e os alunos precisam, cada vez mais, do seu precioso trabalho. Se este Governo tivesse o mínimo de honestidade intelectual nenhum dos docentes demitidos no início do presente mês deveria ficar por colocar. Sugestão minha: os custos financeiros deveriam ser suportados por quem errou. Afinal, também não exigem à população portuguesa que continue a suportar os erros políticos que nos conduziram à tragédia? Haja vergonha.
            Segundo penso, não existem as mínimas condições para que o Doutor Nuno Crato se mantenha no cargo que ocupa. Perdeu o respeito de quase todos. Demita-se… ou demitam-no. É um favor que se faz ao futuro do país. Ele já pertence ao passado; um profundo vazio cósmico – eis como o actual Ministro da Educação será recordado.

            Renato Nunes

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

I Guerra Mundial: a indústria da morte

Há 100 anos atrás, o mundo estava em guerra. O primeiro conflito à escala planetária (1914-1918) constitui um dos marcos mais importantes da História Contemporânea, pois o seu desenrolar originou um conjunto de profundas transformações. A partir desse momento, o mundo nunca mais seria igual: nascia uma nova era, que colocava fim à “idade dourada da segurança” (Stefan Zweig); nascia a indústria da morte, que se aperfeiçoa cirurgicamente até aos dias de hoje…
            A assinatura do armistício, a 11 de Novembro de 1918, em Rethondes (França), deixava para trás cerca de 10 milhões de cadáveres, mais de 25 milhões de mutilados, uma Europa praticamente destruída e progressivamente dominada pela inflação galopante/desemprego, impérios desfragmentados e, por exemplo, uma nova configuração geo-política internacional, com os EUA a assumirem o papel de principal potência mundial e a Rússia, já sob o domínio de Lenine (após a revolução socialista soviética de 1917), a atrair a curiosidade (e o receio…) do mundo. Alguns historiadores consideram mesmo que o início do século XX pode ser associado, numa perspectiva mais abrangente, à I Guerra e, segundo creio, o mundo dos nossos dias nasceu naquela época, sendo que pouco do que aconteceu a seguir (desde logo, a ascensão dos regimes totalitários e a II Guerra Mundial) pode ser compreendido sem a sua existência.
            Ora, conversando recentemente com algumas pessoas mais idosas da minha aldeia, fiquei surpreendido com as prolíficas memórias familiares que ainda existem sobre este conflito, à primeira vista tão longínquo no tempo: afinal, à escala humana, um século parece por vezes uma eternidade! Pena é que esta “consciência histórica” não possa estender-se aos mais jovens…
            A I Guerra Mundial intersectou, de um modo bastante vincado, a História das famílias com a História da própria Humanidade. Daí que nas gavetas de muitos portugueses anónimos continuem escondidos vários tesouros. Em certo sentido, podemos dizer que esses esqueletos escondidos são cicatrizes que nunca se fecharam; portas das quais nunca se regressa incólume…
            Ao procurar identificar o nome de um combatente da aldeia onde cresci, morto na frente europeia, em 1918, fui surpreendido com a existência de, pelo menos, mais oito expedicionários, onde se contava uma outra vítima mortal da guerra. Uma fugaz passagem pelo Centro Social e Paroquial (Lar de Idosos) mais próximo ajudou-me rapidamente a depreender que um eventual alargamento do estudo desta temática a todo o concelho (Oliveira do Hospital) faria, por certo, disparar os números e desenterrar outros tesouros.
            Por agora, entre os cofres abertos, não posso deixar de partilhar aqui alguns dos dados que tive oportunidade de compulsar numa caderneta militar de um conterrâneo meu, documento esse que apresenta um invulgar estado de conservação, pese embora o facto de ter mais de um século! As suas capas pretas impecavelmente alinhadas, sem qualquer vinco no tecido, cumprem rigorosamente uma das indicações constantes logo na página inicial: “Não é permitido dobrar a caderneta”.
            A cédula militar em causa pertenceu a Alípio Esteves Borges (“Monteiro”), soldado n.º 2909, residente em Vila Franca (à época, do Ervedal), nascido em Novembro de 1893. O recrutado assentou praça quando tinha 19 anos (30 de Julho de 1913), para servir até aos 45 anos de idade, a cargo do distrito de Coimbra, no regimento de Infantaria.
            Aquando da recruta, o jovem agricultor saberia ler, escrever e contar, parecendo poder depreender-se da sua cédula militar que teria concluído a 3.ª classe. Retenha-se que, em 1910, a taxa nacional de analfabetismo rondaria os 75%, flagelo que haveria, em traços gerais, de perpetuar-se pelo tempo fora, pese embora o esforço feito pela jovem República no sentido de combater este problema (preocupação, de resto, fulcral para compreender a inauguração da Escola Primária de Vila Franca, ainda no antigo largo do Cruzeiro, por volta de 1911, no lugar anteriormente ocupado pela Capela de Santa Margarida – cf. “Monografia” escrita por José Marques Lopes: http://vilafrancadabeiranoticias.blogspot.pt/).
            Finalizada a instrução de recruta, em 30 de Abril de 1914, Alípio Borges foi integrado no Corpo Expedicionário Português (CEP) e embarcou para França, em 23 de Fevereiro de 1917, de onde apenas regressou, a título definitivo, em 23 de Julho de 1918. Mais tarde, acabaria por beneficiar de uma parca pensão e receberia uma medalha comemorativa dos combates travados pelo exército português, com a legenda “França 1917-1918”.
            Esteve, portanto, na frente de batalha europeia cerca de um ano e cinco meses, o que, de per si, nos permite imaginar algumas das dificuldades que, por certo, terá experimentado, nomeadamente durante a desgastante fase das trincheiras (v.g., no Inverno de 1917/1918, as temperaturas desceram aos 30 graus negativos, que congelavam a água existente nos motores; segundo Isabel Pestana Marques, os expedicionários portugueses chegaram a estar mais de um ano na linha da frente, ao contrário dos ingleses que eram rendidos trimestralmente)… Memórias que, por certo, terão acompanhado Alípio Borges até à morte, em 1972, e que, talvez, tenham sido reavivadas quando, no dia 1 de Janeiro de 1961, com 67 anos, voltou a ser obrigado a “apresentar-se” em Oliveira do Hospital, por certo no contexto do início da Guerra do Ultramar.
            Importará dizer que o primeiro contingente de tropas do CEP destinado à guerra na Europa embarcou em Lisboa, no final de Janeiro de 1917 (para África, os primeiros portugueses partiram logo em 1914). Após a instrução prévia, os expedicionários eram concentrados em Tancos (Vila Nova da Barquinha, Santarém), onde recebiam um treino mais intensivo, mas, sabemos hoje, profundamente desajustado à nova realidade bélica mundial, dada a proeminência da guerra química (veja-se o caso do gás mostarda), do poder da artilharia (a metralhadora pesada inglesa Vickers de 7,7 mm poderia disparar cerca de 600 projécteis por minuto), dos tanques, dos lança-chamas, do impacto da aviação militar e dos submarinos, entre outros recursos tecnológicos dramaticamente mortíferos e causadores de doenças até então desconhecidas, nomeadamente do ponto de vista mental (neurose de guerra).
            Aplicado o propalado “milagre de Tancos”, os expedicionários rumavam de comboio para Santa Apolónia, daí marchavam para Alcântara e, de barco, seguiam para o porto de Brest (França) e, finalmente, para a linha da frente (no total, seriam 55 mil portugueses a chegar à Flandres). Esse trajecto final até ao Norte da França seria, de resto, marcado pelas constantes paragens em várias estações, como nos recorda Isabel Pestana Marques, na sua incontornável obra Das Trincheiras, com saudade, na qual a historiadora partilha as conclusões extraídas ao longo de 18 anos de investigação.
            Escreveu Jay Winter que cerca de metade dos homens que morreram na I Guerra não têm túmulo conhecido. Numa iniciativa a todos os títulos meritória, o jornal Público tem vindo a editar diariamente uma série de suplementos sobre o conflito, procurando, assim, reerguer do esquecimento os combatentes nacionais, ainda hoje, repita-se, muitas vezes sepultados no vazio do anonimato, como acontece em África (Público, I Grande Guerra, n.º 4, 31 de Julho de 2014).
            No cemitério da minha aldeia nativa, o tempo tem-se encarregado de fazer desaparecer das lápides os nomes destes meus conterrâneos “serranos” que, no início do século passado, foram mobilizados pela jovem I República para combaterem em terras estrangeiras, por uma causa (mormente, no que se refere à Europa – principal palco do conflito) que pouco ou nada lhes diria, além da iminente certeza de uma morte anunciada pelos obuses e, tantas vezes, vislumbrada nos cadáveres, com os quais coabitavam nas trincheiras, já para não falar nas pulgas, piolhos, larvas, ratos, lama… Homens que, muitas vezes, mal conheciam os limites do concelho onde haviam nascido e que percepcionavam Lisboa como o outro lado do mundo…
            A I Guerra Mundial teve um impacto decisivo do ponto de vista político (contribuindo para o agudizar da crise da I República), mas os seus efeitos fizeram-se sentir igualmente no quotidiano das populações, nesse Portugal profundo, vincadamente rural, analfabeto, periférico e ainda bastante marcado pela matriz católica, pese embora o esforço de laicização empreendido pela jovem República, vertido na polémica Lei da separação das Igrejas do Estado, promulgada, em 1911, pelo Governo Provisório saído da revolução de 5 de Outubro de 1910.
            1917 e os anos seguintes ficaram marcados por sucessivos relatos de “aparições” que eclodiram por todo o país, sendo o mais paradigmático o fenómeno das alegadas “aparições” da Virgem Maria aos três pastorinhos (Francisco, Jacinta e Marta), na Cova da Iria (Fátima). Sintomaticamente, na memória de muitos habitantes de Vila Franca da Beira ainda paira a imagem das mães que rumavam diariamente ao santuário da Santa Margarida, para pedir o regresso, breve e saudável, dos seus filhos. Parece, pois, verificar-se um revivalismo do culto religioso, nesta época de fome, guerra e peste (Geoffrey Blainey refere mesmo que, durante a guerra, por cada soldado morto por balas, granadas ou explosivos um morria de doença e, além disso, segundo aquele historiador australiano, a gripe “espanhola”, surgida na ressaca do conflito, matou ainda mais pessoas do que a I Guerra).
            Procurando não cair na tendência de fazer hagiografia, importa hoje, cada vez mais, recordar estes homens esquecidos na voragem dos tempos. De Vila Franca da Beira, eis a lista, naturalmente provisória (com as naturais imperfeições daí decorrentes), daqueles que terão participado no primeiro conflito à escala planetária (um trabalho apenas possível em grande parte graças à preciosa memória das gentes que me viram crescer): Celestino Pais, Alípio Esteves Borges, Aires Lopes Figueiredo, Eduardo Borges de Campos, Gabriel Tavares Gonçalves, Sebastião Esteves Simões, Carlos Fernandes Lopes, Sebastião e Abel, sendo que os dois últimos (cujos apelidos terão ainda de ser confirmados) estão incluídos entre os cerca de 8 mil portugueses que perderam a vida na Flandres e em África.
            Segundo creio, valeria a pena alargar a lista a todo o concelho, pelo que deixo aqui o repto ao leitor, que ainda conserva algum tipo de memória sobre este assunto, para que a inscreva no espaço consagrado aos comentários, que, felizmente, as novas tecnologias nos permitem utilizar e que poderiam trazer inequívocas vantagens para todos, caso fossem utilizadas de um modo mais eficiente e, digamos, menos maledicente... 
            Na sua obra Uma breve história do século XX, Geoffrey Blainey conclui que, Albert Einstein, inadvertidamente, “ao pregar uma versão de pacifismo numa altura inapropriada”, contribuiu, dada a sua influência, “para enfraquecer alguns dos entraves colocados à subida de Hitler ao poder”. Nestes novos tempos, em que a guerra parece ter entrado numa nova era (desde logo, com os drones e os conflitos localizados caracterizados por um poder de destruição total), importa não descurar a vigília. Afinal, uma nova guerra mundial poderá estar mesmo ao dobrar da esquina e a verdade é que ninguém poderá partir para um novo conflito com as ilusões que muitos experimentaram, aquando da declaração de guerra da Inglaterra e França à Alemanha e ao império Austro-Húngaro (Agosto de 1914), pois a indústria da morte tem as chamas mais vivas do que nunca…
            Conhecer a guerra através das pessoas de carne e osso que a viveram e que, afinal, são os nossos familiares directos ajudar-nos-á, por certo, a perceber que, por trás da banalidade com que assistimos, durante o almoço, a uma guerra do outro lado do mundo, existem dimensões da vida que nenhuma palavra poderá descrever. Afinal, o sofrimento e o drama nunca têm limites. Quando os estudamos é que compreendemos que nenhuma guerra acaba com as guerras. Quando os vivemos é que realmente sentimos…
            Termino com Marc Ferro, que, no livro A grande guerra 1914-1918, cita as dramáticas palavras escritas pelo combatente Raymond Naegelen, a propósito da vida infernal nas trincheiras. No ano em que se completam 100 anos após o início da I Guerra e parece proliferar a tendência para derrubar ainda mais as pontes entre as Nações (crescente isolamento proteccionista…), vale a pena pensar nelas:
            “Sobre toda a frente do cabeço de Souain, desde Setembro de 1915, os soldados de infantaria ceifados pelas metralhadoras jazem estendidos de barriga para baixo, alinhados como num exercício.
            A chuva cai sobre eles, inexorável, e as balas partem os seus ossos embranquecidos.
            Uma noite, Jacques, durante uma patrulha, viu sob os seus capotes descoloridos ratazanas a fugir, ratazanas enormes, engordadas a carne humana. Com o coração a bater, ele rastejava em direcção a um morto. O capacete tinha caído. O homem apresentava a cabeça contorcida, vazia de carne: o crânio à vista, as órbitas vazias, os olhos comidos. A dentadura tinha deslizado sobre a camisa podre e da boca escancarada saltou um bicho imundo”…

Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Abril, 40 anos depois

            Regresso à minha aldeia nativa e pressinto-a cada vez mais despovoada, já com muitas das casas de granito convertidas em fantasmas. Deambulo pelas ruas, recordo as histórias inscritas nas pedras e deixo-me levar pelas memórias da meninice, com os gaiatos do Cimo do Povo a jogarem à bola na calçada. Actualmente, são poucas as crianças desta terra, pese embora o meritório trabalho desenvolvido, mormente na última década, ao nível da melhoria das infra-estruturas locais.
            Francisca e André (nomes fictícios) são hoje um dos poucos meninos desta terra das Beiras, que levo na alma em cada travessia do Atlântico. Ela com 6 anos, ele com 4, oriundos de um meio económico e cultural claramente desfavorecido, ajudam-me a viajar no tempo; a recuar mais de três décadas. No ano em que nasci (1980), 17% dos portugueses adultos não sabiam ler, mas a mobilidade social ascendente começava a revelar-se possível. De facto, a revolução de Abril abriu um conjunto de portas e oportunidades  ̶  inimagináveis durante o Estado Novo  ̶  e todas as vitórias pareciam possíveis. Foi por isso, apenas por isso (por uma questão de mais oportunidades), que dos 7 filhos que os meus pais geraram apenas eu tive o privilégio de continuar a estudar.
            Hoje, olhando estes dois irmãos, quais torgas que resistem na aridez das fragas, revejo o meu próprio percurso e dou por mim a pensar no seu futuro. Francisca e André não sabem  ̶  como poderiam saber?  ̶ , mas o seu país prepara-se para receber os 40 anos da revolução de Abril, numa altura em que as notícias mais recentes dizem que o salário mínimo nacional vale hoje menos do que em Maio de 1974  ̶  argumento que muitos saudosistas poderão querer utilizar para desvalorizar o movimento militar, depois de cariz popular, que derrubou o Estado Novo.
            Se é certo que as datas históricas não servem para ser colocadas num pedestal e glorificadas como santos, também é certo que o povo que perdeu a capacidade de recordar os marcos fundadores da sua identidade é um povo sem memória e, consequentemente, condenado a naufragar.
            O 25 de Abril é um dos nossos marcos fundadores, enquanto país. Como escreveu Miguel Torga no seu Diário, no próprio dia da revolução, tratou-se de “um passo”, um início para, desde logo, acrescento eu, acabar com a guerra colonial, que há já 13 anos estropiava o país. A tragédia que veio a seguir não deve servir, não pode servir, para escamotear a importância da “revolução dos cravos” e dos seus actores, nomeadamente aqueles que pediram para depois serem sepultados numa campa rasa, como foi o caso do capitão Salgueiro Maia.
            Recordar a situação de Portugal durante o Estado Novo também não significa ilibar os actuais actores políticos das suas tremendas responsabilidades na situação calamitosa a que chegámos. Os 40 anos da revolução deveriam servir, isso sim, para procurar corrigir…
            Ora, em data de aniversário, é curioso como, de uma penachada, a segunda figura da Nação, Assunção Esteves (reformada na ternura dos 40 anos, a receber mais de 7000 euros mensais e com direito a “ajudas de custo”  ̶  com o apoio incondicional dos deputados da coligação que governa o país, tudo dentro da mais absoluta legalidade…), descartou os militares da “Casa da Democracia”, até com alguma arrogância pelo meio, impedindo-os de tomar a palavra. O que equivale a dizer: comemore-se Abril, mas longe dos seus pais. Afinal, o que eles teriam para dizer provoca assim tanto medo, 40 anos depois de termos extinto, pelo menos formalmente, a censura? Entrementes, enquanto se anulam as vozes incómodas, alguns pretendem estrategicamente apropriar-se da memória daqueles que nunca se venderam  ̶  não é esse, afinal, o objectivo dos iluminados que pretendem levar Salgueiro Maia para o Panteão Nacional, contra a vontade expressa pelo próprio militar, no seu testamento de 1989? Calam-se os vivos e usam-se os mortos. Haja vergonha.
            Num momento em que os políticos necessitam, como pão para a boca, de actos de credibilidade, Durão Barroso veio a público, diz-se que algo emocionado, afirmar que antes do 25 de Abril, “apesar de algumas liberdades cortadas, havia na escola uma cultura de mérito, exigência, rigor, disciplina e trabalho”. E depois conclui a respeito dele mesmo, em jeito de empáfia: “Sabia, era arguto na argumentação e já tinha algum espírito irreverente” (Diário de Notícias, 13/4/2014, p. 22). O próximo candidato a Presidente da República (segundo os rumores mais recentes) ou o Primeiro-
-Ministro que, em 2004, abandonou o país para assumir o cargo de Presidente da Comissão Europeia não deveria enxergar minimamente a situação da maioria da população portuguesa quando estudava e tenho dúvidas em relação ao seu conhecimento sobre a actual situação do país profundo. Caso houvesse em Portugal um conjunto de cidadãos dotados de um mínimo sentido de memória histórica, nem mesmo os elogios do salamurdo Cavaco Silva lhe poderiam valer de muito…
                Num momento em que os políticos necessitam, como pão para a boca, de actos de credibilidade, o Engenheiro (perdão, Mestre…) Sócrates lá continua no canal público a tentar reconstruir a imagem que deixou no decurso dos anos desastrosos em que governou, pese embora as enternecedoras e elogiosas palavras que muitos ainda lhe votam, caso de Santana Lopes. Depois, o Dr. Miguel Relvas, notável malabarista, fosforesce nos seus novos cargos público-privados, tendo ainda recentemente sido nomeado por Passos Coelho para encabeçar a lista ao Conselho Nacional do PSD; as prescrições dos casos que envolvem milhões avolumam-se a um ritmo alucinante, enquanto se anuncia um provável debate em torno da (reduzida) subida do salário mínimo nacional e, claro, se comemora sofregamente a vitória do Benfica no campeonato e se aguarda o pontapé de saída do Mundial, no Brasil  ̶  país onde já vários cidadãos parecem ter percebido que o “pão e o circo” da Roma Antiga emergem hoje travestidos de outras fórmulas (como a estratégica “Factura da Sorte”, com o sorteio de carros alemães de alta cilindrada, à margem da fiscalização do Serviço de Inspecção de Jogos…), mas o objectivo essencial mantém-se.
            Num momento em que os políticos necessitam, como pão para a boca, de actos de credibilidade, mantêm-se as perigosas (e seculares) ligações promíscuas entre os grandes interesses/grupos económicos e o Estado, como o documentário realizado por Jorge Costa nos permite surpreender e que, por certo, por uma simples questão de coincidência, a RTP2 exibiu já pela madrugada dentro (“Donos de Portugal”: http://vimeo.com/40658606  ). A Nomenklatura continua a imperar… 
            Francisca e André: como eu gostaria de anunciar-vos um futuro diferente daquele que, neste momento, vos posso prever. No próximo ano, por certo, encerrar-
-vos-ão a escola da família e irão atirar-vos para as novas indústrias mega-agrupadas. Não sei o que acontecerá depois. Enquanto estudante, eu tive a hipótese de ver o esforço premiado pelos mecanismos do Estado Social, que, verdadeiramente, começou a ser edificado no pós-25 de Abril em Portugal. Quanto a vós, infelizmente, não estou certo que tal ocorra. 40 anos depois de Abril, a Escola pública, progressivamente inclusiva, corre o risco de implodir e com essa destruição seguirá, inevitavelmente, para o charco uma poderosa via de mobilidade social ascendente, o que equivale a dizer a anulação de uma ferramenta imprescindível para a edificação de uma sociedade efectivamente livre e democrática. Como é lógico, a Nomenklatura agradece, pois isso significará a perpetuação da velha máxima elitista: Diz-me onde nasceste, dir-te-ei onde chegarás...
            Há 40 anos, Abril foi uma porta que se abriu. O Homem que um dia deixa de evocar conscientemente o aniversário acabará depois por esquecer o seu próprio nome. A seguir, não restará mais nada, além do vazio das pedras abandonadas, fantasmas. 

              Renato Nunes (renato80rd8918@gmail.com)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Um Percurso!!!

Reli os textos escritos durante todo o percurso deste projecto, que começou em 2007. Parei para pensar, abstrair-me e desfrutar de um prazer terapêutico. a escrita.
O afastamento da escrita é reflexo de momentos, onde o trabalho e a necessidade de encontrar  saídas asfixiaram os pensamentos e me impediram de explanar as palavras, de me sentir FELIZ
Perguntaram-me porque é que não escrevia, que ficavam tristes quando se apercebiam  que quando abriam o blogue não viam novos textos e novas ideias.
Fez-me pensar na minha utilidade e importância neste Mundo. Por vezes esqueço-me dela e descuro-a. Um abraço aqueles que me fizeram lembrar-me dela e perceber a sua importância .