Este pequeno vídeo mostra que quando nós queremos ajudar, podemos fazê-lo. A Maria é sem dúvida um grande exemplo de amor perante um colega da turma. É fantástico o que ela fez para integrar aquele menino, em cadeira de rodas, que não conseguia falar ou sequer mexer os braços e as pernas. A Maria fez com que aquele menino se tornasse acarinhado e aceite como amigo. A Maria através de pequenos gestos como ler-lhe uma história ou fazer teatros onde o menino de cadeira de rodas era personagem principal fez com que a deficiência deixasse de existir e passasse a ser mais uma criança a brincar no recreio. As ações realizadas pela Maria para brincar com o menino de cadeira de rodas, foram tão enternecedoras que em vários momentos o menino que não tinha expressão facial, conseguiu tê-la, esboçando um sorriso como reconhecimento pelo amor que ela estava demonstrar por ele. O amor transparecido por Maria, em cada brincadeira tinha um objetivo claro, conseguir que o menino da cadeira de rodas fizesse progressos e pudesse um dia falar, andar e poder interagir com ela. No final do vídeo quando Maria soube do falecimento do menino da cadeira de rodas ficou desfeita. Aquele pedaço de corda que ficou em cima da cadeira de rodas, que a Maria, vinte anos depois já professora fez questão de usar como pulseira simboliza o amor pela diferença e pelo outro
domingo, 22 de fevereiro de 2026
sábado, 14 de fevereiro de 2026
Um beijinho à minha avó Prazeres que hoje nos deixou
Hoje a minha avó partiu,
Um dia triste, um fim que aguardávamos, dado o agravamento do seu estado de saúde. Lembro-me quando ela estava internada no hospital da fundação, numa das muitas visitas que lhe fiz ela insistiu para que eu ficasse mais um pouco enquanto, ela olhava insistentemente para mim enquanto conversámos. A minha avó sabia sempre quando eu não estava bem. Tinha um sentido maternal que me enternecia. A vida é incerta, a da minha avó foi longa, vivida durante 91 anos. Foi autónoma até aos 80 e tal, não me recordo ao certo do dia da maldita queda que a pôs dependente do andarilho ou de uma bengala. Nunca mais os abandonou depois daquele dia fatídico em que caiu na cozinha e apenas se levantou com a ajuda dos bombeiros após o padeiro ter dado conta do sucedido.
A minha avó era uma mulher de fibra começou a trabalhar muito cedo, ainda com idade para brincar. A infância foi preenchida a servir numa casa onde tinha de tomar conta dos filhos do patrão, crianças da idade dela ou pouco mais novos.
A avó prazeres não sabia ler, segundo ela a culpada pelo seu analfabetismo foi a sua irmã mais velha. A minha tia Graça queimou os livros e os pais da minha avó, o Alfredo e Deolinda não deixaram ir a minha avó à escola. Ela sempre teve essa vontade. Chegou a dizer-me que o seu maior erro foi não ter aprendido a ler com a minha mãe, e sua filha quando esta deu aulas pela primeira vez, em meados da década de 70 do século passado.
Recordo-me daqueles almoços quando andava na escola. Ia sempre almoçar a casa da minha avó. Ela gostava de fazer comer para tanta gente. Lembro-me do meu ano de estágio onde também não faltava ao almoço em casa da minha avó. Um estágio que fiz com o meu eterno amigo Fenias que também ia a casa da minha avó. A ternura que ela tinha por todos naqueles momentos em volta da mesa, também o teve com o Fenias que dizia com carinho é um"preto" bonito e simpático. Nos últimos anos em que permaneceu na sua casa continuava a dar almoço ao filho Vasco e ao neto Diogo.
Após a fatídica queda nunca mais se reergueu, teve em casa da minha mãe. Nestes últimos anos de vida onde a sua saúde já impedia que nós pudéssemos dar-lhe a auxílio que ela necessitava foi para o lar de Aldeia das Dez. Neste momento sinto pena de não ir lá mais vezes, de não ter conseguido estimula-la mais. Recordo-me das conversas onde lhe lia o borda de água, falávamos de agricultura e do seu passado que ela insistia em manter sempre presente na sua memória. Quando olho para trás revejo os jogos que fiz com ela aproveitando os brinquedos do Duarte.
Até sempre avó.
Beijinho grande do teu neto Tiago
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
A FANTÁSTICA AVENTURA DE UM AMIGO
"AINDA HÁ QUEM GOSTE DE LIVROS"
O Amigo que me inspirou a escrever esta crónica nasceu no seio de uma família de modestos recursos no interior de Portugal. O seu interesse pela leitura e pelo conhecimento fê-lo sonhar, desde muito jovem, com estudos universitários, ao arrepio da vontade do seu pai, carpinteiro de profissão, que queria vê-lo seguir a mesma arte. Venceu o seu desejo e perseguiu o amor que tinha pela História. Desde sempre, para além da sua profissão de professor, é leitor compulsivo e dedica-se à escrita, em prosa e sobretudo poesia.
Recentemente,
quando regressava a casa, cheio de dores devido aos trabalhos agrícolas que vai
exercendo na sua horta nos tempos livres, viu uma mulher a despejar livros no
contentor do lixo da sua rua. Atónito, esperou que a anónima se afastasse e
logo se aproximou do cemitério dos livros condenados. Espantado, constatou que
se tratava de várias obras dos nossos melhores escritores, não hesitando em salvá-las
do contentor dos indiferenciados. Não tardou que a mulher voltasse de novo com
mais um saco de livros para lhe dar o mesmo destino. Ele interpelou-a com um
diálogo que transcrevo tal e qual ele mo contou e que consta de uma crónica de um
jornal digital para onde habitualmente escreve:
“─ Minha
senhora, estes livros eram seus?
─ A minha mãe
foi por estes dias a enterrar e não quero isto lá em casa.
─ A sua mãe era
professora, não era?
─ Você parece
que é bruxo! Mas, diga lá a verdade, você gosta mesmo disto?
─ Sim, gosto.
Nem pode calcular a minha alegria. Esta foi talvez a minha melhor prenda deste
Natal. Mas já reparou que também tem aqui papéis que fazem parte da sua
história, da sua família?
─ Olhe…, se
fossem umas notas das gordas, isso é que era!”
Depois desta
primeira aproximação à mulher-verduga dos livros, inteirou-se de que ela ainda
tinha mais livros para deitar ao lixo, ao que ele propôs, para a livrar de
posteriores trabalhos, ir ele próprio buscá-los a casa dela. Não tardou a ir
lá, visto ela habitar nas cercanias da sua casa. E de lá não trouxe apenas
livros, mas também, por exemplo, diversos manuscritos. Aproveitou para saber
que a mulher que conhecera, tal como a sua falecida mãe, também desempenhava
funções na área da cultura, o que lhe aumentou os arrepios na alma. E também
ficou a saber que o pai daquela senhora, já falecido há muito, também tinha
sido poeta, o que lhe aguçou ainda mais a curiosidade. No regresso a casa, ele,
por um lado, ia feliz, pois salvara muitos livros da destruição, mas, por
outro, ia triste porque encontrara uma filha que não quisera preservar a
memória dos seus pais...
Alguns dias
passaram, até que este meu Amigo me enviasse uma fotografia estranha.
Tratava-se de uma foto de uma campa do cemitério local, acompanhada da seguinte
pergunta:
“- O
que vê nesta foto?”
Respondi-lhe
que via um monumento funerário com uma grande cruz de pedra, um livro aberto em
mármore sobre a campa e um gato preto, aninhado sobre a estela funerária, de
onde a cruz se ergue e onde está também uma fotografia do falecido, em ferro
esmaltado. De facto, a campa funerária, não sendo, como muitos, um monumento
imponente, como alguns jazigos que parecem catedrais, era modesta, mas
possuidora de muita dignidade. Acrescentei que suspeitava ser nessa campa que
repousava o nosso desconhecido poeta, antigo dono de grande parte dos livros
recuperados (a outra parte pertencera à esposa dele). Acertara em cheio!
Um par de dias
passaram, até que, numa conversa telefónica, o meu Amigo me confessou que
estava deliciado a ler o livro de poemas do nosso poeta, cujo nome prefiro
conservar no anonimato. E desabafou que estava especialmente sensibilizado com
um soneto escrito pelo autor em memória do seu gato, no dia em que o bichano
falecera. Chamava-se Miki e era preto.
Fiquei momentaneamente sem
palavras. Depois de terminar a conversa com o meu Amigo, fiquei a pensar na
extraordinária coincidência do soneto sobre o gato preto, Miky e do
aparecimento do gato preto na foto do cemitério, que me havia sido enviada dias
antes. Creiam, caros leitores, que eu nunca fui crente na imortalidade, apesar
de que muitos tolos sempre a perseguiram. E no que respeita à crença na
eternidade, como muitos de nós, também sempre tive muitas dúvidas. Porém, o
avanço da idade transforma a nossa espiritualidade e molda, progressivamente, o
nosso pensamento e o desejo de que haja vida para além da morte. E
acontecimentos como este que vos relato são um contributo para nos aproximarmos
dessa crença. Neste sentido, coloco a seguinte questão: os passos dados pelo
meu Amigo, a salvação dos livros, o conhecimento do nome dos seus falecidos
proprietários, a curiosidade de conhecer o que eles foram, ao ponto de ir mesmo
visitar o lugar onde repousam os seus restos mortais, faziam apenas parte do
processo científico de investigação por parte de um historiador? E foi o
aparecimento de um gato preto que aparece na fotografia tirada pelo meu Amigo,
dias antes de ele encontrar no livro de poesias deixado pelo poeta, que
continha o soneto em homenagem ao seu gato preto, uma notável coincidência?
Cabe a todos interpretar estes episódios e guardar para si as suas
interpretações.
Eu, que vivi de perto estes
acontecimentos que até me fizeram sonhar, quero acreditar que estas
circunstâncias não foram obra do acaso ou de uma coincidência inexplicável. Eis
a minha hipótese: o poeta e a sua mulher, ao saberem que o seu espólio
literário, ameaçado de destruição, ia ser salvo por um jovem, trataram de segui-lo
e influenciar os seus passos. A visita que o meu Amigo fez ao cemitério para homenagear
o poeta foi por este instigada, que fez questão de o receber dignamente para
“pessoalmente” lhe agradecer. E até fez questão de chamar o seu gato preto,
colocando-o em lugar bem visível sobre a estela da sua campa funerária. Só mais
tarde, ao ler o soneto do poeta falecido, o meu Amigo se lembrou do tal gatinho
preto!
Caros leitores, misteriosamente
fechou-se este episódio, mas não definitivamente. Creio que à medida que o meu
Amigo vá avançando na leitura dos livros que salvou da imundície, todos os seus
autores, como forma de gratidão, o irão empurrar para outras aventuras, algumas
carregadas de misticismo e outras nem tanto, mas todas enriquecedoras!
Agora, digam lá, a vida é
(ou não) um profundo mistério?!
Vila Verde, 19-01-2026